Moisés estendeu o seu cajado para o céu, e o SENHOR mandou trovões e granizo, e fogo correu até o chão. E o SENHOR fez chover granizo sobre a terra do Egito.
1. Introdução
Moisés estende o cajado para o céu, e começa a tempestade: trovões, granizo e fogo que desce até o chão.
A frase separa com cuidado quem faz o gesto e quem manda a tempestade.
Os trovões, no hebraico, são "vozes", e a descrição — voz no céu, fogo que desce à terra — segue a fórmula com que os poemas de Ugarite contavam o deus da tempestade.
O versículo termina com o verbo anunciado no versículo 18: o SENHOR "fez chover" granizo.
2. Contexto Histórico e Cultural
A fórmula do raio em Ugarite
Os poemas achados em Ugarite, cidade da costa síria destruída por volta de 1180 a.C., têm uma frase que parece o esqueleto deste versículo. No ciclo de Baal, o deus da tempestade de Canaã, anuncia-se o que ele fará quando tiver o seu palácio: marcará o tempo da sua chuva, "dará a sua voz nas nuvens" e "lançará para a terra os relâmpagos".
Ponha a frase ao lado do versículo:
Em Ugarite: dar a voz nas nuvens / relâmpagos para a terra.
No Êxodo: o SENHOR deu vozes / e fogo andou para a terra.
São os mesmos dois tempos, na mesma ordem. Primeiro o som, descrito como voz que alguém "dá". Depois o raio, descrito pelo seu movimento para baixo, com a mesma indicação de direção — em ugarítico, "para a terra"; em hebraico, a palavra "terra" com a terminação que quer dizer "para". A língua de Ugarite é parente próxima do hebraico, e as duas descreviam a tempestade com as mesmas peças.
O que isso mostra é o vocabulário que o versículo tinha à mão: o modo corrente, na região, de contar um deus trovejando. Que o trovão fosse ouvido como a voz de um deus, e que o próprio faraó fosse louvado com essa imagem, está no estudo de Êxodo 9:28. Se o Êxodo usa a fórmula com intenção de responder a Baal, é discutido; o versículo não nomeia nenhum deus rival, e o que se pode afirmar é o parentesco da linguagem.
3. Análise Teológica do Versículo
"Moisés estendeu o seu cajado para o céu"
Deus tinha dito "estenda a mão" (versículo 22); Moisés estende o cajado. Não há desobediência: o cajado estava na mão. Nas pragas anteriores, os dois modos de dizer aparecem juntos para o mesmo gesto.
O cajado é o que Deus deu a Moisés para fazer os sinais (Êxodo 4:17), e que o texto chamou de "cajado de Deus" (Êxodo 4:20). Até aqui, nas pragas, o cajado em ação era o de Arão. Agora é o de Moisés, apontado para o céu.
"e o SENHOR mandou trovões e granizo"
A frase muda de sujeito e, no hebraico, muda de construção. O relato vinha encadeando ações com a forma verbal da narrativa; aqui ele interrompe a sequência e põe o nome de Deus na frente: "e o SENHOR — ele deu vozes". A ordem das palavras separa as duas ações. Moisés aponta; quem manda a tempestade é outro.
O verbo é "deu". O SENHOR "deu vozes": o trovão, em hebraico, é chamado de "voz", e aqui vem no plural, "vozes". O português "trovões" traduz o fenômeno; o hebraico descreve o som como fala. O céu, nessa imagem, não faz barulho; fala. E a voz que fala é a de Deus — o que o versículo 28 dirá com todas as letras, na boca de Faraó.
A fórmula "dar a voz" para o trovão é a mesma dos poemas de Ugarite (item 2). O versículo usa essa linguagem sem hesitar.
"e fogo correu até o chão"
Ao pé da letra, o hebraico diz: "e fogo andou em direção à terra". O verbo é o comum de andar, ir; a forma indica movimento para baixo, até o chão.
É o raio. O hebraico tem palavra própria para relâmpago — a de Êxodo 19:16, no Sinai —, mas aqui não a usa: descreve o raio como fogo que caminha. Abraão ibn Ezra, comentarista judeu do século XII, notou o paradoxo: o fogo, por natureza, sobe; aqui ele desce.
Este versículo registra o fogo que vai ao chão. O fogo que brilha dentro do granizo é o assunto do versículo 24.
"E o SENHOR fez chover granizo sobre a terra do Egito"
O versículo repete o granizo, e a repetição tem função. A primeira menção ("trovões e granizo") descreve a cena; a segunda retoma o verbo do anúncio. No versículo 18, Deus dissera: "farei chover granizo" (a ABC traduziu ali "farei cair"). Aqui, com o mesmo verbo: "fez chover granizo". A execução usa a palavra do anúncio.
É o verbo com que o SENHOR "fez chover" enxofre e fogo sobre Sodoma, cuja força foi examinada no estudo de Gênesis 19:24. O Êxodo o usa aqui para pedra de gelo sobre o Egito.
E repare que, numa só frase, o SENHOR é sujeito duas vezes: "deu vozes" e "fez chover". Moisés aparece uma vez, no começo, e sai.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
Faz o gesto, com o cajado, e não aparece mais no versículo.
O SENHOR
Sujeito de tudo o que acontece: dá os trovões, faz chover o granizo.
O cajado
O de Moisés, dado em Êxodo 4:17 para os sinais. É a primeira vez, nas pragas, que o texto fala claramente do cajado dele em ação; nas três primeiras, era o de Arão.
O Egito
O alvo. O versículo não fala ainda de Gósen.
O evento
O início da sétima praga: a tempestade de trovões, granizo e raios. O versículo 24 a descreve; o 25 faz o balanço.
5. Pontos de Ensino
O gesto e a ação não são do mesmo agente
O texto separa, até na ordem das palavras, o que Moisés faz e o que Deus faz.
O trovão como voz
O hebraico chama o trovão de "voz". A tempestade, no Êxodo, não é ruído da natureza; é fala.
O anúncio se cumpre com as próprias palavras
"Farei chover" no versículo 18; "fez chover" aqui. O texto marca o cumprimento pela repetição do verbo.
A linguagem do vizinho aplicada ao SENHOR
A fórmula do trovão e do raio era a mesma que se usava para Baal. O versículo a aplica ao Deus de Israel, sem nomear rival.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo chama o trovão de "voz". A escolha não é só poética: ela trata um fenômeno da natureza como ato de alguém que fala. Entre ver na tempestade um processo sem autor e ver nela uma fala há uma distância grande, e o texto se põe claramente do segundo lado. A questão de se a natureza "diz" alguma coisa, ou se apenas acontece, é antiga, e o versículo não a discute; ele a pressupõe resolvida.
7. Aplicações Práticas
Não confundir o gesto com o poder
Moisés estende o cajado, e o texto logo muda de sujeito. Quem ocupa posição de destaque numa obra — um pregador, um líder, alguém que fala em nome de outros — faz bem em lembrar a ordem da frase: o gesto é dele; o que acontece não é.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Choveu, além do granizo?
O versículo não fala de chuva, só de granizo. A chuva só aparece no fim do episódio, no versículo 33, quando o texto diz que ela parou, e de novo no 34. Ou seja: o leitor só fica sabendo que houve chuva quando ela cessa. O texto não explica a ordem.
Onde estava Faraó durante a tempestade?
O texto não diz. Não registra reação do rei nem da corte enquanto o granizo cai. A próxima menção a ele é no versículo 27, quando manda chamar Moisés e Arão.
O cajado tinha algum poder?
O versículo não atribui poder nenhum ao objeto. Moisés o estende; quem dá os trovões e faz chover é o SENHOR. O cajado funciona como sinal visível do gesto, e nada no texto sugere que agisse por si.
9. Conexão com Outros Textos
O trovão como voz de Deus
Jó 37:4 — "Depois dele ruge uma voz; ele troveja com a sua voz majestosa, e não retém os relâmpagos quando a sua voz é ouvida."
Voz e relâmpago juntos, na mesma ordem do versículo.
1 Samuel 7:10 — "…mas o SENHOR trovejou naquele dia com grande voz sobre os filisteus e os pôs em confusão, e foram derrotados diante de Israel."
1 Samuel 12:18 — "Então Samuel clamou ao SENHOR, e o SENHOR deu trovões e chuva naquele dia; e todo o povo temeu muito ao SENHOR e a Samuel."
A mesma expressão deste versículo, "deu trovões" (ao pé da letra, "vozes"), agora como sinal pedido por um profeta.
Trovões, granizo e fogo juntos
Salmo 18:13 — "O SENHOR trovejou nos céus, o Altíssimo fez ouvir a sua voz: granizo e brasas de fogo."
Salmo 105:32 — "Deu-lhes granizo em vez de chuva, e fogo chamejante na sua terra."
O salmo que recorda as pragas junta o granizo e o fogo, como este versículo.
Os trovões no Sinai
Êxodo 19:16 — "Ao amanhecer do terceiro dia, houve trovões e relâmpagos, e uma nuvem espessa sobre o monte…"
A mesma palavra, "vozes", na manifestação de Deus no monte.
O cajado de Moisés
Êxodo 4:17 — "E leve na mão este cajado, com o qual você fará os sinais.”"
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Moisés estendeu o seu cajado para o céu, e o SENHOR mandou trovões e granizo, e fogo correu até o chão. E o SENHOR fez chover granizo sobre a terra do Egito.
Texto hebraico
וַיֵּט מֹשֶׁה אֶת־מַטֵּהוּ עַל־הַשָּׁמַיִם וַיהוָה נָתַן קֹלֹת וּבָרָד וַתִּהֲלַךְ אֵשׁ אָרְצָה וַיַּמְטֵר יְהוָה בָּרָד עַל־אֶרֶץ מִצְרָיִם׃
Transliteração
wa-yet Moshe et-mattehu al-ha-shamayim, wa-YHWH natan qolot u-varad, wa-tihalakh esh artsah; wa-yamter YHWH barad al-erets Mitsrayim.
Análise palavra por palavra
וַיֵּט מֹשֶׁה אֶת־מַטֵּהוּ — wa-yet Moshe et-mattehu, "e Moisés estendeu o seu cajado".
Wa-yet é a forma narrativa, abreviada, de natah, estender — o mesmo verbo da ordem no versículo 22. Matteh, cajado, bastão, vem da mesma raiz: é "a coisa estendida". A frase diz, ao pé da letra, que Moisés "estendeu o seu estendido". O jogo existe no hebraico e se perde em qualquer tradução.
Matteh também significa "tribo" em outros textos — o bastão como símbolo do chefe de clã. Aqui é o cajado de Êxodo 4:17 e 4:20.
עַל־הַשָּׁמַיִם — al-ha-shamayim, "para o céu".
As mesmas palavras da ordem, repetidas na execução.
וַיהוָה נָתַן קֹלֹת וּבָרָד — wa-YHWH natan qolot u-varad, "e o SENHOR deu vozes e granizo".
Aqui a sintaxe muda. Em vez da forma narrativa que põe o verbo no começo, o texto põe o sujeito primeiro e o verbo depois, no perfeito: "e o SENHOR, deu". Essa inversão interrompe a sequência de ações e destaca o sujeito. É o modo hebraico de dizer "quanto ao SENHOR, foi ele quem…".
Natan, "deu". "Dar a voz" é a expressão hebraica para emitir som, falar alto, trovejar (Salmo 18:13; 46:6; 68:33).
Qolot é o plural de qol, voz, som. No plural, sem outro qualificativo, significa trovões: assim neste capítulo (versículos 28, 29, 33 e 34), em Êxodo 19:16 e em 1 Samuel 12:17-18. No versículo 28, Faraó dirá qolot Elohim, "vozes de Deus".
U-varad, "e granizo", com a conjunção que vira u- antes de certas consoantes.
וַתִּהֲלַךְ אֵשׁ אָרְצָה — wa-tihalakh esh artsah, "e o fogo andou para a terra".
Wa-tihalakh é uma forma rara do verbo halakh, andar, ir. O normal seria wa-telekh; aqui a primeira consoante da raiz se mantém. Ibn Ezra a classifica como a forma simples do verbo, apenas escrita de modo pouco usual. O feminino concorda com esh, fogo, que é feminino.
Esh, fogo, sem artigo: "um fogo".
Artsah é erets, terra, com a terminação que indica direção: "para a terra", "até o chão". Por isso a ABC traduz "correu até o chão": a ideia é descer até o solo, não se espalhar por ele. A mesma direção aparece nos poemas de Ugarite, onde o raio de Baal vai "para a terra".
וַיַּמְטֵר יְהוָה בָּרָד — wa-yamter YHWH barad, "e o SENHOR fez chover granizo".
A forma causativa de matar, chover, na forma narrativa. É o cumprimento, com o mesmo verbo, do mamtir, "farei chover", do versículo 18.
Há ainda uma semelhança de som entre mattehu (o cajado) e wa-yamter (fez chover), que abrem e fecham o versículo. As raízes são diferentes, e não se deve tirar disso mais do que um eco.
עַל־אֶרֶץ מִצְרָיִם — al-erets Mitsrayim, "sobre a terra do Egito".
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
O texto distingue quem aponta de quem age. Moisés estende o cajado; o SENHOR, posto em destaque pela própria ordem das palavras, dá os trovões e faz chover o granizo. Nenhum poder é atribuído ao cajado ou ao homem.
A tempestade é descrita como fala. Os trovões são "vozes", e o granizo cumpre, com o mesmo verbo, o que foi anunciado no versículo 18. A palavra dita ao rei volta como voz do céu.
O versículo conta a tempestade com as palavras da região. Voz nas nuvens e raio para a terra: é a fórmula que Ugarite usava para Baal, aplicada aqui ao SENHOR, no Egito. O parentesco é da linguagem, não uma intenção que o texto declare.













