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Gênesis 19:24

✍️ Por Alberto Adriano·20 de agosto de 2026·⏱️ 68 min de leitura·👁 4 acessos
Então o SENHOR fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo; da parte do SENHOR, desde os céus.
Planície árida ao amanhecer sob um céu carregado, com fumaça densa e clarões alaranjados subindo das construções de barro de uma cidade distante.

Estudo


Então o SENHOR fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo; da parte do SENHOR, desde os céus.

1. Introdução

Leia a frase devagar e conte quantas vezes o nome de Deus aparece nela.

Duas. O SENHOR faz chover — e faz chover da parte do SENHOR.

Nenhuma tradução esconde isso, porque não há como esconder: está no hebraico de todos os manuscritos que sobreviveram, está na tradução grega antiga, está na latina. Quem lê em português vê exatamente o que um leitor via no segundo século.

E é justamente aí que começa uma das discussões mais longas e mais carregadas de toda a Bíblia hebraica. Duas vezes o mesmo nome, na mesma oração, com uma preposição no meio dizendo "da parte de".

Rabinos explicaram de um jeito. Apologistas cristãos do segundo século explicaram de outro, e fizeram desta frase uma das provas prediletas de que havia mais de uma pessoa no nome divino. Gramáticos medievais responderam que não havia prova nenhuma, apenas um traço de estilo. A discussão nunca fechou.

Este comentário não vai fechá-la. Vai fazer outra coisa: expor as leituras com o que cada uma tem de forte e de frágil, mostrar de onde vieram e a serviço de que estavam, e dizer com todas as letras onde termina o que se pode afirmar.

E há a segunda metade do versículo, que costuma ser lida como decoração e não é. Duas palavras — enxofre e fogo — entram aqui pela primeira vez juntas na Bíblia e saem daqui para atravessar o cânon inteiro, até a última página do Apocalipse. É uma fórmula nascendo, e vale ver como nasce.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que existe de fato naquele chão

Convém começar pelo material, porque a região do mar Morto não é um cenário genérico de catástrofe: é um lugar com uma química peculiar, e o relato usa exatamente as substâncias que existem ali.

Enxofre. O mineral ocorre em depósitos superficiais na bacia, associado aos sedimentos que se formaram quando o lago era maior. É amarelo, quebradiço, pega fogo com facilidade e queima com uma chama azul e um cheiro sufocante. Quem andasse por ali no mundo antigo conhecia a substância de vista e de nariz.

Betume. O mar Morto expele blocos de asfalto natural que sobem do fundo e boiam. Isso acontece de modo irregular, e há registro antigo de que os blocos apareciam sobretudo depois de tremores. O produto era coletado e vendido; os egípcios o usavam no preparo dos corpos, e o comércio foi lucrativo o bastante para gerar disputa entre povos vizinhos.

O próprio Gênesis registra a existência desses poços. No capítulo 14, ao narrar a batalha dos reis, o texto informa que o vale estava cheio de poços de betume, e que reis em fuga caíram neles.

Sal. A água da bacia é saturada, e há uma elevação inteira de sal-gema na margem sudoeste. O sal aparece no capítulo em outro versículo e como fórmula de maldição em Deuteronômio, onde a terra amaldiçoada é descrita como enxofre e sal.

Registro esses dados como fundo material, e nada além disso. Eles explicam por que o relato fala em enxofre e não em outra coisa. Não explicam o evento, e não é possível deduzir de uma paisagem o que aconteceu nela.

O nome do lago no mundo antigo

Vale notar como os antigos chamavam aquele lugar, porque o nome guarda a memória do produto.

Autores gregos e romanos o conhecem como o lago do asfalto. Josefo, no primeiro século, usa esse nome e descreve os blocos negros boiando. O nome "mar Morto" é posterior e vem da ausência de vida na água salgadíssima.

A biblioteca antiga também guardou descrições de vapores e de cheiro forte na região. Convém tratá-las com cuidado: descrições antigas de lugares distantes misturam observação e reputação, e a fama de terra amaldiçoada, uma vez formada, atraía relatos que a confirmassem.

Fogo e enxofre como fórmula de maldição

Há um gênero literário no mundo antigo do Oriente Próximo que ajuda a entender a segunda metade deste versículo: a maldição de tratado.

Tratados entre reis eram garantidos por listas de maldições invocadas contra quem quebrasse o acordo. Essas listas seguiam padrões: a terra não produzirá, as mulheres não darão à luz, a cidade virará ruína, os deuses farão descer fogo, a chuva não cairá.

O Deuteronômio conserva esse formato quase intacto nos capítulos finais, e é justamente ali que a destruição das cidades da planície aparece como termo de comparação: a terra amaldiçoada será enxofre e sal, sem semeadura e sem broto, como na subversão de Sodoma e Gomorra.

Isso mostra uma coisa precisa. No período em que os textos bíblicos foram compostos, o episódio já funcionava como medida: a catástrofe conhecida à qual se compara qualquer outra.

Vale acrescentar um costume vizinho, atestado dentro da própria Bíblia: semear sal sobre uma cidade tomada, como Abimeleque faz com Siquém em Juízes. É gesto simbólico de esterilização definitiva — um lugar que não voltará a ser cidade.

Como o nome divino era escrito e lido

Como este versículo é feito da repetição desse nome, vale explicar o que ele é, em vez de citá-lo como se todo leitor soubesse.

O nome próprio de Deus na Bíblia hebraica é escrito com quatro consoantes, e por isso é chamado de tetragrama — palavra grega que significa simplesmente "quatro letras". Nas nossas traduções ele aparece como SENHOR, em maiúsculas, e é assim que se distingue de "Senhor" com maiúscula só na primeira letra, que traduz outra palavra.

O hebraico antigo se escrevia sem vogais. Em algum momento, por reverência, o nome deixou de ser pronunciado, e quem lia em voz alta dizia no lugar dele a palavra que significa "meu senhor". Não há consenso sobre quando exatamente esse costume se firmou.

Alguns manuscritos encontrados no deserto da Judeia mostram o cuidado com esse nome de maneira visível: o texto todo é copiado na escrita hebraica quadrada, e o tetragrama aparece em letras arcaicas, de outro alfabeto, como quem muda de tipografia por respeito.

Quando o Antigo Testamento foi traduzido para o grego, o nome foi vertido pela palavra que significa senhor. Isso apagou, no grego, a diferença entre o nome próprio e o título comum — e essa perda vai importar mais adiante, porque foi em grego que a discussão sobre este versículo se travou no segundo século.

Falar de si na terceira pessoa

Falta um último dado de fundo, e ele é cultural antes de ser gramatical.

No mundo antigo do Oriente Próximo, uma pessoa de autoridade referia-se a si mesma pelo nome ou pelo título com naturalidade. Inscrições reais dizem "assim fez o rei tal", com o próprio rei como autor. Cartas oficiais começam com uma fórmula de terceira pessoa. Falar de si como se fala de outro não soava estranho: soava formal.

A Bíblia hebraica está cheia disso. Lameque, ao falar às próprias mulheres, chama-as de "mulheres de Lameque". Davi, dando ordens à sua corte, manda tomar "os servos de vosso senhor". Assuero autoriza que se escreva "em nome do rei".

E o próprio SENHOR faz isso, no mesmo bloco narrativo. Um capítulo antes, ao deliberar sobre Abraão, a fala divina termina dizendo que assim fará vir "o SENHOR" sobre Abraão o que falou a respeito dele.

Guarde esse dado. Ele não resolve sozinho a questão do versículo 24, mas muda a régua com que se avalia a estranheza da frase.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então o SENHOR fez chover"

O hebraico começa com uma conjunção seguida do nome divino, e só depois vem o verbo: va-YHWH himtir.

Comecemos pelo verbo, e depois pela ordem das palavras, que aqui carrega quase tanta informação quanto o vocabulário.

Himtir é a forma causativa do verbo chover. O hebraico dispõe de uma conjugação inteira dedicada a esse tipo de sentido: onde a forma simples diz "cair", a causativa diz "fazer cair"; onde a simples diz "sair", a causativa diz "fazer sair". Aqui a simples diria "choveu", e a causativa diz "fez chover".

A diferença não é de estilo. Ela introduz um agente. A chuva não acontece: alguém a produz.

E agora o dado que ninguém costuma reunir, e que é fácil de conferir.

Este verbo, nessa forma causativa, aparece três vezes no livro do Gênesis — e as três merecem ser lidas juntas.

A primeira está no capítulo 2, na descrição do mundo antes das plantas: ainda não havia arbusto do campo nem erva brotado, porque o SENHOR Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra. A chuva ausente é a razão de a vegetação não existir.

A segunda está no capítulo 7, antes do dilúvio: daqui a sete dias eu farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites. A chuva presente é o instrumento do apagamento de tudo o que vive.

A terceira é esta.

Reunidas, as três desenham um arco que o próprio livro construiu, quer o autor o tenha calculado ou não. O mesmo verbo diz a falta que impede a vida, o excesso que a destrói, e agora uma terceira coisa, que não é nem falta nem excesso: uma chuva de outra matéria.

Vale ampliar o campo para fora do Gênesis, porque ele é ainda mais eloquente.

A mesma forma causativa descreve o granizo do Egito — "farei chover granizo muito grave" — e depois, na execução, "choveu o SENHOR granizo sobre a terra do Egito".

E descreve também o maná: eis que eu vos farei chover pão do céu. O salmo repete: "choveu sobre eles o maná, para comerem; e lhes deu trigo dos céus".

Detenha-se nisto, porque é o ponto teológico mais forte da primeira metade do versículo.

O verbo que aqui destrói cidades é o mesmo verbo que alimenta um povo no deserto. A ação é idêntica na sua forma: fazer descer do céu uma coisa que não estava lá. O que muda é o que desce.

E o pano de fundo torna o contraste mais agudo. Israel vivia numa terra que dependia inteiramente da chuva — o Deuteronômio insiste nisso ao distinguir a terra prometida do Egito, que se irriga pelo rio. A chuva era o presente por excelência, o sinal visível de que as coisas estavam bem. É esse presente que aqui aparece invertido.

Registro o alcance com cuidado. Não é possível afirmar que o narrador tenha escolhido himtir para produzir essa ironia. O verbo é o normal para o que desce do céu em quantidade, e a escolha pode ser puramente descritiva. O que se pode afirmar é que a coincidência é real, verificável, e que os leitores antigos, que sabiam esses textos de cor, a tinham diante dos olhos.

Sobre a ordem das palavras, uma nota breve e importante.

A frase não começa pelo verbo, como faz a prosa narrativa hebraica quando quer empurrar a história adiante. Começa pelo nome divino, precedido da conjunção. Essa inversão é o que dá à frase o ar de declaração solene, e não de mais um passo do relato.

E é precisamente dessa forma — a conjunção grudada no nome — que a tradição rabínica vai tirar uma das suas leituras, como veremos.

"sobre Sodoma e Gomorra"

Duas cidades nomeadas. Vale reparar em quantas não são.

O capítulo 14 apresentou cinco cidades da planície, com os seus reis: Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Belá, que é Zoar. Aqui, no versículo da destruição, apenas duas aparecem pelo nome.

Zoar temos explicação: foi poupada a pedido, dois versículos antes. As outras duas simplesmente não são mencionadas.

O texto não diz se foram destruídas. O versículo seguinte falará de "aquelas cidades" no plural e de "toda a planície", o que sugere um alcance maior; mas sugerir não é dizer.

E há um dado que fecha a questão pelo lado de fora do Gênesis: Deuteronômio, ao evocar a catástrofe, nomeia as quatro — Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim. E o profeta Oseias, num texto de ternura difícil, faz Deus perguntar como poderia tratar Efraim como Admá e entregá-lo como a Zeboim.

Ou seja: a tradição bíblica sabe que foram quatro. Este versículo nomeia duas.

Uma explicação corrente é que Sodoma e Gomorra funcionam como o par que representa o conjunto, à maneira de quem diz uma dupla para designar um grupo. É plausível e provavelmente correta. Registro, porém, que é explicação, e que o texto não a fornece.

"enxofre e fogo"

Aqui nasce uma fórmula. Vale ver com que material ela é feita.

A palavra hebraica para enxofre é gofrit. Ela ocorre sete vezes em toda a Bíblia hebraica, e esta é a primeira. As outras seis são: uma maldição de aliança no Deuteronômio; uma imagem de ruína pessoal no livro de Jó, onde o enxofre é espalhado sobre a morada do perverso; um salmo que promete laços, fogo e enxofre sobre os perversos; duas passagens de Isaías, uma sobre a pira de Tofete acesa por um sopro como torrente de enxofre e outra sobre o solo de Edom virando enxofre; e uma visão de Ezequiel, com chuva, granizo, fogo e enxofre.

Repare no que essa lista tem de peculiar: em nenhuma dessas seis ocorrências o enxofre é um mineral qualquer. Todas as vezes é juízo. A palavra entra na Bíblia neste versículo e não sai mais do campo da destruição divina.

Sobre a origem da palavra, é preciso ser honesto e dizer que não há certeza.

A hipótese mais repetida nos dicionários liga gofrit a gofer, a madeira com que a arca de Noé foi construída — supondo-se que se trate de uma árvore resinosa, e que o nome do enxofre venha da resina inflamável. O problema é que gofer aparece uma única vez em toda a Bíblia hebraica, justamente ali, e o seu significado é ele mesmo discutido. Explicar uma palavra obscura por outra palavra obscura é um procedimento frágil, e convém dizê-lo.

Há ainda quem proponha origem estrangeira, de alguma língua da região do Irã antigo. Não é possível decidir. O que se sabe com segurança é o uso, e o uso é claro.

Agora o fogo, e uma observação sobre a dupla.

Esh é a palavra comum para fogo, e o fogo que vem de Deus é um motivo recorrente na Bíblia hebraica — com uma ambivalência que merece registro. Ele desce sobre o altar e consome o sacrifício, e isso é aceitação; desce sobre dois sacerdotes que ofereceram fogo estranho, e isso é morte; desce a pedido de Elias sobre o altar do Carmelo, e depois sobre dois grupos de cinquenta homens; consome os que ofereciam incenso na revolta do deserto.

O mesmo elemento significa acolhimento e aniquilamento, dependendo apenas da direção. É um dado sobre o vocabulário religioso de Israel que este versículo herda sem comentar.

E vale registrar um episódio do Novo Testamento que amarra as duas pontas. Diante de uma aldeia que não os recebeu, dois discípulos perguntam se devem mandar descer fogo do céu, "como Elias também fez". A pergunta é repreendida. Não é comentário sobre o Gênesis — é outra cena, outro século, outro contexto —, mas mostra que a fórmula estava viva e disponível como pedido.

A palavra grega que virou a fórmula do inferno

Um dado de língua que explica muito da história posterior desta frase, e que quase nunca é apresentado ao leitor de português.

Quando o Antigo Testamento foi traduzido para o grego, gofrit foi vertido pela palavra theíon.

Ocorre que theíon, em grego, é também a forma neutra do adjetivo que significa "divino". As duas palavras se escrevem igual.

Os antigos comentaram essa coincidência, e alguns a explicaram dizendo que o enxofre recebeu esse nome porque o seu cheiro é o cheiro que fica onde um raio caiu — e o raio era coisa dos deuses. A etimologia é discutida, e não é possível decidir se a associação é a origem real da palavra ou uma explicação inventada depois.

O que interessa é a consequência prática. O leitor grego do Gênesis encontrava aqui uma palavra que soava a "coisa divina", e as ocorrências do Apocalipse — onde a expressão "fogo e enxofre" volta seis vezes — foram escritas nessa língua.

De modo que o "fogo e enxofre" que a pregação popular associa ao inferno é a tradução grega de duas palavras que entraram na Bíblia aqui, neste versículo, descrevendo um acontecimento sobre a terra e sem uma sílaba sobre o destino dos mortos.

Marco o limite com clareza, para os dois lados. O Gênesis não fala de inferno, não fala de eternidade, não fala de alma nenhuma depois da morte: fala de cidades e de moradores. E os textos posteriores que usam essas duas palavras estão fazendo o que a literatura religiosa faz — tomando uma imagem conhecida e projetando-a sobre outro assunto. Reconhecer isso não anula os textos posteriores; apenas os põe no lugar certo.

"da parte do SENHOR"

Chegamos ao problema, e ele merece o espaço que vai receber.

O hebraico é me-et YHWH. A preposição composta significa literalmente "de junto de", "da presença de" — e não apenas "de". É a expressão que se usa para dizer que algo veio de junto de alguém, saiu de onde essa pessoa está.

Some-se a isso a informação final, "desde os céus", e a frase completa diz: o SENHOR fez chover enxofre e fogo, vindos de junto do SENHOR, desde os céus.

O nome aparece duas vezes. E não é uma repetição a distância, num parágrafo longo: é duas vezes na mesma oração curta, com poucas palavras entre uma e outra.

Quatro leituras principais foram propostas ao longo de dois mil anos. Vou apresentá-las na ordem em que ajudam a entender umas às outras, com o que cada uma tem de forte e de frágil. Não vou escolher entre elas, e explico ao final por que não.

Primeira leitura: é um traço de estilo do hebraico

É a posição do gramático e comentarista Abraão ibn Ezra, judeu nascido na Espanha no fim do século onze, um dos maiores conhecedores da língua bíblica que já existiram.

O comentário dele a este versículo é de duas linhas, e diz o essencial: a expressão "da parte do SENHOR" é tsachot — palavra que designa a clareza e a elegância da língua — e o sentido é simplesmente "da parte dele mesmo".

E ele oferece uma prova por comparação, que qualquer leitor pode conferir: em Números 8:19 a expressão "os filhos de Israel" aparece cinco vezes num único versículo, onde o português usaria pronomes sem hesitar.

Abra o versículo e conte. A repetição está lá, e ninguém jamais propôs que existam cinco Israéis.

A favor desta leitura: ela explica o dado sem acrescentar nada ao texto, e se apoia num traço comprovado da prosa hebraica, que repete substantivos onde as línguas modernas pronominalizam. É a explicação mais econômica.

Contra: economia não é prova. O fato de a língua tolerar a repetição não demonstra que esta repetição seja só isso. E há um detalhe que a leitura não explica bem — a preposição escolhida não é a mais simples, e o acréscimo "desde os céus" cria uma distância entre um SENHOR e outro que a mera repetição estilística não exigiria.

Segunda leitura: é ênfase solene, própria de fórmula de juízo

Nessa leitura, a repetição não é descuido nem redundância: é peso. A frase funciona como uma sentença lida em voz alta, em que se repete o nome da autoridade para deixar claro de quem parte a ordem.

A favor: o contexto é exatamente esse. Trata-se do momento culminante de um juízo anunciado desde o capítulo anterior, e a inversão da ordem das palavras — o nome antes do verbo — já indica que a frase quer soar como declaração, e não como narrativa corrida.

A favor, ainda: documentos jurídicos e reais do mundo antigo repetem o nome da autoridade justamente nesses pontos, e o efeito é o de selar o ato.

Contra: esta leitura é compatível com todas as outras, e por isso não decide nada. Dizer que a repetição é enfática não responde à pergunta de por que essa forma de ênfase foi escolhida.

Terceira leitura: o tribunal celeste

Rashi, o comentarista francês do século onze cujas notas acompanham a página do texto hebraico até hoje, oferece duas observações sobre este versículo, e convém não as confundir.

A primeira não é sobre a repetição, e sim sobre a conjunção. Ele registra uma regra herdada da literatura rabínica anterior: onde está escrito "e o SENHOR" — com a conjunção colada ao nome —, entende-se "ele e o seu tribunal".

Vale explicar a imagem, porque ela não é intuitiva para o leitor cristão. A literatura judaica antiga fala de uma corte celeste, uma assembleia que cerca o trono e diante da qual as decisões são deliberadas. A Bíblia hebraica tem material para isso: há cenas de assembleia divina em Jó, nos Reis e nos Salmos.

Repare no que essa leitura faz. Ela não multiplica Deus: ela lhe dá acompanhantes. E resolve, de passagem, um problema do próprio capítulo — a alternância entre o SENHOR e os dois mensageiros que dizem, no versículo 13, "nós vamos destruir este lugar".

A segunda observação de Rashi é sobre a repetição do nome, e é a mesma de Ibn Ezra: trata-se do modo de falar das Escrituras. E ele dá três exemplos, todos conferíveis — Lameque dizendo "mulheres de Lameque" às próprias mulheres; Davi mandando tomar "os servos de vosso senhor"; Assuero autorizando que se escreva "em nome do rei".

Ou seja: o comentarista judeu mais influente da Idade Média explica a repetição pela convenção da língua, exatamente como o gramático espanhol.

A favor da leitura do tribunal: ela se apoia num traço real da literatura, tem material bíblico e dá conta da alternância entre enviado e quem envia.

Contra: a regra sobre a conjunção é uma convenção interpretativa rabínica, não um dado gramatical demonstrável, e não é aplicada com uniformidade nem pela própria tradição. E ela trata de uma coisa — a conjunção inicial — que não é o problema que a maior parte dos leitores tem com o versículo.

Quarta leitura: duas pessoas divinas

Agora a leitura que fez deste versículo um campo de batalha, e ela precisa ser apresentada com data, autor e contexto, porque nada disso é acidental.

Justino, natural de Samaria, filósofo convertido, morto em Roma por volta do ano 165, escreveu uma obra em forma de diálogo com um judeu chamado Trifão. É um dos textos mais antigos que temos de discussão entre cristãos e judeus sobre a interpretação das Escrituras.

Justino cita este versículo mais de uma vez, e o argumento é sempre o mesmo. Se o SENHOR fez chover da parte do SENHOR desde os céus, então, no dizer dele, a palavra profética indica dois em número: um sobre a terra, que desceu para ver o clamor de Sodoma, e outro nos céus.

Ele completa o raciocínio ligando este versículo ao capítulo 18: um dos três visitantes que apareceram a Abraão seria esse que age na terra, enquanto o outro permanece no céu.

E, para explicar como pode haver dois sem que se dividam, recorre a uma comparação que ficou famosa: a de fogos acesos a partir de um fogo. Vemos que a chama nova é distinta da original, e no entanto aquela de que muitas se acendem não diminui em nada, permanece a mesma.

Convém ser exato quanto ao que acontece no diálogo, porque a apresentação corrente é enganosa.

Um dos companheiros de Trifão concede o ponto e formula a consequência. Trifão, porém, não refuta o argumento — ele muda de assunto, e passa a perguntar como esse Deus poderia ter comido a comida que Abraão serviu, e depois pede a Justino que demonstre a encarnação em vez de continuar a provar a divindade.

Isso é importante e costuma ser mal contado dos dois lados. Não é verdade que Trifão tenha sido convencido; também não é verdade que tenha respondido. Ele desviou.

Vale acrescentar o que veio depois. A leitura de Justino foi adotada e ampliada por outros autores cristãos antigos, e este versículo entrou definitivamente no repertório da apologética. Do lado judaico, a resposta consolidada é exatamente a que se lê em Ibn Ezra e em Rashi: convenção da língua.

O que pesa contra a quarta leitura

Honestidade exige apresentar as objeções com a mesma força, e elas são consideráveis.

A primeira é o dado que Ibn Ezra levantou e que continua de pé. Se a repetição do nome provasse pluralidade de pessoas, seria preciso explicar Números 8:19 e todos os casos semelhantes. A prova prova demais.

A segunda é interna a esta mesma narrativa, e é a mais forte de todas. Um capítulo antes, o próprio SENHOR fala de si na terceira pessoa, dizendo que assim fará vir "o SENHOR" sobre Abraão o que falou a seu respeito. Ninguém propõe que ali haja dois. É a mesma boca, o mesmo bloco narrativo, o mesmo procedimento.

A terceira é de método. Justino lia em grego, e no grego o nome próprio de Deus tinha sido traduzido pela palavra comum "senhor". Isso apaga uma distinção do hebraico e torna a frase mais estranha do que ela é. Não estou dizendo que ele tenha agido de má-fé; estou dizendo que a base textual do argumento é uma tradução.

A quarta é de contexto. O argumento é apresentado numa obra de controvérsia, escrita para convencer, num momento em que a igreja precisava fundamentar nas Escrituras de Israel uma doutrina que estava se formando. É leitura posterior e é leitura interessada — o que não a torna falsa por si só, mas obriga a examiná-la com o cuidado que se dedica a qualquer argumento produzido por quem tem uma conclusão a defender.

E há uma quinta objeção, que corta contra a pressa dos dois lados.

A tradição judaica também lê nomes divinos repetidos como indicando distinção — sem tirar daí duas pessoas. O caso mais conhecido está em Êxodo 34, onde a proclamação começa com o nome dito duas vezes seguidas, e a leitura rabínica clássica entende ali duas medidas de misericórdia, uma antes e outra depois do pecado. Ou seja: repetição do nome tratada como significativa, e ainda assim sem pluralidade de pessoas.

Por que não decidir

Chega o momento de dizer com clareza onde este comentário para, e por quê.

Primeiro: o texto não explica. Não diz que há dois. Não diz que é modo de falar. Não comenta a repetição de maneira nenhuma. Todo o resto é reconstrução, antiga ou moderna.

Segundo: as quatro leituras cabem nos dados, e nenhuma é exigida por eles. Isso é o que significa, tecnicamente, não ser possível decidir — não é preguiça nem covardia, é a descrição correta da situação.

Terceiro, e é o ponto que separa este comentário da leitura corrente dos dois campos: quem apresenta qualquer das quatro como o sentido do versículo está vendendo uma escolha como se fosse uma constatação. Isso vale para o pregador que usa a frase como prova da Trindade e vale para o polemista que a descarta como se não houvesse nada de estranho ali.

Porque há algo de estranho ali. A frase é incomum, a preposição é incomum, e o acréscimo "desde os céus" cria uma distância entre as duas menções do nome que a explicação puramente estilística acomoda, mas não elimina.

O que se pode afirmar, e já não é pouco: a repetição existe, é do texto, atravessou intacta todas as versões antigas, e foi considerada digna de nota pelas duas tradições que mais estudaram este livro — cada uma tirando dela conclusões opostas, e cada uma com motivos que a outra não aceita.

"desde os céus"

A última expressão do versículo, e ela faz mais trabalho do que parece.

O hebraico diz min ha-shamayim, do plural que designa o céu. A informação é de origem: aquilo veio de cima.

Três observações, e nenhuma delas é ornamental.

A primeira é que essa precisão de origem exclui, dentro do relato, qualquer leitura de causa terrestre. Não se diz que a terra se abriu, que o chão explodiu, que veio de baixo. Diz-se que veio do céu. Isso não é um dado geológico — é a maneira de o texto atribuir a autoria.

Convém dizer o que isso significa e o que não significa. Significa que o relato afirma a origem celeste. Não significa que a afirmação seja incompatível com qualquer processo natural: um leitor pode perfeitamente sustentar que a causa material foi terrestre e que o texto está nomeando o autor, e não descrevendo o mecanismo. As duas coisas não se excluem, e o próprio texto não formula a distinção.

A segunda observação é de vocabulário. O céu é a origem do fogo que destrói e é a origem do pão que sustenta. Já vimos que o verbo é o mesmo; agora vale notar que a origem declarada também é. "Farei chover pão do céu", diz o Êxodo. "Fez chover enxofre e fogo desde os céus", diz este versículo.

A terceira é que o Antigo Testamento tem uma pequena família de textos em que o fogo desce do céu como ato deliberado, e essa família nasce aqui. Ela vai reaparecer no Carmelo, com Elias, e na sequência dos dois grupos de cinquenta homens, e será exatamente essa a memória que dois discípulos invocarão séculos depois, ao perguntar se devem fazer o mesmo com uma aldeia inóspita.

O que a fórmula virou

Fecho o item com o percurso da dupla "enxofre e fogo" pelo cânon, porque poucas expressões bíblicas têm uma carreira tão longa a partir de um único ponto de partida.

No Antigo Testamento, ela reaparece como maldição de aliança, como imagem de ruína pessoal no livro de Jó, como promessa de retribuição num salmo, como descrição da pira de Tofete e do solo de Edom em Isaías, e como elemento da visão de Ezequiel sobre a derrota de Gogue.

No Novo Testamento, Lucas a usa ao evocar os dias de Ló, dizendo que choveu fogo e enxofre do céu.

E no Apocalipse ela volta seis vezes: nas couraças e nas bocas dos cavalos da visão, no tormento anunciado a quem adora a besta, e três vezes no que o livro chama de lago de fogo e enxofre.

Convém medir o que essa carreira demonstra e o que não demonstra.

Demonstra que o episódio das cidades da planície virou o vocabulário do juízo divino na Bíblia. Quando um autor bíblico precisa dizer "destruição definitiva vinda de Deus", ele alcança estas duas palavras.

Não demonstra que os textos posteriores estejam interpretando corretamente o Gênesis, nem que o Gênesis esteja falando do que eles falam. A distância entre uma narrativa sobre cidades e uma visão sobre o destino final do mal é enorme, e atravessá-la sem aviso é o erro mais comum que se comete com este versículo.

O Gênesis diz que caiu enxofre e fogo sobre cidades, num dia, num lugar que ele situa geograficamente. Tudo o mais é uso posterior — legítimo como uso, e não como explicação do que aqui está escrito.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O SENHOR (YHWH) — o nome próprio de Deus, escrito com quatro consoantes e por isso chamado de tetragrama. Neste versículo aparece duas vezes, e é dessa dupla ocorrência que nasce a discussão principal da passagem.

Sodoma — a cidade onde Ló morava, mencionada desde Gênesis 13. É a primeira das duas nomeadas aqui, e o nome se tornou, na literatura profética posterior, o termo de comparação padrão para a corrupção e para a destruição.

Gomorra — a segunda cidade nomeada, quase sempre citada em par com Sodoma. Fora dos textos bíblicos não há atestação independente do nome, e nenhum sítio escavado foi correlacionado a ela de modo demonstrável.

Admá e Zeboim — as outras duas cidades da planície, ausentes deste versículo e presentes na lista de Gênesis 14, na maldição de Deuteronômio 29 e numa passagem de Oseias em que Deus pergunta como poderia tratar Efraim como Admá.

Himtir ("fez chover") — forma causativa do verbo chover: não "choveu", mas "fez chover". Aparece três vezes no Gênesis — na ausência de chuva antes das plantas, no anúncio do dilúvio e aqui — e é também o verbo do maná e do granizo do Egito.

Gofrit (enxofre) — substância amarela, quebradiça e muito inflamável, presente em depósitos na bacia do mar Morto. A palavra ocorre sete vezes na Bíblia hebraica, e em todas elas o contexto é de juízo.

Gofer — a madeira da arca de Noé, palavra que aparece uma única vez em toda a Bíblia. Os dicionários costumam derivar dela o nome do enxofre, supondo uma árvore resinosa; o significado de gofer é ele mesmo discutido, o que torna a derivação frágil.

Me-et ("da parte de", "de junto de") — preposição composta que indica proveniência a partir da presença de alguém. Não é a preposição mais simples disponível, e esse detalhe pesa na discussão sobre a repetição do nome.

Theíon — a palavra grega com que a tradução antiga verteu gofrit. Coincide na escrita com a forma neutra do adjetivo que significa "divino", e alguns antigos ligaram as duas coisas pelo cheiro que fica onde caiu um raio. A etimologia é discutida.

Abraão ibn Ezra — gramático, poeta e comentarista judeu nascido na Espanha no fim do século onze. Explica a repetição do nome como um traço de elegância da língua, e prova o ponto citando um versículo de Números em que "os filhos de Israel" aparece cinco vezes.

Rashi — comentarista francês do século onze, cujas notas acompanham a página do texto hebraico até hoje. Sobre este versículo registra duas coisas distintas: que "e o SENHOR", com a conjunção, se entende como ele e o seu tribunal; e que a repetição do nome é o modo de falar das Escrituras, com três exemplos.

O tribunal celeste — a assembleia que, na literatura judaica antiga, cerca o trono divino e diante da qual as decisões são deliberadas. Tem apoio em cenas de Jó, dos Reis e dos Salmos, e serve para explicar a alternância entre o SENHOR e os mensageiros ao longo do capítulo.

Justino Mártir — filósofo convertido, natural de Samaria, morto em Roma por volta do ano 165. No seu diálogo com um judeu chamado Trifão, usa este versículo para sustentar que há dois em número, um sobre a terra e outro nos céus, e ilustra a relação com a imagem de fogos acesos a partir de um fogo.

Trifão — o interlocutor judeu do diálogo. Diante do argumento tirado deste versículo, um companheiro dele concede o ponto; ele próprio não o refuta, e desvia a conversa para outra objeção. Convém não contar a cena nem como derrota nem como resposta.

O lago do asfalto — nome pelo qual autores gregos e romanos designavam o mar Morto, por causa dos blocos de betume que sobem do fundo e boiam. Josefo o usa no primeiro século, e o Gênesis registra os poços de betume do vale em 14:10.

Maldição de tratado — gênero literário do antigo Oriente Próximo: listas de castigos invocados contra quem quebrasse um acordo, com fórmulas fixas sobre terra estéril, cidade em ruína e fogo enviado pelos deuses. Os capítulos finais do Deuteronômio conservam o formato, e é ali que a destruição das cidades da planície entra como termo de comparação.

5. Pontos de Ensino

O nome divino aparece duas vezes na mesma oração. Não é repetição a distância: são poucas palavras entre uma menção e outra, com uma preposição de proveniência no meio.

Isso está em todas as versões antigas. O hebraico transmitido, a tradução grega e a latina trazem as duas ocorrências. Não se trata de peculiaridade de uma tradução portuguesa.

Há pelo menos quatro leituras propostas. Traço de estilo da língua, ênfase solene de fórmula de juízo, o tribunal celeste da tradição rabínica, e duas pessoas divinas na apologética cristã antiga.

Ibn Ezra explica pela elegância da língua. E prova o ponto com Números 8:19, onde "os filhos de Israel" aparece cinco vezes num único versículo.

Rashi diz duas coisas diferentes, que costumam ser confundidas. A conjunção "e o SENHOR" ele lê como ele e o seu tribunal; a repetição do nome ele explica como convenção da língua, com três exemplos bíblicos.

Justino Mártir usou o versículo como prova de dois. No diálogo com Trifão, por volta de meados do segundo século, e com a imagem do fogo aceso a partir do fogo.

Trifão não refutou o argumento — desviou. Um companheiro dele concedeu o ponto, e ele passou a outra objeção. Contar a cena como derrota do judaísmo ou como resposta cabal é falsear os dois lados.

A objeção mais forte à leitura de duas pessoas está no capítulo anterior. Em Gênesis 18:19 o próprio SENHOR fala de si na terceira pessoa, e ninguém propõe dois ali.

O verbo é causativo: não "choveu", e sim "fez chover". A forma introduz um agente. A chuva não acontece; alguém a produz.

É o mesmo verbo do maná. A ação de fazer descer do céu o que não estava lá alimenta um povo no deserto e destrói cidades aqui. Muda o que desce, não o verbo.

No Gênesis, esse verbo aparece três vezes. Na ausência de chuva antes das plantas, no anúncio do dilúvio, e neste versículo.

Enxofre ocorre sete vezes na Bíblia hebraica, e esta é a primeira. Em nenhuma das outras seis a palavra designa um mineral neutro: é sempre juízo.

A palavra grega para enxofre coincide com a que significa "divino". A ligação etimológica é discutida, e foi nessa língua que o Apocalipse construiu a imagem do lago de fogo e enxofre.

Só duas das cinco cidades são nomeadas. Admá e Zeboim não aparecem aqui, embora Deuteronômio e Oseias as incluam na catástrofe.

O Gênesis não fala de inferno nem de eternidade. Fala de cidades, moradores e um dia. A projeção sobre o destino final do mal é obra dos textos posteriores.

6. Aspectos Filosóficos

Quem age, afinal

Vale começar por uma confusão que o capítulo produz e nunca esclarece.

No versículo 13, os mensageiros falam na primeira pessoa do plural: nós vamos destruir este lugar. Em seguida, na mesma fala, dizem que foi o SENHOR quem os enviou. No versículo 22, alguém diz que nada pode fazer enquanto Ló não chegar. E aqui, o sujeito da ação é o nome divino, duas vezes.

O relato desliza entre o enviado e quem envia sem marcar a passagem. Não avisa quando muda de um para o outro, e não parece considerar isso um problema.

Há aqui uma questão filosófica que a teologia posterior formulou com outro vocabulário: até que ponto o ato de um agente autorizado é o ato de quem autorizou? Um mensageiro que executa uma ordem é o autor do que faz, ou o instrumento de quem a deu?

O direito moderno separa essas coisas com cuidado, e a separação custou séculos. O texto antigo não a faz — e não por descuido, mas porque a distinção não estava disponível como problema.

Registro como observação minha. O Gênesis não teoriza sobre agência, e atribuir-lhe uma posição sobre isso é ler nele o que a nossa cabeça precisa encontrar.

Nomear a causa não é descrever o mecanismo

Este versículo diz de onde veio: do céu, da parte do SENHOR. Não diz como.

Vale desdobrar o que essa diferença implica, porque ela organiza boa parte das brigas em torno do capítulo.

Uma explicação causal responde à pergunta "por meio de quê". Uma atribuição de autoria responde à pergunta "de quem partiu". As duas perguntas são diferentes, e a resposta a uma não é resposta à outra.

Quando se diz que uma carta foi escrita por alguém, não se está negando que tenha sido escrita com tinta. Quando se diz que foi escrita com tinta, não se está negando que alguém a tenha escrito.

A maior parte da discussão pública sobre o episódio das cidades da planície gira em falso porque trata as duas perguntas como se fossem uma. De um lado, quem apresenta uma explicação material como se refutasse o texto. De outro, quem trata qualquer explicação material como ameaça.

Registro a distinção e registro também o seu limite: ela não prova que a atribuição do texto esteja certa. Apenas mostra que a discussão costuma ser mal formulada.

Repetir um nome é dizer alguma coisa

O problema central do versículo levanta uma questão que a filosofia da linguagem trabalhou por conta própria.

Quando alguém repete um nome próprio em vez de usar um pronome, a repetição produz efeito. Ela pesa a frase, marca distância, sublinha a identidade do referente. Isso é observável em qualquer língua e em qualquer registro.

Mas o efeito não determina a causa. A mesma repetição pode resultar de convenção estilística, de ênfase deliberada, de necessidade de clareza, ou de o autor estar de fato falando de duas coisas.

E aqui está o nó: não existe, na frase isolada, nada que permita distinguir esses casos. É preciso recorrer a outros textos, a outros usos, a hipóteses sobre o que o autor pensava — e é exatamente aí que as leituras se separam.

Quem diz "é só estilo" está apostando na frequência do fenômeno. Quem diz "são dois" está apostando na estranheza da construção. As duas apostas são racionais, e nenhuma é verificável.

Vale observar, como comentarista, que a preferência costuma vir antes do argumento. É raro alguém examinar este versículo sem já saber o que espera encontrar.

Argumentos produzidos por quem tem uma conclusão a defender

Um ponto de método que este versículo torna incontornável.

A leitura de duas pessoas divinas nasceu dentro de uma controvérsia, escrita para convencer um interlocutor específico, num momento em que uma doutrina estava se formando e precisava de base nas Escrituras de Israel.

Isso não torna o argumento falso. Argumentos interessados podem estar certos, e desqualificá-los pela origem é um erro lógico com nome próprio.

Mas obriga a duas cautelas.

A primeira: verificar se a base textual resiste. No caso, o argumento foi construído sobre uma tradução que apagara a diferença entre o nome próprio e o título comum — o que enfraquece a base sem destruí-la.

A segunda, e é a mais desconfortável: aplicar a mesma régua ao outro lado. A resposta judaica clássica também foi formulada em contexto de controvérsia, e também tinha uma conclusão a proteger. Ibn Ezra e Rashi escreviam num mundo em que essa passagem era usada contra a sua comunidade.

A conclusão que resta é modesta e serve para muito além deste versículo: quando os dois lados de uma disputa têm motivo para preferir uma leitura, o fato de cada um preferir a sua não é evidência de nada. É preciso olhar para os dados, e os dados aqui não bastam.

Dar e destruir com o mesmo gesto

O verbo do versículo abre uma questão que atravessa toda a literatura religiosa.

Fazer chover é o gesto do sustento. Numa terra sem rio, é o gesto do sustento. E é esse mesmo gesto que aqui aparece invertido, com outra matéria descendo do mesmo lugar.

A imagem incomoda, e convém deixá-la incomodar.

Porque a alternativa confortável — separar um Deus que dá de outro que destrói — foi tentada de fato na história cristã, no segundo século, por quem propôs que o Deus do Antigo Testamento fosse outro, inferior. A proposta foi rejeitada, e a rejeição significou aceitar que o mesmo agente faz as duas coisas.

O texto não resolve o incômodo. Ele o produz, ao usar o verbo do maná para o enxofre.

Observo, e é observação minha, que essa é uma das marcas da literatura bíblica: ela raramente separa em compartimentos o que a nossa sensibilidade preferiria ver separado. O leitor que quiser um Deus só benfazejo terá de trabalhar contra o vocabulário, e não a favor dele.

Uma imagem que viajou longe demais

Fecho com um problema de recepção, que é filosófico antes de ser exegético.

Duas palavras deste versículo — enxofre e fogo — viraram, ao longo de dois milênios, a imagem popular do destino eterno dos condenados. Quadros, sermões, expressões correntes.

Ocorre que este versículo não fala disso. Fala de cidades num dia, num lugar situado geograficamente, com moradores que morrem. Não menciona alma, não menciona depois da morte, não menciona duração.

O caminho entre uma coisa e outra passa por textos posteriores, escritos em outra língua, séculos depois, que tomaram a imagem emprestada para falar de outro assunto.

Vale nomear o mecanismo, porque ele não é exclusivo da religião: uma imagem forte se desprende do que descrevia e passa a descrever qualquer coisa que precise da mesma intensidade. Depois, a origem é esquecida, e a imagem volta ao texto de origem carregada com o que ganhou pelo caminho.

Reconhecer isso não desqualifica os textos posteriores. Apenas impede de ler o Gênesis através deles — que é o que quase todo leitor moderno faz sem perceber, ao encontrar aqui uma antecipação do inferno que a página não contém.

7. Aplicações Práticas

Conte as palavras antes de aceitar a explicação

A discussão inteira deste versículo começa com uma operação que qualquer leitor pode fazer: contar quantas vezes o nome divino aparece na frase. São duas. E o argumento de Ibn Ezra contra a leitura que tira daí duas pessoas também é conferível em trinta segundos — basta abrir Números 8:19 e contar quantas vezes lá aparece "os filhos de Israel". São cinco.

Nenhuma das duas verificações exige hebraico, comentário ou confiança em ninguém.

Adote isso como primeiro movimento diante de qualquer afirmação sobre um texto. Antes de avaliar a interpretação, verifique o dado que ela alega. Uma parte espantosa das discussões religiosas se sustenta sobre dados que ninguém conferiu, e que se desfazem quando alguém abre o livro.

Pergunte quem escreveu, quando e contra quem

A leitura deste versículo como prova de duas pessoas divinas tem autor, data e destinatário: um filósofo convertido, meados do segundo século, numa obra escrita para convencer um interlocutor judeu. A resposta contrária também tem autor, data e circunstância: comentaristas judeus medievais, escrevendo num mundo em que essa passagem era usada contra a sua comunidade.

Saber disso não decide quem tem razão. Muda o modo de ler os dois.

Faça a pergunta sempre, inclusive com os textos de que você gosta. Quem produziu esta interpretação, em que situação, e o que ele ganhava se convencesse? A resposta raramente refuta o argumento, mas quase sempre explica por que ele foi formulado justo assim, e por que enfatiza justo isso.

Aceite que "não dá para decidir" é uma conclusão

Este comentário apresenta quatro leituras da repetição do nome e não escolhe nenhuma. Isso costuma frustrar, porque a expectativa é que o estudo termine com uma resposta.

Mas dizer que os dados não bastam é uma afirmação sobre os dados, e não uma recusa de trabalhar. Custa mais do que escolher, porque obriga a segurar a tensão em vez de dissolvê-la.

Treine isso fora da Bíblia, onde é mais fácil. Diante de uma controvérsia — histórica, política, familiar — experimente formular a posição de cada lado com força suficiente para que quem a defende a reconheça, e depois diga em voz alta o que faltaria para decidir. Se o que falta não existe e não é obtenível, você chegou ao fim do que se pode saber, e isso não é o mesmo que não saber nada.

Separe a autoria do mecanismo

O versículo diz de onde veio e não diz como. Dizer "veio do céu, da parte do SENHOR" é uma atribuição de autoria; dizer "houve um tremor, gás e betume pegando fogo" seria uma descrição de mecanismo. As duas coisas respondem a perguntas diferentes.

Boa parte das brigas em torno deste capítulo acontece porque os dois lados tratam as duas perguntas como se fossem uma só.

Vale para muito além da Bíblia. Quando alguém explicar um acontecimento, pergunte-se qual das duas perguntas está sendo respondida. Uma explicação química de por que o remédio funciona não responde a quem o receitou; uma biografia do médico não explica a química. Confundir as duas coisas produz discussões intermináveis em que ninguém está falando do mesmo assunto.

Repare no que a imagem forte faz com a sua leitura

"Fogo e enxofre" é hoje a imagem popular do inferno. Este versículo, porém, fala de cidades num dia, num lugar situado no mapa, com moradores que morrem — e não diz uma sílaba sobre alma, eternidade ou destino dos mortos. A associação foi construída depois, em outra língua e sobre outro assunto.

O efeito é que quase ninguém consegue ler esta frase sem ver o quadro que ela não pintou.

Isso acontece com muitas expressões que você usa. Vale um exercício simples: pegue uma frase bíblica que lhe seja familiar e tente listar o que ela realmente diz, item por item, e depois o que você automaticamente enxerga junto. A distância entre as duas listas é o tamanho da leitura que você herdou sem escolher.

O mesmo gesto pode dar e pode tirar

O verbo que aqui derruba cidades é o verbo do maná. Fazer descer do céu o que não estava lá: a ação é a mesma, e muda o que desce. A Bíblia não se dá ao trabalho de separar em compartimentos o Deus que sustenta e o Deus que destrói — e quem tentou fazer essa separação, no segundo século, viu a proposta rejeitada.

É desconfortável, e o desconforto não deve ser dissolvido com adjetivos.

Do lado prático, isso serve como aviso contra um hábito devocional muito difundido: o de montar uma imagem de Deus a partir só das passagens que confortam, e tratar as outras como problema de tradução ou de contexto. Quem lê assim não está lendo o livro; está selecionando dentro dele. É possível fazer isso conscientemente e dizer por quê. O que não se sustenta é fazê-lo sem perceber e depois chamar o resultado de fidelidade ao texto.

Uma tradução pode criar o problema que você está discutindo

O argumento antigo sobre este versículo foi construído em grego, onde o nome próprio de Deus tinha sido vertido pela palavra comum que significa senhor. Isso apagou uma distinção do hebraico e tornou a frase mais estranha do que ela é. Não é má-fé de ninguém: é o que acontece quando um texto atravessa uma língua.

Toda tradução decide coisas, e as decisões desaparecem no resultado.

Quando uma discussão depender de uma palavra, vale procurar como as outras traduções resolveram aquele ponto — três ou quatro já bastam para revelar onde há dúvida. Se todas dizem o mesmo, você está diante de algo firme. Se divergem, você encontrou o lugar exato onde a decisão foi tomada, e é sobre essa decisão que a conversa deveria ser.

Nem toda repetição é descuido

Uma parte do problema deste versículo é que o português moderno detesta repetir substantivos: aprendemos a trocar por pronomes, sob pena de o texto parecer mal escrito. O hebraico bíblico não tem essa regra, e repete com naturalidade onde nós substituiríamos.

Quem lê sem saber disso encontra estranheza onde há convenção; quem sabe disso corre o risco oposto, o de tratar toda repetição como irrelevante.

Guarde a régua nos dois sentidos, e ela vale para qualquer texto antigo que você leia traduzido. Antes de concluir que uma construção estranha é significativa, pergunte se ela é frequente naquela língua. E antes de concluir que é apenas convenção, pergunte se aparece em lugares onde a convenção não explicaria tão bem. Nenhuma das duas perguntas dá resposta automática — mas quem não faz as duas costuma acertar por sorte.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o nome de Deus aparece duas vezes neste versículo?

Não há resposta consensual, e é honesto dizê-lo de saída. O texto traz "o SENHOR fez chover... da parte do SENHOR, desde os céus", e não comenta a repetição. Quatro leituras principais foram propostas ao longo de dois mil anos, todas cabem nos dados e nenhuma é exigida por eles.

Isso é peculiaridade da tradução portuguesa?

Não. Está no hebraico de todos os manuscritos conhecidos, na tradução grega antiga e na latina. Qualquer versão séria, em qualquer língua, reproduz as duas ocorrências, porque não há como não reproduzir.

Quais são as quatro leituras?

Que se trata de um traço de estilo do hebraico, que repete substantivos onde nós usaríamos pronomes; que é ênfase solene, própria de fórmula de juízo; que a expressão "e o SENHOR", com a conjunção, indica ele e o seu tribunal celeste, conforme a tradição rabínica; e que há duas pessoas divinas, um na terra e outro no céu, conforme a apologética cristã antiga.

O que diz Ibn Ezra?

Que a expressão é elegância da língua, e que o sentido é simplesmente "da parte dele mesmo". E prova o ponto com uma comparação conferível: em Números 8:19, "os filhos de Israel" aparece cinco vezes num único versículo. Ninguém jamais propôs que existam cinco Israéis.

E Rashi?

Rashi diz duas coisas diferentes, que costumam ser confundidas. Sobre a conjunção inicial, registra a regra rabínica de que "e o SENHOR" se entende como ele e o seu tribunal. Sobre a repetição do nome, diz que é o modo de falar das Escrituras, e dá três exemplos: Lameque chamando as próprias mulheres de "mulheres de Lameque", Davi mandando tomar "os servos de vosso senhor", e Assuero autorizando que se escreva "em nome do rei".

O que é o tribunal celeste?

Uma imagem da literatura judaica antiga: a assembleia que cerca o trono divino e diante da qual as decisões são deliberadas. Tem material bíblico de apoio em cenas de Jó, dos Reis e dos Salmos. A leitura tem a vantagem de explicar a alternância do capítulo entre o SENHOR e os dois mensageiros que dizem, no versículo 13, "nós vamos destruir este lugar".

Este versículo prova a Trindade?

Não é possível afirmar isso. Justino Mártir, por volta de meados do segundo século, usou-o para sustentar que há dois em número, e a leitura entrou no repertório da apologética cristã. Mas o argumento tem objeções sérias, e a mais forte está no próprio Gênesis: um capítulo antes, em 18:19, o SENHOR fala de si na terceira pessoa, e ninguém propõe dois ali.

Trifão, o interlocutor judeu, foi convencido?

Não, e também não refutou. Um dos companheiros dele concede o ponto e formula a consequência; Trifão desvia para outra objeção, perguntando como esse Deus poderia ter comido a comida servida por Abraão, e depois pede que se demonstre a encarnação em vez de continuar provando a divindade. Contar a cena como derrota ou como resposta cabal falseia os dois lados.

Então a leitura cristã antiga é falsa?

Não é isso que se pode concluir. Ela é posterior, é interessada e foi construída sobre uma tradução que apagara a diferença entre o nome próprio de Deus e o título comum. Isso enfraquece a base do argumento sem demonstrar que ele esteja errado. E há de fato algo de incomum na frase: a preposição escolhida não é a mais simples, e o acréscimo "desde os céus" cria uma distância entre as duas menções que a explicação puramente estilística acomoda sem eliminar.

O que significa "fez chover" em vez de "choveu"?

O hebraico usa uma forma verbal causativa. Onde a forma simples diria "choveu", esta diz "fez chover" — o que introduz um agente. A chuva não acontece por si: alguém a produz.

Esse verbo aparece em outros lugares importantes?

Sim, e o conjunto é revelador. No Gênesis ocorre três vezes: na descrição do mundo antes das plantas, porque ainda não tinha chovido; no anúncio do dilúvio; e aqui. Fora do Gênesis, é o verbo do granizo do Egito e também o do maná — "farei chover pão do céu". O mesmo verbo alimenta um povo e destrói cidades.

Por que só Sodoma e Gomorra são nomeadas?

O texto não explica. As cidades da planície eram cinco, segundo Gênesis 14. Zoar foi poupada a pedido; Admá e Zeboim simplesmente não aparecem aqui, embora Deuteronômio 29 e Oseias 11 as incluam na catástrofe. A explicação corrente é que o par funciona como representação do conjunto — plausível, e não afirmada pelo texto.

Havia mesmo enxofre naquela região?

Sim, e isso é fato geológico independente de qualquer leitura do relato. A bacia do mar Morto tem depósitos de enxofre, e o lago expele blocos de betume que sobem do fundo e boiam — o próprio Gênesis registra os poços de betume do vale em 14:10. Autores gregos e romanos chamavam o lugar de lago do asfalto. Nada disso explica o evento; explica por que o relato fala em enxofre e não em outra coisa.

Quantas vezes a palavra "enxofre" aparece na Bíblia hebraica?

Sete, e esta é a primeira. As outras seis estão em Deuteronômio 29, Jó 18, Salmo 11, Isaías 30 e 34, e Ezequiel 38. Em nenhuma delas o enxofre é um mineral neutro: é sempre juízo. A palavra entra na Bíblia aqui e não sai mais desse campo.

Este versículo fala do inferno?

Não. Fala de cidades, de moradores e de um dia, num lugar que o próprio livro situa geograficamente. Não menciona alma, não menciona o que há depois da morte, não menciona duração. A imagem do lago de fogo e enxofre é do Apocalipse, escrito em grego, séculos depois, usando estas duas palavras para falar de outro assunto.

De onde vem a associação entre enxofre e o divino?

De um acidente da língua grega. A palavra com que a tradução antiga verteu "enxofre" coincide na escrita com a forma neutra do adjetivo que significa "divino". Alguns antigos explicaram a coincidência pelo cheiro que fica onde caiu um raio, que era coisa dos deuses. A etimologia é discutida, e o que importa é a consequência: o leitor grego encontrava aqui uma palavra que soava a coisa divina.

Uma explicação natural — terremoto, gás, betume — contradiz o versículo?

Não necessariamente, e vale ser preciso. O versículo atribui autoria: veio do céu, da parte do SENHOR. Uma explicação natural descreveria um mecanismo. São perguntas diferentes, e responder a uma não responde à outra. Isso não prova que a atribuição do texto esteja certa; mostra apenas que a discussão costuma ser mal formulada, com os dois lados tratando duas perguntas como se fossem uma.

Qual é a conclusão honesta sobre a repetição do nome?

Que ela existe, é do texto, atravessou intacta todas as versões antigas, e foi considerada digna de nota pelas duas tradições que mais estudaram este livro — cada uma tirando dela conclusões opostas. Que o texto não explica. E que quem apresenta qualquer das quatro leituras como o sentido do versículo está vendendo uma escolha como se fosse uma constatação.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 18:19Porque eu o conheci, sei que mandará a seus filhos e a sua casa depois de si, que guardem o caminho do SENHOR, fazendo justiça e juízo, para que faça vir o SENHOR sobre Abraão o que falou acerca dele.

A objeção mais forte à leitura de duas pessoas divinas, e ela está no capítulo anterior. Quem fala é o SENHOR, e ele se refere ao SENHOR na terceira pessoa, duas vezes. Ninguém propõe dois ali.

Números 8:19E eu dei os levitas a Arão e a seus filhos dentre os filhos de Israel, para que sirvam o ministério dos filhos de Israel no tabernáculo do testemunho, e reconciliem os filhos de Israel; para que não haja praga entre os filhos de Israel, quando os filhos de Israel se aproximarem do santuário.

O exemplo com que Ibn Ezra sustenta que a repetição é traço de estilo. Cinco ocorrências da mesma expressão num único versículo, exatamente onde o português usaria pronomes.

Gênesis 4:23E disse Lameque a suas mulheres: Ada e Zilá, ouvi minha voz; Mulheres de Lameque, escutai meu dito: Que matei um homem por ter me ferido, E um rapaz por ter me golpeado:

O primeiro exemplo de Rashi. Lameque fala às próprias mulheres e as chama de "mulheres de Lameque", em vez de dizer "minhas mulheres". Falar de si na terceira pessoa era formal, não estranho.

Ester 8:8Escrevei, pois, vós aos judeus como bem vos parecer em nome do rei, e selai o com o anel do rei; porque a escritura que é selada com o anel do rei, não pode ser revogada.

O terceiro exemplo de Rashi. É o próprio rei quem fala, e ele se refere a si mesmo pelo título três vezes na mesma frase. O procedimento é comum na linguagem de autoridade do mundo antigo.

Zacarias 3:2Mas o SENHOR disse a Satanás: O SENHOR te repreenda, Satanás; o SENHOR, que escolheu a Jerusalém, te repreenda. Não é este homem um tição tirado do fogo?

Outro caso em que o SENHOR fala e nomeia o SENHOR, aqui duas vezes numa fala curta. O paralelo é notável e raramente citado nas discussões sobre Gênesis 19:24.

Êxodo 34:6E passando o SENHOR por diante dele, proclamou: SENHOR, SENHOR, forte, misericordioso, e piedoso; tardio para a ira, e grande em benignidade e verdade;

O nome divino dito duas vezes seguidas, na proclamação mais citada do Antigo Testamento. A leitura rabínica clássica entende ali duas medidas de misericórdia, uma antes e outra depois do pecado — repetição tratada como significativa, e ainda assim sem pluralidade de pessoas.

Gênesis 2:5E antes que toda planta do campo existisse na terra, e antes que toda erva do campo nascesse; porque ainda não havia o SENHOR Deus feito chover sobre a terra, nem havia homem para que lavrasse a terra;

A primeira ocorrência do verbo causativo no Gênesis, e no negativo: a chuva que ainda não caíra é a razão de não haver vegetação. O mesmo verbo, três vezes no livro, liga a ausência de vida, o dilúvio e este versículo.

Gênesis 7:4Porque passados ainda sete dias, eu farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites; e apagarei toda criatura que fiz de sobre a face da terra.

A segunda ocorrência. Aqui a chuva é o instrumento do apagamento. O arco que o livro constrói com esse verbo passa por três pontos, e este é o do meio.

Êxodo 16:4E o SENHOR disse a Moisés: Eis que eu vos farei chover pão do céu; e o povo sairá, e colherá para cada um dia, para que eu lhe prove se anda em minha lei, ou não.

O mesmo verbo, a mesma origem declarada — do céu —, e o resultado oposto. É o dado que impede tratar a expressão deste versículo como um vocabulário exclusivo da destruição.

Êxodo 9:23E Moisés estendeu sua vara até o céu, e o SENHOR fez trovejar e cair granizo, e o fogo corria pela terra; e choveu o SENHOR granizo sobre a terra do Egito.

A praga que mais se aproxima desta cena em vocabulário: o mesmo verbo causativo, fogo correndo pela terra, e a fórmula "choveu o SENHOR" com o nome logo depois do verbo.

Deuteronômio 29:23(Enxofre e sal, abrasada toda sua terra: não será semeada, nem produzirá, nem crescerá nela erva nenhuma, como na destruição de Sodoma e de Gomorra, de Admá e de Zeboim, que o SENHOR destruiu em seu furor e em sua ira:)

A segunda ocorrência da palavra enxofre na Bíblia, dentro de uma maldição de aliança — e a passagem que nomeia as quatro cidades, contra as duas deste versículo.

Jó 18:15Em sua tenda morará o que não é seu; enxofre se espalhará sobre a sua morada.

O enxofre aplicado à ruína de uma pessoa, e não de uma cidade. Mostra o quanto a palavra já era, no vocabulário poético, sinônimo de destruição irreversível.

Salmos 11:6Sobre os perversos choverá laços, fogo e enxofre; e o pagamento para seu cálice será vento tempestuoso.

Aqui a fórmula está completa: o verbo de fazer chover, o fogo e o enxofre, aplicados como promessa de retribuição. É o episódio das cidades da planície virando linguagem corrente.

Isaías 34:9E seus ribeiros se tornarão em piche, e seu solo em enxofre; e sua terra em piche ardente.

O piche e o enxofre juntos, exatamente as duas substâncias que existem na bacia do mar Morto. O profeta aplica a Edom a paisagem que ficou associada à catástrofe.

Ezequiel 38:22E disputarei contra ele com pestilência e com sangue; e farei haver uma grande pancada de chuva, grandes pedras de granizo, fogo e enxofre sobre ele, sobre suas tropas, e sobre os muitos povos que estiverem com ele.

A última ocorrência da palavra no Antigo Testamento, e a que mais reúne elementos: chuva, granizo, fogo e enxofre num só golpe. A fórmula já está inteiramente formada.

Lucas 17:29Mas o dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, e destruiu a todos.

A releitura mais próxima que o Novo Testamento faz deste versículo, conservando os três elementos: o verbo da chuva, o par fogo e enxofre, e a origem celeste. É leitura posterior, e não explicação do Gênesis.

Apocalipse 20:10E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e serão atormentados dia e noite para todo o sempre.

O ponto final do percurso da fórmula, e a passagem que fixou a imagem popular. Convém medir a distância: o Gênesis fala de cidades num dia; aqui se fala do destino final do mal. As duas palavras são as mesmas; o assunto não é.

Lucas 9:54Quando seus discípulos, Tiago e João, viram isso , disseram: “Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?”

A memória do fogo que desce do céu funcionando como pedido, e sendo repreendida. Mostra que a fórmula estava viva e disponível — e que o seu uso não era automaticamente aprovado.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então o SENHOR fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo; da parte do SENHOR, desde os céus.

Texto hebraico

וַיהוָה הִמְטִיר עַל־סְדֹם וְעַל־עֲמֹרָה גָּפְרִית וָאֵשׁ מֵאֵת יְהוָה מִן־הַשָּׁמָיִם

Transliteração

va-YHWH himtir al-Sedom ve-al-Amorah gofrit va-esh me-et YHWH min ha-shamayim

Palavra por palavra

וַיהוָה (va-YHWH) — "e o SENHOR"

A conjunção colada ao nome divino, e o conjunto ocupando a primeira posição da frase, antes do verbo.

Duas coisas se sobrepõem aqui, e convém separá-las, porque a leitura corrente as embaralha.

A primeira é sintática. A prosa narrativa hebraica avança com o verbo na frente; quando o sujeito é posto antes, o avanço é interrompido e a frase ganha ar de declaração. É o que acontece neste versículo, e é o que já acontecera no anterior. O relato só volta a andar no versículo 25.

A segunda é interpretativa, e vem da tradição rabínica. Rashi registra a regra herdada de que, onde está escrito "e o SENHOR", com essa conjunção, entende-se ele e o seu tribunal — a assembleia celeste diante da qual as decisões são deliberadas. Convém marcar o estatuto disso: é convenção interpretativa, não dado gramatical demonstrável, e nem a própria tradição a aplica com uniformidade.

Sobre o nome em si: são quatro consoantes, e por isso se fala em tetragrama. As nossas traduções o vertem por SENHOR em maiúsculas. Por reverência, deixou de ser pronunciado, e quem lê em voz alta diz no lugar dele a palavra que significa "meu senhor" — costume cuja data exata de início não há consenso.

הִמְטִיר (himtir) — "fez chover"

Verbo na conjugação causativa, terceira pessoa masculina do perfeito.

O hebraico tem uma conjugação inteira dedicada a esse tipo de sentido: onde a forma simples diz "cair", a causativa diz "fazer cair". Aqui, portanto, não é "choveu": é "fez chover". A forma introduz um agente, e é essa a informação teológica mais direta do versículo.

No Gênesis, esta forma aparece três vezes. Em 2:5, no negativo, explicando por que não havia vegetação: o SENHOR ainda não fizera chover. Em 7:4, anunciando o dilúvio. E aqui. Os três pontos desenham um arco que vale ler junto, ainda que não se possa afirmar que o autor o tenha calculado.

Fora do Gênesis, o mesmo verbo descreve o granizo do Egito e — este é o dado que mais desconcerta — o maná: "farei chover pão do céu". O verbo que aqui destrói cidades é o que alimenta um povo no deserto. Muda o que desce, não a ação.

Convém acrescentar o pano de fundo material. Israel vivia numa terra que dependia inteiramente da chuva, e o Deuteronômio insiste nisso ao distinguir a terra prometida do Egito, irrigado pelo rio. A chuva era o presente por excelência. É esse presente que aqui aparece invertido.

עַל־סְדֹם וְעַל־עֲמֹרָה (al-Sedom ve-al-Amorah) — "sobre Sodoma e sobre Gomorra"

A preposição é repetida diante de cada nome, o que em hebraico é o normal e reforça a distribuição: sobre uma e sobre a outra.

Vale reparar em quantas cidades não estão aqui. O capítulo 14 arrolou cinco: Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Belá, que é Zoar. Zoar foi poupada a pedido; Admá e Zeboim simplesmente não são mencionadas.

Que foram quatro, sabe-se por outros textos: Deuteronômio 29 nomeia as quatro, e Oseias 11 usa Admá e Zeboim como termo de comparação. A explicação corrente é que Sodoma e Gomorra funcionam como o par que representa o conjunto. É plausível e o texto não a fornece.

Sobre a etimologia dos dois nomes não há acordo. Foram propostas ligações com raízes que significariam queimar, ou submergir, ou monte — todas discutidas e nenhuma demonstrada. Convém desconfiar de comentários que apresentam essas etimologias como se fossem estabelecidas.

גָּפְרִית (gofrit) — "enxofre"

Substantivo feminino. Designa a substância amarela, quebradiça, muito inflamável, que queima com chama azul e cheiro sufocante, e que ocorre em depósitos na bacia do mar Morto.

A palavra aparece sete vezes em toda a Bíblia hebraica, e esta é a primeira. As outras estão em Deuteronômio 29, Jó 18, Salmo 11, Isaías 30, Isaías 34 e Ezequiel 38. Em nenhuma delas o enxofre é um mineral neutro: é sempre juízo divino. A palavra entra na Bíblia aqui e não sai mais desse campo.

Quanto à origem, é preciso dizer que não há certeza. A hipótese mais repetida a liga a gofer, a madeira da arca de Noé, supondo uma árvore resinosa e inflamável. O problema é que gofer aparece uma única vez em toda a Bíblia e o seu significado é ele mesmo discutido: explicar uma palavra obscura por outra é procedimento frágil. Há ainda quem proponha origem estrangeira, de alguma língua da região do Irã antigo. Não é possível decidir.

Vale registrar o que aconteceu com a palavra na tradução grega, porque isso explica a história posterior da frase. Ela foi vertida por theíon, que coincide na escrita com a forma neutra do adjetivo que significa "divino". Alguns antigos explicaram a coincidência pelo cheiro que fica onde caiu um raio; a etimologia é discutida. O efeito prático é que o leitor grego encontrava aqui uma palavra com sonoridade de coisa divina — e foi nessa língua que o Apocalipse construiu a imagem do lago de fogo e enxofre.

וָאֵשׁ (va-esh) — "e fogo"

Conjunção mais a palavra comum para fogo. Não há aqui nada de raro no vocabulário; o que é notável é a companhia.

O fogo vindo de Deus é motivo recorrente na Bíblia hebraica, e com uma ambivalência que vale registrar. Ele desce sobre o altar e consome o sacrifício, e isso é sinal de aceitação. Desce sobre dois sacerdotes que ofereceram fogo estranho, e isso é morte. Desce a pedido de Elias no Carmelo, e depois sobre dois grupos de cinquenta homens. Consome os que ofereciam incenso na revolta do deserto.

O mesmo elemento significa acolhimento e aniquilamento, conforme a direção. Este versículo herda esse vocabulário sem comentá-lo.

A dupla enxofre e fogo, formada aqui, vai reaparecer ao longo de todo o cânon, do Deuteronômio ao Apocalipse, sempre como fórmula de destruição definitiva vinda de Deus.

מֵאֵת יְהוָה (me-et YHWH) — "da parte do SENHOR"

Aqui está o problema do versículo, e a preposição merece atenção.

Me-et é composta: a preposição de proveniência somada à partícula que indica proximidade ou companhia. O sentido literal é "de junto de", "da presença de" — e não simplesmente "de". É a expressão usada para dizer que algo saiu de onde alguém está.

Escolha significativa? Talvez. O hebraico dispunha de formas mais simples, e a que foi usada cria uma imagem de procedência a partir de um lugar ocupado. Não é possível decidir se isso é deliberado ou apenas idiomático.

É a segunda ocorrência do nome divino na oração, e é dela que nasce a discussão de dois mil anos. As leituras propostas — traço de estilo, ênfase solene, tribunal celeste, duas pessoas divinas — estão desenvolvidas no item 3, com o que cada uma tem de forte e de frágil.

Aqui basta a observação de língua: o hebraico bíblico repete substantivos onde as línguas modernas usam pronomes, e o exemplo que Ibn Ezra oferece é conferível por qualquer leitor — cinco ocorrências de "os filhos de Israel" num único versículo de Números. Isso mostra que a repetição é possível como estilo. Não demonstra que esta repetição seja apenas isso.

מִן־הַשָּׁמָיִם (min ha-shamayim) — "desde os céus"

A preposição de origem mais a palavra para céu, que em hebraico tem forma de plural.

A informação é de proveniência: aquilo veio de cima. Dentro do relato, isso exclui qualquer descrição de causa terrestre — não se diz que a terra se abriu ou que o chão explodiu.

Convém ser exato quanto ao alcance disso. O texto está nomeando a autoria, e não descrevendo um mecanismo. Um leitor pode sustentar que a causa material foi terrestre e que o texto atribui o ato a quem o quis; as duas coisas não se excluem, e o próprio texto não formula a distinção.

Vale notar ainda que o céu é, no mesmo vocabulário, a origem do pão que sustenta. "Farei chover pão do céu", diz o Êxodo, com o mesmo verbo e a mesma origem declarada.

E vale notar o acréscimo que essa expressão faz ao problema da frase. Com ela, um SENHOR aparece agindo e o outro aparece situado nos céus — e é essa distância que a leitura de duas pessoas divinas explorou. A explicação estilística acomoda o dado; convém reconhecer que não o elimina.

Nota textual — as versões antigas mantêm o nome duas vezes

Uma pergunta natural de quem desconfia: será que a repetição é erro de cópia, e que algum manuscrito traz o nome uma vez só?

Pelo que a crítica textual registra, não. O texto hebraico transmitido, a tradução grega antiga, o Pentateuco Samaritano e a versão latina trazem as duas ocorrências. Não há variante conhecida que resolva o problema apagando a segunda.

Isso tem duas consequências, e as duas merecem ser ditas.

A primeira: a estranheza não é acidente de transmissão. É a forma do texto em todo o material que sobreviveu.

A segunda, e mais interessante: ninguém a "consertou". Era uma construção incômoda, fácil de alisar com uma palavra, disputada em controvérsia desde pelo menos o segundo século — e copistas e tradutores a deixaram como estava, nos dois lados da disputa.

Convém acrescentar um dado que pesa sobre o argumento antigo. Foi na tradução grega que a discussão se travou, e nela o nome próprio de Deus tinha sido vertido pela palavra comum que significa senhor. Isso apaga uma distinção do hebraico e torna a frase mais estranha do que ela é no original. Registro o dado; ele enfraquece a base do argumento sem demonstrar que a conclusão seja falsa.

Nota teológica — o que se pode e o que não se pode afirmar

Convém encerrar separando três camadas que costumam chegar embaralhadas ao leitor.

O dado: o nome divino aparece duas vezes na mesma oração, com uma preposição de proveniência entre as duas menções e a indicação "desde os céus" no fim. Isso está no texto e não depende de ninguém.

As leituras: traço de estilo da língua, ênfase de fórmula de juízo, tribunal celeste, duas pessoas divinas. Todas são reconstruções, produzidas séculos depois, por leitores competentes e por leitores interessados — frequentemente as mesmas pessoas.

As conclusões doutrinárias que se tiram das leituras: é aqui que o cuidado precisa ser maior, porque uma frase de dez palavras não sustenta o peso que se costuma pôr sobre ela, em nenhuma das direções.

E vale registrar o guarda-corpo, porque este versículo é usado como arma nos dois sentidos. Contra quem o apresenta como prova cabal de pluralidade em Deus, pesa o fato de que, um capítulo antes, o SENHOR fala de si na terceira pessoa sem que ninguém proponha dois. Contra quem o descarta como se não houvesse nada ali, pesa o fato de que a construção é incomum e foi notada como incomum pelas duas tradições.

Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que a repetição existe, que atravessou intacta toda a transmissão, e que ela permanece em aberto — o que é uma descrição da situação, e não uma recusa de trabalhar.

11. Conclusão

Dez palavras em hebraico, e dentro delas duas ocorrências do nome divino separadas por uma preposição que significa "de junto de". Nenhum manuscrito conhecido traz o nome uma vez só; a tradução grega antiga, o Pentateuco Samaritano e a versão latina conservam as duas menções, e nenhum copista tratou de alisar a construção, embora ela estivesse em disputa aberta desde pelo menos o segundo século. Quem quiser conferir não precisa de erudição nenhuma: precisa contar.

Sobre o que fazer com esse dado, quatro caminhos foram abertos e continuam abertos. Ibn Ezra, que conhecia a língua bíblica como poucos, respondeu em duas linhas que a expressão é elegância do hebraico e vale por "da parte dele mesmo", e ofereceu uma prova que qualquer leitor confere abrindo Números 8:19 e contando cinco ocorrências de "os filhos de Israel" num só versículo. Rashi acrescentou a leitura da conjunção como indicando a corte celeste, e repetiu, quanto à repetição do nome, a mesma explicação de convenção da língua, com três exemplos conferíveis. Justino Mártir, por volta de meados do segundo século, leu na frase dois em número, um sobre a terra e outro nos céus, e explicou a relação com a imagem de fogos acesos a partir de um fogo. E há a leitura que vê apenas o peso de uma sentença solene, compatível com todas as outras e por isso incapaz de decidir contra qualquer uma.

Este comentário não escolhe, e convém dizer por quê, em vez de deixar a recusa no ar. O texto não explica: não diz que há dois, não diz que é modo de falar, não comenta a repetição de maneira alguma. As quatro leituras cabem nos dados e nenhuma é exigida por eles — que é exatamente o que significa não ser possível decidir. E pesa, contra a mais ambiciosa delas, um dado que está no capítulo anterior: em Gênesis 18:19 o próprio SENHOR fala de si na terceira pessoa, e ninguém propõe dois ali. Pesa também o fato de que a discussão antiga foi travada em grego, onde o nome próprio de Deus tinha sido vertido pela palavra comum que significa senhor, o que apagou uma distinção do original e tornou a frase mais estranha do que ela é. Nada disso demonstra que a leitura esteja errada; obriga apenas a examiná-la com a régua que se aplica a qualquer argumento produzido por quem já tem a conclusão. E a mesma régua vale para o outro lado, porque os comentaristas judeus medievais também escreviam sob controvérsia e também tinham o que proteger.

Enquanto a discussão sobre o nome ocupa o palco, a outra metade do versículo faz um trabalho silencioso e definitivo. Duas palavras — enxofre e fogo — entram juntas aqui pela primeira vez. A primeira delas ocorre sete vezes em toda a Bíblia hebraica, e em nenhuma das outras seis designa um mineral neutro: é sempre juízo. Daqui a dupla sai para a maldição de aliança do Deuteronômio, para a ruína pessoal de Jó, para a retribuição prometida num salmo, para a pira de Tofete e o solo de Edom em Isaías, para a visão de Ezequiel, e depois, em grego, para as seis aparições no Apocalipse, onde vira o lago que a imaginação popular chamou de inferno. Um episódio que o texto situa num dia e num lugar do mapa forneceu o vocabulário com que a Bíblia inteira passou a dizer destruição definitiva.

Convém medir a distância entre uma coisa e outra, porque atravessá-la sem aviso é o erro mais comum que se comete com este versículo. O Gênesis fala de cidades, de moradores e de uma manhã. Não menciona alma, não menciona o que há depois da morte, não menciona duração. A imagem do tormento sem fim foi construída depois, em outra língua, sobre outro assunto, com estas duas palavras emprestadas. Reconhecer isso não anula os textos posteriores; impede apenas de ler o primeiro livro através do último, que é o que quase todo leitor moderno faz sem perceber.

Sobra um detalhe do verbo que talvez seja a coisa mais desconfortável da página, e que não depende de nenhuma das disputas anteriores. A forma escolhida é causativa: não "choveu", mas "fez chover" — e é exatamente a mesma forma com que o Êxodo anuncia o pão que descerá do céu para alimentar um povo faminto, e com que o salmo lembra que choveu o maná para que comessem. A ação é idêntica na sua estrutura: fazer descer do alto o que não estava lá. Muda a matéria, e não o gesto. Numa terra que dependia inteiramente da chuva, e onde a chuva era o sinal visível de que as coisas iam bem, é esse o gesto que aqui aparece invertido. O texto não comenta a inversão, não a explica e não pede desculpas por ela. Apenas a executa, com o nome dito duas vezes, e passa ao versículo seguinte.

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Gênesis 19:24

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