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Gênesis 19:23

✍️ Por Alberto Adriano·20 de agosto de 2026·⏱️ 57 min de leitura·👁 9 acessos
O sol já havia nascido sobre a terra quando Ló chegou a Zoar.
Homem exausto entrando pelo portão de uma pequena cidade murada ao amanhecer, com a planície árida e o disco do sol baixo no horizonte atrás dele.

Estudo


O sol já havia nascido sobre a terra quando Ló chegou a Zoar.

1. Introdução

Parece uma frase de cenário. Não é.

É a marcação de hora de uma cena que estava cronometrada desde o começo, e o leitor apressado passa por cima dela como quem passa por cima de uma rubrica de teatro.

O capítulo abriu ao anoitecer. No meio da noite, uma multidão cercou uma casa. Ao raiar da alva, os mensageiros acordaram Ló. Ele demorou, foi arrastado pela mão, negociou o destino da fuga e recebeu o que pediu. E agora o sol nasce.

Duas consequências saem daí, e as duas contrariam a intuição.

A primeira: o que vem a seguir acontece de dia. Não há escuridão, não há tempestade noturna, não há o manto que a imaginação costuma pôr sobre catástrofes. Há luz plena.

A segunda: a chegada de Ló a Zoar não é um detalhe de itinerário. O versículo anterior tinha estabelecido uma condição — nada podia acontecer enquanto ele não chegasse ali. Este versículo informa, sem comentar, que a condição foi cumprida.

De modo que a frase mais discreta do bloco é justamente a que destrava tudo o que vem depois. E ela faz isso com duas notas de relógio postas lado a lado, sem nenhuma conjunção que explique a relação entre elas.

O que se pode dizer sobre esse silêncio, e o que não se pode, é o assunto deste estudo.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde a cena está

Convém refazer a linha do tempo, porque é dela que este versículo é feito.

Dois mensageiros chegaram a Sodoma ao entardecer e foram hospedados por Ló. Durante a noite, os homens da cidade cercaram a casa e exigiram os hóspedes; Ló ofereceu as filhas; os mensageiros o puxaram para dentro e feriram a multidão com uma cegueira momentânea.

Ainda de noite, Ló saiu a avisar os genros, e não foi levado a sério. Ao raiar da alva, os mensageiros o apressaram. Ele demorou; foi tirado pela mão, com a mulher e as duas filhas, e posto fora da cidade.

Fora dos muros, recebeu a ordem de fugir para o monte e não olhar para trás. Alegou que não conseguiria chegar tão longe, pediu para se refugiar numa cidade pequena que ficava perto, e o pedido foi atendido.

A cena que este versículo fecha é, portanto, uma fuga a pé, de madrugada, com quatro pessoas, uma delas relutante.

Como se marcava a hora sem relógio

Vale explicar o que significa "o sol nasceu" num mundo sem instrumentos de medida do tempo.

A divisão do dia em horas iguais é invenção posterior, e a divisão em minutos é muito posterior. No mundo do Gênesis, o dia era marcado por acontecimentos visíveis do céu: o anoitecer, a alta noite, o momento em que o primeiro clarão aparece no horizonte, o instante em que o disco solar sai por inteiro, o meio-dia, o declínio da tarde.

Esses marcos não são equivalentes entre si nem intercambiáveis. Entre o primeiro clarão e o disco visível vai um intervalo apreciável — no vale do Jordão, em época de verão, algo em torno de uma hora, embora a duração exata varie com a estação e com o relevo.

O capítulo usa dois desses marcos com precisão. No versículo 15, os mensageiros apressam Ló quando "subia a alva": é o clarão, ainda sem o disco. Aqui, o disco já saiu.

Ou seja: entre a ordem de sair e a chegada a Zoar passa exatamente o tempo que a narrativa mede com o céu. Não é vago. É a única cronometragem disponível àquela cultura, e ela está sendo usada com cuidado.

Uma cidade que se pode apontar no mapa

Aqui há um dado incomum neste capítulo, e vale destacá-lo antes que a discussão sobre Sodoma engula tudo: Zoar tem localização razoavelmente estabelecida, e isso não depende de nenhuma teoria sobre onde ficavam as cidades destruídas.

O sítio corrente é Ghor es-Safi, na margem sudeste do mar Morto, hoje em território da Jordânia, na desembocadura do uádi Hasa.

A cadeia de testemunhos é longa e independente. Josefo, no primeiro século, menciona a cidade. Ptolomeu, o geógrafo, também. Eusébio de Cesareia, no começo do quarto século, e Jerônimo, ao traduzi-lo, registram o lugar na obra que lista os topônimos bíblicos. Um peregrino do sexto século elogia os monges e as tamareiras dali. Geógrafos árabes do décimo século gabam as tâmaras da região. Viajantes medievais chamam o lugar de Palmer.

E há o testemunho mais vistoso: o mapa em mosaico de Mádaba, do sexto século, feito no piso de uma igreja bizantina, traz a cidade com o nome grego e a nota de que é a antiga Belá.

O que se escavou ali

Vale separar o que é achado material do que é tradição piedosa, porque no caso de Zoar as duas coisas convivem no mesmo lugar.

Em Deir Ain Abata, na encosta acima da planície, escavações identificaram um conjunto bizantino: uma igreja de planta basilical construída diante de uma caverna, com inscrições em mosaico que ligam o santuário a Ló. É um sítio de peregrinação dos séculos quinto a oitavo, e não uma camada da Idade do Bronze.

Isso significa uma coisa precisa, e convém enunciá-la sem exagero para nenhum lado. O que se escavou não prova que a caverna do versículo 30 seja aquela caverna. Prova que, no quinto século da nossa era, se acreditava que fosse — e que se construiu uma igreja para marcar o ponto.

Em Khirbet Sheikh Isa, na mesma área, campanhas realizadas entre 1986 e 1996 recolheram cerca de trezentas lápides funerárias inscritas, dos séculos quarto e quinto. Um detalhe delas merece registro: judeus e cristãos foram sepultados no mesmo cemitério, e há inscrições que misturam escritas diferentes.

Nada disso toca no evento narrado no capítulo. Toca em outra coisa, que é o que a arqueologia de fato pode oferecer aqui: a continuidade do lugar. Zoar foi habitada, cultivada, visitada e sepultada por séculos, e a memória do nome atravessou o grego, o latim, o siríaco e o árabe sem se perder.

Uma fuga a pé, e o que isso custava

Falta o dado material mais simples, e ele explica o versículo melhor que qualquer teologia.

Quatro pessoas saem a pé de uma cidade, sem animais de carga mencionados, sem provisões mencionadas, levando o que estivesse no corpo. Uma delas resiste; foi preciso segurá-la pela mão.

O terreno é o fundo de um vale que fica muito abaixo do nível do mar, com salinas, poços de betume e encostas íngremes a leste e a oeste. A subida para o monte, que foi a rota recomendada, é uma escalada de centenas de metros. A alternativa que Ló pede é uma cidade da própria planície, no plano.

Quando ele diz que não conseguirá chegar ao monte antes que o mal o alcance, está fazendo um cálculo de caminhada, não uma figura de retórica. E este versículo é a informação de que o cálculo fechou: o sol saiu, e ele chegou.

Convém guardar a ironia sem sublinhá-la: a cidade escolhida por ser a mais alcançável será abandonada por medo poucos versículos adiante, e o monte recusado será o destino final.

3. Análise Teológica do Versículo

"O sol já havia nascido sobre a terra"

O hebraico é ha-shemesh yatsa al-ha'arets — literalmente "o sol saiu sobre a terra".

Comecemos pelo verbo, porque a escolha dele é significativa e quase nunca é comentada.

O hebraico tem um verbo próprio para o nascer do sol: zarach, brilhar, raiar. É o verbo empregado, por exemplo, quando Jacó atravessa o Peniel depois da luta noturna. Não é esse que aparece aqui.

Aqui está yatsa, sair, vir para fora. É o verbo do movimento de quem deixa um lugar fechado: sai-se de uma casa, de uma cidade, de uma tenda, do ventre, do Egito.

Aplicado ao sol, ele carrega uma imagem antiga e difundida — a de que o astro se recolhe de noite e sai de manhã, como quem deixa a câmara onde dormiu. O Salmo 19 desenvolve essa imagem por extenso, comparando o sol ao noivo que sai do seu quarto.

Vale marcar o limite: não se pode afirmar que o narrador tenha escolhido yatsa pensando nisso. O verbo é comum e a construção é natural em hebraico. Registro o campo de sentido, e não uma intenção.

Mas há um dado que não é de campo semântico, e sim de estrutura da frase — e esse é verificável.

A segunda metade do versículo diz que Ló ba, "entrou", "chegou". E yatsa e bo são, no hebraico bíblico, o par clássico de opostos. Sair e entrar. A dupla forma uma expressão feita para designar a vida inteira de uma pessoa: "bendito serás no teu entrar e no teu sair".

Ou seja, num único versículo curto: o sol sai, e Ló entra. Os dois movimentos contrários acontecem ao mesmo tempo, e são ditos com os dois verbos que a língua usa para se opor um ao outro.

Isso não é invenção do comentarista, e não depende de tradução: está nas duas palavras. O que se pode discutir é se o efeito foi procurado ou se caiu por acaso, e isso não é possível decidir.

A construção da frase, e por que o relato parece parar

Uma observação de sintaxe que muda a leitura do bloco inteiro, e que é fácil de conferir mesmo sem hebraico, contando as palavras.

A prosa narrativa hebraica anda com uma forma verbal específica, que se costuma chamar de forma consecutiva: o verbo vem na frente, prefixado por uma conjunção, e cada frase empurra a história um passo adiante. É o "e disse", "e foi", "e saiu" que o leitor encontra às centenas no Gênesis.

Este versículo não faz isso. Ele põe o sujeito na frente, duas vezes seguidas: "o sol — saiu"; "e Ló — chegou".

Em hebraico, essa inversão tem função conhecida: ela suspende o avanço da narrativa e apresenta as duas coisas como simultâneas, como pano de fundo, e não como passos sucessivos.

O efeito é o de uma câmera que para. O relato vinha correndo — levanta, sai, apressa, agarra, foge, pede, concede — e de repente estaciona em duas imagens paradas e simultâneas: o disco do sol subindo, e um homem entrando por uma porta.

E há mais. O versículo seguinte também põe o sujeito na frente, e só o versículo 25 volta à forma que faz a história andar.

Quer dizer: são três frases seguidas fora do andamento normal do relato, e é exatamente nesse intervalo suspenso que a catástrofe acontece. Depois disso, a narrativa retoma o passo com o verbo da destruição.

Registro como observação de estilo. Ela é constatável e me parece deliberada; não é demonstrável que o autor a tenha calculado, e um leitor cauteloso pode atribuí-la ao acaso da composição.

O relógio do capítulo

Reúna-se agora tudo o que o capítulo informa sobre a hora, porque o conjunto é notável e a leitura corrente não repara nele.

Versículo 1: os dois mensageiros chegam a Sodoma ao entardecer. Ló está sentado à porta da cidade.

Versículo 2: ele os convida a pernoitar, e eles recusam, dizendo que passarão a noite na praça. Ele insiste, e eles cedem.

Versículo 4: antes de se deitarem, a casa é cercada.

Versículo 15: ao subir a alva, os mensageiros apressam Ló.

Versículo 23: o sol sai.

Versículo 27: Abraão se levanta de manhã cedo e vai ao lugar de onde falara com o SENHOR.

Seis marcações de tempo em vinte e sete versículos. Poucos capítulos da Bíblia hebraica são tão cronometrados quanto este.

E a conta fecha: tudo o que o capítulo narra até aqui — a chegada, a hospedagem, o cerco, a cegueira, o aviso aos genros, a demora, o resgate pela mão, a negociação da rota, a caminhada até Zoar — cabe numa noite.

Convém deixar isso assentado, porque a imaginação popular costuma esticar o episódio em dias. Não são dias. É o intervalo entre um entardecer e o nascer do sol seguinte.

A destruição em plena luz

Agora o ponto que este versículo estabelece e que a intuição resiste a aceitar.

Se o sol já saiu quando Ló chega, e a destruição vem no versículo seguinte, então a destruição acontece de dia.

Vale medir o quanto isso contraria o esperado. As catástrofes divinas que a memória do leitor guarda são quase todas noturnas.

A décima praga do Egito acontece à meia-noite. O anjo que fere o acampamento assírio age de noite, e o exército aparece morto ao amanhecer. A destruição de Jericó envolve marchas diurnas, mas o desfecho é apresentado como um estrondo. A escuridão é o cenário natural do juízo na imaginação religiosa, e os profetas depois vão usá-la como imagem — o dia do SENHOR como trevas, e não luz.

Aqui, não. Aqui o narrador se dá ao trabalho de informar que o sol já estava fora antes de contar o que aconteceu.

O que se pode extrair disso, com cautela?

Uma coisa apenas, e ela é sólida: o evento é apresentado como visível. Não há cobertura. Não há a ambiguidade de um estrondo na escuridão. O versículo 28 confirmará o efeito prático dessa escolha — Abraão, a quilômetros de distância, olha e vê a fumaça subindo da terra.

Convém não ir além. O texto não diz por que era de dia. Não comenta a escolha da hora. Não a interpreta.

E convém registrar que a tradição foi além, e que isso é leitura, não texto. Rashi, o comentarista francês do século onze, propôs que o momento escolhido foi aquele em que o sol e a lua estão ambos no céu, para que nem os adoradores de um nem os do outro pudessem alegar que o seu astro os teria salvo se a hora fosse diferente. É midraxe, é engenhoso, e não está no versículo.

Um sol que era um deus, e um juiz

Há um fundo cultural que a frase pressupõe e não enuncia, e vale trazê-lo com o cuidado devido.

Na Mesopotâmia, o sol era uma divindade chamada Shamash — e a função dela não era só iluminar. Shamash era o deus da justiça, aquele diante de quem se prestavam juramentos e a quem se atribuía a autoria dos julgamentos justos.

A cena mais conhecida dessa associação está no alto da estela do código de Hamurabi, onde o rei aparece diante do deus solar recebendo os símbolos da autoridade de julgar.

A lógica por trás disso é direta: o sol vê tudo o que acontece sobre a terra, e quem vê tudo é a testemunha ideal, portanto o juiz ideal.

A Bíblia hebraica não diviniza o sol — pelo contrário, o primeiro capítulo do Gênesis o reduz deliberadamente a uma lâmpada, sem nem lhe dar o nome, chamando-o de "luminar maior". Mas o vocabulário da justiça e da luz permaneceu na língua, e o último livro do Antigo Testamento ainda falará de um "sol da justiça" que se levantará com cura nas asas.

Aplicado a este versículo, o alcance disso é limitado e vale enunciá-lo com honestidade. Não se pode afirmar que o narrador esteja evocando Shamash. Não há nenhuma marca de que esteja.

O que se pode dizer é que, num mundo em que o sol e o julgamento andavam associados, a informação de que um juízo se deu com o sol fora do horizonte não era uma nota meteorológica indiferente. Era, no mínimo, uma coincidência carregada.

Registro como leitura possível, e sublinho que é leitura.

"quando Ló chegou a Zoar"

Passemos à segunda metade, que é a que carrega o peso teológico.

O verbo é ba, entrar, chegar, vir. Não há adjetivo, não há advérbio, não há avaliação. Um homem entra numa cidade.

E, no entanto, esta é a frase que destranca o capítulo.

Volte-se ao versículo 22. Ali, depois de conceder o pedido de Ló, quem fala diz: "nada posso fazer enquanto você não chegar ali".

É uma frase pesadíssima, e o presente versículo é o cumprimento exato da condição que ela estabeleceu. O sol saiu; Ló entrou; agora pode.

Convém expor a dificuldade sem amaciá-la, porque ela é real.

A frase do versículo 22 diz, na sua superfície, que uma ação divina estava impedida por uma circunstância humana — a saber, que um homem ainda estava a caminho. E este versículo confirma que a ação só ocorre depois que o homem chega.

As saídas propostas são conhecidas, e cada uma tem o seu preço.

A primeira: trata-se de linguagem acomodada à compreensão humana, do mesmo tipo que fala das mãos, dos olhos e do arrependimento de Deus. É explicação legítima e antiga; o preço é que ela pode ser aplicada a qualquer frase incômoda, e uma explicação que serve para tudo explica pouco.

A segunda: o impedimento não é de poder, mas de decisão — foi assumido um compromisso no versículo 21, e o que está em jogo é a palavra dada, não a capacidade. Esta leitura é forte e tem apoio no contexto imediato, já que a fala vem logo depois de uma concessão expressa.

A terceira: quem fala é o mensageiro, não o SENHOR, e o "não posso" é a fala de um enviado que age sob ordem. O capítulo alterna entre o enviado e quem envia com uma fluidez que nunca é explicada, e essa alternância é um problema real do texto, não uma invenção de comentaristas.

Não é possível decidir entre as três. As três cabem nos dados, e o Gênesis não formula nenhuma delas.

O que se pode afirmar é mais modesto e mais interessante: o relato faz o início da catástrofe depender do passo de um homem. A destruição das cidades tem, como gatilho narrativo declarado, a entrada de uma pessoa numa porta.

Zoar, a pequena — e o nome que ficou

Vale abrir o nome da cidade, porque ele é feito da conversa que acabou de acontecer.

Tsoar vem da raiz tsa'ar, ser pequeno, ser insignificante. E, dois versículos antes, Ló havia usado exatamente essa raiz ao argumentar: a cidade é pequena — mits'ar hi — e ele repete o argumento como quem insiste, "não é ela pequena?".

O narrador então informa, no fim do versículo 22, que foi por isso que a cidade recebeu esse nome.

Ou seja: o nome que o versículo 23 usa é um nome que acabou de nascer, dentro do próprio relato, a partir da palavra que Ló empregou para pedir clemência.

Convém dizer o que o Gênesis mesmo diz sobre o nome anterior. Em Gênesis 14, na lista dos cinco reis, a cidade aparece como Belá — "a qual é Zoar", acrescenta o texto, exatamente como se acrescenta uma equivalência para o leitor que só conhece o nome novo.

Vale registrar também o que esse tipo de explicação é. Chama-se etiologia: uma narrativa que explica a origem de um nome, de um costume ou de uma formação natural. O Gênesis está cheio delas, e nem sempre a etimologia proposta é a que os linguistas modernos aceitam.

Não é possível decidir se o nome veio do episódio ou se o episódio foi contado a partir do nome. As duas direções são plausíveis, e o texto não permite escolher.

Uma última observação sobre essa cidade, e é do próprio capítulo. Zoar sobrevive porque foi pedida. Não há mérito atribuído a ela, não há justos contados dentro dela, não há nada dito sobre os seus moradores. Ela escapa por uma negociação de conveniência de um fugitivo cansado.

O texto registra isso sem comentário. E é bom não preencher o comentário que ele não fez.

Os nascer-do-sol do Gênesis

Vale percorrer o livro atrás dos outros momentos em que o sol aparece no horizonte, porque o padrão que se desenha é instrutivo — e porque a comparação mais próxima traz uma diferença que precisa ser dita.

Em Gênesis 32, depois de uma noite inteira de luta com um desconhecido junto ao vau do rio, o texto diz que o sol se levantou para Jacó quando ele passava o Peniel — e acrescenta que ele mancava da coxa.

A semelhança de situação é forte. Nos dois casos, uma noite de perigo; nos dois casos, o dia raiando sobre alguém que atravessou; nos dois casos, um sobrevivente marcado.

A diferença precisa ser registrada com honestidade, porque quem junta as duas passagens costuma escondê-la: o verbo não é o mesmo. Em Gênesis 32 está zarach, raiar, brilhar, e com a preposição "para ele" — o sol raiou para Jacó. Aqui está yatsa, sair, e sobre a terra, sem destinatário.

Isso desfaz a leitura fácil de que o sol nasce "para" Ló como sinal de favor. Não nasce para ninguém neste versículo. Nasce sobre a terra.

Vale o contraste em outra direção. Em Gênesis 28, Jacó chega a um lugar e ali dorme porque o sol se pusera; ao acordar, descobre que o lugar era a casa de Deus e não sabia. O pôr do sol ali marca o começo de uma revelação.

E em Gênesis 15, é ao pôr do sol que cai sobre Abrão um sono profundo e um horror de grande escuridão, e é depois de anoitecer que o fogo passa entre as metades dos animais.

Reunindo: no Gênesis, o encontro com Deus tende a acontecer no escuro, e o dia costuma nascer sobre quem sobreviveu a ele. Este versículo se encaixa nesse padrão sem forçar nada.

Marco o alcance: é um padrão observado, não uma regra enunciada pelo livro. Há contraexemplos — a visita de Gênesis 18 acontece no calor do dia —, e um padrão com contraexemplos é uma tendência, não uma lei.

O que este versículo não diz

Fecho o item com o inventário dos silêncios, porque em versículos curtos é neles que a leitura costuma escorregar.

O texto não diz quanto tempo durou a caminhada. Não diz a distância. Não diz se os quatro chegaram juntos — repare que o versículo nomeia só Ló, e a mulher e as filhas não são mencionadas aqui.

Este último ponto merece atenção, porque o versículo 26 vai informar que a mulher olhou para trás, e nada no texto esclarece se ela já estava dentro da cidade, se ficou pelo caminho, ou em que momento exato aquilo aconteceu.

O texto também não diz que houve alívio, ou alegria, ou agradecimento. Não há reação nenhuma registrada de quem chegou.

E não diz que o sol nascendo era um sinal para alguém. Diz que o sol saiu.

A tentação, diante de um versículo assim, é preenchê-lo com o que a cena parece pedir — o suspiro do fugitivo, a luz da salvação, o novo dia. Nada disso está escrito. O que está escrito é uma hora e uma chegada, postas lado a lado, sem conjunção que as ligue.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

— sobrinho de Abraão, morador de Sodoma desde Gênesis 13. Neste versículo é o único personagem nomeado: a mulher e as duas filhas, que saíram com ele no versículo 16, não são mencionadas na chegada.

Zoar — a cidade pequena pedida por Ló no versículo 20 e concedida no 21. O nome vem da raiz tsa'ar, ser pequeno, e nasce dentro do próprio relato, do argumento que ele usou para pedi-la.

Belá — o nome anterior da mesma cidade, registrado em Gênesis 14:2 e 14:8 na lista dos cinco reis da planície, com a nota "a qual é Zoar" acrescentada para o leitor.

Ghor es-Safi — sítio na margem sudeste do mar Morto, hoje na Jordânia, junto à foz do uádi Hasa, identificado com a Zoar antiga por uma cadeia de testemunhos que vai de Josefo aos geógrafos árabes medievais.

Mapa de Mádaba — mosaico de piso de uma igreja bizantina do sexto século, na Jordânia, com a representação mais antiga conhecida da região em forma de mapa. Traz a cidade pelo nome grego, com a indicação de que é a antiga Belá.

Deir Ain Abata — sítio na encosta acima da planície de Zoar, com uma igreja bizantina de planta basilical construída diante de uma caverna e inscrições que a ligam a Ló. É lugar de peregrinação dos séculos quinto a oitavo, e não camada da Idade do Bronze.

Khirbet Sheikh Isa — cemitério da mesma área, escavado entre 1986 e 1996, de onde vieram cerca de trezentas lápides inscritas dos séculos quarto e quinto, com sepultamentos judaicos e cristãos lado a lado.

Shemesh (sol) — o astro, sem qualquer traço de divindade no relato. Note-se que o primeiro capítulo do Gênesis evita o nome próprio dos astros e os chama de luminares, o que é lido por muitos estudiosos como uma dessacralização deliberada.

Yatsa (sair) — o verbo usado aqui para o sol. Não é o verbo específico do nascer do sol, que é zarach. É o verbo geral do movimento para fora, o mesmo de sair de uma casa, de uma cidade ou do Egito.

Bo (entrar, chegar) — o verbo aplicado a Ló, e o oposto exato de yatsa no vocabulário hebraico. A dupla sair-e-entrar é expressão feita para designar a atividade inteira de uma pessoa.

Alot ha-shachar (o subir da alva) — a marcação de tempo do versículo 15, o primeiro clarão antes do disco solar. Entre ela e este versículo passa o intervalo em que a fuga acontece.

Shamash — o deus solar mesopotâmico, patrono da justiça e dos juramentos, representado no alto da estela do código de Hamurabi entregando ao rei os símbolos da autoridade de julgar. Não é citado pelo Gênesis; é o pano de fundo cultural da associação entre sol e juízo.

Peniel — o lugar em que o sol se levanta sobre Jacó depois da luta noturna, em Gênesis 32. É o paralelo mais próximo deste versículo, com um verbo diferente e um destinatário expresso, o que impede tratar as duas cenas como iguais.

Eusébio de Cesareia e Jerônimo — o primeiro compôs, no começo do quarto século, a lista dos topônimos bíblicos com as suas localizações; o segundo a traduziu para o latim e a ampliou. Ambos registram Zoar, o que mostra que o lugar era conhecido e apontável naquela época.

Etiologia — narrativa que explica a origem de um nome, de um costume ou de uma formação natural. O versículo 22 traz uma, ao explicar o nome de Zoar; o Gênesis está cheio delas, e nem sempre a etimologia proposta coincide com a que a linguística moderna aceita.

5. Pontos de Ensino

O capítulo é cronometrado. Seis marcações de tempo em vinte e sete versículos: entardecer, antes de deitar, o subir da alva, o sol fora, a manhã de Abraão.

Tudo cabe numa noite. Da chegada dos mensageiros à chegada de Ló a Zoar passa o intervalo entre um entardecer e o nascer do sol seguinte.

A destruição acontece de dia. O versículo estabelece que o sol já estava fora antes do que vem a seguir, o que contraria a imagem noturna que a leitura corrente projeta sobre a cena.

O evento é apresentado como visível. Isso se confirma no versículo 28, quando Abraão, a distância, olha e vê a fumaça subindo.

O verbo do sol não é o do nascer do sol. Está yatsa, sair, e não zarach, raiar — que é o verbo usado no episódio do Peniel, em Gênesis 32.

Sair e entrar são o par de opostos da língua. No mesmo versículo, o sol sai e Ló entra, com os dois verbos que o hebraico usa um contra o outro.

A frase suspende o andamento do relato. As duas orações põem o sujeito na frente do verbo, o que em hebraico apresenta as ações como simultâneas e de fundo, e não como passos sucessivos.

O versículo cumpre a condição do versículo 22. Ali se disse que nada podia ser feito enquanto Ló não chegasse; aqui se informa que ele chegou.

O gatilho da catástrofe é o passo de um homem. Seja qual for a explicação teológica adotada, o relato faz o início da destruição depender de uma pessoa entrar por uma porta.

O nome da cidade nasce dentro da cena. Zoar vem da palavra que Ló usou para pedi-la, e o nome anterior, Belá, está registrado em Gênesis 14.

Zoar escapa sem mérito declarado. Não há justos contados nela, nem avaliação dos seus moradores: ela é poupada porque foi pedida.

Zoar tem localização razoavelmente estabelecida. Ghor es-Safi, na margem sudeste do mar Morto, com testemunhos que vão de Josefo ao mapa de Mádaba — e isso não depende de nenhuma teoria sobre onde ficava Sodoma.

O que se escavou em Deir Ain Abata é bizantino. Prova que no quinto século se acreditava que a caverna fosse a de Ló; não prova que fosse.

Só Ló é nomeado na chegada. A mulher e as filhas saíram com ele no versículo 16 e não aparecem aqui, o que deixa em aberto onde exatamente estavam.

O texto não registra reação nenhuma. Não há alívio, alegria ou agradecimento na chegada; há uma hora e um verbo de entrar.

6. Aspectos Filosóficos

O tempo como personagem

Vale começar por uma pergunta que o versículo levanta e não formula: por que um relato antigo se daria ao trabalho de marcar a hora?

Narrativas orais costumam ser econômicas com o relógio. Elas dizem "então", "depois", "naqueles dias". A precisão temporal custa memória e raramente serve à moral da história.

Este capítulo, no entanto, marca a hora seis vezes. E a marcação não é ornamental: ela cria uma pressão que se sente na leitura. Há um prazo, o prazo está correndo, e os personagens sabem disso.

O efeito é o de uma contagem regressiva, e ele funciona ainda hoje sobre um leitor que não crê em nada do que ali se conta. Isso diz algo sobre a competência narrativa do texto que a discussão sobre historicidade costuma atropelar.

Registro como observação minha sobre o funcionamento do relato. O Gênesis não teoriza sobre o próprio método, e atribuir-lhe intenção artística é uma leitura — bem fundamentada, mas leitura.

Uma ação que espera por uma pessoa

O problema mais duro deste bloco não está neste versículo, e sim no anterior — mas é aqui que ele se resolve na prática.

Alguma coisa de alcance imenso, que envolve várias cidades e todos os seus moradores, é apresentada como suspensa porque um homem ainda estava caminhando.

Isso choca-se com a imagem filosófica corrente de um poder absoluto, para o qual nenhuma circunstância é obstáculo. E convém não desfazer o choque depressa demais.

Há duas maneiras honestas de pensar em como lidar com isso, e nenhuma delas é confortável.

A primeira aceita que o relato descreve um poder que se autolimita: o que impede não é a falta de força, é a palavra dada. Nessa leitura, a onipotência não é anulada, é vinculada — e vinculada por uma promessa feita a um fugitivo que negociou de joelhos.

A segunda aceita que o relato é antigo e fala de Deus com o vocabulário de que dispunha, sem as distinções que a filosofia posterior construiu. Nessa leitura, procurar aqui uma doutrina da onipotência é procurar num texto algo que ele não foi feito para responder.

As duas são defensáveis. A primeira preserva a frase e paga com a metafísica; a segunda preserva a metafísica e paga com a frase. Não é possível decidir, e quem decide costuma não perceber o que está pagando.

O valor de chegar a um lugar pequeno

Há um argumento moral embutido na cena que merece exame, porque ele é estranho.

Ló pede uma cidade e o argumento que apresenta é o tamanho dela: é pequena. Não diz que há justos nela. Não diz que os moradores merecem. Diz que é pouca coisa.

Traduzindo o raciocínio: o dano de poupá-la seria pequeno, logo o pedido é razoável.

Isso é um cálculo, e um cálculo de espécie reconhecível — o mesmo que aparece quando alguém pede uma exceção alegando que a exceção não fará falta. Não se apela à justiça; apela-se à insignificância.

E o pedido é atendido. O relato registra a concessão sem uma palavra de aprovação ou reprovação.

Vale notar o desconforto que isso produz num leitor moderno: preferiríamos que a cidade fosse poupada por ser boa, e não por ser pequena. O texto não nos dá esse conforto.

Observo ainda, como comentarista, o que a cena mostra sem dizer: a sobrevivência de uma população inteira depende, ali, do que um homem cansado conseguiu articular numa negociação de madrugada. É um dado sobre a contingência, não sobre o mérito.

Ser visto é parte do acontecimento

A informação de que era dia tem uma consequência que vale desdobrar.

Um acontecimento na escuridão pode ser negado, disputado, atribuído a outra causa. Um acontecimento sob o sol tem testemunhas.

Repare que o capítulo providencia uma testemunha externa: Abraão sobe de manhã ao lugar de onde falara e olha. Ele não participa, não intervém, não comenta. Olha.

Há aí uma diferença entre dois tipos de juízo que a filosofia moral conhece bem. Um juízo secreto corrige, mas não ensina ninguém além do corrigido. Um juízo público é também uma declaração — dirige-se a quem assiste tanto quanto a quem sofre.

O texto não classifica o episódio nem de um jeito nem de outro. Mas a escolha de informar a hora, somada à cena do observador, deixa o material para essa leitura.

Marco que é leitura. E marco também o incômodo que ela carrega: transformar a destruição de pessoas em demonstração dirigida a espectadores é uma ideia difícil de sustentar sem crueldade, e a tradição profética posterior, que usará o episódio exatamente como exemplo, herdará esse problema inteiro.

O versículo de passagem e o hábito de ler depressa

Uma observação de método, que este versículo ilustra melhor do que qualquer argumento.

Existem versículos que a leitura corrente classifica como transição, e transições não se leem: pulam-se. O olho reconhece "o sol nasceu quando ele chegou" como costura entre duas cenas e segue adiante.

Só que a costura, aqui, carrega a hora do dia, o cumprimento de uma condição, a sintaxe que suspende a narrativa e o par de verbos opostos. Nada disso é decorativo.

Vale generalizar com cuidado. Não estou dizendo que todo versículo curto esconde um tesouro — isso seria falso, e há de fato fórmulas repetidas e listas secas na Bíblia hebraica que não dão muito. Estou dizendo que a triagem que fazemos entre versículo importante e versículo de ligação é feita antes da leitura, e por isso se confirma sozinha.

O critério que costuma decidir essa triagem é o rendimento devocional: um versículo com verbo forte e sujeito divino promete sermão; um versículo com relógio e topônimo não promete nada.

Registro isso como observação sobre o leitor, e me incluo nela.

O abrigo que não se sustenta

Um último problema, que este versículo abre e o capítulo fecha mal.

Ló obteve o que pediu. Recusou o monte, alegou incapacidade, negociou uma alternativa mais próxima e chegou a ela. Este versículo registra o êxito da negociação.

Sete versículos adiante, ele deixa Zoar por medo e sobe justamente para o monte, que passa a habitar numa caverna.

A ironia é do texto e não precisa de adjetivo. Mas o problema filosófico é maior que a ironia.

O que a cena mostra é que a escolha feita sob pressão, mesmo quando concedida, mesmo quando bem-sucedida, pode não resolver o que pretendia resolver. Ló conseguiu exatamente o que pediu e depois descobriu que não era isso que queria.

Não há aqui castigo, nem correção, nem lição enunciada. O narrador não diz que ele errou ao pedir. Apenas conta que ele foi, e depois conta que ele saiu.

Esse tipo de silêncio é o mais difícil de suportar, porque não fecha nada — e é também o mais honesto, porque a vida costuma se comportar assim.

7. Aplicações Práticas

Leia as marcações de hora antes de ler a teologia

Este capítulo tem seis notas de tempo, e elas mudam o que se entende da cena: a chegada dos mensageiros ao entardecer, o cerco antes de deitar, a alva subindo, o sol fora, a manhã de Abraão. Quem as ignora imagina um episódio que dura dias e acontece no escuro. Quem as lê descobre uma única noite, terminada em luz plena.

O hábito vale para o resto da Bíblia. Marcações de tempo, de lugar e de distância costumam ser lidas como enfeite, e são frequentemente a espinha do relato.

Faça o teste numa passagem que você conhece de cor. Sublinhe só as horas e os lugares, em separado do resto, e releia a lista sozinha. Em muitos casos a lista já conta a história, e conta uma história ligeiramente diferente da que a memória guardava.

Desconfie do cenário que a sua imaginação acrescenta

Quase todo leitor imagina a destruição de Sodoma de noite, sob nuvens negras. O versículo diz o contrário, e diz antes de contar o que aconteceu. A escuridão foi acrescentada por nós, provavelmente por influência de pintura, cinema e pregação.

Isso é o normal da leitura, não um defeito raro: a mente preenche o que o texto não descreve, e depois não distingue o que leu do que imaginou.

Adote uma prática simples e incômoda: ao recontar uma passagem, separe o que está escrito do que você está vendo. Pergunte-se, item por item, se aquele detalhe apareceu no texto ou na sua cabeça. Vai descobrir que boa parte da cena que você defende com convicção não está lá — e é justamente essa parte que costuma virar discussão.

Uma condição cumprida não faz barulho

O versículo 22 estabeleceu que nada aconteceria enquanto Ló não chegasse. Este versículo informa que ele chegou. É a frase mais discreta do bloco e é a que libera tudo. Nenhum sinal, nenhum anúncio, nenhuma ênfase: apenas o registro de que a condição foi satisfeita.

Coisas assim acontecem sem espetáculo, e por isso passam despercebidas na hora em que acontecem.

Vale aplicar ao modo como você avalia o próprio andamento. Muita gente espera um marco visível para reconhecer que uma etapa terminou — uma confirmação, um aplauso, um sinal. Na maior parte das vezes, o que houve foi uma chegada silenciosa a um lugar pequeno, e só depois se percebe que, a partir dali, o resto pôde acontecer.

Pedir menos porque não se aguenta mais é legítimo

Mandaram Ló para o monte. Ele respondeu que não conseguiria chegar e pediu uma cidade pequena, mais perto. O pedido foi atendido sem repreensão registrada. O texto não o chama de covarde, não comenta a falta de fé, não corrige o cálculo dele.

Repare no que ele usa como argumento: não a própria virtude, e sim o próprio limite e o tamanho pequeno do que estava pedindo.

Há situações em que a rota indicada é longa demais para as forças que restam, e reconhecer isso em voz alta é mais útil que fingir capacidade e desmontar no meio do caminho. Peça a versão menor: o prazo mais curto, a etapa mais próxima, o objetivo modesto que você de fato alcança hoje. E guarde a segunda metade da história, que é honesta: o refúgio pequeno pode não servir depois, e talvez você acabe subindo o monte assim mesmo. Isso não invalida a decisão de agora.

Ter conseguido o que pediu não garante que era o que você queria

Ló pediu Zoar, obteve Zoar, chegou a Zoar — e sete versículos depois saiu de lá com medo e subiu para o monte que havia recusado. O texto registra as duas coisas sem julgar nenhuma.

Não há aqui uma lição sobre pedir errado. Há a constatação de que uma escolha feita sob pressão resolve a pressão, e nem sempre resolve o problema.

Isso serve como antídoto contra duas ilusões opostas. A primeira é achar que conseguir o que se pediu encerra a questão; costuma apenas abrir a seguinte. A segunda é olhar para trás e concluir que a escolha foi burra porque não durou. Ela sustentou a travessia daquela madrugada, e era isso que precisava fazer.

Distinga o que a escavação mostra do que a tradição afirma

Em Deir Ain Abata há uma igreja bizantina construída diante de uma caverna, com inscrições que a ligam a Ló. O que isso prova é que, no quinto século, se acreditava que aquela era a caverna do relato — e que se construiu ali um lugar de peregrinação. Não prova que fosse.

A distinção é fina e é decisiva. Uma coisa é a idade de uma crença sobre um lugar; outra é a verdade do que se crê.

Leve essa régua para tudo o que ouvir sobre "achados que confirmam a Bíblia" e também para tudo o que ouvir sobre "achados que a refutam". Pergunte sempre: o que exatamente foi encontrado, de que época é, e qual é a ponte entre o objeto e a afirmação? Na maior parte dos casos a ponte é uma inferência, e ela costuma ser mais frágil que a manchete.

O sol nasce sobre a terra, não sobre você

A leitura devocional gosta de transformar este versículo num símbolo: a noite acabou, o dia raiou para o justo. Mas o hebraico não colabora. O sol sai sobre a terra, sem destinatário — e é justamente esse dia que traz a destruição. Em Gênesis 32, sim, o texto diz que o sol raiou para Jacó, com outro verbo. Aqui, não.

A diferença é pequena no papel e grande na consequência.

Vale como correção de um vício de leitura muito comum: o de tomar toda menção de luz como promessa pessoal. Nem todo amanhecer é a favor de quem amanhece. Alguns dias começam bonitos e são exatamente o dia em que a coisa acontece. Ler assim não é pessimismo; é ler o que está escrito, e sobra mais confiança para os textos que de fato prometem algo.

Não confunda versículo de ligação com versículo sem conteúdo

Este é um versículo de transição: uma hora e uma chegada. A leitura corrente o classifica como costura e pula. Só que dentro da costura estão a hora do juízo, o cumprimento de uma condição declarada, uma inversão de sintaxe que suspende a narrativa e o par de verbos opostos da língua hebraica.

A triagem entre versículo importante e versículo de passagem é feita antes de ler, e por isso se confirma sozinha.

Experimente inverter o critério durante um mês de leitura: pare de propósito nos versículos que você costuma atravessar — os de genealogia, de itinerário, de medida, de hora. Nem todos vão render, e é honesto dizer isso. Mas você vai encontrar, com frequência maior do que espera, que a informação que organiza o capítulo estava justamente ali, onde ninguém prega.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Este versículo tem algum conteúdo, ou é só ligação entre cenas?

Tem, e é mais do que parece. Ele fixa a hora do que vem a seguir, informa que a condição posta no versículo 22 foi cumprida, altera a sintaxe do relato para suspender o andamento e reúne, na mesma frase, os dois verbos que o hebraico usa como opostos: sair e entrar. Nada disso é decorativo.

A destruição de Sodoma foi de dia ou de noite?

De dia. O versículo informa que o sol já havia saído sobre a terra, e a destruição vem no versículo seguinte. A imagem noturna que quase todo leitor carrega não vem do texto: vem da pintura, do cinema e da pregação.

Por que isso importa?

Porque torna o evento visível. O versículo 28 confirma o efeito prático: Abraão, a distância, olha e vê a fumaça subindo da terra. Um acontecimento na escuridão pode ser disputado; um acontecimento sob o sol tem testemunha.

Quanto tempo dura tudo o que o capítulo narra?

Uma noite. Os mensageiros chegam ao entardecer no versículo 1, a casa é cercada antes de todos se deitarem, a alva sobe no versículo 15, e aqui o sol sai. Da chegada à destruição não passa um dia inteiro.

O verbo usado para o sol é o normal?

Não é o mais específico. O hebraico tem zarach para o nascer do sol, e é esse que aparece em Gênesis 32, no episódio do Peniel. Aqui está yatsa, sair, vir para fora — o verbo geral do movimento para fora, que também descreve alguém saindo de uma casa ou de uma cidade.

Existe algum jogo de palavras no versículo?

Existe algo próximo disso, e é verificável sem hebraico avançado. O sol sai e Ló entra, e esses dois verbos formam o par de opostos padrão da língua, aquele que aparece em expressões como "no teu sair e no teu entrar". Se o efeito foi procurado ou se caiu por acaso, não é possível decidir.

O que significa dizer que a frase "suspende a narrativa"?

A prosa hebraica avança com o verbo na frente, numa forma consecutiva — o "e disse", "e foi", "e saiu" que se repete às centenas. Aqui as duas orações põem o sujeito antes do verbo, o que em hebraico apresenta as ações como simultâneas e de fundo. O versículo 24 faz o mesmo, e só o 25 retoma o andamento normal. A catástrofe acontece dentro desse intervalo suspenso.

Por que só Ló é mencionado na chegada?

O texto não diz. A mulher e as duas filhas foram tiradas pela mão no versículo 16 e não aparecem aqui. Isso deixa em aberto onde exatamente estavam quando o versículo 26 registra que a mulher olhou para trás, e qualquer reconstrução desse ponto é dedução do leitor.

Que relação este versículo tem com o versículo 22?

Direta. Ali se disse que nada podia ser feito enquanto Ló não chegasse a Zoar; aqui se informa que ele chegou. É o cumprimento da condição, registrado sem uma palavra de ênfase.

Como entender que Deus "não podia" fazer nada antes disso?

A frase é difícil e não convém resolvê-la depressa. Há três saídas correntes: que se trata de linguagem acomodada à compreensão humana, como quando se fala das mãos ou do arrependimento de Deus; que o impedimento é de compromisso, não de poder, já que a fala vem logo depois de uma concessão expressa no versículo 21; e que quem fala é o mensageiro, sob ordem, e não quem envia. As três cabem nos dados, e não é possível decidir entre elas.

De onde vem o nome Zoar?

Da raiz tsa'ar, ser pequeno. É a palavra que Ló usou no versículo 20 ao pedir a cidade — "ela é pequena" —, e o versículo 22 registra que foi por isso que o lugar recebeu esse nome. O nome anterior era Belá, e aparece na lista dos cinco reis em Gênesis 14.

Zoar existe? Sabe-se onde ficava?

Aqui há um dado incomum neste capítulo: sim, com razoável segurança. O sítio corrente é Ghor es-Safi, na margem sudeste do mar Morto, hoje na Jordânia. A cadeia de testemunhos vai de Josefo e Ptolomeu, no primeiro e segundo séculos, a Eusébio e Jerônimo no quarto e quinto, ao mapa em mosaico de Mádaba no sexto, e aos geógrafos árabes do décimo. E isso não depende de nenhuma teoria sobre onde ficava Sodoma.

E a caverna de Ló? Foi encontrada?

Foi encontrada uma igreja bizantina construída diante de uma caverna, em Deir Ain Abata, com inscrições em mosaico que ligam o lugar a Ló. O sítio é de peregrinação, dos séculos quinto a oitavo. Isso demonstra que naquela época se acreditava que fosse a caverna do relato; não demonstra que fosse.

Por que Zoar foi poupada?

Porque Ló pediu, e o argumento que ele usou foi o tamanho: a cidade é pequena. Não há justos contados nela, não há avaliação dos seus moradores, não há mérito declarado. O texto registra a concessão sem comentar, e preencher esse silêncio com uma justificativa moral é acrescentar ao relato.

O sol nascendo é um sinal de salvação para Ló?

A leitura devocional gosta disso, e o hebraico não ajuda. O sol sai sobre a terra, sem destinatário. Em Gênesis 32, o texto diz expressamente que o sol raiou para Jacó, com outro verbo e com a preposição de destinatário. A diferença é pequena no papel e desfaz a leitura simbólica.

O sol tem algum peso religioso nesta cena?

Não no relato, e talvez no pano de fundo. Na Mesopotâmia, o sol era o deus Shamash, patrono da justiça e dos juramentos, representado na estela do código de Hamurabi entregando ao rei os símbolos da autoridade de julgar. O Gênesis não o menciona e nem sequer usa nome próprio para os astros no capítulo 1. Dizer que a associação entre sol e juízo pesa aqui é leitura possível, não afirmação do texto.

E a explicação de Rashi sobre a hora?

Rashi, no século onze, propôs que o momento escolhido foi aquele em que o sol e a lua estão ambos no céu, para que nem os adoradores de um nem os do outro pudessem alegar que o seu astro os teria poupado. É midraxe, é engenhoso e não está no versículo — o texto não comenta a escolha da hora.

Qual é a conclusão honesta sobre este versículo?

Que ele marca uma hora e registra uma chegada, e que essas duas informações fazem trabalho pesado: fixam a luz do dia como cenário da catástrofe, cumprem uma condição declarada e fecham a contagem de uma noite. Tudo o mais — o alívio do fugitivo, a luz da salvação, o novo dia — é acréscimo nosso, e o texto não o autoriza nem o proíbe.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 19:22Apressa-te, escapa-te ali; porque nada poderei fazer até que ali tenhas chegado. Por isto foi chamado o nome da cidade, Zoar.

A condição, e a etimologia do nome. Este versículo 23 é o registro de que a condição foi satisfeita — o que faz dele o gatilho narrativo de tudo o que vem a seguir.

Gênesis 19:15E ao raiar da alva, os anjos davam pressa a Ló, dizendo: Levanta-te, toma tua mulher, e teus dois filhas que se acham aqui, para que não pereças no castigo da cidade.

A marcação de tempo anterior. Entre o clarão da alva e o disco do sol fora do horizonte cabe todo o intervalo da fuga: a demora, o resgate pela mão, a negociação e a caminhada.

Gênesis 19:16E demorando-se ele, os homens pegaram por sua mão, e pela mão de sua mulher, e pelas mãos de suas duas filhas segundo a misericórdia do SENHOR para com ele; e o tiraram, e o puseram fora da cidade.

Quatro pessoas saem, e a que resiste é retirada à força. Este versículo 23 nomeia apenas uma delas na chegada, e não explica o silêncio sobre as outras três.

Gênesis 19:20Eis que agora esta cidade está próxima para fugir ali, a qual é pequena; escaparei agora ali, (não é ela pequena?) e viverá minha alma.

O pedido, com o argumento repetido duas vezes: a cidade é pequena. É dessa palavra que o nome Zoar sai, e é ela que Ló usa em lugar de qualquer alegação de mérito.

Gênesis 19:27E subiu Abraão pela manhã ao lugar onde havia estado diante do SENHOR:

A sexta marcação de tempo do capítulo, e a que confirma que o episódio inteiro se resolve numa noite. Abraão se levanta de manhã, e o que ele vai ver já aconteceu.

Gênesis 19:28E olhou até Sodoma e Gomorra, e até toda a terra daquela planície olhou; e eis que a fumaça subia da terra como a fumaça de um forno.

A consequência prática de a destruição ser diurna: há o que ver, e há quem veja. A fumaça só é descrita porque havia luz para descrevê-la.

Gênesis 19:30Porém Ló subiu de Zoar, e assentou no monte, e suas duas filhas com ele; porque teve medo de ficar em Zoar, e se abrigou em uma caverna ele e suas duas filhas.

O desfecho da negociação. Ló obteve exatamente o que pediu, e depois abandonou o que obteve para ir ao monte que havia recusado. O texto registra as duas coisas sem julgar nenhuma.

Gênesis 14:2Que estes fizeram guerra contra Bera, rei de Sodoma, e contra Birsa, rei de Gomorra, e contra Sinabe, rei de Admá, e contra Semeber, rei de Zeboim, e contra o rei de Belá, a qual é Zoar.

O nome antigo da cidade, com a equivalência acrescentada para o leitor. Zoar não é fundada aqui: é rebatizada dentro do relato, a partir da palavra usada por quem pediu abrigo nela.

Gênesis 32:31E saiu-lhe o sol quando passou a Peniel; e andava mancando de sua coxa.

O paralelo mais próximo, e o que mostra a diferença. Ali o verbo é zarach, raiar, e o sol raia para Jacó; aqui o verbo é yatsa, sair, e o sol sai sobre a terra, sem destinatário.

Gênesis 28:11ele chegou a um lugar, e ali dormiu, porque o sol já se havia posto. E tomou uma das pedras daquele lugar e a pôs por sua cabeceira, e deitou-se naquele lugar.

O contrário exato: o sol se põe e começa uma revelação. No Gênesis, o encontro com Deus tende a acontecer no escuro, e o dia costuma nascer sobre quem sobreviveu a ele.

Deuteronômio 34:3E a parte sul, e a campina, o vale de Jericó, cidade das palmeiras, até Zoar.

Zoar como marco geográfico do limite sul, na visão de Moisés do alto do monte. A cidade continua existindo e continua servindo de referência séculos depois do episódio.

Isaías 15:5Meu coração dá gritos por Moabe, seus fugitivos foram até Zoar e Eglate-Selisia; pois sobem com choro pela subida de Luíte, pois no caminho de Horonaim levantam um grito de desespero.

Séculos depois, Zoar aparece de novo como destino de fugitivos. O profeta não faz a ligação com Ló, mas a função do lugar no imaginário é a mesma: para onde se corre quando não se pode ficar.

Jeremias 48:34Houve um grito desde Hesbom até Eleale e até Jaaz; deram sua voz desde Zoar até Horonaim e Eglate-Selísia; pois também as águas de Ninrim serão assoladas.

Outra atestação tardia do topônimo, numa lista de lugares reais de Moabe. É esse tipo de menção que torna a identificação de Zoar mais firme que a de Sodoma.

Malaquias 4:2Mas para vós, que temeis o meu nome, o Sol da justiça nascerá, trazendo cura em suas asas; e saireis, e saltareis de alegria como bezerros do curral.

O único lugar do Antigo Testamento em que o sol aparece expressamente ligado à justiça. Mostra que a associação existia na língua religiosa de Israel — sem que se possa afirmar que ela esteja operando no versículo do Gênesis.

Salmos 104:22Quando o sol volta a brilhar, logo se recolhem, e vão se deitar em suas tocas.

O nascer do sol como marcador prático do dia, sem carga simbólica. Serve de contrapeso: nem toda menção do sol na Bíblia carrega teologia, e convém não sobrecarregar a deste versículo.

Juízes 9:33E pela manhã ao sair do sol te levantarás e atacarás a cidade: e ele e o povo que está com ele sairão contra ti, e tu farás com ele segundo que se te oferecerá.

A mesma expressão — o sair do sol — usada para marcar a hora de um ataque. É o uso corrente da fórmula: fixar o momento de uma ação decisiva pela posição do astro.

Lucas 17:29Mas o dia em que Ló saiu de Sodoma, choveu fogo e enxofre do céu, e destruiu a todos.

A releitura mais antiga que temos da sequência, e ela conserva o dado do tempo: fala do dia em que Ló saiu, e não da noite. É leitura muito posterior, de outra língua e outro contexto, e não explica o Gênesis; mas mostra que o detalhe da hora não passou despercebido.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

O sol já havia nascido sobre a terra quando Ló chegou a Zoar.

Texto hebraico

הַשֶּׁמֶשׁ יָצָא עַל־הָאָרֶץ וְלוֹט בָּא צֹעֲרָה

Transliteração

ha-shemesh yatsa al-ha'arets ve-Lot ba Tsoarah

Palavra por palavra

הַשֶּׁמֶשׁ (ha-shemesh) — "o sol"

Substantivo com artigo. A palavra é a mesma em quase todas as línguas semíticas vizinhas, e em várias delas é também o nome de um deus.

Vale notar o que o Gênesis faz com esse nome no primeiro capítulo: ao descrever a criação dos astros, ele evita chamá-los pelo nome próprio e os designa como "o luminar maior" e "o luminar menor". Muitos estudiosos leem nisso uma dessacralização deliberada — o sol reduzido a lâmpada, sem culto e sem biografia.

Aqui, na narrativa, o nome comum reaparece sem problema, porque não há risco de culto: trata-se de uma nota de hora.

O gênero da palavra oscila no hebraico bíblico, ora masculino, ora feminino. Neste versículo concorda no masculino.

יָצָא (yatsa) — "saiu"

Verbo no perfeito, terceira pessoa masculina. O sentido básico é sair, vir para fora, partir de um lugar fechado ou delimitado.

É um dos verbos mais frequentes da Bíblia hebraica, e o seu campo é amplo: sai-se de uma casa, de uma cidade, de uma tenda, de uma terra, do ventre materno. É o verbo da saída do Egito.

Convém sublinhar que não é o verbo específico do nascer do sol. Para isso o hebraico dispõe de zarach, raiar, brilhar — que é o que aparece em Gênesis 32:31, no episódio do Peniel. A escolha de yatsa aqui é possível e natural, e não é a mais técnica.

Por trás do uso há uma imagem antiga: a de que o sol se recolhe de noite e sai de manhã, como quem deixa a câmara em que dormiu. O Salmo 19 desenvolve a imagem com todas as letras, comparando o sol ao noivo que sai do seu quarto. Registro o campo de sentido; não se pode afirmar que o narrador estivesse pensando nisso.

עַל־הָאָרֶץ (al-ha'arets) — "sobre a terra"

A preposição al indica posição por cima, e erets é a palavra para terra, país, chão, região.

O detalhe que importa aqui é negativo, e é decisivo para desarmar uma leitura muito repetida: não há destinatário. O sol sai sobre a terra, e não para Ló.

Compare-se com Gênesis 32:31, onde o texto diz literalmente que o sol raiou para ele, com a preposição de destinatário aplicada a Jacó. Ali há um beneficiário gramatical; aqui não há.

Isso não decide o sentido da cena, mas fecha a porta para a leitura simbólica automática, aquela que transforma todo amanhecer bíblico em promessa pessoal. O que este versículo diz é que o astro apareceu no horizonte.

וְלוֹט (ve-Lot) — "e Ló"

Conjunção mais o nome próprio, e o nome vem antes do verbo — o mesmo arranjo da primeira metade do versículo.

Essa é a informação sintática mais importante do versículo, e vale explicá-la devagar, porque não se vê em tradução nenhuma.

A prosa narrativa hebraica avança com uma forma verbal específica, chamada consecutiva: o verbo vem na frente, prefixado por uma conjunção, e cada frase empurra a história um passo adiante. É o "e disse", "e foi", "e saiu" que o leitor encontra às centenas no Gênesis.

Quando o sujeito é posto antes do verbo, esse avanço é interrompido. A frase deixa de ser um passo e passa a ser um pano de fundo, apresentado como simultâneo ao que está em volta. É o recurso que o hebraico tem para dizer "enquanto isso".

Neste versículo o recurso aparece duas vezes seguidas, e o versículo 24 o repete uma terceira. Só no versículo 25 a narrativa volta a andar. A catástrofe, portanto, acontece dentro de um intervalo em que o relato está deliberadamente parado.

בָּא (ba) — "chegou", "entrou"

Verbo no perfeito, terceira pessoa masculina. O sentido é entrar, vir, chegar a um lugar.

Aqui está o achado mais bonito do versículo, e ele não depende de erudição: yatsa e bo são, no hebraico bíblico, o par de opostos por excelência. Sair e entrar. A dupla forma uma expressão consagrada para designar toda a atividade de uma pessoa — "no teu sair e no teu entrar" —, e aparece nas bênçãos, nos salmos e nas fórmulas de liderança.

De modo que este versículo curto põe os dois verbos contrários em ação simultânea: o sol sai, e o homem entra. Um movimento para fora no céu, um movimento para dentro na terra.

Se o efeito foi procurado pelo narrador ou se resulta simplesmente do fato de que esses são os verbos naturais para as duas ações, não é possível decidir. Registro o dado, que é do texto, e não a intenção, que não é acessível.

צֹעֲרָה (Tsoarah) — "a Zoar"

O nome da cidade com a terminação que indica direção — o sufixo hebraico que corresponde a "para", "em direção a", e que aparece também em palavras como "para o Egito" ou "para a terra".

O nome vem da raiz tsa'ar, ser pequeno, ser insignificante. E ele nasce dentro do próprio relato: no versículo 20, Ló argumenta que a cidade é pequena — mits'ar hi — e repete o argumento, "não é ela pequena?"; no versículo 22, o narrador informa que foi por isso que o lugar recebeu esse nome.

O Gênesis registra também o nome anterior. Em Gênesis 14:2 e 14:8, na lista dos cinco reis da planície, a cidade aparece como Belá, com o acréscimo "a qual é Zoar" — exatamente como se acrescenta uma equivalência para o leitor que só conhece o nome novo.

Esse tipo de explicação chama-se etiologia: uma narrativa que dá conta da origem de um nome. O Gênesis está cheio delas. Não é possível decidir se o nome veio do episódio ou se o episódio foi contado a partir de um nome que já existia, e as duas direções são plausíveis.

Nota textual — como as versões antigas traduziram

Uma pergunta legítima do leitor atento: as traduções antigas viram alguma coisa aqui que as modernas perderam?

A versão grega, feita a partir do terceiro século antes da era comum e conhecida como Septuaginta, verte o versículo com dois verbos gregos que se opõem pelo prefixo — um que significa sair e outro que significa entrar. Ou seja: o contraste que o hebraico produz com yatsa e bo foi conservado, e até realçado, pela sonoridade dos dois verbos gregos.

Isso é relevante por um motivo prático. Foi nessa forma grega que o versículo circulou entre os leitores de língua grega, e é dela que Justino Mártir, no segundo século, se serve ao citar a passagem numa discussão sobre o versículo seguinte. Vale registrar que os antigos liam este versículo com o par de opostos bem à vista.

Não há, pelo que a crítica textual registra, variante significativa neste versículo. O texto hebraico transmitido, a tradução grega, o Pentateuco Samaritano e as versões aramaicas dizem a mesma coisa. É um versículo textualmente tranquilo — o que não é o caso de todo o capítulo.

Nota sobre o tempo — o que "o sol saiu" significa na prática

Convém encerrar com a informação material, porque ela ancora tudo o que foi dito.

Sem relógios, sem horas iguais e sem calendário civil de precisão, o dia era marcado por posições do céu: o anoitecer, a alta noite, o primeiro clarão, o disco fora do horizonte, o meio-dia, o declínio da tarde.

O capítulo usa dois desses marcos com cuidado. No versículo 15 está alot ha-shachar, o subir da alva — o clarão que precede o disco. Aqui, o disco já saiu.

Entre um e outro vai um intervalo apreciável. No vale do Jordão, em época de verão, algo em torno de uma hora, com variação conforme a estação e o relevo. É esse o tempo que a narrativa dá à fuga.

E é essa a razão de o versículo existir. Ele não descreve uma paisagem: ele fecha uma contagem, que começou ao entardecer do versículo 1 e termina com o sol fora — sobre uma planície onde, no versículo seguinte, vai chover o que vai chover.

11. Conclusão

Um versículo de nove palavras em hebraico, que quase toda leitura atravessa sem parar, faz três trabalhos ao mesmo tempo. Fixa a hora do que vem a seguir, e a hora é o sol já fora do horizonte. Registra que um homem entrou numa cidade, e essa entrada era a condição declarada, dois versículos antes, para que qualquer coisa pudesse acontecer. E muda a sintaxe do relato, pondo o sujeito na frente do verbo duas vezes seguidas, o que em hebraico é o modo de dizer que as coisas se dão ao mesmo tempo, e não uma depois da outra. Quem lê isso como costura entre cenas perde as três informações de uma vez.

O dado que mais contraria a expectativa é o mais simples de verificar. Se o sol já saiu quando Ló chega, então a catástrofe do versículo seguinte se dá sob luz plena. Não há noite, não há tempestade escura, não há o manto que a pintura e o cinema puseram sobre a cena e que quase todo leitor carrega sem saber que carrega. Há um dia começando. O texto não explica por que era de dia, e não convém inventar o motivo; mas registra a consequência prática poucos versículos adiante, quando Abraão sobe de manhã ao lugar de onde falara e vê, a distância, a fumaça subindo da terra. Havia luz para ver, e houve quem visse.

O par de verbos merece o destaque que não costuma receber. O astro sai e o homem entra, com os dois verbos que o hebraico usa como opostos um do outro — a mesma dupla das fórmulas de bênção, que designa a atividade inteira de uma vida. Não é possível decidir se o narrador procurou o efeito ou se apenas usou as palavras naturais para as duas ações, e prefiro deixar a pergunta aberta a fechá-la com uma certeza que o texto não sustenta. O que se pode afirmar é que os dois verbos estão ali, contrários, na mesma frase curta, e que a tradução grega antiga conservou o contraste com dois verbos que também se opõem pelo prefixo.

Sobre Zoar, este versículo traz uma raridade dentro do capítulo: um lugar que se pode apontar no mapa com razoável segurança. Ghor es-Safi, na margem sudeste do mar Morto, sustentada por uma cadeia de testemunhos independentes que vai de Josefo e Ptolomeu a Eusébio e Jerônimo, ao mosaico de Mádaba e aos geógrafos árabes medievais. Convém, porém, medir o que essa segurança cobre e o que não cobre. Ela cobre o topônimo e a continuidade do lugar; não cobre o episódio. A igreja bizantina construída diante de uma caverna em Deir Ain Abata demonstra que no quinto século se acreditava que aquela era a caverna do relato — demonstra a idade da crença, e não a verdade dela. Essa distinção é a régua que este comentário aplica em toda parte, e vale tanto contra o entusiasmo de quem quer provar quanto contra a pressa de quem quer refutar.

Falta o que há de mais pesado, e é a frase que este versículo cumpre sem alarde. No versículo 22 alguém disse que nada podia fazer enquanto Ló não chegasse ali; aqui se informa que ele chegou. O relato faz o começo da destruição de várias cidades depender do passo de um fugitivo cansado que negociou um destino mais próximo porque não daria conta do monte. As explicações correntes para o "não posso" — linguagem acomodada, compromisso assumido, fala do enviado sob ordem — são todas defensáveis e nenhuma é exigida pelos dados. Não é possível decidir. O que fica de pé, e não é pouco, é a estrutura: a catástrofe espera; e o que ela espera é uma pessoa entrar por uma porta.

Resta a ironia que o capítulo mesmo armou e que este versículo não comenta. A cidade alcançada aqui com tanto esforço será abandonada sete versículos adiante, por medo, e o monte recusado receberá afinal os três sobreviventes. O narrador não diz que Ló errou ao pedir. Não diz que acertou. Conta que ele pediu, que obteve, que chegou — e depois conta que saiu. Esse silêncio é mais difícil de suportar do que qualquer sentença, e é também a coisa mais parecida com a experiência de qualquer leitor: as decisões que nos atravessam a noite não costumam ser as que resolvem o dia seguinte. O versículo não ensina isso; apenas registra a hora em que aconteceu.

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Gênesis 19:23

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