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Gênesis 19:25

✍️ Por Alberto Adriano·20 de agosto de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 3 acessos
E destruiu aquelas cidades e toda a planície, com todos os moradores das cidades e a vegetação do solo.
Planície devastada e enegrecida ao amanhecer, com ruínas fumegantes e solo estéril até o horizonte.

Estudo


E destruiu aquelas cidades e toda a planície, com todos os moradores das cidades e a vegetação do solo.

1. Introdução

Este versículo desfaz outro, seis capítulos atrás.

Em 13:10, Ló levantou os olhos e viu "toda a planície do Jordão, que era toda bem regada, como o jardim do SENHOR". E escolheu.

Aqui a mesma planície aparece de novo — e some, com as cidades, com os habitantes, e até com o que brotava do chão.

2. Contexto Histórico e Cultural

"Subverteu"

O verbo é o de virar do avesso. É o mesmo que o versículo 21 negou, ao poupar Zoar.

"Aquelas cidades"

Plural. O versículo 24 nomeou duas; outras passagens da Bíblia contam quatro.

"Toda a planície"

A palavra é a mesma de 13:10-11, onde Ló olhou e escolheu.

"Todos os habitantes"

As pessoas. As mesmas por quem Abraão barganhou no capítulo anterior.

"E o que nascia da terra"

A vegetação. O texto desce até o que brotava do chão.

A lista

Quatro itens em ordem decrescente: cidades, região, gente, plantas. Nada fica.

3. Análise Teológica do Versículo

"e subverteu aquelas cidades"

Convém começar pelo verbo, porque ele é o termo técnico deste acontecimento em toda a Bíblia.

A raiz hebraica significa virar, revolver, pôr de cabeça para baixo. É o que se faz com um vaso que se emborca, ou com uma página que se vira.

Não é o verbo genérico de destruir. É o de inverter.

Vale reter a imagem, porque ela é específica: o que estava em cima vai para baixo. A cidade não é apenas arrasada — é revirada.

E vale rastrear a palavra, porque ela vira quase um nome próprio.

O substantivo derivado passa a designar o acontecimento, do modo como se diz "o Dilúvio". Amós fala de cidades subvertidas "como Deus subverteu Sodoma e Gomorra"; Isaías e Jeremias usam a mesma raiz na mesma comparação; e o Deuteronômio a emprega ao descrever a terra devastada.

Convém agora observar onde este verbo apareceu antes, dentro deste mesmo capítulo.

No versículo 21, a promessa foi: "não destruirei a cidade de que você falou". O verbo ali é este, negado.

Aqui ele aparece afirmado.

Ou seja: o mesmo verbo é negado para uma cidade e cumprido para as outras, a quatro versículos de distância. O que separa Zoar do resto da planície é uma frase dita por um homem em fuga.

Quantas cidades

O texto diz "aquelas cidades", no plural, mas não as enumera.

O versículo 24 nomeou duas: Sodoma e Gomorra.

Convém expor o que outras passagens acrescentam, porque a contagem varia.

O capítulo 14 arrolou cinco cidades daquela região: Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Belá — "que é Zoar".

O Deuteronômio, ao descrever a devastação, nomeia quatro: "como a subversão de Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim".

E o profeta Oseias, num dos textos mais tocantes da Bíblia hebraica, faz Deus dizer: "como te entregaria, ó Efraim? como te faria como Admá? como te poria como Zeboim?"

Ou seja: fora do Gênesis, a tradição lembra quatro cidades destruídas — e Zoar, a quinta, é justamente a que ficou de pé.

Registro a convergência. Ela sugere que "aquelas cidades" aqui são as quatro, e que a exceção de Zoar é lembrada consistentemente.

Mas o Gênesis não faz a conta, e não é possível decidir a partir dele.

"e toda a planície"

Aqui está o ponto mais fino do versículo, e ele exige que se volte seis capítulos atrás.

A palavra hebraica traduzida por planície designa uma região circular, um disco de terra — e é o termo próprio daquela área.

Ela apareceu antes, num momento decisivo.

Em 13:10, o texto diz: "e levantou Ló os olhos, e viu toda a planície do Jordão, que era toda bem regada, antes de o SENHOR ter destruído Sodoma e Gomorra, como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito".

E em 13:11: "então Ló escolheu para si toda a planície do Jordão".

A mesma palavra, três vezes: na visão, na escolha, e agora no desaparecimento.

Convém observar o que o próprio narrador fez em 13:10, porque é notável.

Ele interrompeu a frase para avisar: antes de o SENHOR ter destruído Sodoma e Gomorra.

Ou seja: no momento em que contou a escolha de Ló, o narrador já disse ao leitor como aquilo terminaria. A destruição estava anunciada seis capítulos antes de acontecer.

Vale reter a construção. O leitor de 13:10 sabe o que Ló não sabe. E o leitor de 19:25 reconhece a paisagem.

Registro a ligação como leitura do encadeamento, e registro que ela é do texto — a palavra é a mesma, e o aviso de 13:10 é explícito.

O que o narrador não faz é comentar. Não diz que Ló escolheu mal, não menciona a escolha aqui, não fecha o círculo em voz alta.

Ele apenas usa a mesma palavra.

"e todos os habitantes das cidades"

Convém não passar rápido por aqui, porque este é o item que o capítulo anterior tornou impossível de ler com neutralidade.

Em 18:23-33, Abraão perguntou por essas pessoas. Perguntou se o Juiz de toda a terra varreria o justo com o ímpio, e negociou o número — cinquenta, quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte, dez.

A promessa foi: por amor dos dez, não a destruirei.

Este versículo diz que os habitantes foram todos subvertidos.

Vale expor com precisão o que isso permite concluir.

Permite a inferência aritmética: se a promessa valia a partir de dez, e a destruição aconteceu, então não havia dez.

Não permite mais do que isso. O texto não faz a conta, não menciona a negociação, não diz que a condição falhou. A inferência é do leitor, e o narrador a deixa em silêncio.

E convém registrar o desconforto que fica, porque ele é legítimo e o texto não o dissolve.

Dez é um número pequeno para uma cidade. A promessa cobria a hipótese de haver muito pouca gente justa — e ainda assim não bastou.

O que isso significa sobre aquelas cidades, o Gênesis não desenvolve. Quem desenvolve é Ezequiel, ao dizer que a iniquidade de Sodoma foi soberba, fartura de pão, próspera tranquilidade, e nunca fortalecer a mão do pobre e do necessitado.

Apresento os dois textos lado a lado, sem fundir um no outro.

"e o que nascia da terra"

Este é o último item da lista, e é o mais estranho.

O termo designa o que brota do solo — a vegetação, o que germina.

Convém observar por que a menção surpreende.

Os três itens anteriores são o alvo declarado do juízo: as cidades, a região, as pessoas. As plantas não fizeram nada.

Vale apresentar as leituras.

Uma: é fórmula de totalidade. A lista desce de cidades a gente e a plantas para dizer que nada restou; a menção da vegetação é o modo de fechar a conta.

Outra: é etiologia. A região do mar Morto é estéril, salgada, sem vegetação — e o texto explica por quê. Este versículo diz ao leitor o que ele veria se fosse até lá.

Outra ainda: é a inversão exata de 13:10. Aquele versículo descreveu a região como "toda bem regada, como o jardim do SENHOR". A menção do que brotava é o contraponto direto daquela imagem.

As três são compatíveis, e a terceira é a mais difícil de não ver, porque o texto já ligou as duas cenas pela palavra "planície".

O que era jardim deixa de produzir.

A lista e o seu desenho

Convém fechar observando a forma, porque ela é construída.

São quatro itens, e eles descem em escala: as cidades, a região inteira, os habitantes, o que brotava do chão.

Do maior ao menor. Do construído ao vivo. Do humano ao vegetal.

Vale reter o efeito. A lista não acrescenta informação depois do segundo item — quem destrói "toda a planície" já destruiu as plantas. A enumeração existe para ser sentida, não para informar.

E vale notar o que ela não menciona.

Não há descrição de sofrimento. Não há gritos, não há nomes, não há uma única pessoa individualizada.

O narrador, que dedicou onze versículos à hospitalidade de Ló e cinco à negociação dele por Zoar, gasta uma frase na destruição de quatro cidades.

Registro a desproporção como dado da narrativa. Ela é do texto, e é deliberada ou não — não é possível decidir.

Mas o versículo seguinte voltará ao detalhe, e o detalhe será uma única mulher que olhou para trás.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

As cidades — Sodoma e Gomorra, nomeadas em 19:24; outras passagens contam quatro.

A planície — a mesma palavra de 13:10-11, onde Ló olhou e escolheu.

Os habitantes — as pessoas por quem Abraão barganhou em 18:23-33.

O que nascia da terra — a vegetação; o contraponto de "bem regada, como o jardim do SENHOR".

Zoar — ausente da lista, poupada pela promessa do versículo 21.

5. Pontos de Ensino

O verbo é o de virar do avesso. Não é destruir genérico: é inverter.

O mesmo verbo foi negado no versículo 21. Zoar não seria subvertida; estas foram.

O texto não conta as cidades. Deuteronômio nomeia quatro; Oseias lembra duas delas.

"Planície" é a palavra de 13:10-11. A que Ló viu e escolheu.

Em 13:10 o narrador já avisou o fim. "Antes de o SENHOR ter destruído Sodoma e Gomorra."

Os habitantes são os da barganha de Abraão. Se a promessa valia a partir de dez, não havia dez.

Mas o texto não faz essa conta. A inferência é do leitor.

Até a vegetação entra na lista. É o avesso de "bem regada, como o jardim do SENHOR".

Nenhuma pessoa é individualizada. Quatro cidades cabem numa frase; a mulher de Ló ocupará um versículo inteiro.

6. Aspectos Filosóficos

O termo técnico da catástrofe

Cabe abrir pelo verbo, que a Bíblia inteira fixou como designação deste acontecimento.

A raiz significa virar, revolver, pôr de cabeça para baixo — o que se faz com um vaso que se emborca ou com uma página que se volta. Não se trata do verbo genérico de arruinar, e sim do de inverter: o que estava em cima passa a baixo, de modo que a cidade não é apenas arrasada, é revirada.

Convém rastreá-lo, porque acaba funcionando quase como nome próprio. O substantivo derivado passa a designar o episódio, à maneira de "o Dilúvio"; Amós fala em cidades subvertidas como Deus subverteu Sodoma e Gomorra, Isaías e Jeremias recorrem à mesma raiz na mesma comparação, e o Deuteronômio a emprega ao retratar terra devastada.

Repare-se ainda onde ele comparecera antes, neste mesmo capítulo: no versículo 21, negado, ao prometer-se que a cidade solicitada não seria subvertida. Aqui, afirmado. O mesmo verbo negado para uma povoação e cumprido para as demais, a quatro versículos de distância — e o que separa uma do resto da várzea é uma frase pronunciada por um homem em fuga.

Quantas eram

Fala-se em "aquelas cidades", no plural, sem enumeração. O versículo anterior nomeara duas.

Outras passagens acrescentam, e a contagem oscila. O capítulo 14 arrolara cinco povoações da região — Sodoma, Gomorra, Admá, Zeboim e Belá, "que é Zoar". O Deuteronômio, ao descrever a devastação, nomeia quatro: Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim. E o profeta Oseias, num dos trechos mais comoventes da Bíblia hebraica, põe na boca de Deus a pergunta sobre como faria Efraim semelhante a Admá e Zeboim.

Fora do Gênesis, portanto, a tradição recorda quatro cidades destruídas — e a quinta, justamente a que ficou de pé, é lembrada de modo consistente como exceção. Consigno a convergência: ela sugere que se trata das quatro. Mas o Gênesis não faz a conta, e a partir dele não é possível decidir.

A palavra que volta de seis capítulos atrás

Aqui está o ponto mais fino, e ele exige recuar.

O vocábulo vertido por planície designa uma região circular, um disco de terra, e é o termo próprio daquela área. Comparecera antes, em momento decisivo: quando se narrou que Ló levantou os olhos e viu toda a planície do Jordão, bem regada, como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito — e, no versículo seguinte, que escolheu para si toda a planície do Jordão.

A mesma palavra, três vezes: na visão, na escolha, e agora no desaparecimento.

E há algo notável no modo como aquela cena foi construída. O narrador interrompeu a própria frase para avisar: antes de o SENHOR ter destruído Sodoma e Gomorra. Ou seja, ao contar a escolha, já informou ao leitor como aquilo acabaria — a destruição estava anunciada seis capítulos antes de ocorrer. Quem lê 13:10 sabe o que Ló não sabe; quem lê este versículo reconhece a paisagem.

Registro o encadeamento, que é do próprio texto: a palavra coincide e o aviso é explícito. O que o narrador não faz é comentar — não afirma que a escolha foi má, não menciona aqui aquela cena, não fecha o círculo em voz alta. Limita-se a repetir o vocábulo.

As pessoas pelas quais se barganhou

Não convém passar depressa por este item, que o capítulo anterior tornou impossível de ler com neutralidade.

Perguntara-se, em 18:23-33, por essas pessoas: se o Juiz de toda a terra varreria o justo com o ímpio, e negociara-se o número — cinquenta, quarenta e cinco, quarenta, trinta, vinte, dez. A promessa fora não destruir por amor dos dez. E aqui se diz que os habitantes foram todos subvertidos.

O que isso autoriza concluir é a inferência aritmética: se o compromisso valia a partir de dez e a ruína sobreveio, dez não havia. Não autoriza mais. O relato não faz a conta, não alude à negociação, não declara falhada a condição — a dedução corre por conta de quem lê, e o narrador silencia.

Fica um desconforto legítimo, que o texto não dissolve: dez é número pequeno para uma cidade, e a promessa cobria a hipótese de haver pouquíssima gente justa. Ainda assim não bastou. O que isso diz sobre aquelas cidades, o Gênesis não desenvolve; quem desenvolve é Ezequiel, ao apontar soberba, fartura de pão, próspera tranquilidade e a recusa de fortalecer a mão do pobre e do necessitado. Apresento os dois textos lado a lado, sem fundi-los.

Até o que brotava

O último item da enumeração é o mais estranho, e designa o que germina do solo.

Surpreende porque os três anteriores compõem o alvo declarado do juízo — as cidades, a região, os moradores —, ao passo que as plantas nada fizeram.

Três leituras cabem, e são compatíveis entre si. Pode ser fórmula de totalidade, com a lista descendo de cidades a gente e a vegetação para dizer que nada sobrou. Pode ser etiologia, explicando por que a região do mar Morto é estéril e salgada — o versículo diria ao leitor o que ele veria caso fosse até lá. Ou pode ser a inversão exata daquela outra descrição, que chamara a área de bem regada, como o jardim do SENHOR.

A terceira é a mais difícil de não enxergar, já que o texto acabou de ligar as duas cenas pelo vocábulo da planície. O que era jardim deixa de produzir.

Uma frase para quatro cidades

Convém fechar pela forma, que é construída.

São quatro itens em escala descendente: as cidades, a região inteira, os habitantes, o que brotava do chão. Do maior ao menor, do construído ao vivo, do humano ao vegetal.

A enumeração não acrescenta informação depois do segundo item, pois quem destrói toda a várzea já destruiu as plantas. Ela existe para ser sentida, não para informar.

E vale notar o que está ausente: nenhuma descrição de sofrimento, nenhum grito, nenhum nome, nenhuma pessoa individualizada. O narrador, que dedicara onze versículos à hospitalidade e cinco à barganha por uma cidade pequena, gasta uma frase na ruína de quatro. Consigno a desproporção como dado; se é deliberada, não é possível decidir. Mas o versículo seguinte voltará ao detalhe — e o detalhe será uma única mulher que olhou para trás.

7. Aplicações Práticas

A palavra que volta seis capítulos depois

"Planície" é o mesmo vocábulo de 13:10-11, onde Ló levantou os olhos, viu a região bem regada "como o jardim do SENHOR", e escolheu. Aparece três vezes: na visão, na escolha e agora no desaparecimento.

O narrador não comenta a coincidência. Só repete a palavra.

Vale treinar o olho para isso, porque é assim que narrativas longas argumentam. Um texto pode julgar uma decisão sem dizer uma única palavra sobre ela — basta descrever o resultado com o vocabulário da escolha.

O leitor sabia o fim desde o começo

Em 13:10 o narrador interrompeu a própria frase para avisar: "antes de o SENHOR ter destruído Sodoma e Gomorra". No momento em que contou a escolha, já disse como acabaria.

Quem lê 13:10 sabe o que Ló não sabe.

Isso desmonta a leitura moralista da escolha dele. Ló olhou para terra fértil e escolheu terra fértil — decisão razoável com a informação que tinha. O que o condena aos olhos do leitor é uma informação que só o leitor possui, e vale lembrar disso antes de julgar decisões alheias pelo desfecho.

Dez era pouco, e ainda assim não havia

Abraão desceu de cinquenta a dez, e a promessa foi não destruir por amor dos dez. Este versículo diz que os habitantes foram todos subvertidos.

A inferência aritmética é possível — se a promessa valia a partir de dez e a ruína veio, dez não havia. Mais que isso, não.

O texto não faz essa conta, não menciona a negociação e não declara falhada a condição. E o desconforto que fica é legítimo: a promessa cobria a hipótese de haver pouquíssima gente justa. Nem sempre a resposta a uma pergunta bem feita é a que se queria.

A lista existe para ser sentida, não para informar

Quatro itens em escala descendente: cidades, região inteira, habitantes, o que brotava do chão. Depois do segundo, nada é acrescentado — quem destrói toda a planície já destruiu as plantas.

A enumeração é efeito, não conteúdo.

Reconhecer isso muda a leitura de muitos textos. Listas que repetem o que já foi dito raramente são descuido; costumam estar ali para que o leitor demore, e demorar é o ponto.

Quatro cidades numa frase, uma mulher num versículo

O narrador dedicou onze versículos à hospitalidade de Ló e cinco à negociação dele por uma cidade pequena. À destruição de quatro cidades dedica uma frase — sem gritos, sem nomes, sem uma única pessoa individualizada.

E o versículo seguinte voltará ao detalhe, para uma mulher que olhou para trás.

A desproporção é do texto, e não é possível decidir se é deliberada. Mas ela descreve algo verdadeiro sobre atenção: o que é grande demais tende a virar número, e o que cabe num rosto é o que se lembra. Isso vale para relatos antigos e para notícias de hoje.

O mesmo verbo, negado e cumprido

No versículo 21, a promessa usou este verbo na forma negativa: não subverterei a cidade de que você falou. Aqui ele aparece afirmado.

O que separa Zoar do resto da planície, a quatro versículos de distância, é uma frase dita por um homem em fuga.

Não convém tirar disso uma regra sobre como as coisas funcionam — o texto não a formula. Mas vale registrar o que ele mostra: um pedido feito na hora certa alterou o alcance de uma catástrofe, e ninguém, nem o suplicante, alegou mérito para isso.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O que significa exatamente "subverteu"?

A raiz hebraica significa virar, revolver, pôr de cabeça para baixo — o que se faz com um vaso que se emborca. Não é o verbo genérico de destruir, e sim o de inverter: a cidade não é apenas arrasada, é revirada. O substantivo derivado acabou funcionando quase como nome próprio do episódio, à maneira de "o Dilúvio".

Esse verbo aparece em outro lugar do capítulo?

Sim, no versículo 21, negado: "não destruirei a cidade de que você falou". Aqui aparece afirmado. O mesmo verbo é negado para Zoar e cumprido para as demais, a quatro versículos de distância.

Quantas cidades foram destruídas?

O texto diz "aquelas cidades" sem enumerar, e o versículo 24 nomeara duas. Fora do Gênesis, a contagem se firma em quatro: o Deuteronômio nomeia Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, e Oseias recorda Admá e Zeboim. O capítulo 14 arrolara cinco povoações da região, sendo a quinta justamente Zoar — a que ficou de pé.

Por que a palavra "planície" é importante?

Porque é a mesma de 13:10-11, quando Ló levantou os olhos, viu a região bem regada "como o jardim do SENHOR" e a escolheu. O vocábulo aparece três vezes na história: na visão, na escolha e no desaparecimento.

O narrador comenta a escolha de Ló aqui?

Não. Não afirma que ele escolheu mal, não menciona aquela cena, não fecha o círculo em voz alta. Limita-se a repetir a palavra. Mas em 13:10 ele havia interrompido a própria frase para avisar: "antes de o SENHOR ter destruído Sodoma e Gomorra" — de modo que o leitor sabia o fim desde o começo.

E a barganha de Abraão pelos dez justos?

Este versículo diz que os habitantes foram todos subvertidos. Disso se pode inferir que dez não havia, já que a promessa valia a partir desse número. Mas o texto não faz a conta, não alude à negociação e não declara falhada a condição — a dedução é do leitor.

Por que a vegetação entra na lista?

Três leituras cabem, compatíveis entre si: fórmula de totalidade, para dizer que nada sobrou; etiologia, explicando por que a região do mar Morto é estéril e salgada; ou inversão direta da descrição de 13:10, que chamara a área de bem regada, como o jardim do SENHOR. A terceira é a mais difícil de não enxergar, já que o texto acabou de ligar as duas cenas pela palavra "planície".

Por que a destruição é narrada tão rapidamente?

Não há descrição de sofrimento, nem gritos, nem nomes, nem uma única pessoa individualizada. O narrador, que dedicara onze versículos à hospitalidade de Ló e cinco à negociação por Zoar, gasta uma frase na ruína de quatro cidades. A desproporção é do texto, e não é possível decidir se é deliberada — mas o versículo seguinte voltará ao detalhe, para uma mulher que olhou para trás.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 13:10E levantou Ló os olhos, e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada, antes de o SENHOR ter destruído Sodoma e Gomorra, como o jardim do SENHOR.

A mesma palavra, e o aviso do fim já na cena da escolha.

Gênesis 13:11Então Ló escolheu para si toda a campina do Jordão.

A escolha que este versículo desfaz.

Gênesis 19:21Não destruirei a cidade de que você falou.

O mesmo verbo, negado para Zoar.

Gênesis 18:32Não a destruirei, por amor dos dez.

A promessa cuja condição este versículo deixa implícita.

Deuteronômio 29:23Como a subversão de Sodoma e de Gomorra, de Admá e de Zeboim.

A conta de quatro cidades, com o mesmo verbo.

Oseias 11:8Como te entregaria, ó Efraim? como te faria como Admá? como te poria como Zeboim?

As outras duas cidades, lembradas pelo profeta.

Amós 4:11Subverti alguns dentre vós, como Deus subverteu a Sodoma e Gomorra.

O verbo virando o nome do acontecimento.

Ezequiel 16:49Esta foi a iniquidade de Sodoma: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade; mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado.

A única enumeração bíblica do que se passava naquelas cidades.

Gênesis 19:26E a mulher de Ló olhou para trás.

O detalhe que sucede à frase de quatro cidades.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E destruiu aquelas cidades e toda a planície, com todos os moradores das cidades e a vegetação do solo.

Texto hebraico

וַיַּהֲפֹךְ אֶת־הֶעָרִים הָאֵל וְאֵת כָּל־הַכִּכָּר וְאֵת כָּל־יֹשְׁבֵי הֶעָרִים וְצֶמַח הָאֲדָמָה

Transliteração

wayyahafokh et-hearim hael weet kol-hakkikkar weet kol-yoshvei hearim wetsemaḥ haadamah

Palavra por palavra

וַיַּהֲפֹךְ (wayyahafokh) — "e ele subverteu"

Do verbo hafakh, virar, revolver, pôr de cabeça para baixo.

É o mesmo verbo do versículo 21, ali na forma negativa.

O substantivo derivado, mahpekhah, torna-se o nome do acontecimento em outros livros.

הֶעָרִים הָאֵל (hearim hael) — "estas cidades"

Hael é uma forma demonstrativa arcaica de plural, equivalente ao mais comum haelleh.

Ela é rara, e aparece sobretudo no Pentateuco — o que costuma ser lido como traço de linguagem antiga.

כָּל־הַכִּכָּר (kol-hakkikkar) — "toda a planície"

Aqui está a palavra que liga este versículo ao capítulo 13.

Kikkar significa, na origem, disco, círculo, coisa redonda — é a palavra usada também para um pão redondo e para um talento, o peso em forma de disco.

Aplicada à geografia, designa a região circular do baixo Jordão.

É o mesmo termo de 13:10 e 13:11, nas duas ocorrências decisivas: a que Ló viu e a que Ló escolheu.

כָּל־יֹשְׁבֵי הֶעָרִים (kol-yoshvei hearim) — "todos os habitantes das cidades"

Yoshev é o particípio de yashav, sentar-se, habitar — literalmente "os que habitam".

Note-se que é a mesma raiz de 19:1, onde Ló estava sentado à porta da cidade.

וְצֶמַח הָאֲדָמָה (wetsemaḥ haadamah) — "e o que brota do solo"

Tsemaḥ vem da raiz de brotar, germinar. Designa o rebento, o que cresce do chão.

Adamah é o solo cultivável, a terra de que se tira alimento — a mesma palavra de Gênesis 2:7, de onde o ser humano é formado.

Nota — a lista e o seu avesso

Vale fechar comparando esta enumeração com a de 13:10, porque o hebraico as aproxima.

Lá se disse: toda a kikkar do Jordão era toda bem regada — como o jardim do SENHOR, como a terra do Egito.

Aqui se diz: toda a kikkar, e o que brotava do solo.

A palavra da região é a mesma. E o item que fecha esta lista — o que germina — é exatamente aquilo que uma terra bem regada produz.

Convém não forçar a conclusão. A menção da vegetação tem outras explicações possíveis, e a mais simples é a fórmula de totalidade: destruiu-se tudo, inclusive as plantas.

Mas a coincidência de vocabulário é do texto, e não depende de interpretação. A palavra que nomeia a região aparece nos dois lugares, e nos dois ela vem acompanhada de uma referência ao que a terra produz — abundância num, ausência no outro.

E há um último detalhe. O termo usado aqui para solo é o mesmo de que o ser humano foi formado no capítulo 2, e o mesmo que foi amaldiçoado por causa dele no capítulo 3.

Registro a repetição sem construir tese sobre ela: a palavra é comum e aparece centenas de vezes.

11. Conclusão

O verbo que abre a sentença é aquele que toda a Bíblia consagrou como designação deste episódio. Sua raiz significa virar, revolver, emborcar — o gesto de pôr de cabeça para baixo, e não o de simplesmente arruinar. A imagem é de inversão: o que estava em cima passa para baixo, e a cidade não é apenas arrasada, é revirada. O substantivo derivado acabou funcionando quase como nome próprio do acontecimento, à maneira de "o Dilúvio", e reaparece em Amós, em Isaías, em Jeremias e no Deuteronômio, sempre na mesma comparação. Cabe notar onde ele comparecera quatro versículos antes: na promessa de que a cidade solicitada não seria subvertida. Ali, negado; aqui, cumprido — e o que separa aquela povoação do resto da várzea é uma frase pronunciada por um homem em fuga.

Fala-se em "estas cidades", no plural e sem enumeração, empregando-se uma forma demonstrativa arcaica que ocorre sobretudo no Pentateuco e costuma ser lida como traço de linguagem antiga. Duas haviam sido nomeadas no versículo anterior; fora do Gênesis, porém, a contagem se firma em quatro, pois o Deuteronômio arrola Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, e Oseias recorda as duas últimas numa das passagens mais comoventes da Bíblia hebraica. O capítulo 14 mencionara cinco povoações daquela região, sendo a quinta justamente a que ficou de pé. A convergência sugere que se trate das quatro; o Gênesis, contudo, não faz a conta, e a partir dele nada se decide.

O ponto mais fino, entretanto, está no vocábulo vertido por planície, que designa uma região circular — a mesma raiz que nomeia um pão redondo e um talento, o peso em forma de disco. Ele comparecera antes, em momento decisivo, quando se narrou que Ló levantou os olhos e contemplou toda a planície do Jordão, bem regada, comparável ao jardim do SENHOR e à terra do Egito, escolhendo-a em seguida para si. A palavra ocorre, portanto, três vezes na história: na visão, na escolha e no desaparecimento. E há algo notável na construção daquela cena antiga: o narrador interrompeu a própria frase para advertir que aquilo se dava antes de o SENHOR ter destruído Sodoma e Gomorra — de sorte que, ao contar a escolha, já revelara o desfecho. Quem lê aquele capítulo sabe o que a personagem ignora; quem lê este reconhece a paisagem. O encadeamento é do texto, pois o vocábulo coincide e a advertência é explícita; o que o narrador não faz é comentar, limitando-se a repetir a palavra.

Segue-se a menção aos moradores, que o capítulo anterior tornou impossível de ler com neutralidade, dado que ali se barganhara por eles descendo de cinquenta até dez, com a promessa de poupar a cidade por amor desse número. Autoriza-se, daqui, apenas a inferência aritmética: se o compromisso valia a partir de dez e a ruína sobreveio, dez não havia. Nada além disso, pois o relato não faz a conta, não alude à negociação e não declara falhada a condição — a dedução corre por conta de quem lê. Resta um desconforto legítimo, que o texto não dissolve, porque dez é número exíguo para uma cidade e a promessa cobria a hipótese de haver pouquíssima gente justa. Encerra-se a enumeração com o que germina do solo, item surpreendente porque as plantas nada fizeram, e cuja presença admite três explicações compatíveis: fórmula de totalidade, etiologia da esterilidade salgada daquela região, ou o avesso exato da descrição antiga de uma terra bem regada como jardim. A lista, aliás, nada acrescenta após o segundo item, já que arrasar a várzea inteira inclui a vegetação: ela existe para ser sentida, não para informar. E o que nela falta é ainda mais notável — nenhum grito, nenhum nome, nenhuma pessoa individualizada. Quatro cidades cabem numa frase, ao passo que o versículo seguinte se deterá numa única mulher que olhou para trás.

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Gênesis 19:25

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