Supliquem ao SENHOR: já basta de trovões de Deus e de granizo. Eu deixarei vocês irem, e vocês não ficarão mais aqui.”
1. Introdução
Logo depois de dizer "pequei", Faraó faz um pedido — e o pedido não é de perdão.
Ele pede que a tempestade pare: "já basta de trovões de Deus e de granizo". Em troca, promete deixar o povo partir, desta vez sem nenhuma das condições das promessas anteriores. E acrescenta uma frase que vai além do que Moisés tinha pedido: "vocês não ficarão mais aqui". O versículo mostra o que o rei quer da confissão que acabou de fazer.
2. Contexto Histórico e Cultural
O trovão como voz do deus
Em todo o Oriente antigo, o trovão era ouvido como a voz de um deus. A divindade da tempestade — Baal para os cananeus, Hadad (ou Addu) para os povos de língua semítica da Síria, Teshub para os hurritas e hititas — falava pelo céu, e a terra tremia quando ela falava.
Os textos de Ugarit, cidade da costa da Síria que deixou tabuinhas do século XIII a.C. com os mitos de Baal, descrevem a cena com essa imagem: Baal solta a sua voz santa, e a terra estremece. O hebraico usa a mesma palavra comum para "voz" e para "trovão", e o Salmo 29 repete sete vezes "a voz do SENHOR" sobre as águas, os cedros e o deserto.
No Egito, o deus da tempestade estrangeiro foi identificado com Seth, e Baal recebeu culto no Delta, onde a cena do Êxodo se passa. O culto aos deuses estrangeiros no Egito foi tratado no estudo de Êxodo 5:2.
Um rei do Egito elogiado como o trovão
Há um documento que dá à fala de Faraó um contraste forte. Entre as cartas de Amarna — a correspondência diplomática de Amenhotep III e de Akhenaton, achada em 1887 no Médio Egito e escrita em acádio — está a carta de número 147, enviada ao faraó por Abi-Milku, rei de Tiro.
O vassalo abre a carta com o elogio mais alto que conhecia. O seu senhor, diz ele, é o Sol que se levanta sobre todas as terras, e é aquele "que dá o seu grito no céu como Baal, e toda a terra se apavora com o seu grito".
O faraó, portanto, era louvado com a imagem do deus da tempestade: a voz do rei era o trovão que assusta o mundo. A carta não tem nenhuma ligação com o Êxodo, e não se deve fazer dela prova de nada. Ela mostra o que um rei egípcio estava acostumado a ouvir sobre si mesmo.
No versículo, a imagem está invertida. Quem troveja não é o rei; é Deus. E quem se apavora e pede que a voz se cale é o próprio Faraó.
3. Análise Teológica do Versículo
"Supliquem ao SENHOR"
É a terceira vez que o rei pede a Moisés que interceda, depois de Êxodo 8:8 e 8:28. Nas três ele pede que outros orem. Em nenhuma ora ele mesmo.
Logo depois da confissão, isso pesa. Faraó acabou de dizer que o SENHOR é o justo, e continua precisando de um intermediário para falar com ele.
"já basta de trovões de Deus e de granizo"
A confissão do versículo anterior terminava em culpa: "eu e o meu povo somos os culpados". Numa confissão de pecado, o passo seguinte seria pedir perdão. O rei pede outra coisa: que pare.
A diferença é real. Pedir perdão é pedir que a relação com o ofendido seja refeita. Pedir que a tempestade pare é pedir que a consequência acabe. Faraó faz o segundo pedido e não faz o primeiro.
O "basta" também diz alguma coisa. O rei não pede misericórdia nem se declara merecedor de alívio. Declara que o castigo já foi suficiente. É a voz de quem mede o que já sofreu e acha que chega.
E há a troca de nome. No versículo anterior o rei disse "o SENHOR"; aqui, na mesma fala, diz "trovões de Deus". Há duas leituras:
Superlativo. "De Deus" seria um modo hebraico de dizer "enormes", e "trovões de Deus" equivaleria a "trovões terríveis" (o uso está explicado no item 10).
Sentido próprio. Os trovões são de Deus porque é Deus quem os manda, como diz Êxodo 9:23: "o SENHOR mandou trovões". Na boca de um rei politeísta, a palavra genérica também caberia bem: "trovões divinos".
A nossa versão manteve "de Deus" para não decidir pelo leitor. Não é possível decidir.
"Eu deixarei vocês irem"
É a terceira promessa de deixar o povo ir. As duas anteriores vinham amarradas a alguma coisa. Em Êxodo 8:8 o rei prometia soltar o povo "para que ofereça sacrifícios ao SENHOR", a ida curta e religiosa que Moisés tinha pedido. Em Êxodo 8:28 acrescentou: "somente não vão longe demais".
Aqui não há condição nenhuma. Não há limite de distância, não há "nesta terra", não há finalidade declarada. É a promessa mais ampla que o rei fez até agora — e é feita no momento de maior pressão.
"e vocês não ficarão mais aqui"
A última frase vai além do pedido de Moisés. O que Moisés vinha pedindo desde Êxodo 3:18 era uma ida de três dias ao deserto para sacrificar. O rei agora fala como se a saída fosse definitiva: vocês não vão mais permanecer.
O texto admite duas leituras. Na mais forte, o rei oferece mais do que lhe pediram, e isso mostra o tamanho do seu medo. Na mais fraca, a frase quer dizer só "vocês não terão de esperar mais": a partida é imediata, não necessariamente definitiva. O hebraico permite as duas, e o texto não diz qual o rei tinha em mente.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Faraó
Continua falando; a fala dos v.27 e 28 é uma só. É a mais longa que o rei dirige a Moisés depois de uma praga.
Moisés e Arão
São os destinatários do imperativo plural, "supliquem". Quem responde, no versículo seguinte, é Moisés.
Os trovões e o granizo
A tempestade ainda está caindo quando o rei fala. Os dois elementos que ele nomeia são os mesmos de Êxodo 9:23, que acrescentava o fogo. O fogo não aparece no pedido.
O povo de Israel
Chamado de "vocês". O rei não diz "o povo" nem "os filhos de Israel", mas o plural inclui mais do que os dois homens à sua frente: é a partida de todos que está sendo prometida.
5. Pontos de Ensino
Um pedido mostra o que se quer de verdade
A confissão e o pedido vêm na mesma fala. O que o rei pede — o fim da tempestade, e não o perdão — ajuda a ler o que ele acabou de confessar.
Promessas feitas no pior momento tendem a ser as maiores
Nenhuma das promessas anteriores foi tão ampla quanto esta. Ela foi feita com o granizo caindo. O tamanho de uma promessa, sozinho, não mede o compromisso de quem promete.
Quem pede intercessão continua de fora
Faraó reconheceu o SENHOR como "o justo" e continuou pedindo que outros falassem com ele. O texto não comenta.
6. Aspectos Filosóficos
A promessa do versículo levanta uma pergunta antiga: uma promessa feita sob pressão obriga quem a fez? Uma tradição responde que não, porque a vontade não estava livre, e o que o medo arrancou não é propriamente escolha. Outra responde que sim, porque quem promete para escapar de um mal está escolhendo — escolhendo o mal menor —, e a palavra dada continua sendo dele. O caso de Faraó complica as duas respostas, porque a pressão não vem de um homem que ameaça, e sim de uma tempestade que o próprio rei atribui a Deus. O texto não entra na discussão: registra a promessa e, depois, o que foi feito dela.
7. Aplicações Práticas
Quando pedir ajuda, saiba o que está pedindo
Numa crise é possível pedir duas coisas diferentes: que a dor acabe, ou que o que foi quebrado seja consertado. Um pai que grita com o filho e depois diz "chega, vamos parar com isso" está pedindo o fim da briga. Pedir desculpas é outra coisa. As duas são legítimas, mas não são a mesma, e confundir uma com a outra é comum.
Desconfie das suas promessas maiores
Promessas feitas com a água no pescoço costumam ser generosas demais: "nunca mais", "o que você quiser", "vou mudar tudo". Se você se pegar prometendo mais do que lhe pediram, pare e prometa só o que conseguirá cumprir quando a pressão acabar.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O rei estava prometendo a saída definitiva do povo?
Não é possível saber. "Vocês não ficarão mais aqui" pode ser lido como partida definitiva ou só como partida imediata. O texto não esclarece, e Moisés, na resposta, não comenta a extensão da promessa.
Por que Faraó não ora ele mesmo?
O texto não diz. Pode ser que não soubesse como se dirigir a um deus que não era o seu; pode ser que reconhecesse em Moisés o único canal eficaz, depois das súplicas atendidas de Êxodo 8:13 e 8:31. As duas coisas são plausíveis e nenhuma está escrita.
O fogo da tempestade parou antes?
O rei nomeia trovões e granizo; o fogo de Êxodo 9:23-24 não aparece. Provavelmente não há nada a concluir: o fogo que "relampejava no meio do granizo" é o raio, que acompanha o trovão, e a fala do rei não é um relatório.
9. Conexão com Outros Textos
As duas promessas anteriores, com as suas condições
Êxodo 8:8 — "Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: 'Supliquem ao SENHOR que tire as rãs de mim e do meu povo, e eu deixarei o povo ir, para que ofereça sacrifícios ao SENHOR.'"
Êxodo 8:28 — "Faraó disse: 'Eu deixarei vocês irem, para que ofereçam sacrifícios ao SENHOR, o seu Deus, no deserto; somente não vão longe demais. Supliquem por mim.'"
Nas duas, a promessa tem finalidade e, na segunda, limite. Na terceira, nenhum dos dois.
O pedido original
Êxodo 3:18 — "Eles ouvirão a sua voz. Então você irá, com os anciãos de Israel, ao rei do Egito, e vocês lhe dirão: 'O SENHOR, o Deus dos hebreus, veio ao nosso encontro. Agora, deixe-nos ir três dias de caminho pelo deserto, para sacrificarmos ao SENHOR, o nosso Deus.'"
Três dias de caminho. A frase do rei, "vocês não ficarão mais aqui", já não fala em dias.
"Basta" dito por Deus, no fim de outra praga
2 Samuel 24:16 — "Quando o Anjo estendeu a mão sobre Jerusalém para a destruir, arrependeu-se do mal o SENHOR e disse ao Anjo que exterminava ao povo: Basta; detém, agora, a tua mão."
É a mesma palavra, no mesmo tipo de cena. Lá quem diz "basta" é Deus, e a peste para. Aqui quem diz é o rei castigado.
A voz do SENHOR como trovão
Salmo 29:3 — "A voz do SENHOR está sobre as águas; o Deus da glória troveja, o SENHOR está sobre as muitas águas."
O salmo usa para "voz" a mesma palavra que o Êxodo usa para "trovões".
Uma confissão que pede perdão
1 Samuel 15:25 — "Agora, perdoa-me o meu pecado e volta comigo para que eu adore ao SENHOR."
Saul, depois de dizer "pequei", pede perdão. Faraó, depois de dizer "pequei", pede que a tempestade pare.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Supliquem ao SENHOR: já basta de trovões de Deus e de granizo. Eu deixarei vocês irem, e vocês não ficarão mais aqui.”
Texto hebraico
הַעְתִּירוּ אֶל־יְהוָה וְרַב מִהְיֹת קֹלֹת אֱלֹהִים וּבָרָד וַאֲשַׁלְּחָה אֶתְכֶם וְלֹא תֹסִפוּן לַעֲמֹד׃
Transliteração
ha'tiru el-YHWH, we-rav mihyot qolot Elohim u-varad; wa-ashallechah etkhem, we-lo tosifun la'amod.
Análise palavra por palavra
הַעְתִּירוּ אֶל־יְהוָה — ha'tiru el-YHWH, "supliquem ao SENHOR".
Imperativo plural do verbo atar, suplicar, na forma causativa, a do Hifil. É o verbo que o rei usou nos pedidos de Êxodo 8:8 e 8:28, e o mesmo que o texto usa para as súplicas de Moisés. O plural dirige a ordem a Moisés e a Arão.
וְרַב — we-rav, "e basta".
Rav é, na origem, o adjetivo "muito, numeroso, grande". Usado sozinho, como exclamação, significa "já é muito", "chega", "basta". É assim em Gênesis 45:28, quando Jacó ouve que José está vivo e diz "Basta!", e em 2 Samuel 24:16, quando Deus manda o anjo parar a peste.
מִהְיֹת — mihyot, "de haver".
Infinitivo do verbo "ser, haver", com a preposição min, "de". A construção rav min + infinitivo é idiomática: "basta de haver", isto é, "chega de". Ao pé da letra: "e já é demais o haver trovões de Deus e granizo".
קֹלֹת אֱלֹהִים — qolot Elohim, "trovões de Deus".
Qolot é o plural de qol, "voz, som". No plural e em cena de tempestade, é o trovão.
Elohim em construção com um substantivo pode indicar posse ("de Deus") ou grau máximo ("terrível, enorme"). O mesmo uso aparece em Jonas 3:3, "cidade grande para Deus", ou seja, enorme. Aqui as duas leituras são possíveis, e o item 3 as expõe.
וּבָרָד — u-varad, "e granizo".
Sem artigo. O rei não fala "do granizo" como coisa conhecida, mas de granizo em geral: chega de granizo.
וַאֲשַׁלְּחָה אֶתְכֶם — wa-ashallechah etkhem, "e eu deixarei vocês irem".
O verbo shalach na forma intensiva, a do Piel, que significa soltar, deixar partir — o verbo da exigência de todo o livro. Está na primeira pessoa com a terminação -ah, que em hebraico marca decisão ou desejo do falante: "que eu deixe ir", "vou deixar ir". É uma promessa formulada como resolução.
Etkhem: a partícula de objeto direto com o sufixo "vocês".
וְלֹא תֹסִפוּן לַעֲמֹד — we-lo tosifun la'amod, "e vocês não ficarão mais aqui".
Ao pé da letra: "e não continuarão a ficar de pé".
Tosifun é o verbo yasaf, acrescentar, continuar, repetir, na segunda pessoa do plural. A terminação -un, mais longa que a normal, é entendida por muitos gramáticos como enfática: "de modo nenhum continuarão". O verbo volta em Êxodo 9:34, com Faraó como sujeito.
La'amod é o infinitivo de amad, "ficar de pé, permanecer, estar parado". É o mesmo verbo dos magos que "não conseguiram ficar de pé" em Êxodo 9:11 e do "eu o mantive de pé" de Êxodo 9:16. Aqui tem o sentido corrente de permanecer num lugar.
11. Conclusão
O versículo leva a duas conclusões.
A confissão de Faraó serve a um pedido de alívio, e não de reconciliação. Na mesma fala em que se declara culpado, o rei não pede perdão; pede que a tempestade pare e declara que o castigo já basta. Isso não prova que a confissão fosse falsa, mas mostra para onde ela estava voltada: para o fim da consequência.
A promessa é a maior do rei, e a mais dependente da pressão. Sem condição, sem limite, com uma frase que parece conceder a saída definitiva, ela foi feita no momento em que o rei tinha menos margem para negociar. O texto não comenta a coincidência, mas a deixa visível: é com o granizo caindo que o rei oferece mais.













