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Êxodo 8:8

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✍️ Por Alberto Adriano·16 de setembro de 2026·⏱️ 31 min de leitura·👁 30 acessos
Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: “Supliquem ao SENHOR que tire as rãs de mim e do meu povo, e eu deixarei o povo ir, para que ofereça sacrifícios ao SENHOR.”
Faraó sentado no trono fala com Moisés e Arão de pé diante dele, com rãs espalhadas pelo piso do salão.

Estudo


Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: “Supliquem ao SENHOR que tire as rãs de mim e do meu povo, e eu deixarei o povo ir, para que ofereça sacrifícios ao SENHOR.”

1. Introdução

Este é o versículo em que o rei do Egito pede alguma coisa pela primeira vez.

Até aqui ele só recusou, ordenou e calou. Em Êxodo 5:2 respondeu que não conhecia o SENHOR e que não deixaria Israel ir. Em Êxodo 5:4 mandou os dois voltarem ao trabalho. Diante do rio de sangue, em Êxodo 7:23, virou as costas e entrou em casa. Agora manda chamar Moisés e Arão — e faz um pedido.

Quatro coisas mudam neste versículo, e todas são verificáveis no texto.

A direção da audiência se inverte. Nas cenas anteriores foram eles que entraram; aqui é ele que convoca.

Ele pronuncia o nome. Duas vezes, no mesmo versículo, o mesmo nome que dissera não conhecer.

Ele promete. E usa, para prometer, exatamente o verbo da exigência que vinha recusando.

E ele reformula o pedido. Onde a exigência dizia "para que me sirva", ele diz "para que ofereça sacrifícios" — palavra diferente, coisa diferente, como o item 3 mostra.

O item 2 traz um documento do mundo antigo que põe a cena em escala: as orações de um rei hitita durante uma epidemia de vinte anos, em que ele negocia com o deus ofendido. O item 6 trata do problema que este versículo levanta e que o capítulo inteiro vai confirmar — o de uma promessa feita enquanto dói.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um rei que negocia com o deus que o está castigando

Existe um conjunto de textos do mundo antigo em que um rei, no meio de uma praga, fala com o deus responsável por ela e tenta um acordo. São as chamadas orações da peste de Mursili II, rei dos hititas por volta do fim do século XIV antes de Cristo.

Convém um registro de honestidade antes de seguir: essas orações já foram usadas neste acervo, no estudo de Gênesis 20:4, e lá o ponto era outro — a ideia, corrente em todo o Oriente Próximo, de que a falta de um governante recai sobre o povo inteiro. Aqui não se refaz aquilo. O que interessa agora é o procedimento: o que um rei antigo fazia, passo a passo, quando decidia que a única saída era negociar.

A situação

Uma epidemia atingiu o reino hitita e durou cerca de vinte anos, atravessando o reinado do pai de Mursili e boa parte do dele. Morreu gente demais para contar. As orações dizem que a doença entrou no país com prisioneiros de guerra trazidos do Egito.

Mursili escreve quatro textos ao longo desses anos, e eles não são devocionais. São peças de argumentação, redigidas para serem lidas diante das imagens dos deuses, e depois copiadas e guardadas em arquivo.

Primeiro passo: descobrir a causa

O rei não parte para o pedido. Parte para a investigação.

Ele manda consultar oráculos — o procedimento hitita para isso era detalhado e envolvia perguntas de sim e não — e manda procurar nos arquivos. E encontra duas coisas.

A primeira é uma oferenda esquecida: uma tabuinha antiga registrava sacrifícios devidos ao rio Eufrates que haviam deixado de ser feitos.

A segunda é mais grave. Outra tabuinha trazia um tratado com o Egito, jurado diante dos deuses, e o pai de Mursili o havia rompido ao atacar território egípcio. O juramento fora quebrado, e os deuses que o testemunharam cobravam.

Segundo passo: admitir

Aqui está o traço que mais distingue esses textos, e é preciso lê-lo com atenção porque ele é incômodo.

Mursili confessa. Diz que a falta é real, que foi cometida, e que foi cometida pelo pai dele. Argumenta que a culpa não é sua — ele era criança —, mas reconhece que herdou a dívida e que responde por ela.

Não há aqui nenhuma tentativa de negar o fato nem de discutir a competência do deus para castigar.

Terceiro passo: oferecer reparação

Feita a admissão, vem a proposta, e ela é concreta.

O rei oferece restituição, que no direito hitita era uma categoria com nome próprio: a compensação devida por um dano, paga em bens, em gente ou em rito. Promete refazer as oferendas esquecidas, reparar o que for preciso reparar, e devolver o que houver de devolver.

Quarto passo: argumentar por interesse

E então vem a parte mais surpreendente para um leitor moderno, porque parece cálculo e é oração.

Mursili aponta ao deus a consequência da epidemia para o próprio deus. Se todo mundo morrer, diz ele, não sobra quem faça o pão da oferenda e quem derrame a libação. Os lavradores que cultivam o campo do deus estão morrendo; os que cuidam do gado do templo, também. O argumento é de dano mútuo: continuar castigando prejudica quem castiga.

E há o pedido de proporção — que a punição já dure tempo demais, que o castigo já tenha sido pago, que basta.

O que esses textos mostram

Três coisas, e as três ajudam a medir o versículo.

A primeira: negociar com um deus em tempo de praga era procedimento normal, com etapas reconhecíveis. Não era desespero improvisado. Havia consulta, havia diagnóstico, havia oferta, havia registro.

A segunda: o rei fala por si. Mursili escreve na primeira pessoa e se dirige diretamente aos deuses, ainda que um sacerdote leia o texto em voz alta.

A terceira: a oferta é de reparação, e não de cumprimento de uma exigência. Ninguém tinha mandado Mursili fazer nada; ele é quem descobre o que deve e propõe como pagar.

E agora a comparação

Ponha os dois lado a lado e a diferença é o que interessa.

Mursili investiga; o rei do Egito não. Não há consulta, não há oráculo, não há busca de arquivo. Ele não pergunta por que aquilo está acontecendo.

Mursili confessa; o rei do Egito não. Não há admissão de falta neste versículo, nem em nenhum outro do capítulo. Ele pede que a praga pare e não diz por que ela começou.

Mursili fala; o rei do Egito manda falar. Esta é a diferença mais visível. O hitita reza; o egípcio convoca dois estrangeiros e ordena que eles rezem. Ele não se dirige ao SENHOR em nenhum momento do livro.

Mursili oferece reparação; o rei do Egito oferece obediência. O que ele põe na mesa não é uma compensação inventada por ele: é exatamente o que vinha sendo exigido dele desde Êxodo 5:1. Em termos de negociação, isso é notável — ele não tem nada a oferecer além daquilo que já lhe fora ordenado.

Convém marcar o limite com todas as letras. Não há relação entre os dois textos. O Êxodo não menciona hititas, não descreve procedimento nenhum e não está dialogando com a prática hitita. Os documentos servem para mostrar como se fazia, naquele mundo, o que este versículo mostra sendo feito pela metade — e é a metade que falta que torna a cena interessante.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então Faraó chamou Moisés e Arão"

Três palavras, e elas invertem a cena.

Até aqui, quem entrava eram eles. Em Êxodo 5:1 "foram a Faraó"; em Êxodo 7:10 entraram; em Êxodo 8:1 a ordem foi "vá a Faraó". O estudo daquele versículo mostra o que era, no Egito, conseguir chegar à presença do rei, e não se refaz aqui.

Agora é ele que manda chamar.

O verbo é o mesmo que Êxodo 7:11 usou quando ele convocou os sábios e os feiticeiros do Egito. Ali chamou os seus; aqui chama os dois estrangeiros — e chama depois de os seus terem feito, no versículo anterior, uma demonstração diante dele.

O Êxodo não liga as duas cenas. Não escreve "por isso", não escreve "vendo que os seus não podiam". Põe os dois versículos em sequência e deixa o leitor com a sequência. O estudo de Êxodo 8:7 registra o que se pode observar disso sem acrescentar ao texto.

Vale medir o tamanho do gesto pelo que ele custa. Mandar chamar é admitir que se precisa. Um rei que convoca alguém de fora está, no mesmo ato, reconhecendo que o que tem dentro não resolveu.

"Supliquem ao SENHOR"

Quatro observações aqui, e cada uma vale por si.

A primeira: o verbo. "Suplicar" traduz uma palavra hebraica que não é o termo genérico de oração. Designa a súplica insistente por uma reversão concreta — pedir que alguma coisa que está acontecendo pare. O campo dela, a etimologia discutida e o jogo entre pedir e ser atendido estão desenvolvidos no estudo de Gênesis 25:21, a propósito de Isaque, e não se reabrem.

O que é deste versículo é quem a usa. É um rei do Egito mandando dois hebreus suplicarem ao deus deles. A palavra que o Gênesis aplicou a um patriarca pedindo filhos aparece agora na boca do maior poder da região, pedindo que tirem bichos da casa dele.

A segunda: é imperativo. Ele não pede que orem — manda. O verbo está no plural e no modo de quem ordena, dirigido aos dois. Um rei não sai do registro de comando nem para implorar; o que ele faz, gramaticalmente, é dar uma ordem cujo conteúdo é um favor.

A terceira: ele não fala com o SENHOR. Este é o dado mais fácil de passar despercebido e um dos mais firmes do livro. O rei do Egito, do começo ao fim do Êxodo, nunca se dirige a Deus. Ele fala a Moisés, fala a Arão, fala aos seus servos — e manda que os outros rezem. Compare com o rei hitita do item 2, que escreve e fala em primeira pessoa.

A quarta: ele diz o nome. E aqui está a reviravolta mais nítida do versículo.

Em Êxodo 5:2, na primeira audiência, a resposta dele tinha sido: "Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR". O estudo daquele versículo é o dono do que essa declaração significava.

Neste versículo ele usa o nome duas vezes — "supliquem ao SENHOR" e "ofereça sacrifícios ao SENHOR". Sem explicação, sem retratação, sem comentário do texto.

Convém não inflar isso. Dizer um nome não é reconhecer uma autoridade, e o rei não afirma nada sobre quem é o SENHOR; ele apenas usa o nome para identificar a quem se deve pedir. Não é possível decidir se o Êxodo registra aqui uma mudança de convicção ou apenas o uso prático do nome por quem quer um resultado. O que se pode afirmar é a diferença entre as duas falas, e ela é verificável.

"que tire as rãs de mim e do meu povo"

O conteúdo do pedido, e ele é mais curto do que o anúncio.

A ameaça de Êxodo 8:3-4 tinha listado sete lugares e três grupos de pessoas: a casa, o quarto, a cama, a casa dos servidores, o povo, os fornos, as amassadeiras, e depois o rei, o povo e todos os servos.

O pedido nomeia dois: de mim e do meu povo.

Ficam de fora a casa, o quarto, a cama, o forno, a gamela — e ficam de fora os servidores, que no anúncio eram justamente o grupo marcado com "todos". Moisés vai ampliar a lista no versículo seguinte, e o estudo de Êxodo 8:9 é o dono daquela ampliação.

O que cabe registrar aqui é a ordem: ele se nomeia primeiro. "De mim e do meu povo" — o pronome de primeira pessoa antes de tudo.

Não vale fazer disso um retrato psicológico; o Êxodo não descreve o interior do personagem e este estudo não vai inventá-lo. O dado é de composição, e é o seguinte: o anúncio começou pelo território e terminou nas pessoas; o pedido começa na pessoa do rei e para no povo.

"e eu deixarei o povo ir"

Aqui está a primeira promessa do rei do Egito em todo o livro, e ela merece ser desmontada peça por peça.

O verbo é o da exigência. "Deixar ir" é exatamente a palavra que vinha sendo dirigida a ele desde Êxodo 5:1 — a mesma raiz, a mesma forma intensiva. Ele não reformula, não propõe outra coisa, não inventa um equivalente: repete o verbo que recusava.

Isso é significativo porque mostra que a exigência foi entendida. Quatro capítulos de recusa não foram um mal-entendido de vocabulário.

Não há "se". Esta é a observação mais fina do versículo, e ela é de forma.

O hebraico tem uma partícula para condição — a mesma que Êxodo 8:2 usou na ameaça: "se você se recusar". Aqui ela não aparece. O rei não diz "se vocês suplicarem e as rãs saírem, então eu deixarei". Ele encadeia: supliquem, e eu deixarei ir.

A condição está na sequência, e não nas palavras. É por isso que a frase soa como compromisso e não como proposta de troca — e é por isso que ela pode ser descumprida sem que nenhuma palavra tenha sido tecnicamente violada.

Não há juramento. O mundo antigo tinha formas para tornar uma promessa vinculante, e o próprio Gênesis as mostra em funcionamento: o juramento pela vida do rei, a mão sob a coxa, o monte de pedras entre as partes, a refeição comum, a testemunha divina invocada. Nada disso está aqui.

Não há divindade invocada como fiadora, não há testemunha nomeada, não há gesto, não há penalidade prevista para o descumprimento, não há registro. A promessa é uma frase dita numa sala.

E não há prazo nem lugar. Ele não diz quando deixará ir nem para onde. O item 6 trata do que isso significa para a promessa; o estudo de Êxodo 8:1 já tinha registrado que a própria exigência chegou a ele sem endereço.

"para que ofereça sacrifícios ao SENHOR"

Última frase, e aqui o rei faz uma troca de palavra que nenhuma tradução esconde e que quase todo leitor atravessa sem notar.

A exigência, em Êxodo 8:1, dizia: "deixe o meu povo ir, para que me sirva". O verbo era o do trabalho e do serviço — a raiz de "escravo", a mesma do serviço duro de Êxodo 1:14, como o estudo de Êxodo 3:12 desenvolve.

O rei responde: "e eu deixarei o povo ir, para que ofereça sacrifícios". Outro verbo, de outro campo: o do abate ritual, o de matar um animal em oferta.

A diferença entre as duas palavras não é de estilo. Serviço é uma relação continuada, sem fim declarado e sem contorno; sacrifício é um ato — tem começo, tem meio, tem fim e tem lugar. Um se cumpre, o outro se mantém.

Repare que a palavra do sacrifício não é invenção dele. É a que Êxodo 3:18 e Êxodo 5:3 tinham usado, quando o pedido ainda vinha com três dias de caminho e um rito determinado. O rei devolve a exigência à formulação mais antiga e mais limitada de todas.

O que se pode afirmar é o dado da troca, e ele é verificável em qualquer interlinear. O que não se pode afirmar é a intenção: o Êxodo não comenta a substituição, não a assinala e não a corrige — nem aqui, nem na resposta de Moisés no versículo seguinte. Não é possível decidir se o rei está reduzindo o pedido de propósito ou se apenas usa a palavra que ouviu nas primeiras audiências.

Registre-se, por fim, o que a frase não traz: não há deserto, não há três dias e não há "a mim". Ele diz que o povo sacrificará ao SENHOR, e não que sacrificará a quem fala — porque, ao contrário da exigência, esta frase não é fala do remetente. É fala de um terceiro sobre um deus que não é o dele.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

É a quarta vez que ele fala no livro, e a primeira em que pede.

Vale pôr as falas anteriores em fila, porque a comparação é o que dá peso a esta. Em Êxodo 5:2: "Quem é o SENHOR... Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir". Em Êxodo 5:4: "voltem ao seu trabalho". Em Êxodo 5:17: "vocês são preguiçosos". Depois disso, silêncio — durante o cajado que virou serpente, durante o rio de sangue, durante os sete dias.

Neste versículo ele chama, pede e promete.

O que o livro registra dele depois é assunto dos versículos seguintes, e o estudo de Êxodo 8:15 é o dono do que acontece quando a praga passa.

Moisés e Arão

Aparecem juntos e nomeados, nesta ordem.

Vale notar uma coisa: no versículo 5 a ordem foi dada a Moisés para que a transmitisse a Arão, e no versículo 6 só Arão agiu. Aqui o rei chama os dois. O Êxodo não conta onde eles estavam nem como foram encontrados.

Repare também em quem responde: no versículo seguinte, quem fala é só Moisés. O rei chama os dois; um responde.

Os magos, que acabaram de agir

Eles não são mencionados neste versículo, e a ausência é o dado.

No versículo anterior fizeram uma demonstração. Aqui o rei chama outras pessoas. O Êxodo não diz que os dispensou, não diz que ficou decepcionado e não registra nada sobre eles — simplesmente não voltam a aparecer até a praga seguinte.

"O meu povo" e "o povo"

Há um detalhe de vocabulário na fala do rei que vale isolar, porque ele usa a mesma palavra para dois povos diferentes na mesma frase.

Primeiro diz "o meu povo", e são os egípcios — de quem as rãs devem ser tiradas. Depois diz "o povo", com artigo e sem possessivo, e são os israelitas — os que ele deixará ir.

É a mesma palavra hebraica que Êxodo 8:1 usou em "deixe o meu povo ir". Ali o possessivo era do remetente do recado; aqui o rei o aplica aos seus e chama os outros apenas de "o povo". Ele não diz "o seu povo".

5. Pontos de Ensino

A dor produz o primeiro pedido

Quatro capítulos de recusa, e o que muda a posição do rei não é argumento, não é sinal e não é demonstração: é desconforto continuado.

Vale registrar isso sem moralizar, porque o texto também não moraliza. O Êxodo simplesmente põe a praga antes do pedido e não explica a passagem de uma coisa à outra.

Pedir e ceder não são a mesma coisa

O rei pede que a praga acabe. Em troca, oferece obedecer.

Repare na assimetria: ele não propõe nada que seja dele. O que põe na mesa é exatamente o que já lhe fora exigido — e o item 2 mostra que, no mundo antigo, quem negociava com um deus costumava oferecer reparação, isto é, algo além da obediência devida.

A palavra trocada muda o tamanho do combinado

A exigência falava em servir; a promessa fala em sacrificar. Uma é relação sem fim declarado; a outra é um evento.

O hábito de leitura vale para muito além deste versículo: quando alguém repete um pedido com outra palavra, está propondo outro acordo — e quase sempre sem dizer que está.

Uma promessa sem garantia é uma frase

Não há juramento, não há testemunha, não há prazo, não há penalidade e não há registro.

O item 6 trata do problema de fundo. Como ponto de ensino basta o inventário: o texto mostra, no próprio corpo da promessa, tudo aquilo de que ela não dispõe — e o leitor que souber o que uma promessa antiga costumava trazer percebe a falta antes de o capítulo confirmá-la.

Dizer o nome não é reconhecer

O rei usa duas vezes o nome que disse não conhecer, e o texto não comenta.

É um bom exercício de contenção. A tentação é ler ali uma conversão em miniatura; o que está escrito é o uso de um nome por quem precisa que alguém interceda. Nada além disso pode ser afirmado.

6. Aspectos Filosóficos

A promessa feita enquanto dói

Este versículo levanta um problema que tem nome, tem literatura e tem uma formulação clássica: a de que uma promessa só vale enquanto quem a fez continuar tendo motivo para cumpri-la.

Quem a expôs com mais clareza foi Thomas Schelling (economista norte-americano, 1921-2016) no livro A estratégia do conflito (publicado em inglês em 1960), que analisa negociação, ameaça e acordo entre partes que não confiam uma na outra.

O argumento de Schelling é contraintuitivo e vale enunciá-lo com cuidado.

Segundo ele, o problema de uma promessa não é a sinceridade de quem promete. É a credibilidade, que é coisa diferente. Uma promessa é crível quando quem a faz teria motivo para cumpri-la no momento de cumprir — não no momento de prometer. Se, quando chegar a hora, for do interesse dele não cumprir, a promessa não vale nada, por mais honesta que tenha sido quando foi feita.

Daí decorre a observação mais conhecida do livro: em negociação, a força não está em ter opções — está em conseguir eliminar as próprias opções de maneira visível. Quem quer ser levado a sério precisa se amarrar. Schelling usa exemplos de todo tipo: o contrato com multa, o refém entregue, a ponte queimada atrás de si, o negociador que se compromete publicamente e assim perde a possibilidade de recuar sem vexame.

O ponto é sempre o mesmo: prometer é fácil; tornar-se incapaz de voltar atrás é o que custa.

Aplique isso à frase do versículo.

O rei do Egito promete soltar o povo. No momento em que fala, ele tem todo o motivo do mundo para cumprir: o país está coberto de rãs. Mas o item 3 mostra o inventário do que falta na promessa dele — não há juramento, não há divindade invocada como fiadora, não há testemunha, não há prazo, não há penalidade e não há registro. Ele não abriu mão de nada.

E há mais, e é o ponto decisivo: o que ele promete depende de um ato que a outra parte executa primeiro. Supliquem — e então eu deixarei ir. Quem cumpre antes é o outro lado. Quando chegar a vez dele, o motivo que produziu a promessa já não existirá, porque as rãs já terão saído.

Daí que a formulação de Schelling se encaixe com uma precisão desconfortável: a promessa foi feita sob uma pressão que o próprio cumprimento dela remove.

Convém marcar dois limites, e os dois importam.

O primeiro: Schelling não fala do Êxodo, e o Êxodo não teoriza sobre negociação. A ferramenta é de fora do texto e serve para nomear o que o texto mostra.

O segundo, e é o mais importante: isto não é diagnóstico do personagem. Não se está dizendo que o rei mentiu, nem que planejava trair. O argumento é justamente o contrário — ele funciona mesmo supondo que a promessa fosse sincera. É uma observação sobre a forma do compromisso, não sobre a alma de quem o fez.

O que acontece depois, quando a pressão sai, é assunto do estudo de Êxodo 8:15, e não se antecipa aqui.

7. Aplicações Práticas

Promessa feita na pressa

Há uma aplicação direta, e ela vale nos dois papéis.

No papel de quem promete: cuidado com o que se combina enquanto alguma coisa aperta — uma dor, uma dívida, um prazo, um medo. A vontade de que aquilo acabe é um péssimo conselheiro sobre o tamanho do compromisso, porque ela vai embora junto com o aperto, e o compromisso fica.

Um teste simples resolve boa parte dos casos: eu prometeria isto amanhã de manhã, com o problema já resolvido? Se a resposta é não, o que está sendo combinado é grande demais.

No papel de quem recebe a promessa: reconhecer o formato. Promessa feita sob pressão, sem prazo e sem nada que ancore o cumprimento é a que mais frequentemente não se cumpre — e reclamar depois não desfaz nada.

O que torna um compromisso mais firme

O item 6 mostra que a firmeza não vem da sinceridade, e sim daquilo que amarra.

Na prática, três coisas fazem diferença e nenhuma delas é grande: data ("na sexta", e não "assim que der"), parte visível já cumprida (um primeiro passo dado antes de a pressão sair) e alguém sabendo (um terceiro a par do combinado).

Não é desconfiança: é o reconhecimento de que a memória e a vontade mudam quando as circunstâncias mudam, e de que isso vale para todo mundo, inclusive para quem lê.

Pedir ajuda a quem se recusou a ouvir

O rei manda chamar os mesmos homens que vinha dispensando, e não gasta uma palavra para explicar a mudança.

Há um uso modesto nisso e é sobre orgulho: voltar atrás publicamente custa, e a maior parte das pessoas prefere prolongar um problema a admitir que precisa de quem já dispensou. O versículo não recomenda nada — apenas mostra alguém fazendo, e o desconforto que a cena produz no leitor é a medida do quanto isso custa.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que ele chama Moisés e Arão, e não os seus magos?

O Êxodo não explica, e essa é a resposta que o texto permite.

O que se pode registrar é a sequência: no versículo 7 os magos fazem uma demonstração; no versículo 8 o rei chama outras pessoas. Não há "por isso" ligando as duas frases, e o estudo de Êxodo 8:7 mostra o que se pode observar sem acrescentar ao texto.

Ele acreditou no SENHOR?

O texto não diz, e a pergunta provavelmente está mal posta.

O que está escrito é que ele usou o nome duas vezes e pediu que outros suplicassem. Não há declaração de fé, não há adoração, não há dirigir-se a Deus. Em Êxodo 5:2 ele disse não conhecer o SENHOR; aqui o nomeia. Entre as duas coisas há uma diferença verificável, e não é possível decidir se ela é mais do que prática.

A promessa era sincera?

Não se sabe, e é importante notar que o item 6 mostra por que a pergunta é menos decisiva do que parece.

Uma promessa sem prazo, sem juramento, sem testemunha e cujo cumprimento depende do outro lado agir primeiro tem o mesmo destino provável, sendo sincera ou não. O Êxodo, aliás, nunca descreve o que o rei pensa: descreve o que ele diz e o que ele faz.

Por que ele pede só por si e pelo seu povo, e não pelas casas e pelos fornos?

O versículo não explica, e Moisés vai ampliar a lista na resposta — assunto do estudo de Êxodo 8:9.

Vale registrar que o pedido é mais curto do que a praga anunciada, e que ele deixa de fora exatamente o grupo que o anúncio marcara com "todos": os servidores do rei.

Por que Moisés não corrige a troca de "servir" por "sacrificar"?

O Êxodo não conta. E o silêncio é duplo: nem Moisés corrige, nem o texto assinala.

Isso merece registro como fato de composição. O livro deixa a formulação do rei de pé e segue adiante, e as negociações seguintes deste mesmo capítulo continuarão girando em torno do sacrifício, e não do serviço.

9. Conexão com Outros Textos

A exigência que ele está respondendo

Compare o verbo do fim das duas frases: ali "para que me sirva", aqui "para que ofereça sacrifícios".

Êxodo 8:1 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Vá a Faraó e diga-lhe: Assim diz o SENHOR: Deixe o meu povo ir, para que me sirva.'"

A primeira resposta dele, quatro capítulos antes

É o texto que torna este versículo notável.

Êxodo 5:2 — "Mas Faraó respondeu: 'Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.'"

A formulação antiga, que ele retoma

O verbo do sacrifício vem daqui, das primeiras versões do pedido.

Êxodo 5:3 — "Eles disseram: 'O Deus dos hebreus veio ao nosso encontro. Deixe-nos ir três dias de caminho pelo deserto, para sacrificarmos ao SENHOR, o nosso Deus, para que ele não nos fira com peste ou com espada.'"

A resposta de Moisés, no versículo seguinte

Ela devolve a iniciativa ao rei e amplia a lista do pedido.

Êxodo 8:9 — "Moisés disse a Faraó: 'Tenha esta honra sobre mim: para quando devo suplicar por você, pelos seus servos e pelo seu povo, para que as rãs sejam eliminadas de você e das suas casas e fiquem somente no Nilo?'"

A segunda vez que ele pedirá a mesma coisa

No fim deste capítulo o pedido volta, agora mais curto e sem promessa nova.

Êxodo 8:28 — "Faraó disse: 'Eu deixarei vocês irem, para que ofereçam sacrifícios ao SENHOR, o seu Deus, no deserto; somente não vão longe demais. Supliquem por mim.'"

O que ele tinha feito diante da praga anterior

Ali não houve pedido nenhum, e é esse o pano de fundo deste versículo.

Êxodo 7:23 — "Faraó virou as costas, entrou em casa e nem a isto deu atenção."

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: “Supliquem ao SENHOR que tire as rãs de mim e do meu povo, e eu deixarei o povo ir, para que ofereça sacrifícios ao SENHOR.”

Texto hebraico

וַיִּקְרָא פַרְעֹה לְמֹשֶׁה וּלְאַהֲרֹן וַיֹּאמֶר הַעְתִּירוּ אֶל־יְהוָה וְיָסֵר הַצְפַרְדְּעִים מִמֶּנִּי וּמֵעַמִּי וַאֲשַׁלְּחָה אֶת־הָעָם וְיִזְבְּחוּ לַיהוָה׃

Transliteração

wa-yiqra Par'oh le-Mosheh u-le-Aharon wa-yomer: ha'tiru el-YHWH we-yaser ha-tsefarde'im mimmenni u-me-ammi; wa-ashallechah et-ha-am we-yizbechu la-YHWH.

Análise palavra por palavra

וַיִּקְרָא פַרְעֹה — wa-yiqra Par'oh, "e Faraó chamou".

Raiz qara: chamar, convocar, gritar, e também ler em voz alta. Forma encadeada da narrativa, terceira pessoa masculina singular.

É exatamente o mesmo verbo com que Êxodo 7:11 registrou a convocação dos sábios e feiticeiros do Egito — e o mesmo de Gênesis 41:8, quando um rei do Egito manda chamar os intérpretes de sonhos.

O que muda é o complemento, e é aí que está o versículo: desta vez os convocados são os dois estrangeiros.

לְמֹשֶׁה וּלְאַהֲרֹן — le-Mosheh u-le-Aharon, "a Moisés e a Arão".

Cada nome com a sua preposição, repetida. O hebraico poderia dizer "a Moisés e Arão", com uma preposição só; repeti-la individualiza os dois.

Note-se a ordem: Moisés primeiro. E note-se quem responde no versículo seguinte: só Moisés.

הַעְתִּירוּ — ha'tiru, "supliquem".

Raiz atar, no imperativo plural da forma causativa do verbo hebraico (o Hifil).

O campo da raiz, a etimologia discutida e o jogo entre a súplica e o atendimento — o mesmo verbo em vozes opostas — estão desenvolvidos no estudo de Gênesis 25:21, e não se repetem.

Três notas próprias deste versículo.

A primeira é a forma. O verbo de Gênesis 25:21 está na forma simples; aqui está no Hifil, que nesta raiz tem valor de "fazer súplica", "dirigir súplica a". É a forma que o livro usará em todas as ocorrências deste capítulo — cinco ao todo, nos versículos 8, 9, 28, 29 e 30. Este capítulo é o lugar do Êxodo em que a palavra mais aparece.

A segunda é o modo. É imperativo, e imperativo plural: uma ordem dirigida aos dois. Não há a partícula de cortesia que o hebraico usa para abrandar um imperativo. O rei ordena que se suplique.

A terceira é a direção. El-YHWH, "ao SENHOR". A súplica é dirigida por eles, não por ele — e o texto será consistente nisso do começo ao fim do livro.

אֶל־יְהוָה — el-YHWH, "ao SENHOR".

O Tetragrama, o nome próprio. Primeira das duas ocorrências na fala do rei.

Compare com Êxodo 5:2, onde o mesmo personagem disse lo yada'ti et-YHWH, "não conheço o SENHOR". A palavra é a mesma; o que mudou é o uso que ele faz dela.

וְיָסֵר — we-yaser, "e que tire".

Raiz sur, afastar-se, desviar-se, retirar-se, na forma causativa: fazer afastar, remover, tirar.

Duas observações.

A primeira é de sujeito. O verbo está na terceira pessoa do singular, e o sujeito é o SENHOR — não Moisés e Arão. O rei manda que eles supliquem, e o que ele espera é que ele tire. Ao pé da letra: "supliquem ao SENHOR, e que ele afaste as rãs".

A segunda é de campo. Sur não é um verbo de destruir. É de afastar, remover do lugar — o mesmo que se usa para tirar um objeto de cima de outro, para desviar de um caminho, e para remover os deuses estrangeiros do meio de uma casa, em Gênesis 35:2.

Vale reter: o rei não pede que as rãs morram. Pede que saiam. O que efetivamente acontecerá com elas está nos versículos 13 e 14, e os estudos deles são os donos do assunto.

מִמֶּנִּי וּמֵעַמִּי — mimmenni u-me-ammi, "de mim e do meu povo".

Duas vezes a preposição de afastamento, "de, para longe de", com sufixos: a primeira de primeira pessoa singular, a segunda ligada a am, povo, com o mesmo sufixo.

Repare na economia da lista, que o item 3 mede: são dois itens, contra os sete lugares e os três grupos do anúncio.

E repare no possessivo. "O meu povo", diz o rei — usando para os egípcios a mesma expressão que Êxodo 8:1 pôs na boca do remetente a respeito de Israel. As duas ocorrências estão a sete versículos de distância, com donos diferentes.

וַאֲשַׁלְּחָה — wa-ashallechah, "e eu deixarei ir".

A palavra da promessa, e a forma dela merece atenção.

A raiz é shalach, na forma intensiva (o Piel) com valor causativo — exatamente a mesma palavra da exigência de Êxodo 8:1, shallach, ali no imperativo. O rei responde com o verbo que lhe foi ordenado.

A forma aqui é de primeira pessoa singular com a terminação que o hebraico usa para exprimir intenção ou resolução — algo entre "eu deixarei" e "que eu deixe ir". É a forma de quem declara o que vai fazer, e não a de quem jura que fará.

Isto é o que o item 3 desenvolve: não há partícula de condição. O hebraico dispõe de im, "se", e a usou na ameaça de Êxodo 8:2. Aqui a frase apenas encadeia — supliquem, e eu deixarei ir. A troca está subentendida na sequência, e não escrita em nenhuma palavra.

Tampouco há fórmula de juramento. O hebraico tinha construções próprias para isso, e nenhuma aparece.

אֶת־הָעָם — et-ha-am, "o povo".

Com artigo e partícula de objeto direto, e sem possessivo.

O contraste com a frase anterior é imediato: quatro palavras antes ele disse ammi, "o meu povo", falando dos egípcios. Agora diz apenas ha-am, "o povo".

Ele não diz "o seu povo" nem "o povo do SENHOR". A expressão é neutra e identifica os israelitas pelo artigo, como quem se refere a um grupo já conhecido da conversa.

וְיִזְבְּחוּ לַיהוָה — we-yizbechu la-YHWH, "e que sacrifiquem ao SENHOR".

A troca de verbo que o item 3 examina.

A raiz é zavach, e o campo dela é preciso: abater um animal em oferta. Dela vem zevach, o sacrifício, e mizbeach, o altar — literalmente "o lugar de abater". O verbo aparece ao longo de toda a Bíblia hebraica em contexto de culto, e também, nos livros históricos, para abater animal em refeição festiva.

A exigência de Êxodo 8:1 terminava em we-ya'avduni, "e que me sirvam", da raiz avad — trabalhar, servir, prestar culto —, cujo campo está no estudo de Êxodo 3:12.

São duas palavras de campos diferentes. Avad descreve uma relação continuada; zavach descreve um ato com começo e fim. E zavach é a palavra das formulações mais antigas do pedido, em Êxodo 3:18 e Êxodo 5:3.

Note-se, por fim, a pessoa: la-YHWH, "ao SENHOR", na terceira pessoa. Na exigência era "a mim", porque quem falava era o remetente. Aqui quem fala é um terceiro, e o nome vem no lugar do pronome.

11. Conclusão

Do exame deste versículo saem três conclusões.

A primeira: é aqui que o rei do Egito entra na negociação. Ele manda chamar, o que inverte a direção de todas as cenas anteriores; pede, o que nunca tinha feito; e pronuncia duas vezes o nome que declarara não conhecer em Êxodo 5:2. As três coisas são verificáveis no texto, e nenhuma delas é comentada pelo Êxodo. O que não se pode concluir daí é uma mudança interior: o livro não descreve o que o personagem pensa, e usar um nome não é reconhecer uma autoridade.

A segunda: a promessa é feita e, ao mesmo tempo, não é amarrada em nada. Não há "se", não há juramento, não há divindade invocada como fiadora, não há testemunha, não há prazo, não há lugar e não há penalidade prevista. O item 2 mostra que o mundo antigo sabia fazer isso de outro jeito — um rei em situação parecida investigava a causa, admitia a falta e oferecia reparação. Aqui não há investigação, não há admissão e o que se oferece é apenas o cumprimento do que já vinha sendo exigido.

A terceira: o rei devolve o pedido com outra palavra, e ninguém corrige. A exigência falava em servir; ele responde com sacrificar, que é a formulação mais antiga e mais estreita de todas — um ato com contorno, em vez de uma relação sem fim declarado. Nem Moisés desfaz a troca no versículo seguinte, nem o Êxodo a assinala. Não é possível decidir se ela é deliberada; o que se pode registrar é que, a partir daqui, as negociações do capítulo passam a girar em torno do sacrifício — do lugar dele, da distância e de quem vai —, e não mais em torno do serviço.

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Êxodo 8:8

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