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Êxodo 7:23

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 30 min de leitura·👁 28 acessos
Faraó virou as costas, entrou em casa e nem a isto deu atenção.
Rei egípcio de costas cruzando o portal do palácio ao entardecer, com a margem do rio avermelhada e as pessoas ao fundo, fora do alcance da porta que se fecha.

Estudo


Faraó virou as costas, entrou em casa e nem a isto deu atenção.

1. Introdução

Três verbos, e o versículo acabou. Faraó virou-se, entrou e não pôs o coração naquilo.

É a reação do rei do Egito à primeira praga, e o que mais impressiona nela é o tamanho. Não há decreto, não há ameaça, não há convocação de conselho. Não há sequer uma frase — o rei atravessa o episódio inteiro sem falar. O que o Êxodo registra é um homem indo para casa.

Quatro coisas o estudo examina adiante.

"Virou as costas" é, no hebraico, um verbo de rosto. A raiz é a mesma da palavra que significa face. Ao pé da letra, o rei virou o rosto — e é o mesmo rosto que Êxodo 7:20 pusera diante da cena, quando o sinal foi feito "aos olhos de Faraó".

"Entrou em casa" fecha um percurso que o capítulo abriu. Em Êxodo 7:15 ele estava saindo para as águas. Agora volta para dentro. O episódio começa com o rei saindo e termina com o rei entrando, e entre as duas coisas o rio dele virou sangue.

"Nem a isto deu atenção" traduz uma expressão hebraica concreta: ele não pôs o coração naquilo. É a última das cinco menções ao coração do rei neste capítulo, e a única em que quem age sobre esse coração é o próprio homem. Nas outras, ou o coração é quem fica de um jeito, ou quem age é Deus — alternância que pertence ao estudo de Êxodo 4:21 e que este versículo não reabre.

E há um "também" no fim da frase. O hebraico diz "nem a isto também", o que aponta para alguma coisa anterior a que ele igualmente não deu atenção. Os comentaristas clássicos identificam o sinal do cajado, em Êxodo 7:10. Se a leitura estiver certa, o versículo não descreve um episódio: descreve o segundo item de uma série.

O item 6 trata do problema que o versículo levanta — o de tornar moralmente indiferente aquilo que se decide não levar a sério —, com Zygmunt Bauman, que lhe deu nome.

2. Contexto Histórico e Cultural

Antes de tudo, duas remissões

O que aquele povo pensava a respeito do coração, e o tratamento ritual que lhe dava, é assunto do estudo de Êxodo 4:21, e não se repete aqui. Também não se repete o que o estudo de Êxodo 5:9 mostrou sobre o verbo egípcio de ouvir, que era o mesmo de obedecer.

O que falta é o que este versículo pede: a expressão "pôr o coração em alguma coisa".

Dar o coração era o nome egípcio da atenção

O hebraico deste versículo não diz que o rei desprezou, não diz que duvidou, não diz que se recusou. Diz que não pôs o coração naquilo. E a expressão não é invenção do Êxodo: é o modo corrente, em hebraico e em egípcio, de falar da atenção que alguém dá ou deixa de dar a uma coisa.

No Egito a construção é frequente e é do vocabulário de ensino e de serviço. Os textos que formavam escribas e funcionários repetem a ordem em variações: "ponha isto no seu coração", "dê o seu coração a ouvir", "coloque o seu coração atrás das palavras que eu digo". Aprender era pôr o coração; prestar serviço era pôr o coração; considerar um assunto era pôr o coração.

A imagem por trás disso é física e vale explicá-la. Para os egípcios, o coração era a sede do pensamento, da decisão e da memória — o lugar onde as coisas eram examinadas. Pôr o coração numa coisa é, literalmente, levar o órgão do juízo até ela. Quem não põe, não é que discorde: é que não levou o assunto para onde ele seria avaliado.

E não pôr o coração tinha nome de defeito

Isto é o que dá peso ao versículo, e é preciso dizê-lo com a ressalva devida.

Na literatura egípcia de instrução, o funcionário mau quase nunca é retratado como corrupto ou cruel. É retratado como desatento: o que não escuta, o que responde antes de ouvir, o que despacha o requerente sem examinar a causa, o que deixa o assunto passar. Os textos que ensinam a administrar insistem nesse ponto com uma frequência que surpreende quem imagina o Egito preocupado só com hierarquia — o pecado administrativo por excelência é não levar a sério.

E há um detalhe que fecha o quadro. O rei egípcio era, na teologia oficial do país, o responsável por manter a ordem do mundo funcionando — assunto tratado no estudo de Gênesis 41:24. Dentro dessa moldura, um acontecimento no rio era matéria dele por definição. Não havia a quem delegar.

Convém marcar o limite, porque ele é real: o Êxodo não invoca nada disso. Não menciona a função do rei, não cita literatura egípcia, não compara. O que se pode afirmar é que a expressão usada aqui — não pôr o coração — nomeava, naquele mundo, exatamente a falha que a cena descreve, e que ela não era considerada falha pequena.

A casa do rei

Uma última nota de fundo, curta.

"Entrou em casa" não descreve um homem chegando do trabalho. A casa do rei do Egito era o complexo palaciano: residência, administração, depósito, guarda, templo doméstico. Entrar nela era voltar para dentro do aparelho que governava o país.

É por isso que o gesto tem uma segunda camada, que o texto não comenta. O rei não foi descansar em lugar nenhum: foi para o lugar de onde se despachava. E, estando lá, não despachou nada.

3. Análise Teológica do Versículo

"Faraó virou as costas"

O verbo hebraico é de rosto, não de costas. A raiz é a mesma da palavra que significa face, e a tradução literal seria "e virou-se Faraó", com o sentido de mudar a direção para a qual o rosto aponta.

Isso importa por causa do que veio três versículos antes. Em Êxodo 7:20 o sinal foi feito "aos olhos de Faraó e aos olhos dos seus servos" — o rei foi posto na cena como testemunha, e o hebraico repetiu a preposição para cada um dos dois. Aqui o mesmo homem tira o rosto. A cena que foi montada para ser vista por ele termina com ele deixando de olhar.

Repare também no que o verbo não é. Não é fugir, não é recuar, não é esconder-se. É o movimento comum de quem encerra uma conversa e vai embora — o gesto de sair de uma sala. Nada nele indica medo ou fuga.

E repare em quem fica. Moisés e Arão continuam na margem. O rio continua vermelho. Os egípcios continuam sem beber. O único que sai da cena é o rei.

"entrou em casa"

Duas observações, e a segunda é a que interessa.

A primeira é geográfica e fecha um arco. Em Êxodo 7:15 a instrução foi: "Vá a Faraó pela manhã: ele estará saindo para as águas." O episódio começa com o rei saindo e termina com o rei entrando. Entre o primeiro movimento e o último, o rio que ele fora visitar virou sangue.

A segunda é sobre o que a palavra "casa" significa aqui. Não é o lugar de descanso: é o palácio, que era ao mesmo tempo residência e sede da administração do país — o assunto está no item 2. Ele não se retirou da função; voltou para dentro dela.

Daí decorre a observação mais desconfortável da frase. Um rei que entra no palácio depois de um acontecimento como esse entra no lugar de onde se convoca conselho, se manda apurar, se dá ordem. O Êxodo registra a entrada e não registra nenhuma dessas coisas.

"e nem a isto deu atenção"

Ao pé da letra, o hebraico diz: e não pôs o seu coração nem a isto.

Esta é a frase decisiva do versículo, e ela precisa ser lida com a atenção que o rei não deu.

Primeiro: a mudança de posição do coração.

Acompanhe as quatro aparições anteriores. Em Êxodo 7:3, "tornarei duro o coração de Faraó" — o coração é objeto, e quem age é Deus. Em Êxodo 7:13 e Êxodo 7:22, "o coração de Faraó ficou firme" — o coração é o sujeito, e acontece com ele alguma coisa. Em Êxodo 7:14, "o coração de Faraó está pesado" — um estado, descrito de fora.

Aqui, pela primeira vez, o coração é objeto de um verbo cujo sujeito é o próprio rei. Não é o coração que fica de um jeito, e não é outro quem o põe assim: é o homem que faz, ou deixa de fazer, alguma coisa com o próprio coração.

A consequência é fina e vale ir devagar. Nas ocorrências anteriores havia uma pergunta em aberto sobre quem endurecia o quê — pergunta que pertence ao estudo de Êxodo 4:21 e que este versículo não reabre. Aqui não há pergunta: o verbo tem sujeito, e o sujeito é Faraó. Seja o que for que a alternância dos outros versículos signifique, esta frase registra uma coisa que o rei fez por conta própria.

Segundo: o que é, exatamente, "não pôr o coração".

Não é negar. O texto não diz que ele considerou falso o que viu.

Não é duvidar. Não há registro de hesitação, de pergunta, de investigação frustrada.

Não é recusar. Recusar seria responder — e a recusa, aliás, já tinha sido registrada com outras palavras, em Êxodo 7:14: "ele se recusa a deixar o povo ir".

É outra coisa, e é mais radical: ele não levou o assunto ao lugar onde as coisas são examinadas. A expressão, no mundo em que foi escrita, descreve a atenção que se dá a uma matéria — pôr o coração é considerar, pesar, tratar como caso. Não pôr é deixar passar sem processar.

Quem nega, discute. Quem duvida, procura. Quem recusa, decide. Quem não põe o coração faz outra coisa: retira o assunto da lista das coisas que pedem resposta.

Isso não é leitura psicológica — o Êxodo não descreve o estado interior de ninguém aqui. É o que a expressão significa em hebraico, e ela foi escolhida em vez de qualquer verbo de recusa.

Terceiro: a palavra "também".

O hebraico termina com duas palavras que a tradução condensa em "nem a isto": ao pé da letra, "também a esta".

Um "também" pressupõe um antes. A que outra coisa o rei já não tinha posto o coração?

Os comentaristas clássicos convergem aqui. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) apontam para Êxodo 7:10, o sinal do cajado na corte; o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) lê do mesmo jeito e traduz "nem mesmo a isto"; Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) diz que ele não considerou nem uma coisa nem a outra.

Se a leitura estiver certa — e ela é plausível, ainda que não seja demonstrável, porque o texto não nomeia o referente —, a consequência é grande. O versículo não descreve uma reação; descreve a segunda ocorrência de um comportamento. O rei já tinha feito isso antes, com um sinal menor, e faz de novo com um maior. A escala do acontecimento mudou; o tratamento dado a ele, não.

Há uma leitura alternativa, e é honesto registrá-la: o "também" pode estar apenas reforçando o "nem", sem apontar para nada — o hebraico admite esse uso enfático. Não é possível decidir entre as duas, e as duas produzem sentidos parecidos.

O que o versículo não tem

Vale terminar pela lista das ausências, porque é nela que o capítulo se fecha.

Não há fala do rei. Não há ordem a ninguém. Não há consulta aos especialistas que acabaram de repetir o sinal. Não há menção ao povo que está sem água. Não há ameaça a Moisés e Arão, que continuam na margem do rio dele. Não há nem a mais econômica das reações, que seria mandar embora.

A primeira praga do Egito termina com o rei fechando a porta atrás de si. E o Êxodo, que também não comenta, registra o gesto e passa ao versículo seguinte, que fala do que o povo fez enquanto isso.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

É o único personagem do versículo, e é a primeira vez no capítulo em que ele age.

Vale acompanhar o que ele fez até aqui, porque a lista é curta. Em Êxodo 7:11 convocou os especialistas. Em Êxodo 7:15 saiu para as águas, como fazia todo dia. E é só. Nos demais versículos ele é sujeito de verbos negativos — não ouviu — ou dono de um coração que fica de um jeito ou de outro.

Aqui ele faz três coisas seguidas: vira-se, entra, e não põe o coração. Duas são de movimento e uma é de omissão.

Note-se ainda o silêncio. A última fala de Faraó foi em Êxodo 5:2 — "Quem é o SENHOR?" —, dois capítulos atrás. Desde então houve dois sinais, uma praga, sete dias de rio podre, e nenhuma palavra. O Êxodo faz o rei atravessar o episódio inteiro sem abrir a boca.

A casa

O palácio egípcio, que era residência e administração ao mesmo tempo — o que isso significava está no item 2.

É o segundo lugar do episódio. O primeiro foi a margem do rio, onde a praga aconteceu; este é o interior, para onde o rei recua. O Êxodo constrói a cena inteira nesse eixo: fora, onde está o estrago, e dentro, onde está o rei.

Moisés e Arão

Não aparecem. Foram mencionados pela última vez em Êxodo 7:22, e ali apenas como o "os" de "não os ouviu".

É uma ausência que vale registrar: os dois foram à margem por ordem expressa, ficaram à espera do rei, executaram o sinal — e o texto não diz o que fizeram depois que ele entrou em casa. Nem se voltaram, nem se ficaram, nem se disseram alguma coisa.

Os egípcios

Também não aparecem neste versículo, e a omissão é significativa porque eles aparecem no seguinte.

O desenho dos dois versículos é deliberado ou é acaso de composição — não é possível decidir. Mas o efeito é visível: Êxodo 7:23 mostra o rei entrando em casa e Êxodo 7:24 mostra o povo cavando o chão em busca de água. As duas frases são vizinhas e descrevem o mesmo intervalo de tempo.

O acontecimento

É o quinto e penúltimo movimento da primeira praga: anúncio, ordem, execução, efeitos, reação dos magos, reação do rei — e, no versículo seguinte, o que o povo fez para sobreviver.

O que este versículo acrescenta ao episódio é a única informação que faltava: o que o destinatário do sinal fez com ele. A resposta é que não fez nada, e o Êxodo gasta um versículo para dizer isso.

5. Pontos de Ensino

Há uma recusa que não chega a ser resposta

O rei não negou o que viu, não discutiu, não mandou apurar. Também não decidiu contra: apenas não tratou o assunto como assunto.

É a distinção que o versículo ensina, e ela é mais fina do que parece. Negar é uma posição — discutível, refutável, sujeita a prova. Não pôr o coração não é posição nenhuma, e por isso não oferece a ninguém onde pegar. Quem faz isso não perde a discussão; retira-se dela sem anunciar.

O tamanho do acontecimento não determina o tamanho da resposta

O rio de um país inteiro ficou impróprio por sete dias, diante dos olhos do rei, depois de ter sido anunciado com antecedência. A reação registrada cabe em três verbos, e o terceiro é uma omissão.

Vale contra uma suposição que quase todo mundo carrega: a de que fatos suficientemente grandes se impõem sozinhos. Não se impõem. Alguém ainda precisa levá-los ao lugar onde as coisas são pesadas — e esse passo é uma decisão, mesmo quando não se parece com uma.

O gesto pequeno diz o que o discurso diria

O Êxodo não põe nenhuma palavra na boca de Faraó neste capítulo. Descreve um homem que vira o rosto, entra em casa e fecha a porta.

É bom reparar em como o texto trabalha. Ele não julga o rei, não o chama de nada, não explica o que se passava dentro dele. Mostra o que ele fez com o corpo — e isso basta.

Quem vai para dentro deixa gente do lado de fora

Este versículo e o seguinte descrevem o mesmo intervalo de tempo. Num, o rei entra em casa; no outro, o povo cava o chão atrás de água.

A justaposição é do texto, e o Êxodo não a comenta. O que ela mostra, sem precisar de moral, é que a omissão de quem tem o poder de agir não produz silêncio: produz trabalho para outra pessoa.

Não é a primeira vez, e isso muda o caso

A palavra "também", no fim da frase, sugere que houve um antes — provavelmente o sinal do cajado, em Êxodo 7:10.

Se for isso, o que o versículo descreve não é uma reação isolada, e sim um hábito começando a ficar visível. Vale reter a diferença: um episódio de desatenção é um episódio; o segundo, com o mesmo desfecho e um acontecimento maior, já é padrão.

6. Aspectos Filosóficos

Este versículo descreve uma operação que tem nome, e quem lhe deu nome foi Zygmunt Bauman (1925-2017), sociólogo polonês radicado na Inglaterra.

A palavra que ele usa é adiaforização — e convém explicá-la antes de usá-la. Ela vem do grego adiáphora ("coisas indiferentes", termo dos filósofos estoicos para aquilo que não é nem bom nem mau, e que a teologia cristã depois aplicou às questões que a doutrina não manda nem proíbe). Bauman pega esse vocabulário e o vira do avesso: adiaforizar é o processo pelo qual um ato deixa de ser tratado como questão moral. Não é decidir que ele é bom. Não é decidir que é mau. É pô-lo fora do alcance da pergunta.

O livro em que a ideia aparece com mais força é Modernidade e Holocausto (1989), no qual Bauman examina como uma sociedade instruída, organizada e moderna pôde executar o que executou. A resposta dele não é a que se espera. Ele não sustenta que faltasse consciência moral às pessoas envolvidas: sustenta que a consciência moral foi desviada do alvo — repartida em tarefas técnicas, mediada por formulários, afastada da consequência por distância e por hierarquia, até que ninguém estivesse, no seu posto, diante de uma escolha reconhecível como escolha.

A tese central é esta: o dano não costuma exigir gente decidida a fazer o mal. Basta que o assunto deixe de aparecer como assunto moral para quem está em posição de agir.

Agora ponha o versículo ao lado.

Faraó não é retratado aqui praticando crueldade. Não dá ordem nenhuma, não ameaça ninguém, não manda matar. O texto também não lhe atribui desprezo — não há riso, não há palavra dura, não há gesto de ódio. O que ele faz, na letra do hebraico, é não pôr o coração naquilo: não levar o acontecimento até o lugar onde as coisas são examinadas.

É exatamente a operação que Bauman descreve, na sua forma mais simples e mais antiga. O rei não conclui que a praga não importa; ele nunca chega a fazer a pergunta se importa. A matéria não é julgada e reprovada — é deixada fora do julgamento.

E há um detalhe do versículo que dá à leitura um apoio inesperado. Bauman insiste que a adiaforização é favorecida pela distância: quanto mais longe se está da consequência, menos ela se apresenta como problema moral. O versículo tem a distância inscrita no gesto — o rei vira o rosto, entra em casa e fecha a porta. Enquanto isso, no versículo seguinte, o povo cava o chão em busca de água. O afastamento não é figurado; é arquitetônico.

As ressalvas, que são três e são importantes

A primeira: Bauman escreve sobre organizações modernas, com burocracia, divisão técnica do trabalho e cadeias longas de comando — nada disso está em jogo aqui. O que se transporta é o mecanismo, não o cenário. Um homem sozinho fechando uma porta não é uma burocracia, e tratar as duas coisas como equivalentes seria abusar da comparação.

A segunda: o Êxodo não faz sociologia e não diz nada disso. Não analisa o rei, não explica o que se passava dentro dele, não emite juízo. Escreve três verbos e passa adiante. A leitura é do comentarista.

A terceira, e é a mais necessária: o próprio capítulo impede que se use Bauman como explicação fechada do coração de Faraó. Em Êxodo 7:3 quem torna duro é Deus, em primeira pessoa; em Êxodo 7:13 e Êxodo 7:22 o coração fica firme sem agente nenhum; e só aqui o rei é sujeito de um verbo do coração. A alternância é do texto e não se resolve — a discussão inteira pertence ao estudo de Êxodo 4:21. O que se pode dizer é que, nesta frase e só nesta, o que está descrito é algo que um homem faz; e que isso que ele faz tem, no vocabulário de Bauman, um nome preciso.

7. Aplicações Práticas

Reparar em quando se está "não pondo o coração"

O versículo descreve uma coisa que todo mundo faz e quase ninguém percebe fazer, porque ela não tem a forma de uma decisão.

Os sinais são reconhecíveis. O assunto aparece, e em vez de ser examinado, é encaminhado para outro dia. O exame que o médico pediu fica na gaveta. A conversa que precisa ser tida é adiada por motivos que sempre parecem razoáveis. O número da conta não é aberto. Ninguém decidiu nada — e é justamente isso que faz o mecanismo funcionar.

A prática útil é curta e desconfortável: quando um assunto volta pela segunda vez e continua sem ter sido examinado, o que houve não foi falta de tempo. Foi a mesma coisa que o versículo descreve.

Distância é o que torna possível não se importar

O rei entrou em casa; o povo ficou cavando do lado de fora. O Êxodo põe as duas frases lado a lado e não comenta.

Isso funciona igual fora do texto. É mais fácil não pensar na consequência quando ela acontece longe, com gente que não se vê, em lugar onde não se vai. Não é preciso crueldade nenhuma para isso — basta a porta.

A aplicação prática é ir olhar. Quem toma decisões que recaem sobre outros e nunca esteve onde elas recaem está protegido da pergunta por razões de geografia, não de consciência.

A segunda vez é que conta

O "também" do fim do versículo indica que aquele não era o primeiro acontecimento a que o rei deixou de dar atenção.

Vale como régua para si mesmo. A primeira vez que um alerta é ignorado pode ser pressa, cansaço ou má hora. Da segunda em diante, com o alerta maior e a resposta igual, já não é. E o modo de perceber isso não é examinar a intenção, que é sempre boa: é contar as vezes.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A que outra coisa ele já não tinha dado atenção?

A pergunta nasce do "também" que fecha a frase, e o texto não nomeia o referente.

A leitura dos comentaristas clássicos é o sinal do cajado, em Êxodo 7:10, que é o acontecimento anterior da mesma série. É plausível e é a mais econômica.

Mas há candidatos que ninguém costuma listar, e vale listá-los. O pedido de Êxodo 5:1, que continua de pé e nunca foi respondido. A acusação de Êxodo 7:16, "e até agora você não ouviu". E o anúncio de Êxodo 7:17, que descreveu com antecedência o que aconteceria com o rio — e aconteceu.

Não é possível decidir, e talvez a pergunta esteja mal posta: um "também" não precisa apontar para um item, e pode reunir tudo o que veio antes.

Faraó estava sendo arrogante?

É a leitura corrente, e o texto não a sustenta nem a exclui.

O que se pode afirmar é o que está escrito: ele virou-se, entrou e não pôs o coração. Nenhum dos três verbos descreve soberba. Não há riso, não há palavra de desprezo, não há gesto de ostentação — coisas que o Êxodo saberia registrar, e registra em outros personagens.

Vale considerar que a cena é mais fria do que a leitura habitual. Arrogância é uma forma de levar o outro a sério: para desprezar alguém é preciso tê-lo posto na balança. O que o versículo descreve é a ausência da pesagem. É possível que isso seja pior, e é possível que seja apenas outra coisa; o texto não ajuda a escolher.

Se o rei não fez nada, por que o Êxodo gasta um versículo com ele?

Porque a informação que faltava ao episódio era justamente essa.

O sinal tinha destinatário declarado. Em Êxodo 7:17 a frase foi: "Nisto você saberá que eu sou o SENHOR." Um episódio que é anunciado a alguém precisa registrar o que esse alguém fez com ele — e a resposta, aqui, é que não fez nada. Um versículo é o tamanho certo para dizer isso.

Por que o texto não registra a reação do povo egípcio à recusa do rei?

Não registra neste versículo, e registra no seguinte — só que sem ligar uma coisa à outra.

Êxodo 7:24 mostra os egípcios cavando em busca de água. Não há queixa contra o rei, não há motim, não há menção ao palácio. O Êxodo põe o rei entrando e o povo cavando, um versículo depois do outro, e não estabelece nenhuma relação entre as duas frases.

Quem quiser ler ali uma crítica ao soberano estará acrescentando. O que se pode observar é apenas a vizinhança das duas cenas — e ela é do texto.

9. Conexão com Outros Textos

O movimento que este versículo desfaz

Êxodo 7:15 — "Vá a Faraó pela manhã: ele estará saindo para as águas. Fique à espera dele à margem do Nilo e leve na mão o cajado que virou cobra."

O episódio abre com o rei saindo e fecha com o rei entrando. Entre uma coisa e outra, o rio virou sangue.

Os olhos que agora se viram

Êxodo 7:20 — "Moisés e Arão fizeram como o SENHOR havia ordenado: ele levantou o cajado e feriu as águas do Nilo, diante de Faraó e dos seus servos, e todas as águas do Nilo viraram sangue."

O hebraico daquele versículo diz "aos olhos de Faraó", repetindo a preposição para o rei e para a corte. O sinal foi montado para ser visto por ele — e este versículo o mostra tirando o rosto.

O que o "também" provavelmente retoma

Êxodo 7:10 — "Moisés e Arão foram a Faraó e fizeram como o SENHOR havia ordenado: Arão jogou o seu cajado diante de Faraó e dos seus servos, e ele virou uma serpente."

É o sinal anterior da série, e é o candidato que os comentaristas clássicos apontam para o "nem a isto também".

A mesma expressão, com o sentido contrário

Deuteronômio 32:46 — "Ponham o coração em todas as palavras que hoje testifico entre vocês, para que as ordenem a seus filhos, a fim de que cuidem de cumprir todas as palavras desta lei."

É a mesma construção hebraica, na forma positiva e no imperativo. Vale pôr as duas lado a lado: o que se pede a Israel é exatamente o que o rei do Egito não faz.

Não pôr o coração como falha reconhecida

Isaías 42:25 — "Por isso derramou sobre ele o furor da sua ira... e o queimou ao redor, mas ele não o entendeu; e o incêndio o consumiu, mas ele não pôs isso no coração."

O paralelo é notável e precisa de cuidado: ali o alvo é Israel, e não o Egito. A estrutura, porém, é a mesma — uma calamidade acontece, é vista, e não é levada ao lugar onde seria considerada. A Bíblia usa a expressão para descrever o próprio povo, o que impede tratá-la como acusação reservada a estrangeiros.

O palácio e o que ficou do lado de fora

Êxodo 7:24 — "E todos os egípcios cavaram ao redor do Nilo em busca de água para beber, porque não podiam beber da água do rio."

Os dois versículos descrevem o mesmo intervalo de tempo. O Êxodo os põe em sequência e não estabelece relação entre eles.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Faraó virou as costas, entrou em casa e nem a isto deu atenção.

Texto hebraico

וַיִּפֶן פַּרְעֹה וַיָּבֹא אֶל־בֵּיתוֹ וְלֹא־שָׁת לִבּוֹ גַּם־לָזֹאת׃

Transliteração

wa-yifen Par'oh wa-yavo el-beito; we-lo-shat libbo gam-lazot.

Análise palavra por palavra

וַיִּפֶן — wa-yifen, "e virou-se".

Raiz panah, na forma simples do hebraico, encadeando a narrativa. O sentido é voltar-se, mudar a direção para a qual se está olhando.

O dado que interessa é o parentesco da raiz: panah é a mesma família de panim, "rosto", "face" — a palavra hebraica que aparece em expressões como estar diante de alguém, buscar o rosto de Deus, cair sobre o rosto. O verbo é, na origem, um verbo de rosto, e a tradução portuguesa "virar as costas" acerta o efeito e perde a imagem.

A construção é a mesma de Gênesis 18:22, quando os homens "se viraram dali" e foram em direção a Sodoma, e de Números 12:10, quando Arão "se virou" para Míriam. Não é verbo de fuga nem de medo: é o movimento comum de quem muda de direção e sai.

Registre-se a ligação com Êxodo 7:20, que pôs o sinal "aos olhos de Faraó". O mesmo rosto que foi convocado a ver é o que aqui se vira.

פַּרְעֹה — Par'oh, "Faraó".

O nome vem imediatamente depois do primeiro verbo, e depois disso o rei não é mais nomeado: os dois verbos seguintes trazem apenas a terminação de terceira pessoa. É a ordem padrão da prosa hebraica, e o efeito é que o versículo inteiro se organiza sob um sujeito só.

וַיָּבֹא אֶל־בֵּיתוֹ — wa-yavo el-beito, "e entrou na sua casa".

Verbo bo, vir, entrar, chegar — o verbo mais comum do hebraico para movimento em direção a um lugar. Com a preposição el, "para dentro de".

Vale reparar no par que se forma dentro do capítulo. Em Êxodo 7:15 o rei estava saindo, com o verbo yatsa — que é, aliás, o verbo do livro inteiro, o da saída do Egito. Aqui ele entra. O episódio é emoldurado pelos dois verbos opostos, e o segundo é o que fecha a cena.

Bayit, casa, com sufixo de terceira pessoa. A palavra cobre desde a habitação até a dinastia e o templo; aplicada a um rei, designa o palácio — residência e sede da administração ao mesmo tempo.

וְלֹא־שָׁת לִבּוֹ — we-lo-shat libbo, "e não pôs o seu coração".

Aqui está a frase do versículo, e cada uma das três palavras pesa.

Shat é do verbo shit, pôr, colocar, assentar, dispor — verbo de colocação física. É o mesmo que aparece em Gênesis 3:15, quando Deus diz que porá inimizade, e em Gênesis 48:14, quando Jacó põe as mãos sobre as cabeças dos netos. Não é um verbo de sentimento; é um verbo de mão.

Libbo: lev, coração, com sufixo de terceira pessoa. No hebraico bíblico o coração é a sede do pensamento, da decisão e da memória — não a do sentimento. O que ele significava no Egito, e o rito funerário em torno dele, está no estudo de Êxodo 4:21.

A expressão inteira, shit lev le-, é uma construção fixa. Significa dar atenção a, considerar, tomar em conta, tratar como assunto. Ela aparece na forma positiva em Deuteronômio 32:46, no imperativo, quando Moisés manda o povo pôr o coração nas palavras da lei, e em 1 Samuel 4:20 e Provérbios 22:17, com o mesmo sentido. A forma negativa, como aqui, descreve quem deixa a matéria passar sem examinar.

Duas observações de gramática fecham o ponto, e a segunda é o achado do versículo.

A primeira: o verbo está no perfeito, precedido da negativa — a construção que o hebraico usa para registrar que a ação não se deu, e não para descrever um estado.

A segunda: é a única vez no capítulo em que Faraó é o sujeito de um verbo que tem o coração dele por objeto. Em Êxodo 7:3 o coração também é objeto, mas quem age é Deus. Em Êxodo 7:13 e Êxodo 7:22 o coração é quem fica firme. Em Êxodo 7:14 é um estado. Só aqui o sujeito é o homem, e o coração é a coisa que ele não põe. Seja o que for que a alternância dos outros versículos signifique — matéria do estudo de Êxodo 4:21 —, esta oração tem um agente humano e um verbo transitivo.

גַּם־לָזֹאת — gam-lazot, "também a esta".

Duas palavras, e é sobre elas que os comentaristas discutem.

Gam é a partícula de acréscimo: também, ainda, igualmente. Lazot é a preposição le- com o pronome demonstrativo feminino singular — "a esta [coisa]". O feminino, em hebraico, é a forma usada para referir-se a uma situação inteira, e não a um substantivo feminino específico.

A leitura clássica é que gam aponta para trás, para alguma coisa a que o rei também não dera atenção — e Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) identificam o sinal de Êxodo 7:10. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) traduz "nem mesmo a isto" e lê do mesmo modo.

Há a alternativa, e é preciso registrá-la: gam tem também uso puramente enfático em hebraico, reforçando a negativa sem apontar para nenhum item anterior. Não é possível decidir, porque o texto não nomeia o referente. As duas leituras, aliás, produzem sentidos próximos — numa, ele já tinha feito isso antes; noutra, nem mesmo uma coisa deste tamanho o moveu.

O que se pode afirmar com segurança é que a partícula está ali, que nenhuma tradução portuguesa corrente a deixa visível, e que a frase termina apontando para fora de si.

11. Conclusão

Do que foi examinado, cinco conclusões.

A primeira: o versículo descreve uma omissão, e a descreve com precisão técnica. O hebraico não diz que o rei negou, duvidou ou recusou — diz que não pôs o coração naquilo, usando uma construção fixa que significa dar atenção, considerar, tomar em conta. Negar é uma posição; duvidar é uma busca; recusar é uma decisão. Não pôr o coração não é nenhuma das três: é retirar o assunto do lugar onde as coisas são pesadas. O Êxodo tinha à mão verbos de recusa e usou outro.

A segunda: pela primeira vez no capítulo, o rei é o sujeito de um verbo do coração. Nas três menções anteriores o coração era quem ficava firme ou estava pesado, e sobre quem o tornara assim o texto alterna sem resolver. Aqui não há alternância: há um homem, um verbo transitivo e uma coisa que ele não fez. Isso não resolve a questão do bloco das pragas, que pertence ao estudo de Êxodo 4:21 — mas registra que, nesta frase, quem age é ele.

A terceira: o gesto físico e o gesto moral são o mesmo gesto. Ele vira o rosto, entra e fecha a porta; e não põe o coração. O Êxodo não separa as duas coisas nem explica uma pela outra: escreve os três verbos em sequência, dois de corpo e um de omissão. E enquanto a porta se fecha, o versículo seguinte mostra o povo cavando o chão atrás de água. A distância entre quem decide e quem sofre a consequência está inscrita na planta do episódio.

A quarta: a palavra final aponta para fora do versículo. O "também" que fecha a frase pressupõe alguma coisa anterior — provavelmente o sinal do cajado de Êxodo 7:10, como leem os comentaristas clássicos, embora o uso puramente enfático da partícula seja possível e não se possa decidir. Na leitura mais comum, o que o versículo registra não é uma reação isolada, e sim a segunda ocorrência do mesmo comportamento, com um acontecimento muito maior e resposta idêntica.

A quinta: a primeira praga do Egito termina sem uma palavra do rei. Nenhuma ordem, nenhuma ameaça, nenhuma consulta, nenhuma menção ao povo sem água, nenhuma providência contra os dois homens que continuam na margem do rio dele. A última fala de Faraó foi dois capítulos atrás, em Êxodo 5:2. O Êxodo gasta um versículo inteiro para dizer que o destinatário do sinal não fez nada com ele — e essa era, de fato, a única informação que faltava ao episódio.

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Êxodo 7:23

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