E todos os egípcios cavaram ao redor do Nilo em busca de água para beber, porque não podiam beber da água do rio.
1. Introdução
Depois de cinco versículos sobre reis, magos e sinais, o Êxodo baixa a câmera para o chão e mostra gente cavando.
É a única nota prática da primeira praga, e o contraste com o versículo anterior é direto: lá o rei entra em casa; aqui o povo abre buracos na margem do rio. As duas frases descrevem o mesmo intervalo de tempo, são vizinhas, e o texto não estabelece nenhuma relação entre elas.
Quatro coisas o estudo examina.
O sujeito é "todos os egípcios". É a mesma palavra de totalidade que Êxodo 7:20 usou para as águas do Nilo — só que agora aplicada ao povo. Não é um grupo, não é uma aldeia: é o país inteiro fazendo a mesma coisa.
Eles cavam ao redor do rio. Não vão embora, não procuram outra fonte, não sobem o vale. Cavam ao lado da água que não podem beber — e a razão material disso, que é geológica e era conhecida de qualquer ribeirinho, está no item 2.
O verbo é de poço. Em hebraico, é o mesmo verbo com que se conta a abertura dos poços do Gênesis. Só que ali cavar era obra de patrimônio, com disputa e juramento; aqui é serviço de emergência feito na areia.
E o texto não diz se acharam. A frase registra a busca e a razão dela, e não registra o resultado. Que os egípcios tenham sobrevivido aos sete dias de Êxodo 7:25 é o que o capítulo pressupõe; o versículo, por si, não afirma sucesso.
Registre-se, por fim, o que o versículo não contém. Ninguém acusa Moisés. Ninguém pede audiência no palácio. Ninguém invoca deus nenhum. O povo do Egito aparece uma vez no episódio, e aparece trabalhando.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que era beber no Egito
Que o país não tinha chuva, bebia o rio e mais nada, e que até a água subterrânea do vale vem do próprio Nilo, está tratado no estudo de Êxodo 4:9. O que falta é o lado prático, e ele é o assunto deste versículo: como é que essa água chegava à boca de alguém.
Água de rio grande não é limpa. Na cheia então, quando o Nilo desce carregado de sedimento, ela vem turva a ponto de manchar o recipiente. Ninguém no Egito bebia direto da correnteza como quem bebe de uma fonte de montanha.
O procedimento corrente era simples e é o mesmo que se usa em qualquer lugar do mundo onde se bebe de rio: recolher e deixar descansar. A água ia para jarras de barro e ficava parada até a lama assentar no fundo; bebia-se de cima. Era trabalho diário, feito por quem ia buscar água na margem, e é por isso que Êxodo 7:19 se dá ao trabalho de mandar que o sangue alcançasse "as vasilhas de madeira e as de pedra" — a água guardada em casa fazia parte do sistema.
Fontes antigas e viajantes posteriores descrevem, além do descanso, meios de clarificar a água mais depressa: esfregar o interior da jarra com pasta de amêndoa amarga, ou dissolver na água uma pedra de alume, que faz o sedimento se juntar e cair. Vale a ressalva de método, porque ela é séria: esses relatos são bem mais tardios do que o período em que o Êxodo situa a cena, e projetá-los para trás é hipótese, não dado. O que se pode afirmar com segurança é o princípio geral — deixar assentar —, que não precisa de documento para ser deduzido de quem vivia de água barrenta.
Por que cavar ao lado do rio funciona
Aqui está a explicação material do versículo, e ela é mais simples do que parece.
No vale e no Delta, o lençol de água subterrânea fica logo abaixo da superfície e acompanha o nível do rio. A areia e o cascalho da margem funcionam como um filtro natural: a água do Nilo atravessa esse material antes de chegar à cova, e no caminho deixa para trás o sedimento em suspensão e boa parte do que está boiando. Uma cova aberta a poucos metros da barranca enche sozinha, e enche com água mais limpa do que a do rio ao lado.
Não se trata, portanto, de um poço no sentido próprio — obra funda, revestida, permanente, que exigia trabalho coordenado e virava patrimônio. O que o versículo descreve é uma cova na areia, feita com o que houvesse à mão, para durar alguns dias.
A água que sai dali tem um defeito conhecido, e os comentaristas clássicos o apontam: é salobra. Ellicott observa que era água "por infiltração do rio", desagradável ao gosto; o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) diz que servia para beber e cozinhar, e que bastou para os sete dias. É água de emergência, não água boa.
Há um ponto de física que Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) fazem questão de marcar, e ele é honesto: não se deve imaginar que o sangue virasse água ao passar pela areia. Quem lê assim está atribuindo ao chão uma operação que ninguém descreveu. O que a cova encontra é a água que já estava no lençol, e o que a areia faz é o que a areia faz — segurar o que está em suspensão.
E convém reconhecer o limite dessa explicação. Ela torna a cena materialmente inteligível, e não resolve a tensão com o "sangue em toda a terra do Egito" de Êxodo 7:21. O Êxodo não explica nada disso — não menciona lençol, areia nem filtragem. Diz que cavaram, e diz por quê.
Quanta água é isso
Uma última observação, para dar escala ao versículo.
Uma pessoa precisa de dois a três litros de água por dia para não adoecer, e mais para cozinhar e lavar. Multiplique por uma família, por uma aldeia, por sete dias — e depois pelos animais, que também bebiam do rio.
É esse volume que o versículo põe em covas abertas na margem. A frase é curta e descreve uma operação enorme, feita simultaneamente ao longo de toda a faixa habitada do país. O Êxodo resume isso em cinco palavras hebraicas e não volta ao assunto.
3. Análise Teológica do Versículo
"E todos os egípcios cavaram"
Três observações, e a primeira é sobre a palavra que abre a frase.
"Todos." É a mesma palavra hebraica de totalidade que Êxodo 7:20 usou — "todas as águas do Nilo" — e que Êxodo 7:21 usou de novo — "em toda a terra do Egito". Aparece agora pela terceira vez no episódio, e desta vez o que ela abarca não é a água nem o território: é a população.
O efeito é de escala. Não foi um grupo que cavou, não foi uma aldeia da curva do rio: o texto descreve o país inteiro fazendo a mesma coisa ao mesmo tempo, ao longo de toda a faixa habitada. É a imagem mais ampla do capítulo, e ela é de gente com pá na mão.
O verbo. Em hebraico, cavar aqui é o verbo próprio da abertura de poços — o mesmo com que o Gênesis conta as escavações dos servos de Isaque e as disputas que vieram delas, assunto do estudo de Gênesis 26:19.
Vale medir a diferença entre os dois usos, porque ela é grande. No Gênesis, cavar um poço é obra de patrimônio: exige gente, tempo e conhecimento do terreno, o resultado é herdado e é motivo de juramento e de acordo. Aqui é o mesmo verbo aplicado a covas abertas na areia para durar uma semana. A palavra é de investimento; a coisa é de emergência.
E quem cava. Repare em quem não aparece nesta frase. Não é o Estado, não é o rei, não é a administração que tinha canais, celeiros e escribas para contar tudo. São "os egípcios" — o mesmo sujeito que em Êxodo 7:21 não conseguia beber.
O Êxodo não comenta essa ausência. Registra, no versículo anterior, que o rei entrou em casa, e, neste, que o povo cavou. As duas frases são vizinhas e descrevem o mesmo intervalo de tempo. Quem quiser ler ali uma acusação ao soberano estará acrescentando ao texto; quem não notar a vizinhança estará lendo depressa demais.
"ao redor do Nilo"
A informação parece geográfica e é, na verdade, a mais interessante do versículo.
Eles não foram embora. Não subiram o vale, não procuraram outra bacia, não mandaram buscar água longe. Cavaram do lado da água que não podiam beber.
Isso tem explicação material, e ela está no item 2: naquela faixa de terra, a água do subsolo vem do próprio rio e a areia da margem funciona como filtro, de modo que uma cova aberta a poucos metros da barranca enche sozinha. Cavar junto ao rio não é ironia nem teimosia — é o único lugar onde funciona.
Mas a imagem fica de pé, e o Êxodo não a comenta. Um país inteiro de joelhos na beira do próprio rio, abrindo buracos para conseguir de lado o que corria na frente deles. A praga não tirou a água do Egito; tornou-a inacessível a poucos metros de distância.
"em busca de água para beber"
A frase diz o objetivo, e é preciso reparar no que ela não diz.
Não diz que acharam. O hebraico registra a ação e a finalidade — cavaram, água para beber — e para aí. Não há verbo de encontro, não há descrição de resultado, não há nota de alívio.
Que tenha funcionado é o que o capítulo pressupõe: Êxodo 7:25 conta sete dias completos e não registra mortes por sede. Os comentaristas clássicos leem assim, e é leitura razoável. Mas ela é inferência, e vale marcar a diferença: o versículo afirma a busca, não o achado.
Repare também na modéstia do objetivo. Não é água para irrigar, não é água para o gado, não é água para o templo: água para beber. O texto reduz a necessidade ao mínimo que mantém uma pessoa viva.
"porque não podiam beber da água do rio"
A frase final repete a razão, e a repetição é do próprio texto.
Em Êxodo 7:21 já estava escrito: "os egípcios não conseguiam beber a água do Nilo." Aqui a mesma construção volta, com o mesmo verbo de capacidade, três versículos depois.
Vale entender por que o texto se repete. A frase não é informação nova — é justificativa. Ela explica por que gente adulta passaria o dia cavando areia ao lado de um rio cheio. O Êxodo antecipa a estranheza da cena e responde a ela antes que o leitor pergunte.
E há um detalhe de vocabulário que a tradução conserva. O verbo é o da capacidade, não o da permissão: não é que fosse proibido ou impuro beber daquela água. É que não dava. O ponto já apareceu em Êxodo 7:21 e é o mesmo aqui.
O que o versículo não tem
Termine-se pela lista, porque ela é reveladora.
Não há queixa. Ninguém acusa Moisés, ninguém acusa Arão, ninguém acusa o rei — e é bom lembrar que, dois capítulos antes, foram os próprios israelitas que acusaram Moisés em Êxodo 5:21. Os egípcios não dizem nada.
Não há oração. Nenhum deus é invocado, nenhum sacerdote é chamado, nenhum rito é executado — num país que tinha templo para o rio.
Não há política. Ninguém vai ao palácio, ninguém pede providência, ninguém se revolta.
Há um povo cavando. O Êxodo dá a ele uma frase, e é a única do capítulo em que os egípcios comuns fazem alguma coisa.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os egípcios
São o sujeito do versículo, e é a única vez no capítulo em que o povo do Egito age.
Acompanhe a trajetória curta deles. Em Êxodo 7:18 foram anunciados como quem não conseguiria beber. Em Êxodo 7:21 apareceram exatamente assim, como sujeito de um verbo negativo. E aqui, finalmente, fazem alguma coisa — cavam.
A palavra hebraica é a mesma que nomeia o país, usada com verbo no plural. E vem precedida do quantificador de totalidade: não são "alguns egípcios", são todos.
Vale notar quem eles não são. Não são a corte, que apareceu em Êxodo 7:20 como testemunha ao lado do rei. Não são os magos, que apareceram em Êxodo 7:22. São a população, que o capítulo não mencionou uma única vez até agora.
O Nilo
O rio é nomeado duas vezes no versículo: como o lugar em volta do qual se cava e como a água que não se pode beber.
É a última aparição dele neste episódio antes do fecho de Êxodo 7:25. E aparece na condição mais estranha possível: presente, cheio, à vista — e inútil.
O que o rio era para o Egito está no estudo de Gênesis 41:1; por que a água do subsolo ao lado dele serve, está no item 2.
Faraó, que não está aqui
A ausência merece registro porque é imediata. O versículo anterior terminou com o rei entrando em casa; este não o menciona.
Nenhuma ordem real, nenhuma providência, nenhum funcionário coordenando o trabalho. O Estado egípcio, que tinha escribas para contar sacos de grão e engenheiros para abrir canais, não aparece na frase em que o país inteiro procura água.
O Êxodo não comenta a ausência. Ela é visível pela simples vizinhança dos dois versículos.
Moisés e Arão
Também não estão. Foram mencionados pela última vez em Êxodo 7:22, e ali só como pronome.
O episódio termina, portanto, com os três personagens principais fora de cena: o rei está dentro de casa, os dois enviados sumiram da narração, e quem ocupa o versículo é gente sem nome, com as mãos na areia.
O acontecimento
É a última cena da primeira praga antes do fecho do capítulo, e a única em que aparece o que o povo fez para atravessar a semana.
Registre-se o dado de composição que a torna singular. Este é o único versículo do episódio que descreve uma ação humana bem-sucedida e sem ordem divina. Ninguém mandou cavar. Não há instrução, não há profeta, não há cajado. É gente resolvendo um problema com o que tem.
5. Pontos de Ensino
Quem não pode resolver a causa administra o efeito
Os egípcios não tinham como desfazer a praga. Não podiam discutir com Moisés, não podiam mandar no rio e, pelo que o texto mostra, não podiam contar com o palácio.
O que fizeram foi o que estava ao alcance: abrir covas na areia e beber água salobra por uma semana. Não é solução, é travessia — e o Êxodo registra isso sem elogio e sem deboche.
A omissão de quem manda vira trabalho de quem não manda
Os dois versículos são vizinhos e descrevem o mesmo intervalo: num, o rei entra em casa; no outro, o país cava.
O texto não liga uma coisa à outra, e não é preciso que ligue. O que ele mostra, pela pura sequência, é que a decisão de não tratar de um assunto não o faz desaparecer: ela apenas transfere o assunto para quem não pode se dar ao luxo de não tratá-lo.
A saída costuma estar perto do problema
Eles não foram embora, não procuraram outra bacia, não mandaram buscar longe. Cavaram a poucos metros da água que não podiam beber.
Há uma lição prática e ela não é metafórica: em quase toda dificuldade, o recurso disponível está perto do lugar onde a coisa quebrou, e não em outro continente. É preciso, no entanto, saber o que há debaixo do chão — os egípcios cavavam ali porque conheciam o terreno deles.
Agir sem que ninguém mande
Este é o único versículo da primeira praga em que alguém faz alguma coisa sem ordem — sem Deus mandando, sem rei mandando, sem profeta anunciando.
Vale reter o dado, porque contraria uma leitura devocional comum do bloco das pragas, em que tudo é iniciativa de cima. Aqui há um povo inteiro improvisando, e o texto conta isso com naturalidade.
Sobreviver não é o mesmo que ser atendido
O versículo não registra oração, não registra sacerdote, não registra deus nenhum — e é um país que cultuava o rio.
Eles atravessaram os sete dias bebendo água ruim tirada de um buraco. É um retrato sóbrio do que costuma ser uma crise por dentro: não a resolução, e sim uma sucessão de arranjos que mantêm a pessoa de pé até que a coisa passe.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo põe lado a lado dois modos de lidar com a mesma situação, e a distância entre eles é o assunto filosófico da cena.
Um consiste em decidir sobre a coisa: examinar o que aconteceu, atribuir causa, tomar posição, mandar fazer. É o que caberia ao rei, e é justamente o que o versículo anterior registra que não houve.
O outro consiste em lidar com o que a coisa produziu: a água acabou, então cava-se. Não há nessa segunda operação nenhuma pergunta sobre causa. Quem cava não precisa saber se o rio foi ferido por um deus, por um cajado ou por um acaso — precisa de dois litros por dia.
A distinção é antiga e costuma ser tratada como diferença de altura: o primeiro seria o pensamento, o segundo a mera prática. O versículo desmente essa hierarquia de um jeito seco. Quem estava em condições de examinar a causa não examinou; quem não tinha essa condição fez a única coisa que manteve as pessoas vivas. Nos sete dias que o episódio dura, o conhecimento que teve efeito foi o de saber onde a areia dá água.
Vale registrar o que isso não autoriza a concluir. Não autoriza a dizer que a pergunta pela causa seja dispensável — o capítulo inteiro existe por causa dela, e quem a fez foi quem anunciou a praga antes de ela acontecer. E não autoriza a fazer do povo egípcio um exemplo: o Êxodo não o elogia e não diz uma palavra sobre o mérito de ninguém.
O que fica é a justaposição, que é do texto: uma porta que se fecha e um chão que se abre.
7. Aplicações Práticas
Fazer o que está ao alcance enquanto o resto não se resolve
Os egípcios não podiam desfazer a praga. Podiam cavar.
É uma distinção útil em qualquer dificuldade que não se resolve por decisão própria — uma doença em tratamento, um processo que corre, uma crise na empresa, uma pessoa da família que não muda. A energia gasta em girar sobre a causa que não está ao alcance é energia que não vai para o arranjo que mantém a vida funcionando enquanto isso.
Convém dizer que isso não é conformismo. Eles não aceitaram beber o rio; foram atrás de água. Só não confundiram o que podiam com o que não podiam.
Não esperar autorização para o óbvio
Ninguém mandou cavar. Não há ordem no versículo — nem divina, nem real.
Vale contra o hábito de esperar instrução para o que já é evidente. Em muitas casas e em muitos trabalhos, a coisa que precisa ser feita está clara para todo mundo e continua parada porque quem deveria mandar não mandou. O versículo mostra um país inteiro dispensando essa etapa.
Saber o que há debaixo do seu chão
Eles cavaram ao lado do rio porque conheciam o próprio terreno — sabiam que a areia da margem dá água limpa.
A aplicação é direta: em emergência ninguém inventa recurso novo; usa o que já sabia que tinha. Isso torna o inventário feito antes da crise — o que se sabe fazer, quem se pode chamar, o que há guardado — mais valioso do que a criatividade tentada no meio dela.
Água ruim bebida por sete dias ainda é a travessia
A água das covas era salobra e desagradável, e foi com ela que o Egito atravessou a semana.
Quem espera que a saída de uma dificuldade venha em boa qualidade costuma recusar as saídas que aparecem. O arranjo provisório, feio e incômodo é, quase sempre, o que efetivamente segura a pessoa até a coisa passar.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se dava para cavar e beber, a praga foi mesmo grave?
Foi, e a pergunta ajuda a ver por quê.
Considere o que o versículo descreve: um país inteiro, simultaneamente, abrindo covas na areia para conseguir alguns litros de água salobra por dia. Some a isso o peixe morto, que era comida, e o cheiro, que durou sete dias. E lembre que nada disso servia para irrigar, para o gado ou para o templo — o versículo fala só de beber.
O que a praga fez não foi matar de sede: foi derrubar o sistema. Um país cuja vida inteira passava por um rio teve de improvisar o abastecimento por uma semana, de ponta a ponta.
A água das covas não deveria estar com sangue também?
Essa é a dificuldade do capítulo, e ela nasce em Êxodo 7:21, não aqui.
As saídas propostas pelos comentaristas estão expostas no estudo de Êxodo 7:22, que trata da mesma questão do lado dos magos. Nenhuma se demonstra, e a mais honesta é registrar a tensão: o texto escreve "sangue em toda a terra do Egito" e, três versículos depois, descreve gente bebendo.
O que se pode observar deste versículo é apenas isto: o Êxodo não parece enxergar aí um problema. Não se explica, não se corrige, não se justifica. Escreve as duas coisas e segue.
Por que ninguém reclama?
O texto não diz, e o silêncio é notável quando se compara com o resto do livro.
Dois capítulos antes, em Êxodo 5:21, os supervisores israelitas acusaram Moisés de tê-los feito feder diante de Faraó. Adiante, no deserto, Israel reclamará de fome, de sede e da comida. Os egípcios deste versículo não dizem uma palavra.
Duas leituras são possíveis e nenhuma é demonstrável: que o Êxodo simplesmente não tenha interesse pela fala deles, ou que esteja descrevendo um povo que, sem ninguém a quem apelar, foi trabalhar. O que se pode afirmar é que o livro dá aos egípcios comuns um verbo neste capítulo, e o verbo é "cavaram".
Os israelitas também cavaram?
O texto não diz nada a respeito, e a pergunta é legítima.
Como se observou no estudo de Êxodo 7:20, a separação entre Gósen e o resto do Egito só é declarada a partir da quarta praga, em Êxodo 8:22. Nas três primeiras não há exceção anotada — e este versículo diz "todos os egípcios", o que também não resolve, porque a expressão nomeia o povo do país e não obriga a incluir nem a excluir os hebreus que viviam nele.
Não é possível decidir. O que se pode registrar é que o Êxodo, num episódio de sete dias sobre água potável, não menciona Israel uma única vez.
9. Conexão com Outros Textos
A razão, dita três versículos antes
Êxodo 7:21 — "Os peixes do Nilo morreram, o rio fedeu, e os egípcios não conseguiam beber a água do Nilo; e houve sangue em toda a terra do Egito."
A frase final deste versículo repete a mesma constatação, com o mesmo verbo de capacidade. O texto se repete de propósito: aqui a frase não informa, justifica.
O que o rei fazia enquanto isso
Êxodo 7:23 — "Faraó virou as costas, entrou em casa e nem a isto deu atenção."
Os dois versículos são vizinhos e cobrem o mesmo intervalo de tempo. O Êxodo os põe em sequência e não estabelece relação entre eles.
O mesmo verbo, em outro mundo
Gênesis 26:19 — "Os servos de Isaque cavaram no vale e ali acharam um poço de águas vivas."
É o mesmo verbo hebraico, e a diferença é instrutiva. Lá cavar é obra de patrimônio, seguida de disputa e de acordo — assunto do estudo daquele versículo. Aqui é serviço de emergência na areia, para durar uma semana. Repare ainda que o Gênesis registra o achado e o Êxodo não.
Sede, e a reação oposta
Êxodo 17:2-3 — "E o povo brigou com Moisés, dizendo: ‘Deem-nos água para bebermos.’ Moisés lhes disse: ‘Por que brigam comigo? Por que põem o SENHOR à prova?’ Ali o povo teve sede de água, e o povo murmurou contra Moisés e disse: ‘Por que é que você nos fez subir do Egito, para matar de sede a mim, os meus filhos e o meu gado?’"
A comparação é dura e é do próprio livro. Num caso, egípcios sem água cavam e não dizem nada. No outro, israelitas sem água acusam o homem que os tirou do Egito. O Êxodo conta as duas cenas sem nenhum comentário que as aproxime — a aproximação é do leitor, e é preciso dizer que o contexto das duas é muito diferente.
Procurar água e não achar
Isaías 41:17 — "Quando os aflitos e necessitados buscarem água e não houver, e a língua deles se secar de sede, eu, o SENHOR, os ouvirei; eu, o Deus de Israel, não os desampararei."
A imagem é a mesma deste versículo — gente procurando água — e o desfecho é o contrário. Vale como medida do que o Êxodo não escreve aqui: neste capítulo ninguém busca, ninguém é ouvido e ninguém é socorrido. As pessoas cavam.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E todos os egípcios cavaram ao redor do Nilo em busca de água para beber, porque não podiam beber da água do rio.
Texto hebraico
וַיַּחְפְּרוּ כָל־מִצְרַיִם סְבִיבֹת הַיְאֹר מַיִם לִשְׁתּוֹת כִּי לֹא יָכְלוּ לִשְׁתֹּת מִמֵּימֵי הַיְאֹר׃
Transliteração
wa-yachperu khol-Mitsrayim sevivot ha-ye'or mayim li-shtot, ki lo yakhlu li-shtot mi-meimei ha-ye'or.
Análise palavra por palavra
וַיַּחְפְּרוּ — wa-yachperu, "e cavaram".
Raiz chafar, na forma simples do hebraico, terceira pessoa do plural, encadeando a narrativa. O sentido básico é escavar, remover terra.
É o verbo próprio da abertura de poços. Aparece em Gênesis 21:30, no acordo de Berseba, e sobretudo em Gênesis 26, na série de escavações dos servos de Isaque — cujo estudo é o dono do assunto. A raiz gera também, em outro uso, a ideia de esquadrinhar, procurar revolvendo, como quando Josué manda espionar a terra.
Guarde a diferença de peso entre as duas cenas, porque ela não aparece em português: é a mesma palavra para a obra permanente que vira patrimônio e para a cova na areia que dura sete dias.
Note-se ainda que o verbo não vem acompanhado da palavra "poço", be'er, que seria o objeto esperado. O texto diz apenas que cavaram — e o objeto que ele dá é outro, como se verá adiante.
כָל־מִצְרַיִם — khol-Mitsrayim, "todo o Egito".
Kol é o quantificador de totalidade, o mesmo de "todas as águas do Nilo" em Êxodo 7:20 e de "toda a terra do Egito" em Êxodo 7:21. Esta é a terceira ocorrência dele no episódio, e a primeira em que o que ele abarca são pessoas.
Mitsrayim nomeia ao mesmo tempo o país e o povo. Com o verbo no plural, como aqui, a expressão significa "todos os egípcios" — e a nossa versão traduziu assim, porque quem cava são pessoas e não um território.
סְבִיבֹת הַיְאֹר — sevivot ha-ye'or, "ao redor do Nilo".
Sevivot é a forma plural do termo que indica o que está em volta, derivado da raiz de girar, rodear. Não significa "perto" nem "nas proximidades": significa ao redor, em torno, dos dois lados. A imagem é a de covas abertas ao longo das duas margens.
Ye'or é o termo egípcio para o Nilo, tratado no estudo de Gênesis 41:1. Ele aparece duas vezes neste versículo — no lugar onde se cava e na água que não se pode beber —, e é a última menção ao rio antes do fecho do episódio.
מַיִם לִשְׁתּוֹת — mayim li-shtot, "água para beber".
Duas palavras, e a construção é econômica ao ponto de ser abrupta: o verbo de cavar recebe como objeto, diretamente, a água — não o poço, não a cova, não o buraco.
Ao pé da letra, portanto, a frase diz que eles cavaram água. É construção conhecida em hebraico, em que o objeto nomeia o que se busca e não o que se remove, e o português precisa acrescentar "em busca de" para não soar estranho.
O efeito, porém, se perde na tradução e vale registrá-lo: o texto não descreve a obra, descreve a finalidade. Ninguém está construindo nada; está atrás de água.
Li-shtot é o infinitivo de shatah, beber — o mesmo que apareceu em Êxodo 7:21 na frase da impossibilidade. Aqui ele aparece duas vezes no mesmo versículo, uma na finalidade e outra na causa.
כִּי לֹא יָכְלוּ לִשְׁתֹּת — ki lo yakhlu li-shtot, "porque não podiam beber".
Ki é a conjunção causal: porque, pois. Ela introduz a justificativa, e é o que faz da frase final uma explicação e não uma repetição gratuita.
Yakhlu é do verbo yakhol, poder, conseguir, ser capaz de — o verbo da capacidade, não o da permissão. A construção é idêntica à de Êxodo 7:21, e o ponto é o mesmo: não era proibido beber, é que não dava.
Repare na simetria interna do versículo. O infinitivo de beber aparece na primeira metade, como objetivo, e na segunda, como impossibilidade — a mesma palavra no lugar do que falta e no lugar do que se procura. A frase é construída em torno de um verbo só.
מִמֵּימֵי הַיְאֹר — mi-meimei ha-ye'or, "das águas do Nilo".
A preposição min, "de", em ligação com a forma plural de mayim.
Há aqui uma diferença pequena em relação a Êxodo 7:21, e é honesto dizer que ela pode não significar nada. Lá a construção era "beber água do Nilo"; aqui é "beber das águas do Nilo", com a preposição de origem. A segunda forma é a mesma de Êxodo 4:9, no terceiro sinal — "você tirará água do Nilo". Se a variação tem intenção ou é apenas alternância de estilo, não é possível decidir.
11. Conclusão
Do que foi examinado, quatro conclusões.
A primeira: é a única nota prática da praga, e ela mostra o país por baixo. Depois de dez versículos ocupados por rei, profetas e especialistas, o Êxodo dedica uma frase ao que os egípcios comuns fizeram — e o que fizeram foi cavar. A totalidade que o episódio vinha aplicando à água e ao território aparece aqui aplicada a gente: todos cavaram, ao longo das duas margens, ao mesmo tempo.
A segunda: a vizinhança com o versículo anterior é do texto, e é dura. Um rei entra em casa e fecha a porta; um povo abre buracos na areia. As duas frases descrevem o mesmo intervalo de tempo e o Êxodo não liga uma à outra — não acusa, não compara, não comenta. Quem ler ali uma crítica ao soberano estará acrescentando; quem não notar a sequência estará lendo depressa demais.
A terceira: cavaram ao lado do rio, e isso tem explicação material. Na faixa habitada do Egito o lençol de água acompanha o nível do Nilo, e a areia da margem filtra o que passa por ela: uma cova aberta a poucos metros da barranca enche sozinha, com água salobra mas bebível. A cena é materialmente inteligível — e é preciso dizer que isso não resolve a tensão com o "sangue em toda a terra do Egito" de Êxodo 7:21, porque o Êxodo não menciona lençol, areia nem filtragem. Diz que cavaram, e diz por quê.
A quarta: ninguém mandou, ninguém rezou e ninguém reclamou. Este é o único ato humano bem-sucedido do episódio sem ordem divina, sem cajado e sem profeta — e acontece num país que cultuava o rio, sem que um sacerdote seja chamado ou um deus invocado. O texto também não registra queixa contra Moisés, contra Arão ou contra o palácio. Dá aos egípcios um verbo no capítulo inteiro, e o verbo é "cavaram". Note-se, por fim, que ele não diz se acharam: registra a busca e a razão dela, e deixa o resultado por conta dos sete dias que o versículo seguinte vai contar.













