Completaram-se sete dias depois que o SENHOR feriu o Nilo.
1. Introdução
O capítulo termina numa conta de dias, e é a frase mais discreta do episódio inteiro.
Duas coisas nela merecem atenção, e as duas passam despercebidas em leitura corrida.
A primeira é quem feriu o rio. Em Êxodo 7:20, quem levantou o cajado e feriu as águas foi um homem — o texto não diz qual dos dois irmãos. Aqui, cinco versículos depois, o mesmo golpe é atribuído diretamente ao SENHOR, sem cajado, sem margem e sem nenhum homem na frase. O Êxodo escreve as duas versões e não as concilia; a discussão está no estudo de Êxodo 7:20 e o dado, aqui, é o fecho.
A segunda é a medida. Sete dias. Esta é a única praga do livro que vem com duração declarada — as outras começam, produzem efeito e terminam sem que o texto diga quanto tempo levaram.
E há o que o versículo não diz, que é o mais notável dele.
Não diz o que aconteceu no fim dos sete dias. Não diz que o rio voltou ao normal, não diz que a água clareou, não diz que os peixes voltaram, não diz que alguém percebeu. Não diz se o rei mudou de ideia, e não diz o que Moisés e Arão fizeram durante aquela semana.
Não diz sequer, com todo o rigor, que a praga tenha durado sete dias: a frase conta sete dias depois do golpe, o que é coisa ligeiramente diferente. O item 3 examina a diferença.
O capítulo se fecha, portanto, sobre um intervalo medido e vazio. Alguma coisa foi feita, um prazo correu, e o Êxodo passa adiante.
2. Contexto Histórico e Cultural
Sete dias não era uma unidade egípcia
Convém começar por aí, porque o versículo está contando tempo dentro do Egito e não usa o modo egípcio de contar.
O calendário do Egito não tinha semana de sete dias: o mês tinha trinta, divididos em três períodos de dez, e é por essa unidade que os registros de trabalho do país marcam o tempo — assunto tratado no estudo de Êxodo 5:5. Para um egípcio, "sete dias" não fechava nada; era um pedaço de um período de dez.
A medida deste versículo é hebraica, e quem conta é o texto, não os personagens. É uma observação de vocabulário, não uma acusação de anacronismo: quem escreve um relato conta o tempo com as unidades que usa.
O grupo de sete dias no mundo de Israel
Em hebraico, "sete dias" é uma expressão fixa, e ela nomeia um bloco fechado de tempo — não uma quantidade aproximada.
Ela organiza as coisas que precisam de prazo: o luto tinha esse tamanho — o caso está no estudo de Gênesis 50:10 —, as festas maiores duravam sete dias, os ritos de consagração e de purificação corriam em sete, e o relato da criação é organizado em sete.
O que essas coisas têm em comum não é o número: é o formato. Sete dias é o modo de dizer que alguma coisa tem começo e fim marcados, e que dentro desse intervalo ela vale — e depois dele, não vale mais.
Guarde isso, porque é o que torna o fecho deste versículo estranho. O prazo está declarado; o que acontece quando ele termina, não.
O sétimo dia como marcador narrativo no Antigo Oriente Próximo
Há um traço de composição que vale registrar, com a ressalva de que ele é frequente demais para provar parentesco entre textos.
A literatura épica da região usa muito a fórmula do sétimo dia: conta-se o primeiro, o segundo, às vezes o terceiro, e então salta-se para o sétimo, quando alguma coisa acontece. Aparece nos poemas achados em Ugarite e no relato mesopotâmico do dilúvio, em que a tempestade dura até o sétimo dia, quando amaina.
A convenção é clara: sete dias é quanto dura uma coisa que vai terminar, e o sétimo dia é onde o relato retoma.
É exatamente o que este versículo não faz. Ele completa o prazo e não conta nada no fim dele. Se isso é intenção, descuido ou simples desinteresse, não é possível decidir — mas quem conhece a convenção sente a falta, e a falta está no texto.
Uma nota sobre o que dura sete dias em rio parado
Uma semana é aproximadamente o tempo que um episódio de mortandade de peixe leva para percorrer o seu ciclo em água quente: os corpos boiam, apodrecem, afundam e o cheiro baixa. A escala do versículo é compatível com isso — e a ressalva é dupla. O Êxodo não menciona causa natural nenhuma, e as propostas eruditas estão examinadas no estudo de Êxodo 7:17; além disso, compatibilidade não é demonstração.
3. Análise Teológica do Versículo
"Completaram-se sete dias"
A frase abre com um verbo sem sujeito humano. Ao pé da letra, o hebraico diz que os sete dias se encheram — a forma da língua que registra que um prazo correu até o fim, sem dizer quem o contou nem quem o cumpriu.
Duas coisas decorrem daí.
A primeira: o versículo é sobre tempo, e é o único do episódio que é.
Tudo o que veio antes foi ação: falar, ir, levantar, ferir, virar, entrar, cavar. Este versículo não tem ação nenhuma — tem um intervalo. E é raro no bloco das pragas: nenhuma das outras vem com duração declarada. As demais começam, produzem efeito, provocam reação e terminam sem que o texto diga quantos dias levaram. Esta tem prazo, e por que só esta o Êxodo não explica.
A segunda: a frase mede sete dias "depois" do golpe, e isso não é exatamente a mesma coisa que dizer que a praga durou sete dias.
A leitura corrente — e a mais natural — é que o rio ficou impróprio durante uma semana; é assim que os comentaristas clássicos entendem, e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) observa que as covas da margem bastaram "durante os sete dias que a praga durou". Mas o que a frase afirma é que se completaram sete dias depois do golpe: lida com rigor, ela mede o intervalo entre o golpe e o que vem em seguida, e não a duração do estado da água. Não é possível decidir entre as duas — e na segunda o texto não diz, em momento nenhum, quanto tempo o Egito ficou sem água.
"depois que o SENHOR feriu o Nilo"
Aqui está o achado do versículo, e ele é fácil de perder porque está escondido numa frase de datação.
Quem feriu o rio, nesta frase, é o SENHOR. Diretamente, sem intermediário, sem cajado e sem nenhum homem na oração.
Compare com o que o capítulo vinha dizendo. Em Êxodo 7:19 a ordem foi dada a Arão, pelo nome. Em Êxodo 7:20 quem feriu as águas foi um homem que o texto deixa sem nome. E em Êxodo 7:17 o próprio SENHOR já dissera, em primeira pessoa: "com o cajado que tenho na mão, ferirei as águas do Nilo." Três atribuições em oito versículos — e o verbo é o mesmo nas três, sem nenhuma troca de vocabulário que suavize a diferença.
Não é contradição no sentido de erro: o hebraico atribui sem embaraço a alguém a ação executada por quem age em nome dele. Mas também não é harmonização — o Êxodo não escreve "por mão de Arão", não explica, não costura. Escreve as três versões e deixa as três de pé, e o que este versículo faz é dar o crédito no fecho: a frase que resume o acontecido não menciona Moisés, Arão, o cajado nem os magos. Menciona duas coisas, o SENHOR e o rio.
O que o versículo não diz
O capítulo acaba aqui, e vale enumerar o que fica em aberto, porque a lista é longa para uma frase tão curta.
Não diz o que aconteceu no fim dos sete dias. O rio voltou a ser bebível? O sangue sumiu? Os peixes voltaram? O cheiro passou? O texto não informa nada disso, e o leitor que quiser saber terá de inferir da simples continuação do livro.
Não diz o que Faraó fez durante a semana — a última notícia dele é a de Êxodo 7:23, entrando em casa. Não diz o que Moisés e Arão fizeram, nem se ficaram na margem onde o texto os deixou. Não diz o que o povo fez depois de cavar, nem se as covas continuaram servindo.
E não anuncia nada. Não há promessa de novo sinal, não há ameaça, não há "e o SENHOR disse". A frase seguinte já pertence a outro capítulo e a outro episódio.
Registre-se, por fim, um detalhe da forma do texto hebraico: há uma marca de fim de seção imediatamente depois deste versículo, nas cópias antigas — o sistema dessas marcas está explicado no estudo de Êxodo 6:30. Ela confirma que o corte aqui é antigo, e não invenção da divisão em capítulos.
O silêncio é o modo de o capítulo terminar
Um relato que quisesse impressionar teria fechado com o resultado — o rio limpo, o rei abalado, a corte assustada. Um relato que quisesse acusar teria fechado com o custo. Este fecha com uma conta de dias e vai embora, e o que sobra ao leitor é uma semana sobre a qual nada se diz, mais a informação de quem, afinal, feriu o rio.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O SENHOR
É o único agente nomeado no versículo, e é a primeira vez no episódio em que o golpe no rio lhe é atribuído diretamente numa frase de narração.
Vale distinguir os dois tipos de ocorrência no capítulo. Em Êxodo 7:17 quem diz "ferirei as águas" é o próprio SENHOR, em discurso — é fala, é anúncio. Aqui é o texto que registra, em terceira pessoa, o que aconteceu. Não é mais uma promessa: é a descrição do fato.
O Nilo
Última aparição do rio no capítulo, e ele aparece como objeto de um golpe.
Conte as menções do episódio: alvo anunciado em Êxodo 7:17-18, alvo ferido em Êxodo 7:20, três vezes em Êxodo 7:21 e duas em Êxodo 7:24. E aqui, uma vez, no fecho. O que o rio era para o Egito está no estudo de Gênesis 41:1.
Os ausentes
A lista é a informação mais útil deste item.
Moisés e Arão não aparecem. Estiveram na margem em Êxodo 7:20 e o texto não os menciona desde Êxodo 7:22, onde eram apenas um pronome.
Faraó não aparece. A última notícia dele é de Êxodo 7:23, entrando em casa.
Os magos não aparecem. Saíram de cena em Êxodo 7:22 e o capítulo não volta a eles.
Os egípcios não aparecem. Ficaram cavando em Êxodo 7:24.
O cajado não aparece. Foi o objeto do capítulo inteiro, de Êxodo 7:9 a Êxodo 7:20, e some da frase que resume o acontecido.
Os sete dias
É o único elemento novo do versículo, e o capítulo não os preenche com nada. Uma semana de rio impróprio, cheiro, peixe morto e covas na areia — e o Êxodo registra o prazo sem contar um só acontecimento dentro dele. É um intervalo medido e vazio.
O acontecimento
É o fecho da primeira praga e o fecho do capítulo.
Convém não ler este versículo pelo que vem depois. Neste ponto do livro não há anúncio de nova praga, não há lista, não há número. O capítulo termina com um prazo cumprido e nada mais — e o que acontece em seguida pertence ao próximo capítulo, não a este.
5. Pontos de Ensino
No fecho, o crédito é de quem anunciou
O capítulo inteiro foi feito de intermediários: um profeta que fala, um irmão que executa, um cajado que se levanta, especialistas que repetem.
A frase que resume o episódio não menciona nenhum deles. Diz que o SENHOR feriu o rio. O instrumento não entra no resumo, e é bom notar que o Êxodo faz isso sem desmerecer ninguém — os versículos que dão o crédito aos homens continuam lá, intactos.
Há acontecimentos que se medem por tempo, e não por resultado
O texto não conta o que os sete dias produziram. Conta que passaram.
É um modo de registrar que costuma incomodar, e ele é honesto. Nem toda coisa que acontece tem desfecho narrável; algumas apenas duram. Uma semana de rio podre não tem episódio, não tem virada e não tem cena final — tem duração, e é isso o que o Êxodo escreve.
O prazo declarado e o silêncio sobre o fim dele
Em hebraico, "sete dias" é a medida das coisas que têm começo e fim marcados: luto, festa, consagração. O formato promete um desfecho no sétimo dia.
Aqui o prazo é dito e o desfecho não é contado. Vale reter a estranheza em vez de resolvê-la: o versículo dá a moldura e deixa o quadro vazio.
Uma praga inteira, e nada mudou
Junte este versículo aos dois anteriores. Os magos repetiram, o rei entrou em casa, o povo cavou, e sete dias se completaram.
É esse o balanço do primeiro confronto, e ele não é o de uma vitória. O Êxodo não apresenta o episódio como fracasso, tampouco — não lamenta, não explica, não justifica. Apenas fecha a conta e passa adiante.
O que o texto se recusa a antecipar
Não há, no fim deste capítulo, nenhuma promessa de continuação: nem nova praga anunciada, nem prazo dado, nem ameaça. Quem lê o livro pela primeira vez chega ao fim do capítulo 7 sem saber que virão outras — e isso é uma advertência contra ler cada episódio apenas como degrau de uma escada cujo topo já se conhece.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta uma questão de forma que vale enunciar com clareza: o que é um acontecimento sem desfecho?
Quase tudo o que se conta tem três partes — começa, desenvolve, termina —, e o final é o que costuma dar sentido ao resto. É por isso que um relato interrompido incomoda: não é que falte informação, é que falta o lugar de onde o que veio antes seria compreendido.
Este versículo faz o contrário do que a forma pede. Declara um prazo, o que cria expectativa de desfecho, e não conta o desfecho. Diz quantos dias, e não diz o que houve no fim deles.
Daí decorre uma observação que não é religiosa. Medir uma coisa não é o mesmo que entendê-la. O versículo entrega a medida exata de um acontecimento sobre cujo resultado não se diz uma palavra — e a precisão da medida torna o silêncio mais visível, não menos.
E há a outra ponta. A vida, fora dos livros, funciona muito mais assim do que o contrário: períodos que se sabe quanto duraram e não o que produziram; coisas que terminam sem cena final. Um relato que registra um prazo cumprido e passa adiante está, nesse ponto, mais perto da experiência do que um relato bem fechado.
Fica o limite: o Êxodo não teoriza nada disso, e é perfeitamente possível que o silêncio seja apenas economia de escrita. Não é possível decidir. O que se pode dizer é que o capítulo termina numa conta, e não numa conclusão.
7. Aplicações Práticas
O versículo é uma anotação de tempo e rende pouco em aplicação. Ficam dois pontos com relação real com o que está escrito.
Nem toda semana difícil tem história para contar
O Êxodo registra sete dias e não conta nada do que aconteceu dentro deles — e eram dias de rio podre, peixe morto e água tirada de buraco.
Isso descreve bem um tipo de período que quase todo mundo atravessa e sobre o qual não há o que dizer depois: a temporada de tratamento, os meses do processo, o tempo entre o pedido e a resposta. Não há episódio, não há virada, não há cena. Só duração.
A utilidade prática é modesta e verdadeira: não é preciso extrair lição de tudo. Houve, durou, passou. Cobrar de si um sentido para cada intervalo ruim acrescenta trabalho a quem já estava cansado.
Contar o tempo é uma forma de não se perder dentro dele
O texto, que não diz o que houve, faz questão de dizer quantos dias foram.
Há sabedoria nisso, e ela é simples. Quem está dentro de um período ruim perde a noção de quanto tempo passou, e a impressão de que aquilo não acaba é, em boa parte, efeito da falta de conta. Marcar os dias — escrever, contar, ter uma data de referência — não abrevia nada, mas devolve o tamanho real da coisa a quem está dentro dela.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
A praga durou sete dias, ou passaram sete dias depois dela?
As duas leituras cabem no hebraico, e a diferença é pequena e real.
A frase diz que se completaram sete dias depois de o SENHOR ferir o rio. A leitura corrente entende que esse é o tempo em que o rio ficou impróprio, e é a mais natural. A leitura estrita entende que a frase mede o intervalo entre o golpe e o acontecimento seguinte, sem informar quanto tempo a água ficou daquele jeito.
Não é possível decidir. Registre-se que, na segunda leitura, o Êxodo não diz em momento nenhum por quanto tempo o Egito ficou sem beber do rio.
Por que só esta praga tem duração medida?
O texto não explica, e a pergunta é boa justamente porque não tem resposta no livro.
Especular sobre o motivo é possível — que seja a primeira e por isso mereça registro, que a duração fosse parte do sinal, que o número tenha peso próprio. Nenhuma dessas hipóteses se demonstra a partir do texto, e a mais honesta é dizer que o Êxodo mediu uma vez e não voltou a medir.
Por que o texto atribui o golpe ao SENHOR, se foi um homem que levantou o cajado?
Porque o hebraico atribui ao mandante o que o enviado executa, e o livro inteiro funciona assim.
Mas é preciso dizer o que isso não resolve. O Êxodo não escreve "por mão de Arão", não acrescenta nenhuma palavra de mediação e não harmoniza as três atribuições do capítulo — a ordem dada a Arão em Êxodo 7:19, o cajado na mão do SENHOR em Êxodo 7:17 e o verbo sem nome em Êxodo 7:20.
O que este versículo faz é escolher uma delas para o fecho. A escolha é do texto; a conciliação, quando alguém a faz, é do leitor.
O rio voltou ao normal?
O texto não diz — nem aqui, nem em nenhum lugar. É uma omissão que passa despercebida porque o leitor a preenche automaticamente: o Êxodo não registra a restauração da água, não descreve o rio limpo, não conta a reação de ninguém ao fim da praga.
Vale comparar com o cuidado que o mesmo livro teve em Êxodo 4:4 e Êxodo 4:7, onde o desfazimento dos dois primeiros sinais é descrito expressamente — observação que pertence ao estudo de Êxodo 4:9. Aqui não há nada parecido.
9. Conexão com Outros Textos
Quem o capítulo disse que feriu o rio
Êxodo 7:20 — "Moisés e Arão fizeram como o SENHOR havia ordenado: ele levantou o cajado e feriu as águas do Nilo, diante de Faraó e dos seus servos, e todas as águas do Nilo viraram sangue."
Ali o sujeito é um homem que o texto não nomeia; aqui é o SENHOR. Mesmo verbo, mesmo objeto, cinco versículos de distância.
O anúncio, em primeira pessoa
Êxodo 7:17 — "Assim diz o SENHOR: Nisto você saberá que eu sou o SENHOR: eis que, com o cajado que tenho na mão, ferirei as águas do Nilo, e elas virarão sangue."
É a terceira atribuição do capítulo, e a que este versículo confirma — com a diferença de que aqui o cajado desapareceu da frase.
O prazo de sete dias como medida
Gênesis 50:10 — "Chegaram até a eira de Atade, do outro lado do Jordão, e ali fizeram um pranto grande e amargo; e José guardou sete dias de luto por seu pai."
A mesma expressão hebraica, e o mesmo formato: um bloco de tempo com começo e fim marcados. O que esse formato representava está tratado naquele estudo.
Quando o Êxodo descreve o fim de um sinal
Êxodo 4:7 — "Ele tornou a pôr a mão no peito e, quando a tirou, ela havia voltado a ser como o resto do corpo."
Vale como contraste. Nos sinais do deserto o texto se dá ao trabalho de descrever o desfazimento; aqui ele não diz o que houve com o rio ao fim dos sete dias.
O último a agir antes do silêncio
Êxodo 7:24 — "E todos os egípcios cavaram ao redor do Nilo em busca de água para beber, porque não podiam beber da água do rio."
É a última ação humana do capítulo. Depois dela, só a conta dos dias.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Completaram-se sete dias depois que o SENHOR feriu o Nilo.
Texto hebraico
וַיִּמָּלֵא שִׁבְעַת יָמִים אַחֲרֵי הַכּוֹת־יְהוָה אֶת־הַיְאֹר׃
Transliteração
wa-yimmale shiv'at yamim acharei hakkot-YHWH et-ha-ye'or.
Análise palavra por palavra
וַיִּמָּלֵא — wa-yimmale, "e completou-se".
Raiz male, cujo sentido básico é encher — é o verbo de encher um odre, encher um vale, encher a terra. A forma aqui é o Niphal, a forma passiva e reflexiva do hebraico: "foi enchido", "encheu-se".
A imagem por trás da expressão é espacial. Para o hebraico, um prazo é um recipiente: os dias não "passam", eles enchem o período até a borda. É a mesma construção que o Gênesis usa para a gestação de Rebeca em Gênesis 25:24 e para os dias do embalsamamento de Jacó em Gênesis 50:3.
Repare ainda que o verbo está no singular e o sujeito é plural. O hebraico admite essa concordância quando o sujeito é tratado como bloco, e é o que interessa aqui: não são sete dias contados um a um, é uma semana tomada como uma coisa só.
שִׁבְעַת יָמִים — shiv'at yamim, "sete dias".
Shiv'at é a forma de ligação do numeral sete; yamim é o plural de yom, dia.
A expressão é fixa em hebraico bíblico e nomeia o bloco fechado de tempo — o das festas, o do luto, o dos ritos de consagração. O que esse formato representava está no item 2.
Vale registrar, sem desenvolver, que as consoantes do numeral sete são as mesmas do verbo hebraico de jurar, e que a relação entre as duas palavras foi discutida desde a Antiguidade sem que se chegue a conclusão; o assunto pertence ao estudo de Gênesis 21:28. Aqui ele não tem papel: o número está contando dias.
אַחֲרֵי — acharei, "depois de".
Preposição de posterioridade, na forma que se liga ao que vem a seguir. Ela é a peça que cria a ambiguidade examinada no item 3.
Repare no que a construção diz e no que não diz. Ela marca o ponto de partida da contagem — o golpe no rio — e não afirma nada sobre o que estava acontecendo durante o intervalo. A frase mede a partir de um acontecimento, e não descreve um estado. Ler "a praga durou sete dias" é leitura possível e é provavelmente a certa; não é, porém, o que a preposição afirma.
הַכּוֹת־יְהוָה — hakkot-YHWH, "o ferir do SENHOR".
Aqui está a forma que carrega o achado do versículo, e ela merece explicação.
O verbo é nakah — bater, golpear, abater —, na forma causativa, no infinitivo. Infinitivo, em hebraico, é a forma do verbo que funciona como substantivo: não "ele feriu", e sim "o ferir". O campo semântico da raiz está desenvolvido no estudo de Êxodo 2:11-12.
E o nome divino vem imediatamente depois, em ligação com o infinitivo. Essa construção — infinitivo mais nome — é o modo hebraico de dizer "o ferir de alguém", isto é, o golpe praticado por ele. O SENHOR não é o objeto: é quem fere.
Ponha ao lado o que o capítulo vinha dizendo. Em Êxodo 7:20 o mesmo verbo tem como sujeito um homem que o texto não nomeia; em Êxodo 7:17 tem o SENHOR, mas numa fala e com um cajado na mão. Aqui está em narração, sem cajado e sem homem nenhum na oração. O Êxodo não escolhe entre as três durante a cena — escolhe no fecho.
אֶת־הַיְאֹר — et-ha-ye'or, "o Nilo".
A partícula et marca objeto direto definido e não se traduz. Ye'or é o termo tomado ao egípcio que designa o Nilo, tratado no estudo de Gênesis 41:1.
Note-se a economia da frase final. Ela tem dois nomes próprios e nada mais: o SENHOR e o rio. Nenhum homem, nenhum objeto, nenhum lugar. É com esse par que o capítulo termina.
11. Conclusão
Do que foi examinado, quatro conclusões.
A primeira: a frase final do capítulo atribui o golpe ao SENHOR, e é a única do episódio que faz isso em narração. Em Êxodo 7:19 a ordem foi dada a Arão pelo nome, em Êxodo 7:20 quem feriu foi um homem que o texto não identifica, e em Êxodo 7:17 o próprio SENHOR anunciou que feriria, com o cajado na mão. Três atribuições, o mesmo verbo nas três, e nenhuma palavra de costura entre elas. O Êxodo não harmoniza durante a cena e escolhe apenas no fecho: a frase que resume o acontecido tem dois nomes, o SENHOR e o rio, e não menciona Moisés, Arão nem o cajado.
A segunda: esta é a única praga do livro com duração declarada, e o texto não explica por quê. As demais começam, produzem efeito e terminam sem contagem de dias. Aqui há prazo, e ele vem numa construção que trata a semana como um recipiente cheio até a borda — um bloco de tempo, não sete unidades somadas. Registre-se também que a frase mede sete dias depois do golpe, o que não é exatamente o mesmo que afirmar que a praga durou sete dias; as duas leituras cabem no hebraico e não é possível decidir entre elas.
A terceira: o prazo é declarado e o fim dele não é contado. O versículo não diz se o rio voltou a ser bebível, se o sangue sumiu, se o cheiro passou, se alguém percebeu. E isso é notável no próprio livro: nos dois primeiros sinais dados a Moisés, o Êxodo descreveu expressamente o desfazimento — a cobra voltando a cajado, a mão voltando a ser mão. Aqui não há nada parecido, e o leitor preenche a lacuna sem perceber que a está preenchendo.
A quarta: o capítulo termina numa conta, e não numa conclusão. Não há promessa de novo sinal, não há ameaça, não há anúncio. Os magos repetiram, o rei entrou em casa, o povo cavou, sete dias se encheram — e o Êxodo passa adiante sem apresentar o episódio como vitória nem como fracasso. Quem lê o livro pela primeira vez chega ao fim deste capítulo sem saber que virão outras pragas, e é assim que o texto quer que se chegue: com um prazo cumprido, uma semana sobre a qual nada se diz, e a informação de quem feriu o rio.













