Levaram quarenta dias para isso, pois esse era o tempo necessário para o embalsamamento; e os egípcios o choraram setenta dias.
1. Introdução
Este versículo é feito de dois números, e nada mais. Quarenta dias e setenta dias.
É o único lugar da Bíblia hebraica que informa quanto tempo levava uma mumificação, e é também o único que registra um luto nacional egípcio por alguém que não era egípcio. As duas informações cabem numa frase.
Três pontos organizam o estudo.
O primeiro são os números em si — o que se sabe sobre os quarenta e sobre os setenta, o que a arqueologia mostra, e por que o Gênesis os separa quando a fonte grega mais famosa sobre o assunto os junta. É o item 2.
O segundo é quem chora. O texto não diz que a família chorou: diz que o Egito chorou. O sujeito da segunda metade do versículo é um país.
O terceiro é o que o versículo faz de raro: ele se explica. "Pois esse era o tempo necessário" é uma nota informativa, dirigida a quem não conhece o Egito — e o Gênesis quase nunca faz isso.
2. Contexto Histórico e Cultural
Os quarenta dias
O número corresponde à etapa mais longa e mais importante do procedimento: a secagem no natrão, o sal do deserto que retira a água do corpo. Como se fazia isso está no estudo de Gênesis 50:2.
O que interessa aqui é a duração, e ela tem explicação física. Um corpo coberto de sal seco perde a maior parte da água em algumas semanas, e reproduções experimentais do método chegaram a resultados coerentes com esse intervalo. Menos que isso deixa tecido úmido, o que arruína a conservação; muito mais resseca a ponto de tornar o corpo quebradiço e difícil de enfaixar.
Ou seja: quarenta dias não é número simbólico aqui. É a ordem de grandeza que o método exige.
Convém registrar o que não se pode afirmar. Os egípcios não deixaram um manual com a duração de cada fase, e a prática variou muito ao longo de três mil anos. Quarenta é o valor que o Gênesis informa, compatível com o que se sabe — não confirmado por um texto egípcio equivalente.
Os setenta dias
Este é o número mais atestado e o mais discutido.
Setenta dias aparece nos textos egípcios como o intervalo padrão entre a morte e o sepultamento. É o tempo do processo inteiro — preparo, ritos, envolvimento em linho, cerimônias — e não o de uma etapa.
Era ideal, não lei. Da rainha Meresankh III, do Antigo Império, conservaram-se a data da morte e a do sepultamento, e entre uma e outra passaram-se mais de duzentos e setenta dias. Um túmulo real que ainda não estava pronto atrasava tudo.
Por que setenta
Existe uma explicação muito repetida, e ela é bonita o bastante para exigir cuidado.
Sirius, a estrela mais brilhante do céu, some do céu noturno por aproximadamente setenta dias antes de reaparecer no horizonte pouco antes do nascer do sol — reaparição que, no Egito, anunciava a cheia do Nilo e abria o ano. Os egípcios ligavam essa estrela ao ciclo da morte e do renascimento das divindades. A coincidência entre os dois setentas — o da estrela invisível e o do corpo em preparo — é evidente, e vários egiptólogos a propõem como origem do prazo.
É hipótese, e precisa ser dita como tal. Nenhum texto egípcio conhecido afirma essa ligação. Ela é uma reconstrução moderna a partir de duas séries de dados que combinam, e combinar não é o mesmo que explicar. Não é possível decidir.
O choque com Heródoto, e por que o Gênesis sai bem dele
Heródoto, na descrição do embalsamamento tratada no estudo de Gênesis 50:2, diz que o corpo ficava setenta dias no natrão: um só número, para uma só etapa. Este versículo diz outra coisa — quarenta dias de preparo do corpo e setenta dias de choro. Dois números, duas coisas diferentes.
O que a arqueologia e os textos egípcios sustentam é a segunda estrutura. A secagem levava semanas; o total até o sepultamento é que rondava os setenta dias. A distinção que o Gênesis preserva é justamente a que o relato grego, muito mais famoso, apagou.
Isso não faz do Gênesis um manual de egiptologia, e nenhuma conclusão maior deve ser tirada daí. O que se pode registrar é modesto e verificável: num detalhe técnico sobre o Egito, o texto hebraico é mais preciso do que a fonte clássica que costuma ser citada em seu lugar.
Quando um país inteiro chorava
A segunda metade do versículo tem paralelo direto no Egito, e ele é revelador.
Diodoro Sículo — o historiador grego já citado neste comentário a propósito da posse da terra e do ofício dos embalsamadores, aqui noutra passagem ainda (I.72) — descreve o que acontecia no Egito quando morria um rei. O luto durava setenta e dois dias. Os templos fechavam, suspendiam-se as festas, ninguém comia carne nem pão de trigo, ninguém bebia vinho, ninguém tomava banho nem usava roupa boa; as pessoas saíam em grupos de duzentas ou trezentas, com terra na cabeça, cantando lamentos duas vezes por dia.
O número de Diodoro e o deste versículo praticamente coincidem, e a coincidência importa: setenta dias de pranto público é a medida do luto de Estado. Registre-se o limite de sempre — Diodoro escreve mais de mil anos depois do tempo da história, e descrever costumes tardios como se fossem antigos é o risco de toda fonte grega sobre o Egito.
E quanto tempo Israel chorava
Muito menos, e a comparação é o que dá tamanho ao número egípcio.
O luto israelita padrão era de sete dias, com trinta reservados a figuras excepcionais como Arão e Moisés. Os prazos e os ritos foram tratados no estudo de Gênesis 37:34, e não se reabrem.
O que pertence a este versículo é o acúmulo. Jacó recebe setenta dias de choro egípcio aqui e, sete versículos adiante, mais sete dias de luto israelita na eira de Atade (Gênesis 50:10). Dois lutos, dois calendários, duas culturas — um depois do outro, pelo mesmo homem. Nenhum outro personagem da Bíblia recebe as duas coisas.
Uma pergunta que o texto deixa sem resposta
Os setenta incluem os quarenta, ou vêm depois deles?
A frase hebraica não decide. Se incluírem, o luto público começou com a morte e correu junto com o trabalho da oficina, o que é o mais provável à luz do costume egípcio. Se vierem depois, o total até a partida da comitiva sobe para cento e dez dias.
Os comentaristas se dividem, e nenhuma das leituras se impõe sobre a outra. É melhor deixar a conta em aberto do que fabricar precisão que o versículo não tem.
3. Análise Teológica do Versículo
"Levaram quarenta dias para isso"
A frase hebraica é mais curiosa do que a tradução deixa ver: não é José que leva quarenta dias, nem os médicos. São os dias que se completam — como uma medida que se enche até a borda. O detalhe pertence ao item 10.
O que interessa aqui é o efeito da informação. Entre a ordem do versículo anterior e este número há quarenta dias de nada: o Gênesis não diz onde José estava, o que fazia, se voltou ao trabalho, se os irmãos se reuniram. Salta — como saltou os vinte e dois anos entre o poço e o reencontro. Quando o tempo passa sem acontecimento que o texto queira contar, ele vira um número.
"pois esse era o tempo necessário para o embalsamamento"
Esta oração é uma explicação, e explicações são raras no Gênesis.
O livro quase nunca para para informar o leitor sobre um costume: mostra e segue. Aqui interrompe para dizer por que o número é aquele — e a interrupção só faz sentido se quem lê não souber como funcionava o Egito. É um dos poucos momentos em que o Gênesis mostra estar falando de fora.
Vale reparar no que a explicação faz com o número. Ela o retira do campo do afeto: quarenta dias não é a medida do amor de José pelo pai, é a medida de um procedimento. O texto podia ter deixado o número solto e permitido que o leitor o lesse como devoção; preferiu dizer que era prazo técnico.
"e os egípcios o choraram setenta dias"
Aqui está o ponto do versículo, e ele tem duas partes.
A primeira é quem chora. O texto não diz que os filhos choraram, não diz que a casa de Jacó chorou, não diz que José chorou. Diz que o Egito chorou — e o hebraico usa o nome do país, com o verbo no plural, como quem fala de um povo inteiro.
O contraste com o versículo 1 é agudo. Lá, o luto tinha um nome, um rosto e três verbos. Aqui não tem nome: tem número e nacionalidade.
A segunda parte é a medida. Setenta dias é a duração do luto oficial do Egito, aquilo que se guardava por um rei (item 2). O homem que recebe essa marca é um pastor estrangeiro de Canaã, de um povo cujo ofício os egípcios evitavam — assunto tratado no estudo de Gênesis 46:34.
O Gênesis não comemora isso. Não escreve que foi uma honra, não escreve que foi reconhecimento, não escreve que os egípcios amavam Jacó. Registra o número e passa adiante.
Por que o Egito chora
O texto não explica, e as razões possíveis são várias: luto de Estado decretado, coisa que a corte tinha meios de determinar; cortesia oficial devida ao pai de um alto funcionário; ou gratidão real de gente que viveu sete anos de fome sob a administração de José.
Nada no versículo permite escolher. O que se pode afirmar é que o luto foi público, longo e egípcio — e que quem o executou foi um país que não era o de Jacó.
O que o versículo não diz
Não diz se os setenta dias incluem os quarenta; a frase é ambígua e a discussão, no item 2, não tem solução.
Não diz o que a família fez durante esse tempo. Entre o beijo do versículo 1 e o pedido do versículo 4 há setenta dias sem um único personagem israelita em cena.
E não diz que aquele luto foi bom. Não há adjetivo, não há avaliação, não há sinal de que o texto considere o número uma honra ou um exagero. Ele é dado como fato, do mesmo jeito que o preço de um campo em Gênesis 23:16.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os egípcios
Este é o único versículo do capítulo em que os egípcios são o sujeito de uma ação, e a ação é chorar.
Eles aparecem em vários pontos do ciclo de José — como compradores de grão, como comensais que não comem com hebreus, como povo que vende a terra em troca de pão. Aqui aparecem em luto por um estrangeiro, e o hebraico usa o nome do país como sujeito coletivo.
Jacó, o objeto do luto
O morto não é nomeado neste versículo. Ele aparece só como o pronome "o" — "os egípcios o choraram".
Vale acompanhar a sequência do capítulo: no versículo 1 ele é "seu pai"; no versículo 2 é "seu pai" e depois "Israel"; aqui é um pronome. O nome vai sumindo à medida que o corpo entra no processo.
O tempo que passa
Entre a morte de Jacó e o pedido de licença do versículo 4 passam-se pelo menos setenta dias — dois meses e dez dias. Se os setenta forem contados depois dos quarenta, o total sobe para cento e dez, quase quatro meses, e não é possível decidir entre as duas contas.
Em qualquer das hipóteses, o corpo permaneceu no Egito por meses, e o juramento continuou pendente durante todo esse tempo.
O luto que ainda vem
No versículo 10 a comitiva para na eira de Atade e faz um pranto grande e amargo, com sete dias de luto guardados por José. É outro rito, com outro prazo e em outro país — e Jacó é o único personagem da Bíblia a receber os dois.
5. Pontos de Ensino
Luto tem duração, e a duração é cultural
Sete dias em Israel, setenta no Egito. O mesmo morto, dois calendários.
Quem lê a Bíblia procurando um prazo correto para o luto não encontra: o próprio livro põe dois lado a lado, no mesmo capítulo, sem escolher. Quem cobra de uma pessoa enlutada que "já passou tempo demais" está aplicando um relógio que é dele, não um prazo revelado.
O reconhecimento vem de fora, e não da família
O versículo é curioso nisto: o luto que ele registra não é dos filhos, é do país.
Jacó teve doze filhos e o texto não diz que nenhum deles chorou nestes setenta dias. Quem o pranteia por escrito são os egípcios — o povo que ele não escolheu, na terra em que não queria ficar.
O Gênesis não comenta a ironia. Ela está no texto de qualquer modo.
Números não são sentimentos
O versículo tem o cuidado de dizer que os quarenta dias eram o prazo do procedimento. Não são medida de amor.
Vale carregar essa distinção para outros lugares. Tamanho de funeral, número de presentes e duração de cerimônia medem organização e posição social — não medem afeto, e confundir as duas coisas é fonte de sofrimento desnecessário para quem enterra alguém sem recursos.
Uma honra prestada por quem não devia nada
Os egípcios não tinham obrigação nenhuma com Jacó. Ele era estrangeiro, vivia da criação de gado numa região à parte, e o ofício da família era mal visto no país (estudo de Gênesis 46:34). Mesmo assim guardaram por ele o prazo que guardavam por um rei.
O texto não diz por quê, e as razões possíveis estão no item 3 — mas o fato é registrado, e mostra que consideração pode vir de onde não havia dívida.
6. Aspectos Filosóficos
Um luto com prazo é uma ideia estranha quando se olha para ela de perto. Setenta dias, e no septuagésimo primeiro acabou.
A dor não funciona assim, e as pessoas que instituíram esses prazos sabiam disso tão bem quanto nós. O que elas fizeram não foi medir a dor: foi dar a ela uma forma pública, com começo, meio e fim marcados no calendário.
Isso resolve um problema real. Sem prazo, ninguém sabe como se comportar diante de quem perdeu alguém — quando visitar, quando parar de perguntar, quando o enlutado pode voltar ao trabalho sem parecer insensível. O prazo responde a essas perguntas por todo mundo ao mesmo tempo, e ao organizar os outros protege quem sofre da obrigação de administrar o constrangimento alheio.
Mas ele tem um custo evidente: quem ainda está mal no septuagésimo primeiro dia passa a estar em falta. A forma que servia de abrigo vira cobrança, e a pessoa aprende a esconder o que sente porque o calendário já disse que aquilo terminou.
As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e não há solução que elimine uma delas. Toda cultura escolhe onde ficar entre esses dois erros, e nenhuma escolhe bem de todo.
O Gênesis não discute nada disso. Ele registra dois prazos diferentes para o mesmo morto — setenta dias aqui, sete dias no versículo 10 — e não diz qual estava certo. Talvez seja a coisa mais honesta que um texto possa fazer com esse assunto.
7. Aplicações Práticas
Respeitar o tempo de quem perdeu alguém
É a aplicação direta do versículo, e ela tem duas pontas.
A primeira olha para quem está de fora: o prazo do luto não é seu. Setenta dias num lugar, sete em outro — a Bíblia registra os dois sem escolher, e quem cobra pressa está aplicando um relógio próprio a uma dor alheia.
A segunda olha para quem está de dentro: também não há obrigação de sofrer pelo tempo que os outros acham adequado. O versículo informa costumes, não prescreve sentimentos.
Comparecer a funerais de gente que não é sua
Os egípcios choraram setenta dias por um homem que não era do país deles, não tinha o ofício deles e não seguia a religião deles.
Não há aqui grande lição espiritual, e o texto não a propõe. Há uma coisa prática: estar presente no luto de alguém — vizinho, colega, o pai de um amigo que você mal conheceu — é um gesto de peso desproporcional ao esforço que custa. Quem já recebeu essa presença sabe.
O que a espera exige
Entre a morte e o enterro, aqui, passam-se meses — tempo em que nada se resolve e tudo continua pendente. Um corpo que precisa ser transportado, um documento que não sai, uma família espalhada que precisa se reunir. O versículo não ensina o que fazer nessa espera; apenas mostra que ela existe e é longa, e isso já ajuda quem está no meio dela.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os setenta dias incluem os quarenta?
A frase hebraica não permite decidir, e os comentaristas se dividem.
Se incluírem, o luto público correu junto com o trabalho da oficina, o que é o mais provável à luz do costume egípcio de contar setenta dias da morte ao sepultamento. Se não incluírem, o total sobe para cento e dez dias.
Em qualquer das leituras o corpo de Jacó ficou meses no Egito antes de subir para Canaã.
Por que o Egito guardou por Jacó o luto de um rei?
O texto não diz. As razões possíveis — decreto oficial, cortesia devida ao pai de um alto funcionário, gratidão pela administração da fome — estão examinadas no item 3, e nenhuma delas é demonstrável.
O que o versículo registra é só o prazo, e o prazo é o mesmo que o Egito guardava pelos seus reis.
Onde estavam os filhos de Jacó durante esses dias?
O Gênesis não conta. Entre o versículo 1 e o versículo 4 nenhum israelita aparece em cena, e os irmãos só reaparecem no versículo 8, subindo para o enterro.
Não se conclua ausência a partir de silêncio. Conclui-se apenas que o texto não registrou o luto deles, e registrou o dos egípcios.
Quarenta dias tem sentido simbólico aqui?
Provavelmente não, e este é um dos poucos lugares em que o próprio texto o diz: "esse era o tempo necessário para o embalsamamento".
O número aparece muitas vezes na Bíblia ligado a períodos de prova, e a tentação de ler nesse sentido é grande. Aqui o versículo fecha essa porta, informando que se trata de prazo técnico — e o item 2 mostra que ele é coerente com o que se sabe sobre a secagem do corpo.
9. Conexão com Outros Textos
Os dois lutos nacionais de Israel, com a mesma construção deste versículo
Números 20:29 — "Vendo toda a congregação que Arão havia morrido, toda a casa de Israel o chorou trinta dias."
Deuteronômio 34:8 — "E os filhos de Israel choraram Moisés nas planícies de Moabe trinta dias; e completaram-se os dias do pranto no luto por Moisés."
São os dois lugares em que o Antigo Testamento registra luto de um povo inteiro por um homem, e nos dois o hebraico usa a mesma construção que este versículo usa para os egípcios. O prazo, ali, é trinta dias. Aqui é setenta.
O luto curto, que é o padrão de Israel
1 Samuel 31:13 — "E tomaram os ossos deles e os sepultaram debaixo da tamargueira, em Jabes, e jejuaram sete dias."
Sete é o número israelita, e ele reaparece sete versículos adiante, na eira de Atade (Gênesis 50:10).
Um enterro no dia, sem prazo nenhum
Deuteronômio 21:23 — "O seu cadáver não ficará pendurado no madeiro durante a noite; no mesmo dia você o sepultará."
É a regra oposta à do Egito. Onde um país conservava o corpo por setenta dias, o outro legislava para que nenhum corpo passasse uma noite insepulto.
O outro corpo que espera
Gênesis 50:26 — "E José morreu com a idade de cento e dez anos; foi embalsamado e posto num caixão no Egito."
Ali não há prazo nenhum, e é justamente esse o ponto: o corpo de Jacó esperou setenta dias e subiu; o de José esperou o livro inteiro terminar e continuou onde estava.
O prazo que ainda vai aparecer neste capítulo
Gênesis 50:10 — "Chegaram até a eira de Atade, do outro lado do Jordão, e ali fizeram um pranto grande e amargo; e José guardou sete dias de luto por seu pai."
Setenta dias no Egito e sete em Canaã, pelo mesmo homem. O Gênesis registra os dois prazos e não compara nenhum deles.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Levaram quarenta dias para isso, pois esse era o tempo necessário para o embalsamamento; e os egípcios o choraram setenta dias.
Texto hebraico
וַיִּמְלְאוּ־לוֹ֙ אַרְבָּעִ֣ים י֔וֹם כִּ֛י כֵּ֥ן יִמְלְא֖וּ יְמֵ֣י הַחֲנֻטִ֑ים וַיִּבְכּ֥וּ אֹת֛וֹ מִצְרַ֖יִם שִׁבְעִ֥ים יֽוֹם׃
Transliteração
wayyimle'ú-ló arba'ím yom, ki ken yimle'ú yeméi ha-chanutím; wayyivkú otó Mitsráyim shiv'ím yom
Análise palavra por palavra
וַיִּמְלְאוּ־לוֹ · wayyimle'ú-ló — "e se completaram para ele"
A raiz é male, "encher", "estar cheio", "completar-se". A forma é Qal, a forma simples do verbo hebraico.
Aqui está o detalhe que a tradução portuguesa não consegue guardar: o sujeito do verbo não é José, nem os médicos. São os dias. Literalmente, "encheram-se para ele quarenta dias".
É um verbo de recipiente. Enche-se um odre, enche-se uma medida de grão. O hebraico trata o tempo do mesmo jeito, e usa a mesma raiz para os dias de uma gravidez que se completam (Gênesis 25:24) e para a semana nupcial de Jacó (Gênesis 29:27-28). O tempo não passa: enche.
O ló, "para ele", indica em favor de quem o prazo corria — e o beneficiário é um morto.
כִּי כֵן · ki ken — "porque assim"
Duas palavrinhas que carregam a explicação inteira: "porque assim", "porque é desse modo que".
É a marca de uma nota informativa. O texto interrompe o relato para dizer como as coisas funcionavam, e a consequência disso para a leitura está no item 3.
יְמֵי הַחֲנֻטִים · yeméi ha-chanutím — "os dias dos embalsamados"
A expressão é mais concreta do que a tradução sugere. Não está escrito "os dias do embalsamamento", como nome de processo: está escrito "os dias dos embalsamados" — a forma passiva do verbo, no plural, referida às pessoas que passam por aquilo.
O hebraico não descreve uma técnica: descreve uma categoria de gente. Existem, no Egito, os embalsamados, e eles têm um prazo próprio. Jacó acaba de entrar nessa categoria. A raiz é chanat, tratada no estudo de Gênesis 50:2.
וַיִּבְכּוּ אֹתוֹ · wayyivkú otó — "e o choraram"
Aqui está o achado do versículo, e ele só é visível no original.
A raiz é bakhah, "chorar" — a mesma do versículo 1. Mas a construção é outra, e a diferença é de sentido.
No versículo 1, José "chorou sobre ele": o verbo vem com preposição, como quem chora sobre um pescoço, sobre um corpo, junto de alguém. É a construção do choro pessoal, localizado, físico.
Aqui o verbo rege objeto direto, marcado pela partícula que o hebraico usa para isso. Choraram-no: não é choro sobre um corpo, é pranto por uma pessoa, na forma de um ato público.
Essa construção não é comum, e onde ela reaparece o assunto é sempre o mesmo. Israel "chorou Arão" trinta dias (Números 20:29); os filhos de Israel "choraram Moisés" trinta dias (Deuteronômio 34:8). Nos dois casos: um povo inteiro, um prazo fixo, um luto oficial. É exatamente o que este versículo diz dos egípcios — e a gramática distingue o que a tradução portuguesa junta.
מִצְרַיִם · Mitsráyim — "os egípcios"
A palavra é o nome do país, e não a palavra para "povo". O hebraico faz isso com frequência: o nome do território serve de sujeito coletivo, com o verbo no plural. Quem chora, na letra do texto, é o Egito inteiro.
שִׁבְעִים יוֹם · shiv'ím yom — "setenta dias"
Fecha o versículo com um número, como ele abriu. Quarenta dias no começo, setenta no fim, e no meio a explicação: o versículo inteiro é uma conta, e é o único do capítulo construído assim.
11. Conclusão
Três conclusões saem do que foi examinado.
A primeira é sobre os números. Quarenta dias corresponde ao que a secagem de um corpo em natrão realmente exige, e setenta é o intervalo padrão que o Egito guardava entre a morte e o sepultamento. O Gênesis mantém as duas coisas separadas, e é aí que ele se distingue: a fonte grega mais citada sobre o assunto junta os dois num só número, e a distinção que o texto hebraico preserva é a que os dados egípcios sustentam.
A segunda é sobre quem chora. Este é o luto de um país, não de uma família, e o hebraico marca a diferença: o choro do versículo 1 é o de alguém sobre um corpo; o deste é a construção que a Bíblia reserva a um povo inteiro pranteando um homem, como fez por Arão e por Moisés. Setenta dias por um pastor estrangeiro é o prazo de um rei — e o Gênesis registra isso sem uma palavra de comentário.
A terceira é sobre o silêncio da família. Durante pelo menos setenta dias nenhum israelita aparece em cena. Quem prantea Jacó por escrito, na letra do capítulo, é o Egito.
Fica a conta em aberto. Se os setenta incluem os quarenta ou vêm depois deles, a frase hebraica não permite decidir, e é melhor deixar assim do que inventar precisão. Em qualquer das leituras, o corpo do homem que pediu para não ser sepultado no Egito ficou no Egito por meses.













