respondam: ‘Os seus servos foram criadores de gado desde a juventude até agora, tanto nós como os nossos pais’ — para que possam habitar na terra de Gósen, porque todo pastor de ovelhas é abominação para os egípcios.”
1. Introdução
É o versículo mais desconfortável do capítulo, e o Gênesis o escreve sem uma palavra de comentário.
José dita aos irmãos a resposta que devem dar ao rei. Não sugere um tom, não pede que sejam respeitosos: entrega a frase pronta, e a frase deixa de fora uma das duas expressões que ele mesmo vai usar diante do faraó. Eles devem dizer "criadores de gado". Não devem dizer "pastores de ovelhas".
Em seguida, o texto faz duas coisas que raramente aparecem juntas.
Diz para que serve a resposta: "para que possam habitar na terra de Gósen". O objetivo é declarado, e é declarado à própria família.
E diz por que a outra palavra sairia cara: "porque todo pastor de ovelhas é abominação para os egípcios". A razão está escrita, na última oração do capítulo, sem rodeio.
O que o texto não faz é julgar. Não diz que José agiu bem, não diz que agiu mal, não põe ninguém aprovando nem repreendendo. Expõe o mecanismo inteiro — a instrução, o objetivo e o motivo — e passa adiante.
Este estudo trata de quatro coisas. O que a afirmação sobre os egípcios significa, o que se sabe dela fora da Bíblia e por que a explicação mais repetida é frágil (item 2). O que exatamente José pede e o que ele não pede (item 3). Como se decide, e por qual ordem, se uma coisa dessas é grave (item 6). E o hebraico, onde está a chave da diferença entre as duas expressões (item 10).
Uma advertência de leitura, válida desde já: as duas moralizações fáceis — a que absolve porque não houve mentira e a que condena porque houve manobra — dizem mais do que o texto e menos do que a cena.
2. Contexto Histórico e Cultural
A afirmação, exatamente como ela está
O versículo termina com uma frase sobre o Egito: todo pastor de ovelhas é abominação para os egípcios. É uma afirmação sobre um povo real, num período real, e merece ser tratada como afirmação — examinada, e não repetida.
Convém separá-la desde já de uma parente próxima. Em Gênesis 43:32, o texto diz que os egípcios não podiam comer com hebreus, "porque isso é abominação para os egípcios". Aquilo é sobre mesa e comida, tem explicação própria e foi tratado no estudo daquele versículo. Aqui o assunto é outro: não é o que se come, é o que se faz da vida.
Começando pelo que falta
O dado mais importante deste item é uma ausência, e é honesto pô-lo em primeiro lugar.
Não existe nenhum texto egípcio conhecido que diga que pastores são abominação. Nenhum. Não há decreto, não há inscrição, não há papiro administrativo, não há máxima de sabedoria com essa afirmação. Todo o material com que se discute o assunto é indireto.
Fora da Bíblia, a frase não tem confirmação. Dentro dela, o assunto aparece três vezes: aqui, na separação à mesa de Gênesis 43:32 e em Êxodo 8:26, onde Moisés diz ao faraó que o sacrifício dos israelitas seria abominação aos olhos dos egípcios, a ponto de provocar apedrejamento. As três são afirmações hebraicas sobre o Egito.
Isso não as torna falsas. Torna-as não confirmadas do lado egípcio — e obriga quem escreve sobre elas a distinguir com rigor o que é dado do que é reconstrução.
A explicação corrente: os hicsos
Há uma explicação que aparece em quase todo comentário e em quase toda pregação sobre este versículo, e ela vem de longe.
Diz-se que os egípcios detestavam pastores porque tinham sido dominados por eles: os hicsos, invasores vindos do Oriente que governaram o norte do Egito durante mais de um século, teriam sido "reis pastores", e o ódio ao povo dominador teria virado ódio ao ofício.
Vale saber de onde essa história saiu.
A fonte é Manetão, sacerdote egípcio do século III antes de Cristo que escreveu em grego uma história do Egito. A obra dele se perdeu; o que restou são citações em autores posteriores. A mais extensa está em Josefo, historiador judeu do século I, no tratado Contra Ápion ("contra Ápion", obra em que ele defende a antiguidade do povo judeu contra um detrator alexandrino).
Josefo cita Manetão contando a invasão e, em seguida, oferece a explicação do nome: hyk significaria "rei" e sos significaria "pastor", de modo que "hicsos" seria "reis pastores". E Josefo faz com esse dado exatamente o que se esperaria: aproveita para identificar os hicsos com os hebreus, o que lhe serve para provar que o povo dele já era antigo e importante no Egito.
Por que essa explicação é frágil
São quatro problemas, e cada um deles bastaria.
Primeiro: a etimologia está errada. O termo egípcio por trás de "hicsos" é heqa-khasut, que significa "governante de terras estrangeiras". É um título antigo, usado para chefes asiáticos muito antes daquela dinastia, e não tem nenhuma relação com rebanhos. A palavra que aparece no meio dele designa terras de fora, não pastores. A leitura "reis pastores" é um mal-entendido de tradução, provavelmente por confusão com outro termo egípcio usado para nômades.
Segundo: os hicsos não eram pastores. Eram uma dinastia urbana. Governaram a partir de Avaris, no Delta oriental, cidade escavada em Tell el-Dab'a, com fortificação, palácio, templos, cemitérios, oficinas e comércio de longa distância. Os reis deles adotaram títulos egípcios e escreveram os próprios nomes em hieróglifos. Chamá-los de reis pastores descreve mal o que eles foram.
Terceiro: a cronologia não fecha, e não fecha de qualquer lado que se escolha. Uma das razões pelas quais muitos supõem que José tenha servido a um faraó hicso é justamente a facilidade com que ele, estrangeiro semita, sobe ao topo da administração. Se for esse o caso, a explicação desmorona: uma corte de origem asiática não abominaria pastores asiáticos. Se, em vez disso, José servir a um rei egípcio nativo depois da expulsão dos hicsos, a mágoa contra os invasores faria sentido — mas aí toda a datação da história se desloca, e a questão de quando situar José é discutida sem qualquer consenso.
Quarto, e o mais simples: o Egito criava ovelhas. Em grande quantidade, com rebanhos contados aos milhares nos inventários de templos e de propriedades, como se viu no estudo do versículo 32. Um país que cria não pode abominar o ofício de criar sem que se explique como as duas coisas coexistiam.
A explicação pelos hicsos, portanto, é uma hipótese com fundamento fraco, construída sobre uma tradução equivocada de um nome. Ela é repetida há séculos porque é simples e narrativamente satisfatória, não porque a documentação a sustente.
As hipóteses que restam
Nenhuma delas resolve o problema. Todas explicam parte dele.
A primeira, e a mais forte: não é o ofício, é o modo de vida.
O Egito tinha uma doutrina oficial sobre os povos do deserto e da faixa asiática, e ela era de desprezo declarado. O Ensinamento para Merikare, texto de instrução real do Império Médio, descreve o asiático como alguém que não vive num lugar fixo, que luta desde os tempos dos deuses, que não anuncia o dia do combate e que não se preocupa em conquistar cidades. É retrato de um tipo, e o tipo é o nômade.
Se a abominação é dirigida a esse tipo — o homem sem endereço, que anda com os animais entre fronteiras —, então a palavra "pastor" no versículo está servindo de nome para um modo de viver, e não para uma ocupação. Egípcio que cria ovelha numa propriedade do Delta não é isso; asiático que atravessa a fronteira com o rebanho é.
Esta leitura tem a vantagem de conciliar os dois fatos incômodos: o Egito criava ovelhas e desprezava quem vive andando com elas. A ideologia do Estado sobre estrangeiros, com as suas fórmulas fixas, foi tratada no estudo de Gênesis 43:32 e não se refaz aqui.
A segunda: o carneiro sagrado.
Heródoto, o historiador grego do século V antes de Cristo que dedicou ao Egito o segundo livro da obra dele, registra que os cultos variavam de província para província e que os animais permitidos numa não o eram noutra. No capítulo 42, ele afirma que os egípcios ligados ao culto de Amon não sacrificavam ovelhas, porque o carneiro era sagrado ali, e que em outra cidade acontecia o inverso com as cabras.
Se em certas regiões o carneiro era animal de deus, quem lida com rebanho e o abate estaria, ali, tocando no que não se toca.
Os limites dessa hipótese são grandes e precisam ser ditos. O trecho de Heródoto que trata da separação à mesa é outro, e foi examinado em Gênesis 43:32; as ressalvas de época e de confiabilidade feitas lá valem inteiras aqui. Além disso, o dado é local: uma província venerava o carneiro, a vizinha não. Um tabu de província não produz uma frase nacional como a deste versículo.
A terceira: a posição social do vaqueiro.
Os homens que andavam com os rebanhos ocupavam o degrau baixo da escala egípcia, e a arte de túmulo os representava com uma convenção fixa e nada lisonjeira, como se viu no estudo do versículo 32. A escala dos ofícios era, além disso, matéria de escola, conforme o estudo do versículo 33.
O problema desta hipótese é de grau. Desprezo não é abominação. A palavra que o versículo usa é forte e tem peso religioso; ela designa aquilo que não se toca, e não aquilo de que se ri. Entre a caricatura do vaqueiro nas paredes de um túmulo e a frase "é abominação para os egípcios" há uma distância que a documentação não cobre.
O que fica
Vale separar os três níveis com clareza, porque é isso que impede a conversa de virar repetição de lugar-comum.
O que se sabe: a Bíblia afirma a coisa duas vezes no Gênesis e uma no Êxodo. O Egito criava ovelhas em abundância. Os homens que tocavam rebanho eram gente de baixa condição, e a hierarquia dos ofícios era ensinada. O Estado egípcio mantinha uma doutrina de desprezo pelos povos de fora. O Egito tinha uma categoria própria e muito usada para "aquilo que se abomina", com conteúdo que variava de província para província.
O que é hipótese: todas as explicações acima. Nenhuma tem apoio direto, e a mais repetida — a dos hicsos — é a que tem o apoio mais fraco, por depender de uma etimologia falsa.
O que não é possível decidir: se "pastor de ovelhas", na frase, significa o ofício, o modo de vida ou o povo; se a regra valia no Egito inteiro ou em parte dele; e se ela existia na época em que a cena se passa ou na época em que o texto foi escrito.
Uma última observação, de forma. A expressão hebraica diz, literalmente, "abominação do Egito é todo pastor de rebanho". A palavra traduzida por "Egito" tanto pode designar o país quanto o povo, e o hebraico não distingue as duas coisas. A tradução "para os egípcios" é boa e resolve por interpretação uma indeterminação que o original mantém.
3. Análise Teológica do Versículo
“respondam”
Uma palavra, e ela muda a natureza de tudo o que veio antes.
Nos versículos 31 e 32, José disse o que ele faria e o que ele falaria. Aqui ele passa a dizer o que os outros devem falar. E não dá uma orientação geral — do tipo "expliquem que somos criadores" ou "sejam breves". Entrega a frase montada, com as palavras na ordem em que devem sair.
Isso tem nome comum, e é bom usá-lo sem eufemismo: José ensaia a família. Diz a pergunta que virá (versículo 33) e diz a resposta que deve ser dada (este versículo). Quando a audiência acontecer, nada do que aqueles homens disserem será improvisado.
O texto registra isso e não acrescenta nada. Não há advérbio de reprovação, não há um "e José não pensou bem", não há Deus falando, não há aviso de que aquilo daria errado. Vale reter, porque o Gênesis é perfeitamente capaz de julgar quando quer: sobre Er, o livro escreve em uma linha que ele era mau aos olhos do SENHOR (Gênesis 38:7). Sobre esta instrução, escreve o motivo dela.
“Os seus servos foram criadores de gado”
Aqui está o centro do versículo, e ele é uma escolha de palavra.
Dois versículos antes, José usou duas expressões para descrever os mesmos homens: "pastores de ovelhas" e "criadores de gado". Como se viu no estudo daquele versículo, elas não são sinônimas. A primeira nomeia a atividade — quem toca o rebanho. A segunda vem de uma raiz hebraica que significa adquirir, e nomeia a propriedade: são donos de rebanho.
A resposta que José dita contém apenas a segunda.
Repare no que isso é e no que não é.
Não é mentira. Eles são, de fato, donos de rebanho, e o livro confirma o dado por três gerações. Nada de falso será dito diante do rei.
Não é omissão de um fato desconhecido. O próprio José vai dizer ao faraó, na fala do versículo 32, que aqueles homens são pastores de ovelhas. A palavra evitada na boca dos irmãos estará na boca dele.
É seleção de descrição. Entre duas maneiras verdadeiras de dizer a mesma coisa, uma será dita e a outra ficará de fora — e a escolhida é a que põe aquela gente na posição mais alta que os fatos permitem.
Essa distinção não é sutileza de comentarista: ela é a diferença entre o que o versículo mostra e o que costuma ser lido nele.
“desde a juventude até agora, tanto nós como os nossos pais”
A segunda parte da resposta é um argumento, e um bom argumento.
Ela afirma continuidade. Não é uma atividade recente, adotada por necessidade; é o que aquela família faz há gerações, desde que os homens ali presentes se entendem por gente. Diante de um Estado, isso vale como credencial: são profissionais do ofício, e não gente sem rumo que resolveu virar criadora.
E é a informação de que o rei precisa para decidir a única coisa que está em jogo — onde alojá-los. Quem cria rebanho há três gerações precisa de pasto; e pasto, no Egito, fica na borda do país.
Há um detalhe de forma que merece registro, e ele é curioso. A frase começa em terceira pessoa, na etiqueta que se usava diante de um rei — "os seus servos" —, e termina em primeira pessoa: "desde a nossa juventude", "tanto nós como os nossos pais". A fórmula de deferência escorrega para a fala direta no meio da própria frase. O tratamento em terceira pessoa diante do poder foi examinado nos estudos de Gênesis 32:18 e 43:20; aqui basta notar que a construção mistura os dois registros, coisa comum no hebraico e que nenhuma tradução consegue reproduzir sem soar estranha.
“para que possam habitar na terra de Gósen”
José diz o objetivo. Em voz alta, para as pessoas que vão executar a instrução.
É um dado que muda a leitura da cena e que passa despercebido com facilidade. Ele não montou a resposta e mandou repeti-la; explicou para que serve. A família sabe o que está fazendo, sabe o que se pretende obter e sabe o que se ganha com aquela palavra em vez da outra.
O lugar em questão é o que José prometeu ao pai desde o recado de Gênesis 45:10, e o que se sabe sobre a região está no estudo daquele versículo. O que interessa aqui é a função dele: um distrito de pasto na borda oriental, longe do centro do país, onde setenta pessoas com rebanhos podem viver sem depender de ninguém.
“porque todo pastor de ovelhas é abominação para os egípcios”
E o texto dá o motivo.
Vale medir o peso disso. O Gênesis podia ter deixado a instrução no ar, e o leitor ficaria imaginando por que José preferiu uma palavra à outra. Não deixa: a última oração do capítulo é uma explicação, e ela é dirigida ao leitor tanto quanto aos irmãos.
O que a explicação afirma sobre o Egito, o que se sabe disso e o que é hipótese estão no item 2. O que interessa ao sentido do versículo é o efeito lógico da frase — e ele é o oposto do que se espera.
A repulsa é o que consegue Gósen.
Siga o raciocínio como ele está montado. Se pastores fossem bem-vindos no Egito, aquela família poderia ser instalada em qualquer lugar, inclusive perto da corte, misturada à população. Como pastores são repelidos, ela recebe um distrito à parte, na fronteira, onde pode ficar com os rebanhos e sem vizinhos incomodados.
O que os afasta é o que os protege. A separação que a corte vai lhes impor é a mesma que os mantém juntos, com o que é deles, longe do centro — e é nesse distrito que o povo se formará. O livro do Êxodo começará ali.
O Gênesis não comenta o paradoxo. Ele o produz numa oração subordinada e segue.
O que o texto faz e o que ele não faz
Este é o ponto mais importante do estudo, e ele precisa ser dito devagar.
O Gênesis explica o método: diz a resposta a ser dada, diz o objetivo e diz a razão. Tudo está exposto, sem nada escondido do leitor.
O Gênesis não julga o método. Não há aprovação e não há condenação. Ninguém no texto elogia a prudência de José e ninguém o repreende. Deus não fala. Não há consequência ruim atribuída ao episódio, e também não há bênção declarada por causa dele.
Diante disso, duas leituras se oferecem imediatamente, e as duas dizem mais do que o texto.
A leitura que absolve: "não houve mentira, logo não há problema". Ela é correta no primeiro passo e apressada no segundo. É verdade que nada de falso é dito. Daí não se segue que a única questão em jogo fosse a veracidade — e a prova de que não era é que o próprio José achou necessário retirar uma palavra verdadeira da boca dos irmãos.
A leitura que condena: "José ensinou a família a enganar o rei". Ela acrescenta um veredito que o texto não dá e descreve mal os fatos: não há engano de quem quer que seja sobre coisa alguma, e o rei ouvirá a palavra evitada da boca do próprio José.
O que se pode afirmar com precisão é isto, e é bastante:
José escolheu, entre descrições verdadeiras, a que produzia o resultado de que a família precisava; disse à família qual era o resultado e por que a escolha importava; e o Gênesis registrou a operação inteira sem qualificá-la.
Como se decide se uma coisa dessas é grave — e por que a ordem em que se julgam as faltas muda a resposta — é assunto do item 6.
Duas observações finais, ambas sobre silêncios
A primeira: Deus não aparece neste versículo. José não diz que foi instruído, não consulta, não invoca. Ele age com base no que sabe sobre o país onde vive. É notável num ciclo em que o mesmo personagem atribuiu tudo a Deus poucos capítulos antes (Gênesis 45:5-8) e num capítulo que se abriu com uma fala divina em Berseba.
A segunda: os irmãos não respondem. Em quatro versículos de instrução, ninguém pergunta nada, ninguém concorda, ninguém objeta. O capítulo termina com a última palavra de José. Não é possível decidir o que isso significa — se assentimento, se o texto não achou a reação digna de registro, se não havia espaço para discordar de quem sustentava a família inteira num país estrangeiro.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
José
Neste versículo ele exerce as duas posições que ocupa ao mesmo tempo, e é isso que torna a cena difícil de classificar.
Como funcionário do Estado egípcio, ele conhece o procedimento, sabe a pergunta que será feita e sabe o que a corte pensa de quem toca rebanho. Como irmão e filho, quer que a família fique em Gósen, perto dele, com o que possui.
As duas coisas apontam para o mesmo lado neste caso — e é por isso que o versículo não é um dilema, e sim uma operação. O Gênesis não registra hesitação nenhuma da parte dele.
Esta é também a última fala de José no capítulo, e a última palavra do capítulo inteiro.
Os irmãos
Recebem a instrução e não dizem nada. São eles que terão de pronunciar a frase diante do rei — não José.
Vale registrar a posição em que estão. Chegaram há pouco a um país estrangeiro, sem terra, sem posição e num ano de fome. Dependem inteiramente do irmão que administra o país. Aceitar a instrução era, na prática, a única coisa a fazer, e o texto não os mostra pesando alternativas.
Faraó
O destinatário da resposta. Não está presente e continua sem nome.
É importante lembrar, contra a leitura de que se estaria armando algo contra ele, que este rei já convidou a família, já prometeu o melhor da terra do Egito e já se mostrou satisfeito com a chegada dos irmãos de José (Gênesis 45:16-20). O que se prepara aqui não é uma defesa contra um adversário: é a formulação de uma resposta a um interrogatório de rotina.
Os egípcios
Aparecem no versículo como um coletivo com uma opinião — o único caso, em todo o capítulo, em que um povo inteiro é caracterizado numa frase.
O que se sabe e o que se supõe sobre essa caracterização está no item 2. Aqui basta o registro: a frase é uma afirmação hebraica sobre os egípcios, e não algo que os egípcios tenham escrito sobre si.
Gósen
O objetivo declarado da instrução. É o distrito de pasto da borda oriental do Delta, prometido por José ao pai em Gênesis 45:10 e tratado no estudo daquele versículo.
O que este versículo acrescenta é a mecânica: Gósen não será dada porque a família é parente do governador — será dada porque a família se declara criadora de rebanho, e criadores de rebanho vão para onde há pasto e não há vizinhos.
O ofício, e o que ele decide
Duas expressões, dois destinos possíveis. É esse o mecanismo que o versículo expõe: a categoria em que a família for enquadrada determina o lugar que ela vai ocupar no mapa e na sociedade egípcia.
O evento
O fim da instrução, e o fim do capítulo. O Gênesis 46 termina com José falando e ninguém respondendo.
A audiência propriamente dita — a pergunta feita, a resposta dada e a decisão do rei — não pertence a este capítulo. Ela é assunto de Gênesis 47, e é lá que deve ser lida.
5. Pontos de Ensino
Duas descrições verdadeiras não produzem o mesmo resultado
"Pastores de ovelhas" e "criadores de gado" descrevem os mesmos homens sem que nenhuma das duas seja falsa. Uma abriria uma porta; a outra a fecharia. É o ponto central do versículo, e ele não depende de nenhuma opinião sobre José: depende apenas de reconhecer que a verdade admite formulações, e que as formulações têm efeitos diferentes.
O texto explica e não julga, e isso é uma decisão
O Gênesis dá a instrução, o objetivo e o motivo, e não acrescenta nem elogio nem censura. Num livro que sabe condenar em uma linha quando quer, o silêncio aqui merece ser respeitado. Quem lê tem o direito de formar juízo; o que não se pode é atribuir esse juízo ao texto.
A rejeição foi o que preservou
Se pastores fossem bem-vindos, a família seria instalada em qualquer lugar e se dissolveria na população. Porque eram repelidos, receberam um distrito só para eles, na borda do país, com os rebanhos e a vida próprios. O afastamento que os humilhava é o mesmo que os manteve inteiros — e é desse distrito que sairá um povo.
Quem conhece o lugar deve dizer o que ele custa
José não se limitou a dar a frase: disse para que servia e explicou o que a outra palavra provocaria. A família entrou naquela audiência sabendo tudo o que ele sabia. Se a instrução é discutível, ao menos não foi dada às escuras.
Uma afirmação sobre um povo merece exame, não repetição
"Todo pastor de ovelhas é abominação para os egípcios" é dito pela Bíblia sobre os egípcios, e não pelos egípcios sobre si mesmos. A explicação mais repetida em púlpito — a dos hicsos — repousa numa tradução equivocada de um nome. Verificar antes de repetir é parte do trabalho de ler bem, e o item 2 mostra o que sobra depois da verificação.
Deus não é consultado, e o texto não estranha
Poucos capítulos antes, José atribuiu tudo o que lhe aconteceu a Deus. Aqui ele resolve um problema prático com o que sabe do país onde vive, sem oração e sem oráculo. O Gênesis põe as duas coisas na mesma biografia sem apontar contradição.
O silêncio dos irmãos também ensina
Quatro versículos de instrução, nenhuma palavra do outro lado. Quem depende inteiramente de alguém raramente discute o que esse alguém propõe — e esse é um dado sobre a situação deles, não sobre o caráter deles.
6. Aspectos Filosóficos
A pergunta que este versículo põe não é "José mentiu?". Essa se responde em uma linha, e a resposta é não. A pergunta difícil é outra: quando alguém escolhe uma verdade em vez de outra para obter um resultado, isso é uma falta? E, se for, de que tamanho, comparada a quê?
Há uma filósofa que fez dessa segunda pergunta o assunto de um livro inteiro, e a resposta dela é incômoda para os dois lados.
Judith Shklar e a ordem dos vícios
Judith Shklar (1928-1992) nasceu em Riga, na Letônia, numa família judia que fugiu dos nazistas atravessando a Europa e a Ásia. Foi parar nos Estados Unidos e tornou-se professora de teoria política em Harvard. Em 1984 publicou Ordinary Vices ("Vícios Comuns"), que examina cinco defeitos que ninguém trata como crime e todos praticam: a crueldade, a hipocrisia, o esnobismo, a traição e a misantropia.
O procedimento do livro é o que interessa aqui, e ele começa com uma experiência mental simples.
Toda tradição moral tem uma lista de faltas, e toda lista tem uma ordem. Nas listas cristãs clássicas, o primeiro lugar costuma caber ao orgulho; em outras, à impiedade, à desobediência, à falta de fé. Shklar toma uma sugestão de Montaigne e pergunta: e se a crueldade viesse em primeiro lugar?
A consequência não é acrescentar um item ao topo da lista. É que a lista inteira se reorganiza. Se o pior que se pode fazer a alguém é machucá-lo, então todos os outros defeitos passam a ser medidos pelo dano que causam — e vários deles, que ocupavam lugar de honra na condenação, encolhem consideravelmente.
A hipocrisia, e por que ela é tão odiada
É no capítulo sobre a hipocrisia que Shklar chega ao ponto útil a este versículo.
Ela observa que as sociedades que mais valorizam a sinceridade são também as que tratam a hipocrisia como o vício mais repugnante de todos — pior do que a crueldade, às vezes. O hipócrita é detestado não pelo estrago que faz, mas por uma espécie de traição ao grupo: ele finge ser dos nossos.
Shklar não defende a hipocrisia. O argumento dela é sobre o custo de pô-la em primeiro lugar. Quando desmascarar se torna a principal atividade moral, todo mundo passa a acusar todo mundo de insinceridade, ninguém sai limpo, e o resultado não é uma sociedade mais honesta: é uma sociedade em que a suspeita substituiu o julgamento. Ela chama isso, com todas as letras, de caminho para a misantropia — o desprezo pelos seres humanos em geral, que é o último dos vícios que examina e o mais estéril.
Sobre a mentira, o raciocínio é do mesmo tipo. O que importa, para ela, não é a categoria formal do ato, e sim o que ele faz com a pessoa a quem é dirigido: se a domina, se a humilha, se a priva de escolher com informação. Uma mentira que faz isso é grave, e ela é dura com ela. Uma formulação escolhida que não tira nada de ninguém está num patamar completamente diferente — e tratar as duas com a mesma severidade não é rigor, é confusão.
Aplicado ao versículo
Com esse instrumento na mão, olhe outra vez para o que está em jogo.
Nada de falso será dito. O rei ouvirá, do próprio José, a palavra que os irmãos não vão usar. Ninguém é privado de informação a que tivesse direito. Ninguém é enganado sobre coisa alguma que fosse decidir de outro modo se soubesse.
E do outro lado da balança está o seguinte: setenta pessoas recém-chegadas a um país estrangeiro, com cinco anos de fome pela frente, cujo destino depende da resposta a uma pergunta.
Numa ordem que ponha o dano em primeiro lugar, essa conta não é difícil. O que a escolha de palavra evita é concreto e grave; o que ela custa é a renúncia a uma das duas maneiras de se apresentar.
E — este é o ponto de Shklar levado até o fim — quem insiste em pôr a sinceridade acima de tudo precisa responder pelo que essa ordem produz. Ela produziria, aqui, uma família instalada em qualquer lugar menos onde precisava estar, para que ninguém pudesse acusá-la de ter escolhido as próprias palavras.
Onde o argumento tem de parar
Três limites, e nenhum deles é decorativo.
O primeiro: pôr a crueldade em primeiro lugar é uma escolha, não uma demonstração. Shklar sabe disso e diz. Quem organiza a lista moral de outro modo — pondo em primeiro lugar o dever de dizer o que se é — chegará a outro veredito sobre este versículo, e não estará raciocinando mal. O que não se pode é fingir que a ordem da lista é natural: ela é decidida, e o resultado depende dela.
O segundo: há um custo real que a defesa não deve varrer para debaixo do tapete. Quem foi ensinado a se descrever de determinada maneira perdeu, naquele momento, a chance de dizer o que é. E quem paga esse preço não é José — são os irmãos, que vão pronunciar a frase. Ele conhece o país; eles é que ficam com a palavra na boca.
O terceiro: Shklar nunca escreveu sobre esta passagem, e o Gênesis não tem teoria moral nenhuma sobre o assunto. Ele expõe o mecanismo e cala. O uso do livro dela aqui é leitura do comentarista, e serve para uma coisa só: mostrar que o silêncio do texto não é falta de posição, e pode ser a posição mais exigente das disponíveis — a de quem descreve o que aconteceu e recusa o veredito rápido que o leitor gostaria de receber pronto.
7. Aplicações Práticas
Escolher entre verdades é a situação normal, não a exceção
Quase nunca se decide entre mentir e dizer a verdade. Decide-se, quase sempre, entre duas maneiras verdadeiras de dizer a mesma coisa — num currículo, numa entrevista, num pedido de crédito, numa conversa com um médico, numa reunião em que se explica um atraso.
Este versículo mostra a operação inteira, com o objetivo declarado e o motivo por escrito. Serve de espelho útil: quem se examina honestamente vai reconhecer que faz isso com frequência, e que raramente pensa a respeito.
O que ele não oferece é uma autorização geral. Reconhecer que a escolha existe é diferente de concluir que qualquer escolha vale.
Três perguntas antes de escolher a formulação
O versículo, lido com atenção, sugere um critério prático, e ele é mais exigente do que parece.
É verdade? Aqui era. Eles eram donos de rebanho, e por três gerações. Sem esse primeiro passo, não há discussão a ter.
Alguém fica sem informação a que tinha direito? Aqui não. O rei ouviria a outra palavra do próprio José, e já sabia da fome que trouxera aquela gente.
Você diria em voz alta, na frente dos interessados, o que pretende obter com a escolha? Aqui foi dito: "para que possam habitar na terra de Gósen". É o teste mais duro dos três, e o que mais separa a escolha legítima da manobra — porque a manobra não sobrevive a ser anunciada.
Cuidado com a instrução dada a quem não pode recusar
Este é o lado incômodo da aplicação, e ele merece ficar.
Quem pronuncia a frase não é quem a formulou. Os irmãos dependem inteiramente de José, chegaram sem nada e não estão em posição de discutir. Não há nada no texto que os mostre concordando; há o silêncio deles.
Qualquer pessoa que ocupe posição semelhante — chefe, patrono, quem sustenta a casa, quem tem a informação — precisa reconhecer que "combinar" com quem depende de você não é combinar. É instruir. Não torna a instrução errada; torna a responsabilidade inteira de quem instrui.
Verifique antes de repetir uma explicação famosa
A ideia de que os egípcios odiavam pastores por causa dos "reis pastores" hicsos é repetida em púlpitos e comentários há séculos, e depende de uma etimologia falsa, como mostra o item 2.
A aplicação é simples e vale muito além da Bíblia: explicações que circulam muito e são fáceis de contar têm uma probabilidade alta de nunca terem sido conferidas. Antes de repassar, procurar de onde a coisa veio é trabalho de meia hora e evita repetir erro alheio por décadas.
O lugar em que você não é bem-visto pode ser o lugar que preserva quem você é
Gósen foi dada àquela família porque o ofício dela desagradava. O afastamento foi imposto por rejeição e funcionou como proteção: rebanhos próprios, distrito próprio, vida própria, longe de ser absorvido.
É uma leitura possível para situações de exclusão, e ela precisa ser usada com cuidado — não é consolo automático, e o Gênesis não a apresenta como lição. O que se pode observar é o fato: a separação que humilhava foi a mesma que manteve aquele grupo inteiro.
Um limite claro
Este versículo não autoriza esconder o que se é por vergonha. A família de Jacó não negou o ofício, não mudou de vida, não largou os rebanhos e não escondeu de onde vinha — apresentou-se por outro nome da mesma atividade, para conseguir o lugar onde continuaria a exercê-la. A diferença entre isso e negar a própria origem é grande, e o texto não dá cobertura à segunda.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
José mandou os irmãos mentirem?
Não. As duas expressões são verdadeiras: aqueles homens tocavam rebanho e eram donos do rebanho que tocavam. O que ele fez foi retirar da resposta uma palavra verdadeira e deixar outra. Isso não é mentira, e também não é a mesma coisa que dizer tudo — e é justamente por não caber em nenhuma das duas categorias que o versículo é difícil.
Então por que o problema, se ninguém mentiu?
Porque a escolha teve finalidade e teve efeito. Uma das palavras conseguiria Gósen; a outra poderia impedir. Reconhecer que não houve mentira responde a primeira pergunta e não responde a segunda, que é sobre o peso moral de selecionar entre verdades. O item 6 trata dela.
Se pastor era abominação, por que José usa a palavra diante do rei no versículo 32?
Esse é o dado que mais complica as leituras simples, e ele é do texto. José diz ao faraó "esses homens são pastores de ovelhas". A palavra evitada na boca dos irmãos está na boca dele.
Duas leituras são possíveis. Uma: José é franco com o rei e cuida apenas de como a família se apresenta a si mesma, que é coisa diferente de um relatório funcional. Outra: um relatório de funcionário e uma resposta em audiência têm pesos diferentes, e o que fica registrado é o que sai da boca do interessado. Não é possível decidir — e qualquer explicação que ignore o versículo 32 está incompleta.
É verdade que os egípcios detestavam pastores por causa dos hicsos?
É a explicação mais repetida e a mais frágil. Ela vem de Manetão, citado por Josefo, que traduziu "hicsos" por "reis pastores". A tradução está errada: o termo egípcio significa "governantes de terras estrangeiras". Além disso, os hicsos não eram pastores, e sim uma dinastia urbana instalada em Avaris. O item 2 detalha os quatro problemas dessa hipótese.
Existe algum documento egípcio que confirme a frase do versículo?
Não. Nenhum texto egípcio conhecido diz que pastores são abominação. Existe material abundante em volta — desprezo oficial pelos povos de fora, hierarquia ensinada entre os ofícios, imagem depreciativa do vaqueiro, tabus locais ligados a animais —, e nada que afirme a coisa diretamente. A afirmação é hebraica sobre o Egito, e permanece sem confirmação externa.
Por que a família não foi simplesmente instalada por ordem do rei, já que ele havia prometido o melhor da terra?
Porque promessa e decisão administrativa não são a mesma coisa, e porque o "melhor da terra" precisa ser convertido num lugar concreto. Gósen é bom para criadores de rebanho e não seria o melhor para outra coisa. A resposta dada na audiência é o que traduz a boa vontade do rei numa localização — e é por isso que a categoria declarada importa tanto.
O texto aprova o que José fez?
Não aprova e não reprova. Dá a instrução, o objetivo e o motivo, e termina o capítulo. É importante não emprestar ao Gênesis um veredito que ele não pronuncia — nem o de absolvição, nem o de condenação. Ele é capaz de julgar quando quer, e aqui não julgou.
Os irmãos concordaram?
O texto não diz. Não há resposta, nem pergunta, nem objeção registrada. O que se pode observar é a posição em que eles estavam: recém-chegados, sem nada, dependentes por completo de quem lhes falava. O silêncio deles admite mais de uma explicação e não permite decidir entre elas.
9. Conexão com Outros Textos
A outra abominação egípcia do mesmo ciclo
Gênesis 43:32 — “E puseram-lhe a ele à parte, e a eles à parte, e aos egípcios, que comiam com ele, à parte; porque os egípcios não podem comer pão com os hebreus, porquanto é abominação para os egípcios.”
A mesma palavra e a mesma construção, com outro objeto: ali é a mesa, aqui é o ofício. São dois assuntos distintos, e o primeiro foi examinado no estudo daquele versículo.
A terceira, já no Êxodo
Êxodo 8:26 — “Mas Moisés disse: ‘Não é certo fazer assim, porque o que sacrificamos ao SENHOR, o nosso Deus, é abominação para os egípcios. Se sacrificarmos diante dos olhos deles o que lhes é abominação, não nos apedrejarão?’”
A terceira e última vez em que a Bíblia diz que alguma coisa é abominação para os egípcios. Junto com as duas do Gênesis, é todo o material bíblico sobre o assunto.
O ofício da família, três gerações antes
Gênesis 13:7 — “E houve contenda entre os pastores do gado de Abrão e os pastores do gado de Ló.”
Gênesis 30:31 — “E ele disse: Que te darei? Então disse Jacó: Nada me darás; tornarei a apascentar e a guardar o teu rebanho, se me fizeres isto.”
Quando os irmãos dizem que são criadores desde a juventude, tanto eles como os pais, estão dizendo uma coisa que o livro documenta desde Abraão.
A promessa do lugar, semanas antes
Gênesis 45:10 — “Você habitará na terra de Gósen e estará perto de mim, você, seus filhos e os filhos de seus filhos, seus rebanhos, seu gado e tudo o que possui.”
O objetivo declarado neste versículo já estava dito no recado que trouxe a família para o Egito.
A boa vontade do rei, também anterior
Gênesis 45:18 — “Tomem o seu pai e as suas famílias e venham a mim, que eu lhes darei o melhor da terra do Egito, e vocês comerão da fartura da terra.”
O que a resposta ensaiada faz não é vencer uma resistência: é converter uma promessa geral num lugar determinado.
Onde esse distrito reaparece
Êxodo 8:22 — “Naquele dia porei à parte a terra de Gósen, onde o meu povo está, para que ali não haja enxames.”
Séculos depois, o povo ainda está lá, e o lugar ainda é chamado pelo mesmo nome. A separação que este versículo produz atravessa a escravidão inteira.
Um caso em que o livro julga, para efeito de comparação
Gênesis 38:7 — “Er, porém, o primogênito de Judá, era mau aos olhos do SENHOR, pelo que o SENHOR o matou.”
O Gênesis condena quando quer condenar, e o faz em uma linha. Sobre a instrução deste versículo, escreve o motivo e nada mais.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
respondam: ‘Os seus servos foram criadores de gado desde a juventude até agora, tanto nós como os nossos pais’ — para que possam habitar na terra de Gósen, porque todo pastor de ovelhas é abominação para os egípcios.”
Texto hebraico
וַאֲמַרְתֶּם אַנְשֵׁי מִקְנֶה הָיוּ עֲבָדֶיךָ מִנְּעוּרֵינוּ וְעַד־עַתָּה גַּם־אֲנַחְנוּ גַּם־אֲבֹתֵינוּ בַּעֲבוּר תֵּשְׁבוּ בְּאֶרֶץ גֹּשֶׁן כִּי־תוֹעֲבַת מִצְרַיִם כָּל־רֹעֵה צֹאן
Transliteração
va'amartem anshei miqneh hayu avadeicha mine'ureinu ve'ad-attah gam-anachnu gam-avoteinu ba'avur teshvu be'eretz Goshen ki-to'avat Mitzrayim kol-ro'eh tson
Análise palavra por palavra
וַאֲמַרְתֶּם — va'amartem. “E vocês dirão.”
É o verbo que completa a frase começada no versículo anterior. A construção hebraica que abriu ali — "e acontecerá que, quando o faraó chamar…" — exigia esta continuação, e é aqui que ela chega.
A forma tem valor de instrução: não é uma previsão do que eles dirão, é o que devem dizer. As traduções acertam ao verter por um imperativo, "respondam", "direis".
O que vem a seguir são as palavras exatas. O hebraico não tem aspas, mas a construção é inequívoca: José entrega uma fala pronta.
אַנְשֵׁי מִקְנֶה — anshei miqneh. “Homens de rebanho-propriedade.”
É a expressão decisiva do versículo, e ela já apareceu no versículo 32, onde foi analisada.
O que importa aqui é o que veio junto lá e não veio aqui. No versículo 32, José disse ao faraó "pastores de ovelhas, pois são homens de rebanho-propriedade" — as duas expressões, uma explicando a outra. Na resposta que ele agora dita, resta uma só.
Convém ter as duas diante dos olhos:
ro'eh tson — "aquele que apascenta o rebanho miúdo". Palavra de ofício. Diz o que a pessoa faz.
ish miqneh — "homem de bens em rebanho", da raiz qanah, adquirir. Palavra de posse. Diz o que a pessoa tem.
As duas descrevem os mesmos homens sem que nenhuma seja falsa. A que ficou fora é a que a última oração do versículo declara abominável no Egito; a que ficou é a que não tem esse problema.
Este é o mecanismo inteiro do versículo, e ele é uma questão de vocabulário. Em português a diferença quase desaparece, porque "pastor de ovelhas" e "criador de gado" soam como variações da mesma coisa. Em hebraico, uma vem do verbo de pastorear e a outra do verbo de comprar.
הָיוּ עֲבָדֶיךָ — hayu avadeicha. “Foram os teus servos.”
Avadeicha é "os teus servos", a fórmula de tratamento com que se falava a um superior — a pessoa se designa em terceira pessoa, como servo daquele a quem se dirige. O funcionamento dessa etiqueta foi tratado nos estudos de Gênesis 32:18 e 43:20.
O verbo está no passado e sem complemento de tempo próprio; o tempo vem da expressão seguinte, e o conjunto exprime uma condição antiga que continua.
מִנְּעוּרֵינוּ וְעַד־עַתָּה — mine'ureinu ve'ad-attah. “Desde a nossa juventude e até agora.”
Ne'urim designa o tempo da mocidade, os anos de formação — a palavra é sempre plural, como se o período fosse contado em anos e não tomado como um ponto. A expressão inteira delimita um trecho de vida: do começo até este momento.
E aqui aparece o detalhe gramatical mais curioso do versículo.
A frase começa em terceira pessoa — "os teus servos foram" — e, na palavra seguinte, escorrega para a primeira: "desde a nossa juventude". Depois continua na primeira: "tanto nós como os nossos pais".
Ou seja: a fórmula de deferência se desfaz no meio da própria sentença. Quem falava de si como "teus servos" passa a dizer "nós" sem transição.
Isso não é erro nem descuido. O hebraico faz esse tipo de mistura com frequência quando a fórmula de cortesia é longa demais para se sustentar; o falante começa protocolar e termina falando como pessoa. As traduções em português tentam disfarçar — algumas escrevem "desde a nossa mocidade" mantendo "teus servos", que é o que o hebraico faz e soa estranho; outras uniformizam tudo em uma pessoa só.
Vale registrar sem tirar conclusão maior do que cabe: a frase ensaiada mistura os registros, e é assim que fala gente de verdade.
גַּם־אֲנַחְנוּ גַּם־אֲבֹתֵינוּ — gam-anachnu gam-avoteinu. “Tanto nós como os nossos pais.”
A partícula gam repetida forma o par "tanto… como", que soma os dois termos em vez de escolher entre eles.
É o argumento da continuidade, dito na forma mais econômica possível: não somos só nós, é a casa inteira, há gerações. Numa cultura em que a identidade se herda, é a credencial mais forte que se pode apresentar.
בַּעֲבוּר תֵּשְׁבוּ — ba'avur teshvu. “Para que vocês habitem.”
Ba'avur é a preposição de finalidade: "por causa de", "a fim de que". Ela marca que o que vem antes serve ao que vem depois — a resposta existe para este resultado.
É uma palavra pequena e é ela que torna o versículo o que ele é. Sem ela, haveria uma frase a ser dita ao rei. Com ela, há uma frase a ser dita ao rei com um objetivo declarado, e o objetivo é anunciado às pessoas que vão dizê-la.
Teshvu vem de yashav, sentar-se, e daí habitar, morar, estabelecer-se. É o verbo do assentamento, não o da hospedagem: diz permanência.
כִּי־תוֹעֲבַת מִצְרַיִם — ki-to'avat Mitzrayim. “Porque abominação do Egito.”
Ki, aqui, é claramente causal: introduz a razão de tudo o que foi instruído.
To'evah é uma das palavras mais fortes do vocabulário moral do Antigo Testamento. Não significa "coisa de que não se gosta". Designa o que é detestável a ponto de dever ser mantido fora — aquilo que uma comunidade não admite no seu espaço, com peso religioso e não apenas de gosto. É a palavra usada nas listas de práticas proibidas a Israel e, no livro dos Provérbios, para o que o SENHOR detesta.
O Egito tinha um termo próprio equivalente, com a mesma função de marcar o que não se toca, e ele foi examinado no estudo de Gênesis 43:32.
Mitzrayim é o nome hebraico do Egito, de forma curiosa: tem a terminação que em hebraico marca o par, e há muito se discute se isso ecoa a divisão do país em Alto e Baixo Egito — leitura antiga, atraente e não demonstrável.
A construção é de duas palavras encaixadas — "abominação de Egito" —, e o hebraico não distingue aqui o país do povo. Traduzir por "para os egípcios" é escolha de interpretação, e é a mais razoável; o original mantém a indeterminação.
כָּל־רֹעֵה צֹאן — kol-ro'eh tson. “Todo pastor de rebanho miúdo.”
Kol é "todo", "cada um", sem exceção. A frase não diz "os pastores estrangeiros" nem "certos pastores": diz todos.
E fecha com a expressão que a resposta ensaiada deixou de fora — a palavra do ofício, a mesma que José usará no relatório dele ao rei. O capítulo termina exatamente nela.
É uma disposição notável, e vale registrá-la como observação de forma: a última palavra do capítulo 46 do Gênesis é a palavra que os irmãos foram instruídos a não dizer.
11. Conclusão
Quatro conclusões saem deste versículo, e a ordem entre elas importa.
A primeira: o que está em jogo é uma palavra, e a palavra é verdadeira. Os dois termos hebraicos descrevem os mesmos homens; um vem do verbo de pastorear e o outro do verbo de adquirir. José retira da resposta o primeiro e mantém o segundo. Nada de falso será dito ao rei, e o rei ouvirá do próprio José o termo evitado. Quem trata a cena como um caso de mentira está descrevendo mal o que aconteceu.
A segunda: o Gênesis explica tudo e não julga nada. Dá a fala, dá o objetivo — "para que possam habitar na terra de Gósen" — e dá o motivo, na última oração do capítulo. Depois cala. Num livro que condena em uma linha quando quer condenar, esse silêncio não é lacuna: é a recusa de entregar ao leitor um veredito pronto. As duas moralizações disponíveis, a que absolve e a que acusa, dizem mais do que o texto autoriza.
A terceira: a afirmação sobre os egípcios é do lado hebraico e não tem confirmação do lado egípcio. Nenhum documento do Egito diz que pastores são abominação. A explicação mais repetida, a dos hicsos, apoia-se numa tradução errada de um nome e desfaz-se sob exame. Sobram hipóteses — o desprezo pelo modo de vida nômade é a mais forte —, e nenhuma delas decide a questão. É honesto dizer que não se sabe.
A quarta: a rejeição foi o mecanismo da preservação. Aquela família recebeu um distrito próprio, na borda do país, porque o ofício dela desagradava. O afastamento imposto por repulsa é o que a manteve com os rebanhos, com a língua e com a identidade, longe de se dissolver no Egito. É desse distrito que sai um povo, e o Êxodo ainda o encontrará com o mesmo nome.
O que não se decide fica registrado como tal: por que José usa diante do rei a palavra que retira da boca dos irmãos; o que os irmãos pensaram, já que não dizem nada; e se a frase sobre os egípcios descreve a época da cena ou a época de quem a escreveu. O capítulo termina aí — com a instrução dada, o motivo dito e ninguém respondendo.













