Houve briga entre os pastores do gado de Abrão e os pastores do gado de Ló. Os cananeus e os ferezeus habitavam então na terra.
1. Introdução
O problema estrutural do versículo anterior aparece agora na prática, e aparece embaixo: são os pastores que brigam, não os donos.
É assim que conflitos por recurso costumam se manifestar. Quem está no campo disputando o poço e a pastagem sente o aperto primeiro; os responsáveis tomam conhecimento depois. O texto registra a briga antes de qualquer conversa entre Abrão e Ló.
E então o narrador acrescenta uma frase que parece deslocada e não é: "os cananeus e os ferezeus habitavam então na terra". A observação cumpre duas funções ao mesmo tempo. Primeiro, informa que o espaço disponível era ainda menor do que o leitor poderia supor — a terra não estava vazia, e os dois grupos disputavam o que sobrava. Segundo, lembra que a terra prometida tinha donos.
Há ainda o mesmo "então" que aparecera em 12:6, com a mesma implicação sobre o ponto de vista de quem escreve — e desta vez com um segundo povo na lista.
2. Contexto Histórico e Cultural
A briga dos pastores
O substantivo hebraico traduzido por "briga" é riv, termo que designa disputa, contenda, litígio. Não é a palavra para guerra nem para pancadaria genérica: tem conotação de conflito com objeto definido, e aparece em contextos jurídicos ao longo da Bíblia, inclusive para processos e causas.
O objeto da disputa não é dito, mas é dedutível do versículo anterior: pastagem e água. Poços eram bens críticos e fonte recorrente de conflito nas narrativas patriarcais — Gênesis 21 e 26 registram disputas por poços envolvendo Abraão e Isaque.
Quem sente primeiro
A briga é entre empregados. Abrão e Ló não aparecem nela, e só falarão no versículo seguinte.
Isso corresponde ao funcionamento real do problema: os pastores estavam no campo, com os animais, competindo pelo mesmo recurso diariamente. A escassez de pasto se manifesta como atrito entre quem executa muito antes de virar assunto entre quem decide.
Cananeus e ferezeus
Os cananeus já haviam sido mencionados em 12:6. Os ferezeus aparecem aqui pela primeira vez, e a identificação deles é discutida.
O nome, perizzi, tem parentesco provável com a palavra hebraica perazi, que designa quem habita em povoados sem muralha, em campo aberto. Isso levou parte dos estudiosos a propor que o termo não designasse um grupo étnico, e sim uma categoria de população — os moradores rurais, em oposição aos habitantes das cidades fortificadas.
A hipótese é razoável e não é consensual. Os ferezeus aparecem em várias listas de povos de Canaã, tratados como grupo ao lado de outros, o que favorece a leitura étnica. Não é possível decidir com segurança, e vale conhecer as duas leituras.
Se a leitura de "moradores do campo" estiver correta, a observação do versículo ganha precisão adicional: seriam justamente eles a ocupar as áreas de pastagem disputadas.
"Habitavam então na terra"
A construção é a mesma de 12:6, com o advérbio az, "então". As duas leituras discutidas naquele estudo permanecem: pode indicar simples contemporaneidade — já naquela época a terra era ocupada — ou marcar contraste com o tempo de quem escreve, implicando que depois já não estavam.
A repetição da fórmula em dois pontos do relato reforça que se trata de um procedimento do narrador, e não de acaso. E ela cumpre aqui uma função narrativa clara, além da temporal: explicar por que o espaço era tão apertado. Não eram dois grupos numa terra vazia — eram dois grupos disputando o que a população local deixava livre.
3. Análise Teológica do Versículo
“E houve contenda entre os pastores do gado de Abrão e os pastores do gado de Ló”
O termo hebraico designa disputa com objeto definido, empregado na Bíblia inclusive em contextos jurídicos. O conflito se manifesta entre os empregados, responsáveis pela condução diária dos rebanhos, e não entre os proprietários, que se manifestarão no versículo seguinte.
O objeto da disputa
Não é declarado, mas decorre do versículo anterior: pastagem e água. Poços constituíam bens críticos no modo de vida pastoril, e disputas por eles são registradas também em Gênesis 21 e 26, envolvendo Abraão e Isaque.
“e os cananeus e os ferezeus habitavam então na terra”
Os cananeus já haviam sido mencionados em 12:6. O nome dos ferezeus tem parentesco provável com o termo hebraico que designa habitantes de povoados sem muralha, o que levou parte dos estudiosos a propor que indicasse categoria de população, e não grupo étnico. A questão não está encerrada.
A função da observação
A presença dos povos locais reduz o espaço disponível e explica a estreiteza que gerou o conflito. A construção com o advérbio “então” repete a de 12:6 e admite as mesmas duas leituras quanto ao ponto de vista temporal do narrador.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
1. Os pastores de Abrão
Responsáveis pela condução dos rebanhos e primeira parte no conflito.
2. Os pastores de Ló
Segunda parte no conflito, na disputa por pastagem e água.
3. Os cananeus
População da terra, já mencionada em Gênesis 12:6.
4. Os ferezeus
Mencionados aqui pela primeira vez. O nome pode indicar habitantes de povoados sem muralha, e a identificação como grupo étnico é discutida.
5. Abrão e Ló
Proprietários dos rebanhos. Não participam da contenda e se manifestarão no versículo seguinte.
5. Pontos de Ensino
O conflito se manifesta primeiro entre os subordinados
São os pastores que disputam diariamente o recurso escasso.
A disputa tem objeto definido
O termo empregado designa contenda por causa determinada, e não hostilidade genérica.
O espaço disponível era menor do que parece
A terra estava ocupada por outros povos, o que reduzia as áreas livres.
A terra prometida tinha habitantes
A observação repete o dado já registrado em Gênesis 12:6.
Identificações históricas nem sempre são seguras
A natureza do grupo designado como ferezeus permanece discutida.
6. Aspectos Filosóficos
O conflito começa embaixo
A ordem dos acontecimentos é reveladora: o problema existe desde o versículo 6, mas só se torna visível quando os pastores brigam. Os responsáveis reagem depois.
É o padrão habitual. Quem opera no nível do recurso escasso enfrenta a escassez todos os dias; quem decide toma conhecimento quando o atrito chega a um ponto que não pode mais ser ignorado. Entre o surgimento do problema e a percepção dele há um intervalo, e esse intervalo é sempre pago por quem está embaixo.
Vale notar que Abrão age assim que sabe. O versículo seguinte mostra a iniciativa dele, sem demora e sem tentativa de administrar o atrito — o que é, dentro do problema, a resposta correta.
A disputa tem objeto
A palavra empregada designa contenda com causa definida, e não hostilidade difusa. Os pastores não brigavam por antipatia; brigavam por pasto e água.
A distinção importa porque muda a solução. Conflitos por objeto definido se resolvem quando o objeto é redistribuído; conflitos por antipatia não se resolvem assim. Abrão trata o caso corretamente ao propor divisão de território, e não reconciliação entre empregados.
A terra dos outros
A menção aos cananeus e ferezeus insere no episódio uma dimensão que o resto do capítulo não desenvolve: os dois homens estão disputando espaço numa terra que pertence a terceiros.
A situação tem uma ironia que o texto não comenta. Abrão dividirá com Ló, no versículo 9, um território sobre o qual nenhum dos dois tem posse — e que lhe fora prometido, mas não entregue. Ele oferece generosamente o que não é dele.
Registrar isso não desqualifica o gesto de Abrão, que é real dentro das circunstâncias. Apenas situa o gesto: o que está sendo repartido é o acesso a pastagens numa região ocupada por outros povos.
Camadas de escrita, outra vez
O "então" reaparece, e com ele a questão do ponto de vista do narrador. A repetição em 12:6 e aqui mostra que se trata de um traço do texto, e não de ocorrência isolada.
A postura útil continua sendo a mesma: reconhecer que existem no Pentateuco observações que pressupõem um narrador posterior aos fatos, que isso é esperado num escrito transmitido por séculos, e que um advérbio não decide sozinho questões de autoria. O que ele faz é mostrar que o texto tem camadas — o que já era sabido, e que a tradição interpretativa notou muito antes da crítica moderna.
7. Aplicações Práticas
Repare quando o atrito aparece entre os subordinados
Os pastores brigam antes de os donos conversarem. Quem opera no recurso escasso sente primeiro, e paga o intervalo até alguém decidir.
Identifique o objeto da disputa
Contenda com causa definida se resolve redistribuindo a causa. Tratá-la como antipatia produz reconciliações que não duram.
Aja assim que souber
Abrão não tenta administrar o atrito; propõe separação no versículo seguinte. Demora em problema estrutural só aumenta o custo.
Saiba o que é seu antes de repartir
A terra dividida entre os dois pertencia a outros povos. Vale a lembrança quando se está distribuindo o que ainda não se tem.
Note quem já ocupava o espaço
Não eram dois grupos numa terra vazia. O espaço disponível era o que a população local deixava livre.
Reconheça as camadas de um texto antigo
O "então" reaparece pela segunda vez e pressupõe um narrador posterior. É traço do documento, não defeito.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Por que a briga é entre os pastores, e não entre Abrão e Ló?
Porque são os pastores que enfrentam a escassez diariamente, conduzindo os animais e disputando poços e pastagem. O atrito entre quem executa antecede a percepção de quem decide — e Abrão agirá assim que souber, já no versículo seguinte.
2. Qual era o objeto da disputa?
O texto não declara, mas decorre do versículo anterior: pastagem e água. Poços eram bens críticos, e disputas por eles aparecem também em Gênesis 21 e 26, envolvendo Abraão e Isaque.
3. Quem eram os ferezeus?
A identificação é discutida. O nome tem parentesco provável com o termo hebraico que designa quem habita em povoado sem muralha, o que sustenta a hipótese de categoria de população rural em vez de grupo étnico. Contra isso pesa a presença deles em várias listas de povos de Canaã. A questão permanece em aberto.
4. Por que o texto menciona os povos locais aqui?
Porque explicam a estreiteza do espaço. Não se tratava de dois grupos numa terra vazia: disputavam o que a população local deixava livre. A observação também recorda que a terra prometida era habitada.
5. O "então" tem a mesma implicação de 12:6?
Sim, e a repetição mostra tratar-se de procedimento do narrador. O advérbio pode indicar apenas contemporaneidade com os fatos ou marcar contraste com o tempo de quem escreve, sugerindo um ponto de vista posterior. As duas leituras são gramaticalmente sustentáveis.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 12:6
E passou Abrão por aquela terra até ao lugar de Siquém, até ao carvalho de Moré; e estavam então os cananeus na terra.
A mesma construção com o advérbio "então", que aqui reaparece com um segundo povo acrescentado.
Gênesis 26:20
E os pastores de Gerar porfiaram com os pastores de Isaque, dizendo: Esta água é nossa. Por isso chamou o nome daquele poço Eseque, porque contenderam com ele.
O mesmo tipo de conflito na geração seguinte, com o objeto da disputa explicitado: a água.
Gênesis 21:25
Abraão, porém, repreendeu a Abimeleque por causa de um poço de água, que os servos de Abimeleque haviam tomado por força.
Outra disputa por poço, confirmando que se tratava de fonte recorrente de conflito no modo de vida pastoril.
Deuteronômio 7:1
Quando o SENHOR teu Deus te tiver introduzido na terra... e tiver lançado fora muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus.
Os ferezeus aparecem em listas de povos de Canaã, o que sustenta a leitura étnica do termo contra a hipótese de categoria de população.
Gênesis 13:8
E disse Abrão a Ló: Ora não haja contenda entre mim e ti, e entre os meus pastores e os teus pastores, porque irmãos varões somos.
A resposta de Abrão retoma o mesmo substantivo empregado aqui para a contenda.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português — ABC
Houve briga entre os pastores do gado de Abrão e os pastores do gado de Ló. Os cananeus e os ferezeus habitavam então na terra.
Texto hebraico
וַיְהִי־רִיב בֵּין רֹעֵי מִקְנֵה־אַבְרָם וּבֵין רֹעֵי מִקְנֵה־לוֹט וְהַכְּנַעֲנִי וְהַפְּרִזִּי אָז יֹשֵׁב בָּאָרֶץ׃
Transliteração
wayhi-riv bein roʿei miqneh-Avram u-vein roʿei miqneh-Lot; we-ha-Kenaʿani we-ha-Perizzi az yoshev ba-arets.
Análise palavra por palavra
רִיב — riv, "contenda"
Substantivo que designa disputa, litígio, causa. O termo tem uso jurídico frequente na Bíblia: aparece para processos, para a contenda de Deus com o seu povo nos profetas, e para causas levadas a julgamento. Indica conflito com objeto definido, e não hostilidade difusa.
בֵּין … וּבֵין — bein … u-vein, "entre … e entre"
A construção repete a preposição antes de cada parte, forma hebraica normal para exprimir "entre A e B" — a mesma empregada em 13:3 para Betel e Ai.
רֹעֵי מִקְנֵה — roʿei miqneh, "pastores do gado"
Roʿeh é o particípio de raʿah, "apascentar" — o mesmo termo que se tornará imagem de liderança em toda a Bíblia, do Salmo 23 aos profetas. Miqneh é o gado como patrimônio, palavra da raiz "adquirir", já empregada em 13:2.
A construção completa é precisa: não são "os pastores de Abrão", e sim "os pastores do gado de Abrão". O texto localiza o conflito exatamente onde ele acontece — na gestão dos rebanhos.
וְהַכְּנַעֲנִי וְהַפְּרִזִּי — we-ha-Kenaʿani we-ha-Perizzi, "e o cananeu e o ferezeu"
Ambos no singular com artigo, uso coletivo normal para designar povos. Os cananeus já haviam sido mencionados em 12:6.
O nome Perizzi tem parentesco provável com perazi, que designa quem habita em povoado sem muralha, em campo aberto. Isso sustenta a hipótese de que o termo indicasse categoria de população — moradores rurais — e não grupo étnico. Contra ela pesa o fato de os ferezeus aparecerem em várias listas de povos de Canaã, tratados como grupo entre outros. A questão permanece em aberto.
אָז יֹשֵׁב בָּאָרֶץ — az yoshev ba-arets, "estava então habitando na terra"
Particípio de yashav, "habitar", com o advérbio az, "então" — mesma construção de 12:6. O advérbio pode indicar contemporaneidade com os fatos narrados ou marcar contraste com o tempo de quem escreve. As duas leituras são gramaticalmente sustentáveis, e a repetição da fórmula em dois pontos do relato mostra tratar-se de procedimento do narrador.
Nota sobre a estrutura
O versículo tem duas orações justapostas sem conjunção causal: a briga e a presença dos povos locais. A relação entre elas fica implícita — e a leitura mais natural é que a segunda explica a estreiteza do espaço disponível para a primeira.
Nota textual
Não há variantes relevantes.
11. Conclusão
Uma briga entre empregados e uma observação sobre quem já morava ali.
Quatro pontos ficam registrados. O primeiro é a palavra empregada para a briga: riv, termo de disputa com objeto definido, usado na Bíblia inclusive em contextos jurídicos — não é hostilidade difusa, é conflito por causa determinada, que o versículo anterior identificou como pastagem e água. O segundo é onde o conflito aparece: entre os pastores, e não entre os donos, que só falarão no versículo seguinte. O terceiro é a menção aos ferezeus, cujo nome tem parentesco provável com o termo hebraico para quem habita em povoado sem muralha, o que sustenta a hipótese de que designasse categoria de população e não grupo étnico — leitura razoável e não consensual. O quarto é o "então", que reaparece com a mesma construção de 12:6 e as mesmas duas leituras possíveis.
A segunda oração do versículo não é digressão. Ela explica a estreiteza do espaço: os dois grupos não disputavam uma terra vazia, e sim o que a população local deixava livre. E lembra, de passagem, que a terra prometida tinha donos.
Há aí uma ironia que o texto não comenta e que vale notar: no versículo 9, Abrão oferecerá generosamente a Ló a escolha de um território sobre o qual nenhum dos dois tem posse alguma. O gesto é real dentro das circunstâncias, e o que está sendo repartido é o acesso a pastagens numa região ocupada por outros povos.













