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Êxodo 5:5

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✍️ Por Alberto Adriano·13 de setembro de 2026·⏱️ 28 min de leitura·👁 28 acessos
E Faraó disse: “Vejam: o povo da terra já é numeroso, e vocês os fazem descansar das suas cargas.”
Rei egípcio sentado no trono gesticulando enquanto fala, e ao fundo, por uma abertura, homens carregando cestos num canteiro de obras.

Estudo


E Faraó disse: “Vejam: o povo da terra já é numeroso, e vocês os fazem descansar das suas cargas.”

1. Introdução

O rei fala uma segunda vez, e desta vez o que ele diz guarda uma das ironias mais fortes do Êxodo.

A frase tem duas metades. A primeira retoma, quase com as mesmas palavras, o argumento com que ele abriu o livro em Êxodo 1:9: aquela gente é numerosa. É a segunda vez que ele começa uma decisão apontando para o tamanho de uma população.

A segunda metade é o achado do versículo. O verbo que ele usa para acusar Moisés e Arão — "vocês os fazem descansar" — vem da raiz de shabat, a mesma do sábado.

Guarde o desenho: o livro que vai instituir o dia de descanso, e que ordenará esse descanso explicitamente para o servo e para a serva, começa com o rei do Egito acusando alguém de dar folga a trabalhadores. A acusação é feita antes de qualquer folga ter acontecido — ninguém parou de trabalhar até aqui.

O item 2 mostra como funcionava o descanso no Egito, e por que a ideia de um dia parado por direito não existia em lugar nenhum daquele mundo. O item 10 trata da palavra. E o item 3 examina a primeira metade da frase, que é ambígua: não é possível decidir com certeza se "o povo da terra" designa os israelitas ou os próprios egípcios.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como se organizava o tempo de trabalho no Egito

Para medir a acusação do rei é preciso saber o que era, e o que não era, um dia parado naquele país.

O calendário egípcio não tinha semana de sete dias. O mês tinha trinta dias, divididos em três períodos de dez, e é por essa unidade que os registros de trabalho contam o tempo. Não existia um dia fixo por semana em que todo mundo parava.

Na aldeia de operários que serviu às tumbas reais — a mais bem documentada do país, e cuja estrutura de equipes está descrita no estudo de Êxodo 1:11 — o ritmo era este: os homens trabalhavam oito dias e ficavam livres nos dois últimos de cada período de dez. Passavam a semana de trabalho no vale, dormindo em cabanas junto à obra, e desciam para a aldeia nos dias livres.

Some-se a isso as festas. O ano tinha dezenas de dias de festa oficial em que não se trabalhava, e as listas dos templos os registram com data. Havia ainda faltas individuais autorizadas, com o motivo anotado pelo escriba — material apresentado no estudo de Êxodo 3:18.

Mas nada disso era um direito

Aqui está o ponto que muda a leitura do versículo, e ele é o mais importante deste item.

Todo esse tempo parado tinha a mesma natureza: era concedido. Vinha do calendário do Estado, da decisão de um encarregado ou da tolerância de um escriba. Não havia, em documento egípcio nenhum, a ideia de um descanso que o trabalhador pudesse reclamar como devido.

A diferença é grande e se vê pelo avesso. Quando a ração atrasou e os operários pararam de trabalhar, no episódio registrado no papiro apresentado no estudo de Êxodo 4:1, o que eles reclamavam era comida, não folga. A parada era instrumento de pressão, e não exercício de um direito.

E não havia dia semanal de descanso em lugar nenhum

Convém dizer isso com cuidado, porque a afirmação é forte e é preciso marcar o que se sabe.

O que se pode afirmar: entre os povos vizinhos de Israel não se conhece instituição igual ao sábado — um dia fixo, recorrente, em que todos param, inclusive escravos e animais, e que não depende de autorização de ninguém.

O que é discutido: houve quem procurasse uma origem mesopotâmica para ele. Os calendários da Babilônia traziam dias marcados como desfavoráveis, em que o rei e alguns funcionários deviam evitar certas atividades, e havia um termo — shapattu — para o décimo quinto dia do mês lunar, o da lua cheia. A aproximação com o sábado hebraico foi proposta no século XIX e é hoje majoritariamente rejeitada, por três razões: aqueles dias eram poucos e ligados às fases da lua, não formavam ciclo de sete, valiam para pessoas específicas e não para a população, e nada neles se parece com descanso concedido a quem trabalha.

O que não se pode afirmar: que a Bíblia tenha inventado a ideia do zero, ou que ela não deva nada a nenhum antecedente. Não há consenso sobre a origem do sábado, e o assunto permanece em aberto.

O que isso faz com a frase do rei

Faz dela uma frase normal.

Do ponto de vista egípcio, dois estrangeiros estavam interferindo no funcionamento de uma força de trabalho: tirando gente do serviço sem autoridade para isso. Não há, na acusação, nada de monstruoso — ela é o que qualquer administrador daquele país diria.

O que é extraordinário não é a fala do rei. É o lugar dela. Ela está no livro que, quinze capítulos adiante, mandará parar um dia em cada sete e nomeará expressamente quem tem de descansar junto: o servo, a serva, o estrangeiro e até o animal. O item 3 trata dessa distância, e do que é possível concluir dela.

3. Análise Teológica do Versículo

"E Faraó disse"

O texto abre uma segunda fala com um verbo novo, sem que ninguém tenha respondido à primeira. Em hebraico isso é comum e costuma marcar uma pausa, uma virada de tom ou uma mudança de destinatário.

E o destinatário, aqui, não é informado. O versículo 4 se dirigia a Moisés e Arão, nomeados. Este traz um "vocês" no plural e nenhum vocativo. A leitura corrente é que ele continua falando com os dois, e ela é a mais simples — mas vale notar que o texto não o diz, e que na frase seguinte o rei já estará dando ordens aos seus próprios funcionários.

Repare também na mudança de título: o versículo 4 o chamava de "o rei do Egito", e aqui ele volta a ser "Faraó".

"Vejam"

Uma palavra só em hebraico, e é a mesma jogada com que ele abriu o livro.

Em Êxodo 1:9, a primeira fala dele começava exatamente assim, apontando para um fato demográfico como se fosse visível: "Vejam: o povo dos filhos de Israel é numeroso". O estudo daquele versículo trata do que esse chamamento faz — ele dá à frase seguinte o estatuto de evidência, dispensando a prova.

O que este versículo acrescenta é a repetição. É a segunda vez que o rei do Egito abre uma decisão mostrando uma multidão, e as duas vezes acabam em medida contra ela: na primeira, o trabalho forçado; nesta, a retirada da palha. O Êxodo não aponta o paralelo, e ele é verificável.

"o povo da terra já é numeroso"

Aqui o versículo fica ambíguo, e é preciso apresentar as duas leituras sem escolher.

Primeira leitura: o povo da terra são os israelitas. É a mais corrente, e ela dá à frase um sentido de escala — essa gente é muita, e você quer que todos parem? O argumento seria de custo: uma dispensa desse tamanho é impensável. A favor dela pesa o contexto imediato, já que a segunda metade do versículo fala de tirá-los das cargas, e as cargas são deles.

Segunda leitura: o povo da terra são os egípcios, ou a população do país em geral. A favor dela pesa o uso da expressão no resto da Bíblia. Ela designa, quase sempre, a população estabelecida de um lugar — os donos da terra, os que têm posse e voz. É assim que aparece em Gênesis 23, onde "o povo da terra" são os hititas de Hebrom diante de quem Abraão negocia, e é assim que ela funciona nos livros dos Reis, onde o povo da terra chega a depor e entronizar soberanos.

Aplicada a Israel no Egito, a expressão é estranha justamente por isso: aquela gente não tinha terra, não tinha posse e não tinha voz. Chamá-los de "povo da terra" seria usar, para uma população de trabalho, a palavra reservada a quem é dono do lugar.

Não é possível decidir, e as traduções antigas já hesitavam. O que se pode afirmar é que a frase é curta, elíptica e incompleta em hebraico — falta-lhe o verbo que ligaria as duas metades —, e que essa compressão é parte do problema.

Uma terceira observação, independente das duas leituras: o argumento do número volta, e ele é o mesmo de Êxodo 1:9-10. Naquele momento a multidão era vista como risco de guerra; aqui, como quantidade de trabalho. O medo virou cálculo, e o item 4 trata da diferença.

"e vocês os fazem descansar das suas cargas"

Esta é a frase do versículo, e vale ir devagar.

O verbo é o do sábado. A raiz é shabat, a mesma do substantivo que dá nome ao sétimo dia. Aqui ela aparece na forma que exprime causar alguma coisa: fazer parar, fazer descansar. O item 10 trata do alcance do verbo, que é maior do que a tradução deixa ver.

E daí sai o que este versículo tem de próprio, que é uma questão de ordem dentro do livro.

O Êxodo vai instituir o sábado. Fará isso em Êxodo 16, com o maná; depois em Êxodo 20:8-10, no mandamento; depois em Êxodo 23:12 e em Êxodo 31. E o mandamento de Êxodo 20:10 não é genérico: ele nomeia quem tem de parar junto — o filho, a filha, o servo, a serva, o animal e o estrangeiro que mora dentro das portas.

Ou seja: o mesmo livro que proibirá fazer o servo trabalhar no sétimo dia abre a sua confrontação com o Egito registrando um rei que acusa alguém de dar descanso a trabalhadores — e usando, para dizê-lo, a raiz da palavra que virará o nome do dia.

Três coisas precisam ser ditas sobre isso, e a terceira é uma ressalva.

Primeira: a observação é de texto, não de imaginação. A raiz é a mesma, a posição é a que se descreveu, e o mandamento nomeia o servo. Qualquer leitor pode conferir.

Segunda: a Bíblia mesma faz essa ligação, embora não aqui. Em Deuteronômio 5:14-15, o sábado é fundamentado exatamente no Egito: manda-se que o servo e a serva descansem "como você", e a razão dada é "lembre-se de que você foi servo na terra do Egito". Não é leitura de comentarista: é o texto bíblico ligando o dia de descanso à escravidão do Egito.

Terceira, e é o limite: o Êxodo não faz essa ligação neste capítulo. Não há, aqui, nenhuma piscadela para o leitor, nenhum comentário, nenhuma antecipação. Quem monta a ironia é quem lê o livro inteiro — e é honesto dizer que não se pode afirmar que ela tenha sido construída de propósito. A raiz é comum em hebraico, e o rei usa a palavra normal para o que quer dizer.

Fica então o que se pode afirmar, e é bastante: a primeira vez, na Bíblia, em que alguém é acusado de fazer outras pessoas descansarem, o acusador é o rei do Egito e o verbo é o do sábado.

A acusação é de novo anterior ao fato

Vale registrar, porque é a segunda vez seguida.

Ninguém descansou. O Êxodo não relatou nenhuma parada de trabalho, nenhum dia perdido, nenhuma folga. No versículo 4 o rei já havia afirmado que o povo tinha largado o serviço; aqui afirma que os dois o fazem descansar.

A forma verbal hebraica admite duas leituras, e as duas são defendidas. Pode descrever o que já teria acontecido — "vocês os fizeram descansar". Pode descrever a consequência do que está sendo pedido — "e vocês fariam com que descansassem". A segunda encaixa melhor com a ausência de qualquer parada no relato; a primeira é a leitura mais direta da forma. Não é possível decidir pela gramática.

Nos dois casos, porém, o efeito é o mesmo: dois versículos adiante a acusação já é a razão declarada de uma ordem que atinge todo mundo.

O que o versículo não diz

Não diz a quem o rei fala. Não diz quem é o povo da terra. Não diz se alguém descansou. Não registra resposta de Moisés e Arão — eles não falarão mais neste capítulo até o versículo 20, e lá estarão do lado de fora.

E não comenta o verbo. Se o Êxodo percebeu o que estava escrevendo, não deu sinal.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

Volta a ser chamado assim, depois de aparecer como "o rei do Egito" no versículo anterior. É a terceira e última fala dele antes de passar às ordens: a partir do versículo 6 ele não conversa mais, comanda.

Este versículo fecha um arco que começou no primeiro capítulo do livro. A abertura da fala é a mesma de Êxodo 1:9 — "vejam" —, o assunto é o mesmo — o tamanho daquela população — e a consequência é do mesmo tipo: mais trabalho. Entre um versículo e outro passaram-se décadas na narrativa, e o argumento não mudou.

"O povo da terra"

A expressão tem história longa na Bíblia e sentido razoavelmente estável fora deste versículo: designa a população estabelecida de um lugar, aquela que tem terra e conta politicamente.

Em Gênesis 23 são os hititas de Hebrom, diante de quem Abraão se curva para negociar uma sepultura; ali eles funcionam como testemunhas e como parte, porque são os donos do lugar. Nos livros dos Reis, o povo da terra chega a intervir em sucessões dinásticas. Em nenhum desses usos a expressão designa gente sem posse.

Por isso a aplicação deste versículo é discutida, e o item 3 apresenta as duas leituras. Se o rei está chamando os israelitas assim, ele lhes dá, sem querer, um nome que eles não têm direito de usar no Egito.

Moisés e Arão

Presumivelmente os destinatários do "vocês", embora o texto não os nomeie aqui. Não respondem, e não voltarão a aparecer até o versículo 20 — quando estarão do lado de fora do palácio, esperando notícias.

Vale registrar o que essa ausência significa na estrutura do capítulo: da fala deles no versículo 3 até o fim do versículo 19, a narrativa não os menciona. Os quinze versículos do meio são sobre outra gente — feitores, supervisores, o povo no campo.

O medo de Êxodo 1, e o que restou dele

Um dado útil para ler a frase. Em Êxodo 1:10, o argumento do rei era de segurança: aquela gente é muita, e numa guerra pode passar para o outro lado e sair da terra. Havia ali um medo declarado.

Aqui não há medo nenhum. O número aparece como problema de administração — muita gente para parar de uma vez —, e o que o rei teme não é a revolta: é o prejuízo.

O Êxodo não comenta a mudança. Ela é observável, e é possível que tenha razão simples: o rei deste capítulo não é necessariamente o mesmo de Êxodo 1, e o livro nunca nomeia nenhum dos dois.

As cargas

A palavra rara de Êxodo 1:11 aparece pela segunda vez em dois versículos, sempre na boca do rei. No versículo 4 ele mandou os dois de volta a elas; aqui reclama que estariam sendo tiradas de cima do povo.

É a última vez que o termo aparece neste capítulo. A partir do versículo 6 o vocabulário muda: entram palha, tijolo, cota e tarefa diária.

5. Pontos de Ensino

O descanso aparece no Êxodo primeiro como acusação

É o ponto de ensino do versículo, e ele deve ser dito com precisão para não virar efeito retórico.

A raiz que dará nome ao sábado entra no livro pela boca do rei do Egito, num versículo em que fazer gente descansar é apresentado como desordem. Quinze capítulos adiante, o mesmo livro mandará parar um dia em cada sete, e nomeará o servo e a serva entre os que devem parar.

O Êxodo não faz essa ligação aqui — quem a faz, e explicitamente, é Deuteronômio 5:15, ao fundamentar o sábado na lembrança da escravidão no Egito. Ensinar o versículo é mostrar as duas coisas: o que está no texto e quem faz a ponte.

Descanso concedido não é descanso devido

O item 2 mostra que o Egito tinha dias parados em quantidade — o ciclo de dez dias, as festas, as faltas autorizadas. O que não havia era um descanso que alguém pudesse reclamar como seu.

A diferença é a que separa este versículo do mandamento. Não é a existência da folga: é a quem ela pertence.

Uma multidão pode ser argumento para qualquer coisa

O rei já tinha usado o tamanho daquela população como razão para escravizá-la, em Êxodo 1:9-10. Aqui usa o mesmo tamanho como razão para não a dispensar. O número não decide nada sozinho: ele serve à conclusão que já foi tomada.

A acusação antecede o fato pela segunda vez

Ninguém parou de trabalhar em nenhum lugar do relato. No versículo 4 o rei disse que o povo largara o serviço; aqui diz que os dois o fazem descansar. Nos versículos 8 e 17 dirá que são preguiçosos.

São três afirmações sobre o comportamento de um grupo, nenhuma delas sustentada por um fato narrado — e é sobre elas que a política do capítulo é construída.

Não transformar a ironia em lição fácil

É tentador fechar o ensino dizendo que Deus, ao contrário do rei, dá descanso. A frase é verdadeira e não pertence a este capítulo, onde ninguém descansa, ninguém é libertado e a situação piora até a última linha.

Quem ensina este versículo faz bem em deixar a ironia de pé sem a resolver. O livro leva muito tempo para resolvê-la.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe uma questão que ele não formula: a de saber se parar é uma coisa que se recebe ou uma coisa que se tem.

Na boca do rei, parar é sempre concessão. O tempo do trabalhador pertence a quem o emprega; se sobra um dia, é porque alguém abriu mão dele. Nesse arranjo, o descanso não é o oposto do trabalho — é uma parte dele, administrada junto com o resto, e por isso pode ser retirada como qualquer outra.

Daí a acusação fazer sentido. Se o descanso é bem do senhor, quem dá folga sem autoridade está distribuindo o que não é seu. A frase não é cruel: é coerente.

O que o Êxodo fará com isso, muitos capítulos adiante, é de outra ordem, e a diferença não está no número de dias. Está em quem é o dono do tempo. Um descanso ordenado a todos, no mesmo dia, e nomeando expressamente o servo e o animal, retira aquele dia da contabilidade de quem manda. Ele deixa de ser uma sobra do trabalho e passa a ser um limite dele.

E aqui está o incômodo, que vale enunciar sem resolver: a diferença entre as duas concepções não aparece enquanto as coisas vão bem. Um patrão generoso e um direito garantido produzem, no dia a dia, a mesma folga. A diferença só se mostra no momento em que alguém decide suspendê-la — e é exatamente o que acontece na página seguinte deste capítulo, quando o rei aumenta a exigência sem aumentar o tempo.

Convém marcar que essas são observações minhas sobre a lógica da cena. O Êxodo não discute a natureza do descanso aqui, não antecipa o mandamento e não comenta a palavra que põe na boca do rei.

7. Aplicações Práticas

Reparar em quem trata a folga como perda

A aplicação mais concreta do versículo é de leitura de gente. Há um jeito de falar do descanso alheio que entrega a posição de quem fala: quando o tempo parado aparece sempre como prejuízo, e nunca como parte do trabalho.

O rei não diz que o descanso é ruim para o povo. Diz que ele é caro para o Egito. E é assim que a conversa segue: o item em discussão nunca é a vida de quem trabalha.

A conta do "vocês são muitos"

O argumento do número é usado nos dois sentidos ao longo do livro, e é útil reconhecê-lo. Em Êxodo 1:9 a multidão justificou a escravidão; aqui justifica a recusa de dispensa. A mesma constatação serviu a duas conclusões opostas.

Quando alguém abre um argumento com um número, vale perguntar o que esse número está sustentando — porque, sozinho, ele não sustenta nada.

Descanso que depende de boa vontade não é garantia

Esta é a aplicação de fundo, e ela tem relação real com o versículo. O que o item 2 mostra sobre o Egito vale para qualquer arranjo do gênero: folga concedida funciona bem até o dia em que alguém precisa dela de volta.

É o que acontece nos versículos seguintes. A cota permanece, o fornecimento some, e o tempo que faltar sai do descanso de quem trabalha, porque não há nenhum outro lugar de onde tirá-lo.

Cuidado com a aplicação sobre descanso pessoal

Convém dizer, porque este versículo é frequentemente puxado para pregações sobre a importância de descansar. A relação é real, mas indireta: o texto não fala do repouso de ninguém em particular, e não há aqui nenhum conselho sobre ritmo de vida.

O que ele mostra é uma disputa sobre de quem é o tempo de uma população. Quem quiser falar de descanso pessoal a partir daqui precisa dizer que está fazendo a ponte, e que o versículo trata de outra coisa.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Faraó está mesmo usando a palavra do sábado?

A raiz é a mesma, e isso é verificável por qualquer interlinear. O que não se pode afirmar é que ele esteja "falando do sábado": o sábado ainda não foi instituído no livro, e o verbo é a palavra comum para fazer parar.

A ironia, portanto, é de vocabulário e de posição, não de referência. O rei não está zombando de uma instituição que ainda não existe.

"O povo da terra" são os israelitas ou os egípcios?

Não é possível decidir. O contexto imediato favorece os israelitas; o uso da expressão no resto da Bíblia favorece a população estabelecida de um país, que no Egito seriam os egípcios. O item 3 apresenta as duas leituras com os argumentos de cada uma.

Vale acrescentar que a frase é elíptica no original — falta o verbo que ligaria as duas metades —, e que essa compressão é parte da dificuldade.

O povo tinha parado de trabalhar?

O texto não registra nenhuma parada, e esta é a segunda acusação seguida sobre um fato que ele não narra. A forma verbal hebraica admite tanto "vocês os fizeram descansar" quanto "vocês fariam com que descansassem", e o item 3 trata das duas.

Por que o argumento do número volta?

O Êxodo não explica. O que se observa é que ele volta com a mesma abertura de Êxodo 1:9 — "vejam" — e com outra finalidade: lá o medo era de guerra, aqui a preocupação é de produção.

Uma explicação simples é que se trata de outro rei, já que o de Êxodo 1 morreu em Êxodo 2:23 e o livro não nomeia nenhum dos dois. Outra é que o tamanho daquela população era, de fato, o problema permanente do Egito no relato. Não há como escolher.

Este versículo condena o descanso?

A fala é do rei, e o Êxodo não a endossa nem a critica. Registrar uma frase não é subscrevê-la, e o livro faz isso o tempo todo — registra a acusação de preguiça dos versículos 8 e 17 sem uma palavra de comentário.

Quem tomar a fala como posição do texto vai ter de explicar o mandamento de Êxodo 20:10.

Por que Moisés e Arão não respondem?

O texto não diz, e eles não voltam a falar neste capítulo até o versículo 20. Entre uma coisa e outra, o capítulo muda de cena: sai do palácio e vai para o canteiro de obras.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma abertura, no primeiro capítulo do livro

Êxodo 1:9 — "Ele disse ao seu povo: 'Vejam: o povo dos filhos de Israel é numeroso e mais forte do que nós.'"

Mesma palavra de chamamento, mesmo assunto, mesmo resultado: uma medida contra aquela população. O estudo daquele versículo trata do que o "vejam" faz com a frase seguinte.

O que o número significava antes

Êxodo 1:10 — "Vamos agir com astúcia contra ele, para que não se multiplique mais e, se vier uma guerra, não se junte aos nossos inimigos, lute contra nós e suba desta terra."

Lá o medo era de guerra e de fuga. Aqui a multidão aparece como quantidade de trabalho, e nenhum temor é declarado.

A raiz do verbo, antes de qualquer sábado

Gênesis 2:2 — "No sétimo dia Deus já havia terminado a obra que fez, e nesse sétimo dia descansou de toda a obra que havia feito."

É o mesmo verbo, no uso mais simples: cessar a obra. Em Gênesis ele descreve Deus; aqui, uma acusação.

Onde o Êxodo instituirá o descanso

Êxodo 20:9-10 — "Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra; mas o sétimo dia é sábado do SENHOR, o teu Deus; não farás nele obra alguma, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas."

A lista nomeia o servo e a serva. É o mesmo tipo de gente cuja folga, neste versículo, é apresentada como problema.

E onde a Bíblia liga o sábado ao Egito, com todas as letras

Deuteronômio 5:15 — "Lembre-se de que você foi servo na terra do Egito, e que de lá o tirou o SENHOR, o seu Deus, com mão forte e braço estendido; por isso o SENHOR, o seu Deus, ordenou que você guardasse o dia de sábado."

A ponte entre a escravidão e o dia de descanso não é invenção de comentarista: está escrita, e a razão dada para o mandamento é a memória do Egito.

O descanso que inclui o animal e o filho da escrava

Êxodo 23:12 — "Seis dias você fará o seu trabalho, e no sétimo dia descansará, para que descanse o seu boi e o seu jumento, e tome fôlego o filho da sua escrava e o estrangeiro."

Aqui a finalidade do mandamento é explícita, e ela é justamente a que este versículo trata como prejuízo.

A primeira vez que o povo do Êxodo de fato descansa

Êxodo 16:30 — "E o povo descansou no sétimo dia."

Mesma raiz, mesma gente, onze capítulos adiante — e já fora do Egito.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E Faraó disse: “Vejam: o povo da terra já é numeroso, e vocês os fazem descansar das suas cargas.”

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר פַּרְעֹה הֵן־רַבִּים עַתָּה עַם הָאָרֶץ וְהִשְׁבַּתֶּם אֹתָם מִסִּבְלֹתָם׃

Transliteração

vayyómer Par'ó: hen-rabbím attáh am ha-árets, ve-hishbattém otám mi-sivlotám.

Análise palavra por palavra

הֵן — hen, "vejam", "eis". Partícula de chamamento de atenção.

Não é um verbo, apesar da tradução: é uma palavra que aponta. Serve para apresentar alguma coisa como se ela estivesse à vista, dispensando demonstração. É a mesma partícula com que o rei abriu a sua primeira fala do livro, em Êxodo 1:9, e o estudo daquele versículo trata do que ela faz com a frase que vem depois.

רַבִּים — rabbím, "numerosos". Adjetivo masculino plural, da raiz que significa ser muito, ser grande em quantidade.

Note a concordância: o adjetivo está no plural, e o substantivo que ele qualifica — "povo" — é singular em hebraico. A construção é normal quando se pensa no coletivo como conjunto de indivíduos, e aparece também em Êxodo 1:9.

עַתָּה — attáh, "agora", "já". Advérbio de tempo.

A palavra marca um contraste implícito com um antes. "Já são numerosos" supõe que antes não eram — e é exatamente o percurso que Êxodo 1 narrou. Algumas traduções a ligam ao que vem depois, produzindo "e agora vocês os fazem descansar"; o hebraico admite as duas colocações, e não é possível decidir pela sintaxe.

עַם הָאָרֶץ — am ha-árets, "o povo da terra". Substantivo em estado ligado a outro, com artigo no segundo termo.

A expressão tem história. Fora deste versículo, ela designa, com grande regularidade, a população estabelecida de um país — os que têm terra, os que são parte reconhecida do lugar. Em Gênesis 23:7, 23:12 e 23:13 são os hititas diante de quem Abraão negocia a sepultura de Sara; em 2 Reis 11:14 e 11:20, o povo da terra participa da entronização de um rei de Judá; em Ezequiel e em Jeremias, a expressão designa a população de Judá diante das autoridades.

Em nenhuma dessas ocorrências ela nomeia gente sem posse e sem voz. Por isso a aplicação deste versículo é discutida, e o item 3 apresenta as duas leituras: os israelitas ou os próprios egípcios.

Há ainda um dado de estrutura que vale registrar: a frase, em hebraico, não tem verbo. É uma oração nominal — "eis numerosos agora o povo da terra" —, construção normal na língua, mas que aqui deixa a relação com a segunda metade do versículo sem articulação explícita. A ambiguidade não é da tradução: é do original.

וְהִשְׁבַּתֶּם — ve-hishbattém, "e vocês os fazem descansar". Verbo shabat, no Hifil — a forma que exprime causar alguma coisa —, perfeito, segunda pessoa masculina do plural, com a conjunção.

Esta é a palavra do versículo. Três camadas.

A raiz. Shabat significa cessar, parar, deixar de fazer. É a raiz de que vem o substantivo shabbat, o nome do sétimo dia. No uso mais simples, ela aparece em Gênesis 2:2-3, quando Deus "cessou" da obra, e em Gênesis 8:22, na promessa de que a sementeira e a colheita "não cessarão".

A forma. No Hifil, o verbo passa a significar fazer cessar, e é preciso ser honesto sobre o alcance disso: em boa parte das ocorrências bíblicas, essa forma tem sentido de pôr fim, abolir, acabar com. Em Oseias 2:11, por exemplo, Deus diz que fará cessar as festas, as luas novas e — ironicamente — os sábados de Israel; o verbo é este.

Daí que a frase do rei possa ser lida de dois modos, e os dois são defensáveis. Ou ele diz que os dois estão dando folga ao povo; ou diz que estão interrompendo o serviço, pondo fim ao trabalho. A tradução que este estudo segue mantém "fazem descansar" para que a raiz continue visível em português, e é a escolha certa — mas quem ler "fazem parar" não estará errado quanto ao sentido.

A posição. É aqui que está o achado, e ele é de ordem, não de gramática. Esta é a primeira vez na Bíblia em que um ser humano é acusado de fazer outras pessoas cessarem do trabalho, e quem faz a acusação é o rei do Egito. A raiz que dará nome ao dia de descanso entra no livro do Êxodo por essa porta.

Convém a ressalva: a raiz é comum, o rei usa a palavra normal para o que quer dizer, e o Êxodo não comenta nada. Não é possível afirmar que o efeito tenha sido construído. O item 3 trata do que se pode e do que não se pode concluir daí.

Uma última observação sobre o tempo verbal. A forma é de perfeito com a conjunção, e em hebraico bíblico essa combinação tanto pode descrever o que já aconteceu quanto o que aconteceria — a consequência de algo proposto. Traduções a vertem de ambos os modos: "vocês os fizeram descansar" e "e vocês fariam com que descansassem". A gramática não decide, e a diferença importa, porque o texto não registrou parada nenhuma.

אֹתָם — otám, "os", "a eles". Pronome objeto, masculino plural.

O objeto é a gente, não o trabalho. O rei não diz "vocês fazem cessar as cargas": diz que fazem cessar as pessoas, tirando-as das cargas.

מִסִּבְלֹתָם — mi-sivlotám, "das suas cargas". Preposição de afastamento mais o substantivo sivlot, com sufixo de terceira pessoa masculina do plural.

É a mesma palavra rara do versículo anterior e de Êxodo 1:11, desenvolvida no estudo daquele texto. Muda o sufixo: no versículo 4 era "as cargas de vocês", dito a Moisés e Arão; aqui é "as cargas deles", dito a respeito do povo.

A troca é pequena e organiza a cena. No versículo 4 o rei enquadrava os dois homens; aqui volta a falar da população, e é dela que tratará o resto do capítulo.

11. Conclusão

Três conclusões saem do que foi examinado.

A primeira: o argumento do rei fecha um círculo aberto no capítulo 1. A mesma partícula de chamamento, o mesmo assunto — o tamanho daquela população — e o mesmo desfecho: mais trabalho. Muda apenas o que o número significa. Em Êxodo 1:10 ele valia como risco de guerra; aqui, como volume de mão de obra que não se pode dispensar. O medo virou cálculo.

A segunda: a raiz do sábado entra no Êxodo pela acusação. A primeira vez que alguém, na Bíblia, é acusado de fazer outras pessoas cessarem do trabalho é esta, e quem acusa é o rei do Egito. O livro não comenta, e a ponte entre o descanso e a escravidão do Egito só será feita expressamente muito depois, em Deuteronômio 5:15. O que se pode afirmar é a posição da palavra; o que não se pode é que o efeito tenha sido construído.

A terceira: a política do capítulo se apoia em afirmações que o texto não confirma. Três vezes o rei descreve o comportamento daquela gente — largaram o trabalho, estão sendo postos em descanso, são preguiçosos — e nenhuma dessas descrições corresponde a um fato narrado. É sobre elas que a ordem do versículo 6 será construída.

E o que não se conclui: que o versículo contenha qualquer juízo sobre o descanso. A frase é de um personagem, e o Êxodo registra sem endossar, como registrará a acusação de preguiça sem discuti-la. Também não se conclui quem é "o povo da terra": a expressão fica em disputa, e as duas leituras continuam de pé depois de tudo o que se possa dizer sobre ela.

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Êxodo 5:5

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