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Êxodo 20:10

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 14 acessos
mas o sétimo dia é sábado do SENHOR, o teu Deus; não farás nele obra alguma, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas.
Num acampamento de tendas ao pé de um monte, num dia de silêncio, um homem de barba descansa sentado à porta da sua tenda; ao lado dele, um menino e uma menina brincam no chão, um servo e uma serva estão sentados à sombra sem ferramentas nas mãos, um boi e um jumento repousam soltos, sem canga, e um estrangeiro de roupas diferentes observa a cena, também parado.

Estudo


mas o sétimo dia é sábado do SENHOR, o teu Deus; não farás nele obra alguma, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas.

1. Introdução

O mandamento do sábado não para só quem o ouve: ele faz uma lista. O filho, a filha, o servo, a serva, o animal e o estrangeiro param junto com o dono da casa, e a lei se dirige a quem teria poder de fazê-los trabalhar. Falta um nome que o leitor espera — a mulher —, e a ausência dividiu os comentaristas. O animal entra na lista antes do estrangeiro, e a tradição rabínica levou isso a sério a ponto de proibir certas vendas de gado. E a expressão "dentro das tuas portas", que supõe cidades, é dita a um povo que ainda mora em tendas.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um dia parado que alcança o escravo e o boi

O mundo antigo conhecia feriados. Conhecia festas de deuses, dias de mau agouro em que não se começava nada, dias de procissão em que a cidade inteira saía às ruas. O que o mandamento traz de diferente é a combinação de duas coisas: o dia vem por contagem, sempre o sétimo, sem depender de lua nem de colheita; e a parada é imposta justamente a quem não decide o próprio trabalho. A falta de qualquer paralelo antigo para essa combinação — e o ritmo de dez dias do trabalhador egípcio — está no estudo de Êxodo 5:5.

O que um romano fazia com o escravo no feriado

O contraste mais nítido vem de um manual de fazenda. Catão, o Velho (político romano do século II antes de Cristo), escreveu o Da agricultura (o mais antigo tratado em prosa latina que chegou inteiro até nós), e ali descreve a visita do dono à propriedade. Se o feitor se queixar de que choveu, de que houve feriados, de que os escravos adoeceram, o dono deve responder com a lista do que se podia ter feito mesmo assim: nos feriados, limpar valas velhas, consertar a estrada, cortar o mato, cavar a horta, limpar o prado, amarrar varas, arrancar espinhos (capítulo 2). No mesmo capítulo vem o conselho de vender o boi velho, o gado estragado, o escravo velho e o escravo doente — tudo o que já não rende.

Mais adiante, Catão regula os animais. Nos feriados é permitido atrelar os bois para levar lenha, palha de fava e o grão que não se vai vender; mulas, cavalos e jumentos não têm feriado algum, a não ser as festas da própria família (capítulo 138). O feriado romano, portanto, existia — e era do dono. O escravo e o animal trabalhavam nele em tarefas leves, e a pergunta que o manual responde é "o que dá para fazer mesmo no feriado", não "quem tem direito a parar".

O versículo responde à outra pergunta: não lista tarefas permitidas, lista quem não trabalha. Catão escreveu séculos depois do que o Êxodo narra e não mede costumes do Oriente antigo; mostra como soava, a um proprietário antigo, uma regra que inclui o escravo e o jumento no descanso.

O boi como patrimônio

O boi puxava o arado e o jumento carregava: eram o capital de trabalho da casa. As coleções de leis da Mesopotâmia que sobreviveram tratam o boi exatamente assim: a de Lipit-Ishtar (rei de Isin, no sul da Mesopotâmia, por volta de 1930 antes de Cristo), por exemplo, fixa quanto paga quem aluga um boi e lhe fere o olho, quebra o chifre ou corta o rabo. O boi aparece como bem que se aluga e se indeniza. Nenhuma dessas coleções, até onde os textos conhecidos permitem dizer, dá ao boi um dia em que ele não pode ser posto ao jugo.

"Portas" quer dizer cidades

Num povoado antigo, a porta da muralha era o lugar público: ali se fazia o comércio, se julgava, se reuniam os anciãos. Por isso "as tuas portas" passou a significar "as tuas cidades", e é assim que a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) a explica: não as portas da casa, e sim os povoados onde o israelita mora.

Com o pronome "tuas", a expressão aparece 29 vezes na Torá. Uma só está fora do Deuteronômio: esta. No Deuteronômio ela é a fórmula de uma vida já assentada — o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva "que estão dentro das tuas portas" (Deuteronômio 14:29; 16:11, 14; 26:12). No Êxodo, o povo que ouve o mandamento está acampado ao pé de um monte, sem cidade e sem muralha. A lei fala da terra que ainda não tem, e o vocabulário denuncia isso. Se a frase foi escrita já pensando nas cidades de Israel, ou se é a lei antecipando o futuro, é discutido; o dado em si — a única ocorrência fora do Deuteronômio — não depende da resposta.

3. Análise Teológica do Versículo

"mas o sétimo dia é sábado do SENHOR, o teu Deus"

O versículo anterior deu seis dias ao trabalho; este começa pelo dia que não é do trabalhador. "Do SENHOR" diz de quem é o dia antes de dizer o que não se faz nele. Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) lê a preposição como posse e tira dela a consequência: nos seis dias você cuida dos seus assuntos; no sétimo, que não é seu, cuida dos assuntos de Deus. A proibição que vem a seguir não nasce de uma regra sobre cansaço, e sim de um título de propriedade.

"não farás nele obra alguma"

A proibição está no singular — "tu não farás" — e o versículo poderia terminar aqui. Se terminasse, seria uma regra pessoal: cada um que pare. Mas ela continua com uma lista, e a lista muda a natureza da lei. O que se proíbe ao dono da casa não é só trabalhar: é fazer trabalhar. O sábado deste versículo é uma restrição imposta a quem manda, em favor de quem obedece.

"nem tu"

Quem é o "tu"? Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) responde que o pronome inclui todos os que estão obrigados aos mandamentos. É a leitura mais larga. Mas o pronome é masculino e, logo depois, vêm "o teu servo", "a tua serva", "o teu animal". O "tu" desta frase tem casa, tem gente sob a sua autoridade e tem gado. É o chefe de família, e a lista inteira é o inventário do que está sob as ordens dele.

"nem o teu filho, nem a tua filha"

Se os filhos adultos já estão no "tu", por que nomeá-los? A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado por volta do século III), no tratado Bachodesh, seção 7, registra a resposta de Rabi Achai ben Yoshiyah: são os filhos pequenos. O adulto responde por si; pela criança, responde o pai. Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) liga a leitura a uma regra da Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200): se uma criança judia vai apagar um incêndio no sábado, não se deixa, porque o descanso dela é responsabilidade do adulto; se quem vai apagar é um não judeu, não se lhe diz nem "apague" nem "não apague", porque o descanso dele não está a cargo de ninguém ali (Mishná Shabbat 16:6).

A regra mostra o que a lista é: um mapa de responsabilidade. Cada nome dela é alguém cujo trabalho o "tu" poderia ordenar, aproveitar ou tolerar. E a filha vem colada ao filho — em hebraico as duas palavras se juntam num bloco só. O descanso não passa pelo sexo da criança.

"nem o teu servo, nem a tua serva"

Ibn Ezra tira daqui uma obrigação que vai além do sábado do próprio dono: o servo está "sob o nosso poder", e por isso não basta não mandá-lo trabalhar; é preciso impedir que ele seja alugado ou cedido a outro naquele dia. A razão, diz ele, Moisés a explicou ao repetir o mandamento: "para que o teu servo e a tua serva repousem como tu" (Deuteronômio 5:14). O Êxodo não dá esse motivo; o Deuteronômio o põe no texto.

A Mekhilta pergunta de que servo se trata e responde: do servo já circuncidado, incorporado à aliança. O servo estrangeiro não circuncidado também descansa, mas por outro versículo, Êxodo 23:12, que fala do "filho da tua serva". Na leitura rabínica há, portanto, dois sábados de servo: o de quem guarda o dia como dever próprio e o de quem apenas não pode ser posto a trabalhar.

"nem o teu animal"

O animal entra na lista com o mesmo verbo dos humanos. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) dão a explicação prática: quase não se tira trabalho de um animal sem que um homem trabalhe junto. Quem atrela o boi, ara. Proibir o trabalho do boi fecha a porta a quem quisesse descansar o corpo e mandar o arado sair com o empregado.

A tradição judaica tratou esse descanso como dever em si. A Mishná proíbe que o animal saia à rua no sábado levando carga e discute peça por peça o que é arreio e o que é carga: a corrente no pescoço do cavalo pode, o sino no pescoço do jumento não pode — e registra que a vaca de Rabi Elazar ben Azarias saía com uma correia entre os chifres, "contra a vontade dos sábios" (Mishná Shabbat 5:1 e 5:4). A regra chegou ao comércio: a Mishná proíbe vender gado grande a um não judeu (Avodá Zará 1:6), e o Talmude explica com uma cena. O vendedor entrega o boi na sexta-feira, perto do pôr do sol, e diz "experimente"; o animal ouve a voz do antigo dono e anda, e o judeu acaba conduzindo um animal no sábado (Avodá Zará 15a). O descanso do boi ficou tão ligado ao dono que nem a venda o desfaz de todo.

"nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas"

O último nome é o único que não pertence à casa. Que obrigação o atinge?

Primeira leitura: é o convertido, e ele guarda o sábado como qualquer israelita. É a da Mekhilta. O estrangeiro não convertido aparece em Êxodo 23:12, e ali o sábado dele é só não trabalhar para o israelita.

Segunda leitura: é o residente não convertido, e a obrigação não é dele, é do israelita. É a de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII), que diz ir pelo sentido simples do texto, contra os rabinos. "O estrangeiro das tuas portas" é, no Deuteronômio, o residente a quem se pode dar a carne do animal morto que o israelita não come (Deuteronômio 14:21) — alguém que não está sob a Lei. O mandamento proíbe o israelita de pô-lo a trabalhar em seu favor, como proíbe com as crianças e o gado; por conta própria, o estrangeiro pode trabalhar.

Terceira leitura: é uma condição de moradia. Para Ibn Ezra, o estrangeiro só pode morar entre o povo se não trabalhar no sábado, assim como só pode morar ali se não comer sangue.

A segunda leitura explica a posição do estrangeiro depois do animal: todos ali são gente cujo trabalho o dono da casa poderia comprar. A primeira e a terceira explicam melhor por que ele é nomeado. O texto não decide.

A mulher que não está na lista

A lista chega ao animal e não nomeia a esposa. Por quê?

Primeira leitura: ela está dentro do "tu". É a consequência da leitura de Ibn Ezra, e os rabinos não tinham dúvida de que a mulher guardava o dia. A Mekhilta, no mandamento seguinte, traz a frase de Rabi Yehudah ben Betheira: "assim como no sábado não há diferença entre homem e mulher".

Segunda leitura: ela não está porque a lista é de dependentes, e o silêncio a põe ao lado do marido, não abaixo. A leitura é generosa e tem contra si o mandamento da cobiça, que põe a mulher do próximo numa lista de bens.

Terceira leitura: o silêncio revela o destinatário. David J. A. Clines (estudioso britânico da Bíblia hebraica), num ensaio de 1995 que lê o Decálogo "da esquerda para a direita", argumenta que estas leis se dirigem a um homem adulto e proprietário; a mulher não é nomeada porque não é ela quem ouve.

Não é possível decidir pelo versículo. O que se pode afirmar é que o texto escreve para quem tem autoridade sobre o trabalho alheio, e que a mulher, quando aparece no Decálogo, aparece de outro modo — assunto do estudo de Êxodo 20:17.

A ordem dos nomes

A lista anda do mais próximo para o mais distante: o dono, os filhos, os servos, o animal da casa, o estrangeiro da cidade. E o animal fica antes do estrangeiro. A ordem não mede valor; mede a distância de cada um em relação ao "tu" que dá as ordens.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O dono da casa

É o "tu" do mandamento: o israelita adulto, chefe de uma unidade que inclui filhos, servos e gado. Não é personagem nomeado, mas é o único a quem a frase se dirige diretamente. Tudo o que vem depois dele na lista depende das ordens dele.

O filho e a filha

Na leitura rabínica, as crianças que ainda não respondem por si. Os filhos adultos guardam o sábado por obrigação própria; os pequenos guardam porque o pai os impede de trabalhar.

O servo e a serva

A lei de Israel conhecia duas condições: a do israelita que se vendia por dívida e saía livre no sétimo ano, e a do estrangeiro comprado, que podia ficar para sempre na casa. As duas, e a diferença entre elas, estão descritas no estudo de Êxodo 12:44. O mandamento do sábado não distingue: nomeia "o teu servo" e "a tua serva" sem perguntar de onde vieram. Os rabinos é que separaram depois, com Êxodo 23:12.

O animal

A palavra designa o gado doméstico em geral. O boi era a força do arado e da debulha; o jumento, o transporte. São os animais que trabalham, e por isso são os que a lei nomeia.

O estrangeiro

Alguém de outra origem que mora no meio do povo, sem terra e sem parentes no lugar. No acampamento do Sinai ele já existia: quando Israel saiu do Egito, "subiu também com eles uma grande mistura de gente" (Êxodo 12:38).

O lugar

O pé do Sinai, no terceiro mês depois da saída do Egito. O povo vive em tendas.

O evento: o mandamento mais longo

O sábado ocupa quatro versículos (Êxodo 20:8-11), mais do que qualquer outro dos Dez. A maior parte do espaço não vai para a ordem em si, que cabe numa linha, e sim para a lista de quem descansa e para o motivo. É a única das Dez Palavras que se preocupa em dizer quem mais, além do ouvinte, está debaixo dela.

5. Pontos de Ensino

1. O sábado é uma lei sobre o poder de mandar. A proibição recai sobre o dono da casa, e o que ela proíbe não é só o trabalho dele: é o trabalho que ele poderia exigir de outros. Um descanso que o patrão tira enquanto o servo continua não cumpre o mandamento. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) resume: o trabalho devia parar, não passar para os membros mais fracos da casa.

2. A responsabilidade acompanha a autoridade. Pela leitura rabínica, o pai responde pelo descanso da criança, mas não pelo do estrangeiro que trabalha para si mesmo. A lista do versículo é a lista das pessoas cujo trabalho o "tu" controla. Onde há poder de ordenar, há dever de impedir.

3. O animal tem lugar na lei, mas como animal de alguém. O texto não fala dos animais em geral: fala do "teu animal". Ele entra no descanso porque trabalha para um dono. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) vê aqui uma compaixão rara no direito antigo; o texto, mais sóbrio, mostra que o descanso do boi é parte do descanso da casa.

4. A lei fala de um futuro que o povo ainda não tem. "Dentro das tuas portas" supõe cidades. Quem ouve está num acampamento. O mandamento já desenha a vida assentada na terra.

6. Aspectos Filosóficos

O boi descansa por ele ou pelo dono?

O versículo põe um animal numa lista de pessoas e lhe dá a mesma coisa que dá a elas: um dia sem trabalho. Isso levanta uma pergunta que a filosofia moral dos últimos cinquenta anos tornou incontornável: o animal entra porque os seus interesses contam, ou porque é patrimônio de alguém e o patrimônio também segue a regra da casa?

O critério de Peter Singer

Peter Singer (filósofo australiano, nascido em 1946) publicou em 1975 o livro Libertação animal, que deu forma pública ao debate. O argumento central é curto. Se um ser pode sofrer, o sofrimento dele tem de entrar na conta moral, e deve pesar tanto quanto um sofrimento igual de qualquer outro ser. Singer chama isso de princípio da igual consideração de interesses. A linha que separa quem conta de quem não conta não é a espécie, nem a razão, nem a linguagem: é a capacidade de sentir dor e prazer. Tratar o sofrimento de um animal como menos importante só porque ele não é humano é o que Singer chama, com uma palavra criada pelo psicólogo britânico Richard Ryder em 1970, de especismo — preconceito de espécie, como o racismo é preconceito de raça.

No capítulo histórico do livro, Singer procura a origem da atitude ocidental diante dos animais e encontra, entre outras fontes, a Bíblia: o domínio dado ao ser humano sobre os peixes, as aves e todo animal em Gênesis 1:26. Na leitura dele, a tradição herdou dali a ideia de que os animais existem para uso humano.

O que o versículo dá a Singer, e o que não dá

Medido pelo critério de Singer, o mandamento tem um ponto a favor e dois contra.

O ponto a favor: o animal entra na lista pelo mesmo motivo que o servo — porque trabalha e se cansa. A espécie não decide quem descansa; o que decide é estar sob o jugo de alguém. E, quando a Torá volta ao assunto, diz com todas as letras que o descanso é para o animal: "para que repousem o teu boi e o teu jumento" (Êxodo 23:12). O interesse do boi aparece como fim, não só como efeito colateral do descanso do dono.

O primeiro ponto contra: o animal é "teu". A lista é de dependentes, e o boi está nela como o servo está — como alguém cujo trabalho pertence a outro. A regra limita o uso; não questiona o direito de usar. Nos outros seis dias o jugo continua.

O segundo ponto contra: a mesma Torá que dá o sábado ao boi manda sacrificá-lo e permite comê-lo. Para Singer, o descanso semanal seria reforma dentro de um sistema de uso. Como utilitarista (a corrente que mede o certo e o errado pela soma de sofrimento e bem-estar que uma ação produz), ele contaria a reforma como ganho — mas não a confundiria com igualdade.

A tradição judaica chegou perto da pergunta

Os rabinos discutiram exatamente se o sofrimento do animal é, em si, um motivo de lei. O Talmude, no tratado Bava Metzia (32a-32b), pergunta se a obrigação de ajudar a descarregar o jumento caído debaixo da carga (Êxodo 23:5) existe por causa da perda do dono ou por causa da dor do animal. A discussão vai e volta, com provas para os dois lados. A expressão que ficou dela — "o sofrimento dos seres vivos" — virou categoria do direito judaico.

É a mesma pergunta de Singer feita com outro vocabulário: o que pesa é o prejuízo de quem possui ou a dor de quem sente? O versículo do sábado não responde, porque põe as duas coisas juntas. O boi descansa porque é "teu" e porque se cansa.

O limite

O Êxodo não tem uma teoria do valor moral dos animais, e ler Singer dentro dele seria anacronismo. O que se pode dizer é mais modesto: num texto antigo dirigido a proprietários, o animal de trabalho aparece entre os que têm direito a parar, e a lei não pede ao dono que prove prejuízo nenhum para isso. Se a razão é compaixão, ordem da casa ou as duas coisas, o versículo não diz.

7. Aplicações Práticas

O descanso de quem manda depende de quem obedece

O versículo parte de uma constatação que vale fora de qualquer religião: o dia livre de uma pessoa quase sempre é sustentado pelo trabalho de outra. A casa limpa, a comida pronta, a entrega na porta, o comércio aberto no feriado. O mandamento não deixa o dono da casa resolver o próprio descanso transferindo o serviço para os filhos, os empregados ou o gado. Para quem tem gente trabalhando sob as suas ordens — em casa, numa loja, numa empresa —, a pergunta do texto é concreta: o meu dia de folga custa o dia de quem?

O animal de trabalho

Para quem lida com animais — no campo, no transporte, na tração —, o versículo trata o cansaço do animal como coisa que a lei vê. Não é preciso adotar uma filosofia inteira sobre animais para tirar daqui uma regra simples: o animal que trabalha para alguém também tem limite.

O vizinho de outra origem

O estrangeiro "dentro das tuas portas" é quem trabalha no lugar sem pertencer a ele. Em qualquer época, é o primeiro a quem se pede o serviço que os de casa não querem fazer no dia de descanso. Pela leitura de Nachmânides, o mandamento proíbe exatamente isso: que o israelita compre do estrangeiro o trabalho que ele mesmo não pode fazer.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se a esposa não está na lista, ela trabalhava no sábado?

Não há indício disso. O trabalho que mais recairia sobre ela — moer, assar, cozinhar — é justamente o que outras leis do Êxodo param. No primeiro sábado do deserto, a ordem foi assar e cozinhar na véspera (Êxodo 16:23), e Êxodo 35:3 proíbe acender fogo nas casas no sábado. O silêncio da lista é um problema de quem o mandamento tem como interlocutor, não uma brecha para o trabalho dela.

Por que o Deuteronômio acrescenta o boi e o jumento?

Deuteronômio 5:14 desdobra "o teu animal" em "o teu boi, o teu jumento e todo animal teu". O acréscimo nomeia os dois animais de trabalho por excelência e depois fecha com uma palavra que abrange os outros. Pode ser só ênfase; pode ser a lei respondendo a quem perguntasse se o jumento de carga entrava. O texto não explica.

Israel cumpriu esta parte do mandamento?

A Bíblia registra que nem sempre. Jeremias manda não carregar fardo pelas portas de Jerusalém no sábado nem tirar carga das casas (Jeremias 17:21-22) — sinal de que se carregava. E Neemias, depois do exílio, conta que viu gente pisando lagar, carregando jumentos e vendendo mercadoria em Jerusalém no sábado, e que mandou fechar as portas da cidade da véspera até o fim do dia (Neemias 13:15-19). As "portas" do mandamento viraram portas de verdade, fechadas para que o descanso valesse dentro delas.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma lista, repetida com acréscimos

Deuteronômio 5:14 — "mas o sétimo dia é sábado do SENHOR, o teu Deus; não farás nele trabalho algum, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu boi, nem o teu jumento, nem animal algum teu, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas; para que o teu servo e a tua serva repousem como tu."

A segunda versão do Decálogo repete a lista inteira, desdobra o animal em três e acrescenta uma finalidade: o descanso do servo "como tu". A esposa continua fora.

O boi, o filho da serva e o estrangeiro

Êxodo 23:12 — "Seis dias farás os teus trabalhos, e no sétimo dia cessarás, para que repousem o teu boi e o teu jumento, e tome fôlego o filho da tua serva, e o estrangeiro."

O versículo que os rabinos usaram para separar dois tipos de servo e dois tipos de estrangeiro. Aqui a razão do sábado não é a criação nem o Egito: é o descanso dos que trabalham para o dono.

O sábado da terra, com a mesma lista

Levítico 25:6-7 — "O que a terra produzir no seu sábado servirá de alimento para ti, para o teu servo, para a tua serva, para o teu empregado e para o residente que mora contigo; e para o teu gado e para os animais que estão na tua terra, todo o seu produto servirá de alimento."

No ano sabático a lista volta, e se alarga: entra o empregado pago, e entram até os animais selvagens. O círculo do descanso semanal vira o círculo da comida no sétimo ano.

O estrangeiro que guarda o sábado

Isaías 56:6-7 — "E os estrangeiros que se unem ao SENHOR para servi-lo, para amar o nome do SENHOR e ser servos dele, todos os que guardam o sábado sem profaná-lo e se apegam à minha aliança, eu os trarei ao meu santo monte."

O estrangeiro já não é só alguém que não pode ser posto a trabalhar: é alguém que guarda o sábado por adesão própria. É a leitura da Mekhilta levada ao seu ponto mais aberto.

O animal na conta de Deus

Jonas 4:11 — "E eu não terei pena de Nínive, a grande cidade, onde há mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem distinguir a mão direita da esquerda, e também muitos animais?"

O livro termina com os animais na mesma frase das pessoas, como o mandamento do sábado. Lá, é a compaixão de Deus que os inclui; aqui, a lei.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

mas o sétimo dia é sábado do SENHOR, o teu Deus; não farás nele obra alguma, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas.

Texto hebraico

וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי שַׁבָּת לַיהוָה אֱלֹהֶיךָ לֹא תַעֲשֶׂה כָל־מְלָאכָה אַתָּה וּבִנְךָ־וּבִתֶּךָ עַבְדְּךָ וַאֲמָתְךָ וּבְהֶמְתֶּךָ וְגֵרְךָ אֲשֶׁר בִּשְׁעָרֶיךָ׃

Transliteração

ve-yom ha-shevi'i shabbat la-YHWH Elohekha lo ta'aseh khol-melakhah attah u-vinkha-u-vittekha avdekha va-amatekha u-vehemtekha ve-gerkha asher bi-she'arekha.

Análise palavra por palavra

וְיוֹם הַשְּׁבִיעִי — ve-yom ha-shevi'i, "mas o sétimo dia".

O "e" hebraico, ve, tem aqui valor de contraste com o versículo anterior: seis dias de trabalho, "mas" o sétimo. O substantivo "dia" vem sem artigo e o numeral com artigo — a forma comum de dizer "o dia sétimo" em hebraico.

שַׁבָּת לַיהוָה אֱלֹהֶיךָ — shabbat la-YHWH Elohekha, "é sábado do SENHOR, o teu Deus".

Frase sem verbo: o hebraico justapõe sujeito e predicado, e o português supre o "é". A preposição le, colada ao nome divino, marca pertença: "do", "para o", "ao". A mesma fórmula, sem o "teu Deus", foi dita por Moisés no deserto: "hoje é sábado ao SENHOR" (Êxodo 16:25). No Decálogo ela ganha o possessivo Elohekha, "o teu Deus", no singular: o dia é do Deus de quem ouve.

לֹא תַעֲשֶׂה — lo ta'aseh, "não farás".

O verbo asah, "fazer", no futuro da segunda pessoa masculina do singular, precedido de lo, "não". É a forma hebraica da proibição permanente — a mesma de "não matarás" e "não furtarás". Para uma proibição de momento, o hebraico usaria outra partícula, al. O sábado é proibido no mesmo tom das outras proibições do Decálogo.

כָל־מְלָאכָה — khol-melakhah, "obra alguma".

Kol quer dizer "todo"; depois de negação, "nenhum". Melakhah é a palavra do trabalho de ofício, do serviço que se executa — não o esforço físico em geral. As mesmas duas palavras, com o verbo na voz passiva, proíbem o trabalho nos dias santos da Páscoa: "Nenhum trabalho se fará neles" (Êxodo 12:16). Lá, a lei abre uma exceção para o preparo da comida; aqui, não abre nenhuma.

אַתָּה — attah, "tu".

Pronome pessoal independente, masculino singular. O verbo já trazia a pessoa embutida; o pronome explícito abre a lista e põe o ouvinte no primeiro lugar dela.

וּבִנְךָ־וּבִתֶּךָ — u-vinkha-u-vittekha, "nem o teu filho, nem a tua filha".

Ben, "filho", e bat, "filha", cada um com o sufixo "teu". No texto hebraico as duas palavras vêm unidas por um traço, o maqqef (o hífen hebraico, que junta palavras numa só unidade de pronúncia). Filho e filha formam um bloco.

עַבְדְּךָ וַאֲמָתְךָ — avdekha va-amatekha, "nem o teu servo, nem a tua serva".

Eved, "servo", e amah, "serva", com o sufixo "teu". No texto do Êxodo, "o teu servo" vem sem o "e" que liga os outros nomes; no Deuteronômio (5:14) o "e" está lá. A ausência agrupa a lista — o ouvinte; os filhos; os servos; o animal e o estrangeiro —, mas pode ser só variação de escrita.

וּבְהֶמְתֶּךָ — u-vehemtekha, "nem o teu animal".

Behemah, o animal doméstico grande, o gado, em oposição ao animal do campo. No singular, com valor coletivo: todo o teu gado. O sufixo "teu" põe o animal na mesma relação de pertença que o servo.

וְגֵרְךָ — ve-gerkha, "nem o estrangeiro", literalmente "e o teu estrangeiro".

Ger, o estrangeiro residente, com o sufixo de posse: "o teu estrangeiro". A tradução tira o possessivo, que soaria como propriedade; o sufixo indica relação — o estrangeiro que mora contigo. Mas a gramática é a mesma de "o teu servo" e "o teu animal", e foi essa igualdade que abriu a discussão sobre de quem era a obrigação.

אֲשֶׁר בִּשְׁעָרֶיךָ — asher bi-she'arekha, "que está dentro das tuas portas".

Asher, "que"; be, "em"; she'arim, "portas", plural de sha'ar, a porta da cidade, com o sufixo "teu". Literalmente, "nas tuas portas". A palavra designa o portão da muralha e, por extensão, a cidade inteira; o campo de sentido de sha'ar como lugar público está no estudo de Gênesis 23:10. Com o sufixo "tuas", a forma aparece 29 vezes na Torá: 28 no Deuteronômio e uma só no restante dos cinco livros — aqui.

11. Conclusão

Com base no que foi visto, o versículo leva a uma conclusão sobre a natureza do sábado: ele não é, em primeiro lugar, um direito do indivíduo ao repouso, e sim um limite imposto a quem tem autoridade sobre o trabalho de outros. A lista existe porque o descanso de um só seria fácil de comprar com o cansaço dos demais.

Leva também a uma conclusão sobre os limites dessa lei. Ela alcança o filho pequeno, o escravo, o boi e o estrangeiro, mas fala a eles através do dono, e por isso os nomeia como coisas "tuas". O mesmo pronome que protege também revela a quem o texto se dirige — e explica por que a esposa ficou sem nome, sem que se possa dizer com segurança o que esse silêncio significa.

E leva, por fim, a uma conclusão sobre o tempo do texto. "Dentro das tuas portas" é uma lei para cidades dita num acampamento. O versículo regula uma vida assentada que ainda não existe, e põe dentro dela, desde o primeiro dia, o estrangeiro e o animal.

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Êxodo 20:10

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