Porque em seis dias o SENHOR fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e repousou no sétimo dia; por isso o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou.
1. Introdução
Este é o único dos Dez Mandamentos que traz a sua razão tirada da criação do mundo: o povo para no sétimo dia porque Deus parou. A frase repete Gênesis 2 com três mudanças — o mar entra na lista do que foi feito, o verbo do repouso de Deus é outro, e o sétimo dia já é chamado de "sábado". O verbo escolhido é o mesmo com que a Torá fala do descanso do boi e do servo. E quando Moisés repete o mandamento, em Deuteronômio 5:15, a razão é outra: a escravidão no Egito. Duas justificativas para a mesma lei, e uma tradição inteira tentando explicar por quê.
2. Contexto Histórico e Cultural
Deuses que descansam à custa de outros
A ideia de que a divindade descansa depois de pôr o mundo em ordem não era estranha ao Oriente antigo. O que mudava era quem pagava o descanso. No poema babilônico de Atrahasis, os deuses menores se cansam de cavar canais e se revoltam, e o ser humano é criado para carregar o trabalho deles, de modo que os deuses possam repousar — o poema e essa lógica estão apresentados no estudo de Gênesis 18:20. O versículo do Êxodo inverte a conta: o repouso de Deus não exige que alguém trabalhe no lugar dele; ao contrário, vira a razão pela qual ninguém trabalha naquele dia, nem o servo.
Repouso e templo
No mundo antigo, o deus "repousa" quando toma posse da sua casa. O templo é o lugar onde ele se assenta depois da vitória ou da obra concluída. A Bíblia usa essa linguagem: "Levanta-te, SENHOR, para o lugar do teu repouso, tu e a arca da tua força" (Salmo 132:8), e logo adiante, na boca de Deus: "Este é o lugar do meu repouso para sempre; aqui habitarei" (Salmo 132:14). O substantivo "repouso", nesses versos, é da mesma raiz do verbo que Êxodo 20:11 usa para Deus.
John H. Walton (estudioso norte-americano do Antigo Testamento), em The Lost World of Genesis One ("O mundo perdido de Gênesis 1", 2009), leu a semana da criação a partir dessa ideia: os seis dias montam o cosmo como um templo, e o sétimo é o dia em que Deus se instala nele para governar. Repousar, nessa leitura, não é parar de agir; é assumir o lugar de onde se age. A tese tem críticos, que a acham dependente demais dos paralelos externos, mas explica um dado do vocabulário: o repouso de Deus e a casa de Deus são ditos com as mesmas palavras.
Sete dias de festa, e o escravo ao lado do senhor
Gudea (governante da cidade suméria de Lagash, no século XXII antes de Cristo) mandou gravar numa das suas estátuas — a chamada Estátua B, hoje no Museu do Louvre — o relato da dedicação de um templo ao deus da cidade. Segundo as traduções correntes, a festa durou sete dias; nesses dias não se moeu grão, a escrava foi igual à sua senhora e o escravo andou ao lado do seu senhor.
O paralelo não é de origem: Gudea viveu mais de mil anos antes de qualquer data proposta para o Decálogo, e a festa dele é única, não semanal. O que o texto mostra é a associação antiga entre três coisas — a obra divina concluída, o número sete e a suspensão da diferença entre senhor e escravo. Êxodo 20:11 fica com a primeira e a segunda; Deuteronômio 5:14-15 fica com a terceira.
Os dois motivos num só manuscrito
Entre os manuscritos achados nas cavernas de Qumran (junto ao mar Morto, copiados entre o século III antes de Cristo e o século I depois), há uma cópia do Deuteronômio conhecida como 4QDeutn (a sigla indica caverna 4, livro do Deuteronômio, manuscrito "n"). No texto do sábado, depois do motivo do Egito, ela acrescenta o motivo da criação, com as palavras de Êxodo 20:11. As duas razões aparecem juntas, uma depois da outra.
Discute-se se o manuscrito é uma Bíblia corrida ou uma seleção de trechos para estudo ou oração. Nos dois casos, ele mostra que já na Antiguidade houve quem quisesse as duas razões no mesmo lugar.
A pergunta dos estudiosos modernos
A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) inverte a relação que o versículo parece estabelecer: o relato da criação em seis dias não seria a causa do sábado, e sim o resultado de uma semana que já existia e terminava num dia parado. Muitos estudiosos atribuem o motivo de Êxodo 20:11 ao mesmo ambiente de sacerdotes que escreveu Gênesis 1, e o de Deuteronômio 5:15 ao ambiente que produziu o Deuteronômio, com a sua preocupação social. É hipótese, com variantes e muitos críticos; o que ela tenta explicar é um fato que qualquer leitor vê — o mesmo mandamento, com duas razões diferentes.
3. Análise Teológica do Versículo
"Porque"
A palavra liga uma lei a uma história. Os mandamentos anteriores davam motivos curtos, ligados ao próprio Deus: ele é zeloso, ele não deixa impune. Este dá como motivo um relato inteiro — o da criação do mundo. O povo não recebe só a ordem de parar; recebe a explicação de onde vem o ritmo. E a explicação não fala de cansaço humano, nem de saúde, nem de produtividade: fala do que Deus fez.
"em seis dias o SENHOR fez"
Em hebraico não há a preposição "em". O texto diz, ao pé da letra, "porque seis dias o SENHOR fez". O português supre o "em", como fazem quase todas as traduções, e a leitura natural é essa: os seis dias são o tempo da obra.
Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) recusou o acréscimo. Para ele, a falta do "em" não é descuido: o versículo diz que Deus fez os seis dias. Os dias não são o prazo dentro do qual o mundo foi feito; são parte do que foi feito. E ele vai além: os seis dias da criação seriam figura de seis mil anos da história do mundo, e o sétimo, de um milênio inteiro de repouso. A leitura é cabalística e Nachmânides a apresenta como tal; o dado gramatical que a provoca, porém, está no texto.
A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado por volta do século III), no tratado Bachodesh, seção 7, tira outra coisa da frase: "aprendemos que o dia do sábado equivale a toda a criação". Seis dias de obra de um lado; um dia de outro; e o dia pesa tanto quanto a obra.
"os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há"
Gênesis 2:1 fecha a criação com "os céus e a terra, e todo o seu exército". O mandamento faz outra lista: céus, terra, mar, e tudo o que neles há. O cosmo vira três andares, e o mar ganha nome próprio.
A fórmula reaparece em orações tardias da Bíblia — na confissão dos levitas em Neemias 9:6 e no Salmo 146:6 —, como um modo fixo de dizer "tudo". Mas no Êxodo ela cai num lugar particular. O povo que ouve atravessou o mar poucas semanas antes, e cantou que as águas se amontoaram ao sopro de Deus. Nomear o mar entre as obras dos seis dias diz que aquilo que se abriu diante de Israel não era um poder rival, e sim criatura. A ligação é leitura, não está escrita; mas a escolha do mar, ausente da lista de Gênesis 2:1, é do texto.
"e repousou no sétimo dia"
O verbo não é o de Gênesis 2:2, que a tradução da ABC verte por "descansou" e que quer dizer "cessar". É outro, o do repouso de quem se assenta e se acomoda. Que Êxodo 20:11 troca o verbo de Gênesis — e que Êxodo 31:17 volta a ele — está registrado no estudo de Êxodo 16:30. O que este versículo acrescenta é para onde o verbo novo aponta.
Ele aponta para os trabalhadores. É o verbo com que a Torá fala do repouso do boi, do jumento e do servo (item 10). O repouso de Deus no sétimo dia é dito com a palavra do repouso de quem trabalha para outro — e é exatamente o servo que o Deuteronômio porá no centro do mandamento.
Daí sai uma consequência que os comentaristas antigos sentiram por outro caminho. A Mekhilta pergunta se Deus se cansa, e responde com Isaías 40:28 ("ele não se cansa nem se fatiga"): Deus não precisava de repouso. Então por que o texto diz que ele repousou? "Ele escreveu a respeito de si mesmo", diz a Mekhilta, que criou o mundo em seis dias e repousou no sétimo, para que se raciocine do maior para o menor: se aquele que não se cansa registrou um repouso, quanto mais o ser humano, que "nasce para o trabalho" (Jó 5:7). Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) adota a explicação inteira. O repouso de Deus, nessa leitura, é pedagógico: ele se descreve como trabalhador para que o trabalhador tenha um modelo.
Obadias Sforno (comentarista italiano do século XVI) lê de outro modo: Deus repousou porque tudo estava completo, e só o que está completo admite um repouso sem tensão. O repouso não é recuperação; é o estado de quem terminou.
"por isso o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou"
Gênesis 2:3 diz que Deus abençoou "o sétimo dia". O mandamento diz que abençoou "o dia de sábado". O número virou nome. Ao citar a criação, o Decálogo põe dentro dela o nome que o dia só ganhou no deserto, com o maná. A semana de Deus é contada com o vocabulário da semana de Israel.
O que é abençoar um dia? A Mekhilta registra várias respostas, cada uma de um mestre. Rabi Ishmael: abençoou-o com o maná, que caía em dobro na véspera, e santificou-o com o maná, que não caía nele. Rabi Akiva: abençoou-o com o maná e santificou-o com uma bênção dita sobre ele. Rabi Shimon bar Yochai: santificou-o com as luzes do céu, que não se apagaram na primeira noite de sábado. Para todos, a bênção do dia se manifesta em algo que se vê.
Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII) junta as duas pontas: a bênção da criação foi uma provisão guardada para quando Israel viesse a guardar o dia, e o maná da sexta-feira foi o primeiro sinal dela. Ibn Ezra dá ao verbo um sentido interior — um acréscimo de sabedoria às almas naquele dia —, e Nachmânides o corrige com a leitura mais sóbria: o dia é abençoado porque Deus mandou que o povo o honrasse.
As duas razões do sábado
Quando Moisés repete o Decálogo, o motivo é outro: "Lembra-te de que foste escravo na terra do Egito, e de que o SENHOR, o teu Deus, te tirou de lá com mão forte e braço estendido; por isso o SENHOR, o teu Deus, te ordenou guardar o dia de sábado" (Deuteronômio 5:15). A criação desaparece. Por que duas razões?
Primeira leitura: as duas valem para coisas diferentes dentro do mesmo mandamento. É a de Ibn Ezra. O descanso do israelita lembra a criação; o descanso que ele dá ao servo lembra o Egito. O "por isso" do Deuteronômio se refere só à frase anterior, a dos servos que descansam "como tu".
Segunda leitura: as duas valem para o sábado inteiro, mas respondem a perguntas diferentes. É a de Maimônides (Moisés ben Maimon, filósofo e jurista judeu do século XII), no Guia dos perplexos (II, 31). A criação explica a honra do dia — por que ele é santo. O Egito explica por que Israel recebeu a lei — porque, como escravo, nunca pôde escolher o tempo do próprio trabalho nem parar. Um motivo firma uma verdade sobre o mundo; o outro faz bem ao corpo de quem foi escravo.
Terceira leitura: o Egito é prova da criação. É a de Nachmânides, que critica as duas anteriores. Contra Ibn Ezra, lembra que a bênção do sábado na liturgia judaica chama o dia, ao mesmo tempo, de "memória da obra do princípio" e de "lembrança da saída do Egito" — as duas razões juntas, para o mesmo dia. Contra Maimônides, objeta que quem vê alguém parado no sábado não pensa no Egito. A solução dele: a saída do Egito, com os sinais e o domínio sobre a natureza, foi a demonstração de que existe um Deus que fez o mundo por vontade própria. Lembrar o Egito é lembrar a criação por outro caminho.
Quarta leitura: o Egito impõe uma condição. Rashi resume Deuteronômio 5:15 numa frase: Deus os libertou com a condição de que fossem servos dele e guardassem os seus mandamentos. O sábado não comemora só a liberdade; registra a troca de senhor.
As quatro leituras supõem que as duas versões se completam. A pesquisa moderna, como se viu no item 2, explica a diferença pela história do texto. O versículo, sozinho, só diz uma das razões, e não dá sinal de conhecer a outra.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O SENHOR como criador
O relato de Gênesis 1:1-2:3 chama o criador de "Deus", e só de "Deus", do primeiro ao último versículo. O nome próprio, SENHOR, só entra em Gênesis 2:4. O mandamento atribui a semana da criação ao SENHOR: "em seis dias o SENHOR fez". O Deus que se apresentou no Sinai como aquele que tirou o povo do Egito é dito aqui o mesmo que fez o mundo. A identificação não é novidade bíblica, mas é a primeira vez que ela aparece dentro de uma lei.
Moisés, que repetirá o mandamento com outra razão
O Decálogo do Êxodo é dito por Deus diretamente. O do Deuteronômio é posto na boca de Moisés, quarenta anos depois, nas planícies de Moabe, diante da geração seguinte. É nessa segunda versão que a criação some e o Egito entra como motivo.
Os acontecimentos que o versículo supõe
A semana da criação, narrada em Gênesis 1:1-2:3, que o mandamento resume numa frase.
O primeiro sábado do maná, em Êxodo 16, quando o povo já tinha parado no sétimo dia sem ter recebido ainda o Decálogo. O "dia de sábado" que Deus abençoou na criação, segundo este versículo, é o dia que o povo aprendeu a reconhecer pelo chão vazio no deserto.
A travessia do mar, em Êxodo 14, poucas semanas antes. O mar que o mandamento nomeia entre as obras dos seis dias é o mesmo que o povo viu se abrir.
O lugar
O pé do Sinai, onde o povo ouve. O versículo, porém, olha para trás até o começo do mundo, e é o único dos Dez que sai do tempo de Israel para o tempo de antes de haver Israel.
5. Pontos de Ensino
1. O ritmo da semana tem uma razão declarada. O mandamento não deixa o sábado como costume sem explicação. A razão dada não é utilitária — não diz que o descanso faz bem ou aumenta o rendimento —; é teológica: o povo imita, no próprio calendário, o ritmo da obra de Deus.
2. O repouso de Deus não é cansaço. Os comentaristas antigos insistem: Deus não precisava descansar (Isaías 40:28). O repouso descrito é o da obra completa, e serve de modelo. Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) completa que ele cessou de criar, não de agir: continua governando o que fez.
3. A Bíblia guarda duas razões para a mesma lei. O Êxodo fundamenta o sábado na criação; o Deuteronômio, na escravidão do Egito. As duas foram preservadas lado a lado, sem que uma apagasse a outra. Quem lê as duas recebe o sábado como memória do mundo e como memória da liberdade.
4. O dia é abençoado, não só proibido. O versículo termina com bênção e santidade, não com punição. Antes de ser uma lista do que não se faz, o sábado é apresentado como um dia que recebeu algo a mais.
6. Aspectos Filosóficos
O mundo está terminado?
O versículo supõe uma obra concluída. Deus fez tudo em seis dias e, no sétimo, repousou: o repouso vem depois do fim. Daí nasce uma pergunta que a filosofia e a ciência modernas tornaram aguda: o mundo foi feito, ou está sendo feito? Se o universo ainda muda, se as espécies surgem e desaparecem, se a própria matéria tem uma história, em que sentido a criação "terminou" no sexto dia?
Teilhard e a criação que continua
Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), jesuíta francês e paleontólogo, participou das escavações que revelaram o chamado Homem de Pequim, na China, e passou a vida tentando pensar a fé cristã dentro da evolução. Nos seus dois livros mais conhecidos, O fenômeno humano (escrito no fim dos anos 1930, publicado em 1955) e O meio divino (escrito em 1927, publicado em 1957), a tese é a mesma: o universo não é um objeto pronto, e sim uma gênese em curso. Ele a chamou de cosmogênese — o cosmo se fazendo. A matéria se organiza em formas cada vez mais complexas, e a complexidade traz consigo graus maiores de consciência: da molécula à célula, da célula ao sistema nervoso, do animal ao ser humano que pensa. A linha não para no ser humano. Teilhard a projeta para um ponto final de convergência, que chamou de Ponto Ômega.
Para ele, a criação não é um ato instantâneo no passado: é um processo que dura enquanto o mundo dura. Uma frase que se costuma atribuir a ele resume a ideia: Deus não faz as coisas; faz com que elas se façam. E o trabalho humano, nessa visão, é participação na obra. Em O meio divino, Teilhard escreve sobre a "divinização das atividades": o que o ser humano constrói, pesquisa e organiza colabora com uma criação ainda inacabada.
O choque com o versículo
Lido ao lado de Teilhard, Êxodo 20:11 parece dizer o contrário. Ali a obra acabou e o repouso a sela; em Teilhard a obra continua e o repouso, se houver, está no fim. O sábado do mandamento olha para trás, para um mundo completo. A cosmogênese olha para frente, para um mundo que ainda não existe inteiro.
E há uma tensão sobre o trabalho. Se o trabalho humano prolonga a criação, por que pará-lo um dia em cada sete? Teilhard, que valorizava o esforço como poucos teólogos do seu século, deu espaço também ao que chamou de "passividades" — tudo o que o ser humano não faz e apenas recebe: o crescimento, a doença, a velhice, a morte. Em O meio divino, elas são a segunda metade da vida espiritual, ao lado das atividades. O sábado poderia ser lido nesse registro: o dia em que se deixa de produzir e se aceita o que foi dado. Mas a ligação é nossa; Teilhard não escreveu sobre o sábado.
Onde a tradição judaica chega perto
O curioso é que a leitura rabínica e medieval já tinha empurrado o sábado para o futuro. O Talmude, no tratado Berakhot (57b), diz que o sábado é um sexagésimo do mundo vindouro: uma amostra pequena do que virá. E Nachmânides, como se viu no item 3, leu os seis dias como seis mil anos de história e o sétimo como um milênio inteiro de repouso. Nessas leituras, o sábado deixa de ser só memória de um começo acabado e vira antecipação de um fim.
O método é outro — Nachmânides projeta para o futuro a forma da semana; Teilhard tira o futuro da matéria em evolução —, mas os dois concordam num ponto que o versículo, ao pé da letra, não diz: o repouso verdadeiro ainda não chegou.
O limite
Teilhard foi recebido com desconfiança pela própria Igreja: em 1962 o Santo Ofício (o órgão do Vaticano responsável pela doutrina) publicou uma advertência sobre os seus escritos, por ambiguidades consideradas graves. E o versículo não tem nenhuma cosmologia evolutiva: não fala de processo, fala de seis dias e de repouso. O que a comparação mostra é uma pergunta que o texto deixa aberta sem querer — se o repouso de Deus encerra a criação ou apenas a interrompe. O versículo diz que Deus repousou; não diz que nunca mais agiu.
7. Aplicações Práticas
Parar como quem considera a obra feita
O repouso do versículo vem depois de uma obra que se declara completa. Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) tira daí uma imitação concreta: assim como Deus olhou para o mundo acabado, quem guarda o sábado deve olhar para as tarefas da semana como encerradas, sem levar para o sétimo dia as que vêm depois. A aplicação tem relação direta com o texto: o dia de parada não é só ausência de serviço; é a decisão de tratar o que foi feito como suficiente por uma semana, ainda que não esteja.
O ritmo não depende da necessidade
O motivo do mandamento não é o cansaço. Deus repousou sem estar cansado. Isso tira do sábado o caráter de pausa para recuperar forças e voltar a produzir mais. Quem para só quando não aguenta mais está seguindo outra lógica; o versículo propõe uma parada marcada no calendário, antes do esgotamento e independente dele.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se Deus repousou no sétimo dia, ele parou de agir no mundo?
Os comentaristas respondem que não. Matthew Poole diz que Deus cessou de criar, mas continua a governar e sustentar o que criou. A própria Torá registra Deus agindo em sábados — o maná que não cai no sétimo dia é uma ação, não uma ausência. O repouso do versículo é o fim de um tipo de obra, a de dar origem ao mundo, e não um afastamento.
O versículo obriga a ler os dias de Gênesis 1 como dias de vinte e quatro horas?
O argumento existe: se a semana do povo copia a semana de Deus, os dias seriam iguais. Mas o versículo compara ritmos, não durações, e leitores judeus antigos e medievais que liam o texto ao pé da letra em muitos pontos — a Mekhilta, Nachmânides — não tiraram dele essa conclusão. O texto não diz quanto durou o dia de Deus; diz que a semana humana tem a forma da obra divina.
Por que o mandamento do Êxodo não menciona o Egito, se acabou de falar da "casa da servidão" em Êxodo 20:2?
O Decálogo do Êxodo abre com o Egito e, no sábado, vai para a criação. Pode-se pensar que o motivo do Egito já estava dado no começo e não precisava ser repetido; ou que o sábado, sendo marca do mundo inteiro, pedia um motivo anterior à história de Israel. Nenhum comentarista clássico consultado resolve a pergunta, e ela continua aberta.
O sábado era guardado antes do Sinai?
Pelo relato do próprio Êxodo, sim: o povo já parou no sétimo dia no deserto, no episódio do maná, antes de ouvir o Decálogo. Se a bênção do dia vem da criação, a pergunta seguinte é se os patriarcas a conheciam. O Gênesis nunca mostra Abraão, Isaque ou Jacó guardando o sábado, e nenhum texto anterior ao Êxodo usa a palavra. O versículo funda o sábado na criação, mas a prática dele, na narrativa bíblica, começa no deserto.
9. Conexão com Outros Textos
A semana que o mandamento cita
Gênesis 2:2-3 — "No sétimo dia Deus já havia terminado a obra que fez, e nesse sétimo dia descansou de toda a obra que havia feito. Deus abençoou o sétimo dia e o santificou, porque nele descansou de toda a obra que havia criado e feito."
A fonte da frase do mandamento. Aqui é "Deus", não "o SENHOR"; "o sétimo dia", não "o dia de sábado"; e o verbo do descanso é o de cessar.
A outra razão
Deuteronômio 5:15 — "Lembra-te de que foste escravo na terra do Egito, e de que o SENHOR, o teu Deus, te tirou de lá com mão forte e braço estendido; por isso o SENHOR, o teu Deus, te ordenou guardar o dia de sábado."
O mesmo mandamento, na boca de Moisés, com a escravidão no lugar da criação.
A razão da criação, de novo
Êxodo 31:16-17 — "Os filhos de Israel guardarão o sábado, celebrando o sábado nas suas gerações como aliança perpétua. Entre mim e os filhos de Israel é sinal para sempre; porque em seis dias o SENHOR fez os céus e a terra, e no sétimo dia cessou e tomou fôlego."
A volta à razão da criação, agora com o sábado como sinal de aliança. O "tomou fôlego" é a palavra de quem recupera as forças — a mesma que Êxodo 23:12 usa para o filho da serva que descansa no sábado.
O lugar do repouso
Isaías 66:1 — "Assim diz o SENHOR: 'O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés. Que casa vocês me construiriam? E onde seria o lugar do meu repouso?'"
O substantivo da raiz de "repousou", agora numa pergunta: nenhuma casa humana contém o repouso de Deus.
A fórmula dos três andares
Salmo 146:5-6 — "Feliz aquele cujo auxílio é o Deus de Jacó, cuja esperança está no SENHOR, o seu Deus, que fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e que guarda a fidelidade para sempre."
A lista de Êxodo 20:11, palavra por palavra, virou fórmula de oração.
O Deus que não se cansa
Isaías 40:28 — "Você não sabe? Não ouviu? O SENHOR é o Deus eterno, o Criador dos confins da terra. Ele não se cansa nem se fatiga; o seu entendimento é insondável."
O versículo que a Mekhilta opõe ao "repousou": se Deus não se cansa, o repouso dele é outra coisa que recuperação.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Porque em seis dias o SENHOR fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e repousou no sétimo dia; por isso o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou.
Texto hebraico
כִּי שֵׁשֶׁת־יָמִים עָשָׂה יְהוָה אֶת־הַשָּׁמַיִם וְאֶת־הָאָרֶץ אֶת־הַיָּם וְאֶת־כָּל־אֲשֶׁר־בָּם וַיָּנַח בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי עַל־כֵּן בֵּרַךְ יְהוָה אֶת־יוֹם הַשַּׁבָּת וַיְקַדְּשֵׁהוּ׃
Transliteração
ki sheshet-yamim asah YHWH et-ha-shamayim ve-et-ha-arets et-ha-yam ve-et-kol-asher-bam va-yanach ba-yom ha-shevi'i al-ken berakh YHWH et-yom ha-shabbat va-yeqaddeshehu.
Análise palavra por palavra
כִּי — ki, "porque".
Conjunção causal. Liga o versículo inteiro à ordem de Êxodo 20:8-10: o que vem agora é o motivo.
שֵׁשֶׁת־יָמִים — sheshet-yamim, "em seis dias".
Numeral "seis" na forma ligada ao substantivo, e yamim, "dias". Não há a preposição be, "em". Em hebraico, um substantivo de tempo pode funcionar sozinho como indicação de duração — "seis dias" como quem diz "durante seis dias" —, e é assim que a gramática comum lê a frase. Nachmânides preferiu ler os seis dias como objeto do verbo: "o SENHOR fez seis dias". As duas análises são possíveis na sintaxe; a primeira é a usual.
עָשָׂה יְהוָה — asah YHWH, "o SENHOR fez".
Verbo asah, "fazer", no passado, terceira pessoa masculina do singular. Gênesis 2:3 usa dois verbos para a obra — bara, "criar", e asah, "fazer"; o mandamento fica só com o segundo, o verbo comum de toda produção. O sujeito é o nome próprio de Deus, as quatro consoantes que a ABC traduz por SENHOR.
אֶת־הַשָּׁמַיִם וְאֶת־הָאָרֶץ אֶת־הַיָּם וְאֶת־כָּל־אֲשֶׁר־בָּם — et-ha-shamayim ve-et-ha-arets et-ha-yam ve-et-kol-asher-bam, "os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há".
Quatro objetos, cada um marcado pela partícula et, que em hebraico assinala o objeto direto definido. Estão arrumados em dois pares, cada par ligado por "e": céus e terra; mar e tudo o que há neles. Entre os pares não há "e" — o que a ABC reproduz com a vírgula. Ha-yam, "o mar", é a mesma palavra do mar da travessia (Êxodo 14-15). Bam, "neles", é a preposição be com o sufixo de terceira pessoa do plural, e abrange os três espaços.
וַיָּנַח — va-yanach, "e repousou".
Verbo nuach, "repousar, assentar-se, ficar quieto", na forma simples (o Qal), terceira pessoa masculina do singular, na forma que encadeia a narrativa. A troca deste verbo pelo shavat de Gênesis 2:2 está analisada no estudo de Êxodo 16:30.
O que o campo de nuach mostra aqui é a companhia. O verbo descreve a arca que "repousou" sobre os montes de Ararate (Gênesis 8:4), a pomba que não achou onde "repousar" a planta do pé (Gênesis 8:9) e, nas leis, o repouso dos que trabalham: lema'an yanuach shorkha va-chamorekha, "para que repousem o teu boi e o teu jumento" (Êxodo 23:12), e lema'an yanuach avdekha va-amatekha kamokha, "para que repousem o teu servo e a tua serva como tu" (Deuteronômio 5:14). O substantivo da mesma raiz, menuchah, é o "lugar de repouso" de Deus no templo (Salmo 132:8, 14). O verbo que diz o repouso de Deus no Decálogo é, portanto, o mesmo do repouso do boi, do servo e da arca encalhada: o de quem para depois de carregar ou de vagar.
בַּיּוֹם הַשְּׁבִיעִי — ba-yom ha-shevi'i, "no sétimo dia".
Preposição be, "em", fundida com o artigo, mais o numeral ordinal. A mesma expressão de Gênesis 2:2 e Êxodo 16:30.
עַל־כֵּן — al-ken, "por isso".
Literalmente "sobre isso". É a locução com que o hebraico liga um costume ou um nome ao fato que o explica: "por isso o homem deixa o seu pai e a sua mãe" (Gênesis 2:24), "por isso foi chamado Babel" (Gênesis 11:9). Aqui, ela liga a bênção do dia ao repouso de Deus.
בֵּרַךְ יְהוָה — berakh YHWH, "o SENHOR abençoou".
Verbo barakh na forma intensiva (o Piel), no passado. Gênesis 2:3 conta a bênção com a forma narrativa ("e abençoou"); o mandamento, depois do "por isso", usa o passado simples, como quem cita um fato estabelecido.
אֶת־יוֹם הַשַּׁבָּת — et-yom ha-shabbat, "o dia de sábado".
"Dia" ligado a "o sábado": "o dia do sábado". Em Gênesis 2:3, o objeto é yom ha-shevi'i, "o dia sétimo". O substantivo shabbat não aparece em todo o Gênesis; aqui ele é posto dentro da citação da criação.
וַיְקַדְּשֵׁהוּ — va-yeqaddeshehu, "e o santificou".
Verbo qadash, "ser santo", na forma intensiva, que dá o sentido de "tornar santo, separar", na forma narrativa, com o sufixo "o" colado ao verbo. Gênesis 2:3 diz o mesmo com o pronome solto, va-yeqaddesh oto. O versículo abre com o motivo e fecha com a mesma palavra que abria o mandamento: "lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo" (Êxodo 20:8). A ordem começa e termina em "santificar".
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: o sábado do Êxodo é apresentado como imitação, não como necessidade. Deus não estava cansado, e mesmo assim o texto diz que repousou; o povo para porque o seu calendário foi moldado no da obra divina. O descanso fica, desse modo, protegido de virar pausa técnica a serviço da produção.
A segunda: o vocabulário aproxima o repouso de Deus do repouso dos que dependem de outros. Ao escolher o verbo do boi e do servo, o mandamento põe o descanso do último da casa debaixo do mesmo nome do descanso de Deus. A razão da criação e a razão do Egito, que o Êxodo e o Deuteronômio dizem separadas, já se tocam dentro deste verbo.
A terceira: a Bíblia preferiu guardar duas razões a escolher uma. A tradição judaica e a pesquisa moderna explicaram a diferença de modos opostos — uma pela complementaridade, a outra pela história do texto —, e o próprio versículo não resolve a questão. O que se pode afirmar é que o mesmo dia foi ligado, desde a Antiguidade, à origem do mundo e à saída da escravidão.













