Então o SENHOR disse: “O clamor contra Sodoma e Gomorra é grande, e o pecado deles é gravíssimo.
1. Introdução
Duas cidades têm fama. E a fama chegou.
Só que o hebraico não diz fama. Diz grito.
A palavra que abre a acusação é a mesma do sangue de Abel subindo do chão, a mesma dos escravos no Egito, a mesma do salário retido que chega aos ouvidos do Senhor dos exércitos.
É grito de vítima. Alguém, em Sodoma, está gritando.
E o texto nunca diz quem. Nem uma vítima é nomeada, nem um episódio é descrito.
Daí a pergunta que este versículo obriga a fazer, e que é discutida há mais de dois mil anos: afinal, qual era o pecado de Sodoma?
A resposta corrente é curta e cabe numa palavra. O dossiê bíblico é bem maior — e os dois lados que hoje disputam a passagem têm o mesmo hábito de citá-lo pela metade.
Aqui ele vai inteiro.
2. Contexto Histórico e Cultural
Onde ficavam as cidades
Convém começar pelo mapa, porque a geografia explica a cena.
Abraão está em Manre, junto de Hebrom, na serra de Judá — cerca de novecentos metros acima do nível do mar. A depressão do mar Morto, para onde os visitantes se voltam, está aproximadamente quatrocentos metros abaixo do nível do mar.
Mais de mil metros de diferença num trecho curto. Do alto de Hebrom enxerga-se de fato a bacia lá embaixo, e é essa topografia que dá sentido literal ao verbo do versículo seguinte.
Quanto à localização exata de Sodoma e Gomorra, não há consenso, e é honesto dizê-lo sem rodeios. Propuseram-se sítios ao sul do mar Morto, como Bab edh-Dhra e Numeira, e sítios ao norte, como Tall el-Hammam, este último objeto de debate aceso nas últimas décadas.
Nenhuma dessas identificações está demonstrada. Não há inscrição, não há nome, não há documento que ligue um monte de ruínas a estes dois nomes. O que existe são cidades da Idade do Bronze destruídas, o que na região é comum, e a discussão continua aberta.
Vale registrar isso com clareza, porque circula muito material que apresenta uma dessas identificações como fato assentado. Não é.
A pentápole e o vale
O Gênesis trata Sodoma e Gomorra como parte de um grupo de cinco cidades.
O capítulo 14 nomeia as outras — Admá, Zeboim e Bela, chamada também Zoar — e situa o conflito no vale de Sidim, que o texto descreve cheio de poços de betume.
Betume é o asfalto natural que aflora na região do mar Morto até hoje, e que era mercadoria de valor no mundo antigo: servia para calafetar embarcações, assentar tijolos e, no Egito, entrava no preparo dos corpos embalsamados.
Isso ajuda a entender por que aquele fundo de vale era rico. O capítulo 13 diz que Ló olhou e viu a planície do Jordão bem regada, comparável ao jardim do SENHOR e à terra do Egito.
Ou seja: quando o texto acusa Sodoma, não está acusando um vilarejo miserável. Está acusando cidades prósperas, e a prosperidade vai reaparecer na acusação de Ezequiel.
O clamor como procedimento jurídico
Este é o ponto de contexto mais importante, e o menos conhecido.
No Antigo Oriente Próximo, o grito do prejudicado não era só desabafo. Era o começo de um processo.
Quem sofria violência ou perdia o seu direito gritava em praça pública, e o grito funcionava como denúncia formal — o equivalente antigo de dar queixa. Ele chamava testemunhas, obrigava os presentes a tomar conhecimento e, em tese, subia até a autoridade.
Os reis da região faziam questão de se apresentar como aqueles que ouviam esse grito. O prólogo do código de Hamurabi diz que o rei foi posto para que o forte não oprima o fraco e para fazer justiça ao órfão e à viúva. Reformas mais antigas, como as atribuídas a Urukagina em Lagas, usam o mesmo vocabulário de proteção do desamparado.
No Egito, o conto do camponês eloquente encena exatamente isso: um homem lesado que insiste em ser ouvido, e cuja fala repetida é o instrumento do seu direito.
Retenha-se, portanto: quando este versículo diz que um clamor chegou, ele está usando linguagem de tribunal. Uma denúncia deu entrada.
Um paralelo mesopotâmico — e a diferença que ele revela
Vale a comparação, porque ela é instrutiva nos dois sentidos.
O poema babilônico de Atrahasis conta que os deuses resolveram destruir a humanidade porque o barulho dos homens havia crescido e não os deixava dormir. O termo empregado ali designa alarido, rumor, agitação.
A estrutura é parecida com a do nosso versículo: um som sobe da terra, a divindade reage, uma catástrofe é decidida.
A diferença é de natureza moral, e é grande. No poema, o som que sobe é incômodo — a humanidade é barulhenta demais para o sono dos deuses. Aqui, o som que sobe é o grito de quem está sendo lesado, e a reação é de juízo.
Não se trata de dizer que um texto é primitivo e o outro elevado. Trata-se de observar que o Gênesis usa uma forma narrativa corrente no seu mundo e a preenche com conteúdo ético.
Registro a comparação como leitura, e nada nela depende de o autor do Gênesis conhecer o poema babilônico.
Onde estamos no capítulo
Um último dado de posição.
Três versículos antes, o SENHOR perguntou consigo se esconderia de Abraão o que estava para fazer. Dois versículos antes, lembrou a promessa das nações. Um versículo antes, disse que escolhera Abraão para que ele ordenasse aos seus a prática da justiça e do juízo.
É logo depois disso que a acusação é enunciada em voz alta. O monólogo termina e a fala se dirige a alguém.
Guarde-se a sequência, porque ela é composição deliberada: a régua é entregue a Abraão no versículo 19, e o caso lhe é apresentado no versículo 20.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então o SENHOR disse"
O hebraico é vayyomer YHWH, e a frase é mais simples do que o problema que ela cria.
Nos versículos anteriores, o texto vinha registrando uma deliberação interior: o SENHOR pensando se contava ou não a Abraão o que estava para fazer.
Agora ele diz. E o texto não informa a quem.
Não há aqui "disse a Abraão", como houve no versículo 13. Não há "disse aos homens". Há apenas "disse".
As leituras correntes são três, e nenhuma pode ser descartada. A primeira: a fala continua sendo interior, e o leitor a escuta como escutou o monólogo dos versículos 17 a 19. A segunda: a fala é dirigida a Abraão, que está caminhando junto, e é por isso que ele poderá responder no versículo 23. A terceira: a fala é dirigida aos dois acompanhantes, que partem para Sodoma no versículo 22.
A que melhor se ajusta ao andamento da cena é a segunda, porque a discussão que vem a seguir pressupõe que Abraão ouviu a acusação. Mas o texto não diz, e registro isso como leitura, não como dado.
Convém notar o procedimento, porque ele é a continuação direta do versículo 17. A acusação é enunciada antes de qualquer ação. Ninguém é destruído em silêncio.
"O clamor contra Sodoma e Gomorra"
Aqui está o coração do versículo, e a palavra precisa ser examinada devagar.
O hebraico é za'aqat Sedom va'Amorah. A palavra za'aqah vem da raiz za'aq, e o Antigo Testamento usa também uma variante gêmea, tsa'aq, com a mesma tradução e praticamente a mesma distribuição.
As duas raízes são consideradas variantes uma da outra, e o próprio texto as alterna sem cerimônia: este versículo usa a primeira, e o versículo seguinte usa a segunda para o mesmo clamor.
Agora o essencial. Esta palavra não significa fama, reputação nem má notícia.
Ela significa grito. Grito agudo, grito de socorro, grito de quem está apanhando.
Vale percorrer as ocorrências, porque elas formam um conjunto notavelmente coerente.
Em Gênesis 4:10, depois do primeiro assassinato, Deus diz a Caim que a voz do sangue do irmão grita a ele desde a terra. O morto não pode falar, e o sangue derramado grita em lugar dele.
No Egito, os israelitas escravizados gritam, e o texto diz que o clamor deles subiu a Deus por causa da servidão. Pouco depois, o SENHOR declara a Moisés que viu a aflição do povo e ouviu o clamor deles por causa dos opressores.
Na legislação de Êxodo 22, a construção é ainda mais explícita. Proíbe-se afligir a viúva e o órfão, e acrescenta-se: se tu o afligires e ele clamar a mim, certamente ouvirei o clamor dele. O mesmo capítulo diz o mesmo a respeito do pobre cuja capa foi tomada em penhor.
Deuteronômio 24 aplica a regra ao trabalhador diarista: paga-se no mesmo dia, antes do pôr do sol, para que ele não clame contra o empregador ao SENHOR, e isso se torne pecado.
Provérbios 21:13 fecha o circuito com uma frase dura: quem tapa o ouvido ao clamor do pobre também clamará, e não será ouvido.
E no Novo Testamento, a carta de Tiago diz que o salário retido dos que colheram nos campos está clamando, e que os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor dos exércitos.
Reúna-se o conjunto: sangue derramado, escravos, viúva, órfão, pobre penhorado, diarista sem salário, ceifeiro defraudado.
A conclusão é inevitável e precisa ser dita com todas as letras: este é o vocabulário da vítima. Quem grita, na Bíblia, é quem está sofrendo dano de outrem.
Isso muda a leitura de Sodoma. O versículo não está dizendo que corriam boatos ruins sobre a cidade. Está dizendo que alguém, de dentro daquela situação, está gritando por socorro — e que o grito subiu.
O grito como categoria jurídica
Convém acrescentar um dado que raramente aparece nos comentários.
No direito israelita antigo, o grito não é apenas expressão de dor: é prova.
Deuteronômio 22 distingue dois casos de violência sexual pela presença ou ausência do grito. Se a agressão ocorre no campo, presume-se que a mulher gritou e não foi socorrida; se ocorre na cidade e ela não gritou, a lei presume consentimento.
É legislação severa, de um mundo que não é o nosso, e as suas penas são brutais para a nossa sensibilidade. Não convém suavizá-la nem transportá-la para cá.
Mas ela documenta uma coisa importante para o nosso versículo: o grito, naquele sistema, é o ato jurídico que constitui a denúncia. Gritar é acusar.
Então, quando o texto diz que o clamor de Sodoma é grande, está registrando que há denúncia formal em curso, e não que a cidade tinha má reputação.
De dentro ou de fora? A ambiguidade que a gramática não resolve
Aqui há uma dificuldade real, e ela é frequentemente escamoteada nas traduções.
O hebraico constrói a expressão por justaposição — o que os gramáticos chamam de estado construto —, e essa construção não distingue quem age de quem sofre.
Ou seja: za'aqat Sedom tanto pode significar "o clamor que Sodoma emite" quanto "o clamor que se levanta contra Sodoma".
É o mesmo tipo de ambiguidade de expressões como "o amor de Deus", que pode ser o amor que Deus tem ou o amor que se tem por Deus. A forma, sozinha, não decide.
A tradução que estamos comentando optou por "contra". Muitas versões antigas mantiveram a forma neutra, "o clamor de Sodoma", deixando a ambiguidade de pé. Nenhuma das duas escolhas é erro.
Vale mostrar o que muda em cada leitura, porque a diferença é grande.
Na primeira leitura, o grito sobe de dentro. Há vítimas dentro de Sodoma — gente sendo lesada, agredida, explorada ali mesmo — e são elas que gritam. Nesse caso, a cidade contém oprimidos, e a destruição total que se anuncia passa a ter um problema embutido: os que gritam também morrem no fogo.
Repare que é exatamente esse problema que Abraão levantará três versículos adiante, ao perguntar se o justo será destruído com o ímpio.
Na segunda leitura, o grito vem de fora. São os lesados pela cidade — viajantes assaltados, hóspedes maltratados, vizinhos espoliados — que clamam contra ela. Nesse caso, Sodoma é agressora e o mundo em volta é a vítima, e a destruição não deixa resíduo moral.
O capítulo 19 dá um dado que pesa, e nem ele decide. Ali os mensageiros dizem a Ló que vão destruir o lugar porque "o clamor deles" subiu demais diante do SENHOR. O sufixo é de terceira pessoa do plural, e continua sem dizer se "deles" são os moradores que gritam ou os prejudicados por eles.
Não é possível decidir. E convém não fingir que é.
O silêncio sobre as vítimas
Há uma ausência neste versículo que merece registro, porque ela costuma passar em branco.
O texto diz que existe um clamor. Não diz de quem.
Nenhuma vítima de Sodoma é nomeada em toda a Bíblia. Nenhum episódio anterior ao capítulo 19 é narrado. Não há a história do estrangeiro assaltado, do pobre despojado, da mulher violentada — nada.
O leitor recebe o volume do grito sem receber uma única voz.
Isso pode ser lido de dois modos, e os dois são legítimos. Pode ser economia narrativa: o narrador hebraico raramente detalha o que não é necessário à ação. Pode ser um efeito deliberado: o grito anônimo é mais amplo do que qualquer caso particular seria.
Registro as duas como leituras, e nenhuma como afirmação do texto. O que se pode dizer com segurança é que a acusação é apresentada sem instrução processual, e que a instrução vem no versículo seguinte.
"é grande"
O hebraico traz ki-rabbah, e convém uma palavra sobre a construção, porque ela é estranha.
A partícula ki costuma significar "porque" ou "que". A frase, ao pé da letra, sai assim: "o clamor de Sodoma e Gomorra, porque é grande, e o pecado deles, porque pesou muito".
Isso não é português, e também não é hebraico corrente. A oração está incompleta: há uma causa enunciada e nenhuma consequência declarada.
Os intérpretes resolvem de três maneiras. Uns entendem o ki como enfático, algo próximo de "de fato, o clamor é grande" — solução simples e bem apoiada. Outros entendem que a frase é uma causa cuja conclusão só chega no versículo 21, com a descida. Outros ainda leem uma frase deixada em suspenso de propósito, com a consequência calada.
Não há consenso, e a diferença prática é pequena. Mas o dado gramatical é interessante por outro motivo: o versículo 20 termina no ar, e o versículo 21 também terminará no ar, com um "eu o saberei" sem complemento. A passagem inteira é sintaticamente inconclusa.
Quanto ao adjetivo, rabbah é a palavra da quantidade: muito, numeroso, abundante. Aplicada a um som, indica volume — um clamor grande é um clamor que se ouve de longe.
"e o pecado deles"
A palavra é chatta't, o termo mais comum do Antigo Testamento para pecado.
A raiz tem um sentido concreto de origem: errar o alvo, falhar o caminho. Em Juízes 20:16 ela descreve fundeiros que atiravam a pedra a um fio de cabelo sem errar — mesmo verbo.
Convém não fazer disso uma doutrina, como às vezes se faz na pregação. A imagem do alvo ajuda a lembrar que o termo indica desvio de uma medida, e não basta para definir o que a Bíblia entende por pecado, que ela descreve por muitas outras palavras.
Note-se que o hebraico traz o substantivo no singular, com sufixo de posse: "o pecado deles". Não é uma lista de faltas: é uma condição atribuída ao conjunto.
E aqui chegamos ao ponto que este versículo obriga a enfrentar.
O que era o pecado de Sodoma — o dossiê inteiro
Este é o momento de reunir tudo o que a Bíblia diz sobre o assunto, sem escolher o que serve.
Comece-se pelo mais importante: este versículo não especifica nada. Diz que o pecado é pesado. Não diz qual é.
O Gênesis, aliás, é econômico. No capítulo 13, o narrador havia adiantado que os homens de Sodoma eram maus e pecadores para com o SENHOR em grande maneira — de novo sem dizer em quê.
A primeira e única cena concreta chega no capítulo 19. E ela é isto: os homens da cidade, todo o povo junto, do mais jovem ao mais velho, cercam a casa de Ló e exigem que os hóspedes lhes sejam entregues, "para que os conheçamos".
Sobre esse verbo há discussão, e ela precisa ser tratada com honestidade nos dois sentidos.
Circula a leitura de que yada', conhecer, significaria ali apenas "travar conhecimento", e que o crime seria só a quebra da hospitalidade. Essa leitura não sobrevive ao próprio capítulo: dois versículos adiante, Ló oferece as filhas dizendo que elas "não conheceram varão", com o mesmo verbo, em sentido inequivocamente sexual. Dentro da mesma cena, o narrador usa a palavra nos dois lugares.
Portanto, o que o capítulo 19 narra é uma tentativa de estupro coletivo contra hóspedes. Isso está no texto e não deve ser apagado.
Convém, na mesma medida, dizer o que a cena não é. Ela não descreve relação entre iguais, não descreve afeto, não descreve convivência: descreve uma multidão inteira exigindo violentar dois recém-chegados. Quem cita o capítulo 19 para falar de outra coisa está mudando de assunto.
Acrescente-se o peso da hospitalidade no mundo antigo. O hóspede acolhido ficava sob a proteção do anfitrião, e agredi-lo era o pior crime social possível — motivo de guerra entre clãs. O próprio capítulo 18 abriu com Abraão correndo ao encontro de três desconhecidos, matando um bezerro e servindo-os de pé, debaixo da árvore.
A composição é evidente e vale mostrá-la: no mesmo capítulo em que um homem recebe estranhos com fartura, anuncia-se o julgamento de uma cidade que fará com estranhos exatamente o contrário.
O que Ezequiel enumera
E agora o dado que a pregação corrente quase nunca cita, e que muda o quadro.
O único lugar da Bíblia que enumera os pecados de Sodoma é Ezequiel 16:49-50.
E a lista é esta: soberba, fartura de pão, abundância de conforto — e a frase decisiva: "porém nunca ajudaram a mão do pobre e do necessitado".
Quatro itens, e três deles descrevem prosperidade. Sodoma, no diagnóstico de Ezequiel, é a cidade rica, farta e tranquila que não estendeu a mão a quem precisava.
Isso combina perfeitamente com o vocabulário do nosso versículo. Quem tem fartura e não socorre produz gente que grita.
Mas o profeta não para aí, e a honestidade exige continuar a citação. O versículo seguinte diz que elas se tornaram arrogantes e "fizeram abominação" diante de Deus.
O termo traduzido por abominação, to'evah, é largo no Antigo Testamento: cobre práticas cultuais, alimentares, sexuais e comerciais. Ezequiel não especifica qual.
Ou seja: Ezequiel não serve de prova para nenhum dos dois lados isoladamente. Ele lista pecados sociais e, em seguida, acrescenta a abominação sem dizer qual. Quem cita o versículo 49 e para ali está omitindo o 50. Quem cita o 50 e ignora o 49 está fazendo o inverso.
O restante do dossiê
Vale reunir as demais menções, porque o conjunto é mais variado do que se supõe.
Jeremias 23:14 compara os profetas de Jerusalém a Sodoma, e o que ele lista é adultério, falsidade e o fortalecimento das mãos dos malfeitores para que ninguém se converta.
Isaías 1:10 chama os chefes de Jerusalém de "líderes de Sodoma" — e o capítulo continua exigindo que aprendam a fazer o bem, busquem o juízo, socorram o oprimido, defendam o órfão e a viúva. O uso do nome vem acompanhado de uma pauta social.
Isaías 3:9 usa Sodoma como imagem da falta de vergonha: mostram os pecados abertamente e não os disfarçam.
No Novo Testamento, a carta de Judas fala de pecados sexuais e de "outra carne", e vale registrar que há discussão sobre o que essa expressão designa — o contexto imediato da carta trata de anjos que abandonaram a própria habitação, e alguns leem daí uma referência à mistura entre categorias de seres, e não simplesmente à conduta dos moradores. É leitura discutida, e não decido.
A segunda carta de Pedro descreve um "corrupto modo de viver" e "injustas obras", em vocabulário de ilegalidade geral, sem detalhar.
Jesus cita Sodoma duas vezes, e é interessante ver em que contexto. Em Mateus 10:15, ao enviar os discípulos, diz que no dia do julgamento haverá mais tolerância para Sodoma e Gomorra do que para a cidade que não receber os mensageiros. A comparação é feita a propósito de hospitalidade recusada.
Em Lucas 17:28-29, o retrato é de vida ordinária: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam, construíam — e então veio o fogo. Ali o que se destaca é a normalidade despreocupada.
Fora do cânon hebraico, escritos judaicos antigos também acusam a cidade. O livro da Sabedoria censura os sodomitas por recusarem acolhida a estrangeiros, e o Eclesiástico os menciona pela soberba. Não são textos que este comentário toma como autoridade, e valem como testemunho de como judeus do período leram a história.
As duas leituras seletivas
Agora a conclusão, e ela corta para os dois lados com a mesma faca.
A leitura que reduz Sodoma a um único tipo de pecado é seletiva. Ela precisa ignorar Ezequiel 16:49, que é o único lugar que enumera; precisa ignorar Isaías, que usa o nome numa pauta de justiça social; precisa ignorar Jeremias, que fala de adultério e mentira; e precisa ignorar o uso que Jesus faz da comparação a propósito de acolhida recusada.
E a leitura que apaga a violência sexual do capítulo 19 é igualmente seletiva. Ela precisa esvaziar um verbo que o próprio capítulo emprega em sentido sexual dois versículos adiante; precisa desconsiderar o testemunho de Judas e da segunda carta de Pedro; e precisa tratar como detalhe a única cena concreta que o Gênesis narra.
As duas operações são o mesmo erro de método: escolher a parte do dossiê que confirma a tese e chamar o resto de contexto.
O que o conjunto dos textos descreve é uma cidade próspera, arrogante, indiferente ao necessitado, desonesta e violenta com quem chega de fora — e a violência narrada é sexual.
Nenhuma palavra sozinha resume isso. E este versículo, que é onde a acusação começa, não especifica coisa nenhuma.
"é gravíssimo"
A última expressão do versículo é ki khavdah me'od, e ela guarda uma imagem que a tradução perde.
O verbo é kaved, e o seu sentido primeiro não é moral: é físico. Significa ser pesado.
É a palavra da carga. Em Êxodo 5:9, o Faraó manda que se agrave o trabalho sobre os israelitas, e o verbo é este: torne-se mais pesado. Em Gênesis 12:10, a fome que expulsa Abraão para o Egito é kaved, pesada. Em 1 Samuel 4:18, o velho sacerdote Eli cai da cadeira e morre porque era homem pesado.
O coração do Faraó, que as traduções descrevem como endurecido, é também descrito com este verbo em várias passagens: um coração que pesa, que não se move.
E Isaías 1:4 aplica a imagem exatamente ao nosso caso, chamando Israel de povo carregado de iniquidade — literalmente, pesado de culpa.
Portanto, a frase diz que o pecado daquelas cidades pesa muito. Não é apenas grande em número: tem massa, afunda, pressiona.
Repare na dupla que o versículo monta: o clamor é grande, palavra de quantidade; o pecado é pesado, palavra de gravidade. Volume e massa. As duas metades da acusação.
O peso e a glória
Convém acrescentar o dado que dá a este verbo o seu alcance teológico.
Da mesma raiz vem o substantivo kavod, que as Bíblias traduzem por glória.
Ao pé da letra, kavod é peso. A glória de Deus, no vocabulário hebraico, é aquilo que tem substância, densidade, gravidade — o oposto do que é leve, vão, sem consistência.
Não convém extrair disso mais do que o que a língua permite. As duas palavras compartilham a raiz, e o texto não faz o jogo entre elas.
Mas a informação é útil ao leitor por um motivo simples: mostra que a mesma imagem — o peso — serve na Bíblia tanto para a glória divina quanto para a culpa humana. O que conta, naquele modo de falar, é o que tem massa.
Fecha o versículo o advérbio me'od, muito, o mesmo que aparece em Gênesis 1:31, quando Deus vê tudo o que fez e considera "muito bom". A mesma palavra de intensidade nos dois extremos. Registro a observação como leitura minha, sem lhe atribuir intenção do autor.
A frase que não se completa
Termino com o que o versículo faz e o que ele deixa de fazer.
Ele faz uma acusação: há grito, e há peso.
Ele não diz quem grita, não diz o que foi feito, não anuncia pena, não convoca ninguém. A sentença fica pendurada.
E é justamente isso que abre o versículo seguinte, com a descida e a verificação, e o versículo 23, com a intervenção de Abraão.
Um veredito fechado não deixaria espaço para conversa. Uma acusação em aberto deixa.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Sodoma e Gomorra — duas das cinco cidades da planície do Jordão, prósperas segundo o próprio Gênesis; a localização exata é discutida e nenhuma identificação arqueológica está demonstrada.
Za'aqah (clamor) — grito de socorro do lesado, não fama nem boato; a mesma palavra do sangue de Abel, dos escravos no Egito e do salário retido em Tiago 5:4.
Tsa'aq — raiz gêmea, usada no versículo seguinte para o mesmo clamor; as duas alternam no Antigo Testamento sem diferença clara de sentido.
Kaved (pesar) — o verbo do peso físico, aplicado à carga do trabalho, à fome e ao coração do Faraó; da mesma raiz vem kavod, glória, que ao pé da letra é peso.
A ambiguidade do construto — "o clamor de Sodoma" pode ser o grito que sobe de dentro ou o grito que se levanta de fora contra a cidade; a gramática não decide.
Ezequiel 16:49-50 — o único lugar da Bíblia que enumera os pecados de Sodoma: soberba, fartura de pão, conforto e mão fechada ao pobre — e, no versículo seguinte, arrogância e abominação não especificada.
Gênesis 19:4-11 — a única cena concreta: a cidade inteira cerca a casa de Ló e exige os hóspedes; tentativa de estupro coletivo e violação máxima da hospitalidade.
A hospitalidade do capítulo 18 — Abraão correndo ao encontro de três desconhecidos, no mesmo capítulo em que se anuncia o julgamento de quem faz o contrário.
Isaías 5:7 — o jogo de palavras dos profetas entre justiça e clamor, montado sobre as mesmas raízes que aparecem nos versículos 19 e 20.
Vale de Sidim e o betume — a bacia do mar Morto, cheia de poços de asfalto natural, mercadoria valiosa no mundo antigo.
O clamor no direito antigo — o grito público funcionava como denúncia formal, e os reis da região se apresentavam como aqueles que ouviam o grito do órfão e da viúva.
5. Pontos de Ensino
A palavra traduzida por clamor é grito de vítima. Não é fama, não é boato, não é reputação ruim.
É o mesmo vocabulário do sangue de Abel e dos escravos no Egito. Quem grita, na Bíblia, é quem sofre dano de outrem.
No direito antigo, gritar era acusar. O grito público dava início ao processo, e chegar aos ouvidos do soberano era o passo seguinte.
A gramática não diz se o clamor vem de dentro ou de fora. As duas leituras mudam completamente quem é a vítima, e nenhuma pode ser descartada.
Nenhuma vítima de Sodoma é nomeada em toda a Bíblia. O leitor recebe o volume do grito sem receber uma única voz.
O pecado não é especificado aqui. O versículo diz que pesa; não diz qual é.
O único lugar que enumera é Ezequiel 16:49-50. Soberba, fartura, conforto, mão fechada ao pobre — e depois, abominação sem detalhe.
O capítulo 19 narra tentativa de estupro coletivo contra hóspedes. Está no texto, e apagar isso é leitura seletiva.
Reduzir Sodoma a um único tipo de pecado também é leitura seletiva. As duas omissões são o mesmo erro de método.
Kaved significa pesar. O pecado tem massa, e da mesma raiz vem a palavra glória.
A acusação é enunciada antes de qualquer ação. Ninguém é destruído em silêncio, e é isso que abre espaço para a discussão do versículo 23.
6. Aspectos Filosóficos
O som que a injustiça faz
Vale começar pela imagem central, porque ela é mais estranha do que parece.
O texto não diz que Deus observou Sodoma e concluiu alguma coisa. Diz que um som chegou.
A injustiça, nesse modo de falar, é audível. Ela produz ruído — e o ruído que produz é a voz de quem a sofre.
Repare no que essa escolha implica. O pecado de uma cidade não é medido pelo que os culpados fazem, e sim pelo que as vítimas emitem. O grito é o instrumento de medição.
Isso tem uma consequência incômoda, e ela merece ser dita. Onde ninguém grita, o instrumento não registra. E há muitas maneiras de fazer alguém parar de gritar.
Registro a observação como leitura, e não como algo que o texto enuncie.
Um Deus que é informado
Convém encarar a estranheza teológica da frase, em vez de dissolvê-la.
Um clamor "chega". Quer dizer que antes não estava chegando. Quer dizer que existe um antes e um depois na percepção divina.
A teologia posterior, que trabalha com um Deus fora do tempo e onisciente por definição, tem dificuldade com esse tipo de frase, e resolve o problema chamando-a de linguagem figurada.
É uma explicação legítima e antiga, e não convém tratá-la como truque. Toda narrativa precisa de acontecimentos em sequência, e não há como contar um julgamento sem que alguma coisa aconteça antes de outra.
O que não é honesto é fingir que a dificuldade não existe. O texto, como está, descreve uma informação que sobe e uma reação que se segue. Quem lê e sente o incômodo está lendo bem.
O versículo seguinte, aliás, agrava o problema em vez de aliviá-lo — e é lá que ele será tratado.
Peso como medida moral
Vale pensar em como uma língua escolhe as suas imagens.
Nós dizemos que um crime é "grave", e a palavra vem do latim para peso. Dizemos que alguém carrega uma culpa, que um erro pesa na consciência, que uma decisão é pesada.
O hebraico faz o mesmo movimento com o verbo deste versículo. E faz mais: usa a mesma raiz para a glória divina.
A convergência é interessante e não deve ser forçada. Ela sugere que, naquele modo de pensar, o que importa é a densidade — ter substância, contar, ocupar lugar real — e que tanto a presença de Deus quanto a culpa dos homens são descritas como coisas que têm massa.
O oposto disso, no vocabulário bíblico, é a leveza: o vão, o vazio, o que não sustenta. Os ídolos são chamados de nada; a vaidade do Eclesiastes é sopro.
Registro isso como observação sobre a língua, e não como doutrina que o texto ensine.
O problema de definir o pecado de uma cidade
Aqui está uma questão que atravessa a passagem inteira e vale isolar.
O versículo fala do pecado deles, no singular, atribuído a um coletivo. Não fala dos pecados de fulano e de sicrano.
Esse modo de falar é corrente no mundo antigo, que pensava em unidades — a casa, o clã, a cidade, o povo — antes de pensar em indivíduos. A responsabilidade era compartilhada, e o destino também.
É preciso registrar que isso incomoda, e que o incômodo é legítimo. Punir uma cidade inteira supõe que todos os que estão nela participam da culpa, o que a experiência desmente: há crianças, há estrangeiros, há os que gritam.
O próprio Antigo Testamento sentiu o problema. Ezequiel 18 declara expressamente que a alma que pecar, essa morrerá, e que o filho não carrega a maldade do pai — o que é uma correção interna, e não uma harmonização inventada por comentaristas.
E, sobretudo, o próprio capítulo 18 vai levantar a objeção pela boca de Abraão, que perguntará se o justo será destruído com o ímpio.
Ou seja: a tensão não precisa ser importada de fora. Ela está montada dentro da narrativa, e o narrador a deixa de pé.
Ler o dossiê inteiro
Convém pensar em como se forma uma certeza sobre um texto, porque este caso é exemplar.
Sodoma tem um dossiê disperso: um adiantamento no capítulo 13, uma acusação sem detalhe aqui, uma cena no capítulo 19, uma enumeração em Ezequiel, menções em Isaías e Jeremias, comparações no Novo Testamento.
Quem quiser sustentar uma tese encontrará material para ela em algum ponto dessa lista. É por isso que a passagem virou campo de disputa, e é por isso que as duas trincheiras costumam citar sempre os mesmos versículos.
O método honesto é o inverso do método da trincheira: reunir tudo antes de concluir, e aceitar que o resultado seja menos nítido do que se gostaria.
No caso, o resultado é este: um conjunto de acusações de tipos diferentes — arrogância, indiferença ao necessitado, desonestidade, violência contra estrangeiros, violência sexual — sem que a Bíblia ofereça em lugar algum a palavra única que resumiria tudo.
Quem oferece essa palavra única está acrescentando algo que o dossiê não tem.
Hospitalidade não era gentileza
Fecho com o que me parece o eixo escondido do capítulo.
Para nós, receber bem é uma virtude simpática, opcional, de ordem privada. No mundo do texto, era outra coisa.
Quem viajava não tinha hospedaria, polícia nem direito de estrangeiro. Fora dos muros, um forasteiro estava inteiramente à mercê de quem o encontrasse. A regra da hospitalidade era a única forma de proteção que existia — e por isso era levada a sério como se levam a sério as leis que impedem o assassinato.
Acolher e escoltar o hóspede era obrigação; agredi-lo era o crime máximo, o que rompia o pacto que tornava a viagem possível.
Repare então na composição do capítulo. Ele começa com um homem que corre ao encontro de três desconhecidos no calor do dia, abate um bezerro e os serve de pé. E termina anunciando o juízo sobre uma cidade que fará com dois desconhecidos exatamente o contrário.
Registro a leitura como leitura — o narrador não comenta a simetria. Mas ela é difícil de considerar acidental, e explica por que a acusação aparece justamente aqui, no fim da cena da tenda.
7. Aplicações Práticas
Escute quem grita, não quem tem fama
O versículo mede uma cidade pelo som que sai dela. Não pela reputação, não pela aparência, não pelo que os moradores dizem de si — pelo grito de quem está sendo lesado ali.
É um critério incômodo, porque inverte a fonte da informação. A instituição fala por si mesma; a vítima fala do outro lado.
Vale aplicar onde você tem responsabilidade de avaliar alguma coisa: uma empresa, uma igreja, uma escola, uma casa. A pergunta útil não é o que o lugar diz que é. É se alguém, lá dentro, está gritando — e se esse grito costuma chegar a alguém ou morre no caminho.
O silêncio pode ser resultado, não ausência de problema
Se o clamor é o instrumento de medição, ele tem um defeito óbvio: só registra quando alguém grita. E há muitas maneiras de calar alguém — medo, dependência, cansaço, a certeza de que reclamar piora a situação.
Registro que isso é leitura minha; o texto não discute o assunto.
Ainda assim, vale como disciplina prática. Antes de concluir que está tudo bem porque ninguém reclamou, convém verificar se existe algum caminho pelo qual uma reclamação chegaria até você. Onde não há canal, a ausência de queixa não é informação: é falta de informação.
Prosperidade não é atestado de conduta
Ezequiel descreve Sodoma como cidade de soberba, fartura de pão e abundância de conforto — e é exatamente essa a cidade acusada. A fartura entra na lista das acusações, não na lista das defesas.
O que o profeta condena não é a riqueza em si, e sim a combinação dela com a mão fechada: "nunca ajudaram a mão do pobre e do necessitado".
Vale contra o reflexo, muito difundido na pregação, de tratar o sucesso material como sinal de aprovação divina e a dificuldade como sinal de erro. Este dossiê desmonta a equação pelo lado de cima: as cidades condenadas eram as prósperas do vale.
Cite o dossiê inteiro, inclusive a parte que não ajuda
Quem discute o pecado de Sodoma quase sempre cita quatro ou cinco versículos — e são sempre os mesmos, escolhidos conforme o lado. Um grupo para em Ezequiel 16:49; o outro pula direto para o capítulo 19.
Os dois procedimentos são idênticos em método, e os dois produzem uma conclusão mais firme do que o material permite.
Adote a regra em qualquer assunto no qual você tenha posição formada: leia primeiro o que o outro lado costuma citar, e verifique se você consegue explicá-lo. Se a sua tese só sobrevive quando parte das evidências fica de fora, ela ainda não foi testada.
Acusar em voz alta é melhor do que agir em silêncio
O procedimento deste versículo tem uma ordem: primeiro a acusação é enunciada, depois haverá verificação, e só depois vem qualquer ação. Ninguém é destruído sem que a causa seja dita.
E é justamente por a acusação ter sido enunciada que Abraão poderá contestá-la três versículos adiante. Sentença dada em segredo não admite defesa.
Vale nas decisões que você toma sobre outras pessoas — demitir, romper, cortar relação, mudar um tratamento. Dizer antes o que se está avaliando, e por quê, custa mais e é mais lento. É também a diferença entre uma decisão que pode ser respondida e uma que só pode ser sofrida.
O que pesa não é o que aparece
A imagem hebraica é de massa: o pecado das cidades pesa. Não se fala em quantidade de faltas, e sim em gravidade — algo que afunda.
Da mesma raiz vem a palavra que a Bíblia usa para a glória divina, que ao pé da letra também é peso. O oposto, naquele vocabulário, é a leveza: o vão, o que não sustenta.
Vale para a economia da sua própria atenção. Muita coisa que ocupa o dia inteiro é leve nesse sentido — não deixa marca, não sustenta nada, não pesa. E costuma haver duas ou três coisas de verdadeira massa que ficam para depois exatamente porque não fazem barulho.
Hospitalidade tem consequência, e não é gentileza opcional
O mesmo capítulo mostra um homem correndo ao encontro de três desconhecidos, abatendo um bezerro e servindo-os de pé — e anuncia o juízo de uma cidade que fará com dois desconhecidos o oposto disso.
Naquele mundo, receber o forasteiro era a única proteção que existia para quem estava na estrada. Não havia hospedaria nem autoridade a quem recorrer.
Traduzido para hoje, o equivalente não é o jantar com amigos. É o modo como você trata quem está em posição de não poder cobrar nada de você: o candidato que não foi escolhido, o novato, o visitante, quem chegou sem apresentação. É ali que se mede o que este capítulo mede.
Desconfie da resposta de uma palavra só
A pergunta "qual era o pecado de Sodoma?" tem, na Bíblia, uma resposta longa e dispersa: um adiantamento genérico, uma acusação sem detalhe, uma cena de violência, uma enumeração profética, comparações em contextos variados.
Quem responde com uma palavra só está oferecendo mais nitidez do que os textos dão — e isso vale seja qual for a palavra escolhida.
Guarde o critério para além deste assunto. Quando um tema complicado recebe sempre a mesma resposta curta, das duas uma: ou a resposta foi testada contra tudo o que existe, ou ela foi montada a partir do que confirmava. Perguntar qual das duas coisas aconteceu é barato, e quase ninguém pergunta.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O que exatamente significa a palavra traduzida por "clamor"?
Significa grito, e grito de socorro. A raiz hebraica za'aq, e a sua gêmea tsa'aq, descrevem o brado agudo de quem sofre dano: o sangue de Abel gritando do chão, os escravos gritando no Egito, a viúva e o órfão afligidos, o diarista sem salário, o ceifeiro defraudado da carta de Tiago. Não é fama nem boato — é a voz da vítima.
Então o versículo não está falando da má reputação de Sodoma?
Não. Essa é a leitura corrente, e ela enfraquece o texto. O que subiu não foi um comentário sobre a cidade: foi o grito de alguém. A diferença é grande, porque um boato descreve o que se diz e um grito indica que alguém está apanhando.
O clamor vem de dentro da cidade ou de fora contra ela?
A gramática não decide. O hebraico usa uma construção de justaposição que não distingue quem age de quem sofre, do mesmo modo que a nossa expressão "o amor de Deus" pode significar duas coisas. Se o grito vem de dentro, há vítimas dentro de Sodoma — e a destruição total passa a ter um problema, que é exatamente o que Abraão levantará. Se vem de fora, a cidade é agressora e os lesados estão em volta. Não é possível decidir.
Quem são as vítimas?
O texto não diz, e é bom encarar essa ausência. Nenhuma vítima de Sodoma é nomeada em toda a Bíblia, e nenhum episódio anterior ao capítulo 19 é narrado. O leitor recebe o volume do grito sem receber uma única história. Isso pode ser economia narrativa ou efeito deliberado; as duas leituras são possíveis e nenhuma está no texto.
Este versículo diz qual era o pecado de Sodoma?
Não diz. Ele afirma que o pecado é pesado e para aí. O Gênesis já havia adiantado, no capítulo 13, que os homens de Sodoma eram maus e pecadores em grande maneira — também sem especificar. A primeira cena concreta só chega no capítulo 19.
Onde a Bíblia enumera os pecados de Sodoma?
Num lugar só: Ezequiel 16:49-50. A lista é soberba, fartura de pão, abundância de conforto e a mão que nunca se estendeu ao pobre e ao necessitado. O versículo seguinte acrescenta que se tornaram arrogantes e fizeram abominação diante de Deus, sem dizer qual. Quem cita o versículo 49 e para ali está omitindo o 50; quem cita o 50 e ignora o 49 faz o inverso.
E o capítulo 19, então?
Narra a única cena concreta: a cidade inteira, do mais jovem ao mais velho, cerca a casa de Ló e exige os hóspedes. É uma tentativa de estupro coletivo contra dois recém-chegados, e é a violação máxima da hospitalidade no mundo antigo. Está no texto e não deve ser apagado.
Não se diz que "conhecer", ali, significa apenas travar conhecimento?
Diz-se, e a leitura não sobrevive ao próprio capítulo. Dois versículos adiante, Ló oferece as filhas afirmando que elas "não conheceram varão", com o mesmo verbo, em sentido inequivocamente sexual. Dentro da mesma cena, o narrador emprega a palavra nos dois lugares.
Então o pecado de Sodoma era um só?
O conjunto dos textos não permite dizer isso. Ezequiel lista arrogância e indiferença ao pobre; Jeremias 23:14 fala de adultério e falsidade; Isaías usa o nome numa pauta de justiça social e, noutro lugar, como imagem de desfaçatez; Judas e a segunda carta de Pedro falam de imoralidade e de conduta ilícita; Jesus compara Sodoma à cidade que não recebe os mensageiros. Nenhuma palavra única cobre esse dossiê.
Como se deve tratar essa discussão, então?
Citando tudo. A leitura que reduz Sodoma a um único tipo de pecado é seletiva, e a leitura que apaga a violência sexual do capítulo 19 é igualmente seletiva. As duas operações consistem em escolher a parte do material que confirma a tese e chamar o resto de contexto.
O que significa dizer que o pecado é "gravíssimo"?
O verbo hebraico é kaved, cujo sentido primeiro é físico: ser pesado. É a palavra da carga do trabalho no Egito, da fome que empurra Abraão, do sacerdote Eli que era homem pesado. O versículo monta uma dupla: o clamor é grande, palavra de quantidade, e o pecado é pesado, palavra de gravidade.
Há relação entre esse verbo e a palavra "glória"?
Há, e é da raiz. O substantivo kavod, que as Bíblias traduzem por glória, significa ao pé da letra peso. Não convém extrair disso mais do que a língua permite, porque o texto não faz o jogo entre as duas palavras. Vale, porém, como informação: a mesma imagem serve para a glória divina e para a culpa humana.
Por que Deus anuncia a acusação antes de agir?
É a continuação direta do versículo 17, onde a pergunta era se esconderia de Abraão o que estava para fazer. O efeito narrativo é claro: como a acusação foi enunciada, ela pode ser contestada — e será, no versículo 23. Um veredito dado em segredo não admitiria discussão.
Por que a frase parece incompleta no hebraico?
Porque está. A partícula ki, repetida duas vezes, normalmente significa "porque", e a oração enuncia uma causa sem declarar a consequência. Uns entendem a partícula como enfática, outros supõem que a conclusão só chega no versículo 21, outros leem uma frase deixada em suspenso. Não há consenso, e vale notar que o versículo seguinte também termina no ar.
A arqueologia já localizou Sodoma?
Não de modo demonstrado. Propuseram-se sítios ao sul do mar Morto, como Bab edh-Dhra e Numeira, e ao norte, como Tall el-Hammam, e a discussão segue aberta. Não há inscrição nem documento que ligue ruínas a esses nomes. Circula muito material apresentando uma dessas identificações como fato assentado, e ela não é.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 4:10 — E ele lhe disse: Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra.
A primeira ocorrência do vocabulário do grito na Bíblia, e ela define o campo: quem clama é a vítima de um crime, e o clamor sobe do chão.
Êxodo 2:23 — E aconteceu que depois de muitos dias morreu o rei do Egito, e os filhos de Israel suspiraram por causa da servidão, e clamaram: e subiu a Deus o clamor deles com motivo de sua servidão.
O mesmo movimento do nosso versículo — o grito que sobe —, agora aplicado a um povo escravizado; é o texto que mais aproxima o clamor de Sodoma de uma situação de opressão real.
Êxodo 3:7 — E disse o SENHOR: Vi a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi seu clamor por causa de seus opressores; pois conheço suas angústias.
Ver, ouvir e conhecer aparecem juntos, exatamente como no par formado pelos versículos 20 e 21 deste capítulo.
Êxodo 22:23 — Que se tu chegas a afligir-lhe, e ele a mim clamar, certamente ouvirei eu seu clamor;
A lei transforma o clamor em mecanismo: afligir a viúva ou o órfão aciona um grito, e o grito aciona a resposta divina.
Deuteronômio 24:15 — Em seu dia lhe darás seu salário, e não se porá o sol sem o dar a ele: pois é pobre, e com ele sustenta sua vida: para que não clame contra ti ao SENHOR, e seja em ti pecado.
Aqui o clamor é explicitamente "contra ti", o que mostra que a mesma palavra admite a leitura de acusação — e é por isso que a ambiguidade do nosso versículo é real.
Provérbios 21:13 — Quem tapa seu ouvido ao clamor do pobre, ele também clamará, mas não será ouvido.
O reverso exato da acusação de Ezequiel contra Sodoma: a cidade farta que não estendeu a mão é a que tapou o ouvido.
Tiago 5:4 — Eis que o salário dos trabalhadores que colheram nos vossos campos, que por vós foi retido fraudulentamente, está clamando; e os clamores dos que fizeram a colheita chegaram os ouvidos do Senhor dos exércitos.
O mesmo esquema no Novo Testamento, e com a mesma imagem sonora: o dano retido produz um som que chega.
Gênesis 13:13 — Mas os homens de Sodoma eram maus e pecadores para com o SENHOR em grande maneira.
O adiantamento do narrador, sete capítulos antes, também sem especificar em quê — o Gênesis condena a cidade duas vezes sem dizer o motivo.
Ezequiel 16:49 — Eis que esta foi a maldade de tua irmã Sodoma: ela e suas filhas tiveram soberba, fartura de pão, e abundância de conforto; porém nunca ajudaram a mão do pobre e do necessitado.
O único lugar da Bíblia que enumera os pecados de Sodoma, e a lista é de arrogância e indiferença social, não do que a pregação costuma citar.
Ezequiel 16:50 — E se tornaram arrogantes, e fizeram abominação diante de mim, por isso eu as tirei quando vi isto .
A outra metade da citação, quase sempre omitida por quem cita o versículo anterior — e o profeta não diz qual abominação.
Jeremias 23:14 — Mas nos profetas de Jerusalém tenho vejo coisas horríveis: cometem adultérios, e andam com falsidade, e fortalecem as mãos dos malfeitores, para que ninguém se converta de sua maldade. Para mim, todos eles são como Sodoma, e seus moradores como Gomorra.
Mais um item do dossiê, e de outro tipo: adultério, mentira e cumplicidade com o malfeitor.
Isaías 3:9 — A aparência de seus rostos dão testemunho contra eles, e mostram abertamente seus pecados; assim como Sodoma, não os disfarçam. Ai da alma deles, porque estão fazendo mal a si mesmos.
Sodoma como imagem da desfaçatez, o que acrescenta ao dossiê a ideia de um mal praticado sem constrangimento.
Isaías 5:7 — Porque a vinha do SENHOR dos exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são suas plantas agradáveis; porém ele esperava juízo, e eis aqui opressão; ele esperava justiça, e eis aqui clamor.
O profeta monta um jogo de palavras entre justiça e clamor com as mesmas raízes que aparecem nos versículos 19 e 20 deste capítulo — onde falta justiça, sobra grito.
Mateus 10:15 — Em verdade vos digo que no dia do julgamento mais tolerável será para a região de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade.
Jesus usa a comparação a propósito de mensageiros que não são recebidos, isto é, num contexto de hospitalidade recusada.
Gênesis 19:13 — Porque vamos destruir este lugar, porquanto o clamor deles subiu demais diante do SENHOR; portanto o SENHOR nos enviou para destruí-lo.
A retomada da palavra no capítulo seguinte, com o mesmo sufixo ambíguo: continua sem se saber se "deles" são os que gritam ou os que causam o grito.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então o SENHOR disse: “O clamor contra Sodoma e Gomorra é grande, e o pecado deles é gravíssimo.
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר יְהוָה זַעֲקַת סְדֹם וַעֲמֹרָה כִּי־רָבָּה וְחַטָּאתָם כִּי כָבְדָה מְאֹד
Transliteração
vayyomer YHWH za'aqat Sedom va'Amorah ki-rabbah vechattatam ki khavdah me'od
Palavra por palavra
וַיֹּאמֶר (vayyomer) — "e disse"
Verbo amar, dizer, na forma narrativa que encadeia a ação.
É o verbo mais comum do Gênesis e não traz, por si, nenhuma informação sobre o destinatário.
Vale notar o contraste com o versículo 13, onde o texto especifica "disse a Abraão". Aqui não há complemento, e é essa ausência que gera a discussão sobre a quem a acusação é dirigida.
יְהוָה (YHWH) — o nome próprio
As quatro consoantes do nome divino, que a tradição judaica não pronuncia e que as traduções portuguesas costumam verter por SENHOR em maiúsculas.
Vale registrar a alternância do capítulo: em alguns versículos o sujeito é este nome, no singular, e em outros são "os homens", no plural. O problema é real e atravessa a perícope inteira; as leituras correntes são que o SENHOR é um dos três visitantes, que os três são mensageiros pelos quais ele fala, ou que a costura de tradições distintas deixou a marca. Não é possível decidir.
זַעֲקַת (za'aqat) — "clamor de"
Substantivo za'aqah, da raiz za'aq, na forma de estado construto, que liga a palavra à seguinte.
O sentido é grito agudo, brado de socorro. A raiz aparece no Antigo Testamento quase sempre na boca de quem sofre violência ou perda, e não descreve fama nem rumor.
O Antigo Testamento usa também a variante tsa'aq, com a mesma tradução, e as duas alternam com liberdade. O versículo 21 empregará a segunda para o mesmo clamor deste versículo, o que confirma que a diferença entre elas não é de sentido.
O estado construto, que é a construção usada aqui, não distingue o autor da ação de quem a sofre. Por isso "o clamor de Sodoma" tanto pode ser o grito que sobe de dentro da cidade quanto o grito que se levanta contra ela. A forma não permite decidir, e a escolha das traduções é interpretação.
סְדֹם וַעֲמֹרָה (Sedom va'Amorah) — "Sodoma e Gomorra"
Os dois nomes aparecem quase sempre juntos, formando uma unidade fixa na memória de Israel.
A etimologia de ambos é discutida e nenhuma proposta é demonstrável. Já se ligou Sodoma a raízes que sugeririam terra queimada e Gomorra a ideias de submersão ou de amontoado, e essas explicações provavelmente são construções posteriores, feitas a partir do destino das cidades e não da origem dos nomes.
Note-se que o verbo seguinte está no singular feminino, concordando com o clamor, e não com as duas cidades. É detalhe gramatical, e serve para confirmar que o sujeito da frase é o grito.
כִּי־רָבָּה (ki-rabbah) — "porque é grande"
A partícula ki seguida do adjetivo rav na forma feminina.
Rabbah é a palavra da quantidade: muito, numeroso, abundante. Aplicada a um som, indica volume — algo que se ouve de longe.
A partícula é o problema. Traduzida ao pé da letra, dá "o clamor de Sodoma e Gomorra, porque é grande", oração sem conclusão. Uns leem a partícula como enfática, algo como "de fato, é grande"; outros supõem que a consequência só chega no versículo 21; outros aceitam a frase como deixada em suspenso. Não há consenso, e a diferença prática é pequena.
וְחַטָּאתָם (vechattatam) — "e o pecado deles"
Substantivo chatta't com sufixo de terceira pessoa do plural.
A raiz tem por sentido concreto errar o alvo, falhar a marca — em Juízes 20:16 ela descreve fundeiros que atiravam sem errar um fio de cabelo.
Convém não construir doutrina sobre essa imagem, como às vezes se faz. Ela mostra que o termo indica desvio de uma medida, e o Antigo Testamento descreve o pecado por várias outras palavras, com outras imagens: torcer, rebelar-se, transgredir.
Note-se o singular: não é "os pecados deles", e sim "o pecado deles", uma condição atribuída ao conjunto. A tradução grega antiga preferiu o plural, o que já é uma pequena interpretação.
כִּי כָבְדָה מְאֹד (ki khavdah me'od) — "porque pesou muito"
Verbo kaved na forma simples, terceira pessoa feminina, concordando com o substantivo anterior, mais o advérbio me'od.
O sentido primeiro do verbo é físico: ser pesado, ter massa. É a palavra da carga imposta aos escravos em Êxodo 5:9, da fome que empurra Abraão para o Egito em Gênesis 12:10, do sacerdote Eli que cai da cadeira por ser homem pesado em 1 Samuel 4:18.
A mesma raiz descreve, em várias passagens, o coração do Faraó — um coração que pesa e por isso não se move. E Isaías 1:4 chama Israel de povo carregado de iniquidade, com a mesma imagem aplicada à culpa.
Portanto a frase não diz apenas que o pecado é muito. Diz que ele pesa. O versículo monta uma dupla: volume no clamor, massa no pecado.
Da mesma raiz vem o substantivo kavod, que as Bíblias traduzem por glória e que ao pé da letra significa peso. O texto não faz jogo entre as duas palavras, e registro o parentesco apenas como informação sobre a língua.
Nota — o que as versões antigas fizeram com o peso
Vale registrar um caso concreto de como a tradução mexe no sentido, porque ele é verificável e didático.
A tradução grega antiga, feita por judeus de Alexandria alguns séculos antes da era comum, verte o primeiro membro com um verbo de multiplicação — o clamor "se multiplicou" — e o segundo com o adjetivo grego corrente para grande.
Ou seja: a imagem do peso desaparece. Onde o hebraico diz que o pecado pesa muito, o grego diz que os pecados são muito grandes.
A tradução latina antiga seguiu o grego nesse ponto, e boa parte da tradição ocidental leu o versículo assim.
Não se trata de erro. Trata-se de uma escolha razoável de tradutor diante de uma metáfora que a língua de chegada não carrega do mesmo modo. Mas o resultado é que um leitor do grego ou do latim não tinha como notar o parentesco entre o peso do pecado e o peso que dá nome à glória.
Registro o caso como exemplo do que este comentário repete com frequência: toda tradução decide, e as decisões se acumulam ao longo dos séculos até virarem o texto que as pessoas acham que sempre esteve ali.
Nota — a acusação e a régua, um versículo antes
Há um detalhe de composição que o hebraico deixa ver e a tradução esconde.
O versículo 19 disse que Abraão foi escolhido para que ordenasse aos seus a prática da justiça e do juízo — em hebraico, tsedaqah umishpat.
O versículo 20 abre com za'aqat, o clamor.
Isaías 5:7 constrói um jogo de palavras exatamente sobre esses termos: Deus esperava mishpat, juízo, e veio mispach, opressão; esperava tsedaqah, justiça, e veio tse'aqah, clamor. As palavras são quase homófonas em hebraico, e o profeta explora isso.
Não afirmo que o autor do Gênesis tenha feito o mesmo jogo — não há indício disso, e a proximidade dos dois versículos pode ser efeito do assunto, e não de arte verbal.
Vale, porém, notar a lógica que Isaías torna explícita e que o nosso texto encena: onde a justiça falta, o que se ouve é grito. São os dois estados possíveis de uma sociedade, e o narrador colocou um em cada versículo.
11. Conclusão
A acusação chega em duas palavras, e as duas guardam imagens que a tradução amortece. A primeira é um som: za'aqah, o brado agudo de quem está sendo lesado — a mesma palavra do sangue derramado que grita do chão, dos escravos que gritam no Egito, da viúva afligida, do diarista sem salário, do ceifeiro defraudado cuja queixa, segundo a carta de Tiago, chega aos ouvidos do Senhor dos exércitos. A segunda é uma massa: kaved, o verbo do que pesa, usado para a carga do trabalho forçado, para a fome que empurra um homem à emigração, para o coração que não se move. Volume e gravidade. Uma cidade é julgada pelo barulho que a sua injustiça faz e pelo peso que ela acumula.
Isso já elimina a leitura mais comum, que entende o versículo como notícia de má fama. Fama é o que se diz de alguém; clamor é o que alguém emite quando está apanhando. E se o vocabulário é o da vítima, então em algum lugar daquela história existem pessoas concretas que estão sofrendo — pessoas que a Bíblia nunca nomeia, sobre as quais não conta um único episódio, e cuja existência o leitor só conhece pelo som que produzem. É uma ausência que vale reter, e ela não se resolve: o texto entrega o volume do grito e retém as vozes.
Há ainda a ambiguidade que a gramática hebraica não desfaz. A construção empregada tanto admite o grito que sobe de dentro da cidade quanto o grito que se levanta de fora contra ela, e a escolha das traduções por uma ou outra é interpretação, não leitura. Se o grito vem de dentro, a cidade contém oprimidos, e a destruição total que se aproxima carrega desde já o problema que Abraão levantará três versículos adiante ao perguntar pelo justo morto junto com o ímpio. Se vem de fora, a cidade é inteiramente agressora e o juízo não deixa resíduo. O capítulo 19 retoma a palavra com um sufixo igualmente ambíguo, e não resolve. Registro a dificuldade como dificuldade.
Quanto à pergunta que o versículo obriga a fazer — qual era, afinal, o pecado daquela cidade —, a resposta honesta exige o dossiê inteiro, e o dossiê é disperso. Aqui não se especifica nada: diz-se que pesa. Ezequiel, no único lugar da Bíblia que enumera, aponta soberba, fartura de pão, conforto e a mão que jamais se estendeu ao pobre, e logo em seguida acrescenta arrogância e uma abominação que não detalha. Jeremias fala de adultério, falsidade e cumplicidade com o malfeitor. Isaías chama de Sodoma os chefes de Jerusalém e passa a exigir socorro ao oprimido, ao órfão e à viúva. Judas e a segunda carta de Pedro registram imoralidade e conduta ilícita. Jesus compara Sodoma à cidade que não recebe os mensageiros. E o capítulo 19 narra a única cena concreta que existe: uma multidão inteira cercando uma casa para violentar dois hóspedes, o que naquele mundo era o crime dos crimes, porque a hospitalidade era a única proteção de quem estava na estrada.
Daí a conclusão que corta para os dois lados com a mesma faca, e que este comentário não vai suavizar. Reduzir Sodoma a um único tipo de pecado exige ignorar Ezequiel 16:49, Isaías, Jeremias e o uso que Jesus faz da comparação. Apagar a violência sexual do capítulo 19 exige esvaziar um verbo que o próprio capítulo emprega em sentido sexual dois versículos adiante, e tratar como acessório a única cena que o Gênesis descreve. As duas operações são idênticas em método: separar do material aquilo que confirma a tese e chamar o resto de detalhe. O que os textos, somados, descrevem é uma cidade próspera, arrogante, fechada ao necessitado, desonesta e brutal com quem chegava de fora — e a brutalidade narrada é sexual. Nenhuma palavra única cobre isso, e quem oferece uma está acrescentando nitidez que o dossiê não tem.
Resta o procedimento, e ele é a parte mais silenciosa do versículo. A acusação é dita em voz alta antes de qualquer ação, e é dita de modo incompleto: a frase enuncia uma causa e não declara consequência, ficando gramaticalmente pendurada. Nada é decidido aqui. E é justamente por não estar decidido que o versículo seguinte poderá falar em descer e verificar, e que um homem poderá, pouco depois, aproximar-se e discutir a sentença. Uma condenação pronta não admitiria conversa; uma acusação em aberto admite. O texto guardou essa fresta de propósito ou por acaso — não é possível saber —, e a intercessão mais famosa da Bíblia entra por ela.













