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Êxodo 20:9

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 13 acessos
Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra;
Num campo de terra clara à beira do deserto, um israelita de túnica curta, com a testa suada, conduz um arado de madeira puxado por um boi; ao fundo, uma mulher carrega um feixe de trigo e, mais longe, um homem trabalha numa forja improvisada, enquanto o sol desce sobre as tendas do acampamento.

Estudo


Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra;

1. Introdução

O mandamento do descanso dedica uma frase inteira ao trabalho, e a pergunta que ela levanta é simples: "seis dias trabalharás" é ordem, permissão ou limite? Um mestre da Mishná disse que é um decreto, tão obrigatório quanto o descanso; comentaristas cristãos leram uma concessão; outros, um teto. O verbo usado é o mesmo da escravidão no Egito, agora dirigido a quem saiu dela e acompanhado de um possessivo — "o teu trabalho". E a expressão "toda a tua obra" fez os rabinos perguntarem se alguém termina tudo em seis dias, e em que estado deve chegar ao sétimo.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um mundo que desprezava o trabalho com as mãos

Nas cidades gregas, o trabalho manual tinha má fama entre os que escreviam. Xenofonte (historiador e discípulo de Sócrates, séculos V-IV antes de Cristo), no Econômico (4.2-3), põe na boca de Sócrates que as artes "chamadas de mecânicas" são malfaladas e desprezadas nas cidades, porque estragam o corpo de quem as exerce, obrigando-o a ficar sentado e à sombra, e porque não deixam tempo para os amigos e para a cidade. Em algumas cidades, acrescenta, os cidadãos eram proibidos de exercê-las. O trabalho era coisa de escravo e de estrangeiro; o cidadão ideal era quem não precisava dele. Quando autores gregos e romanos olharam para o sábado judaico, viram nele preguiça, e a acusação está reunida no estudo de Êxodo 16:26. O versículo, lido ao lado desse mundo, diz o contrário dos dois lados: o trabalho é de todos, e o descanso também.

Os rabinos com ofício

A tradição rabínica fez do trabalho um dever, e foi buscá-lo neste versículo. O tratado Avot de Rabi Natan (um comentário antigo à Mishná sobre os ditos dos mestres), no capítulo 11, comenta a máxima de Shemaya, "Ama o trabalho", e diz que, "assim como a Torá foi dada por aliança, o trabalho também foi dado por aliança", citando "seis dias trabalharás". Seguem-se os ditos de vários mestres. Rabi Tarfon: nem Deus fez a sua presença habitar em Israel antes que o povo trabalhasse — "façam-me um santuário, e eu habitarei no meio deles" (Êxodo 25:8). Rabi Dosetai: quem fica à toa nos seis dias acabará trabalhando nos sete, porque, sem ter o que comer na sexta, junta-se a ladrões, é preso e, acorrentado, é obrigado a trabalhar também no sábado. E Rabi Yehudah ben Betera: quem não tem trabalho, se tiver um pátio em ruínas ou um campo abandonado, que vá cuidar dele, porque está escrito "e farás toda a tua obra".

A regra chegou à educação. Entre os deveres do pai, o Talmude põe ensinar um ofício ao filho, e Rabi Yehudah endurece a regra: "quem não ensina um ofício ao filho o ensina a ser bandido" (Kiddushin 29a). E a prática dos mestres confirmava a teoria. O Talmude (Berakhot 28a) conta que Rabban Gamliel, o chefe da academia, foi à casa de Rabi Yehoshua e, vendo as paredes enegrecidas, disse: "Pelas paredes da sua casa se vê que você é ferreiro". Rabi Yehoshua respondeu: "Ai da geração que tem você por líder, porque você não sabe do sofrimento dos estudiosos, de que vivem e de que se sustentam". O mestre da Torá vivia de um ofício, e o ofício deixava marca na parede.

Uma lista de ditos sobre o trabalho

A Mekhilta de Rabi Shimon bar Yochai (uma das duas coleções antigas de comentários ao Êxodo), neste versículo, reúne uma sequência de frases começadas por "Grande é o trabalho". A frase sobre o santuário, que o Avot de Rabi Natan dá a Rabi Tarfon, aparece ali na boca de Rabi Elazar ben Azarias. Rabi Yosei, o galileu: grande é o trabalho, porque Deus só decretou a morte de alguém a partir da ociosidade. Rabi Akiva: grande é o trabalho, porque os operários que trabalhavam no Templo recebiam salário do tesouro sagrado sem cometer sacrilégio. Rabi Shimon: grande é o trabalho, porque até o sumo sacerdote que entra no Santo dos Santos fora de hora merece a morte, mas, quando há obra a fazer no santuário, até operários impuros e com defeito físico podem entrar. A lista não é um tratado; é uma coleção de exageros afetuosos, e mostra o tamanho que o versículo tomou na cabeça dos mestres.

3. Análise Teológica do Versículo

"Seis dias"

O número vem antes do verbo, na posição de destaque. Os seis dias formam um bloco, e só depois do bloco vem o sétimo. É o ritmo que o povo já tinha aprendido com o maná, e a expressão "seis dias", como unidade, nasceu ali — o seu primeiro uso está no estudo de Êxodo 16:26. Aqui ela muda de assunto: no deserto, eram seis dias de recolher comida que caía do céu; no Sinai, são seis dias de trabalho humano, para um povo que ainda não tem terra, nem lavoura, nem casa.

O mandamento é dado no deserto, onde quase não há trabalho no sentido do versículo. O "trabalharás" olha para a frente, para a vida que o povo terá quando chegar à terra. É lei para uma economia que ainda não existe.

"trabalharás"

O verbo hebraico é o mesmo que o Êxodo usou para a escravidão: os egípcios "escravizaram" os filhos de Israel, e "todo o trabalho que lhes impunham era com brutalidade" (Êxodo 1:13-14). É também o verbo de "vocês servirão a Deus neste monte" (Êxodo 3:12). A mesma palavra cobre o trabalho forçado, o trabalho livre e o culto. O que muda, neste versículo, é a pessoa do verbo: não "eles os fizeram trabalhar", mas "tu trabalharás". O trabalho que no Egito era imposto por outro é agora ordenado — ou permitido — ao próprio trabalhador.

Mas ordem ou permissão? A frase está no mesmo tempo verbal de "não matarás", e o hebraico não distingue o que se manda do que se prevê. A pergunta recebeu três respostas.

Primeira leitura: é uma ordem. A Mekhilta de Rabi Shimon bar Yochai traz a frase de Rabi Judá, o Príncipe, que compilou a Mishná: "Seis dias trabalharás — este é outro decreto. Assim como Israel recebeu ordem de guardar o sábado, recebeu ordem de trabalhar". Um verbete do século XIX citado por Charles Ellicott (bispo anglicano do século XIX) diz o mesmo em linguagem cristã: o mandamento regula a semana inteira e impõe o trabalho dos seis dias tanto quanto o descanso do sétimo. Nessa leitura, o ócio voluntário é transgressão, como trabalhar no sábado.

Segunda leitura: é uma permissão. Matthew Poole (teólogo inglês do século XVII) e John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) leem como concessão: Deus reserva para si um dia e entrega os outros seis. Poole parafraseia: "Não me negue um dia, quando eu lhe concedo seis". E dá um argumento de estrutura: a ordem de ser diligente no trabalho pertenceria à segunda tábua, dos deveres para com o próximo, e ficaria fora de lugar no meio do mandamento do sábado.

Terceira leitura: é um limite. Ellicott e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) entendem que o trabalho dos seis dias é pressuposto, não exigido: todo mundo trabalha, e o versículo diz até onde. "Não trabalharás mais do que seis dias seguidos." A frase seria proibitiva na intenção, embora positiva na forma.

As três leituras cabem na gramática, e não há consenso. O peso do contexto vai para a segunda e a terceira, porque o mandamento é sobre o sábado e o versículo seguinte começa com "mas". O peso da tradição judaica vai para a primeira, porque foi a que sustentou toda a ética rabínica do trabalho.

"e farás toda a tua obra"

A segunda metade usa outra palavra para "trabalho". A primeira, a do verbo, é a do esforço e do serviço; a segunda é a da tarefa, da obra encomendada — a mesma que Gênesis 2:2 usa para a obra que Deus terminou no sétimo dia. O português traduz as duas por "trabalho", e a ABC não teve como evitar. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) separa as duas: a primeira seria o trabalho produtivo, o da lavoura; a segunda incluiria também o que se faz para as necessidades do corpo, como cozinhar. Por isso, diz ele, o versículo seguinte proíbe no sábado "obra alguma", com a segunda palavra: nem lavrar nem cozinhar.

E há o possessivo. Em Êxodo 1:14, o trabalho era "o trabalho que lhes impunham". Aqui é "o teu trabalho". A frase do Egito e a do Sinai usam a mesma fórmula, "todo o trabalho", com palavras diferentes para "trabalho"; o que mais pesa na diferença é o dono da obra.

Mas é possível fazer todo o trabalho em seis dias? A pergunta é da Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III), e as respostas mudaram o sentido do sábado.

Primeira leitura: descanse como se tudo estivesse feito. Ninguém termina tudo, responde a Mekhilta; o versículo quer dizer que, quando chega o sábado, o trabalho deve ser tratado como concluído. Rashi (Salomão ben Isaac, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) resume: "Quando o sábado chegar, seja aos seus olhos como se todo o seu trabalho estivesse feito, para que você não pense em trabalho nenhum". A Mekhilta dá ainda outra versão: "descanse do pensamento do trabalho", e cita Isaías 58:13. O sábado começa por uma decisão sobre o que ficou pendente.

Segunda leitura: termine de fato antes do sábado. É a da escola de Shammai, e ela tem consequência prática. A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200), no tratado Shabbat (1:5-8), registra a disputa: na sexta à tarde, pode-se pôr tinta e corante de molho, armar uma armadilha, carregar a viga do lagar ou abrir a água para a horta, se o processo vai continuar sozinho durante o sábado? A escola de Shammai diz que não: tudo tem de ficar pronto ainda de dia. A escola de Hillel permite. A Mekhilta de Rabi Shimon bar Yochai dá a base de cada lado neste versículo. Shammai lê "farás toda a tua obra" como "que o teu trabalho esteja acabado na véspera". Hillel lê: "trabalharás os seis dias, e o resto do teu trabalho se faz sozinho no sábado". Para uma escola, a máquina deve estar parada; para a outra, só o homem.

Terceira leitura: "todo" inclui o trabalho que ninguém pediu. É a de Rabi Yehudah ben Betera, para quem a palavra obriga até quem não tem emprego a cuidar do pátio em ruínas. "Todo" vira proibição do ócio, e não medida do que cabe na semana.

Pelo versículo sozinho, não é possível decidir entre elas. O que ele afirma é que o trabalho tem uma totalidade — "toda a tua obra" — e que essa totalidade cabe em seis dias. Quem chega ao sétimo com trabalho pendente, por qualquer das três leituras, ou deixa o pendente de lado, ou já o terminou.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O destinatário. O "tu" do Decálogo: cada israelita que saiu do Egito, ouvindo no deserto uma lei sobre a semana de trabalho de uma vida que ainda não tem lavoura nem ofício estabelecido.

O lugar no mandamento. É o segundo dos quatro versículos do sábado (Êxodo 20:8-11), parte do quarto mandamento na contagem judaica e reformada, do terceiro na católica e luterana. Deuteronômio 5:13 o repete sem mudar uma palavra.

As escolas de Shammai e de Hillel. As duas correntes de mestres que se formaram em torno dos dois sábios de Jerusalém no fim do século I antes de Cristo e discutiram, nas gerações seguintes, boa parte da lei judaica. Neste versículo, divergem sobre se o trabalho começado na sexta pode continuar sozinho durante o sábado.

Os mestres do trabalho. Shemaya (século I antes de Cristo), autor da máxima "Ama o trabalho"; Rabi Tarfon, Rabi Akiva, Rabi Yosei, o galileu, e Rabi Yehudah ben Betera (séculos I-II), que comentam o versículo; Rabi Judá, o Príncipe (fim do século II), para quem o trabalho dos seis dias é um decreto; Rabi Yehoshua, o ferreiro, e Rabban Gamliel, o chefe da academia que se surpreendeu com as paredes da casa dele.

5. Pontos de Ensino

O descanso é definido a partir do trabalho. O mandamento do sábado não começa pela proibição; começa pelos seis dias. O sétimo só tem sentido depois deles. Quem não trabalha não tem do que descansar, e quem trabalha sem parar não tem como saber o que é um sétimo dia.

Trabalho não é só o das mãos. Gill lembra que todos trabalham "de algum modo, com a cabeça ou com as mãos", embora não do mesmo jeito nem na mesma medida. A tradição rabínica, que exigia ofício até dos mestres da Torá, não opunha o estudo ao trabalho: pedia os dois.

Organizar a semana faz parte do mandamento. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) tira do versículo uma regra prática: nos seis dias se deve fazer todo o trabalho, sem deixar nenhum para o sábado. O descanso do sétimo dia depende de como foram usados os outros seis — e quem empurra a tarefa para depois empurra-a para dentro do dia que não é dela.

O trabalho tem dignidade própria, não só utilidade. O versículo põe o trabalho dentro de um mandamento dado no Sinai, ao lado do culto e do nome de Deus. Isso o tira da categoria de mal necessário. Não diz que o trabalho salva, nem que é o centro da vida; diz que ele tem lugar na ordem que Deus dá ao tempo.

6. Aspectos Filosóficos

Para que serve o trabalho? A resposta comum é: para ganhar a vida, e para poder parar depois. O versículo não diz isso. Ele não promete salário nem descreve o trabalho como castigo; põe "toda a tua obra" dentro de um mandamento, como coisa ordenada ao lado do descanso. A pergunta sobre o valor do trabalho em si — e não só sobre o que ele rende — foi o tema de uma conferência célebre da Inglaterra em guerra.

Dorothy L. Sayers: "Por que trabalhar?"

Dorothy L. Sayers (1893-1957) foi uma das primeiras mulheres formadas em Oxford, autora dos romances policiais de Lord Peter Wimsey, tradutora de Dante e ensaísta cristã. Em abril de 1942, com a Inglaterra sob bombardeio, fez em Eastbourne uma palestra intitulada "Why Work?" ("Por que trabalhar?"), depois publicada na coletânea Creed or Chaos? ("Credo ou caos?").

A tese central é que o trabalho "não é, antes de tudo, uma coisa que se faz para viver, mas a coisa para a qual se vive". Sayers observa que a guerra tinha mudado a pergunta das pessoas: em vez de "quanto isto rende?", perguntavam "isto serve para alguma coisa?". E propõe que a pergunta continue depois da guerra. Trabalho bom é o que está a serviço da obra, e não do salário nem da fama; o primeiro dever do trabalhador é servir à obra. Daí uma crítica dura à Igreja do seu tempo: ao carpinteiro, a Igreja pedia que não se embriagasse e que fosse à missa; devia pedir, antes de tudo, que fizesse boas mesas. "A única obra cristã é a obra benfeita."

No livro anterior, The Mind of the Maker ("A mente do criador", 1941), ela tinha ido à raiz: o ser humano é feito à imagem de um Deus que cria, e o trabalho benfeito é a forma humana dessa semelhança.

O que a tese ilumina no versículo

Primeiro, o possessivo. "Todo o teu trabalho" é a fórmula que Sayers defenderia: o trabalho como obra de alguém, e não como força vendida. Na linguagem dela, o versículo passa do emprego à vocação.

Segundo, a leitura rabínica de que trabalhar é um decreto, tão obrigatório quanto descansar. Sayers a teria assinado, por outro caminho: se o trabalho é aquilo para que se vive, deixá-lo de lado não é liberdade, é perda. O pátio em ruínas de Rabi Yehudah ben Betera cabe inteiro na ética dela: o que importa é haver obra, não haver patrão.

Terceiro, a relação com o sábado. Sayers critica a sociedade que trabalha só para poder consumir no tempo livre, e que por isso trabalha mal. O versículo põe o trabalho e o descanso no mesmo mandamento, sem fazer de um o meio do outro: seis dias de obra, um dia de parada, ambos ordenados.

Onde a comparação para

Sayers escreve de dentro do anglicanismo e de um país em guerra, e o ensaio não comenta o Êxodo. A sua visão do trabalho como vocação criativa vale melhor para o artesão e o artista do que para o operário de linha de montagem, cuja obra ele não escolhe nem vê terminada. E o versículo é mais modesto que ela: não diz que o trabalho é aquilo para que se vive. Diz que ele tem seis dias, e que no sétimo para. A ordem que o Êxodo dá ao trabalho é também um limite que Sayers, apaixonada pela obra, quase não menciona.

7. Aplicações Práticas

O versículo tem relação direta com um problema moderno: o trabalho que não termina. O celular leva o escritório para casa, a mensagem chega no domingo à noite, a tarefa de sexta escorrega para o fim de semana. A leitura da Mekhilta — chegar ao dia de descanso "como se todo o trabalho estivesse feito" — não manda terminar tudo, o que ninguém consegue; manda decidir que, naquele dia, o pendente fica pendente. É uma regra que se pode praticar: fechar a semana com uma lista do que ficou para depois, e não voltar a ela até o dia seguinte ao descanso.

A disputa entre as escolas de Shammai e de Hillel também tem eco prático. A mensagem agendada, o processo automático que roda no fim de semana, a equipe que trabalha enquanto o chefe descansa: tudo isso é o "trabalho que se faz sozinho" de Hillel. A pergunta de Shammai continua de pé — se o que eu pus em movimento trabalha por mim, eu descansei mesmo? —, e o versículo seguinte, que estende o descanso aos que trabalham para o dono da casa, dá peso à pergunta.

Por fim, o "seis dias trabalharás" lido como dever tem uma consequência para quem está sem trabalho ou aposentado. A tradição rabínica não fala de emprego, fala de obra: o pátio em ruínas, o campo abandonado. O mandamento, nessa leitura, não pede um salário; pede que haja alguma obra própria nos dias que não são de descanso.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se trabalhar seis dias é ordem, quem tira férias ou trabalha cinco dias está transgredindo?

Nenhuma tradição leu assim. Mesmo para Rabi Judá, o Príncipe, que chama o trabalho de "decreto", o que se proíbe é o ócio, não a folga. A lei judaica nunca exigiu seis dias de emprego, e o próprio Pentateuco cria dias de festa no meio da semana em que não se trabalha (Levítico 23). O "seis dias" marca o limite máximo e o ritmo, não uma jornada obrigatória.

O versículo condena quem não pode trabalhar?

Não. Ele se dirige a um chefe de casa livre, com saúde e com meios. O doente, a criança, o idoso e o pobre sem terra são tratados por outras leis — a respiga deixada nos campos, o dízimo do terceiro ano, o empréstimo sem juros. A ética rabínica do trabalho condena a ociosidade escolhida, não a incapacidade.

O estudo conta como trabalho?

Para os rabinos, os dois andavam juntos e não se substituíam. A Mishná registra a frase de Rabban Gamliel, filho de Rabi Judá, o Príncipe: "É bom o estudo da Torá unido a um ofício, porque o esforço dos dois faz esquecer o pecado; toda Torá sem trabalho acaba em nada e traz pecado" (Avot 2:2). O estudo não dispensava o ofício.

9. Conexão com Outros Textos

O trabalho antes do Sinai

Gênesis 2:2 — "No sétimo dia Deus já havia terminado a obra que fez, e nesse sétimo dia descansou de toda a obra que havia feito."

A palavra de "toda a tua obra" é a da "obra" de Deus. O mandamento dá ao ser humano a mesma medida: uma obra que se termina, e depois o sétimo dia.

Gênesis 2:15 — "O SENHOR Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden para cultivá-lo e cuidar dele."

"Cultivar" é o verbo de "trabalharás". O trabalho está no jardim antes da queda; não nasce como castigo. É o versículo que Rabi Shimon ben Elazar usa, no Avot de Rabi Natan, para dizer que nem Adão provou comida antes de trabalhar.

Gênesis 3:17-19 — "Maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você comerá dela todos os dias da sua vida. Espinhos e cardos ela produzirá para você, e você comerá a erva do campo. Com o suor do seu rosto você comerá o pão, até que volte à terra."

O que a queda acrescenta não é o trabalho, e sim o sofrimento e o "todos os dias", sem pausa. O mandamento dos seis dias corta esse "todos".

O mesmo verbo no Egito e no monte

Êxodo 1:13-14 — "Por isso os egípcios escravizaram os filhos de Israel com brutalidade e amarguraram a vida deles com trabalho pesado: a argamassa, os tijolos e todo o serviço do campo. Todo o trabalho que lhes impunham era com brutalidade."

Êxodo 3:12 — "E Deus respondeu: 'Eu estarei com você; e este será o sinal de que fui eu que o enviei: quando você tirar o povo do Egito, vocês servirão a Deus neste monte.'"

Escravizar, servir a Deus, trabalhar: a mesma raiz nos três versículos. O "trabalharás" do Sinai é dito no monte em que o povo veio "servir".

As outras formulações dos seis dias

Êxodo 23:12 — "Seis dias farás os teus trabalhos, e no sétimo dia cessarás."

Êxodo 34:21 — "Seis dias trabalharás, mas no sétimo dia descansarás; mesmo na aradura e na sega descansarás."

Êxodo 35:2 — "Seis dias se trabalhará, mas o sétimo dia será santo para vocês."

Três versões da mesma frase, cada uma com um acento. A de Êxodo 34:21 nomeia as duas épocas em que parar custava mais: a de arar e a de colher. A de Êxodo 35:2, na abertura da construção do santuário, passa para a voz passiva — "se trabalhará" —, e é a frase que os rabinos usaram para dizer que nem a construção do santuário suspende o sábado.

O trabalho na ordem do mundo

Salmo 104:23 — "O ser humano sai para o seu trabalho e para a sua lida até a tarde."

No salmo da criação, o trabalho humano entra entre os ritmos naturais, depois dos leões que caçam de noite. Tem hora de começar e hora de acabar.

Eclesiastes 2:24 — "Não há nada melhor para o ser humano do que comer, beber e fazer a sua alma desfrutar o bem do seu trabalho. Também vi que isso vem da mão de Deus."

O "teu trabalho" do mandamento, visto pelo sábio: o fruto do esforço é para quem o fez, e não para outro.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra;

Texto hebraico

שֵׁ֤֣שֶׁת יָמִ֣ים֙ תַּֽעֲבֹ֔ד֮ וְעָשִׂ֖֣יתָ כׇּל־מְלַאכְתֶּֽךָ֒׃

Transliteração

sheshet yamim ta'avod ve-asita kol-melakhtekha.

Análise palavra por palavra

שֵׁשֶׁת יָמִים — sheshet yamim, "seis dias".

O numeral "seis" na forma ligada ao substantivo, seguido do plural de yom, "dia". Como em Êxodo 20:11, não há preposição: o hebraico usa o substantivo de tempo sozinho para dizer duração, "durante seis dias". A expressão abre o versículo, antes do verbo, e por isso tem destaque: o que se fixa primeiro é a medida, depois a atividade.

תַּעֲבֹד — ta'avod, "trabalharás".

Verbo avad no Qal (a forma simples do verbo hebraico), imperfeito, segunda pessoa do masculino singular. A raiz cobre trabalhar, servir, cultivar e prestar culto, e dela vêm eved, "servo, escravo", e avodah, "trabalho, serviço" — a palavra do trabalho imposto no Egito (Êxodo 1:14). O imperfeito hebraico serve tanto para a ordem quanto para a previsão e a permissão; é a mesma forma de "não matarás", sem a negação. A tradução aramaica de Ônquelos usa tiflach, de um verbo aramaico que também quer dizer ao mesmo tempo "trabalhar" e "prestar culto", e conserva assim a ambiguidade do hebraico. A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita a partir do século III antes de Cristo) traduz por ergá, "trabalharás", do verbo comum do trabalho, e perde o eco do serviço; a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta de 400) faz o mesmo com operaberis.

וְעָשִׂיתָ — ve-asita, "e farás".

Verbo asah, "fazer", no perfeito, segunda pessoa do masculino singular, precedido de "e". Nesta combinação, o perfeito com "e" depois de um imperfeito continua o sentido do verbo anterior e ganha valor de futuro ou de ordem: "trabalharás e farás". É o mesmo verbo de Gênesis 2:2, "a obra que fez", e de Êxodo 20:11, "o SENHOR fez os céus e a terra".

כָּל־מְלַאכְתֶּךָ — kol-melakhtekha, "toda a tua obra".

Kol, "todo", na forma presa ao substantivo, e melakhah, "trabalho, obra, tarefa", com o sufixo da segunda pessoa do masculino singular, "o teu". É a segunda palavra para "trabalho" no versículo, diferente da raiz do verbo. Melakhah é a obra encomendada, a tarefa como encargo, da mesma família de mal'akh, "mensageiro"; o estudo de Êxodo 12:16 apresenta a palavra e a sua relação com o descanso das festas. É ela que o versículo seguinte usa na proibição ("não farás nele obra alguma") e que a tradição rabínica transformou em categoria jurídica: as obras proibidas no sábado são chamadas, no Talmude, pelo plural desta palavra. A Septuaginta traduz por pánta tà érga sou e a Vulgata por omnia opera tua, "todas as tuas obras", no plural.

11. Conclusão

Do que foi visto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que o mandamento do sábado começa por legitimar o trabalho. Antes de dizer o que não se faz no sétimo dia, ele dá seis dias à obra humana e chama essa obra de "tua". Para um povo que acabou de sair de um trabalho imposto, a frase não é banal: o mesmo verbo que nomeava a escravidão passa a nomear uma atividade própria, e o trabalho deixa de ser só o que se sofre para ser o que se faz.

A segunda é que o texto não decide se o trabalho é ordem, permissão ou limite, e essa indecisão rendeu as duas grandes linhas de leitura. Uma, a rabínica, viu no trabalho um dever, e daí tirou a obrigação de ensinar um ofício e a desconfiança do ócio. Outra, a de muitos comentaristas cristãos, viu um teto, e daí tirou a proteção do descanso. As duas se apoiam na mesma frase e se completam: trabalhar é próprio do ser humano, e trabalhar sem fim não é.

A terceira é que "toda a tua obra" faz do fim da semana uma questão de decisão, e não só de esforço. Ninguém termina tudo, e o versículo parece saber disso. Pede que, ao chegar o sétimo dia, a obra seja tratada como terminada — ou, para a escola de Shammai, que esteja de fato parada. Em qualquer das leituras, o descanso exige que o trabalho tenha um fim reconhecido.

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