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Êxodo 16:25

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✍️ Por Alberto Adriano·3 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 17 acessos
Moisés disse: “Comam-no hoje, porque hoje é sábado ao SENHOR; hoje vocês não o acharão no campo.
Família sentada no chão de uma tenda no deserto, de manhã, partindo pães claros sobre uma esteira, enquanto lá fora o terreno em volta do acampamento aparece vazio sob a luz baixa.

Estudo


Moisés disse: “Comam-no hoje, porque hoje é sábado ao SENHOR; hoje vocês não o acharão no campo.

1. Introdução

É a manhã do primeiro sábado, e o povo tem nas tendas o maná guardado da véspera, sem saber se pode comê-lo nem se deve sair ao campo. Moisés responde com uma ordem de comer e com uma palavra dita três vezes: "hoje". É a primeira vez que o dia presente é chamado de sábado, e a primeira instrução sobre ele não manda parar, manda comer. Da palavra repetida a tradição rabínica tirou as três refeições do sábado; do contraste entre este "hoje" e o "amanhã" do versículo 23 nasceu uma polêmica medieval sobre a hora em que o dia santo começa. E a frase final, "hoje vocês não o acharão", foi lida como aviso e como consolo.

2. Contexto Histórico e Cultural

O dia em que se come mais

O pão do deserto chegava em dois tempos: carne à tarde, pão de manhã, como dizem Êxodo 16:8 e Êxodo 16:12. Era o ritmo comum do mundo antigo para quem trabalhava: uma refeição leve no começo do dia e a principal no fim dele. Duas por dia, e nos dias ruins uma só.

Contra esse fundo, a lei judaica que se formou a partir deste versículo fez do sábado o dia de três refeições. A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200) dá a medida de um modo inesperado, falando de incêndio. Se a casa pega fogo no sábado, é permitido salvar das chamas comida para três refeições, se o fogo começou na sexta à noite; para duas, se começou de manhã; para uma, se começou à tarde (Mishná Shabbat 16:2). A quantidade que se pode tirar do fogo é calculada pelas refeições que o dia ainda deve.

O Talmude (Shabbat 118a) faz a conta da semana: para os sábios, quinze refeições — duas em cada dia comum e três no sábado; para Rabi Chidka, dezesseis, porque ele exigia quatro no sábado.

O que os romanos achavam que os judeus faziam no sábado

Os de fora entenderam o contrário. Vários autores romanos estavam convencidos de que o sábado era dia de jejum.

Suetônio (biógrafo romano do início do século II) conserva uma carta do imperador Augusto a Tibério em que o imperador, contando que passara o dia quase sem comer, escreve: "Nem um judeu, meu Tibério, guarda o jejum do sábado com tanto cuidado quanto eu guardei hoje" (Vida de Augusto 76). Justino, no resumo que fez da história universal de Pompeu Trogo (historiador romano do tempo de Augusto), afirma que Moisés consagrou para sempre ao jejum o sétimo dia, "chamado sábado no costume do povo", porque aquele dia pusera fim à fome e às andanças dos judeus (Epítome XXXVI, 2). Marcial (poeta satírico romano do século I) inclui num epigrama sobre maus cheiros "os jejuns das mulheres que guardam o sábado" (Epigramas IV, 4).

Não se sabe com certeza de onde vinha o erro. Uma hipótese plausível é que os romanos viam a casa judaica sem fogo aceso no sábado e concluíam que nela não se comia. A versão de Trogo é a mais curiosa, porque liga o sábado à fome do deserto — e acerta o lugar errando o sentido. O texto que a tradição judaica lia nesse dia diz "comam".

Quando começa o "hoje"

O versículo foi também o centro de uma briga medieval sobre o começo do dia santo. Moisés diz "amanhã é sábado" em Êxodo 16:23, falando de dia, na sexta-feira; e diz "hoje é sábado" neste versículo, falando de manhã. Houve quem concluísse daí que o sábado começa na manhã de sábado e vai até a manhã de domingo, e não da sexta à noite ao sábado à noite, como sempre se praticou.

Abraão ibn Ezra (gramático e comentarista judeu espanhol do século XII) registra a leitura no comentário a este versículo e a chama de erro dos "pobres de fé". Sua resposta é de costume, não de gramática: Moisés falava segundo o uso da terra de Israel, onde ninguém assava nem cozinhava de noite, e por isso só fazia sentido avisar a respeito do dia. Se a Torá tivesse sido escrita na Europa, onde se trabalhava à noite, Moisés teria dito "esta noite é sábado".

Em 1158, em Londres, Ibn Ezra transformou a resposta num pequeno tratado, a Iggeret ha-Shabbat ("Epístola do Sábado"). Ele a apresenta como resultado de um sonho: o próprio Sábado lhe aparece e entrega uma carta, queixando-se de que, na casa de alunos dele, circulava um comentário que ensinava que o dia começa de manhã. O comentário visado é, na opinião corrente dos estudiosos, o de Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, século XII) sobre Gênesis 1:5. Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) repete o argumento no versículo seguinte, Êxodo 16:26, e apela para o Dia da Expiação, guardado "de tarde a tarde".

A prática venceu sem discussão, e o sábado judaico começa ao pôr do sol de sexta. Mas a briga mostra que o texto do maná fala de dia para dia: o anúncio é feito numa tarde, o maná é guardado "até a manhã", e o "hoje" é dito pela manhã. A pergunta geral — se a Bíblia conta o dia a partir da tarde ou da manhã — é discutida no estudo de Êxodo 12:18.

3. Análise Teológica do Versículo

"Moisés disse"

Nenhuma fórmula abre a fala. Em Êxodo 16:23 Moisés começou com "Isto é o que o SENHOR falou"; aqui, só "Moisés disse". O que vem a seguir é decisão dele, tomada diante de uma situação que a ordem divina não tinha previsto.

Que situação? A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) reconstrói a manhã. O povo, acostumado a sair cedo para recolher, vem perguntar: "Moisés, nosso mestre, saímos ou não?" Ele responde: "Comam-no hoje". Mais tarde voltam: "Já que não saímos de manhã, saímos ao entardecer?" Ele responde: "Hoje é sábado ao SENHOR". E, vendo que estão aflitos, acrescenta: "Hoje vocês não o acharão". Salomão ben Isaac, o Rashi (o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI), adota a cena inteira.

Na leitura da Mekhilta, as três frases do versículo são três respostas, dadas em três momentos, a três perguntas. O versículo é a costura de um dia de dúvidas.

"Comam-no hoje"

A primeira palavra sobre o sábado dirigida ao povo, na Bíblia, é um imperativo de comer. Não há ainda nenhuma proibição dita a ele: o "fique cada um onde está" só virá em Êxodo 16:29.

Por que mandar comer? Ninguém precisava de ordem para isso, a não ser que houvesse dúvida sobre se aquele pão podia ser comido. E havia. Em Êxodo 16:19 a regra era "ninguém deixe resto até a manhã", e o resto deixado apodreceu. Agora o povo tinha nas mãos exatamente isso: pão do dia anterior, guardado durante a noite.

Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) lê assim: de manhã, vendo que o maná não tinha estragado, os israelitas vieram a Moisés porque não queriam comer o pão de ontem, mesmo com a permissão de guardá-lo. Moisés então os autorizou a comê-lo naquele dia, e só naquele. Or ha-Chayim (Chayim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII) chega ao mesmo ponto pelo avesso: se foi preciso mandar comer o resto no sábado, é porque comer o resto nos outros dias estava proibido, e o "hoje" marca o limite da licença.

Obadias Sforno (comentarista italiano do século XVI) lê no imperativo uma instituição: comam "em horas fixas", a partir de agora. E a leitura que mais pesou na prática foi a de Rabi Zerica, na Mekhilta: "Daqui se aprende a comer três refeições no sábado". O Talmude (Shabbat 117b) explica a conta. Rabi Yochanan diz que os sábios e Rabi Chidka tiram as suas opiniões do mesmo versículo, contando os três "hoje". Para os sábios, são três refeições, incluindo a da noite de sexta. Para Rabi Chidka, como Moisés falou na manhã de sábado, os três "hoje" são as refeições do dia — e a da noite anterior se soma a elas, dando quatro.

A leitura é rabínica, não do texto. Moisés repete "hoje" porque está insistindo no dia, não contando pratos. Mas a intuição de fundo está no versículo: a primeira coisa que se faz no sábado é comer o que foi dado, sem sair para buscar mais.

"porque hoje é sábado ao SENHOR"

No versículo 23 o sábado era "amanhã"; aqui é "hoje". O substantivo e a pergunta sobre a sua origem são do estudo de Êxodo 16:23. O que este versículo acrescenta é o presente: pela primeira vez alguém está dentro de um sábado e diz isso.

O "porque" liga as duas metades de um jeito que surpreende. O motivo para comer o pão guardado é o dia ser do SENHOR. A santidade do dia não é expressa por jejum, nem por oferta, nem por abstenção: é expressa pelo pão que não estragou. O povo come porque o dia é santo, e não apesar de ser santo.

"Ao SENHOR" diz de quem é o dia. O povo não é dono do sábado; é convidado a comer nele. A mesma preposição marcará o sábado nas leis do Sinai ("o sétimo dia é sábado ao SENHOR, o seu Deus", Êxodo 20:10), e ali o peso da frase vai para a proibição. Aqui, no primeiro uso, o peso vai para a mesa.

"hoje vocês não o acharão no campo"

A terceira frase admite duas leituras opostas.

Primeira leitura: é aviso. Não adianta sair, porque não haverá nada. Charles Ellicott (bispo anglicano do século XIX) e Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) entendem que o descanso foi imposto por esse meio: Deus parou de dar, e o povo parou de recolher, porque não havia o que recolher. O sábado começa como ausência de maná antes de ser lei.

Segunda leitura: é consolo. A Mekhilta, e Rashi depois dela, ouvem a frase no ouvido de gente assustada. O maná faltou pela primeira vez; quem garante que voltará? "Hoje vocês não o acharão" quer dizer: só hoje. Amanhã ele estará lá. Rabi Elazar ben Chisma, na mesma Mekhilta, estica a frase até o fim dos tempos: neste mundo vocês não o acharão, no mundo vindouro o acharão.

As duas leituras cabem no texto, e o texto não escolhe entre elas. O que ele registra, dois versículos adiante, é que alguns saíram assim mesmo — e o verbo será o mesmo: "não acharam" (Êxodo 16:27). A frase de Moisés funciona como previsão, e se cumpre palavra por palavra.

"No campo" também diz alguma coisa. O maná tinha aparecido "sobre a face do deserto" (Êxodo 16:14). Moisés não diz deserto: diz campo, a palavra do terreno aberto onde se planta, se colhe e se caça. O lugar onde se recolhe o maná é tratado como lavoura, e o recolher como colheita.

A tradição pendurou um futuro neste "hoje"

A Mekhilta junta ao versículo três promessas. Rabi Yehoshua: quem guardar o sábado receberá três festas, Páscoa, Semanas e Tabernáculos. Rabi Elazar de Modiin: receberá seis bens — a terra de Israel, o mundo vindouro, o mundo novo, o reino da casa de Davi, o sacerdócio e o serviço levítico. Rabi Elazar: será poupado de três castigos, o dia de Gog e Magog, as dores que precedem o Messias e o grande dia do julgamento.

O Talmude (Shabbat 118a) repete a terceira promessa e a justifica pela palavra "dia": o "hoje" deste versículo é ligado ao "dia" de Malaquias 4:5, ao de Sofonias 1:15 e ao de Ezequiel 38:18. O método — ligar duas passagens porque usam a mesma palavra — é típico dos rabinos e não diz nada sobre o sentido de Êxodo. Diz sobre o peso que o versículo ganhou: o primeiro "hoje" sabático foi lido como amostra de todos os dias que viriam.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Moisés — fala sem invocar ordem divina. Na véspera transmitiu o que o SENHOR tinha dito; nesta manhã decide sozinho que o pão guardado pode ser comido e explica por que não haverá maná no campo.

O povo — o destinatário dos três verbos no plural ("comam", "não acharão"). Pela leitura da Mekhilta, é ele que provoca a fala, com perguntas feitas em momentos diferentes do dia.

Lugares

O campo — o terreno aberto em volta do acampamento onde o maná caía. O versículo o chama com a palavra de lavoura, não com a palavra de deserto, que o capítulo usa para o mesmo chão em Êxodo 16:14.

As tendas — implícitas. É nelas que está o pão guardado desde a véspera, e é nelas que se come.

Eventos

O primeiro sábado vivido — o dia anunciado em Êxodo 16:23 chega. Pela conta da Mekhilta, que põe o começo do maná num domingo, é o sétimo dia da série. O versículo é dito na manhã desse dia.

O pão que não estragou — a porção guardada da sexta para o sábado, que amanheceu boa (Êxodo 16:24). É ela o objeto do "comam-no".

A falta do maná — anunciada aqui, comprovada no versículo 27. É a primeira manhã, desde Êxodo 16:14, em que o chão em volta do acampamento amanhece vazio.

5. Pontos de Ensino

O sábado começa com uma permissão. Antes de qualquer proibição dita ao povo, a primeira palavra sobre o dia autoriza a comer o que tinha sido guardado. A regra de não guardar resto é suspensa para esse dia.

O dia santo é marcado pela mesa. O motivo dado para comer é o dia ser "do SENHOR". A santidade aparece como abundância já recebida, não como jejum. A tradição judaica tirou daí as três refeições, e os romanos, olhando de fora, acharam que o sábado era dia de jejum.

Uma palavra repetida carrega a ênfase. O "hoje" dito três vezes fixa o dia presente contra a ansiedade do dia seguinte. Quem pergunta "e amanhã?" recebe como resposta "hoje".

A falta anunciada não é abandono. "Hoje vocês não o acharão" pode ser ouvido como aviso ou como consolo. O capítulo confirma as duas coisas: no sábado não houve maná, e no domingo houve de novo.

Quem lidera interpreta. Moisés decide, sem citar ordem divina, o que fazer com uma situação nova. O versículo mostra uma liderança que aplica a regra recebida a um caso que a regra não previa.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe o peso inteiro numa palavra: hoje. O povo pergunta pelo campo, pela tarde, pelo dia seguinte; Moisés devolve três vezes o dia em que eles estão. Há aí uma questão antiga da filosofia e da espiritualidade: o que significa viver no presente, e por que isso é tão difícil para quem precisa garantir o amanhã?

Thomas Merton e a semente de cada momento

Thomas Merton (1915-1968), monge trapista norte-americano da abadia de Getsêmani, no Kentucky, escreveu sobre contemplação para leitores que não viviam em mosteiro. No livro New Seeds of Contemplation ("Novas sementes de contemplação", 1961, revisão de um livro de 1949), o capítulo que dá título à obra abre com uma imagem agrícola. Cada momento e cada acontecimento da vida de uma pessoa, diz ele, planta alguma coisa na alma. Como o vento carrega milhares de sementes aladas, cada momento traz germes de vida que pousam sem ser percebidos. A maior parte se perde, porque as pessoas não estão preparadas para recebê-los.

A imagem quase descreve o maná: uma coisa miúda que cobre o chão toda manhã, que precisa ser recolhida no seu tempo, e que se perde se não for. Merton fala do presente como lugar de recepção, não de produção. O momento não é matéria-prima para ser transformada em resultado; é o lugar onde alguma coisa é dada.

A pressa como violência

Merton tem outra frase, mais dura, em Conjectures of a Guilty Bystander ("Conjecturas de um espectador culpado", 1966), um livro de anotações sobre a vida moderna. Ele chama a pressa e a sobrecarga de trabalho de "forma de violência" — talvez a mais comum do mundo moderno. Deixar-se arrastar por uma multidão de preocupações, aceitar fazer tudo, querer ajudar todos em tudo, diz ele, é ceder à violência. E acrescenta que o ativismo destrói a raiz da sabedoria interior que torna o trabalho fecundo.

A frase cai bem sobre o que o versículo 27 vai mostrar: gente que sai para recolher no dia em que não há nada a recolher. Mas cai também sobre a ansiedade que o versículo 25 tenta acalmar. A pergunta "saímos ou não?" é a pergunta de quem não consegue ficar dentro do dia. Merton diria que essa inquietação não é zelo; é a violência pequena que o trabalhador faz contra si mesmo.

O limite da aproximação

Merton escreve como monge cristão do século XX, e o seu "presente" é o da contemplação, não o de um povo nômade com fome. O versículo não fala de interioridade: fala de pão guardado e de campo vazio. A aproximação vale por um ponto preciso. Nos dois casos, o presente não é apresentado como esforço de concentração, mas como dom já recebido. O povo não precisa fabricar o hoje; precisa comer o que o hoje já tem.

E há uma diferença que o versículo impõe. Para Merton, a semente do momento se perde por desatenção. No deserto, o pão do sábado não se perde: foi recolhido na véspera e está na tenda. O hoje do sábado é sustentado pelo trabalho de ontem. O versículo não opõe o presente à previdência; ele faz a previdência de sexta servir ao presente de sábado.

7. Aplicações Práticas

Comer o que já está em casa. A primeira ordem do sábado é desfrutar o que foi preparado. Quem guarda um dia de descanso, seja em que tradição for, pode começar por aí: o dia se faz com o que a semana já deu, sem saída para buscar mais.

Responder ao "e amanhã?" com o hoje. As perguntas do povo eram todas sobre o depois. A resposta de Moisés não nega o amanhã — o maná voltaria —, mas recusa deixar que ele ocupe o dia presente. Para quem vive sob a pressão de garantir o futuro, a frase marca um limite de um dia.

Interpretar a regra no caso novo. A regra dizia "não deixe resto"; a situação era um resto autorizado. Moisés não aplicou a regra mecanicamente: perguntou para que ela servia e disse o que valia "hoje". Em casa, na comunidade ou no trabalho, regras recebidas pedem esse discernimento quando aparece um caso que elas não previram.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O pão do sábado era comido cru?

Depende de como se lê Êxodo 16:23. Para Rashi, tudo o que se ia assar ou cozinhar para os dois dias foi assado e cozido na sexta. Para Ibn Ezra, na sexta preparou-se só a porção do dia, e a segunda ficou guardada como estava. Nachmânides objeta que, nesse caso, o povo teria comido no sábado o maná sem preparo, ao contrário do costume descrito em Números 11:8. O versículo 25 não esclarece: diz "comam-no", sem dizer como.

As três frases foram ditas de uma vez?

O texto as apresenta como uma fala só, introduzida por um único "Moisés disse". A Mekhilta as distribui por três momentos do dia, e Rabi Chidka, no Talmude, supõe que foram ditas de manhã. Não é possível decidir. A repetição de "hoje" tanto pode ser ênfase de uma fala só quanto vestígio de respostas dadas em horas diferentes.

Comer no sábado era obrigação?

O versículo usa o imperativo, mas o contexto é de permissão: o povo hesitava em comer o resto. A tradição rabínica fez das refeições uma obrigação — tanto que discute se são três ou quatro. O texto, por si só, não chega a tanto. Diz que se podia e se devia comer o pão guardado, e por quê.

Por que Moisés não diz "assim diz o SENHOR"?

O texto não explica. Uma resposta plausível é que a decisão era de aplicação, não de revelação: o SENHOR tinha dito que o sexto dia daria o dobro, e Moisés tira a consequência para o sétimo. No versículo 28, a repreensão de Deus pressupõe que as regras do sábado já tinham sido comunicadas, o que dá a essa aplicação o peso de mandamento.

9. Conexão com Outros Textos

O sábado anunciado na véspera

Êxodo 16:23 — “Ele lhes disse: ‘Isto é o que o SENHOR falou: amanhã é dia de descanso, sábado santo ao SENHOR. O que vocês tiverem de assar, assem; o que tiverem de cozinhar, cozinhem; e tudo o que sobrar, depositem para vocês, para ser guardado até a manhã.’”

O par se completa. Na sexta o dia santo era "amanhã", e a fala vinha com a autoridade do SENHOR; no sábado é "hoje", e a fala é de Moisés. Foi esse par "amanhã / hoje" que alimentou a disputa sobre o começo do dia.

Um dia santo que se celebra comendo

Neemias 8:10 — "Vão, comam carnes gordas e bebam bebidas doces, e mandem porções a quem nada tem preparado, porque este dia é consagrado ao nosso Senhor. Não se entristeçam, porque a alegria do SENHOR é a força de vocês."

Na leitura da lei depois do exílio, o povo chora, e os líderes mandam comer. A estrutura é a do versículo 25: o motivo para comer é o dia ser do Senhor. E o texto acrescenta o que Êxodo não precisou dizer, porque todos tinham a mesma porção: mandar comida a quem não preparou nada.

O sábado chamado de delícia

Isaías 58:13-14 — "Se você desviar o pé do sábado, de fazer a sua vontade no meu santo dia, e chamar o sábado de delícia, e o santo dia do SENHOR de honroso… então você terá prazer no SENHOR."

É o texto em que os rabinos apoiaram o "prazer do sábado" (Shabbat 118a-b), e é dele que vem a ideia de que comer bem no sétimo dia é forma de honrá-lo. A raiz está no "comam-no hoje" do deserto.

O hoje da obediência, no deserto

Salmo 95:7-8 — "Hoje, se vocês ouvirem a sua voz, não endureçam o coração, como em Meribá, como no dia de Massá, no deserto."

O salmo usa "hoje" como chamado e, na mesma frase, lembra o deserto do Êxodo — o episódio da água, que vem logo depois do maná (Êxodo 17:7). O Midrash Shemot Rabá (comentário rabínico ao Êxodo, de redação medieval), na seção 25:12, junta este salmo ao sábado: bastaria Israel guardar um sábado como deve, e o filho de Davi viria, porque está escrito "hoje, se ouvirem a sua voz".

O dia que se conta de tarde a tarde

Levítico 23:32 — "Será para vocês sábado de descanso, e vocês se humilharão; no nono dia do mês, à tarde, de tarde a tarde, guardarão o seu sábado."

É o texto que Chizkuni usa contra quem lia este versículo como prova de que o sábado começa de manhã. O Dia da Expiação é chamado de sábado e começa explicitamente na véspera. E é o único "sábado" da Torá em que não se come.

O dia dos três castigos

Malaquias 4:5 (3:23 na Bíblia hebraica) — "Eis que eu enviarei a vocês o profeta Elias, antes que venha o dia grande e terrível do SENHOR."

O Talmude (Shabbat 118a) liga o "dia" deste versículo ao "hoje" de Êxodo 16:25 para prometer a quem guarda as três refeições a proteção contra as dores que precedem o Messias. A ligação é de palavra, não de assunto, e mostra como o primeiro "hoje" do sábado foi lido como penhor do futuro.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Moisés disse: “Comam-no hoje, porque hoje é sábado ao SENHOR; hoje vocês não o acharão no campo.

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אִכְלֻהוּ הַיּוֹם כִּי־שַׁבָּת הַיּוֹם לַיהוָה הַיּוֹם לֹא תִמְצָאֻהוּ בַּשָּׂדֶה׃

Transliteração

va-yómer Moshé: ikhlúhu ha-yom, ki-shabbát ha-yom la-YHWH; ha-yom lo timtsa'úhu ba-sadé.

Análise palavra por palavra

וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה — va-yómer Moshé, "Moisés disse".

A forma verbal que encadeia a narrativa, do verbo amar, "dizer", terceira pessoa do masculino singular. Nenhuma fórmula de mensageiro acompanha. Em Êxodo 16:23 a fala abria com hu asher dibber YHWH, "isto é o que o SENHOR falou"; aqui a fala é só de Moisés.

אִכְלֻהוּ — ikhlúhu, "comam-no".

Imperativo do Qal (a forma simples do verbo hebraico) de akhal, "comer", segunda pessoa do masculino plural, com o sufixo -hu, "o", que aponta para o maná guardado. O sufixo dá à ordem um objeto definido: aquele pão, o guardado da véspera, e não qualquer comida.

הַיּוֹם — ha-yom, "hoje".

Literalmente "o dia", com artigo. Em hebraico, "o dia" dito por quem está dentro dele vale "hoje", como em Gênesis 4:14 ("hoje me expulsas") ou Êxodo 2:18 ("por que voltaram tão cedo hoje?"). A palavra aparece três vezes no versículo, e as três ocupam posições diferentes: depois do verbo ("comam-no hoje"), como predicado de tempo do sábado ("sábado [é] hoje") e no início de frase, em destaque ("hoje, não o acharão").

O terceiro ha-yom é o que tem mais peso, porque vem antes do verbo. Em hebraico, pôr o tempo na frente da frase o destaca: "hoje — e só hoje — vocês não o acharão". É nessa posição que a leitura de consolo da Mekhilta se apoia.

כִּי — ki, "porque".

Conjunção que introduz a causa. Liga o comer ao dia: comam, porque o dia é sábado.

שַׁבָּת — shabbát, "sábado".

O substantivo, sem artigo. A primeira ocorrência, a origem da palavra e o seu parentesco com o verbo shavat, "cessar", são do estudo de Êxodo 16:23. Aqui a palavra é predicado de uma frase sem verbo: "sábado [é] hoje". A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) põe sábbata, forma plural no grego, que reproduz o aramaico shabbata e funciona como singular.

לַיהוָה — la-YHWH, "ao SENHOR".

Preposição le, "para, a", que marca pertença ou destinação, com o nome divino. A mesma construção que aparece no sábado do decálogo (Êxodo 20:10) e já tinha aparecido na festa de Êxodo 12:14 ("festa ao SENHOR").

לֹא תִמְצָאֻהוּ — lo timtsa'úhu, "não o acharão".

A negação lo, de fato e não de proibição, com o imperfeito do Qal de matsa, "achar, encontrar", segunda pessoa do masculino plural, com o sufixo "o". A forma é de futuro: é previsão, não ordem. O mesmo verbo volta no versículo 27 ("e não acharam"), no perfeito, como cumprimento.

בַּשָּׂדֶה — ba-sadé, "no campo".

Preposição be, "em", com artigo, e sadé, o campo aberto: terra de cultivo, de pasto e de caça, em oposição à cidade e à casa. É a palavra de "o homem do campo" (Gênesis 25:27) e de "os animais do campo". O capítulo chama o mesmo chão de "deserto" em Êxodo 16:14; aqui o chama de "campo", o lugar onde se colhe.

As versões antigas

A Septuaginta traduz: "Comam hoje, porque hoje é sábado ao Senhor; não será achado no campo". Duas diferenças. O terceiro "hoje" desaparece, e com ele o destaque que a Mekhilta lia. E o verbo passa para a voz passiva: não são mais as pessoas que não acharão, é o maná que não será achado. O foco sai de quem procura e vai para o que falta.

O Targum de Ônquelos (tradução aramaica da Torá usada nas sinagogas da Antiguidade) mantém os três "hoje" com yoma den, "este dia", e traduz "ao SENHOR" por "diante do SENHOR", fórmula com que costuma evitar que Deus seja objeto direto de preposições humanas. O Pseudo-Jônatas (outra tradução aramaica, mais livre e tardia) acrescenta "Moisés lhes disse" e chama o dia de "o dia de sábado diante do SENHOR".

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que o sábado entra na vida do povo como permissão antes de entrar como restrição. A regra de não guardar resto, que tinha acabado de produzir vermes, cede para o pão do sétimo dia, e o primeiro verbo dirigido ao povo no dia santo é "comam". Toda a ética posterior do sábado, com as suas proibições, se apoia numa primeira manhã em que o gesto pedido foi o de sentar e comer.

A segunda é que o versículo responde à ansiedade com o tempo, não com promessas. O povo pergunta pelo campo, pela tarde, pelo dia seguinte. Moisés não explica a mecânica do maná nem garante quantidades: repete o dia em que eles estão. A repetição é a resposta.

A terceira é que a palavra "hoje", dita três vezes, fez deste versículo um dos mais carregados de leitura do capítulo — as refeições contadas pelos rabinos, a polêmica sobre o começo do dia, as promessas pinçadas pela palavra "dia". Nenhuma dessas leituras está no texto. Todas nasceram da mesma percepção: que a primeira manhã de sábado vivida pelo povo tinha de dizer como seriam todas as outras.

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