E Moisés disse: “Será quando o SENHOR lhes der à tarde carne para comer, e de manhã pão até se fartarem, porque o SENHOR ouviu as murmurações com que vocês murmuram contra ele. E nós, que somos? As murmurações de vocês não são contra nós, mas contra o SENHOR.”
1. Introdução
Moisés retoma sozinho a fala que tinha começado com Arão e anuncia, pela primeira vez, as duas provisões: carne à tarde e pão de manhã, este até a fartura. A frase começa sem verbo principal e fica suspensa, como se ele a interrompesse no meio; a ABC a completa com "Será quando…". No fim vem a sentença que dá ao versículo o seu peso: "As murmurações de vocês não são contra nós, mas contra o SENHOR". Os rabinos a leram como advertência, não como consolo, e a tradição posterior a transformou em princípio sobre a autoridade de quem fala em nome de Deus. O próprio texto, porém, cerca a frase de condições que impedem usá-la como escudo de qualquer líder.
2. Contexto Histórico e Cultural
O enviado é como quem o envia
A frase de Moisés se apoia numa ideia jurídica que o direito judaico formulou depois com todas as letras: o agente de uma pessoa equivale à própria pessoa. A Mishná (a primeira grande compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) usa a regra num lugar inesperado, o tratado Berakhot 5:5. Quem dirige a oração da comunidade e erra as palavras dá mau sinal "para os que o enviaram", porque "o enviado de uma pessoa é como ela mesma". O erro do enviado recai sobre quem o enviou.
O Talmude da Babilônia, no tratado Kiddushin (41b), procura a origem da regra na Torá e a encontra no próprio Êxodo. Êxodo 12:6 manda que "toda a assembleia da congregação de Israel" imole o cordeiro da Páscoa. Mas quem imola, de fato, é uma pessoa por grupo. Se o texto atribui o ato a toda a assembleia, conclui Rabi Josué ben Korcha, é porque o ato do enviado vale como ato de quem o enviou.
A regra atravessou os séculos e reapareceu no direito da Igreja. Entre as regras gerais que fecham o Liber Sextus ("Livro Sexto", coleção de leis canônicas publicada pelo papa Bonifácio VIII em 1298), uma diz: qui facit per alium est perinde ac si faciat per se ipsum — "quem faz por meio de outro é como se fizesse por si mesmo". É a base da ideia moderna de procuração e de responsabilidade do mandante.
A regra ao contrário
Nessas formulações, a regra corre num sentido: o que o enviado faz conta como feito pelo mandante. Moisés a aplica no sentido inverso: o que se faz contra o enviado conta como feito contra o mandante. A diplomacia antiga conhecia esse sentido inverso muito bem, e o tratamento dado a um mensageiro era lido como recado a quem o mandou, como mostrou o estudo de Êxodo 5:20.
E o próprio Talmude marcou o limite da regra. Em Kiddushin 42b, ele estabelece que "não há agente para transgressão": se alguém manda outro cometer uma falta, quem a comete responde por ela, porque entre a palavra do Mestre, que é Deus, e a palavra do discípulo, que é o homem, deve-se ouvir a do Mestre. O enviado só é como quem o envia enquanto faz o que foi mandado. Aplicada a Êxodo 16:8, a ressalva tem consequência direta: a queixa contra Moisés só é queixa contra Deus na medida em que Moisés está fazendo o que Deus mandou. Para a saída do Egito, o texto inteiro garante que estava.
3. Análise Teológica do Versículo
"E Moisés disse:"
Dois versículos antes, quem falava eram "Moisés e Arão". Agora é Moisés sozinho, e ele repete boa parte do que os dois já tinham dito. Por que a segunda fala? Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) responde que agora Moisés diz quais seriam os dois sinais anunciados. Ramban (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) concorda: o versículo explica o anterior, ponto por ponto — a carne da tarde é o sinal de que foi o SENHOR quem os tirou do Egito; o pão da manhã é a glória. A crítica moderna vê aqui outra coisa: para August Dillmann, seguido por S. R. Driver na Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa), o versículo é uma nota explicativa de quem organizou o texto, acrescentada para esclarecer os dois anteriores. É uma hipótese sobre a formação do capítulo, e não é possível prová-la.
"Será quando o SENHOR lhes der…"
O hebraico não tem "será". Começa com "no dar do SENHOR a vocês", segue com "no ouvir do SENHOR as murmurações", e nunca chega ao verbo principal. A frase fica pendurada. Em português, a ABC supre "Será quando…"; a tradição de Almeida escreveu "Isso será quando…". Outras soluções foram tentadas desde cedo, e cada uma é uma interpretação.
A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) mantém a suspensão tal como está, sem acrescentar nada. O Targum chamado de Pseudo-Jônatas (tradução aramaica antiga, cheia de acréscimos de interpretação) completa com "Por isto vocês saberão…", ligando o versículo ao "vocês saberão" do versículo 6. Ramban completa da mesma forma, mas em duas metades: quando ele der a carne, vocês saberão; quando der o pão, verão a glória. John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) registra que o complemento "pode ser deixado de fora" sem prejuízo do sentido.
Há uma leitura que não depende de completar nada: a frase pode estar quebrada porque é fala de um homem sob pressão, que acumula orações — à tarde, de manhã, porque o SENHOR ouviu — e interrompe a própria construção para voltar ao que o incomoda: "E nós, que somos?". É uma leitura possível, não uma demonstração.
"à tarde carne para comer, e de manhã pão até se fartarem"
É a primeira vez que alguém promete carne. Em Êxodo 16:4, Deus falou só de pão; no versículo 6, Moisés e Arão disseram apenas que à tarde o povo "saberia". A carne aparece aqui, na boca de Moisés, e só em Êxodo 16:12 Deus dirá a mesma coisa. Ramban explica que Deus repete em Êxodo 16:12 o que Moisés já tinha anunciado; Driver vê na ordem invertida um sinal de que os versículos 9 a 12 saíram do lugar. O texto, como está, mostra o líder prometendo antes da ordem, e não comenta.
As duas metades da promessa não são iguais. A carne vem "para comer"; o pão vem "até se fartarem". Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) tira daí uma regra de conduta: não se come carne até a saciedade. E explica a diferença de tratamento pela diferença dos pedidos: o pão era necessidade, porque ninguém vive sem pão; a carne era desejo, de um povo que ainda tinha rebanhos. Por isso o pão veio de manhã, com tempo para preparar, e a carne no fim da tarde, às pressas. Ramban confirma a assimetria de outro modo: neste lugar o povo foi saciado de pão, e não de carne; a fartura de carne só virá em Números 11, e junto com castigo.
O Haamek Davar (comentário do rabino Naftali Tsvi Yehuda Berlin, Lituânia, século XIX) faz da carne a chave do versículo inteiro. A lembrança das "panelas de carne" do Egito (Êxodo 16:3) era, para ele, a parte da queixa que atingia Deus diretamente: pão se pede a quem conduz; carne no deserto só Deus poderia dar, e reclamar dela era reclamar dele.
"porque o SENHOR ouviu as murmurações com que vocês murmuram contra ele"
A frase do versículo anterior volta, agora com um acréscimo: "com que vocês murmuram contra ele". O povo nunca falou contra Deus; o texto o diz pela boca de Moisés. Rashi, coerente com a leitura que fez do versículo anterior, entende a forma verbal como causativa também aqui: as murmurações "que vocês fazem os outros murmurarem contra ele".
A Septuaginta tem aqui uma diferença real de texto. Onde o hebraico diz "contra ele", o grego diz "contra nós": "o Senhor ouviu a murmuração de vocês, com que vocês murmuram contra nós; e nós, que somos? A murmuração de vocês não é contra nós, mas contra Deus". A versão grega é mais lógica: primeiro o fato (murmuram contra nós), depois a correção (na verdade é contra Deus). O hebraico antecipa a conclusão antes de chegar a ela. Não é possível decidir qual forma é a mais antiga. A grega pode ser uma correção de quem achou a hebraica redundante; a hebraica pode ser um ajuste de copista que quis afirmar desde o início contra quem era a queixa.
"E nós, que somos?"
A pergunta do versículo anterior volta, mas agora sozinha, sem o "para que murmurem contra nós". No versículo 7, ela era a conclusão de um raciocínio; aqui, ela é a dobradiça entre a promessa e a sentença final. O Haamek Davar distingue as duas: na primeira, os irmãos perguntam quanto valem; na segunda, negam que a queixa os atinja em alguma medida.
"As murmurações de vocês não são contra nós, mas contra o SENHOR."
A construção "não A, mas B" é conhecida em hebraico como modo de dizer "não tanto A quanto B" sem negar que A tenha acontecido — e a queixa foi, de fato, contra Moisés e Arão (Êxodo 16:2). A construção foi analisada no estudo de Gênesis 45:8. O que é próprio deste versículo é a pergunta seguinte: o que Moisés faz ao dizer isso? As leituras divergem, e cada uma vê na frase uma função diferente.
Primeira leitura: a frase é humildade. É a de Ramban. Moisés recusa ser o autor da saída do Egito: foi o SENHOR quem os tirou de lá, e por isso a queixa sobre a saída só pode ser contra ele. A frase protege a verdade dos fatos, não a pessoa de Moisés.
Segunda leitura: a frase é advertência. É a da Mekhilta de Rabi Ishmael (a mais antiga coletânea de comentários rabínicos ao Êxodo, com material dos séculos II e III), que põe na boca dos dois: "Se fosse contra nós que vocês se levantassem para se queixar, nós suportaríamos. Mas vocês se queixam diante do Deus vivo, que permanece para sempre!". Lida assim, a frase não alivia o povo; aumenta a gravidade do que ele fez. A queixa contra o homem se aguenta; contra Deus, não.
Terceira leitura: a frase é dever. O Haamek Davar observa que Deus, até ali, não tinha se queixado de nada, e que não é costume de um líder que ama o povo atiçar ressentimento. Por que Moisés fala? Porque pode perdoar o que é contra ele, mas não tem o direito de perdoar o que é contra a honra de Deus. Na leitura do Haamek Davar, Moisés fala contra a própria inclinação, e só pela parte que não lhe pertence.
Quarta leitura: a frase é diagnóstico. Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) explica a psicologia da queixa: quem tem algo contra o senhor não ousa dizê-lo na cara dele e despeja tudo sobre o servo. Moisés estaria apenas nomeando o destinatário real de uma queixa que o povo não tinha coragem de dirigir a quem devia.
O risco da frase, e o que o texto faz com ele
A sentença de Moisés tem uma história de uso que não pertence a ela. Comentaristas cristãos a transformaram em princípio geral: a Bíblia de Genebra (a Bíblia comentada dos reformadores ingleses exilados em Genebra, 1560) anota na margem que "quem condena os ministros de Deus condena o próprio Deus", e Gill aplica a frase aos pregadores de qualquer época. Uma vez generalizada, ela permite a qualquer pessoa que fale em nome de Deus tratar toda crítica como revolta religiosa.
O texto do Êxodo não autoriza essa generalização, e por quatro razões que estão nele. Primeira: a frase vem depois de "que somos nós?", isto é, de alguém que primeiro se diminui; o argumento só funciona para quem se põe fora da conta. Segunda: o próprio Deus confirma a leitura em Êxodo 16:12 ("Ouvi as murmurações") e em Números 14:27 ("murmura contra mim"); a identificação não fica dependendo só da palavra do líder. Terceira: a queixa é sobre a saída do Egito e a fome no deserto, isto é, sobre uma obra que o texto atribui a Deus do começo ao fim. Quarta: dois capítulos adiante, Moisés recebe uma crítica dura de Jetro ("Não é bom o que você está fazendo", Êxodo 18:17), e o texto não a chama de murmuração; Moisés a ouve e muda o modo de governar. O livro distingue a queixa contra a obra de Deus da crítica ao modo como um homem a executa.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
Fala sozinho, depois de ter falado junto com Arão. É ele quem anuncia a carne, antes de qualquer palavra de Deus sobre ela, e é ele quem dá o veredito sobre o endereço da queixa.
Arão
Presente e calado. Está incluído no "nós", mas não fala. No versículo seguinte, Moisés lhe dará uma ordem para transmitir ao povo.
O povo
Chamado de "vocês" do começo ao fim. É o mesmo que, em Êxodo 16:3, lembrou as panelas de carne e acusou os líderes de querer matá-lo de fome.
O SENHOR
Sujeito de dois verbos — dar e ouvir — e destinatário da queixa. Não fala neste versículo; a sua palavra vem em Êxodo 16:11-12 e confirma o que Moisés disse.
5. Pontos de Ensino
1. Quem tira o crédito de si também tira a ofensa. A lógica da frase é uma só: se a saída do Egito não foi obra de Moisés, a queixa contra ela também não é contra ele. O versículo não deixa o líder ficar com uma coisa sem a outra.
2. A queixa pode ter um destinatário que ninguém nomeou. O povo falou de Moisés e Arão; Moisés diz que falaram de Deus. O texto ensina a perguntar a quem, de fato, uma reclamação se dirige.
3. Necessidade e desejo não recebem o mesmo tratamento. O pão vem até a fartura; a carne, só "para comer". A leitura rabínica dessa diferença — o pão era necessário, a carne era vontade — é dos intérpretes, mas a assimetria está no texto.
4. A frase de Moisés tem condições. Ela vem depois de uma autodepreciação, é confirmada por Deus e trata de uma obra que o texto atribui a Deus. Fora dessas condições, ela deixa de ser a frase do Êxodo.
5. O livro distingue queixa de crítica. A murmuração do deserto é contra a obra; a crítica de Jetro, em Êxodo 18, é ao método. O Êxodo trata a primeira como falta e acolhe a segunda.
6. Aspectos Filosóficos
A quem se dirige uma queixa: Emil Cioran e o demiurgo
Emil Cioran (1911–1995) nasceu na Transilvânia, filho de um padre ortodoxo, e passou a maior parte da vida em Paris, escrevendo em francês. Os seus livros têm títulos que resumem o projeto: Nos cumes do desespero (1934), Breviário de decomposição (1949), Do inconveniente de ter nascido (1973). Ele é, talvez, o grande escritor moderno da queixa — não da queixa contra uma pessoa ou uma situação, mas contra a própria existência.
Em 1969, Cioran publicou O demiurgo mau. O ensaio que dá título ao livro abre com uma frase que resume a posição: é difícil, é impossível acreditar que o bom Deus, o "Pai", tenha se envolvido no escândalo da criação. Cioran retoma ali a velha tese dos gnósticos (movimentos religiosos dos primeiros séculos cristãos que distinguiam o Deus bom e distante de um criador inferior, responsável pelo mundo material): o mundo, tal como é, só pode ser obra de um deus menor, desastrado ou maligno. A queixa contra a existência, nessa tese, tem um destinatário — o demiurgo — e o Deus bom fica de fora da acusação.
O versículo do Êxodo e o ensaio de Cioran tratam do mesmo problema: quando a vida falta — falta pão, falta sentido —, contra quem se reclama? E fazem movimentos opostos.
O povo no deserto reclama contra o intermediário visível: Moisés e Arão, os homens que os tiraram do Egito. Moisés recusa o papel de intermediário culpado e leva a queixa até o fim da cadeia: não é contra nós, é contra o SENHOR. Ele fecha a distância entre o agente e a fonte. A queixa, que parecia política, vira teológica.
Os gnósticos, e Cioran com eles, fazem o contrário. Abrem uma distância dentro do próprio divino para ter a quem acusar sem acusar o Deus bom. O demiurgo é, de certo modo, um Moisés invertido: um intermediário inventado para receber a queixa que não se quer dirigir ao alto. O que Moisés recusa ser — o responsável pela saída para o deserto —, o demiurgo dos gnósticos é por definição.
A Bíblia hebraica conhece uma terceira via, e ela ajuda a ver o que Moisés condena e o que não condena. Os salmos de lamento e o livro de Jó estão cheios de queixas dirigidas diretamente a Deus — "Até quando, SENHOR?" (Salmo 13:1), "Por que você esconde o rosto?" (Salmo 44:24). O próprio Moisés fez uma, quando o povo o acusou no Egito: "Senhor, por que trouxeste mal a este povo? Por que me enviaste?" (Êxodo 5:22). Essas queixas não são chamadas de murmuração. A diferença não está no conteúdo, que pode ser duríssimo; está na direção. O lamento fala a Deus; a murmuração fala contra Deus, mas dirigida a outros, pelas costas, através do intermediário.
Lido ao lado do Êxodo, Cioran mostra que a pergunta de Moisés não é ingênua. Toda queixa contra a existência acaba tendo de escolher um endereço, e a escolha diz mais sobre quem reclama do que sobre o mundo de que se reclama.
O limite da aproximação é claro. O povo de Êxodo 16 não fazia metafísica; tinha fome. E Moisés não está oferecendo uma teoria sobre o mal, mas corrigindo uma atribuição concreta: quem os tirou do Egito. O que o paralelo com Cioran ilumina é a estrutura do gesto — fechar ou abrir a distância entre a queixa e a fonte —, não o conteúdo de uma doutrina que o texto não tem.
7. Aplicações Práticas
Para quem lidera: não usar a frase como escudo
A tentação de quem ocupa posição religiosa ou moral é responder a toda crítica com "não é contra mim, é contra Deus" — ou contra a causa, a instituição, a missão. O versículo mostra as condições em que Moisés disse isso: tinha acabado de se reduzir a nada, falava de uma obra que não era sua, e Deus confirmaria a leitura. Sem essas condições, a frase vira um modo de proibir a crítica. Quem lidera faz bem em perguntar, antes de usá-la, se está falando da obra de Deus ou do próprio modo de conduzir; o Êxodo trata as duas coisas de maneira diferente.
Para quem reclama: identificar o endereço real
Muitas queixas são dirigidas a quem está perto porque é perigoso, difícil ou inútil dirigi-las a quem decide. O funcionário recebe o que era para a diretoria; o filho mais velho recebe o que era para a doença do pai. A observação de Chizkuni — quem tem algo contra o senhor despeja sobre o servo — descreve um mecanismo comum. Perguntar contra quem, de fato, é a reclamação muda a forma de fazê-la, e às vezes muda a decisão de fazê-la.
Separar necessidade de desejo
A diferença entre o pão "até a fartura" e a carne "para comer" não é uma lição de dieta, e o texto não a formula como regra. Mas ela aponta para uma distinção útil em qualquer decisão sobre recursos escassos, numa casa ou numa organização: atender plenamente o que é necessário, e com moderação o que é apenas desejado.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Moisés prometeu carne sem ter recebido ordem para isso?
Pela ordem dos versículos, sim: Deus falou de pão em Êxodo 16:4, e só em Êxodo 16:12 fala de carne. Ramban resolve dizendo que Deus repete depois o que já tinha comunicado a Moisés; outros supõem uma comunicação não registrada; a crítica moderna propõe que os versículos 9 a 12 estavam antes e saíram do lugar. O texto não decide, e nenhuma das explicações está escrita nele.
Se a queixa era contra Deus, Moisés deixou de ser ofendido?
O versículo não diz que Moisés não foi atingido; diz que a queixa não era, no fundo, contra ele. A leitura da Mekhilta sugere que ele estava disposto a suportar a parte que lhe tocava. O Êxodo não registra nenhuma mágoa pessoal de Moisés neste episódio.
Por que Arão não fala desta vez?
O texto não explica. Uma observação possível: no versículo seguinte, Arão será o porta-voz de Moisés diante de todo o povo, como Êxodo 4:16 tinha previsto. A divisão de papéis parece começar aqui: Moisés formula, Arão transmite.
O povo foi castigado pela murmuração?
Não neste capítulo. A queixa é chamada de murmuração contra o SENHOR, e a resposta é pão e carne. Nas murmurações de Números, depois do Sinai, a resposta inclui castigo. O Êxodo 16 é a murmuração mais grave, por ter sido declarada contra Deus, que fica sem pena.
9. Conexão com Outros Textos
Deus assume a queixa
Números 14:27 — "Até quando suportarei esta congregação má, que murmura contra mim? Ouvi as murmurações que os filhos de Israel fazem contra mim."
O que aqui é dito por Moisés, ali é dito por Deus. A primeira vez que alguém declara que a queixa é contra o SENHOR, quem declara é o líder; a confirmação divina, com estas palavras, vem depois da recusa de entrar em Canaã, e traz a sentença da geração do deserto.
A frase usada a favor de outro
Números 16:11 — "Por isso você e todo o seu grupo estão reunidos contra o SENHOR. E Arão, que é ele, para que vocês murmurem contra ele?"
Na revolta de Corá, Moisés repete a estrutura de Êxodo 16:7-8 — o "que é ele", o "contra o SENHOR" —, mas agora em defesa do irmão, não de si. É o uso da frase que menos se presta a autodefesa.
A segunda queixa, dois capítulos depois
Êxodo 17:2 — "E o povo brigou com Moisés, dizendo: ‘Deem-nos água para bebermos.’ Moisés lhes disse: ‘Por que brigam comigo? Por que põem o SENHOR à prova?’"
Em Refidim, Moisés faz o mesmo movimento com outro vocabulário: a briga é com ele, a prova é contra o SENHOR. A frase de Êxodo 16:8 se torna o seu modo habitual de responder.
A crítica que não é murmuração
Êxodo 18:17-18 — "O sogro de Moisés lhe disse: ‘Não é bom o que você está fazendo. Você vai se esgotar, você e também este povo que está com você; porque a tarefa é pesada demais para você; não pode fazê-la sozinho."
Uma crítica direta ao modo de governar, aceita por Moisés e posta em prática. O livro não a trata como queixa contra Deus.
Quando o próprio Moisés se queixou
Êxodo 5:22 — "Então Moisés voltou ao SENHOR e disse: 'Senhor, por que trouxeste mal a este povo? Por que me enviaste?'"
Acusado pelos capatazes israelitas, Moisés levou a queixa direto a Deus. É a forma que o Êxodo não chama de murmuração: a queixa dita a Deus, e não contra ele diante dos outros.
Como o salmo recontou
Salmo 78:19-20 — "Falaram contra Deus, dizendo: 'Poderá Deus preparar uma mesa no deserto? Ele feriu a rocha, e águas brotaram, e torrentes transbordaram; poderá também dar pão, ou fornecer carne ao seu povo?'"
O salmo já não precisa da mediação de Moisés: na memória de Israel, o povo "falou contra Deus". A leitura de Êxodo 16:8 virou o próprio relato.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E Moisés disse: “Será quando o SENHOR lhes der à tarde carne para comer, e de manhã pão até se fartarem, porque o SENHOR ouviu as murmurações com que vocês murmuram contra ele. E nós, que somos? As murmurações de vocês não são contra nós, mas contra o SENHOR.”
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה בְּתֵת יְהוָה לָכֶם בָּעֶרֶב בָּשָׂר לֶאֱכֹל וְלֶחֶם בַּבֹּקֶר לִשְׂבֹּעַ בִּשְׁמֹעַ יְהוָה אֶת־תְּלֻנֹּתֵיכֶם אֲשֶׁר־אַתֶּם מַלִּינִם עָלָיו וְנַחְנוּ מָה לֹא־עָלֵינוּ תְלֻנֹּתֵיכֶם כִּי עַל־יְהוָה׃
Transliteração
va-yomer Moshe: be-tet YHWH lakhem ba-erev basar le'ekhol ve-lechem ba-boqer lisboa, bishmoa YHWH et-telunnoteikhem asher-attem mallinim alav; ve-nachnu mah? lo-aleinu telunnoteikhem ki al-YHWH.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה — va-yomer Moshe, "e Moisés disse".
Verbo amar, "dizer", na forma narrativa que encadeia os fatos, terceira pessoa do singular. O verbo no singular marca a mudança em relação ao versículo 6, onde o verbo estava no plural com dois sujeitos.
בְּתֵת יְהוָה לָכֶם — be-tet YHWH lakhem, "no dar do SENHOR a vocês".
Tet é o infinitivo do verbo natan, "dar", uma das formas mais irregulares do hebraico: perde o nun inicial e o final, e ganha um tav. Com a preposição be-, "em", forma uma oração de tempo: "quando o SENHOR der". É esta oração que nunca encontra o verbo principal. Lakhem é a preposição "a, para" com o sufixo de segunda pessoa do plural.
בָּעֶרֶב בָּשָׂר לֶאֱכֹל — ba-erev basar le'ekhol, "na tarde, carne para comer".
Erev, "tarde", com preposição e artigo; no versículo 6 a mesma palavra aparecia sem nenhum dos dois. Basar é "carne", a mesma palavra que designa o corpo humano ("uma só carne", Gênesis 2:24). Le'ekhol é o infinitivo de akhal, "comer", com a preposição de finalidade.
A palavra usada aqui para a tarde é a comum. Em Êxodo 16:12, para o mesmo momento, Deus usará a expressão "entre as tardes", a mesma do cordeiro pascal; a comparação entre os dois versículos já foi usada por Ibn Ezra para fixar a hora da Páscoa.
וְלֶחֶם בַּבֹּקֶר לִשְׂבֹּעַ — ve-lechem ba-boqer lisboa, "e pão na manhã, para fartar".
Lechem é "pão" e, por extensão, alimento em geral. Lisboa é o infinitivo de sava, "fartar-se", com a mesma preposição de finalidade de "para comer". A simetria das duas metades é perfeita na forma — substantivo, tempo, infinitivo de finalidade — e quebrada no conteúdo: comer, de um lado; fartar-se, do outro. A Septuaginta traduz por eis plēsmonēn, "até a saciedade".
בִּשְׁמֹעַ יְהוָה — bishmoa YHWH, "no ouvir do SENHOR".
Segundo infinitivo com a preposição be-, agora com o nome divino como sujeito. No versículo anterior, o mesmo verbo vinha com o sufixo "dele"; aqui o nome é dito por inteiro. A frase acumula dois infinitivos sem verbo conjugado: é por isso que fica suspensa.
אֶת־תְּלֻנֹּתֵיכֶם — et-telunnoteikhem, "as murmurações de vocês".
O substantivo que estreou no versículo anterior, agora em duas ocorrências no mesmo versículo. Este é o único versículo da Bíblia com o substantivo duas vezes.
אֲשֶׁר־אַתֶּם מַלִּינִם עָלָיו — asher-attem mallinim alav, "com que vocês murmuram contra ele".
Asher é o relativo; attem, "vocês", o pronome expresso, que em hebraico dá ênfase: "que vocês, sim, murmuram". Mallinim é particípio Hifil (o tronco causativo) do verbo de murmurar: o particípio descreve ação em curso, "estão murmurando". Rashi lê o Hifil como "fazer murmurar". Alav é "contra ele"; a Septuaginta tem "contra nós" (kath' hēmōn), diferença de texto discutida no item 3.
וְנַחְנוּ מָה — ve-nachnu mah, "e nós, que?".
A mesma pergunta do versículo anterior, com a forma rara do pronome "nós" e o interrogativo das coisas.
לֹא־עָלֵינוּ תְלֻנֹּתֵיכֶם — lo-aleinu telunnoteikhem, "não contra nós as murmurações de vocês".
Frase nominal, sem verbo: "não sobre nós as murmurações de vocês". A negação lo vem colada à preposição, e não a um verbo, e por isso nega o destinatário, não o fato de haver murmuração. A ordem das palavras põe "contra nós" antes do sujeito, o que dá à negação o peso da frase.
כִּי עַל־יְהוָה — ki al-YHWH, "mas contra o SENHOR".
Ki, depois de uma negação, tem valor adversativo: "mas sim". Junto com o lo anterior forma o par "não… mas…" que o hebraico usa para corrigir uma atribuição. A Septuaginta traduz por all' ē kata tou theou, "mas contra Deus", e volta a trocar "Senhor" por "Deus" no destinatário da queixa, como já fizera no versículo anterior. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) põe "contra a Memra do SENHOR" (Memra, "palavra", o recurso dos Targumim para não pôr Deus como objeto direto de ações humanas), e troca "o SENHOR ouviu" por "foi ouvido diante do SENHOR": a sinagoga ouvia a frase de Moisés com um amortecedor.
A forma nachnu, com as suas cinco ocorrências, é analisada no estudo de Gênesis 42:11.
11. Conclusão
Do que foi examinado, o versículo leva a quatro conclusões.
A frase de Moisés tira dele, ao mesmo tempo, o crédito e a ofensa. Se a saída do Egito foi obra de Deus, a queixa contra a saída é queixa contra Deus. Moisés não pode reivindicar uma coisa e recusar a outra, e o versículo, coerente, não deixa que ele faça nenhuma das duas.
A frase aumenta a gravidade da queixa, não a diminui. Lida com a Mekhilta, ela não absolve o povo por ter se enganado de alvo; mostra que o alvo real era o mais alto possível. Ainda assim, no Êxodo 16, a resposta divina é comida. A gravidade declarada e a falta de castigo convivem no mesmo capítulo, e o texto não as harmoniza.
A frase vem com condições, e o texto as escreve. Quem a diz se reduziu antes a nada; fala de uma obra que não é sua; terá a confirmação de Deus logo adiante. E o mesmo livro, dois capítulos depois, acolhe uma crítica ao modo como Moisés governa sem tratá-la como revolta. Retirada dessas condições, a sentença se torna um instrumento que o Êxodo não oferece a ninguém.
A frase quebrada é parte do sentido. O versículo começa uma promessa que não termina e passa à pergunta "que somos nós?". Seja nota explicativa, seja fala sob pressão, a construção deixa ver um homem que tem mais urgência em corrigir o endereço da queixa do que em completar o anúncio do pão.
Conclui-se que Êxodo 16:8 é o lugar em que a murmuração do deserto ganha o seu destinatário definitivo. Daqui em diante, na Torá, queixar-se de Moisés será queixar-se de Deus — e o próprio texto se encarregará de mostrar quando essa equação vale e quando não vale.













