O sogro de Moisés lhe disse: “Não é bom o que você está fazendo.
1. Introdução
Depois de um dia inteiro vendo Moisés julgar, Jetro dá o veredito em quatro palavras hebraicas: não é bom. A expressão aparece só duas vezes em toda a Torá, e a outra está na boca de Deus, diante do homem sozinho no jardim (Gênesis 2:18). O sogro não acusa Moisés de vaidade nem de abuso; julga um modo de trabalhar. A resposta repete as palavras da pergunta que ele mesmo tinha feito no versículo 14. Com esta frase começa a parte do capítulo que reorganiza a justiça em Israel.
2. Contexto Histórico e Cultural
Dizer a um governante que ele está errando era, no mundo antigo, um gênero com regras próprias. Jetro quebra quase todas.
O "Conselho a um Príncipe" babilônico
Entre as tábuas de argila da biblioteca de Assurbanipal, em Nínive, e numa cópia achada em Nippur, sobreviveu um texto que os estudiosos chamam de "Conselho a um Príncipe". Foi publicado por Wilfred Lambert em 1960, na coletânea Babylonian Wisdom Literature ("Literatura sapiencial babilônica"), e as cópias são do primeiro milênio antes de Cristo. Ele começa assim: "Se um rei não atender à justiça, o seu povo será lançado no caos e a sua terra será devastada".
O texto inteiro segue esse molde. Cada linha é uma condição seguida de um castigo, como nos manuais de presságios: se o rei ouvir um patife, a ordem da terra mudará; se tomar a prata dos cidadãos de Sippar, de Nippur ou da Babilônia, o deus mandará um inimigo contra ele; se impuser trabalho forçado a essas cidades, que os deuses declararam isentas, Marduk entregará a terra ao adversário. Ninguém é nomeado. Nenhum rei é acusado. O autor não diz "você errou"; diz "se um rei errar".
Era o jeito seguro de advertir quem tinha poder de vida e de morte: a crítica vem impessoal, condicional, e o castigo fica por conta dos deuses. Quem escreve não aparece.
A crítica indireta em Israel
A Bíblia conhece o mesmo cuidado. Quando o profeta Natã vai repreender Davi pelo caso de Urias, não começa dizendo que o rei pecou: conta a história de um rico que tomou a única ovelha de um pobre e deixa que o próprio Davi pronuncie a sentença, antes de revelar que o rico é ele (2 Samuel 12:1-7). Quando Joabe quer que Davi traga Absalão de volta, manda uma mulher sábia de Tecoa contar ao rei um caso inventado sobre dois filhos, e de novo o rei julga antes de perceber que está julgando a si mesmo (2 Samuel 14:1-20).
Nos dois casos, o crítico leva o governante a condenar-se com a própria boca. A parábola protege quem fala.
Jetro não usa nenhum desses recursos
Não há condicional, não há parábola, não há deus invocado como garantia do castigo. Há um "você" e um juízo de valor. A única proteção de Jetro é a posição que ele ocupa: ele é o sogro.
Isso tinha peso. Moisés viveu anos na casa dele como genro e pastor do seu rebanho (Êxodo 3:1). Para voltar ao Egito, pediu licença: "Deixe-me voltar aos meus irmãos que estão no Egito, para ver se ainda estão vivos" (Êxodo 4:18), e só partiu depois do "Vá em paz" do sogro. Numa sociedade em que o homem que casava e ficava na casa do sogro se punha sob a autoridade dele, Jetro fala como quem já foi o chefe da casa em que Moisés morava. A relação mudou de lado, porque agora Moisés é o chefe de um povo; mas a autoridade antiga do sogro ainda permite a franqueza.
A linguagem dos sábios sobre o tribunal
A expressão que Jetro usa tem uma família fora da Torá, e ela mora sobretudo no livro de Provérbios, onde quase sempre fala de justiça: "Não é bom favorecer o perverso, para negar justiça ao justo no julgamento" (Provérbios 18:5); "fazer acepção de pessoas no julgamento não é bom" (Provérbios 24:23; também 28:21). É a fórmula com que os sábios de Israel avaliavam o funcionamento de um tribunal. Na boca de Jetro, ela avalia o tribunal de Moisés, e o defeito apontado não é corrupção nem parcialidade: é o tamanho da tarefa.
3. Análise Teológica do Versículo
"O sogro de Moisés lhe disse"
O nome Jetro some do capítulo depois do versículo 12. Até ali ele aparece sete vezes; daqui em diante, nenhuma. Quem observa o tribunal, pergunta, critica e aconselha é sempre "o sogro de Moisés". O sacerdote de Midiã, que tinha oferecido holocausto, cede lugar ao parente.
Rashi (Rabi Shlomo Yitzhaki, o comentarista judeu mais lido da Idade Média, França, século XI) vê no título uma honra: o texto o chama assim porque ser o sogro do rei já era uma distinção. A leitura funciona também ao contrário. A crítica que vem a seguir é aceitável justamente porque vem de dentro da família, e não de um estrangeiro qualquer.
"Lhe disse": a ele, e não ao povo. Jetro não fala diante da fila de litigantes, nem convoca os anciãos com quem tinha comido no dia anterior. O que vem é conversa entre dois homens.
"Não é bom"
Em toda a Torá, de Gênesis a Deuteronômio, a frase "não é bom" aparece duas vezes. A primeira é de Deus, no jardim: "Não é bom que o homem fique sozinho; farei para ele uma auxiliadora adequada" (Gênesis 2:18). A segunda é esta.
As duas não compartilham só as palavras. Nas duas, o defeito apontado é a solidão. Em Gênesis 2:18, o homem está "sozinho"; aqui, Jetro tinha perguntado por que Moisés se sentava "sozinho" (Êxodo 18:14) e vai concluir que ele não pode fazer aquilo "sozinho" (Êxodo 18:18). A palavra hebraica é a mesma nos três lugares. E a tradução aramaica de Ônquelos (o Targum oficial da Torá, fixado nos primeiros séculos da era comum) usa a mesma expressão nos dois versículos, "não está bem arranjado", o que mostra que um leitor antigo ouvia os dois juntos.
O peso da primeira ocorrência é grande. O capítulo 1 do Gênesis repete sete vezes que o que Deus fez era "bom", e fecha com "muito bom" (Gênesis 1:31). A primeira coisa que Deus declara não boa, no relato seguinte, é um homem sem companhia. Não é pecado, porque o homem não fez nada; é uma falta na própria obra.
O que se pode tirar desse eco? Há três leituras.
Primeira leitura: é coincidência de uma expressão comum. Contra ela pesam dois fatos: a expressão não é comum na Torá, onde aparece só duas vezes, e nas duas vem amarrada à palavra "sozinho".
Segunda leitura: o eco é deliberado e diz que a solidão do juiz é da mesma ordem que a solidão do primeiro homem. Nos dois casos o remédio é gente: no jardim, alguém "adequado" ao homem; no deserto, homens que "levarão a carga com você" (Êxodo 18:22).
Terceira leitura, mais modesta: o eco é de quem lê, não de quem escreveu, mas mostra como o texto avalia a situação. O que Deus disse do homem sem par, um sacerdote estrangeiro diz do líder sem auxiliares, e o texto não o corrige.
Não é possível decidir entre a segunda e a terceira. A Mekhilta (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado na terra de Israel por volta do século III) passa por este versículo sem comentário próprio, e nem Rashi nem os comentaristas medievais que consultei ligam os dois textos. O eco está nas palavras; a intenção, o texto não diz.
Há uma diferença que não deve ser apagada. Em Gênesis 2:18, Deus fala da própria obra; ninguém é culpado. Aqui, um homem julga a obra de outro, e a solidão de Moisés não foi imposta por Deus: foi o modo que ele encontrou de fazer o trabalho.
Por que "não é bom" e não "é mau"
Jetro tinha à mão a palavra "mau" e não a usou. A frase nega o bem, não afirma o mal. O mesmo vale para o Gênesis: a solidão do homem não é chamada de má.
A tradição leu essa contenção de modos diferentes, e a pergunta por trás delas é: em que sentido o que Moisés faz "não é bom"?
Primeira resposta: não é bom para a saúde nem para o andamento da justiça, mas não é errado. É a de John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII): Jetro não questiona a moralidade de Moisés julgar, só a conveniência do arranjo.
Segunda resposta: não é bom porque está incompleto. O Netziv (Rabi Naftali Zvi Yehuda Berlin, chefe da academia de Volozhin, século XIX), no comentário Haamek Davar ("Aprofundar a palavra"), diz que Moisés fazia as coisas certas, mas "não em plenitude".
Terceira resposta: não é bom para o povo. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) imaginam o que acontece com quem espera o dia inteiro e não é atendido: acaba fazendo justiça com as próprias mãos. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) diz o mesmo de forma mais branda: deixar os litigantes esperando o dia todo não era justo com eles.
Quarta resposta: só uma parte do que Moisés fazia não era boa. Nachmânides, o Ramban (rabino catalão do século XIII), lê os versículos seguintes como uma separação: Jetro devolve a Moisés a consulta a Deus e o ensino da lei (Êxodo 18:19-20) e só tira dele o julgamento das causas comuns. O "não é bom" teria um alvo preciso.
A quarta leitura tem a seu favor o próprio conselho, que mantém Moisés no centro. A primeira tem a seu favor o versículo seguinte, que só fala de cansaço. Elas não se excluem.
"o que você está fazendo"
Jetro não diz "você não é bom" nem "você errou". Diz que não é bom o que Moisés está fazendo, e o verbo descreve uma prática em curso, de todo dia, não um ato isolado. A crítica é a um método.
E é a resposta exata à pergunta do versículo 14. Lá, Jetro tinha perguntado: "Que é isto que você faz com o povo?". Moisés explicou. Agora o sogro devolve as mesmas palavras com o juízo na frente: o que você faz não é bom. A explicação de Moisés (Êxodo 18:15-16) não convenceu; Jetro ouviu as razões e manteve a avaliação.
O contraste com o que vem depois também diz algo. O diagnóstico é seco, sem "meu senhor", sem "se lhe parecer bem". A proposta, ao contrário, termina com uma condição: "se você fizer isto, e Deus assim lhe ordenar" (Êxodo 18:23). Jetro tem certeza do problema e nenhuma pretensão de dar a última palavra sobre a solução.
Por que o texto não chama esta crítica de murmuração, quando tantas queixas do deserto recebem esse nome, é a pergunta que o estudo de Êxodo 16:8 responde.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O sogro de Moisés
Sacerdote de Midiã, pai de Zípora e avô de Gérson e Eliézer. É o homem em cuja casa Moisés viveu depois de fugir do Egito, e cujo rebanho ele pastoreava quando viu a sarça (Êxodo 3:1). Chegou ao acampamento trazendo a filha e os netos, ouviu o relato do que Deus tinha feito, bendisse o SENHOR e ofereceu sacrifícios. Neste versículo ele não é sacerdote nem visitante: é o observador que passou um dia inteiro ao lado do tribunal e agora dá o seu parecer. A questão dos nomes dele (Reuel, Jetro, Jéter, Hobabe) está tratada no estudo de Êxodo 2:18.
Moisés
Aqui ele é juiz. É a função que um hebreu lhe negou no Egito, muitos anos antes ("Quem o pôs como chefe e juiz sobre nós?", Êxodo 2:14), e que agora ele exerce sem ninguém contestar, da manhã à tarde. Moisés não responde a este versículo. A próxima fala dele no capítulo não existe: ele só ouve e faz (Êxodo 18:24).
O povo
Está presente sem falar. São os que ficaram de pé o dia inteiro esperando a vez (Êxodo 18:13-14). A crítica de Jetro é dita a Moisés, mas é feita por causa deles também, como o versículo seguinte vai explicitar.
O lugar e o momento
O acampamento junto ao "monte de Deus" (Êxodo 18:5), no fim do dia em que Moisés julgou da manhã à tarde. O texto não diz se a conversa aconteceu à noite, depois de esvaziada a fila, ou durante o próprio expediente. A sequência dos versículos 13 a 17 dá a entender que Jetro assistiu ao dia inteiro antes de perguntar.
O outro "não é bom"
No jardim do Éden, Deus olha para o homem que acabou de formar do pó e diz que não é bom ele ficar sozinho (Gênesis 2:18). É a única outra cena da Torá em que essas palavras são pronunciadas. Ali quem fala é o Criador e quem está só é o primeiro ser humano; aqui quem fala é um sacerdote de Midiã e quem está só é o homem que fala com Deus face a face.
5. Pontos de Ensino
1. Um bom trabalho pode ser feito de um jeito que não é bom. Moisés não fazia nada errado: consultava a Deus, julgava e ensinava. O que Jetro critica é a forma. O texto separa a qualidade do que se faz da qualidade do arranjo em que se faz.
2. A crítica mira a prática, não a pessoa. Jetro não diz "você é orgulhoso" nem "você é incapaz". Diz que o que Moisés está fazendo não é bom. A frase deixa intacto o homem e põe em questão o método.
3. O juízo vem depois de ver e de ouvir. Jetro observou o dia inteiro (Êxodo 18:13-14), fez uma pergunta, ouviu a resposta (Êxodo 18:15-16) e só então deu o veredito. A crítica não é impressão de recém-chegado: é conclusão de quem examinou.
4. A linguagem do Gênesis reaparece onde não se espera. A frase que Deus disse sobre o homem sozinho no jardim é dita agora por um estrangeiro sobre um líder sozinho no deserto. O texto não comenta, mas deixa o eco à disposição de quem lê a Torá inteira.
5. Firmeza no diagnóstico, modéstia na receita. Jetro é categórico ao dizer que algo está errado e condicional ao propor o remédio ("se Deus assim lhe ordenar", Êxodo 18:23). As duas atitudes convivem no mesmo conselheiro.
6. Não é bom não é o mesmo que é mau. O hebraico tinha a palavra "mau" e não a usou. A diferença importa: o que Moisés fazia era insustentável, não perverso.
6. Aspectos Filosóficos
Quem diz a um governante que ele está errando? A pergunta é antiga, e um dos textos gregos que a formularam com mais clareza foi escrito por volta de 370 a.C. pelo orador ateniense Isócrates, na carta-discurso A Nícocles, dirigida ao jovem rei de Salamina, na ilha de Chipre.
O que falta aos reis
Isócrates abre com um contraste. As pessoas comuns, diz ele, têm muita coisa que as educa: a falta de luxo, a necessidade de ganhar a vida todo dia, as leis da cidade, e sobretudo "a liberdade de palavra e o direito, concedido abertamente, de os amigos repreenderem e os inimigos atacarem as faltas uns dos outros" (§3). Os reis não têm nada disso. "Vivem a vida inteira, desde que são postos no poder, sem advertência; porque a maioria das pessoas não chega perto deles, e os que convivem com eles o fazem para ganhar o seu favor" (§4).
Por isso, conclui, o presente mais útil que se pode dar a um rei não é roupa, bronze ou ouro trabalhado, que é o que os outros levam, mas conselho (§1-2).
Mais adiante, Isócrates diz ao rei quem deve ser tido como amigo de confiança: "Considere os seus amigos mais fiéis não os que elogiam tudo o que você diz ou faz, mas os que criticam os seus erros. Dê liberdade de palavra aos que têm bom juízo, para que, quando estiver em dúvida, você tenha quem o ajude a decidir" (§28). A palavra grega é parrhesía ("franqueza", o direito de falar tudo), que na Atenas democrática era uma marca do cidadão livre e que Isócrates tenta transplantar para a corte de um monarca.
Moisés na posição do rei
O tribunal descrito nos versículos 13 a 16 é exatamente o quadro de Isócrates. Todos chegam a Moisés para pedir; ninguém chega para lhe dizer alguma coisa. O povo fica de pé diante dele o dia inteiro, e o que traz são causas, não avaliações. O próprio Moisés descreve a situação com orgulho: "o povo vem a mim" (Êxodo 18:15).
Isócrates confia a franqueza a duas figuras: o amigo que repreende e o inimigo que ataca (§3). Jetro não é nenhuma das duas. É um parente por aliança, e essa posição dá à sua fala uma qualidade que o texto grego não prevê: ele critica de dentro da família e, ao mesmo tempo, de fora do povo. Não tem cargo no acampamento a perder nem a ganhar, e tem sobre Moisés a precedência de quem um dia o recebeu em casa. A parrhesía que Isócrates precisa pedir ao rei que conceda, Jetro já trazia consigo.
Onde os dois se separam
Isócrates e Jetro identificam o mesmo problema, a solidão de quem governa, mas propõem remédios diferentes.
Para Isócrates, o remédio é um rei melhor. O discurso inteiro é um programa de formação: o governante deve estudar, conhecer os poetas e os sábios, ser superior aos governados em virtude e em juízo, porque é ele quem decide. A solidão do poder se corrige com um ocupante mais preparado.
Para Jetro, o remédio é o líder fazer menos. Ele não diz a Moisés que estude mais, nem que seja mais sábio; diz que o trabalho é grande demais para uma pessoa só (Êxodo 18:18) e que outros devem tomar parte dele. A solidão se corrige com mais gente.
Há outra diferença, de gênero. A Nícocles é um manual: são máximas gerais, válidas para qualquer rei, escritas por um professor de retórica para um príncipe que acabava de herdar o trono do pai. O conselho de Jetro é circunstancial: nasce de um dia de observação, diz respeito a uma prática concreta e termina pedindo a aprovação de Deus. Seria forçar o texto ler Êxodo 18 como um "espelho de príncipe" (o gênero de livros de conselho aos governantes, que a Idade Média multiplicou). O que os dois textos compartilham é a constatação de que o poder tende a cercar-se de quem não critica, e de que a palavra franca precisa vir de alguém que não dependa dele.
7. Aplicações Práticas
Criticar o que se faz, e não quem faz. A frase de Jetro tem a forma de uma crítica que pode ser recebida: o sujeito é "o que você está fazendo". Quem precisa apontar um erro a um pai, a um chefe, a um pastor ou a um cônjuge encontra aqui um modelo de linguagem que não fere a pessoa para atingir o método.
A crítica de um parente é a mais difícil de ouvir. Um sogro que diz ao genro que ele está fazendo as coisas do jeito errado é cena que muita família conhece, e quase sempre termina mal. Aqui não termina. O texto não descreve nenhuma reação ofendida de Moisés. A aplicação é direta e não precisa ser enfeitada: a franqueza de quem é da família pode ser um bem, quando vem depois de observar e ouvir.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se Deus nunca reclamou do modo como Moisés julgava, por que um estrangeiro precisou fazê-lo?
O texto não responde. Até aqui, Deus deu ordens a Moisés sobre o Egito, o mar, o maná e a água, mas nenhuma sobre a organização da justiça. Uma leitura possível é que há coisas que o texto deixa à sabedoria humana, e que um homem de fora as enxergue melhor do que quem está dentro. Outra é que o silêncio de Deus foi uma espera: a solução viria quando alguém a propusesse. Nenhuma das duas se prova pelo texto. O que se pode dizer é que, quando a solução chega, Jetro mesmo a submete a Deus (Êxodo 18:23).
Por que nenhum israelita disse isso antes?
Arão e os anciãos tinham estado com Jetro na refeição do dia anterior (Êxodo 18:12) e viviam o tribunal de Moisés todos os dias. Ninguém é registrado dizendo nada. A hipótese mais simples é a de Isócrates: quem depende do governante raramente o critica. Outra é que os israelitas não tinham outro modelo de autoridade além do que viam em Moisés. O texto não diz.
Moisés se ofendeu?
Não há uma linha de reação. Entre a crítica e a aceitação (Êxodo 18:24) só há o conselho. O silêncio de Moisés pode ser lido como humildade, como cansaço, ou simplesmente como o modo de o texto ir direto ao que interessa. Seria acrescentar ao texto descrever o que Moisés sentiu.
"Não é bom" é uma acusação de pecado?
Pelo vocabulário, não. Jetro não usa nenhuma das palavras hebraicas de culpa, nem a palavra "mau". E a outra ocorrência da expressão na Torá descreve uma situação em que ninguém fez nada de errado: o homem sozinho no jardim. O que "não é bom" é uma situação que precisa ser mudada, não uma falta que precisa ser perdoada.
O autor do Êxodo queria mesmo lembrar Gênesis 2:18?
Não é possível provar. A expressão é rara na Torá e vem, nas duas vezes, ligada à palavra "sozinho", o que torna o acaso pouco provável. Mas nenhum comentarista antigo que consultei faz a ligação, e o texto não a sublinha. O eco pode ser deliberado, ou pode ser obra do leitor que conhece os dois livros. Nos dois casos ele está lá.
9. Conexão com Outros Textos
O primeiro "não é bom"
Gênesis 2:18 — "E o SENHOR Deus disse: 'Não é bom que o homem fique sozinho; farei para ele uma auxiliadora adequada.'"
As duas únicas ocorrências da expressão na Torá. Nas duas, o que não é bom é a solidão de alguém, e o remédio é outra pessoa ao lado. No Gênesis quem diagnostica é Deus, e é ele quem provê; no Êxodo diagnostica um homem, e o remédio vai depender de outros homens.
O pano de fundo: tudo era bom
Gênesis 1:31 — "Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom. Houve tarde e manhã: o sexto dia."
O "não é bom" de Gênesis 2:18 só pesa porque vem depois de sete avaliações positivas. É a primeira coisa na Bíblia que Deus chama de não boa.
A mesma frase, palavra por palavra
Neemias 5:9 — "E eu disse: 'Não é bom o que vocês estão fazendo. Vocês não deviam andar no temor do nosso Deus, para evitar a afronta das nações, nossas inimigas?'"
O hebraico de Neemias é o de Jetro, só que no plural: "não é bom o que vocês fazem". Neemias fala aos nobres de Jerusalém que cobravam juros dos irmãos pobres e tomavam em penhor os seus campos e os seus filhos. A crítica, aqui, é moral e social; em Jetro, é sobre a organização. A fórmula é a mesma para dois tipos de defeito.
O comandante que não guardou o rei
1 Samuel 26:16 — "Não é bom isso que você fez. Pela vida do SENHOR, vocês merecem a morte, porque não guardaram o seu senhor, o ungido do SENHOR. Veja agora onde estão a lança do rei e a bilha de água que estavam à cabeceira dele."
Davi, do alto do monte, grita a Abner, chefe do exército de Saul, depois de ter entrado no acampamento à noite e saído com a lança e a bilha do rei adormecido. De novo "não é bom" julga o desempenho de quem tinha uma função e não a cumpriu bem. A diferença com Jetro é o tom: Davi zomba; Jetro aconselha.
"Não é bom" como veredito de conselheiro
2 Samuel 17:7 — "Então Husai disse a Absalão: 'Desta vez o conselho que Aitofel deu não é bom.'"
Na corte de Absalão, Husai usa a expressão para derrubar o plano de outro conselheiro. É o uso técnico: o conselheiro avalia uma proposta e diz que ela não é boa. Jetro faz o mesmo, mas com uma prática já em andamento, e com a vantagem de ser sincero; Husai estava ali como espião de Davi.
O elogio do segundo
Eclesiastes 4:9-10 — "Melhor dois do que um, porque têm melhor recompensa pelo seu trabalho. Se um cair, o outro levanta o companheiro; mas ai do que está sozinho: se cair, não haverá quem o levante."
O sábio de Eclesiastes diz em forma de provérbio o que Gênesis 2:18 e Êxodo 18:17-18 dizem em forma de cena. O vocabulário é outro, mas o assunto é o mesmo: o trabalho feito por um só tem um ponto de queda sem amparo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
O sogro de Moisés lhe disse: “Não é bom o que você está fazendo.
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר חֹתֵן מֹשֶׁה אֵלָיו לֹא־טוֹב הַדָּבָר אֲשֶׁר אַתָּה עֹשֶׂה׃
Transliteração
va-yomer choten Mosheh elav: lo-tov ha-davar asher attah oseh.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמֶר — va-yomer, "e disse".
Do verbo amar, "dizer", na forma que encadeia a narrativa ("e disse"). É o verbo mais comum de abertura de fala na Bíblia hebraica e não carrega nenhuma nuance de tom: não é "repreendeu", nem "advertiu", nem "aconselhou". O texto dá a crítica com o verbo mais neutro da língua.
חֹתֵן מֹשֶׁה — choten Mosheh, "o sogro de Moisés".
Choten, "sogro": o pai da noiva (a raiz está no estudo de Êxodo 18:1). A raiz não fala de sangue, fala de aliança: o sogro é o parente que se ganha por contrato.
No capítulo 18, a palavra aparece treze vezes, mais do que em todo o resto da Torá somado. A partir do versículo 13, ela substitui o nome próprio por completo.
אֵלָיו — elav, "a ele".
Preposição el, "para, em direção a", com o sufixo da terceira pessoa masculina. Indica o destinatário: a fala é dirigida a Moisés.
לֹא־טוֹב — lo-tov, "não é bom".
Lo é a negação comum, a que nega fatos (diferente de al, que nega ordens: "não faça"). Tov é o adjetivo "bom", em toda a sua largura: bonito, agradável, útil, adequado, moralmente correto. As duas palavras vêm ligadas pelo traço que o hebraico usa para juntar termos pronunciados como um só (o maqqef). Não há verbo "ser"; o hebraico diz literalmente "não-bom a coisa".
A combinação aparece duas vezes na Torá: aqui e em Gênesis 2:18 (lo-tov heyot ha-adam levaddo, "não é bom ser o homem sozinho"). No restante da Bíblia hebraica, a encontrei em cerca de vinte versículos, com dois núcleos. Um é Provérbios (16:29; 17:26; 18:5; 19:2; 20:23; 25:27; 28:21), onde quase sempre avalia condutas no tribunal ou no comércio. O outro são as falas de avaliação nos livros históricos: 1 Samuel 26:16, 2 Samuel 17:7 (no feminino, lo-tovah, concordando com "conselho") e Neemias 5:9, que repete a frase de Jetro com o verbo no plural.
As versões antigas tratam o par de modos diferentes. Ônquelos usa nos dois versículos a mesma expressão aramaica, la taqin, "não está bem arranjado", "não está em ordem", e assim conserva o eco. A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria nos séculos III e II a.C.) o desfaz: em Gênesis 2:18 escreve ou kalón, "não é bom"; aqui, ouk orthôs, "não corretamente" ("você não faz isto corretamente"). A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta de 400) volta a aproximar os dois: non est bonum no Gênesis, non bonam rem facis ("não fazes uma coisa boa") no Êxodo.
הַדָּבָר — ha-davar, "a coisa", "o que".
Com o artigo, "a coisa". A ABC traduz por "o que", porque o português pede uma construção relativa. A mesma palavra recebe seis traduções diferentes no capítulo, para sete sentidos; a série está analisada no estudo de Êxodo 18:16.
אֲשֶׁר אַתָּה עֹשֶׂה — asher attah oseh, "que você está fazendo".
Asher é o pronome relativo, "que". Attah é o pronome "você", necessário porque o verbo seguinte é um particípio, forma que não traz a pessoa embutida. Oseh é o particípio de asah, "fazer", e descreve ação em andamento ou habitual: "você está fazendo", "você costuma fazer".
As três palavras são as mesmas da pergunta do versículo 14: mah ha-davar ha-zeh asher attah oseh la-am, "que é isto que você faz com o povo?". A resposta de Jetro troca só o começo: onde estava "que é", entra "não é bom". O hebraico deixa visível que o veredito responde à pergunta.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira: o Êxodo trata a sobrecarga de Moisés como problema real, e não como virtude. O líder que atende a todos sozinho, da manhã à tarde, recebe do texto a mesma avaliação que Deus deu ao homem sem companhia no jardim. A dedicação não torna o arranjo bom.
A segunda: a avaliação vem de fora de Israel e é aceita sem ressalva. Um sacerdote de Midiã pronuncia, sobre o mediador da aliança, um juízo que a Torá só tinha posto na boca de Deus. O texto não sente necessidade de corrigi-lo nem de atribuí-lo a uma revelação; deixa que valha pelo que é, o parecer de um homem que observou e entendeu.
A terceira: o versículo separa a pessoa do método. Moisés não é acusado de nada; o que ele faz é que não serve. Por isso a crítica pode ser recebida sem humilhação, e por isso ela abre caminho para um conselho em vez de uma ruptura.













