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Êxodo 18:23

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 20 acessos
Se você fizer isto, e Deus assim lhe ordenar, você poderá manter-se de pé, e também todo este povo chegará em paz ao seu lugar.”
Ao entardecer, no acampamento do deserto, um homem idoso de manto escuro fala com Moisés em voz baixa diante de uma tenda, enquanto ao fundo pessoas voltam devagar para as suas tendas.

Estudo


Se você fizer isto, e Deus assim lhe ordenar, você poderá manter-se de pé, e também todo este povo chegará em paz ao seu lugar.”

1. Introdução

Jetro termina o conselho com uma frase condicional, e no meio dela põe uma cláusula que muda o peso de tudo o que disse: "e Deus assim lhe ordenar". Os leitores antigos não concordaram sobre o que ela significa — se Moisés precisava pedir autorização, se Deus prometia força, ou se a reforma servia para deixar Moisés livre para ouvir a Deus. O texto, de sua parte, nunca conta que Deus tenha ordenado alguma coisa. A promessa final é dupla: Moisés poderá ficar de pé, e o povo chegará em paz ao seu lugar, e cada uma dessas expressões tem mais de uma leitura.

2. Contexto Histórico e Cultural

Conselho e oráculo em Israel

No Israel antigo, quem precisava decidir alguma coisa tinha mais de uma porta a bater, e elas não eram a mesma. Jeremias 18:18 as enumera numa frase dita pelos inimigos do profeta: "não faltará a lei ao sacerdote, nem o conselho ao sábio, nem a palavra ao profeta". Três ofícios, três produtos. O sacerdote dava a instrução, a resposta sobre o que é permitido e proibido. O profeta trazia a palavra de Deus. E o sábio dava o "conselho", a palavra hebraica que Jetro usa em Êxodo 18:19 ("eu lhe darei um conselho").

O conselho do sábio era humano, e todos sabiam disso. Por isso mesmo podia ser muito valorizado. De Aitofel, o conselheiro de Davi e depois de Absalão, 2 Samuel 16:23 diz: "o conselho que Aitofel dava naqueles dias era como se alguém consultasse a palavra de Deus". O "como se" marca a distância: por melhor que fosse, o conselho não era oráculo. E o capítulo seguinte mostra o que acontece quando um bom conselho é rejeitado e um mau é seguido.

Jetro está na categoria do sábio, e sabe disso. É sacerdote, mas de Midiã; não fala em nome do SENHOR, não diz "assim diz o SENHOR". Dá conselho. E a frase "e Deus assim lhe ordenar" põe o conselho no seu lugar: abaixo da palavra que Moisés recebe diretamente.

Como Moisés consultaria a Deus

Se a frase é uma condição, Moisés precisava perguntar. Como? Os comentaristas cristãos do século XIX deram respostas diferentes. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês) pensou no Urim e Tumim, os objetos sagrados que o sacerdote usava para obter respostas de sim ou não — e que Números 27:21 põe justamente como limite à autoridade de outro chefe: Josué deverá apresentar-se ao sacerdote Eleazar, que consultará por ele, e "à palavra dele sairão e entrarão". O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) objetou que Urim e Tumim ainda não existiam neste ponto da história, e pensou em visões.

Os dois meios supõem uma coisa que o texto não mostra. Moisés já leva a Deus as questões do povo (Êxodo 18:15), mas o livro não diz como, e até aqui não há nenhuma cena em que um chefe faça a Deus uma pergunta sobre a própria administração e receba resposta. Jetro supõe um tipo de consulta que o Êxodo ainda não descreveu.

"Vá aconselhar-se com o Poder"

A Mekhilta de Rabi Ishmael (a coletânea rabínica mais antiga de comentário ao Êxodo, com material dos séculos II e III) parafraseia a cláusula assim: "Vá e aconselhe-se com a Gevurá". A palavra quer dizer "o Poder", "a Força", e era um dos nomes com que os rabinos se referiam a Deus sem pronunciar o nome próprio — o mesmo uso que aparece em Mateus 26:64, quando Jesus fala do Filho do homem "sentado à direita do Poder". A escolha do nome tem graça neste versículo: Jetro promete que Moisés vai poder aguentar, e a Mekhilta manda Moisés perguntar justamente ao Poder.

3. Análise Teológica do Versículo

"Se você fizer isto"

Jetro fecha como abriu, com a decisão nas mãos de Moisés. Em Êxodo 18:19 ele tinha dito "ouça a minha voz"; agora, "se você fizer". Não há ordem, há hipótese. Um sogro estrangeiro não manda no chefe de Israel, e a gramática da frase respeita isso.

"e Deus assim lhe ordenar"

A cláusula está no meio da frase, entre o que Moisés fará e o que acontecerá depois. O hebraico a liga com um simples "e", e o problema é saber de que lado da frase ela está: na condição ("se você fizer isto e Deus ordenar, então…") ou na consequência ("se você fizer isto, Deus lhe dará ordens e você poderá…")? As leituras são cinco.

Primeira: é condição, e Moisés precisa pedir autorização. É a leitura da Mekhilta ("vá aconselhar-se com o Poder; se ele concordar, você poderá aguentar; se não, não poderá"), de Rashi (Rabi Salomão ben Isaque, comentarista judeu francês do século XI) e de Abraão ibn Ezra (comentarista judeu da Espanha, século XII), que fala em "permissão". Ramban (Moisés ben Nachman, comentarista catalão do século XIII), ao comentar Êxodo 18:19, conclui: "e não há dúvida de que ele fez assim" — Moisés consultou e recebeu aprovação antes de agir. Nessa leitura, Jetro subordina o próprio conselho a Deus, e o texto mostra um estrangeiro que sabe o seu lugar.

Segunda: é promessa, e não condição. A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita no Egito a partir do século III a.C.) traduziu "se você fizer isto, Deus o fortalecerá, e você poderá ficar de pé". A ordem de Deus virou força de Deus. Não há consulta nenhuma: Jetro garante que, feita a reforma, Deus sustentará Moisés. O tradutor provavelmente leu o mesmo texto hebraico e interpretou; não há sinal de que tivesse outro.

Terceira: as ordens de Deus são as respostas às causas grandes. Rashbam (Rabi Samuel ben Meir, comentarista francês do século XII) lê: "quando Deus lhe ordenar a resposta que você deve dar aos juízes". A cláusula não pede permissão para a reforma; descreve como ela vai funcionar. A causa grande sobe a Moisés, Moisés a leva a Deus, Deus ordena, e Moisés responde. Com a ajuda dos auxiliares, ele aguenta.

Quarta: a reforma serve para que Deus possa dar ordens. O Targum Pseudo-Jônatas (uma tradução aramaica da Torá, mais livre e mais tardia que a de Ônquelos) parafraseia: "se você fizer isto e se livrar de julgar, o SENHOR lhe ordenará mandamentos, e você poderá ficar de pé para ouvi-los". Aqui a frase aponta para o Sinai. Moisés precisa ser aliviado das causas do dia a dia porque está para receber a lei, e um homem esgotado na fila do tribunal não teria como subir ao monte.

Quinta: Jetro previne uma objeção de Moisés. Or ha-Chaim (Chaim ben Attar, comentarista marroquino do século XVIII) se pergunta por que Jetro repete a referência a Deus que já tinha feito em Êxodo 18:19. Responde que Jetro antecipa um escrúpulo: Moisés poderia achar que um justo não deve procurar alívio para os seus deveres, e que abrir mão de julgar é abrir mão de um mandamento. "Se Deus lhe ordenar" responde a isso: se a reforma for vontade de Deus, aliviar-se não é fugir do dever.

O texto não permite decidir entre elas. Mas há um dado que pesa contra a primeira: o Êxodo nunca narra que Moisés consultou a Deus sobre a reforma, nem que Deus a aprovou. O versículo seguinte diz só que Moisés "ouviu a voz do seu sogro". O que a tradição rabínica fez com esse silêncio — inclusive a leitura que troca o sogro por Deus como sujeito de "tudo o que ele tinha dito" — está no estudo de Êxodo 18:24. A leitura da condição precisa supor uma consulta que o texto não conta; a da promessa e a de Rashbam não precisam.

"você poderá manter-se de pé"

A cena começou com Moisés sentado e o povo de pé, da manhã à tarde (Êxodo 18:13-14). Agora Jetro promete que Moisés poderá "ficar de pé". A ABC conservou a imagem de propósito, e ela fecha o episódio com uma inversão: o homem que passava o dia sentado está prestes a cair, e a reforma é que vai mantê-lo de pé.

No sentido corrente, "ficar de pé" aqui é aguentar, resistir, durar. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) parafraseia: "o trabalho não será demais para você". Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) estende para o tempo: Moisés poderá continuar no cargo por muitos anos, em vez de se gastar depressa. É o avesso do "você vai se esgotar" de Êxodo 18:18.

Or ha-Chaim lê mais longe. "Ficar de pé" é a postura de quem recebe a palavra de Deus: "apresente-se a mim ali, no alto do monte", diz Deus a Moisés em Êxodo 34:2, e "fique aqui comigo", em Deuteronômio 5:31. Jetro estaria dizendo que, poupando as forças, Moisés poderá continuar de pé diante de Deus. É leitura do comentarista, mas combina com a do Pseudo-Jônatas: as duas veem na reforma uma preparação para a revelação.

"e também todo este povo"

O "também" põe o povo ao lado de Moisés: os dois iam se esgotar (Êxodo 18:18), os dois serão aliviados. A Mekhilta repete aqui a leitura que deu àquele versículo — "este povo" seriam os líderes que estavam com Moisés, Arão, os filhos dele e os setenta anciãos —, e com isso a promessa deixa de ser só para o chefe e passa a ser para toda a liderança.

"chegará em paz ao seu lugar"

Que lugar? Há três respostas.

A tenda de cada um. É a leitura de Ibn Ezra e de Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII). Ibn Ezra descreve o que acontecia antes: quem não conseguia apresentar a causa a Moisés voltava para casa com a briga ainda aberta, e o conflito crescia na tenda. Chizkuni acrescenta: agora o juiz é o vizinho, e ninguém precisa atravessar o acampamento. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) resume: voltarão depressa para casa, satisfeitos, sem passar o dia de pé.

Canaã. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) lê "o seu lugar" como a terra prometida, reconhecida pelo próprio Jetro como o destino de Israel. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) ficam perto disso: o povo chegará ao destino "em boa condição".

O lugar do julgamento. O Pseudo-Jônatas traduz: "virão em paz ao lugar do seu tribunal". A paz não é a da volta para casa, é a da ida ao juiz: ninguém mais precisa brigar pelo lugar na fila.

Em hebraico o verbo está no singular, "chegará", com "todo este povo" como sujeito: cada um ao seu próprio lugar. A paz que Jetro promete não é um estado coletivo abstrato; é cada pessoa voltando para onde mora sem uma briga pendente. Ramban, comentando o versículo anterior, diz o que está em jogo: quando o oprimido não consegue ser ouvido, abre-se a porta para os violentos. A última palavra do conselho de Jetro é "paz", e é por ela que se mede o resto.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jetro

Estas são as últimas palavras dele no Êxodo. Depois deste versículo Jetro não fala mais: Moisés o ouve (Êxodo 18:24) e o despede (Êxodo 18:27). O conselheiro termina o conselho pondo Deus acima de si mesmo, e sai de cena sem saber, pelo texto, se a sua proposta foi aprovada por Deus.

Moisés

O destinatário da promessa de "ficar de pé". Ele não responde a Jetro. A única resposta é o que faz no versículo seguinte.

Deus

Mencionado na frase como autoridade acima do conselho, sem falar. Em todo o episódio de Êxodo 18:13-26 Deus não diz uma palavra. Quem fala é o sogro; quem decide é Moisés; Deus aparece só na boca de Jetro, como aquele cuja ordem decidiria tudo.

"Todo este povo"

No sentido simples, as pessoas que esperavam de pé diante de Moisés. Na leitura da Mekhilta, a liderança que estava com ele (item 3).

"O seu lugar"

Não é nomeado. Pode ser a tenda de cada litigante, a terra de Canaã ou o lugar do julgamento (item 3). Neste momento, segundo Êxodo 18:5, o acampamento está no deserto, junto ao "monte de Deus".

5. Pontos de Ensino

1. O bom conselho sabe o seu lugar. Jetro fez um diagnóstico certeiro e propôs uma reforma completa, e terminou dizendo que ela só vale se Deus a ordenar. A sabedoria humana aparece aqui com a sua medida: útil, convincente e subordinada.

2. Quem aconselha não manda. A frase inteira é condicional: "se você fizer". A decisão continua sendo de Moisés, e o conselheiro não se ofende com isso.

3. O texto não conta tudo. Não há registro de que Moisés tenha consultado a Deus nem de que Deus tenha aprovado a reforma. Toda leitura que afirma uma das duas coisas está preenchendo um silêncio.

4. A reforma tem dois beneficiários. Moisés, que poderá aguentar, e o povo, que chegará em paz. Nenhum dos dois benefícios vem sem o outro.

5. A medida da justiça é a paz de cada um. O verbo está no singular: cada pessoa ao seu lugar. O sistema que Jetro propôs se avalia pelo que acontece na tenda de quem tinha uma causa, e não pelo número de causas julgadas.

6. Uma tradição leu a reforma como preparação. Para o Targum Pseudo-Jônatas e para Or ha-Chaim, Moisés precisava ser aliviado das causas do dia a dia para poder receber a lei. É leitura, não texto, mas ajuda a perceber que o capítulo está colocado imediatamente antes do Sinai.

6. Aspectos Filosóficos

Jetro promete duas coisas: que Moisés aguentará e que "todo este povo chegará em paz ao seu lugar". A pergunta filosófica por trás da promessa é antiga: o que torna uma comunidade grande governável sem esmagar quem governa nem quem é governado? Um jurista alemão do começo do século XVII respondeu com um conceito, e foi buscar neste capítulo um dos seus exemplos.

Johannes Althusius e a política como convivência

Johannes Althusius (1563-1638) foi professor de direito na academia calvinista de Herborn e, durante trinta anos, síndico (o principal magistrado jurídico) da cidade de Emden, no norte da Alemanha. A sua obra principal é a Politica methodice digesta ("A política exposta com método", 1603, ampliada em 1614). Ficou quase esquecido por dois séculos, até que o historiador do direito Otto von Gierke o redescobriu em 1880.

A definição que abre o livro é a chave: "a política é a arte de associar os homens para estabelecer, cultivar e conservar entre eles a vida social". Althusius chama isso de "simbiótica", de uma palavra grega que quer dizer "viver junto". Nenhum ser humano basta a si mesmo; por isso as pessoas formam associações — ele usa o termo latino consociatio, "consociação", associação de associados. E a sociedade, para ele, não é feita de indivíduos soltos ligados diretamente ao soberano. É feita de associações dentro de associações: a família, a corporação de ofício, a cidade, a província, o reino. Cada uma tem os seus próprios direitos e as suas próprias autoridades, e a maior não absorve a menor.

Jetro dentro do tratado

No capítulo 8, sobre a província, Althusius explica por que ela deve ter "ordens" ou "estados" — grupos representados na administração, como o clero e os leigos — e cita Jetro como autoridade: "ninguém pode bastar sozinho à tarefa de administrar os negócios públicos de uma província, tão variados, diversos e extensos, se não se valer, para parte do peso, de pessoas hábeis, sábias e corajosas de cada classe de homens". Na nota, a referência é a Êxodo 18:17-25, seguida de 2 Crônicas 19:5-11.

E logo depois vem a frase que interessa a este versículo. Com esse arranjo, diz Althusius, "certos vestígios de liberdade são conservados" para os habitantes, "pois cada um e todos se veem admitidos na administração das coisas públicas". Daí nascem "amor, benevolência e cuidado comum", quando todos sabem que os seus pedidos serão ouvidos e que haverá remédio, "inclusive contra os mais poderosos ou contra os que perturbam a paz pública". É quase um comentário a "chegará em paz ao seu lugar": a paz vem de cada um saber que tem a quem recorrer perto de casa.

O que se chamou depois de subsidiariedade

A palavra "subsidiariedade" só seria usada no século XX, na encíclica Quadragesimo anno do papa Pio XI (1931): o que uma comunidade menor pode fazer não deve ser tirado dela por uma maior. Mas muitos estudiosos leem Althusius como o primeiro a dar forma sistemática à ideia. O desenho de Jetro tem essa estrutura: a causa pequena fica no grupo de dez, e só sobe o que o grupo menor não consegue resolver.

"E Deus assim lhe ordenar"

Há um segundo ponto de contato, menos citado. Althusius não fundava a convivência só no acordo entre os associados. Para ele, toda associação estava sob uma lei comum que nenhuma delas criou, e essa lei era, em substância, o Decálogo: a primeira tábua regula o que se deve a Deus, a segunda o que se deve ao próximo, e a segunda é a norma de toda vida civil e política (capítulo 21). O pacto humano é livre, mas não é soberano.

A frase de Jetro tem a mesma forma. A reforma é proposta por um homem, aceita por outro, executada por homens escolhidos pelas suas qualidades — e tudo isso depende de "Deus assim lhe ordenar". A organização é humana; a autoridade que a valida não é. Althusius escrevia para cidades calvinistas que precisavam justificar a sua resistência a príncipes; Jetro falava a um chefe esgotado no deserto. Os contextos não se comparam, e não se deve atribuir a Jetro uma teoria política. O que se pode dizer é que os dois põem o arranjo humano dentro de um limite que ele não define sozinho.

7. Aplicações Práticas

O versículo fala de um conselho e de quem o recebe, e é para essas duas posições que ele traz algo de prático.

Se você aconselha, deixe espaço acima do seu conselho. Jetro tinha razão, e sabia que tinha. Ainda assim terminou com "se Deus assim lhe ordenar". Um conselho que não admite outra instância — a consciência de quem o recebe, a vontade de Deus, a realidade que o conselheiro não vê — deixa de ser conselho e vira pressão. A frase de Jetro é um modo de dizer: eu acho isto, mas não sou eu quem decide.

Se você recebe um conselho, ele ainda é seu para decidir. O versículo não autoriza aceitar conselho sem pensar, nem recusá-lo por orgulho. Põe a decisão onde ela deve estar: em quem vai viver as consequências e responder por elas.

Aliviar-se não é fugir do dever. A leitura de Or ha-Chaim toca num escrúpulo comum em quem leva a sério uma responsabilidade: a ideia de que buscar alívio é falta de dedicação. O versículo diz o contrário. Quem quer continuar "de pé" por muito tempo precisa aceitar que não pode fazer tudo. A medida de que a decisão foi boa, no versículo, é dupla: quem carregava aguenta, e quem esperava volta em paz.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se Deus não tivesse aprovado, Moisés teria recusado o conselho?

Pela primeira leitura (condição), sim, e Jetro o diz claramente na versão da Mekhilta: "se não, você não poderá aguentar". Mas como o texto não narra consulta nenhuma, não se sabe se essa possibilidade chegou a ser real. É possível também que, para quem escreveu o capítulo, a aprovação estivesse implícita no próprio resultado: a reforma funcionou (Êxodo 18:26).

O povo chegou "em paz ao seu lugar"?

Se "o seu lugar" é Canaã, a geração que ouviu Jetro não chegou: morreu no deserto, segundo Números 14. Se é a tenda de cada um ao fim de uma causa, o texto não volta a falar disso. A promessa fica como critério, não como relato.

Jetro era sacerdote. Por que não se ofereceu para consultar a Deus em nome de Moisés?

O texto não diz, e a omissão é coerente com todo o capítulo. Jetro ofereceu sacrifício (Êxodo 18:12), mas nunca fala como intermediário entre Israel e Deus. Quando chega a hora de saber se Deus aprova, ele manda Moisés perguntar. Pode ser reconhecimento de que o canal com o Deus de Israel é Moisés, como ele mesmo disse em Êxodo 18:19. Pode ser também que o texto evite pôr um sacerdote estrangeiro no papel de oráculo de Israel. As duas explicações são hipóteses.

9. Conexão com Outros Textos

O conselho que é "como" a palavra de Deus

2 Samuel 16:23 — "O conselho que Aitofel dava naqueles dias era como se alguém consultasse a palavra de Deus; assim era todo o conselho de Aitofel, tanto para Davi como para Absalão."

O maior elogio que a Bíblia faz a um conselheiro humano, ainda com um "como se" (item 2).

Provérbios 19:21 — "Muitos são os planos no coração do homem, mas o conselho do SENHOR é que permanece."

O provérbio diz em forma de regra o que Jetro diz em forma de condição: o conselho humano vale enquanto não contraria o de Deus.

Um chefe que precisa perguntar

Números 27:21 — "Ele se apresentará diante do sacerdote Eleazar, que consultará por ele, segundo o juízo do Urim, diante do SENHOR; à palavra dele sairão, e à palavra dele entrarão, ele e todos os filhos de Israel com ele."

A autoridade do sucessor de Moisés posta sob a consulta a Deus: o procedimento que a primeira leitura de "e Deus assim lhe ordenar" supõe.

Ficar de pé diante de Deus

Êxodo 34:2 — "Esteja pronto pela manhã e suba de manhã ao monte Sinai, e apresente-se a mim ali, no alto do monte."

Um dos textos com que Or ha-Chaim lê o "ficar de pé" de Jetro como a postura de quem recebe a palavra.

Salmos 130:3 — "Se observares, SENHOR, as iniquidades, Senhor, quem ficará de pé?"

O mesmo verbo de "manter-se de pé", no sentido de resistir, aguentar. No salmo, quem não aguentaria é o ser humano diante do juízo de Deus; em Jetro, o juiz humano diante do volume das causas.

Voltar em paz ao seu lugar

1 Samuel 25:35 — "Davi recebeu da mão dela o que ela lhe tinha trazido e lhe disse: 'Suba em paz à sua casa; veja que ouvi a sua voz e atendi o seu pedido.'"

A mesma combinação de "em paz" e "à sua casa" no fim de uma disputa evitada. Abigail sai em paz porque foi ouvida — exatamente o que Jetro promete a cada litigante.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Se você fizer isto, e Deus assim lhe ordenar, você poderá manter-se de pé, e também todo este povo chegará em paz ao seu lugar.”

Texto hebraico

אִם אֶת־הַדָּבָר הַזֶּה תַּעֲשֶׂה וְצִוְּךָ אֱלֹהִים וְיָכׇלְתָּ עֲמֹד וְגַם כׇּל־הָעָם הַזֶּה עַל־מְקֹמוֹ יָבֹא בְשָׁלוֹם׃

Transliteração

im et-ha-davár ha-zéh ta'aséh ve-tsivvekhá Elohím ve-yakholtá amód; ve-gam kol-ha-ám ha-zéh al-meqomó yavó ve-shalóm.

Análise palavra por palavra

אִם — im, "se".

A conjunção da condição real, a que o falante considera possível. Abre a última frase de Jetro, e todo o resto depende dela.

אֶת־הַדָּבָר הַזֶּה תַּעֲשֶׂה — et-ha-davár ha-zéh ta'aséh, "você fizer isto".

Literalmente "esta coisa fizer". Davár aqui é "coisa", "plano", e o objeto vem antes do verbo, o que lhe dá destaque: "isto, se você fizer". Ta'aséh é o verbo asáh, "fazer", na forma Qal (a forma simples e ativa do verbo hebraico), imperfeito, segunda pessoa do masculino singular.

וְצִוְּךָ אֱלֹהִים — ve-tsivvekhá Elohím, "e Deus lhe ordenar".

Verbo tsaváh, "ordenar", na forma Piel (a forma do verbo hebraico que costuma intensificar ou tornar efetiva a ação), com o pronome "você" colado ao fim: "e ordenar-te". É o verbo de onde vem mitsváh, "mandamento". Está na forma que, depois de um "se", pode continuar a condição ou começar a consequência, e é daí que nasce toda a discussão do item 3.

Abraão ibn Ezra resolve pela palavra seguinte. O "e" de "e você poderá", diz ele, funciona como o fa do árabe, que quer dizer "então". Se a consequência começa ali, "e Deus lhe ordenar" fica do lado da condição. A ABC seguiu a mesma divisão, pondo a vírgula depois de "ordenar". O hebraico em si não tem pontuação que decida; os acentos dos massoretas (os escribas que fixaram a leitura do texto entre os séculos VII e X) fazem a pausa principal do versículo mais adiante, depois de "manter-se de pé".

O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) escreveu aqui o nome próprio, "e o SENHOR lhe ordenar", onde o hebraico tem só "Deus".

וְיָכׇלְתָּ עֲמֹד — ve-yakholtá amód, "você poderá manter-se de pé".

Yakholtá é o verbo yakhól, "poder, ser capaz", na forma que dá o futuro numa sequência. Amód é o infinitivo de amád, "estar de pé, parar, permanecer": "poderás estar de pé". Ibn Ezra compara a forma ao amód de Juízes 4:20, "fique à entrada da tenda". O verbo é o mesmo de Êxodo 18:13, onde o povo "ficou de pé" diante de Moisés; em Êxodo 18:14 o "fica de pé" é de outro verbo, nitsáv. Como em português, amád pode ser literal (ficar de pé) ou figurado (resistir, durar), e o Salmo 130:3 o usa no segundo sentido: "quem ficará de pé?".

וְגַם כׇּל־הָעָם הַזֶּה — ve-gam kol-ha-ám ha-zéh, "e também todo este povo".

Gam é "também", e liga o povo a Moisés. A expressão "este povo" é a mesma de Êxodo 18:18 ("você e também este povo que está com você"), e por isso a Mekhilta lê nos dois lugares as mesmas pessoas: os líderes que estavam com Moisés.

עַל־מְקֹמוֹ יָבֹא בְשָׁלוֹם — al-meqomó yavó ve-shalóm, "chegará em paz ao seu lugar".

Meqomó é maqóm, "lugar", com o pronome "seu" no singular: o lugar de cada um. Yavó é o verbo bo, "vir, chegar", também no singular, concordando com "todo" — cada um chegará. A preposição é al, normalmente "sobre", aqui com o sentido de "a, até". Be-shalóm é "em paz": a palavra shalóm cobre inteireza, bem-estar e ausência de conflito, e com a preposição be descreve o estado em que se chega, como em "subam em paz" (Gênesis 44:17). O som da primeira letra fica suave depois da vogal anterior, e por isso se lê ve-shalóm.

As traduções antigas

Três traduções antigas resolveram a cláusula do meio de três modos diferentes, e cada uma corresponde a uma leitura.

A Septuaginta (a tradução grega, feita no Egito a partir do século III a.C.): katischýsei se ho theós kai dynḗsē parastēnai, "Deus o fortalecerá, e você poderá permanecer". A ordem virou força; não há consulta.

O Targum Pseudo-Jônatas (outra tradução aramaica, mais livre e mais tardia): "se você fizer isto e se livrar do julgamento, o SENHOR lhe ordenará mandamentos, e você poderá ficar de pé para ouvi-los; e também Arão, os seus filhos e todos os anciãos deste povo virão em paz ao lugar do seu tribunal". A ordem de Deus virou a lei do Sinai.

A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV): implebis imperium Dei, et praecepta eius poteris sustentare, "você cumprirá a ordem de Deus e poderá sustentar os preceitos dele". Aqui a reforma não depende de uma ordem de Deus: ela já é o cumprimento dessa ordem. E o fim: revertetur ad loca sua cum pace, "voltará aos seus lugares em paz" — no plural, cada um para a sua casa.

11. Conclusão

Do que foi visto, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que Jetro põe o seu conselho, por melhor que seja, abaixo de Deus. Seja qual for a leitura da cláusula do meio — pedido de autorização, promessa de força, referência às causas que subiriam a Deus ou preparação para o Sinai —, em todas ela impede que a reforma seja apenas uma boa ideia humana aplicada por conta própria. O capítulo que mais elogia a sabedoria de um estrangeiro é também o que mais cuidadosamente a limita.

A segunda é que o texto deixa em aberto o que a cláusula pede. Não há cena de consulta e não há palavra de aprovação; há só o "Moisés ouviu a voz do seu sogro" do versículo seguinte. Quem afirma que Moisés consultou a Deus, ou que não consultou, está decidindo o que o Êxodo não decidiu. A honestidade aqui é dizer que a pergunta continua aberta.

A terceira é que a reforma é medida pelo resultado sobre as pessoas, e não pela eficiência. Moisés poderá continuar de pé; cada um chegará em paz ao seu lugar. O critério de Jetro para dizer que o sistema funciona não é o número de causas resolvidas, é que o chefe não caia e que ninguém volte para casa com a briga aberta.

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