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Êxodo 18:15

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 15 acessos
Moisés respondeu ao sogro: “É que o povo vem a mim para consultar a Deus.
Dentro de uma tenda iluminada pela luz do dia, um homem de barba grisalha, sentado, fala com as mãos abertas a um homem idoso de turbante que o escuta de pé; pela abertura da tenda vê-se uma multidão esperando do lado de fora.

Estudo


Moisés respondeu ao sogro: “É que o povo vem a mim para consultar a Deus.

1. Introdução

Jetro perguntou "por quê?", e Moisés responde com uma razão que não depende dele: é o povo que vem, e vem para consultar a Deus. A resposta transforma a fila do tribunal em fila de consulta religiosa, e o juiz em intermediário. O que exatamente o povo buscava — uma decisão de Deus sobre a disputa, um ensinamento, uma oração pelos doentes — os comentaristas discutem desde a Antiguidade, e as traduções antigas já escolheram sentidos diferentes. O versículo também mostra o problema que Jetro vai atacar: se cada causa é uma pergunta a Deus, e só Moisés pode fazê-la, ninguém mais pode julgar. A frase é curta e defensiva, e diz mais sobre a autoridade de Moisés do que sobre o cansaço dele.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quando Moisés não sabia a resposta

A Torá registra depois alguns casos em que uma questão chega a Moisés e ele não decide sozinho: suspende o processo e espera a palavra de Deus — o homem que amaldiçoou o Nome, os impuros na data da Páscoa, o homem que juntava lenha no sábado, as filhas de Zelofeade. São os exemplos concretos do que "consultar a Deus" podia significar num tribunal, e o estudo de Êxodo 18:19 os percorre um a um. Nenhum deles diz como a consulta era feita: não há sorteio, sonho nem sacerdote; o texto diz só que Moisés levou a causa e que o SENHOR falou.

O Talmude e o "tragam-me" de Moisés

O Talmude Babilônico, no tratado Sanhedrin, folha 8a, leu o caso das filhas de Zelofeade de um modo surpreendente. No Deuteronômio, ao recontar a reforma dos juízes, Moisés diz: "a causa que for difícil demais para vocês, tragam-na a mim, e eu a ouvirei" (Deuteronômio 1:17). Rabi Chanina — ou, segundo outros, Rabi Yoshiyá — diz que Moisés foi castigado por essa frase, que soava presunçosa: quando as filhas de Zelofeade vieram, ele não sabia a resposta e teve de perguntar a Deus. Rav Nachman bar Yitzchak protesta: Moisés não disse "e eu lhes direi", disse "e eu ouvirei" — isto é, se eu souber, sei; se não souber, vou aprender.

A mesma página acrescenta uma tradição de outro tom: a lei da herança das filhas devia ter sido escrita como as outras, "o SENHOR falou a Moisés", mas foi escrita a partir das filhas de Zelofeade, porque elas tiveram o mérito de pedir. E a do homem da lenha foi escrita a partir dele, porque foi culpado. Para o Talmude, o caso que chega ao tribunal não é só um problema a resolver: é a ocasião em que a lei aparece, e quem o traz entra no texto.

O sacerdote e o profeta

Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e a Bíblia de Cambridge (série de comentários da universidade inglesa, fim do século XIX) supõem que Moisés usasse algo como o Urim e o Tumim, os objetos do peitoral do sumo sacerdote que davam respostas de sim ou não. O texto não o diz, e o Êxodo nunca mostra Moisés precisando de sacerdote ou de objeto para falar com Deus.

Mais tarde, quem queria consultar a Deus ia ao profeta. O Primeiro Livro de Samuel registra que "antigamente, em Israel, quem ia consultar a Deus dizia: 'Venham, vamos ao vidente'" (1 Samuel 9:9) — e o assunto, ali, era um bando de jumentas perdidas. A frase mostra que a consulta a Deus cobria muito mais do que causas judiciais, e é com ela que Ramban vai explicar este versículo (item 3).

3. Análise Teológica do Versículo

"Moisés respondeu ao sogro"

Jetro fez duas perguntas — "que é isto?" e "por que você se senta sozinho?" — e Moisés responde a uma razão, não às duas perguntas. Ele não explica o sistema nem a postura; explica por que o povo está ali. A resposta é defensiva: a causa da fila não é ele, é a procura. O Or ha-Chaim (Chaim ibn Attar, cabalista e comentarista do Marrocos, século XVIII) lê exatamente assim: Moisés entendeu que o sogro o acusava de obrigar o povo a vir até ele e de não querer dividir a função, e respondeu que não era escolha dele — o povo insistia.

"É que o povo vem a mim"

O verbo está numa forma que indica ação repetida. Rashi explica: "vem" equivale a "costuma vir" — o povo vem sempre, todo dia. Moisés descreve um hábito, o mesmo que Jetro tinha descrito.

A ordem das palavras chamou a atenção dos rabinos. A Mekhilta conta que Yehudá, homem de Kefar Akko (povoado junto de Aco, a atual Acre, no norte de Israel), perguntou a Rabban Gamliel (provavelmente o que dirigiu a academia de Yavne no fim do século I): "Por que Moisés achou bom dizer 'o povo vem a mim'?" A frase parece vaidade, como se tudo girasse em torno dele. Gamliel responde com outra pergunta: "E se não dissesse assim, diria o quê?" Yehudá propõe: "Diria 'o povo vem consultar a Deus'", sem o "a mim". E Gamliel encerra: "Quando ele acrescenta 'para consultar a Deus', disse bem." O que redime o "a mim" é o destino da consulta: o povo vem a Moisés, mas não por causa de Moisés.

"para consultar a Deus"

A expressão é o centro do versículo, e ela é ambígua. O verbo é o da consulta religiosa, o mesmo de Rebeca quando "foi consultar o SENHOR" (Gênesis 25:22): quem consulta vai buscar uma resposta para uma pergunta concreta. Mas o que o povo perguntava a Deus por meio de Moisés? Há quatro leituras.

Primeira leitura: buscavam a decisão de Deus sobre as disputas. É a leitura da maior parte dos comentaristas cristãos — Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX), Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX), Gill — e da Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo), que traduz "consultar a Deus" por "buscar julgamento junto de Deus". A Vulgata (tradução latina de Jerônimo, século IV) vai na mesma linha: o povo vem "buscando a sentença de Deus". Barnes diz que as decisões de Moisés eram recebidas como oráculos. Nessa leitura, o tribunal de Moisés é um tribunal religioso: cada sentença é tida como palavra de Deus, e por isso ninguém aceitaria a de outro juiz.

Segunda leitura: buscavam ensino. O Targum de Ônquelos (tradução aramaica do Pentateuco, dos primeiros séculos da era comum) traduz "para buscar instrução de diante do SENHOR", e Rashi adota a tradução: o povo vinha "pedir ensino da boca do Todo-Poderoso". Aqui não se pensa em oráculo, mas em aprendizagem: Moisés é o mestre que sabe o que Deus ensinou.

Terceira leitura: buscavam outras coisas além de justiça. Ramban (Moisés ben Nachman, rabino e comentarista da Catalunha, século XIII) separa "consultar a Deus" de "julgar". Consultar a Deus, para ele, era o que o povo fazia depois com os profetas: pedir oração pelos doentes e saber onde estavam as coisas perdidas. Ele cita dois exemplos: Saul procurando as jumentas do pai com o vidente Samuel (1 Samuel 9:9) e o rei Ben-Hadade mandando perguntar ao profeta Eliseu se sararia (2 Reis 8:8). Nessa leitura, Moisés descreve dois serviços distintos — o religioso neste versículo, o judicial no seguinte —, e a fila tinha doentes e gente atrás de animais perdidos ao lado de gente com processo. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) também vê duas tarefas, mas outras: "consultar a Deus" é perguntar pela lei de Deus; a "questão" do versículo seguinte é a disputa entre partes. E observa que Moisés responde na ordem inversa — explica primeiro a disputa e depois o ensino.

Quarta leitura: buscavam o único que podia falar com Deus. Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII) é seco: só Moisés podia dirigir-se diretamente a Deus, porque o povo não tinha esse costume; por isso ele ficava sozinho. A leitura explica a palavra "sozinho" da pergunta de Jetro: Moisés está sozinho porque é o único canal. Sforno (Ovádia Sforno, comentarista italiano do século XVI) restringe: quem vinha consultar eram os chefes, com questões públicas; os particulares esperavam.

O versículo não permite decidir entre as quatro, e o hebraico deixa todas abertas. O que todas têm em comum é o que Jetro vai precisar enfrentar: enquanto as causas forem tratadas como consultas a Deus, a fila não se divide. O conselho dele (Êxodo 18:19) vai separar exatamente as duas coisas — Moisés fica com o que é diante de Deus; os outros julgam o resto.

Um detalhe completa a frase. Moisés não diz "o SENHOR", o nome próprio do Deus de Israel; diz "Deus", a palavra comum. O capítulo usa o nome próprio quando Moisés conta a Jetro o que aconteceu no Egito e quando Jetro bendiz (Êxodo 18:8-11); a partir do sacrifício (Êxodo 18:12), quase só "Deus". A palavra hebraica para "Deus" também designa, em algumas leis do Êxodo, os juízes ou o tribunal sagrado — dado estudado em Gênesis 50:19. Não é possível provar que o texto jogue com esse duplo sentido aqui, mas a coincidência é notável: o povo vem "consultar a Deus" num lugar onde se julga.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés — respondendo pela primeira vez a uma crítica que não vem nem de Faraó nem do povo. A resposta o mostra como mediador entre o povo e Deus, o papel que Jetro vai confirmar no versículo 19 e restringir no versículo 22.

O sogro — Jetro, que fez as perguntas do versículo 14 e agora ouve. Ele é sacerdote; sabe o que é ser procurado para consultar a divindade. O texto não registra reação imediata.

O povo — os que vêm "consultar". Na leitura de Ramban, gente com doentes e coisas perdidas; na de Sforno, os chefes com questões públicas; na maioria das outras, gente com disputas.

Rabban Gamliel e Yehudá de Kefar Akko — os dois personagens da conversa da Mekhilta sobre o "a mim" de Moisés. Gamliel é provavelmente o de Yavne, que dirigiu a academia dos sábios depois da destruição do Templo, no fim do século I; Yehudá é conhecido quase só por perguntas como esta.

O "vidente" — o nome antigo do profeta, segundo 1 Samuel 9:9. O homem a quem se ia consultar a Deus antes de existir a palavra "profeta" no uso comum; é a figura que Ramban vê por trás deste versículo.

5. Pontos de Ensino

1. Moisés justifica a fila pelo que o povo busca. Ele não fala de si, nem de cansaço, nem de método. Fala da procura. A autoridade dele é descrita como resposta a uma necessidade, não como conquista.

2. "Consultar a Deus" não tinha um sentido só. Decisão de disputa, ensino, oração pelo doente, informação sobre o perdido — as leituras dos comentaristas mostram que o mesmo verbo cobria todo o leque de perguntas que um povo leva a quem considera próximo de Deus.

3. Quando tudo é consulta a Deus, só um pode responder. A lógica da resposta de Moisés é também a raiz do problema. Se toda causa exige acesso direto a Deus, nenhum outro juiz é possível.

4. A Torá mostra Moisés dizendo "não sei". Nos casos suspensos (item 2), o maior dos mediadores para o processo e espera. Consultar a Deus incluía admitir que a resposta ainda não estava dada.

5. O texto não diz como a consulta se fazia. Não há sorteio, sonho nem objeto sagrado neste versículo. Qualquer descrição do método é suposição dos comentaristas.

6. Aspectos Filosóficos

O juiz que é profeta: al-Farabi e a cidade virtuosa

Moisés justifica o tribunal de uma pessoa só com uma razão que a filosofia política medieval levou muito a sério: quem decide para o povo é quem tem acesso à verdade que vem de cima. Ninguém pensou essa figura com mais rigor que Abu Nasr al-Farabi (c. 870-950), filósofo muçulmano nascido na Ásia Central, que viveu em Bagdá e morreu em Damasco. A tradição árabe o chamou de "o Segundo Mestre", e ele foi o primeiro a construir, em árabe, uma teoria completa do governante perfeito.

Na obra conhecida como A cidade virtuosa (título abreviado de "Princípios das opiniões dos habitantes da cidade virtuosa"), al-Farabi descreve o "primeiro governante" da cidade ideal. É alguém cujo intelecto chegou à perfeição e se uniu ao que ele chama de Intelecto Agente — a inteligência que, no seu sistema, liga o mundo divino ao mundo humano. Quando o conhecimento vindo dessa fonte passa pelo intelecto, o homem é filósofo; quando passa pela imaginação e se transforma em imagens e palavras, o homem é profeta. O primeiro governante é as duas coisas ao mesmo tempo: sabe a verdade e sabe traduzi-la para o povo em forma de leis e símbolos. Por isso é ele quem legisla, quem julga e quem governa. Al-Farabi lista doze qualidades naturais que esse homem precisa ter — inteligência, memória, amor à verdade, desprezo pelo dinheiro, amor à justiça, coragem, entre outras.

Moisés, na resposta a Jetro, fala quase como esse governante: o povo vem a ele porque por meio dele chega a Deus. E a resposta dele tem a mesma consequência que o sistema de al-Farabi: se a verdade passa por um homem, as decisões precisam passar por ele.

O que acontece quando um homem só não basta

O mais interessante em al-Farabi, para este capítulo, é que ele não para no governante perfeito. Ele mesmo admite que as doze qualidades raramente se encontram numa pessoa só. Se não se encontram, diz ele, o governo pode ser exercido por dois — um que tenha a sabedoria, outro que tenha as demais qualidades — ou por um grupo, desde que a sabedoria esteja presente nele. E num livro menor, o Livro da Religião, ele descreve o que fazer depois que o primeiro governante desaparece: os sucessores devem tirar, das decisões que ele deixou explícitas, as regras para os casos que ele não decidiu. A essa arte al-Farabi dá o nome de fiqh (o direito religioso islâmico, a jurisprudência).

Lido daqui, o capítulo de Jetro é a passagem do primeiro modelo para o segundo, ainda em vida do primeiro governante. Moisés continua sendo a ligação com Deus, mas as causas comuns passam a outros, que julgam a partir do que ele ensinou — exatamente o que Moisés diz fazer no versículo seguinte, "faço conhecer os estatutos de Deus".

Os limites do paralelo

São dois. O primeiro: em al-Farabi, a profecia é explicada como fenômeno natural do intelecto e da imaginação — o profeta é um filósofo com imaginação muito forte. O Êxodo não explica nada. Diz que o povo consultava a Deus por meio de Moisés e não descreve o mecanismo; a explicação de al-Farabi é dele, e foi recebida com reservas até entre os filósofos que dependeram dela, como Maimônides. O segundo: al-Farabi pensa a cidade a partir do sábio no topo. O Êxodo, neste versículo, pensa a partir de quem chega: "o povo vem a mim". A pergunta do texto não é quem merece governar, mas quem atende a quem procura.

7. Aplicações Práticas

Quem é muito procurado precisa perguntar por que é procurado. Moisés sabia responder: vinham a ele para chegar a Deus. Quem ocupa uma posição de confiança — o pastor que todos querem ouvir, a professora que todos procuram, o médico que todos pedem — faz bem em saber o que as pessoas buscam nele, porque é isso que decide o que pode ser passado a outros e o que não pode.

"Não sei, vou perguntar" é uma resposta digna. Os casos suspensos da Torá mostram Moisés parando o processo para buscar resposta. Em qualquer função de decisão, a pressa de responder tudo é mais perigosa que a demora honesta.

Cuidado com a ideia de que só você pode atender. A resposta de Moisés é verdadeira e, ao mesmo tempo, é a armadilha. Quem se convence de que as pessoas só aceitam a sua palavra acaba sem ninguém para dividir a carga. O versículo não condena Moisés por isso; mostra o raciocínio que Jetro vai desmontar.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Moisés tinha razão em dizer que só ele podia responder?

Em parte. Para as questões que exigiam palavra nova de Deus, sim — e é essa parte que Jetro deixa com ele (Êxodo 18:19). Para as causas em que a lei já era conhecida, não: qualquer pessoa preparada podia aplicá-la. A resposta de Moisés não distinguia as duas, e é aí que entra o conselho.

Por que o povo preferia Moisés a outro juiz?

O texto não diz. A leitura mais provável é a do próprio versículo: o povo queria ouvir a decisão de Deus, e só Moisés tinha falado com Deus diante de todos. O Or ha-Chaim cita uma leitura do Zohar (a obra principal da Cabala, escrita na Espanha do século XIII) segundo a qual a decisão de Moisés vinha com inspiração divina, e por isso o povo aceitava esperar o dia inteiro.

Consultar a Deus por meio de alguém não é falta de fé?

A Bíblia não trata assim. Rebeca vai consultar o SENHOR (Gênesis 25:22); reis mandam consultar profetas; Saul procura o vidente por causa de umas jumentas. Consultar por um intermediário era o modo normal de perguntar. A crítica bíblica não é ao uso do mediador, mas à consulta feita por quem não pretende obedecer (Ezequiel 20:1-3, item 9).

Jetro, sacerdote, também era consultado em Midiã?

É plausível: sacerdotes eram procurados para isso em todo o antigo Oriente Próximo. Mas o texto nunca mostra Jetro exercendo essa função, e qualquer afirmação sobre o que ele fazia em Midiã é suposição.

9. Conexão com Outros Textos

A mulher que foi consultar

Gênesis 25:22 — "Mas os filhos lutavam dentro dela, e ela disse: 'Se é assim, por que estou vivendo?' Então foi consultar o SENHOR."

O mesmo verbo, com outra pessoa e outra pergunta. O estudo de Gênesis 25:22 analisa o verbo da consulta e o silêncio sobre o lugar e o meio; Ramban liga os dois versículos expressamente. Rebeca foi sozinha; o povo do Êxodo vai até Moisés.

O tempo em que o profeta se chamava vidente

1 Samuel 9:9 — "Antigamente, em Israel, quem ia consultar a Deus dizia: 'Venham, vamos ao vidente'; porque ao profeta de hoje se chamava antigamente vidente."

A frase é um parêntese do autor de Samuel explicando uma palavra que os leitores já não usavam. Ramban a usa para mostrar que "consultar a Deus" incluía assuntos práticos: Saul procurava jumentas.

O rei estrangeiro que manda consultar

2 Reis 8:8 — "O rei disse a Hazael: 'Tome um presente, vá ao encontro do homem de Deus e consulte o SENHOR por meio dele, perguntando: Sararei desta doença?'"

O segundo exemplo de Ramban: a consulta por um doente. O rei de Damasco, estrangeiro como Jetro, sabe a quem perguntar em Israel.

Quando Deus recusa a consulta

Ezequiel 20:3 — "Filho do homem, fale aos anciãos de Israel e diga-lhes: Assim diz o Senhor DEUS: Vocês vêm consultar-me? Tão certo como eu vivo, não me deixarei consultar por vocês, diz o Senhor DEUS."

Os anciãos vão ao profeta exatamente como o povo ia a Moisés — e Deus se recusa a responder. A consulta não era automática: dependia de quem consultava e de como vivia. Em Êxodo 18:15 nada indica recusa, mas a instituição tinha esse limite.

Do consultar ao estudar

Esdras 7:10 — "Pois Esdras tinha disposto o coração para estudar a lei do SENHOR, para cumpri-la e para ensinar em Israel estatutos e direito."

O verbo que a ABC traduz por "consultar" em Êxodo 18:15 é o mesmo que aqui se traduz por "estudar". Esdras busca a Deus num livro, não num oráculo, e depois ensina "estatutos" — a mesma sequência de Moisés em Êxodo 18:15-16: buscar a Deus e fazer conhecer os estatutos. Séculos separam os dois, e o caminho do verbo entre eles está descrito no item 10.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Moisés respondeu ao sogro: “É que o povo vem a mim para consultar a Deus.

Texto hebraico

וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה לְחֹתְנוֹ כִּי־יָבֹא אֵלַי הָעָם לִדְרֹשׁ אֱלֹהִים׃

Transliteração

va-yomer Mosheh le-chotno: ki-yavo elai ha-am lidrosh Elohim.

Análise palavra por palavra

וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה — va-yomer Mosheh, "e disse Moisés". A ABC traduz por "respondeu", porque a fala responde às perguntas do versículo 14.

לְחֹתְנוֹ — le-chotno, "ao seu sogro". Choten, "sogro", com o sufixo de terceira pessoa, "dele". De novo sem o nome Jetro.

כִּי — ki, "é que", "porque". A conjunção introduz a razão: Moisés responde ao "por quê" de Jetro. A ABC escolheu "é que", forma oral portuguesa de dar explicação, que guarda o tom de resposta.

יָבֹא — yavo, "vem". Verbo bo, "vir, entrar", no imperfeito, terceira pessoa do singular. O imperfeito hebraico, além do futuro, indica ação repetida ou habitual; Rashi o entende como presente contínuo, "costuma vir". O singular concorda com o coletivo "povo".

אֵלַי — elai, "a mim". A preposição el, "para, em direção a", com sufixo de primeira pessoa. Está antes do sujeito, "o povo": a ordem hebraica é "porque vem a mim o povo". Foi essa posição de destaque que a Mekhilta discutiu (item 3).

הָעָם — ha-am, "o povo".

לִדְרֹשׁ — lidrosh, "para consultar". Infinitivo do verbo darash, com a preposição le de finalidade. O sentido básico é "buscar, procurar, indagar"; com Deus por objeto, é o termo da consulta religiosa — análise feita no estudo de Gênesis 25:22.

O que cabe aqui é o caminho que a palavra fez depois. Em textos antigos, darash é ir a alguém para obter uma resposta de Deus. Em Esdras 7:10, já depois do exílio, o objeto deixa de ser Deus e passa a ser "a lei do SENHOR": consultar vira estudar. Daí vêm as palavras midrash ("estudo, interpretação" — o nome do método rabínico de ler a Escritura) e beit midrash ("casa de estudo"), cuja ocorrência mais antiga está no livro de Eclesiástico (51:23), escrito em hebraico no século II antes de Cristo. O verbo que em Êxodo 18:15 descreve o povo indo a Moisés para saber de Deus acabou designando o estudo do texto em que esse mesmo versículo está escrito. A própria Mekhilta, ao comentar o versículo seguinte, chama os "estatutos" de midrashot, "interpretações".

אֱלֹהִים — Elohim, "Deus". A forma é plural, mas com sentido singular quando se refere ao Deus de Israel; a ABC traduz por "Deus". Sem artigo e sem a partícula de objeto que costuma acompanhar o objeto direto definido: "consultar Deus", e não "consultar o SENHOR", como em Gênesis 25:22, onde o objeto é o nome próprio, YHWH. No versículo seguinte, o mesmo Elohim virá com artigo, "os estatutos de Deus".

As versões antigas

Cada tradução antiga escolheu um sentido para o versículo, e as escolhas são as leituras do item 3.

A Septuaginta traduz por ekzētēsai krisin para tou theou, "buscar julgamento junto de Deus": acrescenta a palavra "julgamento", que o hebraico não tem, e com isso faz da consulta uma consulta judicial. A Vulgata, "quaerens sententiam Dei", "buscando a sentença de Deus", faz o mesmo em latim.

O Targum de Ônquelos traduz le-mitba ulpan min qodam YY, "para pedir instrução de diante do SENHOR". Faz duas mudanças. Acrescenta "instrução", que transforma a consulta em ensino. E troca a palavra genérica "Deus" pelo nome próprio, abreviado YY, e põe "de diante de" — fórmula de respeito com que o Targum evita fazer de Deus o objeto direto de uma ação humana. O povo não "consulta Deus"; pede instrução "de diante" dele.

11. Conclusão

A primeira conclusão é que Moisés justifica o tribunal único pela natureza do que se buscava nele. Para o povo, ir a Moisés era ir a Deus, e isso explica a fila melhor do que qualquer falta de organização.

A segunda é que a expressão "consultar a Deus" cobria mais do que justiça. As traduções antigas e os comentaristas medievais a puxaram para o julgamento, para o ensino ou para a oração, e nenhuma escolha esgota o versículo. Moisés responde com uma palavra larga porque a procura era larga.

A terceira é que a resposta de Moisés contém o problema e a saída. Se tudo é consulta a Deus, só ele pode atender; mas, se se distinguir o que precisa de palavra nova de Deus daquilo que já foi ensinado, outros podem julgar. É essa distinção que Jetro vai propor, e ela começa a aparecer no versículo seguinte, quando Moisés diz que, além de julgar, ensina.

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