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Êxodo 18:14

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 15 acessos
Vendo o sogro de Moisés tudo o que ele fazia pelo povo, disse: “Que é isto que você faz com o povo? Por que você se senta sozinho, e todo o povo fica de pé diante de você desde a manhã até a tarde?”
À entrada de uma tenda no deserto, um homem idoso de turbante, de pé e com a mão no queixo, observa de lado um homem de barba grisalha sentado sozinho num banco de pedra, diante de uma longa fila de pessoas em pé que se estende pelo acampamento sob a luz da tarde.

Estudo


Vendo o sogro de Moisés tudo o que ele fazia pelo povo, disse: “Que é isto que você faz com o povo? Por que você se senta sozinho, e todo o povo fica de pé diante de você desde a manhã até a tarde?”

1. Introdução

Jetro passa o dia olhando antes de falar, e quando fala é com duas perguntas: "Que é isto?" e "Por que você se senta sozinho?". O que ele vê é um contraste — um homem sentado, um povo inteiro de pé, da manhã até a tarde. A tradição se dividiu sobre o que o incomodou: a honra do povo, rebaixado diante de um homem que se portava como rei, ou o cansaço de todos, preso a um juiz único. A partir daqui, até o fim do capítulo, Jetro não é mais chamado pelo nome, só de "sogro de Moisés". E a palavra que ele usa para "isto" é a mesma que no versículo seguinte vai significar "causa", e os dois homens vão falar dela em sentidos diferentes.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem fica de pé num tribunal

A postura das partes num julgamento foi assunto de lei na tradição judaica, e é este capítulo que fornece uma das provas. O Talmude Babilônico, no tratado Shevuot, folhas 30a e 30b, discute a questão a partir de Deuteronômio 19:17 — "os dois homens que têm a disputa ficarão de pé diante do SENHOR, diante dos sacerdotes e dos juízes". Os sábios concluem que as partes devem estar de pé. Rabi Yehudá discorda em parte: se os juízes quiserem fazer as duas partes sentar, podem. O que é proibido, e nisso todos concordam, é que uma parte fique sentada e a outra de pé, ou que uma fale tudo o que quer e a outra seja mandada abreviar. A base é Levítico 19:15, "com justiça julgarás o teu próximo".

Dois mestres posteriores restringem a discussão. Ulla diz que a divergência vale só para as partes; testemunhas depõem sempre de pé. E Rav Huna diz que a divergência vale só durante os debates; na hora da sentença, todos concordam que os juízes ficam sentados e as partes de pé — "como está escrito: Moisés sentou-se para julgar o povo, e o povo ficou de pé" (Êxodo 18:13). O versículo que para Jetro pareceu um problema virou, nas mãos dos rabinos, o modelo do tribunal correto.

A mesma página mostra o outro lado da postura. Rav Nachman tinha de julgar uma causa da esposa de Rav Huna. Pela regra de honra aos sábios, devia levantar-se diante dela; mas, se o fizesse, a outra parte se sentiria em desvantagem e perderia a coragem de argumentar. O dilema é exatamente o de Êxodo 18:14: a postura no tribunal não é só cortesia; ela muda o que as pessoas se sentem livres para dizer.

O rei sentado e o funcionário de pé

Nas cortes do antigo Oriente Próximo, a audiência real tinha uma forma fixa: o soberano sentado, e quem trazia o caso, de pé. O exemplo mais claro são os dois grandes relevos de audiência de Persépolis, a capital cerimonial dos reis persas, achados pela expedição do Instituto Oriental de Chicago nos anos 1930 e datados dos séculos VI e V antes de Cristo. Neles o rei está num trono alto, com os pés num escabelo e o cetro na mão; o príncipe herdeiro, de pé, atrás dele; e diante do trono um dignitário de pé, ligeiramente inclinado, com a mão erguida diante da boca — gesto de respeito de quem se dirige ao rei. Entre os dois, incensários. Ninguém se senta diante do soberano. O rei sentado como sinal de domínio já foi visto, num relevo assírio de Senaqueribe, no estudo de Êxodo 17:12.

Israel conhecia a mesma imagem. Salomão construiu um "pórtico do trono", onde se sentava para julgar, chamado "pórtico do julgamento" (1 Reis 7:7). E o livro de Provérbios descreve o rei "sentado no trono do julgamento", que com os olhos dispersa todo mal (Provérbios 20:8). Para os ouvintes antigos, um homem sentado e um povo de pé não era cena estranha: era como se fazia justiça.

É por isso que a leitura de Rashi tem peso. Jetro, sacerdote de Midiã, conhecia a forma da corte. Se ele estranha a cena, não é por ignorância do costume. Uma leitura possível — o texto não a afirma — é que a forma da corte, aplicada a um povo recém-saído da escravidão, lembrava demais a de Faraó.

3. Análise Teológica do Versículo

"Vendo o sogro de Moisés"

Desde a chegada, o texto chamava o visitante de "Jetro, sogro de Moisés" (Êxodo 18:1, 18:2, 18:5, 18:12) ou só "Jetro" (Êxodo 18:6, 18:9, 18:10). A partir deste versículo o nome desaparece: até o último versículo do capítulo, ele é só "o sogro de Moisés" ou "o sogro". O sacerdote de Midiã sai de cena e fica o parente. Não é possível provar que a troca é intencional, mas o efeito é claro: o conselho que vem a seguir chega como palavra de família, e não como intervenção de um sacerdote estrangeiro no culto de Israel.

O verbo "ver" vem antes do verbo "dizer". Jetro observa o dia inteiro, e só então fala. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) observa que a pergunta que ele faz não é para obter informação — ele acabou de ver tudo —, mas para abrir a conversa.

"tudo o que ele fazia pelo povo"

A ABC traduz a mesma expressão hebraica de dois modos neste versículo: na boca do texto, "pelo povo"; na boca de Jetro, "com o povo". O hebraico usa uma preposição só, que admite os dois sentidos — fazer algo em favor de alguém ou fazer algo a alguém. A tradução registra a ambiguidade: o que o texto apresenta como serviço, Jetro pode estar apresentando como imposição. Ibn Ezra entende assim: o que Jetro viu foi Moisés fazendo o povo ficar de pé da manhã à tarde. O Or ha-Chaim (Chaim ibn Attar, cabalista e comentarista do Marrocos, século XVIII) vai além: Moisés ouviu na frase de Jetro uma acusação — "o que você está fazendo ao povo" —, e é por isso que, no versículo seguinte, ele se defende dizendo que é o povo que vem até ele.

"Que é isto que você faz com o povo?"

A pergunta é avaliação, não curiosidade. Quem pergunta "que é isto?" diante de uma coisa que acabou de ver inteira está pedindo que o outro justifique o que faz. A palavra que a ABC traduz por "isto" é a mesma que, no versículo 16, Moisés usará para "questão" — e o estudo de Êxodo 18:16 mostra como ela percorre o capítulo inteiro. Aqui basta o efeito: Jetro chama de "isto" o sistema inteiro; Moisés vai responder falando de casos.

"Por que você se senta sozinho"

Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) põe o peso da frase numa palavra: "sozinho". Mas a pergunta reúne duas coisas — "sentado" e "sozinho" — e a tradição discute qual delas incomodou Jetro.

Primeira leitura: o problema é a honra do povo. A Mekhilta diz que Jetro viu Moisés "como um rei que está sentado enquanto todos estão de pé" e o repreendeu: "É assim que você trata Israel?". Rashi repete: a coisa desagradou a Jetro porque Moisés diminuía a honra devida ao povo. Nessa leitura, a pergunta é moral, e o alvo é a postura.

Segunda leitura: o problema é a solidão do juiz. Ibn Ezra rejeita a primeira com dois argumentos. O primeiro é jurídico: o juiz se senta e as partes ficam de pé, como manda Deuteronômio 19:17; Moisés fazia o certo. O segundo é de hierarquia: a posição de Moisés era alta demais para que Jetro o repreendesse por isso — até Arão, mais velho, o chamava de "meu senhor" (Números 12:11). Jetro, para Ibn Ezra, perguntou "por quê" pela única razão de que Moisés estava sozinho, sem outros juízes. O Chizkuni concorda e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) também: a questão não é sentar ou ficar de pé, é não ter ajudantes.

Terceira leitura: as duas coisas, e um mal-entendido entre elas. O Chizkuni acrescenta uma observação psicológica: Moisés entendeu primeiro que o sogro criticava o fato de só ele estar sentado, e por isso respondeu na defensiva. Jetro falava de outra coisa — do volume de trabalho —, e a conversa só se acerta no versículo 17, quando ele diz claramente o que pensa.

Ibn Ezra registra ainda uma observação sobre a palavra "por que" deste versículo. Ela não é o "por que" mais comum do hebraico, e um gramático que ele cita, chamado Merinus, a explicava como a junção de "que" com "conhecimento": "que pensamento você tem para fazer isto?". Se a explicação for correta — e ela é discutida —, Jetro não está perguntando a causa, mas a razão: quer saber o que Moisés tem em mente.

O texto não permite decidir entre a honra e o cansaço. O que ele faz é pôr as duas palavras lado a lado — "sozinho" e "todo o povo" — e o contraste entre um e todos é o que torna a cena visível, seja qual for o motivo do incômodo.

"e todo o povo fica de pé diante de você"

Jetro diz mais do que o versículo 13 disse. O texto falou de "o povo"; ele fala de "todo o povo". E troca o verbo: o texto usou o verbo comum de ficar de pé; Jetro usa outro, de quem está postado e não sai do lugar (item 10). Na boca dele, a fila vira uma multidão plantada.

"desde a manhã até a tarde"

Jetro repete as palavras do versículo 13, com uma diferença pequena: no hebraico do versículo 13 "manhã" e "tarde" têm artigo — aquele dia, daquela manhã àquela tarde; na fala de Jetro, não têm — de manhã a tarde, como regra. O texto contou um dia; Jetro descreve um costume. É o primeiro sinal de que ele não está comentando uma jornada ruim, mas um modo de funcionar.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O sogro de Moisés — Jetro, sacerdote de Midiã, que no Êxodo 2 acolheu o fugitivo e lhe deu a filha em casamento. Neste versículo e até o fim do capítulo, só pelo parentesco. É hóspede no acampamento há um dia.

Moisés — sentado, sozinho, no papel de juiz de todos. O versículo o mostra pela primeira vez sendo questionado por alguém de fora do povo — e não por um adversário, como Faraó, nem por um povo em revolta, como em Refidim.

O povo — de pé. "Todo o povo", na fala de Jetro.

O cenário — o acampamento junto ao monte de Deus, no dia seguinte à refeição de Êxodo 18:12. O texto não descreve o lugar exato da audiência.

O evento — uma conversa entre sogro e genro. Não é um conselho de anciãos nem uma revelação. A mudança na organização de Israel começa numa pergunta feita em família.

5. Pontos de Ensino

1. Ver antes de falar. Jetro observa o dia inteiro e só depois pergunta. A crítica que vem a seguir tem por base o que ele viu, não o que ouviu dizer.

2. Pergunta antes de proposta. Jetro não começa com a solução. Começa com "que é isto?" e "por quê?", e deixa Moisés explicar. O conselho só virá no versículo 19.

3. O que um faz "pelo" povo pode ser o que faz "com" o povo. A mesma preposição serve para o serviço e para o peso. O versículo põe as duas leituras em duas bocas.

4. A forma da autoridade fala. Um homem sentado e uma multidão de pé eram a forma normal de uma corte antiga. Jetro olha essa forma de novo e pergunta se ela serve a um povo que acabou de sair do Egito.

5. O de fora vê o que o de dentro naturalizou. Ninguém em Israel tinha feito a pergunta. Fez-a um parente estrangeiro, de passagem.

6. Aspectos Filosóficos

"Por que você se senta sozinho?" — a pergunta de Madison

A pergunta de Jetro tem uma versão moderna famosa, e ela não vem de um teólogo. James Madison (1751-1836), um dos autores da Constituição dos Estados Unidos e depois o quarto presidente do país, escreveu entre 1787 e 1788, com Alexander Hamilton e John Jay, a série de artigos de jornal conhecida como O Federalista, para defender o novo desenho de governo. Dois desses artigos tratam exatamente do que Jetro viu.

No número 47, Madison escreve que a acumulação de todos os poderes — legislativo, executivo e judiciário — nas mesmas mãos, sejam de um, de poucos ou de muitos, pode ser chamada com justiça de a própria definição de tirania. No número 51, do início de 1788, ele explica por que é preciso dividir: "Se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessário. Se anjos governassem os homens, não seria necessário nenhum controle, nem externo nem interno, sobre o governo." Como quem governa são homens governando homens, o problema tem duas faces: dar ao governo poder para controlar os governados e, em seguida, obrigá-lo a controlar a si mesmo. A solução de Madison é estrutural — dividir o poder de modo que a ambição de um contrabalance a ambição do outro.

O que Madison veria em Êxodo 18:14

Ele veria um homem que, no versículo 16, diz que faz três coisas: recebe as causas, decide entre as partes e faz conhecer as leis. Decidir é função de juiz; fazer conhecer as leis é quase a função de quem legisla; e Moisés é também quem comanda a marcha e a guerra. Tudo numa cadeira só. Pela régua de O Federalista 47, é o desenho do perigo.

E veria, na leitura de Rashi e da Mekhilta, a imagem que a república americana queria deixar para trás: um homem sentado como rei, um povo inteiro de pé.

Onde a comparação falha

Falha em três pontos, e eles são mais instrutivos que a semelhança.

Primeiro: o texto não desconfia de Moisés. O ponto de partida de Madison é que quem governa não é anjo e vai abusar se puder. O Êxodo não insinua abuso; a palavra que Jetro vai usar no versículo 18 é esgotamento. A preocupação de Jetro é com o corpo do juiz e com a paciência do povo, não com a liberdade do povo diante do juiz.

Segundo: a solução de Jetro não é a de Madison. Em O Federalista 51, Madison insiste em que os membros de cada poder tenham o mínimo possível de participação na escolha dos membros dos outros. Na reforma de Jetro, é Moisés quem escolhe e põe os chefes (Êxodo 18:21, 18:25), e as causas difíceis continuam subindo até ele. O resultado é uma pirâmide com Moisés no alto, não poderes que se vigiam.

Terceiro: há em Êxodo 18 um nível que Madison deixa de fora de propósito. Moisés diz que o povo vem a ele "para consultar a Deus" (Êxodo 18:15). A autoridade dele não se apoia no voto nem no equilíbrio de forças, e sim na pretensão de levar as causas a uma instância acima de todos. O desenho de Madison foi pensado para um mundo em que nenhum governante pode fazer essa pretensão com credibilidade.

O que sobra da comparação é a pergunta. "Por que você se senta sozinho?" é uma pergunta que a teoria política moderna aprendeu a fazer a todo poder, e que Jetro fez primeiro por outros motivos. Madison a fazia por desconfiança; Jetro, por cuidado.

7. Aplicações Práticas

Faça a pergunta antes de oferecer a solução. Jetro poderia ter chegado com o plano pronto. Preferiu perguntar e ouvir. Quem quer corrigir o modo de trabalhar de alguém — um filho, um colega, um chefe — ganha muito em começar por "por que você faz assim?" e esperar a resposta.

O olhar de fora é um presente, mesmo quando incomoda. Moisés estava fazendo o que todos achavam normal. Foi preciso alguém de passagem para notar. Em família, em igreja, em empresa, quem chega de fora vê o que os de dentro deixaram de ver. A reação de Moisés, no versículo seguinte, mostra também que a pergunta pode soar como acusação.

Note a forma, não só o conteúdo. Jetro olhou a cena: quem está sentado, quem está de pé, quanto tempo dura. Em qualquer relação de autoridade, a forma — quem espera, quem fala por último, quem fica de pé — diz coisas que as palavras não dizem.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jetro foi indelicado ao questionar Moisés no primeiro dia?

Ibn Ezra acha impensável que Jetro o tenha repreendido pela postura, dada a posição de Moisés. Mas Jetro não fala como súdito: é o sogro, mais velho, que acolheu Moisés quando ele era fugitivo. Na cultura do texto, o parente mais velho tinha liberdade para perguntar o que um estranho não perguntaria. O texto não registra ofensa; registra a resposta.

Por que Deus não disse a Moisés que se organizasse assim?

O texto não responde. Nos capítulos seguintes, Deus dará a Moisés leis minuciosas sobre tudo, mas a primeira organização dos tribunais vem de um homem de Midiã. Uma leitura possível é que o Êxodo quer mostrar que nem toda boa ordem precisa vir por revelação direta; outra é que a sabedoria de Jetro também é dom de Deus, como o próprio Jetro sugere ao dizer, no versículo 23, "e Deus assim lhe ordenar". As duas são leituras, não afirmações do texto.

Por que ninguém do povo fez essa pergunta antes?

Talvez porque, para quem viveu no Egito, um homem sentado julgando e uma multidão de pé fosse a forma natural da autoridade. Talvez porque quem estava na fila tinha interesse em ser atendido por Moisés, e não por outro. O texto não diz. A pergunta veio de alguém que não precisava de sentença nenhuma.

Jetro falou diante do povo ou em particular?

O texto não informa. O versículo diz só que ele viu e disse. A conversa continua até o versículo 23 sem indicação de testemunhas, o que sugere — sem provar — uma conversa entre os dois.

9. Conexão com Outros Textos

O estrangeiro que aconselha o governante

Gênesis 41:33 — "Portanto, escolha Faraó agora um homem prudente e sábio, e ponha-o sobre a terra do Egito."

José, estrangeiro na corte, aconselha Faraó a pôr alguém para administrar. O estudo de Gênesis 41:33 já desenvolveu o paralelo com Jetro; aqui ele aparece só como lembrança de que o Gênesis e o Êxodo põem conselhos de governo na boca de quem é de fora.

A regra que dava razão a Moisés

Deuteronômio 19:17 — "os dois homens que têm a disputa ficarão de pé diante do SENHOR, diante dos sacerdotes e dos juízes que houver naqueles dias."

É o versículo com que Ibn Ezra defende Moisés: as partes ficam de pé por lei. Se Jetro criticou a postura, criticou uma forma que a própria Torá depois mandará seguir.

O irmão mais velho que chamava Moisés de senhor

Números 12:11 — "E Arão disse a Moisés: 'Ah, meu senhor, não ponha sobre nós este pecado que cometemos por loucura.'"

O segundo argumento de Ibn Ezra: se até Arão se dirigia a Moisés assim, Jetro não o repreenderia por estar sentado.

O rei sentado para julgar

Provérbios 20:8 — "O rei que se assenta no trono do julgamento dispersa todo mal com os seus olhos."

1 Reis 7:7 — "Fez também o pórtico do trono, onde julgava, o pórtico do julgamento; e foi revestido de cedro do chão ao teto."

A imagem do juiz sentado era a imagem do rei. É contra ela que se lê a leitura de Rashi.

O Juiz que fica de pé

Isaías 3:13-14 — "O SENHOR se levanta para pleitear, está de pé para julgar os povos. O SENHOR entra em juízo com os anciãos do seu povo e com os seus chefes."

Na poesia dos profetas, Deus julga de pé. A cena inverte a de Êxodo 18:14: lá, o juiz humano senta e o povo fica de pé; aqui, o Juiz divino se levanta, e quem é chamado a responder são os chefes e os anciãos — os mesmos que, em Êxodo 18, ainda não julgavam.

Outra pergunta sobre "isto que vocês fazem"

Êxodo 12:26 — "E, quando os seus filhos lhes perguntarem: ‘Que serviço é este que vocês fazem?’"

A Torá prevê perguntas de quem olha uma prática e não a entende. A do filho sobre a Páscoa pede explicação; a de Jetro sobre o tribunal pede justificativa. As duas começam do mesmo jeito: alguém de fora da prática pergunta o que ela é.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Vendo o sogro de Moisés tudo o que ele fazia pelo povo, disse: “Que é isto que você faz com o povo? Por que você se senta sozinho, e todo o povo fica de pé diante de você desde a manhã até a tarde?”

Texto hebraico

וַיַּרְא חֹתֵן מֹשֶׁה אֵת כָּל־אֲשֶׁר־הוּא עֹשֶׂה לָעָם וַיֹּאמֶר מָה־הַדָּבָר הַזֶּה אֲשֶׁר אַתָּה עֹשֶׂה לָעָם מַדּוּעַ אַתָּה יוֹשֵׁב לְבַדֶּךָ וְכָל־הָעָם נִצָּב עָלֶיךָ מִן־בֹּקֶר עַד־עָרֶב׃

Transliteração

va-yar choten Mosheh et kol-asher-hu oseh la-am, va-yomer: mah-ha-davar ha-zeh asher attah oseh la-am? maddua attah yoshev levaddekha, ve-khol-ha-am nitsav alekha min-boqer ad-arev?

Análise palavra por palavra

וַיַּרְא — va-yar, "e viu". Verbo ra'ah, "ver", na forma que encadeia a narrativa. A ABC o traduz por um gerúndio, "vendo", para ligar a visão à fala na mesma frase.

חֹתֵן מֹשֶׁה — choten Mosheh, "o sogro de Moisés". Desde o versículo 1 o título acompanha o nome; daqui em diante o substitui.

אֵת כָּל־אֲשֶׁר־הוּא עֹשֶׂה — et kol-asher-hu oseh, "tudo o que ele fazia". Oseh é particípio de asah, "fazer": o hebraico usa o particípio para ação em curso e para costume. Jetro não viu um ato; viu uma atividade.

לָעָם — la-am, "pelo povo". A preposição le — "para, a, em favor de" — com artigo e o substantivo "povo". É a preposição que admite os dois sentidos discutidos no item 3: o benefício (fazer pelo povo) e a ação sobre alguém (fazer ao povo). Aparece duas vezes no versículo, e a ABC a traduz de dois modos.

וַיֹּאמֶר — va-yomer, "e disse".

מָה־הַדָּבָר הַזֶּה — mah-ha-davar ha-zeh, "que é isto", literalmente "que é esta coisa". Mah é o pronome interrogativo "que"; ha-davar ha-zeh, "esta coisa", "este assunto". É a primeira vez que davar aparece no diálogo entre os dois, e daqui até o versículo 26 ela não sai mais da conversa.

אֲשֶׁר אַתָּה עֹשֶׂה לָעָם — asher attah oseh la-am, "que você faz com o povo". O pronome attah, "você", é escrito por extenso, o que em hebraico dá ênfase: "que é isto que você está fazendo". O particípio repete o da frase anterior: a fala de Jetro reaproveita as palavras do texto que o descreveu vendo.

מַדּוּעַ — maddua, "por quê". Há dois "por quê" principais no hebraico bíblico: lammah, literalmente "para quê", e maddua. Uma explicação antiga, registrada por Ibn Ezra, entende maddua como "que se sabe", "que razão há", juntando o interrogativo à raiz de "saber". É explicação discutida; o que se observa no uso é que maddua aparece muitas vezes em perguntas que pedem a razão de uma situação estranha, como a de José aos copeiros abatidos (Gênesis 40:7) e a de Moisés diante da sarça que não se consumia (Êxodo 3:3).

אַתָּה יוֹשֵׁב לְבַדֶּךָ — attah yoshev levaddekha, "você se senta sozinho". Yoshev é particípio de yashav, o verbo do versículo 13. Levaddekha vem de bad, "parte, separação", com a preposição le e o sufixo de segunda pessoa: "à parte de você", "você à parte". Em hebraico, "sozinho" é literalmente estar separado dos outros. A palavra volta no versículo 18, também na boca de Jetro: "não pode fazê-la sozinho".

וְכָל־הָעָם — ve-khol-ha-am, "e todo o povo". O kol, "todo", não estava no versículo 13.

נִצָּב — nitsav, "fica de pé". Particípio do verbo natsav na forma nifal (a forma passiva e reflexiva do verbo hebraico). Não é o verbo comum de ficar de pé usado no versículo 13, mas o de quem toma posição e se mantém nela, já estudado em Gênesis 24:13. No versículo 13 o povo "ficou de pé"; na fala de Jetro, está "postado", plantado no lugar. O singular concorda com o coletivo "povo".

עָלֶיךָ — alekha, "diante de você", literalmente "sobre você". A mesma preposição al do versículo 13 ("diante de Moisés"), agora com o sufixo de segunda pessoa.

מִן־בֹּקֶר עַד־עָרֶב — min-boqer ad-arev, "desde a manhã até a tarde". As mesmas palavras do versículo 13, mas sem o artigo. No versículo 13, min-ha-boqer ad-ha-arev, "desde a manhã até a tarde" daquele dia; aqui, min-boqer ad-arev, de manhã a tarde, sem dia determinado. A expressão sem artigo é a forma usada para o que se repete: "de manhã à noite", todos os dias.

As versões antigas

O Targum de Ônquelos traduz "isto" por pitgama, "palavra, assunto" — a mesma ambiguidade de davar transposta para o aramaico. A Septuaginta, no texto que nos chegou, chama o sogro pelo nome, "Iothor" (Jetro), onde o hebraico só diz "o sogro de Moisés" — a tradução grega desfaz aqui o desaparecimento do nome.

11. Conclusão

A primeira conclusão é que o capítulo muda de assunto nesta frase. Até aqui, Jetro era o estrangeiro que ouvia, se alegrava e oferecia sacrifício; daqui em diante é o parente que avalia. O nome dele some e fica o parentesco, e com ele a liberdade de perguntar.

A segunda é que a pergunta deixa em aberto o que exatamente estava errado. O texto põe juntas a postura e a solidão, e os comentaristas se dividiram entre a honra do povo e o cansaço de todos. A divisão não é defeito da leitura: o versículo junta as duas coisas porque, na cena, elas eram uma só — um homem sentado sozinho diante de um povo inteiro de pé.

A terceira é que o problema que Jetro vê é de costume, não de um dia. Ele descreve um modo de funcionar, e por isso o que vai propor não é um alívio para aquela tarde, mas uma mudança de estrutura.

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