E Jetro disse: “Bendito seja o SENHOR, que livrou vocês da mão dos egípcios e da mão de Faraó, que livrou o povo de debaixo da mão dos egípcios.
1. Introdução
Jetro abre a boca, e a primeira coisa que diz é uma bênção: "Bendito seja o SENHOR". É a única vez que a fórmula aparece no livro do Êxodo, e ela sai da boca de um sacerdote de Midiã. Na mesma frase ele repete o verbo "livrar" duas vezes — uma para "vocês", que estão diante dele, outra para "o povo" — e separa a mão dos egípcios da mão de Faraó. Os mestres antigos leram aqui uma vergonha para Israel, que tinha atravessado o mar sem dizer "bendito"; e o Talmude fez desta frase a fonte da bênção que os judeus recitam diante de um lugar onde aconteceu um milagre.
2. Contexto Histórico e Cultural
Uma frase dita por um estrangeiro no deserto virou regra de oração. A Mishná, a primeira grande compilação da lei oral judaica (por volta do ano 200), manda, no tratado Berakhot 9:1: "quem vê um lugar onde foram feitos milagres para Israel diz: Bendito aquele que fez milagres para os nossos pais neste lugar". E acrescenta, na mesma linha: quem vê um lugar de onde foi arrancada a idolatria diz "Bendito aquele que arrancou a idolatria da nossa terra".
O Talmude Babilônico, ao comentar essa lei (Berakhot 54a), pergunta de onde ela vem. A resposta é de Rabi Yochanan, mestre de Tiberíades no século III: deste versículo. "E Jetro disse: Bendito seja o SENHOR, que livrou vocês da mão dos egípcios" — sobre um milagre se diz uma bênção. A bênção pelo milagre, que entrou na vida judaica como obrigação, tem por texto de origem a fala de um midianita.
O Talmude não para aí. Logo em seguida pergunta se a bênção vale só para milagres feitos a um povo inteiro, e responde com casos de gente comum. Um homem caminhava à margem do Eufrates, foi atacado por um leão e escapou; Rava, mestre babilônico do século IV, disse-lhe que, cada vez que passasse por aquele lugar, dissesse "Bendito aquele que me fez um milagre neste lugar". Mar, filho de Ravina, escapou da sede num vale de salgueiros, quando surgiu uma fonte, e de um camelo enfurecido no mercado de Mechoza, quando uma parede se abriu; desde então, ao passar por um dos dois lugares, ele bendizia lembrando os dois milagres. A conclusão dos sábios é que, pelo milagre de muitos, todos bendizem; pelo milagre de um só, bendiz quem foi salvo.
E vem uma lista de lugares de milagre pelos quais se deve dar graças: as passagens do mar, os vaus do Jordão, os ribeiros do Arnom, as pedras de granizo da descida de Bete-Horom, a pedra que Ogue, rei de Basã, quis lançar sobre Israel, a mulher de Ló, a muralha de Jericó — e "a pedra sobre a qual Moisés se sentou quando Josué lutou contra Amaleque". A pedra de Êxodo 17:12, que o texto bíblico deixou no anonimato, entrou na geografia da gratidão.
Esse uso diz algo sobre como a bênção era entendida. "Bendito seja" não é pedido de favor nem fórmula mágica: é a resposta verbal a um bem recebido, dita no lugar e no momento em que o bem se torna presente outra vez. O versículo de Jetro foi escolhido como fonte porque tem os três elementos que a lei exige — a fórmula, o nome de Deus e o milagre nomeado pelo verbo "livrar". A série dos "benditos" que a Bíblia põe na boca de quem não é de Israel está estudada em Gênesis 24:27.
3. Análise Teológica do Versículo
"E Jetro disse"
No versículo anterior Jetro reagiu; aqui ele fala. É a primeira fala dele desde a chegada, quando se anunciou a Moisés (Êxodo 18:6). O texto não diz a quem se dirige. Pelo que vem em seguida — "vocês" — ele fala às pessoas que estão na tenda.
"Bendito seja o SENHOR"
A fórmula não aparece em nenhum outro lugar do Êxodo. Nem na saída, nem no mar, nem no maná alguém diz "Bendito seja o SENHOR". A primeira vez que o livro a registra, ela vem de um sacerdote de Midiã.
A tradição judaica tomou o fato como acusação. Na Mekhilta de Rabi Ishmael (a coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, por volta do século III), tratado Amaleque, seção 3, Rabi Pappias diz: "o texto fala para a vergonha de Israel: havia ali seiscentos mil homens, e nenhum deles se levantou para bendizer o Lugar" — um dos nomes rabínicos de Deus — "até que veio Jetro e bendisse". O Talmude Babilônico repete a sentença em Sanhedrin 94a com uma pequena mudança: a vergonha é "para Moisés e para os seiscentos mil".
O contexto do Talmude é revelador. A sentença de Pappias sobre Jetro vem logo depois de outra, também atribuída a ele, sobre o rei Ezequias: quando o exército assírio de Senaqueribe foi destruído diante de Jerusalém, Ezequias e os seus não cantaram; quem cantou primeiro foi "a terra", e o Talmude cita Isaías 24:16, "desde os confins da terra ouvimos cânticos". Os dois casos são postos lado a lado: um povo recebe uma libertação, não responde, e alguém de fora responde no lugar dele. A leitura é dura, e é de propósito. A Bíblia conhece a crítica: 2 Crônicas 32:25 diz que Ezequias "não correspondeu ao bem que lhe foi feito".
Mas a acusação foi contestada dentro da própria tradição. O Haamek Davar (“Aprofundar a palavra”, comentário de Naftali Tzvi Yehuda Berlin, o Netziv, lituano do século XIX) responde que Moisés e Israel bendisseram, sim: o cântico do mar foi a bênção deles, dita quando a libertação se completou. Jetro apenas disse a bênção "na forma de todo dia". Nessa leitura, a diferença entre Israel e Jetro não é de gratidão, é de gênero: um povo canta um poema; um visitante diz uma frase.
Há uma terceira leitura, que não olha para Israel e sim para o que a palavra afirma. Malbim (Meir Leibush Weisser, rabino e comentarista do século XIX) parte do Salmo 113, onde o nome do SENHOR é "bendito" e "louvado", e o SENHOR é "alto acima de todas as nações". Segundo ele, os povos antigos admitiam uma causa primeira, um deus dos deuses, que merecia louvor; mas não o chamavam de "bendito", porque "bendito" indica a fonte de onde o bem desce ao mundo, e eles pensavam que esse deus supremo tinha entregado o governo do mundo de baixo aos astros. Ao dizer "Bendito seja o SENHOR, que livrou", Jetro afirmaria que o Deus mais alto age aqui embaixo, na história de um povo de escravos. É leitura de um comentarista do século XIX, com vocabulário da filosofia medieval, e precisa ser apresentada como tal. Mas ela acerta numa coisa que está no versículo: a bênção não vem sozinha; vem presa a um verbo de ação.
"que livrou vocês da mão dos egípcios e da mão de Faraó"
Quem são "vocês"? O hebraico tem um pronome plural, e o versículo distingue em seguida "vocês" de "o povo". As respostas são três.
Primeira leitura: "vocês" são Moisés e Arão. É a de Rashbam (Rabi Shmuel ben Meir, França, século XII), de Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, Espanha, século XII), de Sforno (Ovadia Sforno, Itália, século XVI) e de Shadal (Samuel David Luzzatto, Itália, século XIX), que a atribui também a Isaac Abravanel. Os dois irmãos foram, várias vezes, à presença de Faraó para ameaçá-lo com pragas, e saíram vivos. Sforno lê assim as duas mãos: "da mão dos egípcios", que sofreram as pragas, e "da mão de Faraó", cada vez que eles foram adverti-lo. O Haamek Davar acrescenta um detalhe: Moisés e Arão não estavam sujeitos ao barro e ao tijolo; por isso a "mão de debaixo" vem depois, só para o povo. A dificuldade dessa leitura é que Arão ainda não está em cena: só chegará no versículo 12.
Segunda leitura: "vocês" é Moisés junto com todos. É a de Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII): Jetro fala a Moisés e, com ele, a todo o povo, e o milagre maior foi que Faraó não os matou, embora as pragas caíssem sobre o Egito por causa deles. A segunda metade do versículo seria então outro milagre, o da saída para a liberdade.
Terceira leitura: "vocês" são os que estão na tenda. É a do Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX): Jetro fala às pessoas diante dele e depois alarga o círculo para "o povo".
Não é possível decidir. As três leituras explicam por que o versículo diz duas coisas parecidas em seguida.
E há as duas mãos. Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI) as distingue assim: "dos egípcios", um povo duro; "de Faraó", um rei duro. A Mekhilta lê "a mão de Faraó" como a do "grande dragão deitado no meio dos seus rios", o Faraó de Ezequiel 29:3, que dizia "o Nilo é meu, e eu mesmo o fiz". O povo e o rei são duas forças distintas, e Jetro agradece pelo livramento de cada uma.
"que livrou o povo de debaixo da mão dos egípcios"
A terceira menção do livramento muda a preposição. Antes era "da mão"; agora é "de debaixo da mão". O primeiro é ser solto de um aperto; o segundo, sair de um domínio. A tradução aramaica de Ônquelos troca "mão" por "domínio", e Rashi explica que é a mão que os egípcios puseram pesada sobre Israel: a servidão.
Com isso, Jetro repete, sem saber, a promessa que Deus mandou Moisés dizer aos filhos de Israel no Egito: "Eu os tirarei de debaixo das cargas do Egito" (Êxodo 6:6). Lá, Israel não ouviu. Aqui, quem diz a frase é alguém de fora, como coisa já cumprida.
A repetição incomodou cedo. A Septuaginta, a tradução grega feita em Alexandria no século III antes de Cristo, não traduz esta última oração: o versículo grego termina em "da mão de Faraó". Não é possível saber se o tradutor tinha um texto hebraico mais curto ou se cortou o que lhe pareceu repetido. A Vulgata, a tradução latina de Jerônimo, mantém tudo.
Um último detalhe atravessa o versículo inteiro: Jetro nunca diz "nós". Diz "vocês" e diz "o povo". A bênção é de quem está de fora e olha o que aconteceu a outros. Ele bendiz o Deus que livrou Israel sem se incluir entre os livrados — e, no entanto, chama esse Deus pelo nome próprio, sem dizer "o Deus de vocês".
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jetro
O sacerdote de Midiã, sogro de Moisés. Aqui ele fala pela primeira vez depois do relato do genro, e a fala inteira cabe nos versículos 10 e 11.
"Vocês"
Os destinatários diretos da bênção. Moisés certamente; Arão, segundo vários comentaristas, embora o texto só o traga à cena no versículo 12; e talvez quem estava na tenda (item 3).
Faraó e os egípcios
Nomeados como duas "mãos" diferentes: o rei e o povo. O versículo não diz o que aconteceu a eles; diz só que o SENHOR livrou Israel de ambos.
O povo
Israel inteiro, o que esteve "debaixo da mão" dos egípcios na servidão. Jetro o chama "o povo", sem possessivo: não diz "o seu povo", como dirá a Vulgata, que acrescenta "suum".
Rabi Pappias
Mestre da terra de Israel do começo do século II, da geração de Rabi Akiva. A tradição conservou poucas sentenças dele, e duas delas estão ligadas a este versículo e ao rei Ezequias: a da "vergonha" de quem recebe um livramento e não bendiz.
Ezequias
Rei de Judá no fim do século VIII antes de Cristo. Em 701, Jerusalém foi cercada pelo exército assírio de Senaqueribe, e o cerco terminou sem que a cidade caísse (2 Reis 18-19). O Talmude, ao comentar este versículo, compara a falta de cântico de Ezequias depois dessa libertação com o silêncio de Israel antes da bênção de Jetro.
Rabi Yochanan, Rava e Mar, filho de Ravina
Os mestres do Talmude que fazem desta frase a fonte da bênção pelo milagre (item 2). Rabi Yochanan bar Nappacha dirigiu a academia de Tiberíades no século III e é um dos sábios mais citados do Talmude. Rava ensinou em Mechoza, junto ao rio Tigre, no século IV. Mar, filho de Ravina, é da mesma época, e o Talmude conservou dele, entre outras coisas, os dois relatos de livramento pessoal.
5. Pontos de Ensino
1. A bênção vem presa a um fato. Jetro não diz "Bendito seja o SENHOR" e para. Diz "que livrou", e repete o verbo. A fórmula bíblica do louvor tem conteúdo: bendiz-se Deus por alguma coisa que aconteceu.
2. A primeira bênção do Êxodo é de um estrangeiro. Os mestres leram isso como vergonha para Israel; outros responderam que Israel tinha bendito em forma de cântico. As duas posições estão na tradição, e as duas merecem ser ensinadas.
3. O livramento tem mais de um nível. Jetro distingue o perigo imediato — a mão de Faraó, a mão dos egípcios — da condição de servidão, a vida "debaixo da mão". Uma coisa é escapar de um golpe; outra, sair de um domínio.
4. A gratidão pode ser dita por quem não recebeu o benefício. Jetro não estava no Egito e nunca diz "nós". Bendiz por outros. O texto mostra que a resposta a um bem não é exclusiva de quem o recebeu.
5. Uma frase pode virar instituição. A bênção dita pelo midianita tornou-se, no Talmude, a fonte da bênção que se recita nos lugares de milagre — inclusive os milagres de uma só pessoa. A tradição judaica não teve dificuldade em tirar uma regra de oração da boca de um estrangeiro.
6. Aspectos Filosóficos
Pode alguém de fora de uma religião dizer uma oração verdadeira ao Deus dela? E, se pode, o que essa oração precisa conter? O versículo põe as duas perguntas na boca de um sacerdote de Midiã que bendiz o Deus de Israel sem pertencer a Israel.
Joseph Albo (c. 1380-1444), filósofo judeu de Castela e Aragão, escreveu o Sefer ha-Ikkarim (“Livro dos princípios”) depois de participar, em 1413-1414, da Disputa de Tortosa, em que rabinos foram obrigados a defender o judaísmo diante de teólogos cristãos. O livro procura responder a uma pergunta que a disputa tornou urgente: o que é essencial numa lei divina, e o que é particular?
A resposta de Albo, no primeiro livro da obra (capítulo 4), é que toda lei divina — a de Adão, a de Noé, a de Abraão, a de Moisés — repousa sobre três princípios gerais: a existência de Deus, a revelação e a providência, com recompensa e castigo. Tudo o mais deriva desses três ou é próprio de uma lei em particular. Albo mostra os três nas três grandes bênçãos do serviço de Ano Novo: a das realezas (Deus existe e reina), a das lembranças (Deus vê e retribui) e a das trombetas (Deus se revelou no Sinai).
No capítulo 25 do mesmo livro, ele dá um passo que poucos pensadores medievais deram com tanta clareza. Pergunta se pode haver mais de uma lei divina ao mesmo tempo e responde que sim. O Doador é um só, e por isso os princípios gerais são os mesmos para todos; mas os que recebem são diferentes — de temperamento, de terra, de costume —, e por isso os detalhes podem variar. Enquanto Israel tinha a lei de Moisés, diz Albo, os outros povos tinham a lei de Noé, e "não há dúvida de que os outros povos alcançavam a felicidade humana por meio dela", ainda que em grau menor. E cita a sentença dos sábios: os piedosos das nações têm parte no mundo vindouro.
Lida com Albo, a bênção de Jetro é a oração de um homem que está do lado de fora da lei de Moisés — e, se a cena é anterior ao Sinai, a lei de Moisés ainda nem existe. O que ele diz cabe inteiro nos princípios gerais. "Bendito seja o SENHOR" afirma a existência e a grandeza de Deus. "Que livrou vocês" afirma a providência: Deus vê um povo oprimido e age. No versículo seguinte ele acrescentará a retribuição (Êxodo 18:11). Da revelação, o terceiro princípio, Jetro não diz nada. Não há na frase um rito, um mandamento, uma data — nada do que Albo chamaria de particular. É a oração possível a quem tem os princípios e não tem a lei.
Isso ilumina, por outro ângulo, a acusação de Rabi Pappias (item 3). Os seiscentos mil tinham mais do que Jetro: tinham o Deus dos pais, a promessa, os sinais vistos com os próprios olhos. Albo diria que quem tem o mais também tem o menos — e que, no entanto, o menos foi dito primeiro por quem só tinha o menos. A vergonha de que falam os mestres não é a de Israel ter recebido pouco, mas a de ter recebido muito e não ter dito o essencial.
O limite é o de sempre. Albo não comentou este versículo no Sefer ha-Ikkarim, até onde foi possível conferir, e a sua tese das duas leis é uma construção do século XV, não uma doutrina do Êxodo. O texto não explica em que condição Jetro bendiz — se como prosélito, como aliado ou como sacerdote de outro deus que reconhece este. O que Albo oferece é uma moldura em que a pergunta deixa de ser escandalosa: uma oração pode ser verdadeira sem estar dentro da lei particular de quem a ouve.
7. Aplicações Práticas
Dizer em voz alta. O que os mestres cobraram de Israel não foi falta de sentimento, foi falta de palavra. Agradecer em silêncio é possível; mas o versículo mostra que a bênção dita, com o fato nomeado, é a que fica e ensina.
Voltar ao lugar. A prática que o Talmude tirou deste versículo é concreta: quem foi salvo de alguma coisa num lugar diz uma bênção quando passa ali de novo. A lembrança presa a um lugar — a estrada do acidente evitado, o hospital da cura — é uma forma antiga e sóbria de gratidão.
Agradecer pelo bem dos outros. Jetro não diz "nós". Bendiz por um livramento que não foi dele. Alegrar-se e agradecer pelo que aconteceu de bom a outras pessoas, sem precisar estar entre os beneficiados, é uma possibilidade que o versículo deixa aberta.
Distinguir o susto da libertação. Sair de um perigo e sair de uma condição são coisas diferentes, e Jetro as nomeia separadamente. Quem sai de uma situação de abuso, de dívida ou de dependência pode reconhecer os dois livramentos — o do golpe que não veio e o do domínio que acabou.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
"Bendito seja o SENHOR" é um desejo ou uma afirmação?
O hebraico não tem verbo na frase: diz literalmente "bendito o SENHOR". O português precisa escolher entre "bendito seja" (desejo, louvor) e "bendito é" (constatação). Ibn Ezra entende a palavra como adjetivo, o que favorece a constatação; a tradição litúrgica a usa como louvor. A ABC escolhe "seja", que é a forma corrente das bênçãos em português. As duas leituras são possíveis, e a diferença entre elas é real: uma reconhece o que Deus é, a outra deseja que ele seja reconhecido.
Por que Jetro diz "o SENHOR" e não "o Deus de vocês"?
O servo de Abraão diz "o SENHOR, o Deus do meu senhor Abraão" (Gênesis 24:27). Raabe dirá "o SENHOR, o Deus de vocês" (Josué 2:11). Jetro usa o nome próprio sozinho, sem dizer de quem ele é Deus. Pode ser só a forma curta da fórmula. Pode ser também que, para Jetro, depois do relato, o nome já não precisasse de explicação. O texto não diz, e a pergunta sobre o que Jetro sabia do SENHOR antes de ouvir Moisés pertence ao versículo seguinte.
O Talmude se incomodou em tirar uma regra de oração da boca de um estrangeiro?
Não há sinal disso na passagem. Rabi Yochanan cita o versículo como prova, e a discussão segue sobre outro ponto — se a bênção vale para milagres individuais. A origem da frase não é comentada. Para os mestres, o que importava era que a Torá a registrou, e não quem a disse.
Se Israel tivesse dito "bendito" antes, a acusação de Pappias cairia?
Provavelmente sim, e é por isso que o Haamek Davar responde com o cântico do mar. A discussão depende do que se aceita como bênção: só a fórmula com a palavra "bendito", ou qualquer louvor. O texto bíblico não decide. Ele registra o cântico de Israel e a bênção de Jetro, e não os compara.
9. Conexão com Outros Textos
O outro sacerdote de fora que bendiz
Gênesis 14:19-20 — "e abençoou Abrão, dizendo: 'Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, dono dos céus e da terra; e bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os seus inimigos nas suas mãos.' E Abrão lhe deu o dízimo de tudo."
Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote, bendiz a Deus por uma vitória, com a mesma estrutura: "bendito" + "que" + o feito. Os dois são sacerdotes de fora da família de Israel, os dois falam depois de uma libertação, e os dois aparecem com pão — Melquisedeque traz pão e vinho; com Jetro se comerá pão dois versículos adiante (Êxodo 18:12).
A promessa que Jetro repete
Êxodo 6:6 — "Portanto, diga aos filhos de Israel: 'Eu sou o SENHOR. Eu os tirarei de debaixo das cargas do Egito, os livrarei da escravidão deles e os resgatarei com braço estendido e com grandes juízos.'"
O "de debaixo" de Êxodo 6:6 é o mesmo de Êxodo 18:10, e o verbo "livrar" também. O que Deus prometeu e Israel não quis ouvir (Êxodo 6:9), Jetro diz como cumprido.
Êxodo 14:30 — "Assim o SENHOR salvou Israel naquele dia da mão dos egípcios; e Israel viu os egípcios mortos na praia do mar."
O relato do mar usa outro verbo, "salvar". Jetro, que não viu, resume o mesmo acontecimento com o verbo da promessa.
A bênção com o feito nomeado
Salmo 124:6-7 — "Bendito seja o SENHOR, que não nos entregou como presa aos dentes deles. A nossa vida escapou como um pássaro do laço dos caçadores; o laço se rompeu, e nós escapamos."
A mesma forma, agora na boca de Israel e no plural: "nos". O salmo diz o que Jetro não podia dizer.
1 Reis 10:9 — "Bendito seja o SENHOR, o seu Deus, que se agradou de você para o pôr no trono de Israel."
A rainha de Sabá, outra estrangeira, bendiz o SENHOR depois de ver o que ouvira dizer. Diferente de Jetro, ela diz "o seu Deus".
O silêncio que os mestres compararam ao de Israel
2 Crônicas 32:25 — "Mas Ezequias não correspondeu ao bem que lhe foi feito, porque o seu coração se exaltou; por isso veio ira sobre ele, sobre Judá e sobre Jerusalém."
O texto bíblico que dá base à acusação de Pappias contra Ezequias, que o Talmude põe ao lado da bênção de Jetro.
Isaías 24:16 — "Desde os confins da terra ouvimos cânticos: 'Glória ao justo!'"
O verso que o Talmude usa para dizer que "a terra" cantou antes de Ezequias.
A mão de Faraó
Ezequiel 29:3 — "Assim diz o Senhor DEUS: Eis que estou contra você, Faraó, rei do Egito, o grande dragão deitado no meio dos seus rios, que diz: 'O meu rio é meu, eu o fiz para mim.'"
O texto que a Mekhilta lê por trás de "da mão de Faraó": a mão de que Israel foi livrado era a de um rei que se dizia criador do próprio rio.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E Jetro disse: “Bendito seja o SENHOR, que livrou vocês da mão dos egípcios e da mão de Faraó, que livrou o povo de debaixo da mão dos egípcios.
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר֮ יִתְרוֹ֒ בָּר֣וּךְ יְהוָ֔ה אֲשֶׁ֨ר הִצִּ֥יל אֶתְכֶ֛ם מִיַּ֥ד מִצְרַ֖יִם וּמִיַּ֣ד פַּרְעֹ֑ה אֲשֶׁ֤ר הִצִּיל֙ אֶת־הָעָ֔ם מִתַּ֖חַת יַד־מִצְרָֽיִם׃
Transliteração
va-yomer Yitro: barukh YHWH, asher hitsil etkhem mi-yad Mitsrayim u-mi-yad Par'oh, asher hitsil et-ha-am mi-tachat yad-Mitsrayim.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמֶר יִתְרוֹ — va-yomer Yitro, "e Jetro disse".
O verbo comum de dizer, na forma que encadeia a narrativa. Nada na forma indica a quem ele fala; o destinatário só aparece no pronome "vocês".
בָּרוּךְ — barukh, "bendito".
Da raiz b-r-k. Tem a forma de um particípio passivo da conjugação simples, como shamur, "guardado", de shamar, "guardar". Ibn Ezra dedicou ao seu comentário deste versículo uma discussão gramatical longa sobre essa palavra. O argumento dele: na conjugação simples, a raiz b-r-k não significa "abençoar", e sim "ajoelhar-se" (como em 2 Crônicas 6:13, "ajoelhou-se"), um verbo que não tem passivo. Logo, barukh não seria "abençoado por alguém", mas um adjetivo, "bendito", que descreve um estado. Ibn Ezra rejeita a explicação de Jonas ibn Janach, gramático do século XI, que a tomava como adjetivo da forma intensiva, e mostra que as formas berukh (Gênesis 24:31) e berukhim (Salmo 115:15) se comportam como as da conjugação simples.
A questão tem consequência para o sentido. Se barukh é adjetivo, a frase hebraica, que não tem verbo, diz "bendito [é] o SENHOR" — uma constatação. A tradição de oração a entende como louvor, "bendito seja". A Septuaginta usa aqui eulogētos, um adjetivo grego, e não um particípio, o que está do lado de Ibn Ezra. A ABC escolhe "seja", a forma habitual das bênçãos em português (item 8).
יְהוָה — YHWH, "o SENHOR".
O nome próprio de Deus, que a ABC traduz por "SENHOR". Na boca de Jetro vem sozinho, sem "o Deus de".
אֲשֶׁר הִצִּיל אֶתְכֶם — asher hitsil etkhem, "que livrou vocês".
Asher, "que", introduz o motivo da bênção. Hitsil é o perfeito de natsal na forma causativa, "fazer escapar, livrar" — o verbo estudado em Êxodo 2:19. Etkhem é a marca do objeto direto com o sufixo da segunda pessoa do plural masculino, "vocês". O plural é o ponto de partida da discussão sobre quem são "vocês" (item 3).
מִיַּד מִצְרַיִם וּמִיַּד פַּרְעֹה — mi-yad Mitsrayim u-mi-yad Par'oh, "da mão dos egípcios e da mão de Faraó".
Mi-yad, "da mão de", duas vezes, ligadas por u-, "e". A repetição da preposição separa as duas forças: não "da mão dos egípcios e de Faraó", mas "da mão dos egípcios e da mão de Faraó". Par'oh é o título egípcio do rei, que em egípcio significava "casa grande", o palácio, e passou a designar quem morava nele.
אֲשֶׁר הִצִּיל אֶת־הָעָם — asher hitsil et-ha-am, "que livrou o povo".
O mesmo verbo, na mesma forma, com outro objeto: ha-am, "o povo", com artigo e sem possessivo.
מִתַּחַת יַד־מִצְרָיִם — mi-tachat yad-Mitsrayim, "de debaixo da mão dos egípcios".
Mi-tachat junta min, "de", e tachat, "debaixo de". É a preposição de quem sai de sob um peso. A mesma combinação aparece na promessa de Êxodo 6:6 e 6:7, "de debaixo das cargas do Egito", e em Êxodo 17:14, onde Deus apagará a memória de Amaleque "de debaixo do céu". A tradução aramaica de Ônquelos verte "mão" aqui por marvat, "domínio, autoridade", e assim interpreta a imagem.
Esta oração inteira falta na Septuaginta, que termina o versículo em "da mão de Faraó". A Vulgata a conserva e usa para ela um verbo latino diferente do da primeira oração: liberavit vos, "libertou vocês", e depois eruit populum suum, "arrancou o seu povo". O hebraico usa o mesmo verbo duas vezes; o latim preferiu variar.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, a primeira conclusão é que a bênção bíblica tem conteúdo: Jetro não bendiz a Deus em geral, bendiz por um feito, e repete o verbo desse feito. Foi por ter a fórmula, o nome e o fato que a frase pôde servir de modelo para a bênção pelo milagre.
A segunda é que a posição de quem fala está gravada na gramática. Jetro diz "vocês" e "o povo", nunca "nós". O versículo mostra um estrangeiro dizendo a coisa certa sobre o Deus de outro povo sem fingir pertencer a ele. Daí a força da acusação dos mestres a Israel e também a força da resposta: o que faltou a Israel, se faltou, foi a frase, não o reconhecimento.
A terceira é que o livramento aparece em camadas. Ser tirado de uma mão e ser tirado de debaixo de uma mão não são a mesma coisa, e Jetro, que ouviu a história inteira, nomeia as duas. A frase que a Septuaginta achou repetida é a que distingue o perigo da servidão.













