Elas responderam: “Um egípcio nos livrou das mãos dos pastores; ele ainda tirou água para nós e deu de beber ao rebanho.”
1. Introdução
Três palavras deste versículo mudam a leitura do capítulo inteiro: "um egípcio nos livrou".
Sete midianitas contam ao pai o que aconteceu no poço, e chamam o homem que as socorreu pelo nome do povo dele. Não dizem o nome próprio — não perguntaram. Não dizem "um estrangeiro", nem "um homem", nem "alguém que estava ali". Dizem egípcio.
Três pontos merecem exame, e o primeiro é o maior.
O primeiro é a identificação. O hebraico usa aqui duas palavras, "homem egípcio", e são exatamente as duas palavras com que o texto descreveu, oito versículos antes, o homem que Moisés matou em Êxodo 2:11. A mesma expressão serviu para a vítima e serve agora para o matador. O Êxodo não faz o comentário, não corrige as moças e não volta ao assunto. Ninguém, na cena, diz que elas se enganaram.
O segundo é onde isso deixa Moisés. Cinco versículos atrás, um hebreu lhe perguntou "quem o pôs como chefe e juiz sobre nós?" e recusou-lhe qualquer posição entre os seus. Aqui, midianitas o leem como sendo do outro lado. Um povo não o aceita; o outro o entrega ao primeiro. E quem diz isso não é o texto: são terceiros, de passagem, sem intenção nenhuma. É preciso deixar essa questão em aberto, porque o Êxodo a deixa. Este capítulo não conta que Moisés tenha esclarecido, corrigido ou concluído coisa alguma sobre quem ele é.
O terceiro é o que elas escolhem contar. Foram perguntadas sobre o horário e respondem falando de um homem. E, dentro do relato, a parte a que dão mais palavras não é o socorro contra os pastores: é a água. Em hebraico, essa é a única parte enfatizada da fala delas — o item 10 mostra como.
O item 2 examina como se reconhecia a origem de uma pessoa no mundo antigo, e o que "egípcio" significava para quem vivia em Midiã. O item 6 trata da questão que o versículo levanta: o que acontece com alguém que é nomeado pelos outros, e nomeado como sendo de um lado ao qual ele não foi admitido.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como se reconhecia a origem de alguém
Não havia documento, não havia sotaque registrado em papel, não havia como conferir. A origem de um desconhecido era lida no corpo dele, na roupa e na fala — e os comentaristas clássicos concordam nisso.
Ellicott (comentarista inglês do século XIX) supõe que as moças concluíram "pela roupa e pela aparência, talvez até pela fala". Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) resume: "julgaram pelo traje ou pela língua". Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) acrescenta uma possibilidade que o texto não exclui — que o próprio Moisés tenha dito quem era. Nenhum dos três tem base no versículo para o que propõe; são reconstituições razoáveis, e vale dizê-lo.
O que se sabe do lado egípcio ajuda a dar corpo à cena. Homens de posição no Egito usavam linho branco, mantinham o corpo depilado e a cabeça raspada, muitas vezes sob peruca, e essa aparência contrastava fortemente com a dos povos vizinhos. A questão da barba e do barbear-se como marca de fronteira cultural está desenvolvida no estudo de Gênesis 41:14, e não será reaberta.
Convém uma ressalva de método. Boa parte do que se afirma sobre "como os egípcios se vestiam" vem de pintura de túmulo e de relevo de templo, que são representações convencionais, feitas para durar e para distinguir — não retratos. A arte egípcia desenha estrangeiros com traços e roupas fixos justamente porque precisa que sejam reconhecíveis. Usar isso como fotografia é erro comum.
O que "egípcio" significava em Midiã
Aqui está o ponto que muda a leitura da palavra. Para quem vivia na região, "egípcio" não era um sinônimo vago de forasteiro. Era o nome de um Estado que operava por perto.
O estudo de Êxodo 2:15 trata das expedições reais egípcias ao Sinai e do alcance administrativo que elas implicam; some-se a isso o comércio de longa distância que atravessava a região rumo ao delta. Um midianita sabia o que era um egípcio do mesmo modo que sabia o que era uma caravana: por contato.
Isso dá à frase das moças um peso que a tradução não mostra. Elas não estão dizendo "um sujeito de fora". Estão dizendo que o homem que as socorreu pertence ao povo do império — e dizem isso sem nenhuma carga aparente, como quem informa uma característica.
Chamar alguém pelo nome do povo
Identificar uma pessoa por origem, e não por nome, é o procedimento normal dos textos antigos quando se fala de um desconhecido. A Bíblia hebraica faz isso o tempo todo, e faz com a mesma expressão que aparece aqui — Gênesis 39:1 apresenta Potifar como "homem egípcio", e o estudo daquele versículo examina a fórmula.
Vale notar o efeito prático, que não é de intenção: quem é nomeado assim entra na conversa como exemplar de um grupo, e não como indivíduo. Ninguém pergunta o nome dele. No versículo seguinte, o próprio Reuel se refere a ele como "o homem". Em toda a passagem de Midiã, nenhuma personagem chama Moisés pelo nome — só o texto o faz.
A forma do relato
A resposta das moças tem a estrutura de um depoimento: quem fez, o que fez, para quem fez. Primeiro o agente, depois a ação principal, depois as ações acessórias. É o formato em que se relatava um acontecimento a quem tinha de decidir alguma coisa a respeito — e Reuel, de fato, decide no versículo seguinte.
Vale reparar no que essa forma deixa de fora. Não há circunstância, não há explicação, não há avaliação e não há pedido. Elas informam. O que fazer com a informação é problema do pai.
3. Análise Teológica do Versículo
"Elas responderam"
É a primeira vez que as sete falam. Atravessaram quatro versículos trabalhando, sendo expulsas, sendo socorridas e voltando para casa, sempre em silêncio. A primeira frase delas é sobre outra pessoa.
E não responde a pergunta que foi feita. Reuel quis saber por que chegaram cedo; elas contam quem apareceu no poço. É verdade que a segunda coisa explica a primeira — mas elas não fazem a ligação, não dizem "chegamos cedo porque", não mencionam o tempo em nenhum momento. Saltam direto para o homem.
Isso não é falha de comunicação: é a indicação de qual foi, para elas, o acontecimento do dia.
"Um egípcio nos livrou"
Aqui está o achado do capítulo, e ele cabe em duas palavras hebraicas: ish mitsri ("homem egípcio").
Comece pelo mais simples. Elas classificam. Não dizem "um homem", que seria a informação mínima; dizem de que povo esse homem é. E não dizem o nome dele, porque não sabem — ninguém perguntou nada a ninguém no poço.
Agora o dado que dá o peso. Essas mesmas duas palavras, na mesma ordem, aparecem em Êxodo 2:11, oito versículos atrás, para descrever o homem que Moisés viu espancando um hebreu e que ele matou. O egípcio morto na areia e o homem que salvou as sete moças são apresentados pelo texto com a expressão idêntica.
Convém dizer com precisão o que isso é e o que não é. Não é um trocadilho, não é uma pista, não é uma acusação: é a mesma fórmula corrente aplicada duas vezes no mesmo capítulo. O Êxodo não sublinha a coincidência, não a comenta e não constrói nada sobre ela. Mas ela está lá, e o leitor que percorre o capítulo em ordem encontra a segunda ocorrência com a primeira ainda na cabeça.
E há o que ninguém faz. Ninguém corrige as moças. Reuel não pergunta se elas têm certeza. Moisés, que estará na casa três versículos adiante, não desmente. O texto, que sabe quem ele é, não intervém com um "mas ele não era egípcio". A identificação fica de pé, sem contestação, até o fim do capítulo.
Ponha isso ao lado do que aconteceu no Egito. Em Êxodo 2:11 Moisés "saiu para junto dos seus irmãos" — o texto usa a palavra do parentesco, duas vezes. Em Êxodo 2:14 um desses irmãos lhe pergunta "quem o pôs como chefe e juiz sobre nós?", e a pergunta o exclui: ele não tem posição ali. Aqui, midianitas o situam do outro lado.
O resultado é que o capítulo põe a identificação de Moisés na boca de terceiros, duas vezes, e as duas vezes ela é negativa em relação a onde ele se colocou. Nenhum dos dois grupos o reconhece como sendo dos seus.
É preciso parar exatamente aqui, e dizer por quê. O Êxodo 2 não resolve isso. Não conta que Moisés tenha explicado quem era, não descreve reflexão dele sobre o assunto, não registra descoberta nenhuma, e não avalia se as moças acertaram ou erraram. A tentação de fechar a questão — de escrever que ele "descobriu a própria identidade" ou que "assumiu o seu povo" — é forte, e o texto não a autoriza. O que ele faz é mostrar um homem sendo nomeado pelos outros, e seguir adiante.
Uma última precisão, e ela importa. Elas dizem egípcio. Traduzir ou parafrasear por "um estrangeiro", como às vezes se faz para suavizar, apaga o versículo: "estrangeiro" seria uma constatação de que ele não é dali, e é justamente o que a frase não diz. Ela diz de onde ele é.
"das mãos dos pastores"
A expressão é uma fórmula fixa do hebraico: estar "na mão de" alguém é estar sob o poder dele, e ser livrado "da mão de" é ser tirado desse poder.
E é aqui que este versículo faz a sua ligação mais longa. Em Êxodo 18:10, dezesseis capítulos adiante, o pai destas moças dirá: "Bendito seja o SENHOR, que livrou vocês da mão dos egípcios e da mão de Faraó." O verbo é o mesmo; a fórmula é a mesma; e a mão de que se é livrado passou a ser a do Egito.
Nesta casa, portanto, a primeira vez que alguém é dito livrado "da mão de" alguém, quem livra é um egípcio. A segunda vez, o que se celebra é a libertação da mão dos egípcios. O Êxodo não faz a observação, e o leitor que só passa por um dos dois lugares nunca a encontra.
"ele ainda tirou água para nós"
Repare no "ainda". Elas apresentam a água como um acréscimo, algo além do esperado. E, no hebraico, é esta a única parte do relato que vem enfatizada — o verbo aparece duplicado, recurso que a língua usa para reforçar, e a nossa tradução resolveu com "ainda". O item 10 trata da construção.
O desequilíbrio é notável. O socorro contra os pastores é dito em três palavras; a água ocupa o resto da frase e leva a ênfase. Para quem içava água à mão todos os dias, e voltava tarde por isso, o que ficou do dia não foi ter sido defendida: foi o serviço feito.
Vale também notar quem elas põem como sujeito. "Ele tirou" — não "ele nos ajudou a tirar". O trabalho inteiro passou para o lado dele.
"e deu de beber ao rebanho"
O relato termina no rebanho, e não nelas nem nele.
É o mesmo verbo que o texto usou em Êxodo 2:16, quando elas foram ao poço para dar de beber ao rebanho do pai, e em Êxodo 2:17, quando Moisés o fez. Três ocorrências em quatro versículos, sempre trocando de sujeito — e a última na boca delas, confirmando ao dono do rebanho que a obrigação do dia foi cumprida.
Repare no que falta na frase inteira. Elas não dizem o nome dele, não dizem que ele estava sozinho, não dizem que parecia cansado ou perdido, não dizem que agradeceram, não dizem onde ele ficou. E não dizem que o convidaram — o que é exatamente o que Reuel vai cobrar delas no versículo seguinte, com a pergunta "por que vocês deixaram o homem lá?".
4. Pessoas, Lugares e Eventos
As sete filhas
Falam pela primeira e única vez no capítulo. Continuam sem nome — só Zípora será nomeada, em Êxodo 2:21, e por causa do casamento.
A fala delas é curta e faz três coisas: identifica o homem por povo, relata o socorro e detalha a água. É por causa dessa fala que Reuel manda chamá-lo, e é por causa desse chamado que Moisés acaba morando em Midiã. Sete mulheres anônimas dizem uma frase, e o resto do livro depende dela.
Moisés
Presente na cena que se relata, ausente da cena em que se relata. Ele continua no poço — é o que o versículo 20 deixa claro, quando Reuel pergunta onde ele está.
Aqui ele é objeto de descrição alheia, e é a primeira vez no Êxodo em que isso acontece de modo tão completo: alguém diz quem ele é sem que ele esteja presente, sem que tenha se apresentado e sem que ninguém o corrija. Vale registrar que, em toda a parte midianita deste capítulo, nenhuma personagem o chama pelo nome. As moças dizem "um egípcio"; Reuel dirá "o homem"; e Êxodo 2:21 falará dele como "Moisés" pela voz do texto, não das personagens.
Os pastores
Reaparecem só como referência: "as mãos dos pastores". A expressão, mais do que os identificar, mede o poder que tinham sobre a situação — estar na mão de alguém, em hebraico, é estar sob o domínio dele.
Reuel
Ouve a resposta e, no versículo seguinte, reage a ela — não à parte do egípcio nem à parte da água, mas ao fato de o homem ter ficado para trás. Sobre o nome dele e o problema que ele levanta, ver o estudo de Êxodo 2:18.
"Egípcio" como designação
Nome de povo, usado como identificação de um indivíduo desconhecido. É procedimento normal na Bíblia — o mesmo termo é aplicado a Potifar em Gênesis 39:1 e ao homem que Moisés mata em Êxodo 2:11.
Nada no texto informa em que se basearam as moças. As explicações dos comentaristas estão no item 2, e todas são reconstituições.
O que aconteceu antes
Êxodo 2:11-14 narra os dois dias de Moisés no Egito: o assassinato do egípcio, a briga entre dois hebreus e a pergunta que o desautorizou. Êxodo 2:15 traz a fuga e a chegada a Midiã, e Êxodo 2:16-17, o poço, a expulsão e o socorro. Este versículo é a versão que as socorridas dão do episódio a quem não estava lá.
5. Pontos de Ensino
Quem descreve alguém raramente descreve o que ele é
As sete não mentem e não têm má intenção. Elas dizem o que viram: roupa, aparência, talvez fala. E acertam tudo, menos o essencial.
O ponto de ensino é sobre o alcance de qualquer identificação feita de fora. Ela registra sinais, e sinais são reais; o que ela não alcança é a história da pessoa. O Êxodo mostra isso sem denunciar ninguém: as moças fizeram o que qualquer pessoa faria, e o resultado é uma frase verdadeira em tudo o que afirma e errada no que dá a entender.
O texto deixa a identificação de pé
Nenhuma correção aparece. Nem das personagens, nem do próprio Êxodo, que sabe quem Moisés é e podia intervir com uma frase.
Isso é raro e vale reter como método de leitura. Quando a Bíblia hebraica quer corrigir a fala de uma personagem, ela corrige. Quando não corrige, o silêncio não significa concordância — significa que o texto está deixando o dado à mostra e passando adiante. Preencher esse silêncio é trabalho do leitor, e ele precisa saber que está fazendo isso.
Rejeitado por uns, contado como sendo dos outros
Em Êxodo 2:14 um hebreu recusou a Moisés qualquer posição entre os seus. Aqui, midianitas o situam do lado do Egito. As duas coisas acontecem em cinco versículos.
O ensino não é uma lição sobre pertencimento, e o capítulo não a oferece: é a constatação de que a posição de uma pessoa entre os grupos pode ser decidida por outros, sem que ela participe, e de que os dois veredictos podem ser incompatíveis entre si sem que nenhum seja revisto.
O que se agradece nem sempre é o que se fez de mais difícil
Moisés enfrentou um grupo de homens sozinho. Elas contam isso em três palavras e gastam o resto da frase na água.
Não há ingratidão nisso. Para quem carrega corda todo dia, o trabalho feito é o benefício concreto; o enfrentamento durou um instante. Quem ajuda alguém costuma medir o próprio esforço por outro critério que o de quem foi ajudado, e as duas contas são legítimas.
Uma frase de sete mulheres anônimas decide o resto
Sem esta fala, Reuel não manda chamar ninguém, Moisés não entra na casa, não há casamento, não há rebanho para pastorear, não há caminhada até Horebe em Êxodo 3:1.
O Êxodo não comenta a importância do que elas dizem, e nunca mais lhes dá voz. É um dado sobre como esse livro distribui as consequências: as decisões grandes costumam depender de gestos pequenos de gente que o texto não considera importante o bastante para nomear.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta um problema que a filosofia política do século XX tratou com precisão: o que acontece com alguém cuja identidade é decidida por terceiros, e decidida de modos que não se conciliam.
O autor que descreveu isso melhor é Albert Memmi, escritor e ensaísta tunisiano, no livro Portrait du colonisé ("Retrato do colonizado", publicado em 1957 e antecedido, no mesmo volume, por um "Retrato do colonizador"). Memmi escrevia sobre o Magreb sob domínio francês — situação histórica que não tem nada a ver com Midiã, e a distância precisa ficar clara antes de qualquer aproximação. O que se toma dele não é a analogia entre as duas épocas: é a descrição de um mecanismo.
A marca do plural. Memmi dá esse nome a um traço que observou em toda parte: o colonizado nunca é caracterizado de modo individual; ele é dissolvido numa coletividade anônima. Não se diz "esta pessoa está doente" — diz-se "não se pode contar com eles". O indivíduo desaparece atrás do grupo, e o grupo passa a responder por ele.
A frase deste versículo tem exatamente essa forma. As moças não dizem "um homem que estava sentado ali"; dizem um egípcio. E não há maldade nenhuma na frase — é o ponto de Memmi: o procedimento é automático, funciona sem intenção e é usado por quem descreve de boa-fé. Ninguém pergunta o nome. O nome não é a informação relevante quando a pessoa já entrou na conversa como exemplar de alguma coisa.
Quem não cabe em nenhum dos dois lados. A segunda contribuição de Memmi é biográfica antes de ser teórica, e ele a expõe no prefácio do livro: judeu nascido em Túnis, de língua e cultura francesas, não era nem colonizador nem colonizado no sentido pleno de nenhum dos dois termos. Descreveu-se como uma espécie de mestiço da colonização — alguém que os dois campos podiam recusar e que nenhum reivindicava.
O que ele extrai dessa posição é o que interessa aqui, e é desconfortável: não existe lugar neutro entre dois campos. Quem não é aceito por um não fica flutuando fora do sistema — é atribuído ao outro, por eliminação, por quem precisa classificá-lo para saber como tratá-lo. A não pertença não é um estado; é uma dupla atribuição feita de fora.
O capítulo mostra as duas atribuições, e em pouco espaço. Um hebreu pergunta a Moisés quem o pôs como chefe sobre eles, e com isso o exclui. Midianitas o chamam de egípcio, e com isso o entregam ao lado do qual o primeiro grupo o suspeitava. Nenhuma das duas falas é maldosa; nenhuma das duas é revista; e as duas são ditas por gente que mal o conhece.
Há um limite que Memmi não ultrapassa e que este estudo também não vai ultrapassar. Ele descreve a posição; não a resolve, e desconfia de quem a resolve depressa. É a mesma disciplina que o Êxodo exige aqui: o texto não diz o que Moisés pensou dessa frase, não diz se a ouviu, não registra nenhuma correção e não conclui nada sobre quem ele é. O versículo apresenta uma classificação feita por terceiros e passa adiante.
Fica, por isso, uma pergunta em aberto, e ela é do leitor, não do texto: se a posição de alguém entre os grupos é fixada por quem o descreve, o que resta ao descrito? O capítulo não responde. Mostra apenas que o homem em questão foi jantar na casa dessa gente, e ficou.
7. Aplicações Práticas
Perguntar o nome
Ninguém, no poço, perguntou nada a Moisés. Ele agiu, elas foram embora, e em casa o descreveram pelo que aparentava.
A aplicação é pequena e verdadeira: a diferença entre alguém entrar numa conversa como pessoa ou como categoria costuma estar numa pergunta que ninguém fez. Vale para quem contrata, atende, ensina, recebe. Não é gesto de gentileza — é a única forma de obter uma informação que a aparência não dá.
Descrever com o que se viu, e dizer que foi só isso
As moças relataram sinais reais e tiraram deles uma conclusão que o leitor sabe ser equivocada. Não mentiram nem exageraram; concluíram.
Serve como hábito de linguagem, sobretudo quando se fala de alguém a quem vai decidir algo a respeito dessa pessoa: separar o que se observou do que se supôs. "Parecia egípcio" e "era um egípcio" são frases diferentes, e a segunda é a que produz consequências.
Quando a descrição dos outros não bate com o que se sabe de si
Este é o único ponto em que o versículo toca uma experiência comum, e ele merece cuidado, porque o texto não a comenta.
Ser lido pelos outros como sendo de um grupo ao qual não se pertence — ou não se pertence inteiramente — é situação corrente para quem mudou de país, de classe, de religião ou de meio. O Êxodo não oferece consolo nem solução para isso: não diz que Moisés se explicou, não diz que se resignou, não diz que a frase o feriu. Diz que ele foi chamado para comer e ficou.
O que se pode retirar daí, sem inventar, é modesto: a classificação alheia não precisa ser aceita nem corrigida para que a vida continue. Ela também não some porque a pessoa discorda dela.
Reconhecer o benefício do ponto de vista de quem o recebeu
Elas destacaram a água, e não a coragem. Quem ajuda tende a valorizar o que lhe custou; quem recebe valoriza o que resolveu o problema.
Vale conferir isso antes de se ressentir de um agradecimento que pareceu pequeno: pode ser que a parte agradecida seja, para o outro, a parte que importou.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Moisés se passou por egípcio?
O texto não diz. Não há fala dele nesta cena, não há apresentação, não há mentira registrada e não há desmentido. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) admite a possibilidade de que ele próprio tenha dito que era egípcio; é conjectura, e o comentarista a apresenta como tal.
Vale registrar o que sabemos e o que não sabemos: sabemos que as moças o identificaram assim; não sabemos se ele soube disso, se concordou ou se corrigiu depois. O Êxodo não volta ao assunto.
Então quem Moisés era, afinal?
Esta é a pergunta que o capítulo levanta e recusa responder, e é importante não respondê-la por ele.
O que está no texto: nasceu de pais levitas, foi criado pela filha de Faraó, saiu "para junto dos seus irmãos" hebreus, foi rejeitado por um deles, é chamado de egípcio por midianitas e dará ao filho um nome que significa estrangeiro. Nada disso é conciliado, e o Êxodo 2 não descreve descoberta, decisão nem esclarecimento. Quem afirmar que Moisés "encontrou a sua identidade" neste capítulo estará contando outra história.
Por que elas não dizem o nome dele?
Porque não sabiam. Não houve conversa no poço — Êxodo 2:17 não registra uma única palavra dita por ninguém.
Isso explica também por que o pai, no versículo seguinte, chama Moisés de "o homem": ninguém em Midiã tinha como chamá-lo de outra coisa naquele momento.
Elas erraram, então? Foi um engano?
"Engano" pressupõe que exista uma resposta certa que elas deveriam ter dado, e o capítulo não a fornece. Moisés não é, no Êxodo 2, apresentado como pertencente sem ressalva a nenhum dos dois povos.
Do ponto de vista delas, a identificação era razoável e coerente com o que viam. Do ponto de vista de quem leu o capítulo desde o começo, é incompleta. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e é essa sobreposição que dá ao versículo o peso que ele tem.
Por que o Êxodo não corrige a frase?
Não há resposta demonstrável. Pode ser economia narrativa, pode ser escolha deliberada, pode ser que a questão não parecesse relevante a quem escreveu.
O que se observa é o efeito, e o efeito é verificável: a frase fica de pé, sem contestação, e é a última coisa que o capítulo diz sobre a origem de Moisés antes de ele dar ao filho, em Êxodo 2:22, o nome de estrangeiro.
A palavra hebraica não poderia significar apenas "forasteiro"?
Não. O hebraico tem palavras próprias para estrangeiro e para residente de fora, e não usou nenhuma delas aqui. Usou o nome do povo do Egito, o mesmo que aparece dezenas de vezes no livro para designar os egípcios. Suavizar a tradução para "um estrangeiro" apaga a informação do versículo.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma expressão, oito versículos antes
Êxodo 2:11 — "E viu um egípcio espancando um hebreu, um dos seus irmãos."
O hebraico escreve "homem egípcio", exatamente como neste versículo. A fórmula que descreve o morto é a que descreve o matador.
Gênesis 39:1 — "José foi levado ao Egito, e Potifar, oficial do faraó, capitão da guarda, homem egípcio, o comprou da mão dos ismaelitas."
A mesma expressão, aplicada a um egípcio de verdade. O estudo daquele versículo examina a fórmula.
A rejeição do outro lado
Êxodo 2:14 — "E o homem respondeu: Quem o pôs como chefe e juiz sobre nós?"
A pergunta que lhe nega posição entre os hebreus, cinco versículos antes de midianitas o darem por egípcio.
Êxodo 2:22 — "Ela deu à luz um filho, e Moisés lhe deu o nome de Gérson, dizendo: Sou estrangeiro em terra estrangeira."
É a única frase do capítulo em que Moisés diz alguma coisa sobre a própria condição — e não desmente ninguém.
"Livrar da mão de"
Êxodo 18:10 — "E Jetro disse: Bendito seja o SENHOR, que livrou vocês da mão dos egípcios e da mão de Faraó, que livrou o povo de debaixo da mão dos egípcios."
Quem fala é o pai destas moças. O verbo e a fórmula são os mesmos que elas usam aqui, e a mão de que se é livrado passou a ser a do Egito.
Êxodo 3:8 — "E desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e larga."
A primeira vez em que Deus fala de livrar Israel usa a mesma construção da fala das sete moças.
Ser tomado por outra coisa
Gênesis 42:7 — "E José viu os seus irmãos e os reconheceu; mas fez-se estranho para eles, e falou-lhes asperamente."
Outro hebreu criado no Egito e lido como egípcio por quem o encontra — com a diferença de que ali o disfarce é deliberado, e aqui não há indicação de que seja.
1 Samuel 30:13 — "E Davi lhe disse: De quem você é, e de onde vem? E disse ele: Sou um jovem egípcio, servo de um amalequita."
A pergunta que ninguém fez a Moisés, feita aqui a um desconhecido — e a resposta que ninguém ouviu dele.
O socorro no poço, na versão do texto
Êxodo 2:17 — "Mas vieram os pastores e as expulsaram. Então Moisés se levantou, defendeu-as e deu de beber ao rebanho delas."
Vale comparar as duas versões do mesmo episódio. O texto põe o socorro em primeiro plano; elas põem a água.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Elas responderam: “Um egípcio nos livrou das mãos dos pastores; ele ainda tirou água para nós e deu de beber ao rebanho.”
Texto hebraico
וַתֹּאמַרְןָ אִישׁ מִצְרִי הִצִּילָנוּ מִיַּד הָרֹעִים וְגַם־דָּלֹה דָלָה לָנוּ וַיַּשְׁקְ אֶת־הַצֹּאן
Transliteração
wa-tomarna ish mitsri hitsilanu mi-yad ha-ro'im; we-gam daloh dalah lanu wa-yashq et ha-tson
Análise palavra por palavra
וַתֹּאמַרְןָ — wa-tomarna, "e elas disseram".
Terceira pessoa feminina plural do verbo mais comum da narrativa hebraica. É a quarta forma feminina plural desta cena, depois das três de Êxodo 2:16 — um acúmulo raro na Bíblia, que costuma tratar grupos no masculino.
אִישׁ מִצְרִי — ish mitsri, "um homem egípcio".
Estas são as duas palavras do versículo.
Ish é o termo geral para homem, indivíduo, sujeito. Aparece sem artigo — "um homem", não "o homem" —, o que apresenta a pessoa como desconhecida de quem ouve. É a maneira normal de introduzir alguém que ninguém identificou ainda, e é a mesma construção com que o capítulo começou, em Êxodo 2:1: "um homem da casa de Levi".
Mitsri é a forma que indica pertencimento ao povo do Egito, derivada de Mitsrayim, o nome do país. A forma desse nome tem uma particularidade gramatical discutida, tratada no item 10 do estudo de Gênesis 46:8.
O que importa aqui é o emprego. A construção "homem" seguido do nome de povo é a fórmula hebraica corrente para identificar um desconhecido pela origem, e a Bíblia a usa com frequência. Duas ocorrências dela estão a oito versículos de distância neste mesmo capítulo: em Êxodo 2:11, o homem que espancava o hebreu e que Moisés matou é ish mitsri; aqui, quem salvou as sete moças é ish mitsri.
Não há nenhum sinal, no hebraico, de que a repetição seja intencional — é uma fórmula frequente, e coincidências assim acontecem. O que se pode afirmar é que a expressão é literalmente a mesma, e que as duas ocorrências estão no mesmo capítulo.
Registre-se, por fim, o que o texto não escreveu. O hebraico dispõe de ger, o estrangeiro residente, e de nokhri, o forasteiro de fora — duas palavras que diriam "alguém que não é daqui" sem dizer de onde é. Nenhuma delas foi usada. As moças nomearam o povo.
הִצִּילָנוּ — hitsilanu, "livrou-nos".
Verbo natsal na forma causativa hifil, com sufixo de primeira pessoa plural. A imagem de base da raiz é a de arrancar alguma coisa das mãos de alguém, tirar à força de dentro de um domínio — daí "livrar", "arrebatar", "salvar de".
Vale a comparação com o versículo 17. Ali, quem descreve a ação é o texto, e o verbo escolhido é yasha, salvar. Aqui, quem descreve são as moças, e o verbo é outro. Não se trata de sinonímia perfeita: yasha tende a dizer socorrer, dar vitória, garantir a segurança; natsal insiste na retirada de dentro de um poder alheio. A diferença é pequena e é real, e mostra que o Êxodo não copia a própria frase quando põe um episódio na boca de uma personagem.
מִיַּד — mi-yad, "da mão de".
Preposição composta com yad, mão. É fórmula fixa: estar "na mão" de alguém é estar sob o poder dessa pessoa, e ser livrado "da mão" dela é sair desse domínio. A expressão não descreve contato físico nenhum.
A combinação exata — natsal mais mi-yad — é uma das assinaturas do livro do Êxodo. Ela reaparece em Êxodo 3:8, quando Deus diz que desceu "para livrá-lo da mão dos egípcios", e em Êxodo 18:10, na boca do pai destas moças: "que livrou vocês da mão dos egípcios e da mão de Faraó". O item 3 examina o que decorre disso.
וְגַם — we-gam, "e também".
Partícula de acréscimo. Ela marca o que vem a seguir como algo além do que já foi dito — não uma segunda informação qualquer, mas uma que se soma e supera. A nossa tradução usou "ainda", que faz o mesmo trabalho em português.
דָּלֹה דָלָה — daloh dalah, "tirar tirou".
Aqui está a construção mais interessante do versículo. O hebraico repete o mesmo verbo duas vezes seguidas, primeiro na forma nominal invariável e depois na forma conjugada. É um recurso comum na língua e serve para reforçar: ao pé da letra, algo como "tirar água, ele tirou mesmo".
O verbo é dalah, o mesmo de Êxodo 2:16 — içar água de poço com corda e balde, e não "pegar água" em geral.
Dois pontos merecem registro.
O primeiro é que esta é a única ênfase de toda a fala delas. O socorro contra os pastores vem em construção simples; a água vem dobrada. O que elas quiseram sublinhar ao pai não foi terem sido defendidas — foi o serviço ter sido feito.
O segundo é a tradução. O português não tem equivalente para essa duplicação: "tirar tirou" existe na fala coloquial, mas destoaria do registro do texto, e "certamente tirou" soa a juramento. A nossa ABC resolveu com o advérbio "ainda", que transmite o acréscimo e boa parte da ênfase. É escolha nossa, e o custo é que a marca formal desaparece — o leitor não vê que o hebraico grifou essa palavra e só essa.
לָנוּ — lanu, "para nós".
Preposição com sufixo de primeira pessoa plural. Note que elas dizem "para nós", e não "conosco": o trabalho não foi dividido. Passou inteiro para ele.
וַיַּשְׁקְ אֶת־הַצֹּאן — wa-yashq et ha-tson, "e deu de beber ao rebanho".
O verbo causativo já visto em Êxodo 2:16 e 2:17, shaqah na forma hifil, "fazer beber". É a terceira ocorrência em quatro versículos, e a cada vez o sujeito é outro: primeiro elas, depois Moisés, agora ele de novo, mas contado por elas.
Um detalhe pequeno no fecho. Em Êxodo 2:17 o texto escreveu "o rebanho delas"; aqui elas dizem apenas "o rebanho", com artigo. Falando com o dono, não é preciso especificar de quem — e a frase termina não nelas, não nele, mas no animal que precisava beber.
11. Conclusão
Quatro conclusões se sustentam a partir do que foi examinado.
A primeira é sobre a palavra que as moças escolheram. Elas disseram "egípcio", e o hebraico tinha à disposição pelo menos duas palavras que diriam "alguém de fora" sem dizer de onde — e não usou nenhuma. A identificação é positiva, não negativa: não informa que ele não é dali, informa a que povo pertence. Qualquer tradução ou paráfrase que abrande isso para "um estrangeiro" retira do versículo exatamente aquilo que ele traz.
A segunda é sobre o silêncio em torno da frase. Ninguém corrige as sete. Nem o pai, que decide sobre o assunto no versículo seguinte; nem Moisés, que estará na casa em três versículos; nem o próprio Êxodo, que sabe quem ele é e podia desfazer o mal-entendido numa linha. A identificação atravessa o capítulo inteiro sem contestação, e é a última coisa que o texto diz sobre a origem de Moisés antes de ele dar ao filho, em Êxodo 2:22, um nome que significa estrangeiro.
A terceira é sobre o desenho que se forma quando se lê o capítulo em ordem. Em Êxodo 2:11 Moisés sai "para junto dos seus irmãos"; em Êxodo 2:14 um deles lhe nega qualquer posição entre eles; aqui, midianitas o contam como sendo do Egito. Duas classificações feitas por terceiros, incompatíveis entre si, ditas por gente que mal o conhece, e nenhuma delas revista. É preciso deixar isso exatamente assim, porque é assim que o Êxodo o deixa: este capítulo não narra descoberta, não narra decisão e não narra esclarecimento algum sobre quem Moisés é. Escrever que ele "encontrou a própria identidade" é acrescentar ao texto um desfecho que ele não tem.
A quarta é sobre a proporção do relato, e é a mais modesta. Perguntadas sobre o horário, as sete respondem falando de um homem; e, dentro do que contam, a única parte que o hebraico enfatiza é a água. Um homem enfrentou sozinho um grupo de pastores por elas, e o que elas grifaram ao pai foi que o serviço do dia ficou pronto. O Êxodo não avalia essa escolha — e ela informa, melhor do que qualquer descrição, o que aquele trabalho pesava.













