Ele disse às filhas: “E onde ele está? Por que vocês deixaram o homem lá? Chamem-no para comer.”
1. Introdução
O versículo é uma fala só, de três frases, ditas por um pai às filhas que acabaram de chegar em casa mais cedo do que o normal.
A primeira é uma pergunta de duas palavras em hebraico: onde ele está? A segunda é uma repreensão: por que vocês deixaram o homem lá? A terceira é uma ordem: chamem-no para comer.
Três coisas merecem atenção, e todas se perdem numa leitura rápida.
A primeira é o que o pai não pergunta. As filhas tinham acabado de dizer que quem as socorreu foi "um egípcio". O pai não repete a palavra e não pergunta o que um egípcio faz sozinho num poço de Midiã. Ele diz "o homem".
A segunda é o verbo da repreensão: não "por que não o convidaram", mas "por que vocês o deixaram" — o verbo do abandono.
A terceira é quem recebe a ordem. Quem tem de voltar ao poço são as próprias filhas, as mesmas que foram enxotadas pelos pastores pouco antes.
Há ainda o que o texto não conta: entre esta ordem e o versículo seguinte não há a refeição, não há a conversa, não há a apresentação. O próximo versículo já mostra Moisés morando ali.
Sobre a cena inteira do encontro no poço — a viagem, as moças, a água, a corrida para casa e o casamento como um desenho que a Bíblia repete —, o estudo de Gênesis 24:11 já fez o trabalho por extenso, e não se reabre aqui.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem podia convidar alguém para entrar
A repreensão do pai só faz sentido em uma sociedade com uma regra clara sobre quem abre a porta da casa.
Numa família de pastores da época, a casa era uma unidade econômica e jurídica, chefiada pelo homem mais velho, e quem entrava nela passava a estar sob a proteção dele — se fosse atacado ali dentro, o insulto era ao chefe da casa. Por isso a decisão de admitir um desconhecido não era das filhas: elas não tinham autoridade para trazer um homem.
O que a repreensão cobra, então, não é falta de educação. É falta de aviso. As filhas deveriam ter pedido ao homem que esperasse e vindo buscar a decisão do pai. Ao chegarem em casa sem ele e sem recado, deixaram a casa em falta.
A obrigação de retribuir depressa
Há um segundo motivo, e é mais duro que o primeiro.
Numa sociedade sem tribunais acessíveis, sem seguro e sem polícia, o que garantia a vida de uma família era a rede de obrigações mútuas. Um favor recebido criava uma dívida, e a dívida tinha prazo. Deixar sem resposta um benefício desse tamanho — uma casa de sete mulheres socorrida diante de um grupo de pastores — expunha a família ao pior julgamento possível naquele mundo: o de ser uma casa que não paga o que deve.
A pressa do pai é, portanto, prática. Ele não está sendo generoso: está fechando uma conta antes que ela azede.
"Comer pão"
A expressão que ele usa é a corrente na língua para "fazer uma refeição". O pão era a base da alimentação, e "comer pão" servia para qualquer refeição, com ou sem pão nela — o mesmo uso que temos ao dizer "ganhar o pão" sem falar de padaria.
Vale dizer o que a expressão não traz aqui: não indica banquete, nem cerimônia, nem pacto formal. O uso da refeição para selar acordos e encerrar hostilidades entre grupos é assunto de outro tipo de cena, tratado nos estudos de Gênesis 26:28-31 e 31:44-54. E os deveres de acolhida em si — lavar os pés do viajante, dar água, oferecer abrigo — têm tratamento próprio nos estudos de Gênesis 18:4, 19:2 e 24:32.
Uma observação de método
Tudo isso é reconstrução a partir de textos e da comparação com sociedades de pastores documentadas no Antigo Oriente Próximo. Não há documento midianita que descreva essas regras — a documentação escrita de Midiã é praticamente inexistente. O comportamento do pai é coerente com o padrão conhecido da região; não se pode afirmar que a cena descreva um costume midianita específico.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ele disse às filhas"
A fala é dirigida a todas — o mesmo grupo que respondeu em coro no versículo anterior. Sete mulheres respondem juntas e são repreendidas juntas.
Repare no que ele não faz. Não pergunta pelos pastores, não pergunta se alguém se machucou, não pergunta como foi a briga. A agressão que abriu o episódio some da conversa assim que aparece um homem a quem se deve alguma coisa.
"E onde ele está?"
Duas palavras em hebraico, sem verbo. É a pergunta mais curta do capítulo e vem antes de qualquer outra coisa, antes até da repreensão.
O que ela revela é a ordem de prioridade do pai: primeiro localizar a pessoa, depois discutir o resto. Mas o que ela revela melhor é o que não pergunta.
As filhas tinham acabado de dizer: "um egípcio nos livrou". Essa palavra é o ponto mais quente do capítulo — é a primeira vez que alguém diz de Moisés a que povo ele pertence. Seria natural que o pai perguntasse: um egípcio? o que faz um egípcio aqui? Ele não pergunta. E, ao falar dele, não usa a palavra que as filhas usaram: diz "o homem".
Não se pode afirmar que a troca seja intencional. O hebraico usa "o homem" como forma neutra de retomar alguém já mencionado, e a leitura mais econômica é essa. O que se pode registrar é o efeito: a única pessoa do capítulo que poderia ter cobrado de Moisés uma explicação sobre quem ele é deixa a pergunta cair. Em Midiã ninguém investiga.
"Por que vocês deixaram o homem lá?"
Esta é a frase da repreensão, e o hebraico é mais áspero do que a tradução consegue ser: há uma partícula de reforço na pergunta, que em português corresponderia a "mas por que então vocês o deixaram lá?".
O verbo é o que mais pesa. O pai não diz "por que não o convidaram", nem "por que não o trouxeram". Diz que elas o deixaram — o verbo do abandono, o que se usa para largar uma pessoa, um posto ou um dever para trás. Aplicado a um homem que acabou de tirar água para o rebanho de sete mulheres, o verbo transforma uma omissão de cortesia em desamparo: elas o largaram lá.
Isso arma uma ironia que o texto não comenta. Moisés é, neste capítulo, o homem que é sempre deixado em algum lugar — deixado entre os juncos por uma mãe, deixado de longe por uma irmã, agora deixado num poço por sete moças. Todas as vezes por gente que não tinha como fazer diferente, e todas as vezes com alguém aparecendo depois para buscá-lo. É uma leitura possível do conjunto, não uma afirmação do versículo: o Êxodo não faz esse comentário.
"Chamem-no para comer"
A ordem é curta e tem um detalhe que quase toda tradução apaga: em hebraico é "chamem-no para que coma pão", a expressão corrente para "fazer uma refeição".
O ponto interpretativo está em quem recebe a ordem. Não é um servo, não é um filho: são as filhas. As mesmas que foram expulsas do poço pelos pastores têm de voltar ao poço no mesmo dia. O texto não diz se foram com medo, se foram acompanhadas, se os pastores ainda estavam lá.
E há o que não vem depois. O convite é dado e a refeição nunca é narrada. Não há a chegada de Moisés à casa, não há conversa à mesa, não há apresentação, não há sequer a informação de que ele aceitou. O versículo seguinte começa com o acordo já fechado e o casamento já feito.
É o mesmo texto que passou décadas da vida de Moisés em branco entre dois versículos. Aqui repete o procedimento em escala pequena: dá a ordem, corta a cena, reaparece com o efeito pronto.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Quem fala
O sujeito do versículo é o sacerdote de Midiã, chamado Reuel no versículo anterior. Ele aparece aqui apenas como "ele": o texto acabou de nomeá-lo e não repete o nome.
Sobre esse homem há um problema real, de identificação e não de interpretação: ele é Reuel em Êxodo 2:18 e Jetro em Êxodo 3:1 e 18:1. O dossiê inteiro está no estudo de Êxodo 2:18 e não se reabre aqui.
Quem ouve
As sete filhas, apresentadas em Êxodo 2:16. Nenhuma tem nome neste versículo. Uma delas — Zípora — será nomeada no versículo seguinte, e só então; até aqui são "as filhas dele", em bloco.
Vale registrar o que a cena mostra sobre essa casa: são as filhas que levam o rebanho para beber, e são as filhas que apanham dos pastores. Não há filhos homens na cena, não há servos na cena, e o pai fica em casa. O texto não explica por quê.
Quem está ausente
Moisés, que é o assunto da conversa e não aparece nela. Ele é referido três vezes no versículo — "ele", "o homem", "no" — e nunca pelo nome. Quem o nomeia é o texto, para o leitor; dentro de Midiã, neste momento, ele ainda não tem nome para ninguém.
Onde a cena acontece
Na casa do sacerdote, em Midiã. O poço, cenário de tudo o que veio antes, está fora de cena — é o "lá" da frase do pai. A localização de Midiã e o que se sabe dos midianitas estão tratados no estudo de Êxodo 2:15.
O que aconteceu antes
No mesmo dia: as moças foram tirar água, os pastores as expulsaram, Moisés interveio, defendeu-as e deu de beber ao rebanho. Elas chegaram cedo em casa, o pai estranhou, e a resposta delas — "um egípcio nos livrou" — é o que provoca a fala deste versículo.
Antes disso, e do lado que os midianitas não sabem: Moisés matou um egípcio no Egito, foi denunciado por um hebreu, foi procurado por Faraó e fugiu. Ninguém nesta casa tem essa informação. O leitor tem.
5. Pontos de Ensino
1. A primeira pergunta do pai é sobre a pessoa, não sobre o episódio
Ele tinha assunto de sobra: os pastores, a briga, o risco que as filhas correram, o rebanho. Escolheu perguntar onde está o homem. Há uma ordem de importância embutida aí, e ela é fácil de inverter na vida real — discutir o acontecido antes de cuidar de quem apareceu nele.
2. A repreensão é dirigida para dentro de casa
Quem errou, na conta do pai, não foram os pastores: foram as filhas. Ele não gasta uma palavra com os agressores. Isso não significa que o texto ache a agressão irrelevante — significa que o pai trata primeiro do que é responsabilidade dele. É a diferença entre cobrar de quem se pode cobrar e reclamar de quem não vai ouvir.
3. Quem recebeu o favor é quem tem de voltar para buscar
O pai não manda um servo. Manda as próprias filhas, que são as beneficiadas. A gratidão, aqui, custa a elas voltarem ao lugar de onde tinham sido expulsas horas antes.
4. O que não se pergunta também ensina
Reuel tinha uma informação estranha na mão — um egípcio, sozinho, num poço de Midiã — e não puxou o fio. É possível ler isso como falta de curiosidade; é possível ler como discrição deliberada. O texto não diz qual das duas, e as duas leituras têm consequência prática oposta. O que fica é o fato: ele acolheu sem interrogar.
5. O convite é a comida, não o discurso
Não há agradecimento formal, não há elogio, não há promessa. Há comida. Numa casa daquele tipo, era o que se tinha para dar e era o que bastava.
6. O que a cena não autoriza
É tentador ler o convite como o começo de um plano divino para o futuro libertador. O Êxodo não escreve isso aqui, e quem faz essa leitura está lendo o capítulo a partir do fim dele.
6. Aspectos Filosóficos
O favor como dívida
O versículo levanta uma questão filosófica pequena e antiga: o que exatamente se cria quando alguém nos faz um bem sem ter sido pedido?
Reuel age como quem sabe a resposta. Para ele o favor produziu uma obrigação imediata, com prazo curto, e não pagá-la é falta. Note-se o que isso implica: a dívida nasceu sem contrato, sem acordo prévio e sem que o beneficiado tivesse escolhido receber. As filhas não pediram socorro — o socorro chegou.
É aí que está o problema. Uma dívida que se contrai sem consentimento parece, à primeira vista, injusta. Se qualquer um pudesse me obrigar apenas fazendo-me um bem, a generosidade seria uma forma de coação. E, no entanto, quase todo mundo reconhece que existe alguma obrigação depois de um favor recebido — e que quem a ignora fica devendo algo, mesmo sem ter assinado nada.
A saída que o versículo mostra não é teórica, é prática: paga-se rápido e paga-se em espécie diferente. Moisés deu água; a casa oferece comida. Não é troca equivalente, e não pretende ser. É o gesto que reconhece o vínculo em vez de liquidá-lo.
Agradecer e receber não são a mesma coisa
Há uma distinção fina no versículo, e ela vale ser dita.
Reuel poderia ter mandado um agradecimento. Poderia ter mandado um presente ao poço. Em vez disso manda buscar o homem para dentro. A diferença entre as duas respostas é a diferença entre encerrar uma relação e abri-la: quem agradece à distância paga a conta e mantém a porta fechada; quem chama para comer aceita que a história continue.
O resto do capítulo mostra o que essa escolha custa e o que ela produz. Do convite sai um casamento, um filho e quarenta anos de vida. Reuel não sabia disso quando falou. Ninguém sabe.
7. Aplicações Práticas
Este versículo dá pouco, e o pouco que dá é bem concreto.
Responder ao favor enquanto ele ainda está quente
A ordem do pai é dada no mesmo dia, provavelmente na mesma hora. Não há "depois eu retribuo". A razão dele era a segurança da casa; a razão que resta para nós é mais simples: a gratidão adiada costuma não acontecer. Quem espera o momento certo para agradecer normalmente encontra o momento em que já não faz diferença.
Mandar buscar em vez de esperar aparecer
Moisés estava a uma distância curta e não veio sozinho. Se ninguém tivesse ido buscá-lo, teria passado a noite no poço, e o capítulo terminaria de outro jeito. Há situações em que a diferença entre uma relação existir e não existir é alguém se dar ao trabalho de ir chamar.
O limite
Não se deve tirar deste versículo uma regra sobre acolher desconhecidos em casa. A situação não é essa: Reuel não está recolhendo um estranho da rua, está trazendo para dentro alguém a quem a família devia um serviço prestado diante de testemunhas, num mundo em que as regras de acolhida eram públicas e conhecidas dos dois lados. Transportar isso direto para a vida de hoje ignora justamente o que fazia a cena funcionar.
O que atravessa sem forçar é o hábito: benefício recebido, resposta dada, e a resposta é o convite — não o recado.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Moisés não foi com as moças?
O texto não diz. Ele deu de beber ao rebanho e ficou. As respostas que se costumam dar — que esperava um convite, que não tinha para onde ir, que temia ser reconhecido — são todas plausíveis e nenhuma está escrita. O que o Êxodo registra é que ele permaneceu junto ao poço, que é onde estava sentado desde que chegou a Midiã.
As filhas foram ingratas?
O pai as repreende, mas o texto não as acusa. Elas não tinham autoridade para convidar ninguém, e é possível que tenham voltado justamente para pedir ao pai que decidisse — o versículo anterior mostra que contaram tudo, sem esconder nada. A repreensão pode ser cobrança de um dever que era delas ou impaciência de um pai com pressa de fechar uma dívida. Não é possível decidir.
O convite significa que Reuel adivinhou quem Moisés era?
Nada no texto sustenta isso. Ele o chama de "o homem" e trata o caso como o que aparenta ser: alguém prestou um serviço à casa e merece uma refeição. Ler adivinhação aqui é acrescentar ao versículo. Registre-se, aliás, que é a ausência de investigação que permite tudo o que vem depois: um homem procurado por Faraó entra numa casa sem prestar contas do passado.
Por que a refeição não é narrada?
Porque o Êxodo, neste capítulo, corta tudo o que não muda a situação. Ele fez o mesmo com décadas inteiras da vida de Moisés entre Êxodo 2:10 e 2:11. A refeição é o meio; o que interessa ao texto é o resultado, e o resultado está no versículo seguinte.
Há alguma menção a Deus aqui?
Nenhuma. E não é detalhe deste versículo apenas: Deus não é mencionado em nenhum versículo do capítulo desde o começo dele, e só voltará a aparecer no fim, em Êxodo 2:23-25. A cena inteira de Midiã acontece sem uma palavra sobre ele.
9. Conexão com Outros Textos
O convite que traz o forasteiro para dentro
Gênesis 24:31 — "Entre, bendito do SENHOR; por que está aí fora? Eu já preparei a casa e um lugar para os camelos."
A mesma estrutura: alguém fica do lado de fora, o dono da casa estranha e manda entrar. O estudo daquele versículo trata do desenho inteiro da cena do poço; aqui a semelhança que interessa é só esta — a pergunta espantada de por que o homem ainda está lá fora.
Quando ninguém convida
Juízes 19:15 — "E entraram para passar a noite em Gibeá; ele entrou e sentou-se na praça da cidade, e não houve quem os recolhesse em casa para passar a noite."
O contrário exato deste versículo, e o começo de um dos episódios mais violentos da Bíblia. Um homem sentado num lugar público esperando ser chamado, e ninguém o chama. Serve para medir o peso do que Reuel faz.
"Comer pão" como fórmula
2 Samuel 9:7 — "Não tema, porque certamente usarei de bondade para com você por amor de Jônatas, seu pai; e você comerá pão à minha mesa sempre."
A expressão vale por "fazer refeição", e a refeição na casa de alguém marca uma mudança de posição de quem come.
A conta que não se deixa aberta
Gênesis 40:23 — "O chefe dos copeiros, porém, não se lembrou de José; antes, esqueceu-se dele."
O reverso do que Reuel faz: um homem prestou um serviço, foi esquecido e ficou dois anos onde estava.
O estrangeiro que trabalha e é chamado para comer
Rute 2:14 — "Na hora de comer, Boaz lhe disse: Venha para cá, coma do pão e molhe o seu bocado no vinagre."
Também ali um estrangeiro em terra alheia é chamado para comer pelo dono do campo, depois do trabalho feito. A situação social é diferente, mas o gesto é o mesmo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Ele disse às filhas: “E onde ele está? Por que vocês deixaram o homem lá? Chamem-no para comer.”
Texto hebraico
וַיֹּ֥אמֶר אֶל־בְּנֹתָ֖יו וְאַיּ֑וֹ לָ֤מָּה זֶּה֙ עֲזַבְתֶּ֣ן אֶת־הָאִ֔ישׁ קִרְאֶ֥ן ל֖וֹ וְיֹ֥אכַל לָֽחֶם׃
Transliteração
vayyómer el-benotáv ve'ayyó; lámmah zeh azavtén et-ha'ísh, qir'én lo veyókhal láchem.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמֶר — vayyómer, "e disse". Verbo amar, "dizer", no Qal, a forma simples e ativa do verbo hebraico, na forma que encadeia a narrativa. O sujeito não é expresso: o texto acabou de nomear Reuel no versículo anterior e não repete o nome.
אֶל־בְּנֹתָיו — el-benotáv, "às filhas dele". Preposição el, "a, para", com banot, plural de bat, "filha", e o sufixo de terceira pessoa masculina singular. A preposição usada é a de direção: ele fala com as sete, não sobre elas.
וְאַיּוֹ — ve'ayyó, "e onde ele?". A conjunção ve, "e", mais o advérbio interrogativo ayyeh, "onde?", com o sufixo de terceira pessoa masculina singular.
É uma pergunta sem verbo. O hebraico não precisa do verbo "estar" nesse tipo de frase: a interrogativa mais o sufixo bastam. Ao pé da letra, "e onde ele?" — três sílabas.
Esse advérbio tem um uso próprio na Bíblia hebraica: é a palavra da procura por alguém que devia estar presente e não está. É com ela que Deus pergunta por Adão em Gênesis 3:9 e por Abel em Gênesis 4:9, e é com ela que os povos vizinhos perguntam, em Salmos 42:3 e 79:10, "onde está o Deus deles?". A pergunta não pede coordenadas: cobra uma ausência.
לָמָּה זֶּה — lámmah zeh, "por que isto?", "por que então?". Lammah é o "por quê" comum, da preposição le com mah, "o quê". Zeh é o demonstrativo "este".
A combinação das duas é o ponto. O demonstrativo não aponta para objeto nenhum: reforça a pergunta, com efeito de impaciência. Português corrente daria "mas por que então...?" — e quase todas as versões trazem só "por que", perdendo o reforço. A mesma construção aparece no espanto de Rebeca em Gênesis 25:22.
עֲזַבְתֶּן — azavtén, "vocês deixaram". Verbo azav, no Qal, tempo perfeito, segunda pessoa do feminino plural.
Duas coisas aqui. A primeira é a forma: o hebraico distingue o "vocês" masculino do feminino, e esta é a forma feminina, relativamente rara na Bíblia porque poucas cenas têm um grupo de mulheres como interlocutor. A gramática, sozinha, já informa quem está sendo repreendido.
A segunda é o campo de sentido. Azav não é "não convidar" nem "esquecer": é deixar para trás, largar, abandonar. É o verbo de Gênesis 2:24, "deixará o homem seu pai e sua mãe"; é o verbo do abandono entre Deus e o povo em Deuteronômio 31:6, Salmos 22:1 e Isaías 49:14; e serve também para largar bens, como a roupa que José deixa na mão da mulher em Gênesis 39:12.
Aplicado ao caso, o verbo é forte demais para a situação — e é isso que dá o tom da repreensão.
אֶת־הָאִישׁ — et-ha'ísh, "o homem". A partícula et marca o objeto direto; ish é "homem, varão", com artigo definido.
Registre-se a diferença com o versículo anterior. As filhas disseram ish mitsri, "um homem egípcio". O pai diz ha-ish, "o homem", sem a segunda palavra. Não se pode afirmar que a queda seja significativa — a retomada com artigo é a construção normal —, mas o efeito no leitor é real, e a mesma expressão volta no versículo seguinte, também sem o "egípcio".
קִרְאֶן לוֹ — qir'én lo, "chamem-no". Verbo qara, "chamar, convocar, gritar por", no imperativo, segunda pessoa do feminino plural, com a preposição le e o sufixo de terceira pessoa. De novo a forma feminina: a ordem é dada às filhas.
Vale notar que essa raiz serve tanto para convocar uma pessoa quanto para dar nome a ela: é a mesma de Êxodo 2:10, quando a filha de Faraó "chamou o nome dele" Moisés, e a de Êxodo 2:22, quando Moisés "chamar o nome" do filho de Gérson. Aqui é a convocação simples.
וְיֹאכַל לָחֶם — veyókhal láchem, "e coma pão". Verbo akhal, "comer", no imperfeito, terceira pessoa masculina singular, precedido da conjunção — construção que exprime finalidade: "para que coma". O objeto é léchem, "pão".
Léchem é o pão como alimento e, por extensão, a comida em geral. "Comer pão" é a fórmula corrente para "fazer uma refeição" em toda a Bíblia hebraica, com esse valor em Gênesis 31:54, Gênesis 43:25 e 2 Samuel 9:7, entre muitas outras. Não indica cardápio.
Em treze palavras hebraicas — uma pergunta sem verbo, um perfeito e dois verbos de finalidade — o pai localiza, cobra e ordena.
11. Conclusão
Do que foi visto, três conclusões.
A primeira: a porta de Midiã se abre sem que ninguém pergunte quem Moisés é. A palavra "egípcio", dita pelas filhas no versículo anterior, morre aqui. O pai não a repete, não a contesta e não a investiga. Chama o desconhecido de "o homem" e manda buscá-lo para comer. Depois de um capítulo em que Moisés foi denunciado por um hebreu e perseguido por um rei, o acolhimento vem de quem não fez nenhuma pergunta.
A segunda: a repreensão do pai mede o tamanho da dívida, não o tamanho da falta das filhas. O verbo que ele escolhe — abandonar — é grande demais para o que aconteceu, e é justamente por isso que informa. Numa casa daquele mundo, deixar sem resposta um benefício público era risco real. A pressa dele é a pressa de quem fecha uma conta antes que ela se torne uma acusação.
A terceira: o versículo é o ponto em que o capítulo muda de direção sem anunciar. Tudo até aqui foi expulsão, fuga e violência. A partir desta fala, Moisés terá casa, trabalho, mulher e filho. Nada disso é atribuído a Deus pelo texto — Deus não aparece no capítulo desde Êxodo 1:21 e só voltará no fim dele. O que produz a virada, na letra do Êxodo, é um homem velho que perguntou onde estava o hóspede e mandou pôr mais um prato.
Fica ainda um detalhe que o versículo entrega de graça e sobre o qual não comenta: Moisés continuava sentado no poço. Não foi embora, não seguiu ninguém, não procurou abrigo. Um homem com destino não fica parado à beira da água esperando. É o que se pode observar; o texto não diz o que isso significa.













