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Gênesis 40:23

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de setembro de 2026·⏱️ 13 min de leitura·👁 36 acessos
O chefe dos copeiros, porém, não se lembrou de José; esqueceu-se dele.
Jovem sentado sozinho contra a parede de pedra de uma cela, luz do fim de tarde entrando por uma fresta alta e alongando as sombras no chão.

Estudo


O chefe dos copeiros, porém, não se lembrou de José; esqueceu-se dele.

1. Introdução

O capítulo termina numa frase que diz a mesma coisa duas vezes.

"Não se lembrou de José; esqueceu-se dele." O hebraico nega o verbo da lembrança e depois afirma o do esquecimento — e a redundância é o ponto.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é a construção dupla. Uma negação bastaria. O texto usa duas, e o item 10 mostra o que isso faz.

O segundo é o verbo. É exatamente o que José pedira duas vezes no versículo 14 — agora negado duas vezes.

O terceiro é o silêncio final. Não há condenação, não há lamento, não há promessa de que algo vai mudar. O capítulo simplesmente para.

2. Contexto Histórico e Cultural

Esquecer, no vocabulário do mundo antigo

Como se viu no estudo do versículo 14, lembrar-se de alguém, na Bíblia hebraica, quase nunca é operação mental: é agir em favor da pessoa. Quando Deus "se lembra" de Noé, de Abraão ou da aliança, o que se segue é sempre uma ação.

O contrário vale igualmente. Esquecer alguém é deixar de agir por ela — abandonar, na prática.

Por isso a frase final não descreve uma falha de memória. Descreve um homem que voltou à vida de sempre e não fez nada pelo outro.

O peso da promessa não cumprida

José pedira usando a palavra da lealdade devida dentro de uma relação — chesed, tratada no estudo do versículo 14. Não pedira favor: apontara um vínculo.

Nesse vocabulário, o que este versículo registra tem nome: é a quebra da fidelidade que se devia. Não é ingratidão no sentido de má educação — é falta contra uma obrigação reconhecida.

Vale marcar, porém, o que o texto não faz: não usa nenhuma palavra de censura. Não diz que ele foi injusto, ingrato ou desleal. Diz o que ele não fez, duas vezes, e para.

Dois anos

O capítulo não informa quanto tempo durou o esquecimento. É o versículo seguinte do livro que dirá: "passados dois anos completos" (Gênesis 41:1).

A informação está do outro lado da divisão de capítulos, que é acréscimo posterior ao texto. Quem lê seguido encontra as duas frases coladas: ele esqueceu — dois anos depois, Faraó sonhou.

3. Análise Teológica do Versículo

"O chefe dos copeiros, porém"

A partícula adversativa marca a última virada do capítulo, e ela é contra a expectativa que o versículo 21 tinha criado.

Repare no título: "o chefe dos copeiros", por extenso, com o cargo. Ele voltou a ser o que era — e é como titular do cargo restituído que ele esquece. O texto poderia dizer "o homem", "aquele", "o copeiro". Diz o cargo.

"não se lembrou de José"

Aqui o verbo do pedido é negado.

No versículo 14 José dissera "lembre-se de mim" e, três palavras depois, "faça com que se lembrem de mim" — a mesma raiz duas vezes. Agora ela volta, negada.

E convém notar de quem é o nome que aparece: José. O texto não diz "não se lembrou do pedido" nem "não falou a Faraó". Diz que não se lembrou dele. O esquecimento é de uma pessoa, não de uma tarefa.

"esqueceu-se dele"

E então o texto diz outra vez.

Não era preciso. "Não se lembrou de José" já encerra o assunto — a informação está completa, e o hebraico não precisa de reforço para ser entendido.

A segunda oração acrescenta ênfase e, com ela, um julgamento sem palavra de julgamento. É como dizer: não se lembrou; esqueceu mesmo. O item 10 mostra como a construção funciona.

O que o capítulo faz ao terminar assim

Vale medir o efeito, porque ele é deliberado.

Tudo em Gênesis 40 funcionou. José serviu bem, reparou no que ninguém repararia, perguntou, ouviu, interpretou — e acertou as duas vezes, no prazo e nos detalhes. O texto confirmou isso no versículo 22.

E o capítulo termina com ele exatamente onde começou: preso, na casa do comandante da guarda, sem que nada tenha mudado.

Não há consolo na última frase. Não há "mas Deus estava com ele", como havia quatro vezes em Gênesis 39. Não há promessa, não há anúncio, não há sinal.

Há um homem que voltou ao trabalho e não se lembrou de outro.

Um limite necessário

Quem lê o capítulo isolado encontra um final sem saída. Quem lê o livro sabe que dois anos depois esse esquecimento se desfaz, e que é justamente ele que põe José diante de Faraó no momento certo.

As duas leituras são legítimas, e convém não deixar a segunda apagar a primeira. Gênesis 41:9 mostrará a lembrança chegando tarde e por interesse. Mas nada disso está aqui — e o texto escolheu terminar antes.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O chefe dos copeiros

Restituído ao cargo no versículo 21, esquece. É a última menção a ele no capítulo. Voltará em Gênesis 41:9, dois anos depois, dizendo "hoje me lembro das minhas faltas".

José

Nomeado pela última vez, como objeto do esquecimento. Continua preso — e é assim que o capítulo o deixa.

O que acontece aqui

Nada. É o único versículo do capítulo em que o conteúdo é uma ausência de ação, e ele é dito duas vezes.

5. Pontos de Ensino

Esquecer é deixar de agir

No vocabulário bíblico, lembrar-se de alguém é fazer algo por essa pessoa. O verso não descreve uma falha de memória: descreve alguém que voltou à rotina e não moveu nada.

O texto não censura

Nenhuma palavra de julgamento. Diz o que ele não fez, repete, e para. A censura, se existe, está na repetição.

Tudo deu certo e nada mudou

José serviu bem, reparou, perguntou, interpretou e acertou duas vezes. Termina o capítulo exatamente onde o começou.

Vale reter isso antes de qualquer aplicação: o capítulo não recompensa o comportamento que narra.

O consolo está fora do capítulo

Que o esquecimento durará dois anos e que a lembrança tardia levará José a Faraó — nada disso está aqui. Gênesis 40 termina sem saída, e a escolha de terminar assim é do texto.

6. Aspectos Filosóficos

A ingratidão

O versículo registra uma falta que não tem vítima visível nem ato praticado. O copeiro não fez nada contra José — apenas não fez nada por ele.

Faltas dessa espécie são difíceis de nomear. Não há dano identificável, não há gesto a apontar, e quem as comete raramente se percebe cometendo. O copeiro provavelmente não teve, em dois anos, um único momento em que se sentisse desleal.

Vladimir Jankélévitch, em O Perdão ("Le Pardon", obra de 1967 do filósofo francês), observou que a ingratidão é uma falta por omissão pura: ela não acrescenta nada ao mundo, apenas deixa de acrescentar. E que, exatamente por isso, ela é quase impossível de acusar — não há o que apontar, senão um vazio.

Ele notou ainda uma assimetria cruel. Para quem recebeu o benefício, ele já foi absorvido e virou passado; para quem o prestou, permanece presente e aguardando. Os dois estão em tempos diferentes do mesmo acontecimento.

É exatamente o que o capítulo mostra. José continua na casa do comandante da guarda esperando; o copeiro está na corte, servindo, e para ele a prisão acabou.

Onde isso não pode ser levado longe demais

Duas ressalvas, e ambas vêm do texto.

A primeira: Gênesis não acusa. Não usa palavra de censura, não chama o copeiro de ingrato e não comenta a falta. Quem quiser condená-lo estará fazendo o que o texto se recusou a fazer.

A segunda: o esquecimento não é definitivo, e o desfecho complica o julgamento. Em Gênesis 41:9 a lembrança chega — tarde, por interesse, quando o rei precisa de intérprete — e produz mais efeito do que teria produzido na hora. É leitura do comentarista dizer que isso justifica alguma coisa; o texto apenas dispõe os fatos nessa ordem.

7. Aplicações Práticas

Este versículo sustenta duas aplicações, e as duas exigem sobriedade.

A primeira é para quem prestou o favor.

José fez tudo certo — serviu, reparou, ouviu, interpretou, acertou — e foi esquecido por dois anos. O capítulo não apresenta isso como exceção nem como injustiça a ser corrigida: apresenta como o que aconteceu.

Quem depende de que alguém se lembre precisa saber disso. A lembrança alheia não é garantida por mérito nenhum, e o esquecimento raramente tem má intenção — tem rotina.

A segunda é para quem recebeu.

O copeiro não fez nada de errado em nenhum momento identificável. Voltou ao trabalho, retomou a vida, e os dias passaram. É assim que essas faltas acontecem: sem decisão, sem gesto, sem consciência.

Daí a única providência prática que o versículo sugere, por contraste: lembrar exige ato, porque a rotina não lembra sozinha. Quem quer cumprir uma promessa dessas precisa transformá-la em alguma coisa — um recado dado logo, um nome anotado, uma conversa marcada. Deixar para quando der costuma significar nunca.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o texto diz duas vezes a mesma coisa?

Porque a repetição é o comentário. Uma negação bastaria para informar; a segunda oração acrescenta ênfase — e, com ela, um julgamento que o texto não formula em palavras. O item 10 mostra a construção.

Ele esqueceu de propósito?

O texto não diz. Não atribui intenção, não usa palavra de censura e não descreve o estado dele. Registra a omissão e para.

Quanto tempo durou?

Este capítulo não informa. Gênesis 41:1 dirá: dois anos completos.

"Esquecer" aqui é falha de memória?

Na Bíblia hebraica, lembrar-se de alguém é agir em favor dessa pessoa, e esquecer é deixar de agir. A frase descreve abandono prático, não distração.

Por que o capítulo termina assim, sem consolo?

É escolha do texto. Não há "mas o SENHOR estava com ele", como havia quatro vezes em Gênesis 39; não há promessa nem sinal. O capítulo deixa José preso e para.

Isso anula o que José fez?

Não anula nem recompensa. O versículo 22 confirmou que ele acertou as duas interpretações; este mostra que o acerto não produziu consequência. As duas coisas ficam de pé, lado a lado.

9. Conexão com Outros Textos

O pedido que este versículo desfaz

Gênesis 40:14 — "Mas lembre-se de mim quando as coisas forem bem com você; rogo que use de bondade comigo, mencione-me a Faraó e me tire desta casa."

O verbo aparece duas vezes ali, uma delas na forma que significa fazer lembrar. Aqui é negado duas vezes.

Quando a lembrança finalmente chega

Gênesis 41:1 — "Passados dois anos completos, Faraó teve um sonho."

Gênesis 41:9 — "Então o chefe dos copeiros falou a Faraó: 'Hoje me lembro das minhas faltas.'"

Dois anos, e a lembrança vem quando o rei precisa de intérprete — não antes.

Lembrar como ação, na Bíblia

Gênesis 8:1 — "Deus se lembrou de Noé… e fez passar um vento sobre a terra."

Êxodo 2:24 — "Deus ouviu o gemido deles e lembrou-se da sua aliança com Abraão, Isaque e Jacó."

Nos dois casos, lembrar é o verbo que precede a ação. É nesse sentido que José pedira.

Esquecer como abandono

Salmo 13:1 — "Até quando, SENHOR? Esquecer-te-ás de mim para sempre?"

Isaías 49:15 — "Pode uma mulher esquecer-se do seu bebê de peito? Mas ainda que ela se esquecesse, eu não me esquecerei de ti."

O par lembrar-esquecer, com o mesmo peso prático que tem neste versículo.

Como o capítulo anterior terminava

Gênesis 39:23 — "…porque o SENHOR estava com ele; e o SENHOR fazia prosperar tudo o que ele realizava."

A comparação mostra a diferença: Gênesis 39 fecha com a presença de Deus afirmada; Gênesis 40 fecha com o esquecimento de um homem.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

O chefe dos copeiros, porém, não se lembrou de José; esqueceu-se dele.

Texto hebraico

וְלֹא־זָכַר שַׂר־הַמַּשְׁקִים אֶת־יוֹסֵף וַיִּשְׁכָּחֵהוּ׃

Transliteração

we-lo-zakhar sar-ha-mashqim et-Yosef wa-yishkachehu.

Análise palavra por palavra

וְלֹא־זָכַר — we-lo-zakhar, "e não se lembrou".

O verbo é zakhar, o mesmo do pedido de José no versículo 14, agora com a negação lo.

Como se viu naquele estudo, zakhar raramente descreve operação mental na Bíblia hebraica. Quando Deus "se lembra" de Noé em Gênesis 8:1 ou da aliança em Êxodo 2:24, segue-se sempre uma ação. Lembrar é agir em favor de alguém.

Negado, portanto, o verbo não diz que o copeiro teve um lapso. Diz que ele não fez nada.

שַׂר־הַמַּשְׁקִים — sar-ha-mashqim, "o chefe dos copeiros".

O título completo, com o cargo — o mesmo do versículo 2, quando ele foi preso, e do versículo 21, quando foi restituído.

O texto poderia ter usado um pronome. Usa o cargo: quem esquece é o titular restituído.

אֶת־יוֹסֵף — et-Yosef, "a José".

O nome próprio, precedido da partícula que marca objeto direto.

Vale reparar: não se diz que ele esqueceu o pedido, nem a promessa, nem de falar a Faraó. O objeto do esquecimento é uma pessoa.

É também a última vez que o nome de José aparece no capítulo.

וַיִּשְׁכָּחֵהוּ — wa-yishkachehu, "e esqueceu-o".

Aqui está a construção que dá ao versículo a sua força.

O verbo é shakach, esquecer, com sufixo pronominal — "esqueceu-o". E o que ele faz é repetir positivamente o que a oração anterior já dissera pela negativa.

A frase inteira é: não se lembrou … e o esqueceu.

Do ponto de vista da informação, a segunda oração é dispensável. Quem não se lembrou, esqueceu — não há conteúdo novo.

Mas o hebraico bíblico usa esse recurso com frequência, e ele tem função reconhecida: dizer a mesma coisa duas vezes, uma negando o contrário e outra afirmando, é um modo de fechar a porta. É a construção de "vivo, e não morrerei" no Salmo 118:17, ou de "confessou e não negou" — a forma pela qual o texto elimina qualquer margem.

Aplicada aqui, ela produz um efeito preciso. A primeira oração poderia ser lida com indulgência: não lhe ocorreu, estava ocupado, o tempo passou. A segunda tira essa saída — esqueceu.

É a única censura do capítulo, e ela não tem uma palavra de censura. Está inteira na repetição.

Uma observação sobre o ritmo

Convém notar como o capítulo termina no original.

Gênesis 40 tem 23 versículos e uma quantidade considerável de diálogo — sonhos contados, interpretações, um pedido. A última frase tem cinco palavras em hebraico, e a última delas é o verbo esquecer com o pronome colado: wa-yishkachehu.

O capítulo se encerra com o nome de José como objeto e o esquecimento como última palavra.

11. Conclusão

Do que foi visto, quatro conclusões se sustentam.

Primeira: o esquecimento é omissão, não lapso. Na Bíblia hebraica, lembrar-se de alguém é agir em favor dessa pessoa; esquecer é deixar de agir. A frase descreve um homem que voltou à rotina e não moveu nada.

Segunda: a censura está na repetição, não em palavra alguma. "Não se lembrou" já bastaria. O texto acrescenta "esqueceu-se dele" e, com isso, elimina a leitura indulgente — sem chamar o copeiro de nada.

Terceira: o objeto do esquecimento é uma pessoa. Não se diz que ele esqueceu o pedido ou a promessa. Diz-se que esqueceu José — e é a última vez que o nome aparece no capítulo.

Quarta: o capítulo termina sem consolo, e isso é escolha do texto. Gênesis 39 fechava afirmando que o SENHOR estava com José, quatro vezes ao longo do capítulo. Gênesis 40 menciona Deus uma única vez, na boca de José, e fecha com um homem esquecendo outro. Tudo funcionou — o serviço, a percepção, as duas interpretações — e nada mudou.

O que este versículo não faz: não acusa, não explica, não informa quanto tempo durará e não anuncia que algo virá. A informação de que foram dois anos está no capítulo seguinte, do outro lado de uma divisão que o texto original não tinha.

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