E, porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes deu famílias.
1. Introdução
Este versículo é a última notícia que a Bíblia dá de Sifrá e Puá, e ele resolve uma coisa e abre duas.
O que ele resolve é o motivo. O versículo anterior disse que Deus fez bem às parteiras sem dizer por quê; aqui vem o “porque”, e é o mesmo motivo já enunciado no versículo 17: elas temeram a Deus. Não é a resposta que deram ao rei, não é a esperteza da desculpa, não é a compaixão — é o temor de Deus, dito duas vezes no capítulo e sem variação.
O que ele abre é a segunda metade da frase, e ali há duas coisas que a tradução esconde.
A primeira é a palavra. A nossa versão diz “famílias”; o hebraico diz casas, e casa, naquela língua, é linhagem — a descendência que carrega um nome adiante. É a mesma palavra da promessa feita a Davi. O item do original trata disso.
A segunda é o pronome. O “lhes” do hebraico está no masculino plural, embora as parteiras sejam mulheres e o mesmo texto tenha usado a forma feminina três versículos antes. É um dado de gramática, e é o principal argumento de quem lê que as casas foram dadas a Israel, e não a elas. O nosso “lhes” em português guarda a mesma ambiguidade, de propósito.
Não é possível decidir. Mas é possível ver com clareza o que está em jogo: de quem, exatamente, é a recompensa.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que era uma “casa”
Para o leitor antigo, a palavra não evocava paredes em primeiro lugar. A casa era a unidade básica em que se organizava a vida — parentes, agregados, servos, rebanho, terra e nome, tudo junto sob um chefe. O que essa unidade era e como funcionava está desenvolvido no estudo de Gênesis 12:1.
Duas consequências interessam aqui. A casa dura mais que as pessoas: é a forma pela qual uma linhagem continua existindo depois que os seus membros morrem, e por isso a palavra passa a significar dinastia — a casa de Davi, a casa de Saul, a casa de Eli.
E a casa era o único seguro que existia. Não havia Estado que amparasse a viúva, o velho ou o doente. Quem tinha casa tinha proteção; quem não tinha, não tinha nada. Prometer casa a alguém era prometer futuro em sentido bem material.
Uma mulher não tinha casa própria
Aqui está o dado que faz este versículo ser estranho, e ele costuma passar despercebido.
Naquela sociedade, a casa era do pai. A mulher pertencia à casa do pai e, ao casar, passava à casa do marido; era ali que ela contava. Não se falava, na linguagem comum, na “casa” de uma mulher — o nome que a unidade carregava era o do homem que a chefiava.
Há exceções na Bíblia, e elas são notadas justamente por serem exceções. Mas a regra era essa.
Dar casa a duas mulheres é, portanto, uma frase fora do padrão. E é em parte por isso que o pronome masculino do hebraico ganhou tanta atenção: para uma parte dos leitores, ele confirma o que a gramática social já sugeria — que as casas não eram para elas.
A leitura judaica antiga
Vale registrar o que a tradição judaica fez com este versículo, porque é uma das leituras mais antigas e mais influentes.
No Talmude, no tratado Sotá, as duas parteiras são identificadas com personagens conhecidas: Sifrá seria Joquebede, a mãe de Moisés, e Puá seria Miriã, a irmã dele. A partir dessa identificação, as “casas” do versículo são lidas como dinastias — a do sacerdócio e a dos levitas, que vêm de Joquebede, e a da realeza, que viria de Miriã.
Rashi (rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido da Bíblia hebraica) resume isso e apoia a leitura num uso comum da palavra: em 1 Reis 9:1, Salomão termina de construir “a casa do SENHOR e a casa do rei”, e nos dois casos a expressão designa muito mais do que um edifício.
Convém ser claro sobre o estatuto disso. A identificação das parteiras com Joquebede e Miriã não está no texto bíblico, não é sustentada por nada no capítulo e é desenvolvimento posterior. O que ela mostra, e isso é valioso, é que leitores antigos entenderam “casas” exatamente como linhagem — e não como imóveis.
3. Análise Teológica do Versículo
“E, porque as parteiras temeram a Deus”
Este é o único “porque” de toda a história das parteiras. O capítulo explica uma coisa, uma vez, e é esta.
Vale ver o que ele não explica: por que o rei escolheu duas parteiras, por que elas foram poupadas, por que o povo cresce, se a resposta do versículo 19 foi aceita. Nada disso ganha razão declarada. A única causa que o texto se dá ao trabalho de enunciar é o motivo da recompensa.
E o motivo é o mesmo do versículo 17, palavra por palavra: elas temeram a Deus. O estudo daquele versículo desenvolve o que isso significa e por que não é compaixão nem consciência; o de Gênesis 20:11 examina o que a expressão designa no hebraico — o freio moral que opera onde não há fiscalização.
O que este versículo acrescenta é a posição da repetição, e ela importa.
No versículo 17, a razão foi dada antes da audiência com o rei. Entre aquele momento e este aconteceu a cena mais discutida do capítulo: a convocação, a acusação e a resposta. O texto atravessa tudo isso e, do outro lado, repete a mesma razão, sem acrescentar nada e sem retirar nada.
Ou seja: a resposta ao rei não entra na justificativa. Não é mencionada, não é qualificada, não é usada como mérito nem como atenuante. Seja qual for a leitura que se faça daquela frase — e há quatro, expostas no estudo de Êxodo 1:19 —, a razão que o texto dá para a recompensa é anterior a ela.
Isso não decide a questão da mentira. Decide apenas o que está escrito, e o que está escrito é isto.
“ele lhes deu famílias”
A nossa tradução escolheu “famílias”, e a escolha é defensável — mas o hebraico diz casas, e o item do original mostra o que se perde no caminho.
Casa, naquela língua, é a linha de descendência: o nome que continua, os filhos que carregam a terra adiante, a dinastia. É a palavra da promessa feita a Davi em 2 Samuel 7:11, onde Deus diz que fará dele uma casa — e não se trata de arquitetura.
Com isso, a recompensa fica visível, e ela é precisa.
Todo o capítulo é sobre um Estado que tenta cortar a continuidade de um povo. Matar os meninos ao nascer é exatamente isso: impedir que a linha siga. As duas mulheres atravessaram esse plano preservando a continuidade dos outros — e o que recebem é continuidade própria.
Convém não exagerar, porém. O texto não diz que elas tiveram filhos. Diz que Deus lhes fez casas. As duas coisas costumam ser tomadas como sinônimas e não são; a segunda é mais ampla, e o versículo escolheu a mais ampla.
De quem são as casas?
Aqui está o problema real do versículo, e ele é de gramática.
O pronome traduzido por “lhes” está, no hebraico, no masculino plural. As parteiras são mulheres, e três versículos antes, no versículo 18, o mesmo texto usou a forma feminina para se dirigir a elas. A língua tem as duas formas e o capítulo usa as duas.
Daí saem duas leituras, e as duas são defendidas por gente séria.
A primeira: as casas foram dadas a Israel, não às parteiras. Deus recompensou o temor delas fazendo prosperar as famílias do povo que elas preservaram. O argumento é o pronome, e ele tem peso — sobretudo porque, como se viu, uma mulher não chefiava casa naquela sociedade.
A segunda: as casas foram dadas a elas, e o masculino é uso frouxo. Esta posição tem uma resposta concreta ao argumento gramatical: as duas formas se trocam no texto bíblico. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) aponta o caso mais limpo — em 1 Reis 22:17 aparece a forma masculina onde o texto paralelo de 2 Crônicas 18:16, contando a mesma cena com as mesmas palavras, traz a feminina. Se os dois textos se permitem a troca, o pronome deste versículo não prova o que se quer que ele prove.
Não é possível decidir. Os dois argumentos são bons e nenhum é conclusivo.
O que se pode observar é o efeito da ambiguidade, e ele é curioso. Lida de um jeito, a frase premia duas pessoas; lida do outro, premia um povo inteiro por causa de duas pessoas. A nossa tradução manteve o “lhes”, que em português carrega a mesma indefinição, justamente para não escolher no lugar do leitor.
O que o texto não diz
Não diz que as parteiras tiveram filhos.
Não diz que elas ficaram ricas, seguras ou livres.
Não diz se eram hebreias ou egípcias — a questão está aberta desde o versículo 15, e este versículo não a fecha.
Não diz o que Faraó soube ou deixou de saber.
E não diz mais nada sobre elas. A Bíblia inteira não volta a Sifrá e a Puá depois desta frase.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Sifrá e Puá
Aparecem no versículo 15, agem no 17, falam no 19 e são recompensadas no 20 e no 21. Sete versículos ao todo.
É pouco espaço para as duas únicas pessoas que, no capítulo, contrariam a política do Egito. E é mais do que o rei recebeu: ele atravessa o capítulo inteiro sem nome.
Deus
Age pela segunda e última vez em Êxodo 1. No versículo 20 fez bem às parteiras; aqui lhes faz casas. São as duas únicas ações divinas do capítulo, e as duas cabem em meia linha cada uma.
Ele continua sem falar. Não há discurso de Deus neste capítulo.
As casas
Não são construções. São linhagens — a descendência que leva um nome adiante, com terra, gente e continuidade.
Quem as recebeu é o ponto em disputa: as duas parteiras, ou o povo de Israel. A discussão está no item da análise teológica.
O que aconteceu antes, e o que vem depois
As parteiras desobedeceram (Êxodo 1:17), foram interrogadas (Êxodo 1:18), responderam (Êxodo 1:19) e Deus lhes fez bem (Êxodo 1:20). Este versículo diz por quê.
Para elas, não vem mais nada. Para o capítulo, vem o decreto final do rei, dado agora a todo o povo egípcio (Êxodo 1:22). O episódio se encerra sem ligação declarada com o que se segue: o texto muda de assunto.
5. Pontos de Ensino
O motivo escrito é o motivo escrito
Duas vezes o capítulo diz por que as parteiras agiram como agiram, e as duas vezes diz a mesma coisa: temeram a Deus. Não é o que soa melhor hoje, e trocar por “tiveram compaixão” ou “seguiram a consciência” é reescrever o texto. Ler bem começa por aceitar a razão que está lá.
A recompensa não menciona a cena mais discutida
Entre o versículo 17 e este aconteceu o interrogatório e a resposta ao rei. O texto atravessa tudo isso e repete a mesma razão, sem acrescentar palavra. O que se recompensa é anterior à frase dita a Faraó.
A tradução esconde coisas, e é bom saber quais
“Famílias” é uma escolha razoável, mas o hebraico diz “casas”, e casa é linhagem. Quem lê só a tradução perde a simetria inteira do episódio: o rei tentava cortar a continuidade de um povo, e a recompensa é continuidade.
Um pronome pode mudar o beneficiário
O “lhes” do hebraico está no masculino, e por causa disso há séculos se discute se as casas foram dadas às parteiras ou a Israel. Nem todo problema de interpretação é grande e teológico; alguns cabem numa letra, e mesmo assim mudam o sentido da frase.
O bem que dura mais que quem o recebe
A recompensa não é dinheiro, cargo nem segurança: é uma linha de descendência. É um benefício que só se completa depois da morte de quem o recebeu — e é assim que aquele mundo media o que valia a pena.
6. Aspectos Filosóficos
Um ato não fica onde foi praticado
A ambiguidade do pronome deste versículo não é só um problema de gramática hebraica. Ela põe o dedo numa questão real: de quem é o benefício de um ato bom?
A pergunta parece boba e não é. Duas mulheres recusaram matar recém-nascidos, e o texto diz que “lhes” foram dadas casas — sem deixar claro se o beneficiário são elas ou o povo cujas crianças elas preservaram. As duas leituras existem porque as duas fazem sentido, e fazem sentido porque um ato bom, de fato, não fica parado no lugar onde foi praticado.
Considere o que aconteceu. Cada menino que viveu por causa daquela decisão teve filhos, e os filhos tiveram filhos. Nenhum deles soube o nome de Sifrá nem o de Puá. O efeito continuou correndo depois que as causas saíram de cena, por gente que não fazia ideia de dever alguma coisa a alguém.
Disso decorre uma dificuldade que vale enunciar sem resolver: se a consequência de um ato se espalha assim, o crédito por ele não cabe numa conta. Não existe a soma exata do que aquelas duas fizeram.
E há o outro lado, que é o mesmo argumento invertido e serve de guarda-corpo. Se o bem não fica onde foi feito, o mal também não. O rei deste capítulo não afogou ninguém com as próprias mãos, e a conta dele é do mesmo tipo: dispersa, incalculável, real.
O texto não formula nada disso. Ele apenas escreve “lhes”, no masculino, e deixa o leitor sem saber para onde o benefício foi.
7. Aplicações Práticas
A aplicação deste versículo é curta, e forçá-la seria enchimento.
O que o texto sustenta
Uma coisa: o que se conta a favor de alguém é o motivo, e não a habilidade com que ele se saiu da encrenca.
As parteiras se saíram bem da audiência. Deram uma resposta hábil e escaparam. O texto não guarda nada disso na hora de dizer por que Deus lhes fez bem: guarda o temor de Deus, que é o que estava lá antes de a encrenca começar.
É uma correção útil de perspectiva. A pessoa costuma julgar a si mesma pelo desempenho no momento difícil — a resposta que deu, a saída que encontrou, o quanto se saiu bem. O versículo põe o peso em outro lugar: no que a fez decidir, lá atrás, quando ninguém estava olhando.
O que não se sustenta
Não se tire daqui a promessa de que Deus dá família a quem age bem. O versículo relata o que aconteceu com duas pessoas; não formula regra, não estende garantia e não diz o que acontece com quem faz o mesmo em outra época.
E convém lembrar que nem sequer é seguro que a recompensa tenha sido para elas. O pronome está em disputa.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
“Casas” quer dizer que elas ganharam moradias?
Não. A palavra hebraica cobre o edifício, mas o sentido corrente em construções como esta é linhagem, descendência, dinastia. É a palavra da promessa a Davi em 2 Samuel 7:11.
Traduzir por “famílias”, como fez a nossa versão, comunica bem o sentido geral e apaga a ligação com aquela promessa e com o assunto do capítulo, que é justamente a continuidade de um povo.
Então elas tiveram filhos?
O texto não diz. Diz que Deus lhes fez casas, o que é mais amplo do que ter filhos. É provável que a maioria dos leitores antigos entendesse descendência, e essa continua sendo a leitura mais natural — mas o versículo escolheu a palavra ampla, e convém não estreitá-la por conta própria.
Por que o pronome está no masculino?
Não há explicação demonstrada, e é aí que a discussão começa. Duas saídas são propostas.
Uma: o beneficiário mudou, e as casas são de Israel. Outra: a troca de formas é usual no hebraico bíblico, e há caso documentado disso — a mesma cena narrada em 1 Reis 22:17 e em 2 Crônicas 18:16 traz uma vez a forma masculina e outra a feminina.
Não é possível decidir. Vale registrar que a nossa tradução, ao usar “lhes”, deixa a mesma indefinição aberta em português.
A identificação com Joquebede e Miriã é confiável?
É tradição judaica antiga, registrada no Talmude e repetida por Rashi, e não tem apoio no texto bíblico. Nada em Êxodo 1 sugere que as parteiras sejam a mãe e a irmã de Moisés, e Êxodo 2 apresenta as duas sem qualquer referência a este episódio.
Serve como testemunho de que leitores antigos entendiam “casas” como dinastias. Não serve como informação sobre quem eram Sifrá e Puá.
Se elas eram egípcias, a recompensa é ainda mais estranha?
Bastante. A ambiguidade do versículo 15 nunca é resolvida no capítulo, e se as parteiras forem egípcias, este versículo registra Deus fazendo casas para duas mulheres do povo opressor, por causa do temor que tiveram dele. O estudo de Êxodo 1:15 trata da questão.
9. Conexão com Outros Textos
A promessa em que “casa” quer dizer linhagem
2 Samuel 7:11 — “Também o SENHOR lhe faz saber que o SENHOR lhe fará uma casa.”
É o texto que fixa o sentido. Davi queria construir um templo para Deus, e Deus responde que fará uma casa para Davi — jogando com as duas acepções da palavra. O que ele promete é dinastia, e é isso que os capítulos seguintes desenvolvem.
1 Samuel 2:35 — “E eu suscitarei para mim um sacerdote fiel, que procederá segundo o meu coração e a minha alma; e eu lhe edificarei uma casa firme, e andará sempre diante do meu ungido.”
Mesma construção, mesmo sentido: casa edificada por Deus é sucessão que se mantém.
A bênção que se pede numa casa nova
Rute 4:11 — “O SENHOR faça a mulher que entra na sua casa como Raquel e como Lia, que ambas edificaram a casa de Israel.”
Aqui são duas mulheres que edificam uma casa — e o que edificam é um povo. É o paralelo mais próximo do nosso versículo, e ele mostra que a linguagem não é exclusivamente masculina.
O motivo, dito antes
Êxodo 1:17 — “Mas as parteiras temeram a Deus e não fizeram o que o rei do Egito lhes tinha ordenado: deixaram os meninos viver.”
A mesma razão, enunciada antes da audiência com o rei. Entre um versículo e outro está toda a cena discutida do capítulo, e a razão atravessa sem mudar.
O temor de Deus num estrangeiro
Gênesis 20:11 — “E disse Abraão: Porque eu dizia comigo: Certamente não há temor de Deus neste lugar, e me matarão por causa da minha mulher.”
O estudo daquele versículo desenvolve a expressão. A ligação com este capítulo é direta: ali, Abraão supõe que não há temor de Deus entre estrangeiros, e se engana; aqui, o temor de Deus aparece em duas mulheres cuja origem o texto nunca esclarece.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E, porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes deu famílias.
Texto hebraico
וַיְהִי כִּי־יָרְאוּ הַמְיַלְּדֹת אֶת־הָאֱלֹהִים וַיַּעַשׂ לָהֶם בָּתִּים׃
Transliteração
wayhi ki yare'u hamyalledot et-ha-Elohim, wayya'as lahem battim.
Análise palavra por palavra
וַיְהִי — wayhi, “e aconteceu”. Raiz hayah.
Fórmula de abertura muito comum na narrativa hebraica, usada para engatar um episódio no anterior; em português quase sempre se apaga, e a nossa versão a deixou implícita no “E”.
Aqui ela separa este versículo do anterior. O texto não escreve “Deus fez bem às parteiras, dando-lhes casas”: escreve duas frases, e esta começa do zero, com a razão na frente.
כִּי — ki, “porque”.
A partícula que carrega o sentido do versículo. Entre os muitos valores que ela tem em hebraico, aqui o valor é causal: introduz o motivo do que vem depois.
É o único enunciado de causa em toda a história das parteiras, e vale ter isso presente ao ler o capítulo.
יָרְאוּ — yare'u, “temeram”. Raiz yare.
Forma de ação concluída, terceira pessoa do plural. A raiz cobre desde o medo comum até a reverência religiosa, e o sentido em construções como esta está desenvolvido no estudo de Gênesis 20:11.
הַמְיַלְּדֹת — hamyalledot, “as parteiras”.
A mesma forma dos versículos 17, 18 e 20. Repare que o sujeito é explícito: o texto podia dizer só “porque temeram”, já que o verbo indica quem age. Ele repete “as parteiras” pela quinta vez no capítulo.
אֶת־הָאֱלֹהִים — et-ha-Elohim, “a Deus”.
Com artigo — literalmente “o Deus” —, exatamente como no versículo 17. No versículo 20, quando Deus é sujeito, a palavra vem sem artigo. A alternância entre as duas formas é discutida e não há consenso sobre uma distinção de sentido fixa.
וַיַּעַשׂ — wayya'as, “e fez”. Raiz asah.
O verbo geral de fazer, o mesmo que o rei usou no versículo 18 ao perguntar “por que vocês fizeram isso”. As parteiras fizeram uma coisa; Deus faz outra, com o mesmo verbo.
Note que não é “deu”. O hebraico diz fez casas para elas — construiu, produziu, edificou. A imagem é a de quem levanta alguma coisa, e é a mesma de 1 Samuel 2:35 e do Salmo 127:1.
לָהֶם — lahem, “a eles”, “a elas”.
Aqui está o problema do versículo.
A forma é de masculino plural. O feminino existe e é lahen — e é exatamente a forma usada no versículo 18, três versículos antes, sobre estas mesmas duas mulheres. O texto tem as duas formas à disposição e usa as duas neste capítulo.
Duas explicações disputam o lugar.
A primeira toma a gramática ao pé da letra: o masculino indica outro beneficiário, e as casas foram feitas para os israelitas, não para as parteiras. Nessa leitura, a recompensa pelo temor das duas foi derramada sobre o povo que elas preservaram.
A segunda observa que as duas formas se trocam no hebraico bíblico, e que o masculino plural frequentemente serve a grupos femininos. O caso mais limpo é este: em 1 Reis 22:17 e em 2 Crônicas 18:16, que narram a mesma cena com as mesmas palavras, aparece uma vez a forma masculina e outra a feminina — o que mostra que a alternância ocorre sem mudança de referente.
Não é possível decidir. A nossa tradução manteve “lhes”, que em português carrega a mesma indefinição.
בָּתִּים — battim, “casas”.
Plural de bayit, e esta é a palavra que a nossa versão traduziu por “famílias”.
O campo dela é largo e vale percorrê-lo:
— a construção: a casa de tijolo ou pedra, o edifício. É o sentido primeiro.
— o grupo doméstico: os que moram e trabalham juntos sob um chefe, incluindo parentes, agregados e servos. É a “casa de Abraão”, a “casa de Potifar”.
— a linhagem: a descendência que continua o nome. É a “casa de Davi”, a “casa de Eli”, a “casa de Israel”.
— o templo: a casa de Deus.
Em 1 Reis 9:1, Salomão termina de construir “a casa do SENHOR e a casa do rei”, e a segunda expressão vale ao mesmo tempo pelo palácio e pela dinastia — é a ambiguidade que Rashi aproveita ao ler este versículo.
A ocorrência decisiva para o nosso caso é 2 Samuel 7:11, onde Deus diz a Davi que lhe fará uma casa. Ali não há dúvida possível: Davi tinha palácio, e o que lhe é prometido é descendência no trono. A construção verbal é a mesma deste versículo.
Daí a perda que a tradução impõe. “Famílias” comunica o essencial, mas apaga a simetria: um capítulo inteiro sobre um Estado que tenta cortar a continuidade de um povo termina com Deus construindo continuidade para quem atravessou esse plano.
11. Conclusão
Três conclusões saem do que foi visto.
A primeira é sobre o motivo. O capítulo enuncia uma única causa, e a enuncia duas vezes com as mesmas palavras: as parteiras temeram a Deus. A repetição vem depois do interrogatório, e atravessa a cena mais discutida do capítulo sem mudar uma letra. Seja qual for a leitura que se faça da resposta dada ao rei, ela não entra na justificativa da recompensa.
A segunda é sobre o que a recompensa é. O hebraico diz casas, e casa naquela língua é linhagem — a mesma palavra da promessa feita a Davi. Isso põe o desfecho em correspondência exata com o problema do capítulo: um poder que tenta interromper a continuidade de um povo, e um Deus que constrói continuidade para quem o impediu. A nossa tradução diz “famílias”, e o leitor que se contentar com ela perde essa simetria.
A terceira é sobre o que fica aberto. O pronome está no masculino, e por isso não se sabe se as casas foram dadas às parteiras ou a Israel. Os dois argumentos são bons e nenhum decide. O versículo termina o episódio deixando indefinido justamente o ponto que a devoção mais gostaria de fechar — quem, afinal, foi premiado.
E fica o silêncio final: a Bíblia nunca mais menciona Sifrá e Puá. As duas únicas pessoas nomeadas neste capítulo saem dele sem que se saiba o que foi feito delas.













