As parteiras responderam a Faraó: “As mulheres hebreias não são como as egípcias; elas são vigorosas, e dão à luz antes que a parteira chegue.”
1. Introdução
Este é o versículo mais difícil do capítulo, e a dificuldade não está no hebraico. Está no que o texto faz e no que ele deixa de fazer.
As parteiras respondem ao rei com uma frase só, e a frase é hábil. Elas não negam que os meninos estejam vivos — o rei já sabe disso. Elas explicam por quê: as hebreias parem depressa demais, e quando a parteira chega já nasceu. Ninguém desobedeceu; só não deu tempo.
É uma resposta que não pode ser verificada. Nenhum egípcio estava naqueles partos.
Aqui começa o problema. O Êxodo relata a resposta e não a comenta. Não diz que elas mentiram, não diz que disseram a verdade, não põe adjetivo, não interrompe a narrativa para avisar o leitor de nada. No versículo seguinte, sem transição, informa que Deus lhes fez bem — e, no outro, diz por quê: porque temeram a Deus.
Entre a resposta e a recompensa não há uma palavra de avaliação. Esse vazio é o assunto deste estudo, e ele não vai ser preenchido aqui.
Quatro leituras disputam o lugar, e cada uma tem defensores de peso: que foi mentira pura e simples; que foi verdade parcial; que o texto aprova enganar um poder homicida; e que a recompensa está ligada ao temor de Deus, não à frase dita ao rei. As quatro serão expostas com o nome de quem as sustenta, e nenhuma será escolhida.
Há ainda uma palavra em disputa dentro da própria resposta. A nossa tradução diz “vigorosas”; o hebraico usa um termo cujo sentido é discutido há dois mil anos, e uma das leituras antigas ouve nele uma comparação com animais — dita pelas próprias hebreias a respeito de si mesmas, na boca de quem fala com o opressor. O item do original trata disso.
E fica o aviso que este versículo mais precisa: quem sair daqui com uma regra de conduta pronta saiu com mais do que o texto deu.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como a parteira chegava — e por que podia não chegar
A resposta das duas só funciona porque descreve uma situação corriqueira. Vale entender a rotina.
A parteira não morava com a família. Trabalhava no bairro, na aldeia, no grupo de casas, e era chamada quando o trabalho de parto começava. Alguém saía correndo, avisava, e ela vinha. O que essas mulheres sabiam e como trabalhavam está no estudo de Gênesis 35:17.
Entre o aviso e a chegada havia um intervalo, e o intervalo dependia de tudo: da distância, da hora, de haver outro parto em andamento, de quem conseguiu avisar. Chegar depois do nascimento era ocorrência conhecida de qualquer pessoa daquele mundo — inclusive de um egípcio.
É esse dado comum que a resposta transforma em álibi. Elas não inventam um fenômeno: pegam uma coisa que às vezes acontece e a apresentam como se acontecesse sempre.
A alegação é médica?
A frase afirma que mulheres hebreias parem mais rápido que egípcias. Convém examinar o que se pode dizer sobre isso sem inventar.
Partos muito rápidos existem e têm nome na obstetrícia — o parto precipitado, que se completa em menos de três horas. Não é raro. E há um fator bem estabelecido: mulher que já pariu várias vezes costuma parir mais depressa que a de primeiro filho, e a diferença pode ser de horas.
O que não se sustenta é a parte étnica da alegação. Não há base para atribuir a um povo, como característica, um parto mais rápido que o de outro povo. E a ideia corrente de que o trabalho braçal pesado acelera o parto é hipótese antiga e nunca demonstrada; os efeitos do esforço físico extremo sobre a gestação, quando aparecem, tendem para o lado contrário.
O ponto para a leitura do versículo é este: a alegação é plausível o bastante para ser aceita e vaga o bastante para não ser conferida. É assim que uma resposta desse tipo é construída.
Não havia como verificar
Este é o dado material que sustenta a cena inteira, e é fácil passar por cima dele.
Um parto acontecia dentro de casa, entre mulheres. Não havia autoridade presente, não havia registro do nascimento, não havia certidão, não havia hora anotada. A criança nascia, e o que se soubesse do nascimento era o que as mulheres presentes contassem.
Se o rei quisesse checar, teria de perguntar às mesmas hebreias cujos filhos ele mandou matar. Ele não tem prova disponível, e não é possível saber se percebeu isso.
A ideia que a resposta explora
Há um último elemento de fundo, e é o mais desagradável.
A frase é montada sobre uma comparação — as hebreias não são como as egípcias — e essa comparação não é neutra num palácio egípcio. O modo como o Egito via os povos estrangeiros, e o incômodo que registrava diante deles, está tratado no estudo de Gênesis 43:32.
Para este versículo basta reter a consequência: a resposta é convincente porque confirma o que o ouvinte já pensa. Ela não pede ao rei que mude de ideia sobre os hebreus — pede que ele continue com a ideia que tem, e tire dela a conclusão que interessa às duas.
Quem precisa enganar um poder desses trabalha com o material que o poder aceita. É por isso que a frase, na leitura antiga que ouve nela uma comparação com animais, é ao mesmo tempo eficaz e humilhante.
3. Análise Teológica do Versículo
“As parteiras responderam a Faraó”
A primeira observação é sobre o nome que o texto dá ao rei, e ela é pequena mas verificável.
Nos versículos 15, 17 e 18, quem age é “o rei do Egito”. É a designação de cargo, fria, institucional. Aqui, no momento exato em que as duas abrem a boca, ele passa a ser “Faraó” — e continua “Faraó” no versículo 22, quando dá a ordem final.
O que fazer com isso é discutido, e convém não forçar. “Faraó” é o modo egípcio de se referir ao rei, e é possível que o texto simplesmente use o termo da corte quando alguém fala com ele, e o termo descritivo quando fala dele. Não é possível decidir. Mas o dado é observável e vale registrar: a partir da resposta das parteiras, o rei do Egito deixa de ser um cargo e passa a ser um nome.
A segunda observação é sobre o que não acontece. Elas respondem. Não se calam, não pedem clemência, não confessam, não fogem. Duas mulheres sem cargo, diante de quem acabou de acusá-las de crime capital, produzem uma explicação técnica — e a produzem juntas, na mesma frase, o que sugere que estava combinada. O texto não diz que estava, mas as duas falam como uma só.
“As mulheres hebreias não são como as egípcias”
A frase começa pela comparação, e a ordem das palavras no hebraico põe as egípcias primeiro: não como as mulheres do Egito são as hebreias.
Isso importa. O padrão da comparação é a mulher egípcia — o que o rei conhece, o que a corte conhece, o normal. A hebreia entra na frase como desvio de um padrão que pertence ao ouvinte.
E repare no que a resposta faz com a acusação. O rei perguntou por que elas deixaram os meninos viver, isto é, perguntou por uma ação delas. Elas respondem falando das hebreias. O sujeito da frase é trocado: sai a conduta das parteiras, entra a natureza das parturientes. Não se defende quem foi acusado; desloca-se a causa para quem não está na sala.
É uma construção precisa. Ela não nega o fato — os meninos estão vivos, e negar isso seria absurdo. Ela concede o fato e disputa a causa.
“elas são vigorosas”
Está aqui a palavra que ninguém traduziu com tranquilidade em dois mil anos.
A nossa versão diz “vigorosas”, e é a escolha mais comum. Mas o termo hebraico é ambíguo, e as versões antigas mostram isso melhor que qualquer argumento: a tradução grega simplesmente apagou a palavra, deixando só “elas dão à luz antes”; a aramaica traduziu por “são peritas”, isto é, sabem partejar sozinhas; a latina seguiu o aramaico, dizendo que “elas mesmas têm a ciência de partejar”. Três traduções antigas, três soluções diferentes para uma palavra. O item do original hebraico examina o caso.
E há a leitura judaica antiga, registrada no Talmude e repetida por Rashi (rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido da Bíblia hebraica): que a palavra é a de “animais”, e que a frase compara as hebreias às feras do campo, que parem sem parteira.
Não é possível decidir qual é o sentido. O que se pode fazer é olhar para as consequências de cada um, e a da última é a mais dura.
Se a leitura antiga estiver certa, a frase que salva as crianças hebreias é uma frase que rebaixa as mulheres hebreias. Duas mulheres, para tirar de cima de si a acusação, dizem ao poder egípcio que as suas conterrâneas parem como bichos. E a frase funciona porque diz isso — é exatamente o tipo de coisa que aquele ouvinte acredita sobre aquela gente.
Vale ficar nesse desconforto sem resolvê-lo. Quem fala com um poder homicida fala a língua dele. O preço de ser acreditada, ali, é dizer a respeito do próprio povo aquilo que o inimigo já pensa. O texto não comenta isso, como não comenta nada nesta cena.
“e dão à luz antes que a parteira chegue”
Esta é a parte útil da resposta, e é uma pequena obra-prima de defesa.
Ela não afirma inocência. Não diz “nós não fizemos nada de errado”, não diz “nós não desobedecemos”, não diz “nós não pouparíamos ninguém”. Diz uma coisa só: quando chegamos, já tinha nascido.
Com isso, a acusação perde o objeto. Não se pode deixar de matar quem já nasceu e já está com a mãe, cercado de mulheres, numa casa cheia. A ordem do rei pressupunha um momento — o instante do parto, com a parteira presente, decidindo — e a resposta informa que esse momento não existiu.
Repare também que a frase é vaga onde precisa ser. Não diz quantos partos, não diz quais, não diz quando. Uma alegação assim não se refuta com um caso.
E ela deixa intacto o que o rei mais quer ouvir: que a sua ordem não foi contrariada. Ninguém no palácio precisa admitir que duas parteiras desobedeceram ao rei do Egito. Elas oferecem ao poder uma saída pela qual ele possa passar sem se ferir. É por isso que a resposta é aceita.
O que o texto faz em seguida: nada
Aqui está o centro deste versículo, e é preciso dizê-lo devagar.
A Bíblia hebraica sabe comentar quando quer. Ela escreve que uma coisa “foi má aos olhos do SENHOR”, escreve que alguém “fez o que era reto”, escreve que Deus se irou. Em Gênesis 38:7 informa que Er era mau e Deus o matou. Não é um texto mudo por incapacidade.
Aqui ele se cala. Relata a resposta das parteiras, ponto final, e o versículo seguinte começa: “E Deus fez bem às parteiras.” Não há “porém”, não há “apesar disso”, não há “embora tivessem mentido”, não há “e disseram a verdade”. Há uma frase, e depois outra frase.
Esse silêncio não é neutro nem é acidental — mas também não é aprovação. É silêncio. E é ele que abre espaço para as leituras que vêm a seguir, todas legítimas, nenhuma capaz de expulsar as outras.
Primeira leitura: foi mentira, e mentira é pecado
Esta é a posição da tradição rigorosa, e o seu representante mais claro é Calvino (João Calvino, reformador francês do século XVI). Comentando este versículo, ele diz que na resposta das parteiras há dois vícios: elas não confessaram a sua piedade com franqueza e, o que é pior, escaparam por meio de falsidade. E sobre a recompensa dos versículos seguintes, acrescenta que foi por indulgência paterna que Deus relevou a iniquidade delas e ainda assim as recompensou pela fé.
A definição estrita de mentira que sustenta essa posição — enunciar o que não se tem na mente, com vontade de enganar — está desenvolvida no estudo de Gênesis 27:24, e não se repete aqui.
A força desta leitura é que ela leva a sério o que o texto não diz: em nenhum lugar o Êxodo elogia a frase. A fraqueza é que ela também acrescenta algo que o texto não diz — a acusação.
Segunda leitura: foi verdade parcial
Esta é a saída de uma boa parte do comentário clássico em língua inglesa.
Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano e comentarista do século XIX) escreve que elas se refugiaram numa meia verdade, dando como geral o que de fato ocorria só em alguns casos. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) diz que a desculpa tinha base de fato e só era falsa por não ser a verdade inteira. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) sustenta que a alegação era verdadeira em alguns casos, ainda que não em todos.
A categoria da meia verdade — dizer algo verdadeiro para produzir uma conclusão falsa — está tratada no estudo de Gênesis 12:13, onde Abrão apresenta Sara como irmã.
A força desta leitura é factual: partos rápidos existem, e é provável que algum tenha mesmo acontecido sem a parteira. A fraqueza é que ela não responde à objeção clássica — se a finalidade da frase é fazer o rei acreditar em algo falso, a verdade das palavras isoladas não resolve.
Terceira leitura: enganar um poder homicida é lícito
Esta leitura tem duas fontes, e é honesto separá-las.
A primeira é uma categoria antiga da teologia moral, a da mentira que serve e não fere — a chamada mentira oficiosa, dita para proteger alguém e não para prejudicar. Foi invocada em favor das parteiras muitas vezes ao longo da história do comentário, e Calvino a menciona expressamente para rejeitá-la.
A segunda é o próprio conjunto da Bíblia. Há episódios em que se engana um poder que quer matar, e o texto não censura: Raabe esconde os espias e manda os perseguidores para o lado errado (Josué 2:4-6), e o Novo Testamento a elogia duas vezes sem uma palavra sobre a mentira; Mical põe um boneco na cama e diz que Davi está doente (1 Samuel 19:13-17); e em 1 Samuel 16:2, quando Samuel teme ser morto por Saul, é o próprio Deus quem lhe dá uma versão de cobertura para dar a quem perguntar.
A força desta leitura é que ela trabalha com textos, não com teoria. A fraqueza é que nenhum desses textos enuncia a permissão: eles narram casos e seguem adiante — o mesmo silêncio que estamos examinando, agora usado como argumento.
Quarta leitura: a recompensa é pelo temor de Deus, não pela frase
Esta é a leitura que se apoia na única razão que o texto de fato fornece.
O versículo 21 diz, com todas as letras, por que Deus fez bem às parteiras: porque temeram a Deus. Não diz “porque responderam bem ao rei”, não diz “porque foram espertas”, não diz “porque protegeram os meninos”. Diz o mesmo que o versículo 17 já tinha dito antes da audiência.
Ou seja: o motivo da recompensa está enunciado, e está enunciado fora desta cena. O que se recompensa é o que produziu a desobediência do versículo 17, e não a explicação dada no versículo 19.
É a leitura que cita o texto em vez de completá-lo, e isso é uma vantagem real. Mas ela também não fecha a questão — porque dizer por que Deus recompensou não é dizer o que Deus achou da frase. Sobre a frase, o texto continua sem dizer nada.
Por que isto não vira regra
As quatro leituras têm defensores sérios, e nenhuma delas elimina as outras. Este estudo não escolhe.
E há duas conclusões que precisam ser barradas, porque são as que mais aparecem e as duas tomam do texto mais do que ele tem.
A primeira é “mentir é permitido quando o motivo é bom”. O Êxodo não enuncia isso, não formula condição nenhuma, não distingue casos. Transformar um episódio sem comentário em permissão geral é escrever a lei que faltava.
A segunda é “elas não mentiram de verdade”. Também é acréscimo. O texto não certifica a resposta, e a operação de salvar a moral das parteiras às custas do sentido óbvio da frase é o mesmo movimento da primeira, invertido.
O que o capítulo entrega é isto: duas mulheres desobedeceram a uma ordem de matar, disseram ao rei uma frase que ele aceitou, e Deus lhes fez bem porque o temeram. Quem quiser mais do que isso terá de buscar em outro lugar, e dizer que está buscando em outro lugar.
O que o texto não diz
Não diz que Faraó acreditou. Diz que ele não fez nada — o que é diferente.
Não diz que as duas combinaram a resposta, embora falem juntas.
Não diz se tiveram medo.
Não diz se a alegação era verdadeira em algum caso.
Não diz o que aconteceu na sala depois da frase. A cena termina aí, sem despedida e sem sentença, e o versículo seguinte já está falando de Deus.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Faraó
É a primeira vez no capítulo que o rei é chamado assim numa cena com ele — antes o texto vinha dizendo “o rei do Egito”. O título é egípcio e designa originalmente o palácio, não a pessoa; a explicação da palavra está no estudo de Gênesis 12:15.
Nesta cena ele é o destinatário de uma frase e nada mais. Não responde, não decide, não pune. É o único versículo do capítulo em que o rei aparece e não age.
As parteiras
Sifrá e Puá continuam sem ser nomeadas desde o versículo 15. Aqui elas são as duas juntas, e falam com uma voz só — os verbos estão no plural feminino, e o texto não separa quem disse o quê.
Vale notar o que elas fazem de mais improvável: comparecem. Sabiam ao que iam. Podiam ter sumido, e o Egito é grande. Foram.
As mulheres hebreias
São o assunto da frase e não estão na sala. É delas que se fala, é sobre o corpo delas que se argumenta, e é a reputação delas que paga a conta da defesa das parteiras — se a leitura antiga da palavra “vigorosas” estiver certa.
O texto não registra que alguma delas tenha sabido o que foi dito no palácio a seu respeito.
As mulheres egípcias
Aparecem uma única vez em todo o capítulo, e só como termo de comparação. Servem para medir as outras.
É um detalhe pequeno com um efeito grande: a frase supõe que o egípcio no trono considere as suas mulheres o padrão do que é uma mulher. Provavelmente considerava.
O que aconteceu antes
O rei ordenou às parteiras que matassem os meninos ao nascer (Êxodo 1:16). Elas temeram a Deus e não obedeceram (Êxodo 1:17). Ele as convocou e perguntou por quê (Êxodo 1:18). Este versículo é a resposta.
O que vem depois é o que torna a cena um problema: Deus faz bem às parteiras (Êxodo 1:20) porque elas o temeram (Êxodo 1:21) — e sobre a resposta ao rei, silêncio.
5. Pontos de Ensino
Nem tudo o que a Bíblia narra a Bíblia aprova
É a lição mais útil deste versículo, e ela vale para o livro inteiro. O texto conta muitas coisas sem qualificá-las. Silêncio não é elogio, e ausência de castigo não é atestado de bom comportamento. Quem lê procurando aprovação em cada cena narrada vai encontrar aprovação para quase tudo.
O motivo declarado e o motivo suposto
O capítulo diz duas vezes por que as parteiras agiram como agiram: porque temeram a Deus. Não diz que se compadeceram, não diz que amavam crianças, não diz que odiavam o rei. É comum trocar o motivo escrito por outro que soa melhor — e isso é reescrever o texto, ainda que com boa intenção.
O preço da fala de quem não tem poder
Quem precisa convencer um poder que pode matá-lo argumenta com o que esse poder já acredita. A resposta das parteiras é eficaz porque confirma a opinião do rei sobre os hebreus. Vale reparar nisso todas as vezes que se lê um discurso feito de baixo para cima: a forma da fala é ditada por quem ouve.
Uma frase pode ser hábil sem ser modelo
A resposta é bem construída: concede o fato, desloca a causa, não se deixa verificar e oferece ao poderoso uma saída honrosa. Admirar a construção não é o mesmo que recomendar o uso. As duas coisas se confundem com facilidade em púlpito.
Uma questão em aberto continua em aberto
Quatro leituras sérias disputam este versículo há séculos, e a honestidade manda apresentá-las e parar. Ensinar bem inclui dizer “não é possível decidir” quando é o caso. O contrário — escolher uma leitura e apresentá-la como se fosse o texto — é o defeito mais comum na exposição desta passagem.
Cuidado com o uso prático
Este versículo não é fundamento para mentira de conveniência. A situação nele é uma ordem estatal de matar recém-nascidos. Quem transporta o caso para a vida comum trocou o assunto.
6. Aspectos Filosóficos
A quem se deve a verdade?
O problema que este versículo levanta não é “é permitido mentir”. É outro, anterior e mais estreito: a obrigação de dizer a verdade se dirige a qualquer um que pergunte?
Vale ver por que a pergunta é diferente da primeira.
Dizer a verdade não é uma operação solitária. Ela acontece entre duas pessoas e supõe um acordo tácito: eu pergunto porque quero saber, você responde porque a informação lhe pertence e me será útil. Todo o valor da palavra dada repousa nesse arranjo. É por isso que a mentira funciona — ela é parasita de um hábito de veracidade que os outros mantêm.
Agora considere uma pergunta feita com outra finalidade. O rei não quer informação sobre partos; quer saber se o extermínio está andando. A pergunta dele é peça de um mecanismo de matar, e a resposta verdadeira seria a peça seguinte.
Daí saem duas posições, e as duas são defensáveis.
A primeira sustenta que o dever não depende de quem pergunta. Quem admite a exceção a define; quem define a exceção decide, sozinho, quando o outro merece a verdade — e é sempre o mentiroso que faz esse julgamento, sempre a seu favor. Uma regra que só vale quando o julgamos merecido não é regra.
A segunda sustenta que a obrigação nasce da relação, e que aqui não há relação nenhuma. O rei não trata as parteiras como pessoas que sabem de algo: trata-as como instrumento defeituoso que precisa ser aferido. Quem já retirou o outro do rol das pessoas não pode invocar o direito de ser tratado como uma.
Não vou fingir que decido isto. Registro, porém, três coisas.
Uma: a definição clássica de mentira, tratada no estudo de Gênesis 27:24, não abre exceção pela intenção de quem pergunta — o que faz da segunda posição uma objeção à definição, não um caso previsto por ela.
Duas: a alternativa que costuma ser oferecida — “calar em vez de mentir” — não é neutra numa cena como esta. Diante de um interrogatório, o silêncio responde. Recusar-se a responder ao rei do Egito é confessar.
Três: seja qual for a resposta, ela não vem do Êxodo. O texto não a dá, e a discussão continua depois de fechado o livro.
7. Aplicações Práticas
Este versículo é dos que mais se prestam a aplicação abusiva, e por isso a primeira aplicação é uma advertência.
O que não se aplica
Nada aqui autoriza mentira de conveniência. A situação do versículo é um interrogatório sobre uma ordem de matar recém-nascidos. Transportar isso para a declaração de imposto, para a desculpa dada ao chefe ou para o que se conta em casa é trocar o caso por outro e ficar com a permissão.
E vale dizer o inverso com a mesma clareza: também não se tira daqui que qualquer palavra falsa arruína quem a diz. O texto recompensa as duas mulheres.
O que se aplica
Uma coisa se aplica sem forçar nada: a decisão difícil já tinha sido tomada antes desta cena.
As parteiras não decidiram nada diante do trono. Elas decidiram lá atrás, no primeiro parto depois da ordem, quando ninguém as observava. O que aparece no versículo 19 é só a administração da consequência.
Isso é útil e verificável na vida de qualquer pessoa. Ninguém age bem sob pressão máxima por causa da pressão máxima; age conforme o que já resolveu quando ainda não custava nada. A audiência com o rei não formou o caráter das duas — apenas cobrou o preço dele.
Uma segunda aplicação, mais desconfortável
Fazer a coisa certa pode custar a ter de se explicar mal. Quem desobedece a uma ordem injusta raramente tem a chance de fazer um discurso digno: tem de sair da sala inteiro, com o que estiver à mão.
Convém não idealizar o momento. Há quem imagine que a coragem sempre encontra a frase bonita. Aqui ela encontrou uma frase discutível, e o texto não a corrigiu.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Faraó acreditou?
O texto não diz. Diz que ele não fez nada contra elas — e isso é menos do que acreditar.
É possível que tenha acreditado; é possível que tenha percebido a manobra e concluído que não valia a pena gastar duas profissionais úteis; é possível que já estivesse decidido a mudar de método. O versículo 22 mostra que ele muda de método, e essa é a única pista disponível. Não permite decidir.
Deus recompensou uma mentira?
Esta é a pergunta que traz as pessoas a este versículo, e a resposta honesta é que o texto não a formula assim.
O que está escrito é que Deus fez bem às parteiras porque temeram a Deus. A frase dita a Faraó não aparece na justificativa. Quem responde “sim, recompensou a mentira” acrescenta uma ligação que o texto não faz; quem responde “não, recompensou apesar dela” acrescenta uma ressalva que o texto também não faz.
A discussão continua legítima. Ela apenas não se decide com esta passagem.
Se elas eram egípcias, a frase muda de sentido?
Muda bastante, e é um dos motivos pelos quais a questão do versículo 15 — se são “as parteiras hebreias” ou “as parteiras das hebreias” — não é detalhe. O estudo daquele versículo trata dela.
Registre-se só o efeito aqui: se forem egípcias, a frase “as hebreias não são como as egípcias” é dita de fora, sobre outro povo, por quem pertence ao povo do rei. Se forem hebreias, é dita sobre as próprias conterrâneas. A dureza é diferente nos dois casos, e não é possível decidir qual é o caso.
Por que elas não disseram simplesmente a verdade?
O texto não explica, e o leitor moderno tende a subestimar a pergunta. A verdade ali seria: “nós desobedecemos deliberadamente à sua ordem e vamos continuar desobedecendo.” Não é uma confissão que se faça e se saia andando.
Vale notar, porém, que a Bíblia registra confissões desse tipo. Em Daniel 3:18, três homens dizem ao rei que não vão adorar a estátua, aconteça o que acontecer — e vão para a fornalha. O caminho existia. As parteiras não o tomaram, e o texto não as censura por isso nem as elogia.
A alegação delas era verdadeira?
Em parte, provavelmente. Partos rápidos acontecem, e uma parteira chamada de fora chega atrasada às vezes. O que não tem base é a generalização étnica: não há razão para supor que mulheres de um povo pariam sistematicamente mais rápido que as de outro.
Elas voltaram a atender partos depois disso?
O texto não diz. Nada indica o que elas fizeram da vida depois desta audiência.
Por que o Êxodo não comenta?
Não há resposta demonstrável, e é bom desconfiar de quem tem uma.
O que se pode observar é que o silêncio é o modo normal da narrativa hebraica: ela mostra e raramente explica. E que aqui o silêncio produz um efeito específico — força o leitor a decidir sozinho, e a perceber que está decidindo.
9. Conexão com Outros Textos
O caso mais próximo: Raabe
Josué 2:4-5 — “A mulher, porém, tomou os dois homens e os escondeu; e disse: É verdade que dois homens vieram a mim, mas eu não sabia de onde eram. E, havendo-se de fechar a porta, sendo já escuro, aqueles homens saíram; não sei para onde foram. Corram atrás deles depressa, porque vocês os alcançarão.”
A estrutura é a mesma: um poder que quer matar pergunta; a mulher que escondeu responde algo falso; o texto relata e não comenta.
E o Novo Testamento volta ao caso duas vezes, sem tocar no assunto da mentira:
Hebreus 11:31 — “Pela fé, Raabe, a prostituta, não pereceu com os incrédulos, tendo recebido os espias em paz.”
Tiago 2:25 — “E do mesmo modo Raabe, a prostituta, não foi também justificada pelas obras, quando recolheu os mensageiros e os despediu por outro caminho?”
Repare que Tiago menciona justamente a parte enganosa — despedi-los por outro caminho — e a chama de obra.
Deus fornecendo uma versão de cobertura
1 Samuel 16:2 — “Disse, porém, Samuel: Como irei eu? Pois, ouvindo-o Saul, me matará. Então disse o SENHOR: Leve com você uma bezerra das vacas e diga: Vim para sacrificar ao SENHOR.”
É o texto mais incômodo do conjunto, e é preciso lê-lo sem exagerar. Samuel de fato ia sacrificar; a frase é verdadeira e incompleta. Mas a sua finalidade declarada é impedir que Saul saiba o motivo real da viagem, e quem a sugere é Deus.
A mulher que mente para salvar um perseguido
1 Samuel 19:14 — “Enviando Saul mensageiros a tomar Davi, ela disse: Está doente.”
Mical põe um boneco na cama e mente aos enviados do próprio pai. O texto registra e segue.
A contraprova, que é obrigatória
Sem estes textos o argumento vira militância, e não estudo.
Êxodo 20:16 — “Não darás falso testemunho contra o teu próximo.”
Levítico 19:11 — “Não furtarão, nem mentirão, nem usarão de falsidade cada um com o seu próximo.”
Provérbios 12:22 — “Os lábios mentirosos são abomináveis ao SENHOR, mas os que agem fielmente são o seu prazer.”
Vale reparar em algo que costuma passar batido: os dois primeiros textos são explicitamente sobre o próximo, o membro da mesma comunidade. Isso não resolve o caso das parteiras, mas mostra que a proibição, na sua formulação legal, é enunciada dentro de uma relação — o que é exatamente o ponto que o item filosófico deste estudo discute.
A confissão aberta, que também existe
Daniel 3:18 — “E, se não, fique sabendo, ó rei, que não serviremos aos seus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que levantou.”
O caminho oposto ao das parteiras, diante de um rei igualmente disposto a matar. A Bíblia registra os dois, e não os hierarquiza.
O eco no capítulo
Êxodo 1:21 — “E, porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes deu famílias.”
É o único versículo que dá uma razão para o desfecho, e a razão que ele dá não menciona a resposta ao rei.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
As parteiras responderam a Faraó: “As mulheres hebreias não são como as egípcias; elas são vigorosas, e dão à luz antes que a parteira chegue.”
Texto hebraico
וַתֹּאמַרְןָ הַמְיַלְּדֹת אֶל־פַּרְעֹה כִּי לֹא כַנָּשִׁים הַמִּצְרִיֹּת הָעִבְרִיֹּת כִּי־חָיוֹת הֵנָּה בְּטֶרֶם תָּבוֹא אֲלֵהֶן הַמְיַלֶּדֶת וְיָלָדוּ׃
Transliteração
wattomarna hamyalledot el-Paroh: ki lo khannashim hammitsriyyot ha-ivriyyot, ki chayot hennah; beterem tavo alehen hamyalledet weyaladu.
Análise palavra por palavra
וַתֹּאמַרְןָ — wattomarna, “e elas disseram”. Raiz amar.
Forma da terceira pessoa do feminino plural, reconhecível pela terminação -na. O hebraico marca o gênero no verbo, e aqui não há dúvida possível: quem fala é um grupo de mulheres.
Um verbo singular, para duas pessoas, com uma frase só. O texto não distribui a fala entre Sifrá e Puá.
אֶל־פַּרְעֹה — el-Paroh, “a Faraó”.
Aqui o rei deixa de ser melekh Mitsrayim, “rei do Egito”, como nos versículos 15, 17 e 18, e passa a ser Paroh, forma hebraica do título egípcio. A troca e o que se pode tirar dela estão no item da análise teológica.
כִּי — ki, “porque”.
Partícula muito frequente, de sentidos vários: porque, que, pois, quando, certamente. Aqui abre a resposta à pergunta “por quê” do versículo anterior — e reaparece logo adiante, abrindo a segunda razão. A resposta inteira é construída sobre dois ki: porque as hebreias não são como as egípcias, porque são chayot.
לֹא כַנָּשִׁים הַמִּצְרִיֹּת — lo khannashim hammitsriyyot, “não como as mulheres egípcias”.
A ordem das palavras no hebraico coloca o termo de comparação na frente e o sujeito no fim: “não como as mulheres egípcias [são] as hebreias”. Quem começa a frase é o Egito.
הָעִבְרִיֹּת — ha-ivriyyot, “as hebreias”.
Forma feminina plural de ivri, o nome pelo qual os israelitas são designados quando vistos de fora, sobretudo por egípcios.
Vale notar que esta é a mesma palavra que, no versículo 15, colada a “parteiras”, produz a dupla leitura possível — “as parteiras hebreias” ou “as parteiras das hebreias”. Aqui ela está sozinha, sem ambiguidade nenhuma: são as mulheres hebreias que dão à luz.
כִּי־חָיוֹת הֵנָּה — ki chayot hennah, “porque elas são chayot”.
Esta é a palavra em disputa, e a disputa é antiga. Vale expor o caso inteiro.
O problema é de raiz. As letras admitem duas famílias de sentido, ambas ligadas ao verbo chayah, viver:
— um adjetivo, chayeh, “vivo”, “cheio de vida”, “vigoroso”. Nesse sentido, a forma deste versículo é praticamente única na Bíblia hebraica.
— um substantivo, chayyah, “ser vivo”, e daí “animal”, “fera”. O plural é o mesmo chayot — a palavra que aparece, por exemplo, em “feras do campo”.
As consoantes não decidem entre as duas. O contexto também não, e é por isso que as traduções antigas divergem tanto — e a divergência delas é o melhor testemunho de que o problema não é moderno.
A tradução grega apagou a palavra. A Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.) não traduz chayot: escreve apenas que as hebreias “dão à luz antes que as parteiras cheguem a elas”. Diante da dificuldade, suprimiu.
A tradução aramaica leu “peritas”. O Targum de Onquelos (a versão aramaica antiga da Torá, de uso corrente nas sinagogas) traduz chakiman innun, “elas são sábias, entendidas”. E há um detalhe que explica a escolha: em aramaico, a palavra para parteira é chayata, da mesma raiz. Lida com ouvidos aramaicos, a frase diz que as hebreias são elas mesmas parteiras.
A tradução latina seguiu o aramaico. A Vulgata (versão latina de Jerônimo, do século IV) escreve ipsae enim obstetricandi habent scientiam — “pois elas mesmas têm a ciência de partejar”.
Rashi registra as duas leituras. Comentando o versículo, ele explica chayot como “peritas como parteiras”, apoiado justamente no aramaico. E acrescenta que os rabinos leram de outro modo, tomando a palavra no sentido de animais: as hebreias seriam comparadas às feras do campo, que não precisam de parteira. A leitura está registrada no Talmude, no tratado Sotá, e Rashi a sustenta lembrando que as tribos de Israel são descritas por imagens de animais em Gênesis 49 — Judá leão, Benjamim lobo, Naftali corça — e que Ezequiel 19:2 pergunta “que leoa era sua mãe”.
O comentário moderno tende ao primeiro sentido. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) traduzem por “vigorosas”, mulheres de muita energia vital, e é essa a escolha da maioria das versões em português, inclusive a nossa.
Não é possível decidir. O que se pode afirmar com segurança é que a palavra era um problema já no século III antes de Cristo, e que cada solução antiga produz um sentido diferente para a cena: mulheres fortes, mulheres que se viram sozinhas, ou mulheres como bichos.
הֵנָּה — hennah, “elas”.
Pronome de terceira pessoa do feminino plural, usado aqui como sujeito de uma frase sem verbo — construção normal em hebraico, que dispensa o verbo ser.
בְּטֶרֶם — beterem, “antes que”.
Locução que introduz o que ainda não aconteceu no momento de referência. É a mesma de Gênesis 2:5, sobre a terra antes das plantas, e de Jeremias 1:5, “antes que eu o formasse no ventre”.
תָּבוֹא אֲלֵהֶן הַמְיַלֶּדֶת — tavo alehen hamyalledet, “chega a elas a parteira”.
Aqui há um detalhe que se perde na tradução: hamyalledet está no singular. Em todo o resto do capítulo a palavra vem no plural, “as parteiras”; nesta frase é “a parteira”, uma só.
É o singular genérico, o que descreve uma classe pela unidade — como quem diz “o médico chega depois”. O efeito é despersonalizar: elas não estão falando de si mesmas, estão falando de uma figura profissional qualquer. Saem da frase enquanto pessoas e entram nela como categoria.
וְיָלָדוּ — weyaladu, “e já deram à luz”. Raiz yalad.
É a mesma raiz de “parteira”, que fecha a frase com a palavra que a abriu — a que faz parir e a que pariu.
A forma é de ação concluída, terceira pessoa do plural. Em português a tradução pede um mais-que-perfeito ou um advérbio: quando a parteira chega, já nasceu. O fato está consumado antes que a profissional entre em cena — que é precisamente o que a defesa precisa estabelecer.
11. Conclusão
Do que foi visto, quatro conclusões.
A primeira é sobre a resposta em si. Ela é uma peça bem construída: concede o que não pode ser negado, transfere a causa para quem não está presente, apoia-se num fato corriqueiro, não oferece nada que se possa conferir e permite ao rei encerrar o assunto sem admitir que foi desobedecido. Reconhecer a habilidade dessa construção é parte de ler o versículo — e não é o mesmo que recomendá-la.
A segunda é sobre o custo da frase. Se a leitura antiga da palavra “vigorosas” estiver certa, e não é possível decidir se está, a defesa das parteiras foi comprada com uma humilhação das mulheres do próprio povo. Quem fala com um poder homicida usa a língua que esse poder entende. O texto não comenta, e o desconforto fica.
A terceira é sobre o silêncio. O Êxodo não avalia a resposta. Não a chama de mentira, não a chama de verdade, não interrompe a cena para instruir ninguém. Quatro leituras sérias ocupam esse vazio há séculos — Calvino, os comentaristas ingleses da meia verdade, a tradição da mentira que protege, e a leitura que se prende ao motivo declarado — e nenhuma delas consegue expulsar as outras, porque nenhuma delas está no texto.
A quarta é a que mais importa na prática. Deste versículo não sai norma de conduta. Nem a permissão de mentir por boa causa, nem a garantia de que as parteiras não mentiram. As duas conclusões acrescentam ao texto exatamente aquilo que ele se recusou a fornecer, e a recusa é o dado.
O que resta é o que está escrito, e é bastante: duas mulheres não mataram as crianças que lhes mandaram matar, disseram ao rei uma frase que ele aceitou, e Deus lhes fez bem — porque o temeram.













