E, durante o parto difícil, a parteira lhe disse: "Não tenha medo, pois também desta vez você terá um filho."
1. Introdução
A única voz da cena é a de uma mulher sem nome.
Jacó não fala. Raquel não fala. Quem fala é a parteira, e o que ela diz são nove palavras no hebraico: não tenha medo, também desta vez você terá um filho.
Três pontos organizam a leitura.
O primeiro é quem diz. A parteira é uma profissional, e o ofício dela era reconhecido e necessário naquele mundo. A frase dela não é consolo improvisado: é o que se dizia numa hora daquelas.
O segundo é "não tenha medo", fórmula que, no Antigo Testamento, quase sempre sai da boca de mensageiros divinos. Aqui sai da boca de uma parteira, no meio de um parto que está matando a paciente.
O terceiro é "também desta vez você terá um filho". É a resposta exata ao pedido que Raquel fizera em Gênesis 30:24, quando nasceu José. Ela pediu mais um filho. Está recebendo.
O texto não registra reação nenhuma dela. O versículo seguinte diz que a alma lhe saiu.
2. Contexto Histórico e Cultural
A parteira, um ofício antigo
Havia mulheres que faziam disso profissão, e a Bíblia as menciona pelo nome do ofício.
O termo hebraico é um particípio: literalmente, "aquela que faz parir". Não designa uma parenta que ajuda, e sim quem exerce a função — do mesmo modo que se diz oleiro ou tecelão.
O que essas mulheres sabiam vinha de experiência acumulada e transmitida: posição da criança, manobras para corrigi-la, sinais de complicação, corte e amarração do cordão, ervas para dor e para sangramento. Em Ezequiel 16:4, o profeta descreve os cuidados de rotina com o recém-nascido — cortar o cordão, lavar, esfregar com sal, enfaixar —, o que mostra que havia procedimento estabelecido.
Elas atendiam a família e a vizinhança, e a sua palavra tinha autoridade numa hora em que ninguém mais sabia o que fazer.
O que a Bíblia registra sobre elas
Três episódios, e todos com parteiras em posição de destaque.
Em Gênesis 38:28, a parteira que assiste Tamar amarra um fio vermelho na mão do gêmeo que aparece primeiro — decisão que definia a primogenitura e, portanto, a herança. É ela quem faz o registro.
Em Êxodo 1:15-21, Sifrá e Puá desobedecem à ordem do faraó de matar os meninos hebreus, mentem para ele e são recompensadas por isso. São dos poucos personagens do Antigo Testamento cujo ato de desobediência a uma autoridade é aprovado sem ressalva.
E aqui, a parteira anônima que fala com Raquel.
O que os três casos têm em comum é a autoridade prática dessas mulheres num momento em que ninguém mais podia agir. Elas decidem, registram e falam.
Como se dava à luz
Não deitada. A posição usual era sentada ou agachada, apoiada em pedras ou num assento próprio.
Êxodo 1:16 menciona esse assento — o hebraico usa uma palavra que designa um par de pedras ou de suportes, e a mesma palavra aparece em Jeremias 18:3 para a roda dupla do oleiro. Representações egípcias mostram a parturiente agachada sobre tijolos, com assistentes de cada lado.
A gravidade atua a favor nessa posição, e a parteira trabalha de frente. Outras mulheres seguravam a parturiente e a mantinham de pé quando as forças acabavam.
Nada disso aparece no versículo. Ele registra só a fala. Mas é essa a cena material em que a fala acontece: uma mulher sustentada por outras, numa parada de estrada, e uma profissional trabalhando na frente dela.
Por que anunciar que é um filho homem
A frase da parteira dá uma informação específica, e convém entender por que ela valeria como consolo.
Naquela sociedade, o filho homem garantia continuidade do nome, herança da terra e proteção da mãe na viuvez e na velhice. A mulher que dava filhos homens tinha posição assegurada dentro da casa; a que não dava, não.
No caso de Raquel, o dado é ainda mais pesado. Ela havia passado anos estéril enquanto a irmã tinha filho atrás de filho, e a disputa entre as duas está registrada em Gênesis 30:1-24. Cada filho contava na aritmética dessa casa.
Convém registrar a distância entre aquele mundo e o nosso sem julgar nenhum dos dois. O que a parteira diz é a melhor notícia disponível no vocabulário dela.
O que se dizia na hora do parto
A frase tem paralelo quase exato em outro texto, e a coincidência é reveladora.
Em 1 Samuel 4:20, a nora de Eli entra em trabalho de parto ao saber da morte do marido e da captura da arca. As mulheres que a assistem lhe dizem: "Não tenha medo, porque deu à luz um filho." Ela não responde nem presta atenção — o texto diz isso com todas as letras — e morre.
A semelhança entre os dois episódios é grande demais para ser acaso. É provável que se trate de uma fórmula fixa, o que se dizia a uma mulher em parto difícil. E nos dois casos ela é dita a quem está morrendo.
3. Análise Teológica do Versículo
"E, durante o parto difícil"
O versículo abre repetindo a expressão com que o anterior terminou.
O hebraico usa aqui a mesma raiz, agora em outra forma verbal, e emenda o mesmo complemento: no seu dar à luz. É a segunda vez em duas linhas.
Essa repetição faz o trabalho que os adjetivos fariam. O Gênesis não escreve que o sofrimento foi terrível, não descreve o que acontecia, não usa uma palavra de comoção. Diz "difícil" duas vezes seguidas, e é assim que se sabe.
Há também um efeito de tempo. A frase indica que o que se conta acontece durante — não depois, não no fim. A parteira fala com o parto em curso, quando ainda não se sabe o desfecho.
"a parteira lhe disse"
É a única fala humana desta cena, e vem de uma personagem que aparece uma vez e desaparece.
Vale medir o silêncio em volta. Jacó não diz nada em todo o episódio — nem aqui, nem quando a mulher morre, nem quando ele troca o nome da criança no versículo seguinte, ato que o texto registra sem lhe atribuir palavra. Raquel dirá uma coisa só, e será um nome.
Quem fala é a profissional. E ela fala no exercício do ofício: é a pessoa que está com as mãos no problema.
O texto não a nomeia. Isso é normal no Gênesis, que raramente nomeia figuras de função — e vale notar, sem forçar, que o livro nomeou a ama de Rebeca oito versículos antes, em Gênesis 35:8, e não nomeia esta.
"Não tenha medo"
A fórmula é conhecida e o uso dela aqui é digno de nota.
No Antigo Testamento, "não tema" é quase sempre fala de Deus ou de mensageiro dele. Abraão a ouve em Gênesis 15:1, Agar em Gênesis 21:17, Isaque em Gênesis 26:24, Jacó em Gênesis 46:3. É a abertura padrão de um anúncio divino.
Aqui quem diz é uma parteira, e não há nenhum sinal de que ela fale em nome de alguém. É linguagem de encorajamento comum, provavelmente a fórmula que se usava em trabalho de parto, como sugere o paralelo de 1 Samuel 4:20.
Duas leituras circulam sobre isso. Uma vê aqui um eco deliberado da fórmula divina, como se o consolo humano imitasse o consolo de Deus. Outra observa que a expressão é corrente e não precisa carregar peso religioso.
Não é possível decidir. O que se pode registrar é a diferença de resultado: nas cenas em que Deus diz "não tema", segue-se uma promessa que se cumpre. Aqui, segue-se a morte.
E há um detalhe que a leitura atenta não deve perder. O medo que a parteira tenta afastar não é nomeado. Medo de quê? De morrer? De perder a criança? O texto não diz, e as duas possibilidades mudam o sentido da frase.
"pois também desta vez você terá um filho"
Esta é a parte que faz o versículo doer, e ela só funciona para quem lembra do capítulo 30.
Quando José nasceu, Raquel disse duas coisas. Primeiro, que Deus tinha tirado a sua vergonha. Depois, em Gênesis 30:24, ao dar o nome: "O SENHOR me acrescente ainda outro filho." O nome José vem daí — de acrescentar.
Ela pediu mais um. E é exatamente isso que a parteira anuncia agora: também desta vez, um filho.
A expressão hebraica traduzida por "também desta vez" é enfática e aponta para trás. Não é apenas "mais um": é "este também", com o outro em mente. Quem ouvia entendia a referência.
O que se tem, então, é um pedido atendido literalmente. Ela quis outro filho; tem outro filho. E morre nisso.
Convém não transformar o dado em lição. O texto não diz que ela foi punida pelo pedido, não sugere que tenha pedido demais, não faz nenhuma advertência sobre desejos. Registra o pedido no capítulo 30 e o cumprimento aqui, e não comenta a distância entre uma coisa e outra.
Mas o registro é deliberado. A escolha das palavras — "também desta vez" — traz o pedido antigo para dentro da cena, e quem escreveu sabia o que estava fazendo.
O consolo que não alcança
Vale reparar no que a parteira oferece e no que a situação exige.
Ela oferece a melhor notícia que tem: é menino, deu certo, você conseguiu. É a resposta ao problema da vida inteira de Raquel.
Só que o problema da hora é outro. A mulher está morrendo, e nenhum filho resolve isso. A boa notícia é verdadeira e chega no momento em que ela vale menos.
O texto não registra resposta. Raquel não agradece, não se anima, não diz nada. A única coisa que ela fará é dar um nome, e o nome que ela escolhe — no versículo seguinte — não tem nada a ver com o que a parteira acabou de dizer.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
A parteira
Sem nome, sem origem, sem outra aparição. Faz parte da comitiva ou foi encontrada no caminho — o texto não esclarece.
O mais provável, dado o tamanho da casa de Jacó, é que viajasse com o grupo. Uma comitiva com quatro mulheres em idade fértil e muitos servos teria alguém com essa função.
A ela cabe a única fala da cena, e é uma fala de encorajamento dita enquanto trabalha.
Raquel
A mesma mulher que pediu filhos ao ponto de dizer que morreria sem eles, em Gênesis 30:1, e que pediu mais um ao nascer José, em Gênesis 30:24.
Neste versículo ela é objeto e não sujeito: alguém fala com ela. A última ação dela virá no versículo seguinte, e será nomear.
José
Presente no versículo pela referência implícita. O nome dele significa "acrescente", e vem do pedido que a parteira agora anuncia cumprido.
Ele tem, neste ponto, cerca de doze anos. Está na comitiva, e o irmão que nasce será o único do lado materno.
Sifrá, Puá e a parteira de Tamar
Trazidas por comparação de ofício, não por ligação com a cena.
Sifrá e Puá aparecem em Êxodo 1:15-21, desobedecendo ao faraó. A parteira de Gênesis 38:28 decide o registro da primogenitura dos gêmeos de Tamar com um fio vermelho.
Juntas com esta, formam o pequeno conjunto de mulheres a quem a Bíblia atribui autoridade prática em cena de nascimento.
A nora de Eli
Citada por causa do paralelo verbal. Em 1 Samuel 4:19-22 ela entra em parto ao receber notícia terrível, ouve das mulheres quase a mesma frase deste versículo, não responde, dá um nome ao filho e morre.
A semelhança de estrutura entre os dois relatos é grande, e sugere fórmula fixa em vez de coincidência.
5. Pontos de Ensino
Quem trabalha é quem fala
Numa cena com um patriarca, uma matriarca e a promessa de Deus fresca no ouvido de todos, a única voz é a de uma profissional anônima.
O Gênesis dá a fala a quem está com as mãos no problema. Não há discurso, não há oração registrada, não há intervenção do chefe da casa.
Isso vale como observação sobre onde o texto põe a competência: na pessoa que sabe fazer, não na que tem posição.
A repetição no lugar do adjetivo
Duas vezes "difícil", em duas linhas, e nenhuma palavra de comoção.
É recurso de quem confia no leitor. E é mais eficaz do que a descrição: o que não se descreve, cada um preenche com o que sabe.
O pedido atendido no pior momento
Ela pediu outro filho. Recebe outro filho. Não há nada de irônico no texto, e o resultado é assim mesmo.
O que se pode reter é apenas isto: o cumprimento de um desejo chega no momento em que chega, e ninguém controla as condições. Transformar o dado em advertência contra pedir seria acrescentar ao versículo uma moral que ele não tem.
Consolar com o que se tem
A parteira oferece a melhor notícia disponível, e ela não serve.
Não há culpa nisso — ela disse o que havia para dizer. Mas o versículo mostra, sem comentar, que existe situação em que a boa notícia não alcança, e que insistir nela não muda nada.
É observação útil para quem se vê diante de alguém em sofrimento grave e sente a obrigação de dizer algo positivo.
O silêncio de quem recebe
Raquel não responde. O texto não registra gratidão, alívio ou reação.
Isso não é julgado. O Gênesis não cobra dela uma resposta adequada, e o comentário também não deve. Há horas em que não há resposta.
6. Aspectos Filosóficos
O que se diz a quem está morrendo
A cena põe uma questão simples e difícil: o que dizer a alguém em situação irreversível?
A parteira escolhe a boa notícia. É honesta — o filho nasceu, e é homem —, é relevante para a história daquela mulher, e é a única coisa positiva disponível no momento. Do ponto de vista de quem fala, é a melhor escolha possível.
E não funciona. O texto não registra efeito nenhum sobre Raquel.
Vale examinar por quê, porque a razão não é falha da parteira. A frase responde a uma pergunta que já não é a pergunta. Durante anos, o problema de Raquel foi ter filhos; agora o problema é morrer. Uma resposta certa para a questão antiga não toca a questão nova.
Há um segundo motivo, e é mais desconfortável. Palavras de encorajamento supõem futuro: elas dizem que vai passar, que vai dar certo, que vale a pena aguentar. Para quem não tem futuro, esse tipo de frase perde o apoio. Ela continua verdadeira e deixa de ser útil.
O que sobra? O versículo não responde, e é honesto nisso. Mas registra uma coisa: a parteira estava lá. Ela não abandonou a cena, não se calou por não ter o que dizer, não fugiu do incômodo. Disse o que tinha e continuou trabalhando.
Talvez seja esse o dado aproveitável, e convém marcá-lo como leitura do comentarista: numa situação em que nenhuma frase resolve, a presença de quem fica ainda é alguma coisa — e é a única que o texto registra.
7. Aplicações Práticas
Não exigir de si a frase certa
Diante de uma perda grave, a pressão para dizer algo adequado é enorme, e quase sempre produz frase ruim.
A parteira diz a melhor coisa que tem e não resolve nada. O texto não a culpa por isso. Quem estiver na mesma posição pode aceitar que não existe formulação capaz de mudar o quadro — e que o esforço para encontrá-la costuma servir mais a quem fala do que a quem ouve.
Na prática: dizer pouco, dizer verdade, e ficar.
Ficar é a parte que depende de quem está fora
A única coisa que a parteira efetivamente controla é a presença dela.
O desfecho não estava em suas mãos; a permanência estava. E é isso que sobra quando nada mais pode ser feito.
Vale para quem acompanha doença longa, luto e situações em que não há solução. O impulso de sumir por não ter o que oferecer é comum, e este versículo mostra que estar ali já é o que se pode oferecer.
Reconhecer o trabalho de quem faz
A única voz da cena é a de alguém que exerce um ofício e é chamada apenas pela função.
Há uma observação prática nisso, e ela vale para hospitais, obras, cozinhas e qualquer lugar em que o resultado dependa de quem trabalha com as mãos. A competência que decide o momento raramente é a que aparece.
Cuidado com o consolo que responde à pergunta errada
A boa notícia da parteira responde ao drama antigo de Raquel, e não ao que está acontecendo agora.
Isso é comum e passa despercebido: consola-se alguém com o assunto que a gente conhece dela, e não com o que ela está vivendo. Vale perguntar antes de responder.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que a parteira não tem nome?
O Gênesis raramente nomeia personagens de função, e não explica as exceções.
Vale notar que o mesmo capítulo nomeou a ama de Rebeca em Gênesis 35:8 e registrou a morte dela com detalhe. Não há como saber por que uma foi nomeada e a outra não. Qualquer explicação é hipótese.
"Não tenha medo" tem peso religioso aqui?
É discutido, e o item 3 apresenta as duas leituras.
A favor do peso religioso está a frequência da fórmula em anúncios divinos. Contra, está o fato de a expressão ser corrente e aparecer em contexto idêntico em 1 Samuel 4:20, também na boca de mulheres que assistem um parto. Não é possível decidir.
Raquel ouviu?
O texto não diz.
Não registra resposta, gesto ou reação. O único ato dela vem no versículo seguinte, e é dar um nome que não dialoga com o que a parteira falou. Se isso significa que não ouviu, que ouviu e não se consolou, ou que o texto apenas não se interessa pela reação, permanece em aberto.
A parteira sabia que Raquel ia morrer?
Nada indica que sim.
A fala é de encorajamento, o que sugere que ela ainda contava com um desfecho melhor. Uma leitura possível é que a frase tenha sido dita justamente porque a situação parecia se resolver — a criança nasceu, e o pior parecia ter passado.
Por que o anúncio é de um filho homem e não da criança em geral?
Porque era essa a informação que valia como boa notícia naquele mundo, pelas razões que o item 2 expõe.
Convém ler o dado como registro de como as coisas eram, e não como afirmação de que deveriam ser assim. O versículo descreve; não legisla.
9. Conexão com Outros Textos
O pedido que esta frase atende
Gênesis 30:24 — "E chamou o seu nome José, dizendo: O SENHOR me acrescente ainda outro filho."
O pedido feito no nascimento de José. A parteira anuncia agora exatamente isso.
Gênesis 30:1 — "Dá-me filhos, senão morro."
A frase anterior, que o desfecho torna impossível de ignorar.
O paralelo mais próximo
1 Samuel 4:20 — "E, ao tempo em que ela estava para morrer, disseram as mulheres que estavam com ela: Não tenha medo, pois deu à luz um filho. Ela, porém, não respondeu, nem fez caso disso."
Mesma fórmula, mesma situação, mesmo desfecho — e ali o texto registra expressamente que a mulher não deu atenção.
Outras parteiras
Êxodo 1:17 — "As parteiras, porém, temeram a Deus, e não fizeram como o rei do Egito lhes dissera; antes conservavam os meninos com vida."
Gênesis 38:28 — "E aconteceu que, dando ela à luz, um pôs a mão fora; e a parteira tomou-a e atou em sua mão um fio vermelho."
A parteira decidindo o registro da primogenitura.
"Não tema" na boca de Deus
Gênesis 15:1 — "Não tema, Abrão, eu sou o seu escudo, o seu grandíssimo galardão."
Gênesis 21:17 — "Que tem você, Agar? Não tenha medo, porque Deus ouviu a voz do menino."
Gênesis 46:3 — "Não tema descer ao Egito, porque eu farei de você ali uma grande nação."
A fórmula no uso que lhe é próprio, sempre seguida de promessa que se cumpre.
Cuidados com o recém-nascido
Ezequiel 16:4 — "Quanto ao seu nascimento, no dia em que nasceu não lhe foi cortado o umbigo, nem foi lavada com água para se limpar, nem tampouco salgada com sal, nem envolvida em faixas."
A lista do que se fazia normalmente, dita pela negativa.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E, durante o parto difícil, a parteira lhe disse: "Não tenha medo, pois também desta vez você terá um filho."
Texto hebraico
וַיְהִי בְהַקְשֹׁתָהּ בְּלִדְתָּהּ וַתֹּאמֶר לָהּ הַמְיַלֶּדֶת אַל־תִּירְאִי כִּי־גַם־זֶה לָךְ בֵּן
Transliteração
wayhi behaqshotah belidtah wattomer lah hameyalledet al tir'i ki gam zeh lakh ben
Análise palavra por palavra
בְהַקְשֹׁתָהּ — behaqshotah, "no seu ter dificuldade".
A mesma raiz do versículo anterior, qashah, ser duro, difícil, severo, agora na forma causativa e no infinitivo, com sufixo feminino.
A construção com a preposição indica simultaneidade: enquanto ela tinha dificuldade. A cena que se conta acontece durante o problema, não depois dele.
בְּלִדְתָּהּ — belidtah, "no seu dar à luz".
Repetição literal do complemento que fecha o versículo 16. O par de palavras aparece duas vezes seguidas, com variação mínima na forma do verbo.
É esse eco que dá peso ao trecho. O Gênesis não usa adjetivo de intensidade; usa repetição.
הַמְיַלֶּדֶת — hameyalledet, "a parteira".
Particípio feminino da forma intensiva de yalad, dar à luz. Ao pé da letra: "aquela que faz parir".
A forma intensiva do verbo hebraico costuma indicar ação exercida sobre outro — daí a diferença entre a mulher que dá à luz e a que a assiste. O termo é o nome de um ofício, e vem com artigo: não é uma parteira qualquer, é a parteira, aquela que estava ali.
A palavra aparece poucas vezes no Antigo Testamento: em Gênesis 38:28, no episódio de Tamar; em Êxodo 1:15-21, com Sifrá e Puá; e aqui.
אַל־תִּירְאִי — al tir'i, "não tema".
Da raiz yare, temer, ter medo, reverenciar. A forma é de proibição dirigida a uma mulher — o hebraico marca o gênero no verbo, coisa que o português precisa deduzir do contexto.
A negação usada é a que se emprega para ordens imediatas, e não a das proibições permanentes. O sentido é próximo de "não tenha medo agora", e não de "não seja uma pessoa medrosa".
A mesma raiz forma a expressão "temor do SENHOR", e o hebraico não separa o medo do respeito reverente — o contexto decide qual dos dois está em jogo. Aqui é medo, sem ambiguidade.
כִּי־גַם־זֶה לָךְ בֵּן — ki gam zeh lakh ben, "porque também este é para você um filho".
A frase não tem verbo, como é comum no hebraico quando se afirma uma identidade. Ao pé da letra: "porque também este, para você, filho".
Gam é a partícula de adição — também, igualmente, ainda. É ela que aponta para trás, para o filho anterior, e faz a ligação com o pedido de Gênesis 30:24. Sem essa partícula, a frase seria apenas o anúncio do sexo da criança; com ela, é o registro de que o pedido foi atendido.
Zeh, "este", indica proximidade: a criança está ali, já nasceu.
O pronome com preposição, lakh, "para você", está na forma feminina, e a colocação dele antes de "filho" dá ênfase — é para você, é seu.
Ben é filho homem, e não criança em geral. O hebraico tem palavra distinta para filha, e a escolha aqui é deliberada: a informação transmitida é a do sexo.
Convém registrar a economia da frase. Nove palavras no hebraico, sem verbo na segunda metade, sem nenhum termo de afeto. É o mínimo que se pode dizer, e é tudo o que se diz nesta cena.
11. Conclusão
Do que se examinou decorrem quatro conclusões.
A primeira é sobre quem fala. Num episódio que reúne o patriarca, a mulher preferida dele e o cumprimento de um desejo antigo, a única voz é a de uma profissional que o texto não nomeia. O Gênesis dá a palavra a quem está com as mãos no problema, e não registra fala nenhuma de Jacó em toda a cena.
A segunda é sobre o conteúdo do anúncio. A partícula que abre a frase — "também" — não é enfeite: ela aponta para o pedido que Raquel fizera no nascimento de José. O que a parteira comunica é que o pedido foi atendido. Quem escreveu escolheu essa palavra sabendo o que ela traria de volta.
A terceira é sobre o descompasso entre a notícia e a situação. A informação é verdadeira, é relevante para a história daquela mulher e é a melhor disponível. E chega no momento em que já não responde à questão em jogo, que deixou de ser ter filhos e passou a ser morrer. O texto não registra efeito nenhum sobre quem ouviu.
A quarta é sobre o modo de contar. Duas vezes a palavra "difícil" em duas linhas, uma frase de nove palavras, nenhum adjetivo de comoção e nenhuma explicação. A gravidade da cena é construída por repetição e por economia — e o silêncio de Raquel, que não responde nada, é parte dessa construção.













