O rei do Egito falou às parteiras das hebreias — uma se chamava Sifrá, e a outra, Puá —
1. Introdução
O capítulo muda de escala neste versículo, e muda para menos.
Até aqui o Êxodo tratou de povos: os filhos de Israel, os egípcios, o rei, a terra cheia. Agora a cena se fecha sobre três pessoas — um homem e duas mulheres — e sobre uma conversa.
Dois pontos merecem exame, e o segundo é um problema de tradução que não tem solução.
O primeiro é o achado mais visível do capítulo, e ele está na superfície do texto: as duas mulheres têm nome, e o rei do Egito não tem. Sifrá e Puá entram na história pelo nome próprio; o homem mais poderoso do mundo conhecido entra por um cargo, e sairá do livro sem nunca ser chamado por outra coisa.
O segundo é a expressão que a nossa tradução verteu por "as parteiras das hebreias". O hebraico admite duas leituras: que as parteiras eram hebreias, ou que atendiam as hebreias sem sê-lo. A diferença não é pequena — na segunda leitura, elas são egípcias, e quem desobedece ao rei no versículo 17 pertence ao povo dele. Nenhuma tradução consegue guardar as duas possibilidades, e a nossa também teve de escolher.
O ofício de parteira, o que essas mulheres sabiam e como se trabalhava num parto foram tratados no estudo de Gênesis 35:17, e não se repetem aqui. O que interessa neste versículo é quem são essas duas e o que o texto faz ao nomeá-las.
2. Contexto Histórico e Cultural
Gente de língua semítica no Egito: o que está documentado
A presença de população vinda de Canaã e da Síria no Egito é dos fatos mais bem estabelecidos da história egípcia. Não é hipótese, e não depende da Bíblia.
Ela é contínua e antiga. Entravam como comerciantes, como trabalhadores contratados, como prisioneiros de guerra, como servos vendidos, como grupos inteiros fugindo de seca. Os egípcios os chamavam de aamu, palavra que se costuma traduzir por "asiáticos" e que designa, de modo genérico, quem vem do nordeste.
Concentravam-se no Delta oriental, que é a porta de entrada por terra e a região de melhor pasto. E deixaram rastro em todos os tipos de documento: listas de mão de obra, cartas administrativas, inscrições de fronteira, nomes de pessoas em contratos.
Nada disso é prova de Israel no Egito, e convém não confundir as duas coisas. É prova de que o quadro social pressuposto por Êxodo 1 — um grupo numeroso de língua semítica vivendo no Delta, sujeito a trabalho de Estado — corresponde a uma situação real e repetida.
Um nome que aparece numa lista de servos
Há, porém, um dado mais estreito e mais interessante, e ele diz respeito diretamente a este versículo.
Existe um documento egípcio, o Papiro Brooklyn 35.1446, apresentado no estudo de Gênesis 39:1, que traz no verso a relação dos servos de uma casa: cerca de noventa e cinco pessoas, das quais aproximadamente metade tem nome de origem semítica. É um dos melhores registros que se conhecem de estrangeiros trabalhando dentro de casas egípcias.
Entre esses nomes está Sh-p-ra.
William Hayes (egiptólogo norte-americano, responsável pela publicação do papiro em 1955) identificou essa forma como sendo o mesmo nome que a Bíblia hebraica escreve Sifrá — o da primeira parteira deste versículo.
Convém dizer com cuidado o que esse achado estabelece e o que não estabelece.
Estabelece que Sifrá é nome real, de origem semítica ocidental, efetivamente usado por mulheres que viviam e trabalhavam no Egito. Isso importa porque nomes inventados por um autor tardio para personagens de uma história antiga tendem a soar como o período de quem escreve, e não como o período narrado. Aqui não é o caso: o nome pertence ao ambiente certo.
Não estabelece nada sobre a pessoa. A mulher da lista é uma servidora doméstica, não uma parteira; o documento é de época bem anterior a qualquer datação corrente para os acontecimentos do Êxodo; e "semítico ocidental" é uma família de línguas grande, que abrange muito mais gente do que os hebreus. Tomar essa entrada como registro da parteira do Êxodo seria erro grosseiro, e não é isso que Hayes propôs.
O que resta é o que basta: o nome é do mundo que o versículo descreve.
Como uma ordem do palácio chegaria a duas mulheres
O versículo apresenta o rei falando diretamente a duas parteiras, sem intermediário, sem mensageiro e sem funcionário no meio.
Não há documento egípcio que registre coisa parecida, e não há como saber se a cena é para ser lida ao pé da letra. O que se sabe da administração egípcia é que ordens do palácio desciam por escrito, por meio de funcionários, e chegavam à população através de responsáveis locais.
Isso não desmente o versículo. Textos antigos costumam contar uma decisão de Estado como conversa entre pessoas, e o Êxodo faz isso o tempo todo. Mas registra-se: a cena, como está escrita, é uma cena de conversa, e a burocracia que a tornaria possível não aparece nela.
3. Análise Teológica do Versículo
"O rei do Egito falou"
É a segunda vez que este rei fala no capítulo, e as duas falas se opõem em tudo.
Na primeira, em Êxodo 1:9-10, ele fala ao seu próprio povo, sobre um problema coletivo, e propõe um plano em primeira pessoa do plural: vamos agir com astúcia. Era discurso público.
Aqui ele fala com duas mulheres. Atravessa a fronteira que ele próprio traçou entre "nós" e "eles", e trata pessoalmente de uma ordem que não pode ser dada em praça.
Há uma leitura possível nisso, e ela é só leitura: um governo que manda construir cidades anuncia; um governo que manda matar recém-nascidos conversa em particular. O texto não faz o comentário. Ele apenas passa do discurso ao diálogo entre um versículo e outro.
"às parteiras das hebreias"
Aqui está o problema textual do versículo, e ele não tem solução.
A expressão hebraica pode ser entendida de dois modos. Ou "as parteiras hebreias", com o segundo termo qualificando as mulheres — e nesse caso elas são do povo de Israel. Ou "as parteiras das hebreias", com o segundo termo indicando a quem elas atendem — e nesse caso elas podem perfeitamente ser egípcias.
Os dois lados têm argumento, e vale expor de quem é cada um.
A favor de que fossem hebreias: os nomes das duas são de origem semítica, como o item 2 mostra; a forma do hebraico, examinada no item 10, é a que se esperaria de um adjetivo; e a tradição judaica antiga sempre as leu assim, chegando a identificá-las com Joquebede e Miriã.
A favor de que fossem egípcias: a Septuaginta, a tradução grega feita no Egito a partir do século III a.C., verteu a expressão como "as parteiras dos hebreus", isto é, no sentido de a quem serviam. Josefo (historiador judeu do século I, autor das Antiguidades Judaicas) afirma sem hesitar que eram egípcias, e dá o motivo: nenhum rei confiaria a mulheres hebreias a execução de uma ordem contra o próprio povo delas. Entre os comentaristas modernos, essa leitura tem defensores respeitáveis, e o argumento de Josefo continua sendo o mais forte deles.
Não é possível decidir. O hebraico comporta as duas construções, e o versículo não fornece nenhum outro dado que desempate.
Convém dizer que a nossa tradução escolheu "as parteiras das hebreias". Toda tradução é obrigada a escolher — não existe modo de dizer as duas coisas em português —, e a escolha aqui foi pela leitura que o grego antigo também fez. Isso não resolve a questão, e o leitor deve saber que ela continua aberta.
O que muda conforme a leitura
A pergunta não é acadêmica. As duas leituras produzem histórias diferentes.
Se as parteiras são hebreias, o que Êxodo 1:17 narrará é a resistência de um povo oprimido dentro da própria opressão: duas mulheres arriscam a vida pelos filhos das suas vizinhas. É uma história de solidariedade interna.
Se as parteiras são egípcias, o primeiro ato de recusa do livro parte de dentro do povo opressor. Duas funcionárias egípcias desobedecem ao seu próprio rei em favor de estrangeiros escravizados. É uma história completamente diferente — e, do ponto de vista moral, mais exigente.
O texto não escolhe. E convém notar que ele poderia ter escolhido com uma palavra, se quisesse.
"uma se chamava Sifrá, e a outra, Puá"
Este é o achado do versículo, e ele está inteiro na superfície.
Duas mulheres recebem nome próprio. O rei do Egito, não.
Vale medir a desproporção. O homem em questão é o soberano do Estado mais poderoso do mundo conhecido. Ele entrou no capítulo como "um novo rei" em Êxodo 1:8, foi chamado de "Faraó" em Êxodo 1:11 e é aqui "o rei do Egito". Nenhum faraó recebe nome no livro do Êxodo — fato geral, discutido no estudo de Êxodo 1:8. As duas mulheres que ele convoca, essas, o texto faz questão de identificar.
E não identifica de passagem. Usa uma fórmula, e a fórmula custa palavras: "o nome de uma era Sifrá, e o nome da segunda, Puá". Um texto econômico como este, que resolveu a escravização de um povo em dois versículos, gasta meia linha para apresentar duas parteiras.
Há ainda uma coincidência que só este versículo permite notar. O nome hebraico do livro do Êxodo é "Nomes", tirado da sua primeira linha, conforme o estudo de Êxodo 1:1. Um livro chamado Nomes nomeia duas parteiras estrangeiras e recusa o nome ao rei do Egito.
Convém marcar o limite, porque a observação é atraente demais para ser aceita sem exame. Não é possível demonstrar que a omissão do nome do rei seja deliberada. Há explicações alternativas: que quem escreveu não soubesse qual faraó era; que "Faraó" funcionasse na prática como nome próprio; que o interesse do texto simplesmente estivesse em outro lugar. Nenhuma delas é absurda.
O que se pode afirmar sem risco é o resultado, e ele é verificável: quem lê o Êxodo sai sabendo o nome das parteiras e não sai sabendo o nome do rei.
Duas parteiras para um povo inteiro
O versículo levanta um problema aritmético que ele não resolve.
Êxodo 1:7 disse que a terra se encheu dos filhos de Israel. Duas mulheres não dariam conta dos partos de uma população desse tamanho, e a dificuldade é antiga: comentaristas a discutem há séculos.
As saídas propostas são três, e vale dizer de quem é cada uma.
A primeira, defendida no Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) e por vários outros, é que Sifrá e Puá seriam chefes do ofício, responsáveis por transmitir a ordem às demais. É solução plausível e não tem apoio no texto: o versículo não as apresenta como chefes de coisa alguma.
A segunda é que o número seja simplificação do relato, que prefere duas pessoas com nome a uma categoria anônima. Também é plausível, e também não é demonstrável.
A terceira é que a população fosse bem menor do que os números dados adiante no livro sugerem — questão que envolve o cálculo de Gênesis 46:27 e não se reabre aqui.
O texto não comenta a dificuldade, e não há consenso entre os que a discutem. Registra-se o problema e segue-se.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Sifrá
A primeira das duas parteiras. O nome é de origem semítica ocidental e está documentado fora da Bíblia, numa lista egípcia de servos apresentada no item 2.
Nada mais se sabe dela. O Êxodo não diz a idade, o estado civil, a origem, onde morava nem quem a treinou. Ela aparece neste versículo, age em Êxodo 1:17, responde ao rei em Êxodo 1:19, é recompensada em Êxodo 1:21 e desaparece do livro.
Puá
A segunda. O texto a apresenta com a mesma fórmula, na mesma linha, sem distinguir função entre as duas.
Convém evitar uma confusão fácil: existe no Antigo Testamento um Puá que é filho de Issacar, mencionado em Gênesis 46:13, e não tem relação nenhuma com esta mulher, como o estudo daquele versículo já registrou.
As duas juntas
O texto sempre as trata no plural e nunca as separa. Falam juntas em Êxodo 1:19, agem juntas em Êxodo 1:17 e são recompensadas juntas em Êxodo 1:21.
Não há a menor indicação de hierarquia entre elas, nem de que uma tenha proposto e a outra concordado. O Êxodo apresenta duas pessoas que decidem do mesmo jeito, e não diz como chegaram a isso.
O rei do Egito
Terceira designação do mesmo homem em oito versículos: "um novo rei" em Êxodo 1:8, "Faraó" em Êxodo 1:11, "o rei do Egito" aqui.
Nenhuma delas é um nome. A designação usada neste versículo voltará em Êxodo 1:17 e Êxodo 1:18, sempre igual.
As hebreias
Primeira vez que o termo "hebreu" aparece no livro do Êxodo.
É palavra que, na Bíblia, quase sempre sai da boca de estrangeiros ou é usada diante deles — o modo como os de fora chamam esse povo. Israel raramente se autodenomina assim. A discussão sobre a origem do termo e a sua eventual ligação com um grupo social mencionado em documentos do Oriente antigo tem dono no estudo de Gênesis 14:13.
Note-se que aqui a forma está no feminino plural: são as mulheres hebreias, não o povo em geral. É delas que se trata, porque é sobre o parto delas que a ordem vai versar.
5. Pontos de Ensino
O texto guarda o nome de quem o poder não guardaria
Duas parteiras são identificadas; o soberano do Egito não é.
Isso inverte o critério que qualquer arquivo antigo aplicaria. Registros oficiais conservam reis, vitórias e obras; quem faz o trabalho não entra. Aqui entra — e o rei fica de fora. É o critério do texto, e ele não é explicado em lugar nenhum.
Uma pergunta sem resposta não é uma pergunta sem valor
Não se sabe se as parteiras eram hebreias ou egípcias, e o item 3 mostra que os dois lados têm argumento sério.
A tentação é escolher um e seguir em frente, porque a história fica mais fácil de contar. O ganho de deixar a pergunta aberta é que as duas histórias possíveis ficam visíveis — inclusive a mais incômoda, em que quem desobedece pertence ao povo do opressor.
O poder precisa de mãos, e as mãos são de alguém
O rei fala diretamente com duas trabalhadoras. Não manda recado, não delega, não publica decreto.
É o que acontece quando uma decisão de Estado depende de um gesto que só um profissional específico pode dar. A ordem tem de descer até a pessoa, e a pessoa tem nome, rosto e opinião. O capítulo inteiro se decide nesse encontro.
O que já foi dito não precisa ser dito de novo
O Êxodo não explica o que é uma parteira, o que ela sabia nem como se dava à luz naquele mundo.
Supõe que o leitor saiba — e, para o leitor deste site, o assunto foi tratado no estudo de Gênesis 35:17. Vale como observação sobre o modo de ler: boa parte do que um versículo parece esconder está simplesmente pressuposta, e o trabalho é saber onde procurar.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta uma questão que a filosofia da história trata há muito tempo: o que faz uma pessoa merecer registro.
A resposta corrente, dentro e fora da Antiguidade, é a do efeito. Registra-se quem produziu consequências grandes — quem governou, venceu, construiu, decidiu o destino de multidões. Por esse critério, o rei do Egito deste versículo é o único personagem que teria direito a nome, e as duas parteiras não teriam nenhum.
O texto aplica o critério ao contrário, e não explica por quê.
Vale examinar o que essa inversão implica, porque ela não é sentimentalismo.
Um critério de importância baseado no efeito tem um problema conhecido: ele mede a escala do resultado e ignora a natureza do ato. Quem manda matar mil crianças aparece; quem se recusa a matar duas, não. E, no entanto, é a segunda decisão que exige de alguém alguma coisa — porque a primeira é tomada de dentro de um aparelho que a executa sozinho, e a segunda é tomada por conta própria, sem apoio e sem cobertura.
Há aqui, portanto, dois modos de contar o que aconteceu no Egito. Um deles é a história dos que decidiram e das obras que ergueram, e é essa que os arquivos guardam. O outro é a história dos que foram atravessados pelas decisões e responderam a elas — e essa quase não deixa rastro, porque quem a viveu não escreve arquivo.
Este versículo pertence ao segundo tipo. E é o único documento antigo que temos sobre essas duas mulheres: se ele não as tivesse nomeado, ninguém saberia que existiram.
Convém marcar que nada disso está escrito no texto. O Êxodo nomeia e segue adiante, sem tirar conclusão nenhuma da escolha que fez. A observação é do comentarista, não do livro.
7. Aplicações Práticas
Chamar pelo nome quem faz o trabalho
O versículo faz uma coisa simples e rara: identifica duas trabalhadoras pelo nome, num contexto em que ninguém esperaria isso.
A aplicação é direta e não precisa de intermediação. Em quase toda organização há pessoas que aparecem pela função — a recepcionista, o entregador, a diarista, o porteiro — e pessoas que aparecem pelo nome. A divisão não segue a competência nem a importância do que se faz; segue a posição.
Saber o nome de quem trabalha ao seu lado não é gentileza. É a diferença entre lidar com uma pessoa e lidar com uma função — e o restante deste capítulo depende inteiramente dessa diferença, porque o rei descobrirá que funções não desobedecem, mas pessoas sim.
Não fechar uma questão que está aberta
O item 3 mostra que não é possível decidir se as parteiras eram hebreias ou egípcias.
Quem ensina, prega ou escreve encontra esse tipo de situação toda hora: um ponto em que a informação não basta e a plateia quer resposta. A saída honesta é dizer o que se sabe, dizer o que não se sabe e mostrar o que muda em cada caso — que é mais trabalhoso e mais útil do que escolher e afirmar.
Vale notar o custo do atalho. Quem decide que elas eram hebreias apaga a possibilidade de que a primeira recusa do livro tenha vindo de dentro do povo opressor. Isso não é detalhe; é metade do que o texto oferece.
Um limite
Este versículo é uma apresentação de personagens. Ele não contém ensino de conduta, não dá ordem e não descreve ato nenhum.
O que se pode tirar dele são observações sobre nomear e sobre não decidir o indecidível. Qualquer aplicação além disso estará usando o que virá em Êxodo 1:17, e é lá que ela deve ser buscada.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Afinal, elas eram hebreias ou egípcias?
Não é possível decidir, e o item 3 apresenta os argumentos dos dois lados com os seus defensores.
Em resumo: o hebraico comporta as duas construções; a Septuaginta leu no sentido de "as parteiras dos hebreus"; Josefo afirma que eram egípcias e dá um argumento de bom senso; a tradição judaica antiga leu que eram hebreias, apoiada nos nomes semíticos das duas. Nenhum desses dados tem força para fechar a questão.
Por que o rei não é chamado pelo nome?
O Êxodo não nomeia nenhum faraó, e a discussão desse fato geral pertence ao estudo de Êxodo 1:8.
O que este versículo acrescenta é o contraste: no mesmo período em que o rei aparece só pelo cargo, duas parteiras aparecem pelo nome próprio. Se o efeito foi construído de propósito, não é demonstrável. Que ele existe, é verificável por qualquer leitor.
Sifrá e Puá eram Joquebede e Miriã?
É uma identificação antiga da tradição judaica, e não se sustenta.
Miriã, irmã de Moisés, aparecerá em Êxodo 2:4 como criança pequena, e Moisés ainda não nasceu quando esta ordem é dada. A cronologia não fecha. A identificação nasce do desejo compreensível de ligar personagens de um mesmo livro, e o texto não a autoriza.
O nome Sifrá aparece fora da Bíblia?
Sim, e o item 2 apresenta o caso: uma lista egípcia de servos de casa traz a forma Sh-p-ra, identificada por William Hayes como o mesmo nome.
Isso mostra que o nome pertence ao ambiente certo e à família de línguas certa. Não diz nada sobre a pessoa deste versículo, e o documento é de época anterior.
Como duas parteiras dariam conta de um povo inteiro?
Não dariam, e a dificuldade é real. O item 3 apresenta as três saídas propostas — que fossem chefes do ofício, que o número seja simplificação do relato, ou que a população fosse menor do que se supõe — e nenhuma delas passa de hipótese.
O texto não comenta o problema. Convém registrar que quem escreveu tinha a informação de Êxodo 1:7 na mão e mesmo assim escreveu duas.
O versículo diz por que o rei procurou as parteiras, e não soldados?
Não diz nada a respeito, e a ordem só virá no versículo seguinte.
Este versículo é apenas a apresentação: quem falou, com quem, e como elas se chamavam. Toda explicação sobre a escolha do meio pertence a Êxodo 1:16, onde a ordem aparece por inteiro.
9. Conexão com Outros Textos
As outras parteiras da Bíblia
Gênesis 35:17 — "E, durante o parto difícil, a parteira lhe disse: Não tenha medo, pois também desta vez você terá um filho."
A parteira de Raquel não tem nome. É a diferença que faz deste versículo um caso: aqui, o texto nomeia.
Gênesis 38:28 — "E aconteceu que, ao dar à luz, um pôs a mão fora, e a parteira tomou um fio vermelho e o atou na mão dele, dizendo: Este saiu primeiro."
Também anônima, e também numa posição de decidir. As três parteiras da Bíblia hebraica são estas e as duas deste versículo.
Onde este versículo desemboca
Êxodo 1:21 — "E, porque as parteiras temeram a Deus, ele lhes deu famílias."
O nome que este versículo registra é o nome de quem será recompensado seis versículos adiante. A apresentação existe para que a recompensa tenha destinatário.
O rei sem nome
Êxodo 1:8 — "Então subiu ao trono do Egito um novo rei, que não conhecia José."
Primeira aparição do personagem, e já sem nome. A partir daqui ele será "Faraó" ou "o rei do Egito", e nada mais.
Êxodo 1:1 — "E estes são os nomes dos filhos de Israel que entraram no Egito com Jacó, cada um com a sua família."
A primeira linha do livro, de onde sai o título hebraico dele. Um livro chamado "Nomes" nomeia as parteiras e não nomeia o rei.
Mulheres que decidem sozinhas em textos antigos
1 Samuel 25:18 — "Então Abigail se apressou e tomou duzentos pães."
Outra mulher que age por conta própria contra uma ordem, neste caso a do marido. A Bíblia tem mais casos desses do que o costume de leitura sugere.
O termo "hebreu" na boca de estrangeiros
Gênesis 39:14 — "Ela chamou os homens de casa e lhes disse: Vejam, ele nos trouxe um homem hebreu para zombar de nós."
A palavra é usada por uma egípcia, com desprezo. É o padrão: "hebreu" é quase sempre como os de fora chamam esse povo.
Jonas 1:9 — "E ele lhes disse: Sou hebreu e temo ao Senhor, o Deus dos céus."
Uma das poucas vezes em que a palavra é usada por quem a carrega — e também diante de estrangeiros.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
O rei do Egito falou às parteiras das hebreias — uma se chamava Sifrá, e a outra, Puá —
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר מֶלֶךְ מִצְרַיִם לַמְיַלְּדֹת הָעִבְרִיֹּת אֲשֶׁר שֵׁם הָאַחַת שִׁפְרָה וְשֵׁם הַשֵּׁנִית פּוּעָה
Transliteração
wayyomer melekh mitzrayim la-meyalledot ha-ivriyyot asher shem ha-achat Shifrah ve-shem ha-shenit Puah
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמֶר — wayyomer, "e disse".
O verbo mais comum da narrativa hebraica, na forma que encadeia a sequência. Note-se que ele volta a abrir o versículo seguinte: Êxodo 1:15 diz que o rei falou, e Êxodo 1:16 recomeça com "e disse", antes de dar o conteúdo.
Essa duplicação é característica do hebraico quando o discurso é interrompido por informação intermediária — no caso, os nomes das duas mulheres. O texto abre a fala, pausa para apresentar quem escuta, e reabre a fala.
מֶלֶךְ מִצְרַיִם — melekh mitzrayim, "rei do Egito".
Construção com o substantivo na forma construta: literalmente "rei de Egito". É título, não nome.
A designação aparece três vezes em quatro versículos — aqui, em Êxodo 1:17 e em Êxodo 1:18 — e sempre idêntica. Em Êxodo 1:11 e Êxodo 1:19 o mesmo homem é chamado de Faraó, que também é título: a palavra vem do egípcio per-aa, "casa grande", isto é, o palácio, e passou a designar quem morava nele.
לַמְיַלְּדֹת — la-meyalledot, "às parteiras".
Particípio feminino plural do verbo yalad, dar à luz, na forma intensiva: ao pé da letra, "as que fazem parir". A preposição de destino vem fundida com o artigo, e é esse artigo que importa para a discussão seguinte.
O ofício, o que a palavra implica e as demais ocorrências foram tratados no item 10 de Gênesis 35:17.
הָעִבְרִיֹּת — ha-ivriyyot, "as hebreias" ou "das hebreias".
Forma feminina plural de ivri, hebreu, com artigo. E aqui está o problema do versículo.
Em hebraico, um adjetivo que qualifica um substantivo definido também leva artigo, e vem depois dele. É exatamente o que se vê: "as parteiras" com artigo, "as hebreias" com artigo. Pela regra da língua, a leitura mais direta é a de qualificação — as parteiras que eram hebreias.
A construção alternativa, de posse ou de relação, normalmente se faria de outro modo: o primeiro substantivo entraria na forma construta e perderia o artigo. Não é o que está escrito.
Isso parece resolver a questão, mas não resolve, por dois motivos.
O primeiro é que ivri não é um adjetivo comum: é nome de povo, e nomes de povo em hebraico funcionam ora como substantivo, ora como qualificação, com alguma flutuação de construção.
O segundo, e mais pesado, é que os leitores antigos que tinham o hebraico como língua viva não leram assim. A Septuaginta, feita no Egito a partir do século III a.C., traduziu por tais maiais ton Hebraion ("às parteiras dos hebreus", em grego), com o segundo termo no caso que indica relação — ou seja, entendeu "as parteiras que atendem os hebreus". Josefo, escrevendo em grego no século I, afirma que eram egípcias.
Quando a gramática aponta para um lado e a tradição antiga de leitura aponta para outro, o prudente é registrar as duas e não decidir. É o que se faz aqui.
Sobre o termo em si: ivri é o modo como estrangeiros chamam esse povo em quase todas as suas aparições. A discussão sobre a origem da palavra e a sua eventual relação com um grupo social mencionado em textos do Oriente antigo tem dono no estudo de Gênesis 14:13.
אֲשֶׁר שֵׁם הָאַחַת — asher shem ha-achat, "das quais o nome de uma era".
Asher é o pronome relativo, invariável. Shem é "nome", na forma construta. Ha-achat é o numeral "uma", feminino, com artigo.
Vale reparar na fórmula. O texto não escreve simplesmente "Sifrá e Puá". Escreve "o nome de uma era Sifrá, e o nome da segunda, Puá" — construção que custa o dobro das palavras e que a Bíblia hebraica reserva para apresentações que importam. A mesma fórmula aparece, por exemplo, em Gênesis 4:19 e em 1 Samuel 1:2.
E vale reparar no substantivo escolhido: shem, nome. É a palavra que dá título ao livro em hebraico, tirada de Êxodo 1:1. Ela reaparece aqui, duas vezes na mesma linha, para apresentar duas parteiras — enquanto o rei do Egito, sujeito da frase, é identificado apenas por cargo.
שִׁפְרָה — Shifrah, "Sifrá".
O nome se liga à raiz shafar, ser belo, agradável, aprazível. A tradução usual é "beleza" ou "formosa". A ligação é aceita pelos léxicos e é plausível pela forma, mas nomes próprios raramente permitem certeza etimológica, e este não é exceção.
A mesma raiz aparece em Jó 26:13, num contexto poético sobre a beleza dos céus.
Como o item 2 mostra, a forma Sh-p-ra está documentada num papiro egípcio, numa lista de servos de casa. O nome existia fora do texto bíblico.
וְשֵׁם הַשֵּׁנִית — ve-shem ha-shenit, "e o nome da segunda".
Shenit é o ordinal feminino "segunda". Note-se a assimetria: a primeira é chamada de "uma" pelo numeral simples, e a segunda pelo ordinal. É construção normal em hebraico e não carrega significado especial.
פּוּעָה — Puah, "Puá".
A origem é mais discutida que a de Sifrá, e há três propostas.
A primeira liga o nome a uma raiz de gritar, clamar, gemer — o que daria sentido apropriado ao ofício, seja pelo grito da parturiente, seja pelo primeiro choro da criança. A raiz existe em hebraico, mas o encaixe da forma não é limpo.
A segunda o aproxima de uma palavra do ugarítico, língua semítica aparentada, com o sentido de "moça". Essa proposta ganhou defensores no século XX.
A terceira o liga a uma palavra de brilho ou esplendor, atestada em outras línguas semíticas.
Não há consenso, e nenhuma das três se impõe. O que se pode afirmar é que a forma é semítica ocidental, como a de Sifrá.
Convém, por fim, distinguir este nome de um homônimo. Há em Gênesis 46:13 um filho de Issacar cujo nome se escreve de modo semelhante em português, e o estudo daquele versículo já registrou que não há relação entre os dois.
11. Conclusão
Três conclusões se sustentam a partir do que foi examinado.
A primeira é sobre quem o texto identifica. Num versículo em que aparecem o soberano do Egito e duas parteiras, o Êxodo grava o nome das parteiras e deixa o rei no cargo. Não é possível demonstrar que a omissão seja proposital, e há explicações alternativas razoáveis. Mas o resultado é verificável e permanente: o leitor sai deste livro sabendo como se chamavam Sifrá e Puá, e sem saber como se chamava o homem que mandou matar os filhos delas.
A segunda é sobre o que não se pode saber. A expressão que apresenta as duas admite ler que elas eram hebreias ou que apenas atendiam hebreias, e portanto seriam egípcias. A gramática favorece a primeira leitura; a tradução grega antiga e Josefo escolheram a segunda. Não é possível decidir, e quem decidir estará afirmando mais do que o texto permite.
A terceira decorre da segunda, e é a razão de a questão importar. O ato que vem em Êxodo 1:17 muda de sentido conforme a resposta: ou é resistência de dentro do povo oprimido, ou é recusa vinda de dentro do povo opressor. O texto guarda as duas possibilidades, e o comentarista honesto guarda também.
Resta um problema que este versículo abre e não fecha: duas mulheres não bastariam para um povo descrito em Êxodo 1:7 como tendo enchido a terra. As saídas propostas são plausíveis e nenhuma delas está no texto. O Êxodo escreveu duas, e são duas que ele nomeia.













