Mas os filhos de Israel foram fecundos, fervilharam, multiplicaram-se e se tornaram fortes, muito fortes; e a terra se encheu deles.
1. Introdução
O versículo anterior enterrou uma geração inteira. Este põe outra no lugar, e o faz com cinco verbos em fila.
São eles: foram fecundos, fervilharam, multiplicaram-se, tornaram-se fortes — e, no fim, a terra se encheu deles. Nenhuma cena, nenhum nome, nenhuma data. Uma frase cobre o tempo que separa a morte de José do nascimento de Moisés.
Dois dos verbos são vocabulário conhecido de quem leu o Gênesis: frutificar e multiplicar-se são as palavras da primeira bênção do livro, e o cumprimento delas no Egito já foi tratado por inteiro no estudo de Gênesis 47:27. Aqui basta registrar que a linguagem é aquela.
Os outros dois é que são deste versículo, e é neles que o estudo vai se demorar.
O primeiro é o verbo de fervilhar, a palavra que o Gênesis usa para os seres que enchem as águas no dia da criação. Ela quase nunca descreve gente.
O segundo é o verbo de tornar-se forte. Duas linhas adiante, no discurso do novo rei, essa mesma palavra volta — e volta como acusação. O texto diz que Israel ficou forte; Faraó diz que Israel é forte demais. É a mesma raiz nas duas bocas, e essa é a descoberta do versículo.
Há ainda o fecho: a terra se encheu deles. É a linguagem de encher a terra, dita agora não do mundo, mas de um país só — e de um país que tem administração, cadastro e rei.
O item 3 trata do sentido de cada expressão, o item 10 das palavras hebraicas, e o item 2 do que se pode e do que não se pode dizer sobre a demografia por trás de uma frase assim.
2. Contexto Histórico e Cultural
De setenta a um povo: o que cabe numa frase
O versículo não dá número nem prazo. Ele descreve um resultado, e o leitor precisa saber que tipo de processo produz um resultado desses.
Na Antiguidade, população crescia devagar. A mortalidade infantil era altíssima — estimativas correntes para o mundo antigo trabalham com algo entre um quarto e um terço das crianças morrendo antes dos cinco anos —, a expectativa de vida ao nascer ficava na casa dos vinte e poucos anos justamente por causa disso, e as mulheres passavam a vida fértil inteira gerando filhos para que uma parte pequena chegasse à idade adulta. Uma população que dobra a cada três ou quatro gerações já é uma população em franca expansão.
Daí a primeira consequência de leitura, e ela é sóbria: uma frase como esta cobre séculos. O número de partida, os setenta, e a discussão sobre ele estão no estudo de Gênesis 46:27; o prazo anunciado a Abraão está no de Gênesis 15:13. O que interessa aqui é que o Êxodo comprime em onze palavras hebraicas um período em que nasceram e morreram gerações que o livro não nomeia.
Crescer num país que contava gente
Há um segundo dado de fundo, e ele é o que torna o versículo 9 possível.
O Egito era um Estado que media. A administração egípcia registrava por escrito o que precisava cobrar: safra, gado, obrigação de trabalho, tributo. Existiam listas domésticas — documentos que arrolam o chefe da casa, a mulher, os filhos, os dependentes e os servos, um por um, com nome. Sobreviveram exemplares vindos de sítios do Império Médio, e eles mostram que o cadastro de pessoas era um instrumento comum de governo, não uma excepcionalidade.
A contagem periódica de bens e rebanhos, que chegou a servir de referência para datar anos, foi tratada nos estudos de Gênesis 41:18 e Gênesis 46:6; as listas de quem devia trabalho ao Estado, no de Gênesis 47:18. Não se repete aqui o que está lá. O ponto novo é o efeito combinado: num país assim, o crescimento de um grupo estrangeiro não passa despercebido. Ele aparece em papel.
Isso muda a leitura de tudo o que vem depois. Quando o rei diz, dois versículos adiante, que aquele povo é numeroso demais, ele não está tendo uma impressão. Está descrevendo — ou alegando descrever — um dado de administração.
O limite do que se pode afirmar
Convém dizer com todas as letras: nenhum documento egípcio conhecido registra o crescimento de Israel no Egito, nem qualquer grupo com esse nome. O que existe é o entorno — um Estado com aparelho de registro, população estrangeira no Delta, mão de obra estrangeira em serviço. A instituição está documentada; o episódio, não. O tratamento dessa questão pertence aos versículos da opressão, e o estudo de Êxodo 1:11 volta a ela.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas os filhos de Israel foram fecundos"
A frase começa com uma virada.
O versículo anterior tinha três mortes em série: José, os irmãos, toda aquela geração. Este abre contrariando aquilo. Morreram todos — e mesmo assim, ou exatamente por isso, o que o texto tem a dizer em seguida é sobre nascimento.
O vocabulário é o da bênção. Ser fecundo e multiplicar-se é o par de verbos da primeira página do Gênesis, e ele já apareceu como relato — e não como ordem — no fecho daquele livro. O estudo de Gênesis 47:27 desenvolveu isso por inteiro, inclusive a comparação com este versículo, e não há por que refazer o percurso.
Vale, porém, notar quem some da frase. Deus não é mencionado. O versículo não diz que Deus os multiplicou, não diz que a bênção se cumpriu, não interpreta nada. Diz que eles foram fecundos. A ligação com a promessa é o leitor que faz, e ele a faz porque reconhece as palavras — o que é diferente de o texto tê-la feito.
"fervilharam"
Aqui está a palavra estranha, e ela é o primeiro achado deste versículo.
O verbo traduzido por fervilhar não pertence ao vocabulário humano da Bíblia. Ele descreve as águas que se enchem de seres no quinto dia da criação, os bichos que rastejam pelo chão, as rãs que sobem do Nilo na segunda praga, e o catálogo dos animais que a lei de Levítico classifica como impuros. É palavra de multidão que se move junta e não se conta uma a uma.
Antes de dizer que isso é insólito, é preciso conferir — e a conferência dá um resultado que exige cuidado. Existe um lugar, e só um, em que essa palavra se dirige a seres humanos: Gênesis 9:7, a bênção dada a Noé e aos filhos depois do dilúvio, onde ela vem no meio de uma sequência de ordens de vida. Aquele versículo tem estudo próprio, e é lá que a força positiva da imagem está desenvolvida. Portanto: não é verdade que a palavra nunca se aplique a gente.
O que se pode afirmar é mais preciso, e continua sendo notável. Em toda a Bíblia hebraica, esse verbo é dito de seres humanos duas vezes. Uma é ordem de Deus, no recomeço do mundo. A outra é esta — e esta é a única em que ele aparece como relato, descrevendo o que um povo de fato fez.
Daí saem duas leituras, e as duas têm defensores.
A primeira ouve aqui só a bênção. Se a palavra está em Gênesis 9:7 no meio de uma ordem divina de encher a terra, então usá-la aqui é dizer que a ordem foi cumprida com transbordamento. Nessa leitura não há nada de pejorativo: é vida em fartura, e ponto.
A segunda ouve, além disso, o desconforto. A palavra carrega, no resto do cânon, a imagem de bicho miúdo em quantidade — e é precisamente essa a imagem que um Estado assustado projeta sobre um grupo estrangeiro que cresce. Nessa leitura o Êxodo estaria escolhendo, de propósito, a palavra que o opressor usaria.
Não é possível decidir entre as duas. O texto não comenta a escolha, não a explica e não dá pista de intenção. O que se pode dizer com segurança é que a palavra é rara aplicada a gente, que ela vem carregada de outro campo, e que o versículo a coloca ao lado das palavras da bênção sem harmonizar as duas coisas.
"multiplicaram-se e se tornaram fortes, muito fortes"
O quarto verbo é o mais importante do versículo, e a razão está dois versículos adiante.
Quando o novo rei se dirige ao seu povo, em Êxodo 1:9, ele diz que Israel é mais forte do que nós. A palavra que ele usa é a mesma que está aqui. O texto disse "tornaram-se fortes"; o rei devolve "forte demais para nós".
Repare no que aconteceu entre uma frase e outra. Nada. Não há fato novo entre o versículo 7 e o versículo 9 — não há revolta, não há incidente, não há crime. O que muda é quem fala. A mesma realidade, descrita de dentro, é crescimento; descrita da boca do poder, é ameaça.
Esse é o achado do versículo, e ele não depende de nenhuma reconstrução histórica: está na repetição da palavra. O Êxodo põe o mesmo termo nas duas bocas e não avisa o leitor de que o está fazendo.
Uma observação de honestidade, porque o paralelo mais citado não é daqui. Um rei estrangeiro já havia dito exatamente isso a um patriarca — Abimeleque, a Isaque, em Gênesis 26:16, com o mesmo verbo e a mesma comparação. Aquele versículo é o dono do assunto e o desenvolve; aqui a menção fica em uma linha, porque o que interessa neste capítulo é outra coisa: o eco não é entre dois livros, é entre dois versículos vizinhos.
Quanto ao reforço final — "muito fortes" —, o hebraico dobra o advérbio, coisa que faz pouquíssimas vezes. É a marca de intensidade mais alta que a língua tem, e o item 10 mostra onde mais ela aparece.
"e a terra se encheu deles"
A frase que fecha o versículo é a que mais promete e a que mais precisa de cuidado.
Encher a terra é a última parte da bênção da criação. A expressão, portanto, não é neutra: ela completa a fórmula. Só que aqui há um deslocamento que o texto não comenta.
Na bênção original, a terra a encher é o mundo. Aqui, a palavra hebraica é a mesma, mas o referente imediato é o país onde eles moram. A bênção universal aparece cumprida dentro de uma fronteira — e de uma fronteira que não é a terra prometida.
E o verbo está na forma passiva: a terra foi enchida. Israel não é sujeito dessa última oração; é aquilo de que o país ficou cheio. Depois de quatro verbos em que eles agem, o versículo termina com eles como conteúdo de um recipiente.
É preciso resistir a duas leituras apressadas.
Uma diz que o versículo anuncia a escravidão, porque encher a terra de alguém é ocupá-la. O texto não diz isso, e nem sequer diz que os egípcios notaram. Quem nota é o rei, dois versículos depois, e o Êxodo não liga uma frase à outra.
A outra diz que o versículo prova que a promessa se cumpriu, e que o Egito foi, portanto, o lugar certo. Também não está escrito. Metade da promessa é sobre descendência e metade é sobre terra; esta frase trata da primeira e não menciona a segunda.
O que o versículo não diz
Não diz quantos anos. Não diz quantas pessoas. Não diz onde exatamente — se apenas em Gósen ou por todo o Egito. Não diz que Deus fez. Não diz que os egípcios reagiram. Não diz que a família continuou junta, nem que manteve os costumes, nem que se lembrava de Canaã.
São cinco verbos e um silêncio de séculos. O que vem depois vai preencher parte desse silêncio pela pior das vias: pela política de um rei.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os filhos de Israel
A expressão está no versículo 1 deste mesmo capítulo e está aqui, e não quer dizer a mesma coisa nos dois lugares.
Lá, "os filhos de Israel" são literalmente os filhos de um homem chamado Israel: doze nomes, que a lista dos versículos 2 a 4 enumera. Aqui, seis versículos depois, a mesma expressão designa uma população que ninguém consegue enumerar.
A mudança acontece sem aviso, e é ela que permite ao livro trocar de assunto. O Gênesis contava uma família; o Êxodo vai contar um povo. A dobradiça entre as duas coisas é esta frase.
Que terra é esta
O versículo diz apenas "a terra". Não diz Gósen, não diz Egito.
A região onde a família foi instalada, e as propostas de identificação dela, estão no estudo de Gênesis 45:10. Aqui a palavra fica sem qualificativo, e as duas leituras são possíveis: a terra em que moravam ou o país inteiro. O texto não esclarece, e a diferença tem peso — no primeiro caso, um distrito cheio; no segundo, um Estado com uma população estrangeira espalhada dentro dele.
O que aconteceu antes
Uma família de setenta pessoas desceu ao Egito por causa da fome e recebeu terra na melhor faixa do Delta, por ordem do rei, com José em cargo alto. O Gênesis contou isso em seis capítulos. O Êxodo o resume nos versículos 1 a 5, registra as mortes no versículo 6 e chega aqui.
Entre o versículo 6 e o versículo 7 há um intervalo de tempo que o texto não mede. É o maior salto do capítulo.
Quem não aparece
Deus não é mencionado neste versículo, e vale registrar porque o leitor tende a inseri-lo automaticamente. Ele será nomeado pela primeira vez no capítulo só no versículo 17, a respeito das parteiras.
Nenhum egípcio aparece. Não há rei, não há vizinho, não há autoridade. O versículo é o último do capítulo em que Israel existe sozinho.
5. Pontos de Ensino
1. A mesma palavra muda de sentido conforme a boca que a diz. O texto chama Israel de forte, e chama isso de crescimento. O rei chama Israel de forte, e chama isso de perigo. Entre uma coisa e outra não houve fato novo: houve mudança de quem descreve. Vale reparar nisso antes de aceitar qualquer descrição de um grupo humano como se fosse medida objetiva.
2. Quatro verbos de vida vêm logo depois de três mortes. A ordem em que o Êxodo põe as coisas é essa, e ela não é comentada. O livro não diz que a vida vence a morte, não faz moral nenhuma; apenas continua a narrativa do outro lado do enterro.
3. O texto não credita o crescimento a ninguém. Não há sujeito divino na frase. Quem quiser afirmar que Deus multiplicou Israel aqui pode fazê-lo com apoio em outros textos, e o item 9 traz alguns — mas precisa dizer que está trazendo de fora, porque neste versículo isso não está escrito.
4. Uma frase pode conter séculos. Entre o versículo 6 e o versículo 8 cabe todo o tempo que separa a morte de José do reinado do novo rei. O Êxodo não o mede e não o preenche. Ler bem é perceber onde o texto acelera, e por quê.
5. A palavra escolhida importa mesmo quando não se sabe por que foi escolhida. O verbo de fervilhar carrega um campo que não é humano, e o versículo o usa assim mesmo. Não se pode decidir se a escolha é elogiosa, neutra ou desconfortável — e é justamente por não se poder decidir que ela merece ser mostrada ao leitor, em vez de suavizada na tradução.
6. Crescer é ficar visível. Num Estado que registra gente, aumentar de número é entrar no cadastro. O versículo não diz isso, mas é o que torna inteligível o discurso do rei logo adiante: ele fala como quem tem um dado na mão.
6. Aspectos Filosóficos
Há uma questão aqui que não é bíblica nem antiga: nenhuma descrição de um grupo humano é apenas uma descrição.
Dizer que uma população cresceu parece um enunciado de fato, do tipo que se verifica contando. E é — até o momento em que se pergunta por que alguém decidiu contar, e por que decidiu contar aquilo.
Uma contagem escolhe o que é uma unidade, escolhe o que junta as unidades num mesmo conjunto e escolhe qual conjunto merece ser medido. Nada disso vem do mundo; vem de quem mede. Quando o resultado aparece, já traz dentro de si um juízo sobre o que importava saber.
É por isso que o mesmo número serve para duas frases opostas sem mudar de valor. "Eles são muitos" pode ser a descrição de uma bênção e a formulação de um problema de Estado, e a diferença entre as duas não está no número: está no verbo que se põe depois dele.
O versículo permite ver isso porque coloca as duas frases muito perto uma da outra, com a mesma palavra no meio. Quem lê corrido não percebe. Quem percebe ganha um instrumento de leitura que serve para muito além deste capítulo — e serve, principalmente, para a linguagem com que as sociedades falam de quem vive dentro delas sem ser dali.
Um limite, porque o comentário não deve ir além do texto: o Êxodo não faz nenhuma dessas observações. Ele repete uma palavra. A repetição é do texto; o que se conclui dela é do leitor, e este comentário o diz assumindo a responsabilidade.
7. Aplicações Práticas
Quando o seu crescimento vira o problema de outra pessoa
A aplicação mais direta deste versículo é desconfortável, e não é sobre prosperidade.
Uma equipe que cresce dentro de uma empresa, uma comunidade que aumenta dentro de um bairro, um filho que passa a ocupar mais espaço dentro de casa — em todos esses casos o crescimento é vivido, de dentro, como coisa boa e natural, e é registrado, de fora, como deslocamento de equilíbrio. Ninguém fez nada de errado. O incômodo não nasce de uma falta; nasce da mudança de proporção.
Saber disso não resolve, mas evita dois erros comuns. O primeiro é achar que a reação hostil precisa ter uma causa moral, e sair procurando o que se fez de errado. Muitas vezes não há. O segundo é achar que quem se incomoda está agindo de má-fé. Também nem sempre: às vezes está apenas medindo a mesma realidade de outro lugar.
Ser descrito por quem tem poder de decidir sobre você
O versículo mostra uma descrição sendo feita duas vezes com a mesma palavra, e a segunda delas é a que vai gerar consequência.
Isso acontece em escala pequena o tempo todo. A avaliação escrita por um chefe, o relatório de um processo, o laudo, o cadastro, a ficha. Nenhum desses documentos é neutro pelo simples fato de conter dados verdadeiros, e o efeito deles não depende de serem falsos: depende de quem os lê e do que essa pessoa pode fazer em seguida.
A recomendação prática é modesta e vale a pena: quando for você quem descreve alguém por escrito, com poder de decisão em jogo, pergunte-se que verbo está pondo ao lado do número. É ali, e não no número, que a decisão já começou a ser tomada.
Um cuidado
Este versículo não ensina que crescer é perigoso, nem que se deva encolher para não incomodar. Ele não dá conselho nenhum — descreve o que aconteceu com um grupo, e o que aconteceu depois foi culpa de quem oprimiu, não de quem cresceu. Qualquer aplicação que transforme a vítima em responsável pela reação alheia usa o texto contra o que o próprio capítulo mostra.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O versículo diz que Deus multiplicou Israel?
Não. Diz que os filhos de Israel foram fecundos, fervilharam, multiplicaram-se e se tornaram fortes. O sujeito das quatro ações são eles. Outros textos da Bíblia atribuem o crescimento a Deus, e o item 9 mostra alguns; este versículo não faz isso, e a diferença merece ser preservada em vez de apagada.
O verbo de fervilhar é ofensivo?
Não se pode decidir. Ele é usado no resto da Bíblia para peixes, bichos rasteiros e rãs, e uma única vez para seres humanos, em Gênesis 9:7, dentro de uma bênção. Há quem leia aqui apenas intensidade de vida e há quem ouça um desconforto deliberado. As duas leituras cabem no hebraico e nenhuma delas está confirmada pelo texto, que não comenta a escolha.
Quanto tempo passou entre o versículo 6 e o versículo 7?
O Êxodo não diz. O prazo total da permanência no Egito é assunto de outros textos, e a discussão dos números está no estudo de Gênesis 15:13. O que este versículo oferece é uma indicação indireta: o processo que ele descreve, na demografia possível para o mundo antigo, é necessariamente longo.
Se eles se multiplicaram tanto, por que ninguém aparece com nome?
Porque o livro mudou de escala. Do versículo 7 em diante, o Êxodo trata de um coletivo, e vai passar dez versículos sem nomear ninguém — nem o rei. Os próximos nomes próprios do capítulo serão os de duas parteiras, no versículo 15, e essa inversão é comentada no estudo daquele versículo.
"A terra se encheu deles" quer dizer que já não cabia mais ninguém?
Não. A expressão é de plenitude, não de lotação. Ela vem do vocabulário da criação, onde encher a terra é o efeito desejado da bênção. Ler aqui uma superlotação é importar para o texto a percepção que o rei vai expressar dois versículos adiante — e essa percepção é dele, não do Êxodo.
Por que quatro verbos, se dois bastariam?
O texto não explica. Pode ser ênfase, pode ser acúmulo deliberado para preparar a reação do rei, pode ser fórmula. O que se observa é o efeito: a frase soa como transbordamento, e é exatamente esse excesso que o versículo 9 vai citar como problema.
9. Conexão com Outros Textos
A única outra vez em que essa palavra é dita a gente
Gênesis 9:7 — "Quanto a vocês, sejam férteis e multipliquem-se; povoem a terra em abundância e multipliquem-se nela."
É a bênção depois do dilúvio, e ali o verbo de fervilhar aparece como ordem divina a seres humanos. Esse versículo tem estudo próprio, e é a referência obrigatória de quem quiser sustentar que a palavra, em Êxodo 1:7, é elogiosa.
A mesma palavra em seu ambiente natural
Levítico 11:41-42 — "Todo ser que fervilha sobre a terra é abominável; não será comido. Tudo o que anda sobre o ventre, tudo o que anda sobre quatro pés, e tudo o que tem muitos pés, entre os seres que fervilham sobre a terra, não comerão, porque são abominação."
Este é o contexto em que a palavra mais aparece. Citá-lo não decide nada sobre o sentido em Êxodo 1:7, mas mostra ao leitor de onde vem o incômodo que alguns ouvem ali.
A palavra devolvida como ameaça
Êxodo 1:9 — "Ele disse ao seu povo: Vejam: o povo dos filhos de Israel é numeroso e mais forte do que nós."
Dois versículos de distância, e a raiz do quarto verbo reaparece na boca do rei. É a ligação interna mais importante deste capítulo.
A mesma palavra depois da opressão
Êxodo 1:20 — "E Deus fez bem às parteiras; e o povo se multiplicou e se tornou muito forte."
A raiz volta uma terceira vez, no fim do capítulo, depois de todas as medidas tomadas para impedir exatamente isso. Ali, e só ali, o crescimento é ligado a uma ação de Deus.
Um salmo que lê o episódio inteiro
Salmo 105:24 — "E Deus multiplicou muito o seu povo, e o tornou mais forte do que os seus adversários."
O salmo junta numa frase o crescimento do versículo 7 e a comparação do versículo 9, e atribui os dois a Deus. É interpretação posterior, e o próprio salmo a apresenta como louvor, não como relato.
A confissão que Israel aprendeu a recitar
Deuteronômio 26:5 — "Meu pai era um arameu prestes a perecer; desceu ao Egito e ali morou como estrangeiro, com pouca gente, e ali se tornou uma nação grande, forte e numerosa."
É a versão litúrgica deste versículo, com uma diferença que vale notar: ela conserva a palavra de estrangeiro residente e chama Israel de nação, não de povo. O vocabulário de povo entrará em cena pela boca de Faraó.
O aviso que autorizou a descida
Gênesis 46:3 — "E disse: Eu sou Deus, o Deus de seu pai. Não tenha medo de descer ao Egito, porque ali farei de você uma grande nação."
A promessa que este versículo dá por realizada, sem citá-la e sem dizer que a está realizando.
O crescimento como relógio, no Novo Testamento
Atos 7:17 — "À medida que se aproximava o tempo da promessa que Deus tinha feito a Abraão, o povo crescia e se multiplicava no Egito."
Estêvão transforma o crescimento em marcador de tempo: quanto mais eles são, mais perto está a saída. É leitura, e ele a apresenta como parte de um argumento.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Mas os filhos de Israel foram fecundos, fervilharam, multiplicaram-se e se tornaram fortes, muito fortes; e a terra se encheu deles.
Texto hebraico
וּבְנֵ֣י יִשְׂרָאֵ֗ל פָּר֧וּ וַֽיִּשְׁרְצ֛וּ וַיִּרְבּ֥וּ וַיַּֽעַצְמ֖וּ בִּמְאֹ֣ד מְאֹ֑ד וַתִּמָּלֵ֥א הָאָ֖רֶץ אֹתָֽם׃
Transliteração
uvnei Yisraél parú vayyishretsú vayyirbú vayya'atsmú bime'ód me'ód vattimmalé ha'árets otám
Análise palavra por palavra
וּבְנֵי יִשְׂרָאֵל · uvnei Yisraél — "e os filhos de Israel"
A frase começa com a conjunção u-, "e". O versículo 1 do capítulo já tinha aberto o livro inteiro com essa mesma conjunção, e o estudo daquele versículo trata do que isso significa.
O que interessa aqui é a ordem das palavras. O sujeito vem antes do verbo, o que em hebraico narrativo não é o normal — o normal é o verbo primeiro. Quando o sujeito passa à frente, a frase costuma marcar contraste ou mudança de foco. Depois do versículo 6, que terminou com a morte de uma geração, esta inversão funciona como um "mas": morreram aqueles; quanto a estes, cresceram. A tradução ABC representa isso com o "Mas" inicial.
פָּרוּ · parú — "foram fecundos"
Raiz parah, dar fruto. Qal, a conjugação simples, no perfeito, terceira pessoa do plural. Note a forma: é perfeito, não é a forma encadeada da narrativa. Os três verbos seguintes vêm encadeados; este abre o bloco.
O campo da raiz é vegetal antes de ser humano: é a árvore que produz. O par que ela forma com ravah e o percurso desse par pelo Gênesis foram tratados no estudo de Gênesis 47:27, que também compara os dois versículos. Não se repete aqui.
וַיִּשְׁרְצוּ · vayyishretsú — "e fervilharam"
Este é o verbo que só existe aqui, nesta história.
Raiz sharats. Qal, forma encadeada da narrativa, terceira pessoa masculina do plural. O sentido é enxamear, pulular, mover-se em massa. Dela vem o substantivo sherets, que a Bíblia usa para o conjunto dos seres pequenos que se movem rente ao chão ou dentro da água.
O verbo aparece catorze vezes na Bíblia hebraica, e vale ver a lista inteira, porque é ela que sustenta a análise:
Gênesis 1:20 e 1:21, as águas que se enchem de seres vivos no quinto dia; Gênesis 7:21, os seres que fervilham sobre a terra e morrem no dilúvio; Gênesis 8:17, os animais que devem repovoar o mundo ao sair da arca; Gênesis 9:7, a bênção a Noé e aos filhos; Êxodo 1:7, este versículo; Êxodo 8:3, o Nilo que vai fervilhar de rãs; Levítico 11:29, 11:41, 11:42, 11:43 e 11:46, o catálogo dos seres rasteiros e a lei de pureza sobre eles; Salmo 105:30, de novo as rãs; e Ezequiel 47:9, os seres que fervilharão no rio que sai do templo.
Doze das catorze ocorrências são de bichos. Duas são de gente: Gênesis 9:7 e esta. E entre as duas há uma diferença de modo que precisa ser registrada — em Gênesis 9:7 o verbo está no imperativo, é ordem; aqui está no passado narrativo, é relato. Este versículo é, portanto, o único lugar da Bíblia em que se diz que seres humanos fervilharam.
Sobre o efeito disso, o item 3 expõe as duas leituras e não escolhe, porque o texto não dá elemento para escolher.
Uma nota de tradução. Muitas versões portuguesas vertem por "aumentaram muito" ou "se propagaram", o que é defensável quanto ao sentido e apaga a imagem. A versão ABC manteve "fervilharam" justamente para conservar o que a palavra hebraica faz o leitor ver.
וַיִּרְבּוּ · vayyirbú — "e multiplicaram-se"
Raiz ravah, tornar-se muito. Qal, forma encadeada, terceira pessoa masculina do plural. É o segundo membro do par fixo da bênção, e o estudo de Gênesis 47:27 já percorreu as ocorrências desse par. Aqui basta registrar a posição: ele vem depois do verbo de fervilhar, e não colado ao primeiro verbo como nas fórmulas do Gênesis. A fórmula foi aberta ao meio para receber a palavra nova.
וַיַּעַצְמוּ · vayya'atsmú — "e se tornaram fortes"
Raiz atsam. Qal, forma encadeada, terceira pessoa masculina do plural. O campo semântico tem dois centros que a língua não separa: ser numeroso e ser poderoso. Em português é preciso escolher um dos dois e perder o outro; em hebraico a palavra diz os dois de uma vez.
O verbo é raro: vinte ocorrências em toda a Bíblia hebraica. No Gênesis, uma só — Gênesis 26:16, na boca de Abimeleque, e aquele estudo é o dono da comparação. No Êxodo, duas: esta e Êxodo 1:20, no fim deste mesmo capítulo. Fora do Pentateuco, aparece sobretudo nos Salmos, em Jeremias e em Daniel.
E há o adjetivo da mesma raiz, atsum, que é o que Faraó usa em Êxodo 1:9: rav ve-atsum mimménnu, "numeroso e mais forte do que nós". A ligação, portanto, não é de sentido apenas: é da mesma raiz, a dois versículos de distância, primeiro em relato e depois em acusação.
Duas notas de precisão. A primeira: existe na Bíblia um outro verbo escrito com as mesmas três consoantes, com o sentido de fechar os olhos — está em Isaías 29:10 e 33:15. Os léxicos o tratam como raiz distinta, e não há relação com o nosso versículo. A segunda: a aproximação entre esta raiz e o substantivo etsem, "osso", é sugerida com frequência e permanece hipótese; ela não é necessária para nada do que se disse acima.
בִּמְאֹד מְאֹד · bime'ód me'ód — "muito, muito"
O advérbio de intensidade repetido, com preposição no primeiro. Não é a construção comum. O hebraico dispõe de me'ód sozinho para dizer "muito", e é o que faz na esmagadora maioria dos casos; dobrar a palavra é reservado a poucos lugares, e sempre para casos extremos — as águas do dilúvio que crescem sobre a terra em Gênesis 7:19, por exemplo.
Portanto, a leitura correta não é "bastante". É o grau mais alto que a língua tem, e a tradução ABC o representa repetindo o adjetivo: "fortes, muito fortes".
וַתִּמָּלֵא הָאָרֶץ אֹתָם · vattimmalé ha'árets otám — "e a terra se encheu deles"
Aqui a construção muda, e a mudança é significativa.
Vattimmalé é da raiz male, encher. A forma é Niphal — a conjugação passiva e reflexiva do hebraico —, terceira pessoa feminina do singular, concordando com ha'árets, "a terra", que é feminina. Ou seja: nos quatro verbos anteriores o sujeito era Israel; neste, o sujeito é a terra. Israel deixa de agir e passa a ser aquilo com que a terra é preenchida.
Otám merece atenção. A forma coincide com a marca de objeto direto seguida de sufixo, mas aqui a palavra funciona como preposição, com o sentido de "com eles". Não é "a terra encheu-os": é "a terra ficou cheia deles".
Quanto ao verbo male com ha'árets: é a combinação da bênção da criação, "encham a terra". A diferença é que ali a expressão está no imperativo e o objeto é o mundo; aqui está na passiva e a palavra érets — que significa tanto "terra" quanto "país" — designa, pelo contexto, o Egito. O item 3 trata do que decorre disso e do que não decorre.
Nota — a arquitetura da frase
Vale ver o versículo como uma peça só. São cinco verbos: quatro com Israel como sujeito, em progressão — frutificar, fervilhar, multiplicar, fortalecer —, e o quinto com a terra como sujeito. Os quatro primeiros descrevem o que eles fizeram; o quinto descreve o que aconteceu ao país por causa disso.
É essa quinta oração que abre a porta para o versículo 8. O texto não a explica, mas depois dela já não é possível contar a história como história de família.
11. Conclusão
Do que foi exposto, algumas conclusões se sustentam.
Primeira: o achado deste versículo não é a bênção cumprida, e sim as duas palavras que a fórmula da bênção não tinha. Frutificar e multiplicar-se já estavam no Gênesis, e o cumprimento delas no Egito já foi registrado lá. O que Êxodo 1:7 acrescenta é o verbo de fervilhar e o verbo de tornar-se forte — e é neles que o versículo tem o que dizer.
Segunda: a palavra de fervilhar é rara aplicada a gente, e o texto não explica por que a escolheu. A conferência mostra catorze ocorrências na Bíblia, doze delas de animais, uma de bênção a seres humanos e esta. Quem afirmar que a escolha é neutra, e quem afirmar que ela é carregada, está fazendo uma leitura defensável e precisa dizer que é leitura.
Terceira: a mesma raiz descreve Israel na voz do texto e na voz do rei, com dois versículos de intervalo. Não há fato novo entre uma frase e outra. Muda o falante, e com o falante muda o que a palavra faz: em Êxodo 1:7 ela conclui uma sequência de vida; em Êxodo 1:9 ela abre um programa de governo.
Quarta: Deus não aparece na frase. O crescimento é atribuído a Israel, sem causa declarada. Outros textos da Bíblia o atribuem a Deus — e um deles, no próprio capítulo, o fará no versículo 20. Aqui o texto se abstém, e a abstenção é um dado, não uma lacuna a preencher.
Quinta: o versículo termina com Israel na posição de conteúdo, não de agente. A última oração troca o sujeito: quem se enche é a terra. É a primeira vez no livro que Israel aparece como algo que ocupa espaço em país alheio, e é dessa posição que o capítulo inteiro vai tratar daqui em diante.
Sexta: entre este versículo e o anterior há um vão de tempo que o Êxodo não mede. A demografia do mundo antigo permite dizer que o processo descrito é longo, e nada mais. Quem quiser números precisa buscá-los em outros textos, e nenhum deles fecha as contas sem tensão.













