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Gênesis 46:27

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✍️ Por Alberto Adriano·7 de setembro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 48 acessos
E os filhos de José, que lhe nasceram no Egito, eram duas pessoas. Todas as pessoas da casa de Jacó que entraram no Egito eram setenta.
Dois rolos antigos abertos lado a lado sobre uma mesa, um em hebraico e outro em grego, sob luz difusa

Estudo


E os filhos de José, que lhe nasceram no Egito, eram duas pessoas. Todas as pessoas da casa de Jacó que entraram no Egito eram setenta.

1. Introdução

Este versículo fecha a lista com um número — setenta — e é justamente esse número que a tradição bíblica não transmitiu de forma estável.

O texto hebraico que serve de base às nossas traduções diz setenta. A antiga tradução grega, feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo, diz setenta e cinco. Um manuscrito hebraico achado nas cavernas do deserto da Judeia acompanha o grego. E, no Novo Testamento, Estêvão diz setenta e cinco diante do tribunal, em Atos 7:14.

Quer dizer: o número que o leitor tem na sua Bíblia não é o único que circulou, e não é o que o Novo Testamento usa. Não se trata de erro de ninguém — trata-se de duas formas do texto, ambas antigas, ambas em hebraico e em grego, e cada uma seguida por parte da tradição.

O estudo apresenta as duas, mostra de onde vem a diferença — ela é rastreável até a linha exata em que os textos divergem — e não escolhe. Antes disso, trata do que o versículo faz com a contagem: ele muda de critério outra vez, e agora conta “a casa de Jacó”, expressão que no Gênesis aparece só aqui.

2. Contexto Histórico e Cultural

Esta é a parte do capítulo em que é preciso falar de manuscritos, e vale fazê-lo com nomes e datas.

O texto hebraico tradicional. As traduções em português partem do Texto Massorético — a forma do hebraico fixada por escrito entre os séculos VII e X pelos massoretas, os copistas que acrescentaram vogais e acentos a um texto que até então se escrevia só com consoantes. Ele diz, aqui, que os filhos de José nascidos no Egito eram dois, e que o total era setenta. Diz setenta também em Êxodo 1:5 e em Deuteronômio 10:22.

A tradução grega antiga. A Septuaginta — nome dado à tradução da Bíblia hebraica para o grego, iniciada em Alexandria no século III antes de Cristo para a numerosa população judaica que já não lia hebraico — traz outra conta. Em Gênesis 46:20 ela acrescenta cinco descendentes de José que o hebraico não tem: Maquir, filho de Manassés; Gileade, filho de Maquir; Sutalaão e Taã, filhos de Efraim; e Edem, filho de Sutalaão. Depois, neste versículo, ela conta “nove pessoas” na linha de José e fecha o total em setenta e cinco. Em Êxodo 1:5 repete os setenta e cinco.

Convém registrar uma coisa importante sobre esses cinco nomes: eles não foram inventados. Todos aparecem na própria Bíblia hebraica, em Números 26:29-36 e em 1 Crônicas 7:14-27, como descendentes de Manassés e de Efraim. O que a tradução grega fez foi completar a linha de José com material que estava em outro lugar do mesmo cânon.

Os manuscritos do deserto da Judeia. Até meados do século XX, a diferença podia ser atribuída a uma liberdade dos tradutores gregos. Os rolos encontrados a partir de 1947 nas cavernas próximas ao mar Morto mudaram o quadro: entre eles há fragmentos de Êxodo, em hebraico, que leem setenta e cinco em Êxodo 1:5 — o manuscrito conhecido como 4QExodᵇ é o mais claro, e outro, o 4QGen-Exodᵃ, está fragmentado mas parece apontar no mesmo sentido.

São manuscritos hebraicos cerca de mil anos mais antigos que os massoréticos. Com eles, o setenta e cinco deixa de ser “a versão grega” e passa a ser uma forma hebraica do texto, que existia lado a lado com a outra.

O Novo Testamento. Em Atos 7:14, no discurso de Estêvão diante do tribunal, está escrito que José mandou chamar o pai e toda a parentela, setenta e cinco pessoas. Estêvão segue a forma grega, e isso é o esperado: os escritores do Novo Testamento citam, na maior parte das vezes, a Bíblia em grego, que era a que os seus leitores tinham. Fílon de Alexandria, judeu de língua grega do século I, também trabalha com os setenta e cinco — o pensador aparece, por outro motivo, no estudo de Gênesis 17:17.

A harmonização nos dois sentidos. Um detalhe mostra que a tensão foi percebida na antiguidade e que os copistas mexeram nos dois lados. Deuteronômio 10:22 diz setenta no hebraico; mas alguns manuscritos gregos importantes desse livro trazem setenta e cinco, alinhando-o com o Gênesis grego. Ou seja: cada tradição puxou o versículo divergente para o seu número.

Qual é o original? Não há consenso. Argumenta-se que o hebraico com setenta é mais antigo e que o grego expandiu a linha de José para fechar com material de Números; e argumenta-se, em sentido contrário, que o setenta e cinco é mais antigo e que os copistas hebraicos cortaram os cinco nomes para harmonizar o Gênesis com Êxodo e Deuteronômio. Os dois argumentos são plausíveis, os dois têm defensores, e a descoberta dos manuscritos do deserto reforçou o segundo sem decidir a questão.

O que se pode afirmar com segurança é só isto: o número não é estável na tradição, e as duas formas são antigas.

3. Análise Teológica do Versículo

“E os filhos de José, que lhe nasceram no Egito, eram duas pessoas”

Esta é a frase em que as duas formas antigas do texto se separam.

O hebraico tradicional conta dois: Manassés e Efraim, os que o versículo 20 nomeou. A tradução grega antiga, no mesmo lugar, conta nove, porque já havia acrescentado cinco descendentes na linha de José, lá no versículo 20 — o material está no item 2. Os dois textos concordam em tudo o mais; divergem aqui, e é daqui que sai a diferença entre setenta e setenta e cinco.

Note-se o que a frase faz na estrutura da conta. O versículo 26 tinha excluído José e os dois filhos, porque não vieram de Canaã. Agora o texto os reintroduz, um por um, explicando por quê: são os filhos de José, e nasceram no Egito. É uma correção declarada do critério anterior, e não um acréscimo silencioso.

“Todas as pessoas da casa de Jacó que entraram no Egito”

Terceiro critério do capítulo, e o mais largo dos três.

O versículo 15 e os outros fechamentos contaram por mãe. O versículo 26 contou os nascidos de Jacó que saíram de Canaã. Agora o texto conta a casa — e “casa”, no hebraico, é a unidade que inclui o chefe. Com esse critério, entram Jacó, que não é descendente de si mesmo, e entram José e os dois meninos, que não fizeram a viagem.

Vale registrar a expressão. “Casa de Jacó” aparece no Gênesis uma única vez, aqui. Depois do Gênesis, ela deixa de designar uma família e passa a designar o povo: é assim que Deus se dirige a Israel no Sinai (Êxodo 19:3), é assim que Isaías chama a nação (Isaías 2:5) e é assim que os profetas voltarão ao termo dezenas de vezes. O uso começa aqui, num sentido literal — a casa de um homem, com setenta pessoas dentro — e a lista é o último momento em que a expressão cabe inteira numa contagem.

Há também uma diferença de verbo em relação ao versículo anterior, e ela é pequena na escrita e grande no sentido: lá, “os que vinham”; aqui, “os que entraram”. O detalhe está no item 10 e no estudo de Gênesis 46:26. Ele sustenta uma das explicações propostas para os dois números — sessenta e seis a caminho, setenta depois de chegar.

“eram setenta”

Como esse setenta se compõe é o assunto do versículo anterior, e lá as soluções foram expostas. O que cabe aqui é o outro problema: o de que o número tem duas formas na tradição.

Setenta é o que está no texto hebraico de que vêm as nossas Bíblias. Setenta e cinco é o que está na tradução grega antiga, num manuscrito hebraico do deserto da Judeia e no discurso de Estêvão em Atos 7:14. Nenhuma das duas formas é tardia, nenhuma é obviamente derivada da outra, e não há consenso sobre qual delas é a mais antiga.

O que essa instabilidade significa — e o que ela não significa

Convém separar as coisas com cuidado, porque este é um ponto em que se erra fácil para os dois lados.

Primeiro: não se trata de erro de Estêvão nem de descuido de Lucas. Estêvão fala em grego, diante de um tribunal em Jerusalém, e cita a Bíblia que circulava em grego. Fazer isso era normal, e o Novo Testamento faz o mesmo em dezenas de outras passagens. Acusá-lo de errar é aplicar ao século I uma expectativa de citação que só existe depois da imprensa.

Segundo: não se trata de prova de que a Bíblia foi corrompida. Nas duas formas há um texto antigo, cuidadosamente transmitido, e a diferença entre elas está localizada — é uma linha, e ela é rastreável. Saber onde e como dois textos divergem é o contrário de não saber o que eles dizem.

Terceiro, e este é o ponto de fundo: a diferença entre setenta e setenta e cinco não altera coisa alguma do que o texto está afirmando. O que o número faz aqui é medir a pequenez do começo. Setenta pessoas ou setenta e cinco — de qualquer modo é uma família, e é dela que Êxodo 1:7 dirá que a terra se encheu. A discussão textual é interessante e é honesta; ela simplesmente não toca no que está sendo dito.

Vale acrescentar uma observação sobre o modo como esse assunto costuma ser tratado. A instabilidade deste número não é obscura nem escondida: está em qualquer edição crítica, em qualquer nota de rodapé de Bíblia de estudo, e o próprio Novo Testamento a exibe em Atos 7:14, ao alcance de quem abrir os dois textos lado a lado. O que se pode afirmar é que a tradição preferiu conviver com a diferença a apagá-la — do mesmo modo como preferiu conviver com uma soma que não fecha, no versículo anterior. As duas coisas apontam para o mesmo hábito de transmissão.

O fim da lista

Com este versículo a genealogia acaba. Vinte versículos, mais de setenta nomes, quatro colunas e três totais — e a narrativa recomeça no versículo 28, com Jacó mandando Judá adiante.

É o último momento em que a família de Israel pode ser contada. A partir daqui, e por quatrocentos anos, ninguém mais conta: quando o número reaparecer, em Números 1, serão seiscentos mil homens em idade de guerra, e a contagem já não será feita por nome.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os setenta, e como se compõem. Pela leitura mais corrente: os sessenta e seis do versículo 26, mais José, mais Manassés e Efraim, mais o próprio Jacó. As dificuldades dessa conta estão no estudo de Gênesis 46:26.

Manassés e Efraim. Os dois filhos de José e Azenate, nascidos no Egito antes dos anos de fome (Gênesis 41:50). São eles que este versículo reintroduz na contagem. Quem são está no estudo de Gênesis 46:20.

Os cinco nomes que o texto grego acrescenta. Em Gênesis 46:20 a Septuaginta traz, além de Manassés e Efraim: Maquir, filho de Manassés, que em Números 26:29 e em Josué 17:1 encabeça a principal família manassita; Gileade, filho de Maquir, cujo nome designará toda a região a leste do Jordão; Sutalaão e Taã, filhos de Efraim, que aparecem em Números 26:35 como cabeças de famílias efraimitas; e Edem, filho de Sutalaão, correspondente ao Erã de Números 26:36. Nenhum é invenção: todos existem no cânon hebraico, em outros livros.

Estêvão. Um dos sete escolhidos para o serviço das mesas em Atos 6:5, e o primeiro cristão morto por causa da fé. O discurso de Atos 7 é o mais longo do livro e percorre a história de Israel de Abraão a Salomão; é nele, no versículo 14, que aparece o número setenta e cinco. Ele fala em grego, diante do conselho, em Jerusalém.

A Septuaginta. A tradução da Bíblia hebraica para o grego, começada em Alexandria no século III antes de Cristo. Era a Bíblia da maioria dos judeus de língua grega e passou a ser a Bíblia da igreja primitiva. O nome vem da tradição, registrada na Carta de Aristeias, de que setenta e dois tradutores a teriam produzido — coincidência curiosa com o número deste versículo, e nada além disso.

Os manuscritos do mar Morto. Rolos e fragmentos encontrados a partir de 1947 em cavernas do deserto da Judeia, copiados entre o século III antes de Cristo e o século I depois. Entre eles há testemunhos hebraicos de Êxodo com a leitura de setenta e cinco, ponto tratado no item 2.

A casa de Jacó. Expressão que aqui designa uma família contável e que, do Êxodo em diante, passa a nomear o povo inteiro. É a única vez que ela aparece no Gênesis.

5. Pontos de Ensino

O texto bíblico tem história, e ela pode ser conhecida. Este versículo tem duas formas antigas, e a diferença entre elas é rastreável até a linha exata em que os textos se separam. Isso não é motivo de alarme nem de constrangimento: é o que se sabe, e saber é melhor do que não saber. Uma fé que precisa ignorar o rodapé da Bíblia de estudo está pedindo proteção contra a própria Bíblia.

O Novo Testamento cita a Bíblia que os seus leitores tinham. Estêvão diz setenta e cinco porque essa era a leitura da Bíblia grega, que era a Bíblia da diáspora e da igreja primitiva. Isso explica dezenas de outras citações do Novo Testamento que não batem com o Antigo Testamento em português, e é uma chave de leitura que serve muito além deste caso.

A divergência textual está aqui e não muda nada. É preciso dizer as duas coisas juntas. Há duas formas do número, e o que o número afirma — que o começo foi pequeno — é o mesmo nas duas. Nem toda diferença de manuscrito é uma diferença de conteúdo, e tratar todas como se fossem é tão pouco rigoroso quanto ignorá-las.

A tradição preferiu conviver com a diferença. Ninguém apagou os cinco nomes gregos, ninguém corrigiu Atos 7:14, ninguém acertou a soma do versículo anterior. É um hábito de transmissão, e ele se repete no capítulo inteiro: guardar o que se recebeu, com as asperezas.

Aqui acaba a possibilidade de contar. Setenta pessoas ainda cabem numa lista de nomes. Quando Israel reaparecer contado, em Números 1, serão seiscentos mil homens de guerra, e ninguém mais será nomeado. Este versículo é o último retrato individualizado do povo.

6. Aspectos Filosóficos

Um número que aparece em duas formas obriga a uma pergunta simples: o que exatamente ele estava fazendo ali?

Se a função de setenta fosse informar uma quantidade exata, a divergência seria grave — dois valores incompatíveis para a mesma medida. Mas basta olhar o que a diferença produz: entre setenta e setenta e cinco, nada muda no que o texto afirma. Continua sendo uma família, e continua sendo pequena diante do que virá.

Isso indica que o número não estava funcionando como medida, e sim como ordem de grandeza. Ele existe para ser comparado com outra coisa — com o povo que encheu a terra, em Êxodo 1:7 —, e uma comparação de ordem de grandeza tolera cinco unidades sem se abalar.

A distinção vale para muita coisa fora daqui. Há números que só servem se forem exatos, e há números cuja função é situar. Confundir os dois tipos leva a discutir com precisão coisas que nunca precisaram dela — e a aceitar com folga coisas que exigiam conferência.

7. Aplicações Práticas

Ler as notas de rodapé. A divergência deste versículo está impressa em quase toda Bíblia de estudo, e quase ninguém a lê. Quem se acostuma a olhar o rodapé descobre que muitas “contradições” apresentadas como descobertas são, na verdade, informação publicada há séculos e discutida abertamente.

Distinguir o que muda do que não muda. Diante de qualquer divergência — de manuscrito, de testemunho, de versão de um acontecimento —, a pergunta útil é o que a diferença altera. Às vezes altera tudo; às vezes altera cinco unidades num número que existia para dizer “pouca gente”. Fazer essa triagem antes de reagir economiza discussões inteiras.

Não exigir do outro a precisão que a situação dele não permitia. Estêvão citou de memória, em grego, diante de um tribunal, a Bíblia que ele e os ouvintes tinham. Cobrar dele a conferência de manuscritos é anacronismo. Vale como hábito geral: antes de apontar um erro alguém cometeu, convém saber com que recursos ele estava trabalhando.

Registrar o ponto de partida. A única razão pela qual se pode dizer que Israel cresceu é que alguém anotou setenta. Contagens iniciais parecem inúteis no momento em que são feitas, e são elas que tornam qualquer crescimento demonstrável depois — numa vida, num trabalho, numa família.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Atos 7:14 diz setenta e cinco e o Gênesis diz setenta?

Porque Estêvão fala em grego e segue a Bíblia grega, a Septuaginta, que traz setenta e cinco tanto aqui quanto em Êxodo 1:5. As nossas traduções do Antigo Testamento partem do texto hebraico massorético, que traz setenta. São duas formas antigas do mesmo texto, e a diferença vem de cinco descendentes de José que o grego acrescenta em Gênesis 46:20.

Estêvão errou, então?

Não há razão para dizer isso. Ele citou a Bíblia que ele e os ouvintes tinham, do modo como se citava no século I. O Novo Testamento inteiro faz isso — a maioria das citações do Antigo Testamento nele segue o grego, e por isso não coincidem palavra por palavra com o Antigo Testamento em português.

Os cinco nomes a mais foram inventados pelos tradutores gregos?

Não. Maquir, Gileade, Sutalaão, Taã e Edem aparecem todos na Bíblia hebraica, em Números 26 e em 1 Crônicas 7, como descendentes de Manassés e Efraim. O que o texto grego fez foi completar a linha de José com material que já existia em outro lugar do cânon. Se isso foi acréscimo do grego ou corte do hebraico é justamente o que se discute.

Qual dos dois números é o original?

Não há consenso, e a descoberta dos manuscritos do mar Morto tornou a questão mais aberta, não menos: há testemunho hebraico antigo com setenta e cinco. Os argumentos de peso existem dos dois lados, e não é possível decidir com o material disponível.

Isso significa que a Bíblia foi corrompida?

Não é o que o caso mostra. As duas formas são antigas, as duas foram transmitidas com cuidado, e a diferença é localizada e conhecida — está numa linha, e é possível dizer exatamente qual. Um texto cuja história de transmissão pode ser reconstruída assim é um texto bem documentado, e não um texto perdido.

Se o número é discutido, dá para confiar no que o versículo diz?

O que o versículo afirma é que a casa de Jacó entrou no Egito sendo uma família pequena, contável, com nomes. Isso é igual nas duas formas do texto. A divergência é de cinco unidades num total que existe para ser comparado com os seiscentos mil de Números 1 — e nessa comparação, cinco não fazem diferença nenhuma.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo número, retomado na abertura do Êxodo, com a expressão física do versículo anterior:

Êxodo 1:5 — “Todas as pessoas que saíram da coxa de Jacó eram setenta; e José já estava no Egito.”

E na recapitulação de Moisés, quarenta anos depois:

Deuteronômio 10:22 — “Com setenta pessoas os seus pais desceram ao Egito; e agora o SENHOR seu Deus o pôs como as estrelas dos céus em multidão.”

A citação de Estêvão, que segue o texto grego:

Atos 7:14 — “E José mandou chamar seu pai Jacó e toda a sua parentela, setenta e cinco pessoas.”

O verso seguinte de Êxodo mostra para que o número servia:

Êxodo 1:7 — “E os filhos de Israel frutificaram, e aumentaram muito, e multiplicaram-se, e foram fortalecidos grandemente; de maneira que a terra se encheu deles.”

Quatro capítulos antes deste, a promessa que o número mede:

Gênesis 46:3 — “Eu sou Deus, o Deus de seu pai. Não tenha medo de descer ao Egito, porque ali farei de você uma grande nação.”

Os cinco nomes que o texto grego acrescenta existem no cânon hebraico:

Números 26:29 — “Os filhos de Manassés foram: de Maquir, a família dos maquiritas; e Maquir gerou a Gileade; de Gileade, a família dos gileaditas.”

Números 26:35-36 — “Estes são os filhos de Efraim, segundo as suas famílias: de Sutela, a família dos sutelaítas; de Bequer, a família dos bequeritas; de Taã, a família dos taanitas. E estes são os filhos de Sutela: de Erã, a família dos eranitas.”

A expressão “casa de Jacó”, que aqui nomeia uma família de setenta, passa a nomear o povo:

Êxodo 19:3 — “Moisés subiu a Deus, e o SENHOR o chamou do monte, dizendo: ‘Assim você dirá à casa de Jacó e anunciará aos filhos de Israel…’”

Isaías 2:5 — “Venham, ó casa de Jacó, e andemos na luz do SENHOR.”

E, quatrocentos anos depois, o mesmo povo já não cabe numa lista de nomes:

Números 1:46 — “Foram todos os contados seiscentos e três mil e quinhentos e cinquenta.”

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E os filhos de José, que lhe nasceram no Egito, eram duas pessoas. Todas as pessoas da casa de Jacó que entraram no Egito eram setenta.

Texto hebraico

וּבְנֵי יוֹסֵף אֲשֶׁר־יֻלַּד־לוֹ בְמִצְרַיִם נֶפֶשׁ שְׁנָיִם כָּל־הַנֶּפֶשׁ לְבֵית־יַעֲקֹב הַבָּאָה מִצְרַיְמָה שִׁבְעִים

Transliteração

u-vene Yosef asher-yullad-lo ve-Mitzrayim nefesh shenayim kol-ha-nefesh le-veit-Ya'aqov ha-ba'ah Mitzraymah shiv'im

Análise palavra por palavra

אֲשֶׁר־יֻלַּד־לוֹ — asher-yullad-lo, “que lhe foram nascidos”.

Mesma forma passiva do versículo 22, e mesma do versículo 20: o verbo não diz que alguém gerou, diz que houve nascimento. Aqui a passiva é a mais natural possível, porque a mãe já foi nomeada no versículo 20 e não precisa reaparecer.

נֶפֶשׁ שְׁנָיִם — nefesh shenayim, literalmente “pessoa, dois”.

Construção estranha e vale notá-la: o substantivo está no singular e o numeral no dual, a forma que o hebraico usa para pares. Não é “duas pessoas” na sintaxe comum da língua; é uma fórmula de contagem, do tipo que aparece em registros administrativos, em que a unidade vem primeiro e o número depois. O efeito, em português, é o de uma linha de planilha.

É exatamente esta frase que a tradução grega antiga substitui por “nove pessoas” — a divergência textual tratada no item 2 tem aqui o seu ponto exato.

כָּל־הַנֶּפֶשׁ לְבֵית־יַעֲקֹב — kol-ha-nefesh le-veit-Ya'aqov, “toda a pessoa pertencente à casa de Jacó”.

Bayit é casa: tanto a construção quanto o grupo de gente que vive nela. Le-veit é “pertencente à casa de”, e é essa preposição que faz o critério deste versículo ser mais largo que o do anterior — porque a casa inclui o chefe, e a descendência não.

No Gênesis inteiro, a expressão “casa de Jacó” aparece só aqui. A partir do Êxodo ela deixa de designar uma família e passa a designar o povo, e é assim que os profetas a usarão.

הַבָּאָה — ha-ba'ah, “que entrou”.

A mesma palavra do versículo 26, com um acento diferente. Aqui a sílaba forte é a penúltima, o que corresponde ao verbo no perfeito — ação concluída, “os que entraram”. No versículo 26 o acento cai na última sílaba, o que corresponde ao particípio, “os que estavam vindo”. A diferença, a leitura que Rashi tirou dela e os limites do argumento estão no estudo de Gênesis 46:26.

מִצְרַיְמָה — Mitzraymah, “ao Egito”, com a terminação de direção.

שִׁבְעִים — shiv'im, “setenta”.

Forma plural construída sobre sheva, sete — o hebraico monta as dezenas assim, como fez com shishim, sessenta, no versículo anterior.

É a última palavra da lista, e é a palavra que a tradição grega antiga substitui por hebdomekonta pente (“setenta e cinco”), forma que Atos 7:14 repete. Onde os dois textos divergem, e por quê, está no item 2.

Uma nota sobre a marca do texto. O texto hebraico traz, no fim deste versículo, uma das marcas com que os copistas indicavam divisão de seções. Ela assinala que ali termina uma unidade e começa outra — o que corresponde ao que se lê: a lista acaba, e o versículo 28 volta à narrativa, com Jacó mandando Judá adiante.

11. Conclusão

Conclui-se, primeiro, que o capítulo fecha com um critério novo. As quatro colunas contaram por mãe; o versículo 26 contou os nascidos de Jacó que saíram de Canaã; este conta a casa, e por isso reintegra Jacó, José e os dois netos nascidos no Egito. Três perguntas, três números, todos declarados. A dificuldade não está em o texto ter mudado de critério — está em as somas não se ajustarem entre si, e isso é assunto do versículo anterior.

Conclui-se, em segundo lugar, que o número deste versículo não chegou até nós em uma só forma. Setenta no texto hebraico tradicional; setenta e cinco na tradução grega antiga, num manuscrito hebraico do deserto da Judeia e no discurso de Estêvão, em Atos 7:14. As duas formas são antigas, a divergência é localizável numa linha, e não é possível decidir qual delas é a original. Registrar isso é mais honesto — e mais útil ao leitor — do que apresentar um dos números como se não houvesse outro.

Conclui-se, em terceiro lugar, que essa instabilidade não atinge o que o texto afirma. O número existe para dizer que o começo era pequeno e contável, e ele diz isso igualmente com setenta ou com setenta e cinco. Nem toda diferença entre manuscritos é diferença de conteúdo, e confundir as duas coisas leva a discussões que não têm objeto.

Conclui-se, por fim, que aqui termina a única contagem nominal do povo. Setenta pessoas com nome, pai e mãe declarados. Quando Israel voltar a ser contado, em Números 1, serão seiscentos mil homens de guerra e ninguém mais será nomeado. Este versículo é o último em que a promessa de Gênesis 46:3 — “ali farei de você uma grande nação” — ainda cabe inteira numa lista.

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