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Gênesis 17:17

✍️ Por Alberto Adriano·18 de agosto de 2026·⏱️ 42 min de leitura·👁 10 acessos
Então Abraão prostrou-se com o rosto em terra, riu e disse no seu coração: “Poderá nascer um filho a um homem de cem anos? E Sara, com noventa anos, dará à luz?”
Homem idoso prostrado com o rosto em terra diante de uma tenda, ao entardecer no deserto.

Estudo


Então Abraão prostrou-se com o rosto em terra, riu e disse no seu coração: “Poderá nascer um filho a um homem de cem anos? E Sara, com noventa anos, dará à luz?”

1. Introdução

Ele cai com o rosto em terra — o gesto da adoração — e ri.

E, no pensamento, diz que aquilo é impossível.

E não é repreendido. Deus responde à objeção e segue adiante, sem uma palavra sobre o riso.

Um capítulo adiante, Sara ri. Também por dentro. E ouve: "Por que riu Sara?... Há para Deus alguma coisa difícil?" — e nega, com medo.

Dois risos, duas reações. É o ponto mais espinhoso do capítulo, e as saídas que a pregação oferece não resistem ao hebraico.

2. Contexto Histórico e Cultural

Números que precisam ser somados

Convém acertar a cronologia, porque ela é o pano de fundo da frase.

O capítulo abre com Abraão de noventa e nove anos. Aqui ele fala de si como homem de cem — arredondando para o ano em que a criança nascerá, conforme o versículo 21 esclarece: "por este tempo no ano seguinte".

Sara tem oitenta e nove. Ele diz noventa, pelo mesmo motivo.

E o capítulo 21 confirma: Abraão tinha cem anos quando Isaque nasceu.

Ismael, o filho que já existe, está com treze — resultado da conta entre o capítulo 16, que dá oitenta e seis anos a Abraão quando o menino nasce, e o capítulo 17, que lhe dá noventa e nove.

Vale reter esse último número, porque ele explica o versículo seguinte.

A esperança e o tempo

Vale medir quanto tempo essa promessa já durava quando o riso acontece.

Abraão saiu de Harã com setenta e cinco anos, e a primeira promessa é dessa época. Estamos, portanto, vinte e quatro anos depois.

Nesse intervalo houve fome, viagem ao Egito, separação de Ló, uma guerra, uma visão noturna com animais partidos, e o nascimento de um filho com a escrava.

E houve, no meio de tudo isso, treze anos em que o texto não registra uma única palavra de Deus.

Ou seja: o homem que ri não é um novato impaciente. É alguém que esperou duas décadas e meia.

Rir na Antiguidade

Convém uma palavra sobre o gesto, porque a nossa ideia de riso é mais estreita que a antiga.

Para nós, rir está quase sempre ligado ao cômico. Riso é reação a piada.

No mundo do Antigo Oriente Próximo, o riso cobre um espectro muito mais largo. Há o riso de alegria e o de escárnio, mas também o riso de triunfo sobre o inimigo, o riso ritual e festivo, e o riso que acompanha o absurdo.

Os salmos falam de Deus que "ri" dos que conspiram — e ali não há graça nenhuma: é desprezo soberano.

A palavra hebraica deste versículo, como veremos, cobre até brincadeiras eróticas e chacota.

Ler "riu" com a nossa noção de humor é, portanto, importar um sentido estreito para uma palavra larga.

Prostrar-se

Um dado sobre o gesto que abre o versículo.

Cair com o rosto em terra é, no mundo antigo, a posição diante do soberano. Aparece em relevos assírios e egípcios, com o vassalo de bruços diante do trono.

No Antigo Testamento, é postura de adoração e também de terror. Faz-se isso diante de Deus, diante de anjos, diante de reis.

Abraão já havia feito o mesmo no versículo 3, ao ouvir a fala inicial.

Vale registrar desde já o que o versículo produz: o mesmo homem, na mesma postura de reverência, ri e diz que a coisa é impossível.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então Abraão prostrou-se com o rosto em terra"

O hebraico é vayyippol al-panav — "e caiu sobre a sua face".

É a mesma expressão do versículo 3, e vale comparar os dois momentos.

No versículo 3, ele cai e Deus fala. O gesto antecede a revelação: postura de quem recebe.

Aqui, ele cai e ri. O gesto antecede uma objeção.

Convém não decidir depressa o que a postura significa nesta segunda ocorrência. O verbo é o mesmo, mas o que vem depois é diferente, e isso é justamente o problema.

Há quem leia o gesto como adoração sincera, e o riso subsequente como alegria — as duas coisas combinando.

Há quem leia o gesto como convenção e o riso como o que ele realmente pensava — a reverência por fora, a descrença por dentro.

O texto não indica qual das duas. Registro que a ambiguidade é do texto e não do intérprete.

"riu" — a palavra e o seu alcance

O verbo é tsahaq, e é preciso conhecer o alcance dele antes de qualquer discussão.

Comece-se pelo óbvio: significa rir. É o que Sara faz no capítulo 18, e o que ela diz que Deus lhe fez fazer no capítulo 21.

Mas o campo semântico é bem maior.

No capítulo 26, Abimeleque olha por uma janela e vê Isaque tsahaq com Rebeca sua mulher — e o que ele vê é o que lhe prova que ela não é irmã dele. O verbo, ali, descreve carícia entre marido e mulher.

No episódio do bezerro de ouro, o povo come, bebe e se levanta para tsahaq. As traduções vertem por divertir-se ou regozijar-se, e o contexto sugere algo mais que uma dança inocente.

A mulher de Potifar acusa José dizendo que o hebreu foi trazido para tsahaq com eles — e ali o sentido é de zombaria ou de assédio, dependendo da leitura.

E, no capítulo 21, Sara vê o filho de Agar tsahaq, e o que vê basta para exigir a expulsão dos dois.

Reúna-se tudo: alegria, brincadeira, carícia sexual, escárnio, provocação.

A conclusão metodológica é importante e vale ser dita com clareza: o verbo, sozinho, não determina o tom. Quem afirma que aqui significa alegria, ou que significa descrença, está decidindo pelo contexto, e não pela palavra.

Registro uma distinção gramatical que às vezes ajuda e às vezes é usada indevidamente. Em algumas das ocorrências de sentido mais forte — a de Isaque com Rebeca, a de José, a de Ismael — o verbo aparece na forma intensiva. Aqui e no capítulo 18, aparece na forma simples.

Isso é dado real. Só não resolve o nosso problema, porque Abraão e Sara usam a mesma forma.

"e disse no seu coração"

A expressão hebraica é vayyomer belibbo, e ela merece atenção maior do que costuma receber.

Primeiro: é fala interior. Ninguém ouviu. O que o leitor recebe é acesso ao pensamento, concedido pelo narrador.

Segundo, e mais interessante: vale ver onde mais essa expressão aparece.

Depois do dilúvio, o SENHOR "disse em seu coração" que não voltaria a amaldiçoar a terra. Ali a expressão introduz uma decisão firme.

Mas, no restante da Bíblia, ela costuma introduzir pensamentos que o texto não aprova.

O salmo diz: "o tolo disse no seu coração: não há Deus".

Outros salmos usam a fórmula para descrever o ímpio que raciocina consigo mesmo — dizendo que não será abalado, que Deus se esqueceu, que Deus não verá.

Ou seja: a fórmula "dizer no coração" tende, na Bíblia, a marcar um pensamento presunçoso ou equivocado que a pessoa não diria em voz alta.

É preciso pesar isso com cuidado. A amostra não é uniforme, e a expressão também aparece em contextos neutros. Não se pode afirmar que ela seja, por si, indicação de erro.

Mas convém registrar que o padrão existe, porque ele pesa contra a leitura fácil de que se trata de alegria pura. Alegria costuma sair pela boca.

As duas perguntas

Vejamos o que ele diz.

"Poderá nascer um filho a um homem de cem anos? E Sara, com noventa anos, dará à luz?"

O hebraico traz duas interrogações introduzidas pela partícula de pergunta.

São perguntas retóricas, do tipo que já traz a resposta. Ninguém pergunta se um homem de cem anos pode ter filhos esperando ouvir que sim.

Repare também na construção: ele fala de si na terceira pessoa. Não diz "eu terei um filho?", diz "nascerá filho a um homem de cem anos?" — como quem enuncia um caso geral.

E a segunda pergunta é ainda mais direta: e Sara, com noventa, dará à luz?

Ou seja: o conteúdo é uma declaração de impossibilidade, dividida em dois casos.

Isso precisa ser dito com todas as letras, porque muda a discussão inteira: as palavras de Abraão são mais explicitamente incrédulas do que as de Sara.

Ela, no capítulo 18, dirá: "depois que envelheci terei prazer, sendo também o meu senhor já velho?" — frase que fala de prazer e de idade, e que não formula tão diretamente a impossibilidade do nascimento.

Guarde-se esse dado. Ele será decisivo adiante.

E então não acontece nada

Aqui está o coração do problema.

Abraão ri. Abraão diz, por dentro, que é impossível.

E a resposta divina, no versículo seguinte, é: "Certamente Sara tua mulher te dará à luz um filho, e chamarás o seu nome Isaque".

Nenhuma pergunta sobre o riso. Nenhuma repreensão. Nenhum "por que riste".

Convém uma precisão. A palavra hebraica que abre a resposta divina tem valor corretivo — algo entre "não, mas" e "de fato". Ou seja: há correção da afirmação. Deus contradiz o conteúdo do pensamento dele.

O que não há é qualquer atenção ao riso.

O outro riso

Um capítulo adiante, três visitantes chegam à tenda. Anuncia-se que Sara terá um filho. E o texto diz:

"Riu, pois, Sara consigo mesma, dizendo: Depois que envelheci terei prazer, sendo também o meu senhor já velho?"

Note-se: mesmo verbo, mesma forma gramatical, e também por dentro — "consigo mesma".

E então:

"Por que riu Sara dizendo: Será verdade que darei à luz, sendo já velha? Há para Deus alguma coisa difícil?"

E o desfecho: "Então Sara negou dizendo: Não ri; pois teve medo. Mas ele disse: Não é assim, mas riste."

Compare-se com o que aconteceu aqui.

Ele: ri por dentro, declara impossibilidade, e recebe a promessa reafirmada.

Ela: ri por dentro, questiona a possibilidade, é confrontada com uma pergunta direta, tem medo, nega, e é contradita.

Um detalhe que os rabinos notaram

Vale registrar uma curiosidade do capítulo 18, porque ela é notável e verificável.

Sara diz: "depois que envelheci terei prazer, sendo também o meu senhor já velho".

E a citação divina, no versículo seguinte, é: "Será verdade que darei à luz, sendo já velha?"

A menção à idade do marido desapareceu.

A tradição rabínica observou isso com atenção e extraiu dali uma regra: teria havido uma alteração deliberada, feita em favor da paz doméstica.

Registro a observação como observação. O dado — a diferença entre a fala e a citação — é do texto. A explicação é da tradição, e é leitura, não afirmação bíblica.

Alguns estudiosos preferem explicar a diferença como paráfrase livre, prática comum na narrativa hebraica ao repetir falas.

As saídas que se costumam oferecer — e o que há de errado com cada uma

Agora vamos ao trabalho. Exponho as harmonizações correntes e as testo, sem escolher nenhuma.

Primeira: "o riso dele era de alegria, o dela era de descrença."

É a explicação mais repetida.

Contra ela pesam três coisas.

Primeira: o verbo é o mesmo, na mesma forma.

Segunda: os dois risos acontecem no mesmo lugar — por dentro.

Terceira, e decisiva: as palavras dele são mais explicitamente incrédulas. Ele enuncia a impossibilidade do nascimento em duas perguntas retóricas; ela fala de prazer e de velhice.

Ou seja: a distinção precisa ser importada de fora, porque o texto não a fornece — e, se algo o texto fornece, é o inverso.

Convém dizer que a leitura é antiga, e não invenção moderna. A tradução aramaica que a sinagoga usava verte o verbo, aqui, por "alegrou-se", e mantém o riso no caso de Sara. Filo de Alexandria, no primeiro século, também distingue os dois.

Isso é informação preciosa e vale interpretá-la com cuidado. Mostra que o incômodo é antiquíssimo, e que a solução foi buscada muito cedo. Não mostra que a solução esteja certa — mostra que já no mundo antigo alguém sentiu necessidade de alisar a passagem.

Segunda: "as formas verbais são diferentes."

Ouve-se isso com frequência, e é simplesmente falso.

Os dois verbos estão na forma simples, terceira pessoa, com o mesmo padrão narrativo. A única diferença é o gênero, exigido pela gramática.

Quem apresenta esse argumento não conferiu.

Terceira: "no capítulo 18 havia testemunhas; aqui, não."

Esta tem algum fundamento. A cena do capítulo 18 é pública: há visitantes, há a tenda, há Abraão presente, e o riso é atribuído a alguém que estava escutando de longe.

E, de fato, a diferença de tratamento pode ter a ver com a diferença de cenário.

Contra: a repreensão do capítulo 18 não é sobre propriedade nem sobre publicidade. É sobre o conteúdo — "há para Deus alguma coisa difícil?" —, e essa pergunta valeria igualmente aqui.

Além disso, o que agrava a cena dela não é o riso: é a negação posterior, feita por medo. Mas a negação só existe porque houve confronto, e é justamente o confronto que estamos tentando explicar.

Quarta: "a pergunta do capítulo 18 existe para produzir a frase teológica, não para punir."

Esta é, a meu ver, a mais forte, e raramente é apresentada.

Observe-se a estrutura da cena: o riso de Sara serve de gancho para a declaração central de todo o ciclo — "há para Deus alguma coisa difícil?".

Nessa leitura, a intervenção não é castigo: é o mecanismo narrativo que introduz a afirmação decisiva.

Contra: ainda assim, ela é confrontada e ele não. O mecanismo narrativo explica por que a frase aparece ali; não explica por que a mesma frase não foi dita aqui, onde caberia igualmente.

Quinta: "são duas tradições diferentes, reunidas."

É a explicação da crítica histórica, e ela precisa ser apresentada com honestidade, porque é a que melhor explica os dados.

Segundo a hipótese das camadas, o capítulo 17 pertence ao material sacerdotal e o capítulo 18 a uma narrativa mais antiga.

Nesse caso, teríamos duas versões independentes do anúncio do nascimento — uma em que ri o pai, outra em que ri a mãe —, cada uma explicando à sua maneira o nome do menino. E o compilador teria conservado as duas.

A favor: explica a duplicação, explica a diferença de tratamento, explica por que existem três explicações distintas para o mesmo nome no ciclo, e não exige que o texto seja coerente em algo que ele visivelmente não é.

Contra: paga um preço alto. Explica a diferença negando a unidade da narrativa, e quem lê o texto como obra unificada não pode usar essa saída. Além disso, a datação e a delimitação das camadas são discutidas, e a hipótese não é fato demonstrado.

Sexta: "um homem ri e não é confrontado; uma mulher ri e é."

Esta leitura circula, e seria desonesto omiti-la.

A favor: o dado bruto é esse. Duas pessoas fazem a mesma coisa, uma é interpelada e a outra não, e a interpelada é a mulher.

Contra: o texto não dá indicação nenhuma nessa direção. Não diz que a diferença tem a ver com sexo, não comenta a assimetria, e o mesmo capítulo 18 registra o SENHOR falando com Abraão sobre o riso dela, e não com ela diretamente — o que complica o quadro em vez de simplificá-lo.

E vale lembrar que o mesmo livro, dois capítulos antes, mostra Deus falando diretamente com uma escrava egípcia e ouvindo a resposta dela.

Registro a leitura, com o que a favorece e o que a limita.

Como fica

Não é possível decidir. E não vou fingir que é.

O que se pode afirmar com segurança é o seguinte, e já não é pouco.

Primeiro: os dois risos usam o mesmo verbo, na mesma forma, no mesmo lugar — dentro da pessoa.

Segundo: as palavras dele enunciam a impossibilidade de modo mais direto que as dela.

Terceiro: ele não é interpelado e ela é.

Quarto: a distinção entre um riso bom e um riso mau é antiga — está na tradução aramaica e em Filo — e não está no texto hebraico.

Quinto: nenhuma das explicações propostas cobre todos os dados sem deixar sobra.

E aqui vale dizer por que insisto nisso. Este é exatamente o tipo de passagem que a leitura corrente alisa, distribuindo virtude e defeito de modo a manter os personagens onde a tradição os quer. O trabalho honesto é outro: mostrar a aspereza e deixá-la áspera.

O nome que guarda o riso

Falta o dado que fecha o versículo, e é o melhor de todos.

No versículo 19, Deus diz como o menino se chamará: Isaque.

Em hebraico, Yitzhaq — formado sobre a mesma raiz do verbo que acabamos de examinar.

Significa, ao pé da letra, "ele ri" ou "ele rirá".

Ou seja: o filho carrega no nome o riso do pai.

E o texto não diz de qual riso se trata.

Não diz: "e o chamarás Isaque porque riste de alegria". Não diz: "porque duvidaste". Diz apenas o nome.

Convém acrescentar duas informações que ampliam a coisa.

A primeira: o ciclo de Abraão fornece três explicações diferentes para esse nome. Este riso, aqui. O riso de Sara, no capítulo 18. E a frase dela no capítulo 21, depois do nascimento: "Deus me fez rir, e qualquer um que o ouvir se rirá comigo" — que é alegria, sem sombra de dúvida.

Três etiologias para um nome só. Isso, por si, é dado significativo.

A segunda: nomes desse tipo, em hebraico, costumam ser formas abreviadas de frases que incluíam um nome divino. Yaakov, Yosef e Yisrael são construídos assim.

É provável, portanto, que Yitzhaq tenha sido, originalmente, algo como "que Deus sorria" ou "Deus sorriu" — expressão de favor divino, sem relação com o riso de ninguém.

Se for esse o caso, as três explicações do Gênesis são etimologias populares, construídas sobre a semelhança sonora, ao modo das demais do livro.

Registro como hipótese bem apoiada, e não como certeza.

Mas repare no que sobra, seja qual for a origem do nome. Durante toda a vida daquele menino, e por toda a história do povo que dele viria, o nome que se pronunciaria seria o do riso.

E o texto nunca esclarece de que riso se trata.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Abraão — noventa e nove anos; fala de si como homem de cem porque a criança nascerá no ano seguinte, conforme o versículo 21.

Sara — oitenta e nove; ele diz noventa, pelo mesmo arredondamento.

Tsahaq (rir) — verbo que cobre alegria, brincadeira, carícia entre marido e mulher, escárnio e provocação; sozinho, não determina o tom.

"Disse no seu coração" — fórmula que, na Bíblia, costuma introduzir pensamentos que o texto não aprova, como no salmo do tolo que diz não haver Deus.

Gênesis 18:12-15 — o riso de Sara: mesmo verbo, mesma forma, também interior; seguido de confronto, medo e negação.

Isaque (Yitzhaq) — nome formado sobre a mesma raiz; significa "ele ri", e o texto nunca diz de qual riso se trata.

As três etiologias — o riso do pai aqui, o da mãe no capítulo 18, e a alegria dela no capítulo 21, todas explicando o mesmo nome.

Targum Onquelos e Filo — testemunhos antigos que já distinguiam o riso de alegria dele do riso de descrença dela; a harmonização não é moderna.

Ismael — treze anos nesse momento, pela conta entre Gênesis 16:16 e 17:1; o filho que existe, e de quem Abraão falará no versículo seguinte.

Romanos 4:19-20 — a leitura de Paulo, segundo a qual Abraão não duvidou da promessa; ela passa ao largo deste versículo.

5. Pontos de Ensino

Ele cai com o rosto em terra — e ri. A postura da adoração e a objeção no mesmo gesto.

O verbo tsahaq cobre alegria, carícia, brincadeira e escárnio. Sozinho, não decide o tom de nada.

Os dois risos usam o mesmo verbo, na mesma forma. Quem diz que as formas gramaticais diferem não conferiu.

Os dois risos são interiores. Ele "no seu coração", ela "consigo mesma".

As palavras dele são mais incrédulas que as dela. Ele enuncia a impossibilidade em duas perguntas retóricas; ela fala de prazer e de idade.

Ele não é interpelado; ela é. E ela nega por medo, e é contradita.

A distinção entre riso bom e riso mau é antiga. Está na tradução aramaica e em Filo — e não está no hebraico.

O nome Isaque significa "ele ri". O filho carrega no nome o riso do pai, e o texto não diz qual.

Há três explicações para o mesmo nome no ciclo. O riso dele, o dela, e a alegria dela depois do parto.

Nenhuma harmonização cobre todos os dados. Não é possível decidir, e fingir que é seria desonesto.

6. Aspectos Filosóficos

Reverência e objeção no mesmo corpo

Vale começar pela cena física, porque ela é mais estranha do que parece.

Um homem está de bruços no chão. É a posição de quem se põe inteiramente à disposição de outro — a mesma dos relevos antigos, com o vassalo prostrado diante do trono.

E, nessa posição, ele ri e pensa que aquilo é impossível.

Não há transição entre uma coisa e outra. O texto não diz que ele se levantou, mudou de ideia ou hesitou. As duas coisas ocupam o mesmo instante.

Isso incomoda porque tendemos a supor que reverência e descrença se excluem — que quem duvida não adora, e que quem adora não duvida.

O versículo mostra as duas juntas, e não comenta.

Registro que a leitura é minha. O texto apenas justapõe os gestos.

O que uma palavra larga faz com a interpretação

Convém pensar no problema metodológico que este versículo expõe, porque ele vale muito além dele.

O verbo empregado cobre um campo enorme: alegria, brincadeira, carícia entre marido e mulher, chacota, provocação.

Palavras assim não trazem o seu sentido consigo. Elas o recebem do contexto.

E, quando o contexto é ambíguo — como aqui —, o intérprete precisa escolher. O problema não é escolher: é escolher e apresentar a escolha como se fosse a palavra.

Foi isso que aconteceu com este versículo durante dois mil anos. Decidiu-se que o riso do pai era de alegria, e a decisão passou a ser citada como se estivesse no hebraico.

Vale generalizar o cuidado. Boa parte das certezas exegéticas que circulam são escolhas antigas que perderam a lembrança de terem sido escolhas.

Duas pessoas, dois tratamentos

Aqui está o nó, e ele merece ser encarado sem manobra.

Duas pessoas reagem à mesma promessa da mesma maneira, com o mesmo verbo e no mesmo lugar interior. Uma é interpelada; a outra não.

Há explicações possíveis, e todas deixam sobra.

A que apela à diferença de conteúdo não funciona, porque as palavras dele são mais explicitamente incrédulas.

A que apela à diferença gramatical é falsa.

A que apela ao cenário — testemunhas presentes num caso, ausentes no outro — tem algum peso, e não explica por que a pergunta decisiva do capítulo 18 não caberia igualmente aqui.

A que apela à função narrativa da cena é a mais elegante, e não resolve a assimetria.

A que apela a fontes distintas explica bem os dados e cobra o preço de negar a unidade do texto.

E a que apela ao sexo dos personagens registra o dado bruto sem qualquer indicação do texto de que seja essa a razão.

Diante disso, a atitude honesta é uma só: expor a dificuldade, apresentar as saídas com os seus custos, e não fingir que uma delas venceu.

Convém dizer por que isso importa. Um comentário que resolve tudo ensina o leitor a esperar que tudo se resolva, e o prepara mal para o dia em que ele encontrar sozinho algo que não se resolve.

O incômodo é antigo

Vale registrar algo que costuma passar despercebido e que muda a discussão.

A tradução aramaica que se lia na sinagoga verte o verbo, neste versículo, por "alegrou-se" — e mantém o riso quando se trata de Sara.

Filo, judeu de Alexandria do primeiro século, faz distinção semelhante.

Ou seja: a harmonização não é invenção de pregadores modernos. Ela tem quase dois mil anos.

Isso tem duas leituras, e as duas são interessantes.

A primeira: se leitores antigos, com o hebraico na cabeça e a cultura do texto por dentro, entenderam assim, talvez tenham captado algo que perdemos.

A segunda: se leitores antigos precisaram traduzir o verbo por outra coisa, é porque a leitura direta os incomodava — e o incômodo é justamente o que estamos examinando.

As duas leituras se sustentam. Registro ambas.

O nome como registro permanente

Convém pensar no que significa dar a um filho o nome do riso do pai.

Nomes, naquele mundo, eram enunciados. Cada vez que alguém chamava o menino, dizia uma frase.

E a frase era: ele ri.

O que se costuma dizer é que o nome guarda a alegria do nascimento — e o capítulo 21 apoia isso, com Sara dizendo que Deus a fez rir.

Mas o Gênesis dá três explicações para o mesmo nome, e a primeira delas é esta, num contexto que não é de alegria pacífica.

Vale considerar o que a acumulação produz.

Se o nome fosse explicado uma vez, teríamos uma etimologia. Explicado três vezes, de três modos, ele vira outra coisa: um nome que carrega uma ambiguidade permanente.

E convém acrescentar a hipótese linguística: nomes assim costumam ser formas curtas de frases com um nome divino, de modo que Yitzhaq talvez significasse originalmente algo como "Deus sorriu", isto é, mostrou favor.

Se for esse o caso, as três explicações do Gênesis são construções posteriores sobre a semelhança sonora — procedimento comuníssimo no livro.

Registro como hipótese bem apoiada, não como certeza.

O que o texto se recusa a separar

Fecho com aquilo que me parece o núcleo do versículo.

Somos treinados a separar fé de dúvida, e a tratá-las como opostos que se excluem: quem tem uma não tem a outra.

O texto aqui não separa.

O mesmo homem que é apresentado, no capítulo 15, como aquele que creu e a quem a fé foi contada como justiça, é o homem que aqui cai de bruços e ri da impossibilidade.

E o mesmo capítulo que registra o riso registra, três versículos adiante, a resposta que confirma tudo.

Ou seja: o riso não interrompe nada. A promessa segue, o nome é dado, o prazo é fixado.

Não sei o que fazer com isso teologicamente, e desconfio de quem sabe. O que se pode observar é que o texto trata a objeção interior como um acontecimento a mais na conversa, e não como ruptura.

Registro como leitura, e como a mais modesta que consigo fazer.

7. Aplicações Práticas

Adorar e duvidar cabem no mesmo instante

O homem está de bruços — posição de quem se põe inteiramente à disposição de outro — e é nessa posição que ele ri e pensa que a promessa é impossível. Não há transição no texto: as duas coisas ocupam o mesmo momento.

Registro que a observação é minha; o texto apenas justapõe os gestos, sem comentar.

Vale contra a autoacusação de quem se sente hipócrita por rezar desconfiando. A ideia de que reverência e dúvida se excluem é nossa, não do texto. Se você espera resolver a segunda antes de praticar a primeira, vai esperar muito, e o homem deste versículo não esperou.

Uma palavra larga não decide nada sozinha

O verbo empregado aqui cobre alegria, brincadeira, carícia entre marido e mulher, chacota e provocação — aparece descrevendo Isaque com Rebeca, o povo diante do bezerro de ouro e a acusação da mulher de Potifar contra José. Sozinho, não determina o tom.

Ainda assim, decidiu-se há dois mil anos que aqui significava alegria, e a decisão passou a ser citada como se estivesse no hebraico.

Guarde o método para toda discussão em que uma palavra é usada como prova. Termos de campo largo — "amor", "justiça", "liberdade", "respeito" — recebem sentido do contexto, e quem os invoca já escolheu um. A pergunta útil não é o que a palavra significa, e sim qual dos sentidos dela está sendo usado, e por quem.

Duas pessoas, a mesma reação, tratamentos diferentes

Abraão ri por dentro e enuncia a impossibilidade em duas perguntas retóricas; não é interpelado. Sara ri por dentro, com o mesmo verbo e a mesma forma, e fala de prazer e velhice; é confrontada, tem medo e nega. As explicações propostas todas deixam sobra.

A honesta é dizer que não é possível decidir, e mostrar por que cada saída falha.

Vale como disciplina diante das assimetrias da sua própria vida. Duas pessoas fazem a mesma coisa e são tratadas de modos diferentes — no trabalho, na família, na igreja. Às vezes há razão que você não vê; às vezes não há razão nenhuma. Insistir em encontrar justificativa para toda diferença de tratamento é tão distorcido quanto supor que nunca existe.

Explicações antigas também são explicações

A tradução aramaica lida na sinagoga verte o verbo, neste versículo, por "alegrou-se", mantendo o riso no caso de Sara; Filo, no primeiro século, faz distinção parecida. A harmonização tem quase dois mil anos.

Isso pode significar que leitores antigos captaram algo que perdemos, ou que o texto os incomodava tanto quanto a nós. As duas leituras se sustentam.

Aplique ao peso que você dá à tradição. Antiguidade não é prova, e também não é irrelevante: é indício de que muita gente competente pensou naquilo antes. Tratá-la como decisiva ou como desprezível são erros simétricos, e o segundo anda mais na moda que o primeiro.

Ele não foi repreendido, e isso está no texto

A resposta divina ao riso é a promessa reafirmada, o nome do menino e o prazo do nascimento. Há correção do conteúdo do pensamento — a palavra que abre o versículo 19 tem valor corretivo —, e não há uma palavra sobre o riso em si.

A promessa não é retirada, adiada nem condicionada. Segue exatamente como estava.

Vale para quem imagina que a própria hesitação cancela alguma coisa. Muita gente vive supondo que uma dúvida mal contida invalida o que recebeu, e passa mais tempo se penitenciando pela reação do que atenta ao que foi dito. Neste versículo, a objeção interior é um acontecimento a mais na conversa, e não uma ruptura.

Você carrega no nome coisas que não escolheu

O menino se chamará Isaque, "ele ri" — formado sobre a raiz do verbo deste versículo. Carrega no nome o riso do pai, e o texto não diz de qual riso se trata. Aliás, o ciclo dá três explicações diferentes para o mesmo nome.

É provável, além disso, que o nome fosse originalmente uma forma curta de algo como "Deus sorriu", sem relação com o riso de ninguém — hipótese bem apoiada, e não certeza.

Repare no que você recebeu com o seu próprio nome, sobrenome ou apelido de família: uma história que já estava contada, uma expectativa, às vezes uma piada antiga. Não se escolhe isso, e passa-se a vida ou confirmando ou contrariando. Vale ao menos saber qual das duas coisas você está fazendo.

Desconfie do comentário que resolve tudo

Este versículo tem uma dificuldade real, e cada saída oferecida cobra um preço: a que apela ao conteúdo contraria o texto, a que apela à gramática é falsa, a que apela às fontes nega a unidade da narrativa, a que apela ao sexo dos personagens não tem apoio nenhum no que está escrito.

Expor isso é menos confortável do que escolher uma e apresentá-la como óbvia.

Vale como critério para escolher quem você lê e ouve. Alguém que nunca diz "não sei" sobre um texto difícil ou está escondendo o que não sabe, ou nunca leu com atenção suficiente para tropeçar. Nos dois casos, o problema aparece no dia em que você tropeçar sozinho — e vier a suspeitar que tudo o que aprendeu era da mesma qualidade.

A conta que não fecha também merece registro

Abraão declara impossível que um homem de cem anos gere um filho. Sete capítulos adiante, depois da morte de Sara, ele toma outra mulher e tem mais seis filhos — quando teria bem mais de cento e quarenta anos.

As saídas propostas são conhecidas: que o milagre lhe restaurou o vigor de forma permanente, que o relato de Quetura não é cronológico, que os textos vêm de tradições diferentes. Nenhuma está escrita.

Treine o hábito de conferir as contas dos textos que você respeita, e não só as dos que você quer refutar. Quem só audita o lado adversário não está examinando nada: está torcendo, e a diferença entre uma coisa e outra é a única credibilidade que existe.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Abraão riu de alegria ou de descrença?

Não é possível decidir a partir do texto, e essa é a resposta honesta. O verbo hebraico tsahaq cobre alegria, brincadeira, carícia entre marido e mulher, chacota e provocação — sozinho, não determina o tom. E o que ele diz em seguida é uma declaração de impossibilidade em duas perguntas retóricas, o que pesa contra a leitura da alegria pura.

Então por que se diz tanto que o riso dele foi de alegria?

Porque a distinção é antiga e ficou consagrada. A tradução aramaica lida na sinagoga verte o verbo, aqui, por "alegrou-se", e mantém o riso quando se trata de Sara; Filo de Alexandria, no primeiro século, faz distinção parecida. Isso mostra que o incômodo com a passagem é antiquíssimo. Não mostra que a solução esteja certa.

É verdade que os verbos são diferentes nos dois casos?

Não, e o argumento é simplesmente falso. Os dois estão na forma simples, terceira pessoa, com o mesmo padrão narrativo; a única diferença é o gênero, exigido pela gramática. Quem apresenta esse argumento não conferiu.

E a diferença de conteúdo entre o que ele e ela dizem?

Existe, e joga contra a harmonização corrente. Ele pergunta se nascerá filho a um homem de cem anos e se Sara dará à luz aos noventa — duas formulações diretas da impossibilidade. Ela diz: "depois que envelheci terei prazer, sendo também o meu senhor já velho?" — frase sobre prazer e idade, menos explícita quanto ao nascimento. As palavras dele são, portanto, mais incrédulas que as dela.

Os dois risos foram interiores?

Foram. Ele "disse no seu coração"; ela "riu consigo mesma". Não há diferença de publicidade entre os dois atos, o que desmonta outra harmonização comum.

Então por que ela foi confrontada e ele não?

As explicações propostas são várias e nenhuma cobre todos os dados. Que no capítulo 18 havia testemunhas e aqui não — mas a repreensão ali é sobre o conteúdo, e a pergunta "há para Deus alguma coisa difícil?" caberia igualmente aqui. Que a interpelação existe para produzir aquela frase teológica, e não para punir — o que explica por que a frase aparece lá, mas não por que não apareceu aqui. Que os dois capítulos vêm de tradições diferentes reunidas — o que explica bem os dados ao preço de negar a unidade da narrativa. E há quem leia a diferença como ligada ao sexo dos personagens, leitura que registra o dado bruto sem apoio no que está escrito.

Deus responde alguma coisa ao riso de Abraão?

Ao riso, não. A resposta do versículo 19 confirma a promessa, dá o nome do menino e fixa o prazo. A palavra que abre a frase tem valor corretivo — algo entre "não, mas" e "de fato" —, de modo que há correção do conteúdo do pensamento dele. Não há qualquer atenção ao riso em si.

Por que "disse no seu coração" chama atenção?

Porque a fórmula, na Bíblia, costuma introduzir pensamentos que o texto não aprova. O salmo diz: "o tolo disse no seu coração: não há Deus", e outros salmos usam a expressão para o ímpio que raciocina consigo mesmo. Convém pesar com cuidado, porque a amostra não é uniforme e há usos neutros — depois do dilúvio, é o próprio SENHOR quem diz em seu coração. Ainda assim, o padrão existe, e alegria costuma sair pela boca.

O que significa o nome Isaque?

Em hebraico, Yitzhaq, formado sobre a mesma raiz do verbo deste versículo: "ele ri" ou "ele rirá". O filho carrega no nome o riso do pai, e o texto não diz de qual riso se trata.

Quantas explicações a Bíblia dá para esse nome?

Três. Este riso, aqui; o riso de Sara, no capítulo 18; e a frase dela depois do parto, no capítulo 21: "Deus me fez rir, e qualquer um que o ouvir se rirá comigo" — essa, sim, inequivocamente de alegria. Três etiologias para um nome só já é, por si, um dado significativo.

O nome pode ter outra origem?

Pode, e a hipótese é bem apoiada. Nomes hebraicos desse tipo costumam ser formas abreviadas de frases que incluíam um nome divino — como acontece com Jacó, José e Israel. É provável que Yitzhaq significasse originalmente algo como "Deus sorriu", isto é, mostrou favor, sem relação com o riso de ninguém. Nesse caso, as três explicações do Gênesis seriam etimologias populares construídas sobre a semelhança sonora, procedimento comuníssimo no livro.

Se um homem de cem anos não podia gerar, como Abraão teve seis filhos depois?

É uma dificuldade real. Gênesis 25 registra que, depois da morte de Sara, ele tomou Quetura e teve mais seis filhos — o que o colocaria com bem mais de cento e quarenta anos. E Paulo, em Romanos 4, agrava o problema ao descrever o corpo dele como já praticamente morto. As saídas propostas são que o milagre lhe restaurou o vigor de modo permanente, que o relato de Quetura não segue ordem cronológica, ou que os textos vêm de tradições diferentes. Nenhuma está escrita, e não é possível decidir.

Como Paulo lê este episódio?

Passando ao largo dele. Em Romanos 4, diz que Abraão não fraquejou na fé nem duvidou da promessa, e que se fortaleceu dando glória a Deus. A leitura é possível se tomada sobre o conjunto da vida dele, e não sobre este versículo em particular. Registro o dado sem forçar harmonização: o que Paulo faz com o personagem é uma leitura teológica, e este versículo não a sustenta diretamente.

9. Conexão com Outros Textos

Gênesis 17:3Então Abrão prostrou-se com o rosto ao chão, e Deus falou com ele.

O mesmo gesto, catorze versículos antes — ali antecedendo a revelação, aqui antecedendo a objeção.

Gênesis 17:19E respondeu Deus: Certamente Sara tua mulher te dará à luz um filho, e chamarás seu nome Isaque.

A resposta ao riso: promessa reafirmada, nome dado, e nenhuma palavra sobre o riso.

Gênesis 18:12Riu, pois, Sara consigo mesma, dizendo: Depois que envelheci terei prazer, sendo também meu senhor já velho?

Mesmo verbo, mesma forma, também interior — e o conteúdo é menos explicitamente incrédulo que o dele.

Gênesis 18:13-14Por que Sara riu dizendo: Será verdade que darei à luz, sendo já velha? Há para Deus alguma coisa difícil?

A interpelação que não houve aqui — e note-se que a citação omite a menção que ela fez à idade do marido.

Gênesis 18:15Então Sara negou dizendo: Não ri; pois teve medo. Mas ele disse: Não é assim, mas riste.

O desfecho da outra cena: medo, negação e contradição — nada disso aparece neste versículo.

Gênesis 21:6Então disse Sara: Deus me fez rir, e qualquer um que o ouvir, se rirá comigo.

A terceira explicação do mesmo nome, e a única inequivocamente alegre.

Gênesis 26:8Abimeleque, rei dos filisteus, olhando por uma janela, viu a Isaque que acariciava Rebeca sua mulher.

O mesmo verbo descrevendo carícia entre marido e mulher — prova de que o campo semântico é largo.

Gênesis 39:14Olhai que ele nos trouxe um hebreu, para que fizesse zombaria de nós.

O mesmo verbo no sentido de escárnio ou assédio, na acusação da mulher de Potifar.

Êxodo 32:6E sentou-se o povo a comer e a beber, e levantaram-se a regozijar-se.

O mesmo verbo na cena do bezerro de ouro, num contexto que o texto claramente reprova.

Salmos 14:1O tolo diz em seu coração: Não há Deus.

A fórmula "dizer no coração" introduzindo o pensamento que a Bíblia mais desaprova.

Gênesis 8:21E o SENHOR disse em seu coração: Não voltarei mais a amaldiçoar a terra por causa do ser humano.

A mesma fórmula num uso positivo, que impede transformá-la em marcador automático de erro.

Gênesis 25:1-2E Abraão tomou outra mulher, cujo nome foi Quetura; a qual lhe deu à luz a Zinrã, e a Jocsã, e a Medã, e a Midiã, e a Jisbaque, e a Suá.

A dificuldade que ninguém resolveu: seis filhos depois dos cento e quarenta, de um homem que aqui declara impossível gerar aos cem.

Romanos 4:20Nem duvidou da promessa de Deus; pelo contrário, fortaleceu-se na fé, dando glória a Deus.

A leitura de Paulo sobre o personagem, que este versículo em particular não sustenta diretamente.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então Abraão prostrou-se com o rosto em terra, riu e disse no seu coração: “Poderá nascer um filho a um homem de cem anos? E Sara, com noventa anos, dará à luz?”

Texto hebraico

וַיִּפֹּל אַבְרָהָם עַל־פָּנָיו וַיִּצְחָק וַיֹּאמֶר בְּלִבּוֹ הַלְּבֶן מֵאָה־שָׁנָה יִוָּלֵד וְאִם־שָׂרָה הֲבַת־תִּשְׁעִים שָׁנָה תֵּלֵד

Transliteração

vayyippol Avraham al-panav vayyitschaq vayyomer belibbo halleven me'ah-shanah yivvaled ve'im-Sarah havat-tish'im shanah teled

Palavra por palavra

וַיִּפֹּל (vayyippol) — "e caiu"

Verbo nafal, cair, na sequência narrativa.

Não é um movimento controlado de reverência gradual: o verbo é o de cair. A mesma forma descreve quedas involuntárias e quedas em batalha.

Usado com "sobre a face", designa a prostração diante de superior — de Deus, de anjos, de reis.

עַל־פָּנָיו (al-panav) — "sobre a sua face"

Panim, face, rosto, e por extensão presença. A palavra é plural em hebraico, sem que isso tenha valor numérico.

A mesma expressão aparece no versículo 3, quando ele se prostra antes da primeira fala.

וַיִּצְחָק (vayyitschaq) — "e riu"

Verbo tsahaq, na forma simples, terceira pessoa masculina.

O campo semântico é largo: rir de alegria, brincar, acariciar, zombar, provocar. Aparece descrevendo Isaque com Rebeca, o povo diante do bezerro de ouro, e a acusação contra José.

Note-se, para a discussão sobre os dois risos: em Gênesis 18:12 o verbo aplicado a Sara está na mesma forma, com a diferença apenas de gênero. Não há distinção gramatical entre os dois casos.

A raiz existe também numa variante com outra sibilante, que produz o nome Isaque em algumas grafias e o verbo em outros textos. As duas formas são consideradas variantes da mesma raiz.

וַיֹּאמֶר בְּלִבּוֹ (vayyomer belibbo) — "e disse no seu coração"

Verbo dizer mais a preposição be e lev, coração, com sufixo.

Lev, no Antigo Testamento, não é a sede das emoções, como no nosso uso. É a sede do pensamento, da decisão e da vontade — mais próximo do que chamaríamos de mente.

Portanto "disse no seu coração" significa "pensou", e não "sentiu".

A fórmula aparece em Gênesis 8:21, com o próprio SENHOR como sujeito, e no Salmo 14, com o tolo que nega a existência de Deus. O uso pende, na maior parte das ocorrências, para pensamentos que o texto não aprova.

הַלְּבֶן מֵאָה־שָׁנָה (halleven me'ah-shanah) — "acaso a um filho de cem anos?"

A partícula interrogativa ha- abre a pergunta. Segue a preposição le e a expressão "filho de cem anos", que é o modo hebraico de dizer a idade — a mesma construção do versículo 12, com o bebê de oito dias.

Note-se que ele fala de si na terceira pessoa, enunciando um caso geral em vez de dizer "eu".

יִוָּלֵד (yivvaled) — "nascerá"

Verbo yalad, dar à luz, na forma passiva: será dado à luz, nascerá.

A pergunta, portanto, é sobre o nascimento, e não sobre a capacidade dele. Literalmente: "a um homem de cem anos nascerá filho?".

וְאִם־שָׂרָה (ve'im-Sarah) — "e se Sara"

A partícula im, normalmente condicional, aqui continua a interrogação. Em hebraico, é comum que a segunda pergunta de um par seja introduzida assim.

Alguns leem a construção como disjuntiva: "ou acaso Sara...". A diferença é pequena.

הֲבַת־תִּשְׁעִים שָׁנָה (havat-tish'im shanah) — "acaso a filha de noventa anos"

Nova partícula interrogativa e a expressão "filha de noventa anos", paralela exata à usada para ele.

Note-se a simetria: ele é filho de cem anos, ela é filha de noventa. A mesma construção, aplicada aos dois.

תֵּלֵד (teled) — "dará à luz"

O mesmo verbo yalad, agora na forma ativa, terceira pessoa feminina.

A mudança de voz é significativa: no caso dele, o verbo é passivo — nascerá um filho a ele. No caso dela, é ativo — ela dará à luz.

Isso corresponde ao papel de cada um no processo, e não convém extrair mais do que isso.

Nota — como as versões antigas trataram o riso

Vale registrar, porque é dado de história do texto e raramente é mencionado.

A tradução grega antiga verte o verbo pelo termo grego corrente para rir, mantendo a ambiguidade do hebraico.

Já a tradução aramaica que se lia na sinagoga faz outra coisa: neste versículo, verte por "alegrou-se"; em Gênesis 18:12, ao tratar de Sara, mantém o riso.

Filo de Alexandria, no primeiro século, distingue igualmente os dois casos.

Ou seja: a leitura que separa um riso bom de um riso mau é antiquíssima e não nasceu na pregação moderna.

Convém interpretar o dado nos dois sentidos, e os dois são legítimos. Pode significar que leitores antigos, próximos da língua e da cultura, captaram algo que perdemos. Pode significar que a leitura direta do hebraico os incomodava, e que a tradução foi o modo de resolver o incômodo.

Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que o hebraico usa o mesmo verbo nos dois lugares, e que a distinção é da tradução, não do original.

Nota — o nome que vem a seguir

Dois versículos adiante, o menino recebe nome: Yitzhaq, Isaque.

A palavra é formada sobre a mesma raiz do verbo deste versículo, e significa "ele ri" ou "ele rirá".

O texto não explica o vínculo. Não diz "e o chamarás assim porque riste". Apenas dá o nome, três palavras depois de registrar o riso.

Vale acrescentar duas coisas.

A primeira: o ciclo dá três explicações distintas para esse nome — este riso, o de Sara no capítulo 18, e a alegria dela no capítulo 21.

A segunda: nomes hebraicos desse formato costumam ser abreviações de frases com um nome divino, como acontece com Jacó, José e Israel. É provável, portanto, que Yitzhaq tenha significado originalmente algo como "Deus sorriu", isto é, mostrou favor.

Nesse caso, as três explicações do Gênesis seriam etimologias populares, construídas por semelhança sonora — procedimento que o livro emprega o tempo todo.

Registro como hipótese bem apoiada. E registro o que sobra de qualquer modo: o filho da promessa passou a vida sendo chamado pelo riso, e o texto nunca esclareceu de qual.

11. Conclusão

A cena é composta de dois gestos que a nossa cabeça não costuma pôr juntos. Um homem cai com o rosto no chão — postura do vassalo diante do trono, a mesma que ele já adotara catorze versículos antes — e, dessa posição, ri e formula por dentro duas perguntas retóricas que declaram a coisa impossível: nasce filho a um homem de cem anos? dá à luz uma mulher de noventa? Não há transição no texto entre a reverência e a objeção. Elas ocupam o mesmo instante, e o narrador não comenta.

Quem quiser decidir o tom do riso pelo verbo não conseguirá. Tsahaq cobre um campo largo demais: descreve Isaque acariciando Rebeca, o povo diante do bezerro de ouro, a acusação da mulher de Potifar contra José, a alegria de Sara depois do parto. Palavras assim recebem sentido do contexto, e o contexto aqui é ambíguo. O que o hebraico oferece, e não costuma ser dito, é uma pista que contraria a leitura habitual: a fórmula "disse no seu coração" tende, na Bíblia, a introduzir pensamentos que o texto não aprova — é a do tolo que nega a existência de Deus —, ainda que apareça também em usos neutros, inclusive com o próprio SENHOR como sujeito.

O problema real, porém, está na comparação com o capítulo 18. Sara ri, e o verbo é o mesmo, na mesma forma gramatical, e igualmente por dentro. As palavras dela, aliás, são menos explicitamente incrédulas do que as dele: ela fala de prazer e de velhice, ele enuncia a impossibilidade do nascimento em duas formulações diretas. E o tratamento é oposto — ele recebe a promessa reafirmada e o nome do menino, sem uma palavra sobre o riso; ela é interpelada com "por que riu Sara?", ouve "há para Deus alguma coisa difícil?", tem medo, nega e é contradita.

As saídas correntes não sobrevivem ao exame. A que atribui alegria a ele e descrença a ela contraria o conteúdo das falas; a que alega diferença nas formas verbais é falsa; a que invoca a presença de testemunhas no capítulo 18 não explica por que a pergunta decisiva não caberia aqui; a que lê a interpelação como recurso narrativo para produzir a frase teológica é elegante e deixa a assimetria de pé; a que recorre a fontes distintas explica bem os dados e cobra o preço de negar a unidade do texto; e a que aponta o sexo dos personagens registra o dado bruto sem nenhum apoio no que está escrito. Convém acrescentar que o incômodo é antiquíssimo: a tradução aramaica lida na sinagoga verte o verbo, neste versículo, por "alegrou-se", e mantém o riso no caso de Sara, e Filo faz distinção parecida no primeiro século. Isso pode significar que leitores antigos captaram algo perdido; pode significar que a leitura direta os incomodava tanto quanto a nós. Não é possível decidir, e este comentário não vai fingir que é.

Fica, no fim, o nome. Dois versículos adiante o menino é chamado Yitzhaq — "ele ri" —, formado sobre a raiz do verbo desta cena. O filho da promessa carrega no nome o riso do pai, e o texto jamais esclarece de qual riso se trata; ao contrário, oferece três explicações diferentes para o mesmo nome ao longo do ciclo, e a probabilidade linguística é que a origem fosse outra, algo como "Deus sorriu", com as três etiologias sendo construções por semelhança sonora. Sobra, de todo modo, um fato que a pregação alisa e que vale deixar áspero: a promessa não foi retirada, adiada nem condicionada por causa do riso. Ela segue, com data marcada, sobre um homem que acabara de declarar por dentro que aquilo não podia acontecer.

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Gênesis 17:17

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