📖 Navegar na Bíblia:
‹

Gênesis 46:26

›
✍️ Por Alberto Adriano·7 de setembro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 42 acessos
Todas as pessoas que vieram com Jacó ao Egito, descendentes diretos dele, sem contar as mulheres dos filhos de Jacó, eram sessenta e seis pessoas ao todo.
Mãos de escriba somando marcas numa tabuinha à luz de lamparina, com colunas de números desalinhadas

Estudo


Todas as pessoas que vieram com Jacó ao Egito, descendentes diretos dele, sem contar as mulheres dos filhos de Jacó, eram sessenta e seis pessoas ao todo.

1. Introdução

Aqui a lista para de listar e começa a somar. E é aqui que as contas deixam de fechar.

O versículo declara sessenta e seis. As quatro parcelas do próprio capítulo — trinta e três no versículo 15, dezesseis no 18, catorze no 22 e sete no 25 — somam setenta. O versículo seguinte dirá setenta outra vez. Três números, e eles não se compõem sozinhos.

Há uma explicação que faz tudo fechar, e ela é antiga. Também há um preço a pagar por ela, e há um segundo desencontro, na parcela de Lia, que a torna menos tranquila do que parece. Este estudo apresenta o problema inteiro, expõe as soluções que foram propostas ao longo dos séculos e não escolhe entre elas — porque não há como escolher com o material disponível, e fingir que há seria pior do que o problema.

Antes disso, o versículo faz outra coisa que merece atenção: ele declara os critérios da contagem. Diz quem entra — os que vieram com Jacó, nascidos dele — e diz, com todas as letras, quem fica de fora: as mulheres dos filhos. É o único ponto do capítulo em que o documento explica a si mesmo.

2. Contexto Histórico e Cultural

No mundo antigo, um número nunca vinha sozinho: vinha com a finalidade que o produziu.

Contava-se gente para distribuir ração, para cobrar imposto, para convocar trabalho obrigatório e para formar tropa. Cada uma dessas finalidades produzia um total diferente da mesma população, porque cada uma incluía e excluía categorias distintas. Uma lista de rações contava bocas, inclusive crianças. Uma convocação militar contava homens em idade de pegar em armas. Um registro de terra contava casas, não pessoas. O mesmo povoado podia aparecer, no mesmo arquivo, com três números que não batiam — e nenhum escriba consideraria isso um erro.

É por isso que documentos administrativos antigos costumam declarar o critério junto com o resultado, exatamente como este versículo faz. “Que vieram com Jacó”, “nascidos dele”, “sem contar as mulheres dos filhos”: são três filtros ditos em voz alta, e é a presença deles que torna o número legível.

Vale registrar a consequência para a leitura. Quando dois números da mesma família não coincidem, a primeira pergunta não é qual está errado — é o que cada um estava contando. Nem sempre a pergunta tem resposta; mas ela precisa vir antes da acusação de erro.

Há ainda um efeito prático que este versículo mostra bem: os critérios que excluem são os que mais informam. Saber que as mulheres dos filhos ficaram de fora diz mais sobre o documento do que o próprio total. Diz que ele mede descendência de sangue, e não gente na estrada.

3. Análise Teológica do Versículo

“Todas as pessoas que vieram com Jacó ao Egito”

Primeiro critério: vir com Jacó.

Isso, sozinho, já exclui gente que a lista nomeou. Exclui José, que estava no Egito havia mais de vinte anos. Exclui Manassés e Efraim, nascidos lá (Gênesis 46:20). E exclui Er e Onã, que morreram em Canaã e foram registrados assim no próprio versículo 12.

Cinco nomes escritos na lista não cabem neste critério. O texto não os retira: mantém-nos escritos e muda o filtro.

“descendentes diretos dele”

Segundo critério. O hebraico usa uma expressão física — “os que saíram da sua coxa” —, que é o modo antigo de dizer “gerados por ele” (item 10).

Esse critério exclui o próprio Jacó, que não é descendente de si mesmo. E exclui, por definição, qualquer pessoa que tenha entrado na família por casamento.

“sem contar as mulheres dos filhos de Jacó”

Terceiro critério, e o único que o texto se dá ao trabalho de declarar expressamente.

Repare no que ele exclui e no que não exclui. Exclui as noras — as mulheres dos filhos de Jacó. Não diz nada sobre filhas: Diná está na lista, no versículo 15, e Sera, filha de Aser, está no versículo 17. As mulheres nascidas na casa entram; as que vieram de fora, não.

É uma decisão coerente com o segundo critério, e as duas juntas mostram o que o documento é: uma medida de sangue, e não uma contagem de caravana. Quem viajou aquela estrada foi muito mais gente do que sessenta e seis — havia noras, havia servos, havia condutores dos carros de Faraó. O texto não os conta e não pretende contá-los.

“eram sessenta e seis pessoas ao todo”

Agora o problema.

Reúna os números que o próprio capítulo dá:

Lia, no versículo 15: trinta e três. Zilpa, no 18: dezesseis. Raquel, no 22: catorze. Bila, no 25: sete. Somadas, as quatro parcelas dão setenta.

Este versículo diz sessenta e seis. O seguinte dirá setenta, depois de acrescentar os dois filhos de José.

E há um segundo desencontro, dentro da primeira parcela. Contando um por um os nomes da seção de Lia, do versículo 8 ao 15, não se chegam aos trinta e três declarados: falta um. Esse ponto é tratado por inteiro no estudo de Gênesis 46:15; aqui ele entra só como parcela, porque qualquer solução para o total tem de dar conta dele também.

A solução que faz tudo fechar

Existe uma, é antiga, e é a mais repetida. Funciona assim.

Suponha-se que a soma das quatro parcelas, os setenta, inclua quatro pessoas que este versículo precisa tirar: Jacó, José, Manassés e Efraim. Jacó, porque não é descendente de si mesmo. Os outros três, porque não vieram — já estavam no Egito. Setenta menos quatro dá exatamente sessenta e seis.

Para que isso funcione, Jacó tem de estar dentro de alguma das quatro parcelas, e a única com espaço é a de Lia. Aí o desencontro da parcela dela se resolve junto: excluindo Er e Onã, que morreram em Canaã, e contando Diná mais o próprio Jacó, chega-se aos trinta e três.

E o versículo seguinte fecha na mesma chave: sessenta e seis, mais os dois filhos de José, mais José, mais Jacó, dá setenta.

É elegante. Fecha tudo, nos três lugares, sem sobrar nem faltar nada.

O preço dessa solução

Ela cobra duas coisas, e convém dizê-las com clareza em vez de passar por cima.

A primeira: obriga a contar Jacó entre “os filhos que Lia deu a Jacó”. O versículo 15 diz isso com essas palavras. Colocar o marido dentro da conta dos filhos que a mulher deu a ele é uma operação estranha, e o texto não a autoriza em nenhum ponto.

A segunda: obriga a tirar da conta dois nomes que o texto escreveu. Er e Onã estão listados no versículo 12, e o mesmo versículo informa que morreram em Canaã. A solução precisa que eles contem para uns efeitos e não contem para outros.

Há ainda uma dificuldade de outra ordem, e é a mais séria. A frase que introduz Diná, no versículo 15, usa a mesma palavra hebraica que aparece neste versículo para excluir as noras — uma palavra que significa “à parte de”, “sem contar”. Se ela tem o mesmo sentido nos dois lugares, então Diná não está incluída nos trinta e três; e, se não está, a solução acima perde a vaga que ela usava para encaixar Jacó, e a conta desmonta. A análise da palavra está no item 10. O que importa aqui é o resultado: a leitura que faz tudo fechar depende de dar à mesma palavra dois sentidos diferentes a onze versículos de distância.

Não é possível decidir. É uma leitura defensável, é a mais antiga, e não é a única.

As outras soluções propostas

1. Dois critérios, dois números. O sessenta e seis conta quem saiu de Canaã; o setenta conta a casa de Jacó depois de chegar, já com José e os dois meninos. Não seria contradição, e sim duas perguntas diferentes com respostas diferentes. A favor: é o que os próprios versículos dizem, e o versículo 27 explicita a soma. Contra: não explica o desencontro dentro da parcela de Lia.

2. A leitura pelos acentos. Uma variante mais fina da anterior, formulada por Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista judeu francês do século XI). A palavra hebraica traduzida por “que vieram”, neste versículo, e por “que entraram”, no seguinte, é a mesma — mas a tradição de leitura a acentua de maneira diferente nos dois lugares, e a diferença de acento corresponde a uma diferença de tempo verbal: aqui, “os que estavam vindo”, no caminho; ali, “os que chegaram”, já no destino. Sessenta e seis a caminho, setenta ao chegar. O dado dos acentos é verificável no texto hebraico e está detalhado no item 10. Contra: os acentos foram fixados por escrito séculos depois, e não se pode provar que registrem a intenção original.

3. O número redondo. Setenta é, no Antigo Oriente e na Bíblia, número de totalidade: setenta anciãos sobem com Moisés em Êxodo 24:1 e 9; Gideão tem setenta filhos em Juízes 8:30, e a expressão usada lá é a mesma deste versículo; Acabe tem setenta filhos em 2 Reis 10:1. Nessa leitura, sessenta e seis seria o número apurado, e setenta o número que se queria dizer. A favor: explica por que o total soa arredondado. Contra: não explica a parcela de Lia, e o próprio texto se dá ao trabalho de fazer a soma, o que não é típico de quem está apenas arredondando.

4. Materiais de origens diferentes. As parcelas e os totais viriam de documentos distintos, reunidos sem que ninguém uniformizasse as contas. A favor: explica todos os desencontros de uma vez, e é a leitura mais corrente entre os estudiosos que trabalham a formação do texto. Contra: explica tudo e não prova nada — não há manuscrito nem evidência externa que mostre as etapas dessa reunião. Permanece hipótese.

5. A pessoa que falta. Uma tradição judaica antiga, registrada no Talmude e retomada por Rashi, resolve o desencontro da parcela de Lia identificando a pessoa não nomeada: seria Joquebede, filha de Levi e futura mãe de Moisés, nascida “entre os muros” no momento exato da entrada no Egito. A base é Números 26:59, que diz que ela nasceu a Levi no Egito. A favor: usa um dado bíblico e não inventa nome. Contra: é uma solução construída para o problema, e nada no Gênesis a sugere.

6. A transmissão do texto. Parte do desencontro é demonstravelmente uma questão de texto: a tradução grega antiga traz números diferentes destes, e um manuscrito hebraico achado no deserto da Judeia acompanha o grego. Isso é assunto do versículo 27, onde está o material. Vale antecipar apenas que essa via resolve o setenta e não resolve o sessenta e seis — a tradução grega traz sessenta e seis aqui, igual ao hebraico.

O que se pode afirmar

Nenhuma das seis explica tudo sozinha. Duas ou três combinadas talvez expliquem, e é assim que a maioria dos comentaristas trabalha na prática — mas a combinação já é escolha do comentarista, não afirmação do texto. Não há consenso, e não é possível decidir.

Resta um dado que costuma passar despercebido e que é, talvez, o mais importante deste versículo. Quem transmitiu o texto não consertou os números. Bastava mudar um algarismo para que tudo fechasse; ninguém mudou. Durante séculos, gerações de copistas que conheciam a aritmética elementar copiaram trinta e três, dezesseis, catorze, sete, sessenta e seis e setenta, exatamente como estavam.

Isso diz alguma coisa sobre o modo como o texto foi tratado. Ele foi copiado como um documento recebido, e não como uma conta a ser conferida. Quem o transmitiu preferiu preservar o que tinha, com desencontro e tudo, a entregar uma versão arrumada. O leitor moderno que se incomoda com a soma está reagindo de um jeito que os transmissores do texto, aparentemente, não consideraram necessário.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Quem está nos sessenta e seis. Os filhos e netos de Jacó que saíram de Canaã naquela viagem. Pela leitura mais corrente: os onze filhos que estavam vivos e em Canaã, Diná, e os netos nascidos até então — descontados Er e Onã, mortos, e descontados José e os dois filhos dele, que já estavam no Egito.

Quem está fora, e por qual critério.

Jacó. Fora pelo segundo critério: a conta é dos que nasceram dele, e ele não nasceu de si mesmo. O versículo 27 o trará de volta ao somar “a casa de Jacó”.

José, Manassés e Efraim. Fora pelo primeiro critério: não vieram, já estavam. O versículo 27 os acrescentará expressamente.

Er e Onã. Fora pelo primeiro critério: morreram na terra de Canaã, como o próprio versículo 12 informa. O texto os manteve escritos e não os retirou da lista.

As mulheres dos filhos de Jacó. Fora pelo terceiro critério, o único declarado. São as noras — as mães de todos os netos da lista. Nenhuma é nomeada em ponto algum do capítulo, com a única exceção de Azenate, no versículo 20, que aparece por ser filha de quem era.

Todo o resto da caravana. Servos, criados, condutores. Gênesis 45:19 registra que Faraó mandou carros; Gênesis 46:5 registra que os filhos de Israel levaram o pai, as mulheres e as crianças neles. Havia mais gente na estrada do que na conta, e o documento não se propõe a dizer quanta.

Diná. Dentro, pelo versículo 15 — ou fora dele, conforme se leia a palavra que a introduz. É exatamente essa indefinição que trava o fechamento das contas.

As quatro parcelas. Trinta e três de Lia, no versículo 15; dezesseis de Zilpa, no 18; catorze de Raquel, no 22; sete de Bila, no 25. Somam setenta, que é o número do versículo 27, e não o deste.

Joquebede. Nome que não aparece em Gênesis. Números 26:59 a apresenta como filha de Levi, nascida a ele no Egito, mãe de Arão, Moisés e Miriã. É ela que a tradição judaica antiga identifica como a pessoa que completa a parcela de Lia — solução proposta, não informação do texto.

5. Pontos de Ensino

Um total só é legível com o critério ao lado. Este versículo diz sessenta e seis e diz, na mesma frase, quem contou e quem não contou. Sem isso, o número não significaria nada — e o do versículo seguinte, que usa outro critério, pareceria contradizê-lo. Números sem critério declarado são a forma mais comum de desinformação de boa-fé.

A Bíblia preservou uma conta que não fecha. Este é o ponto de fundo, e ele importa mais do que qualquer solução. Corrigir teria sido fácil; ninguém corrigiu. O texto foi transmitido como documento recebido, e não como planilha auditada. Quem trata a Bíblia como um livro em que nada pode destoar está pedindo dela uma coisa que ela própria não pediu de si.

Soluções elegantes cobram um preço, e o preço deve ser dito. A explicação que faz tudo fechar exige contar Jacó entre os filhos que Lia deu a ele e exige dar dois sentidos diferentes à mesma palavra hebraica em onze versículos. Pode estar certa. Mas apresentá-la sem mencionar o custo é vender uma certeza que não existe.

Quem é excluído da conta continua existindo. As noras alimentaram, carregaram e pariram todos os netos desta lista, e nenhuma entra no número. O documento é honesto: diz que não as conta. Ler bem é justamente não confundir “não contado” com “não existiu”.

Dizer “não sei” é uma resposta. Há seis explicações propostas para os números deste capítulo, todas com pontos fortes e todas com furos. A leitura honesta apresenta as seis e para. A tentação de escolher uma e apresentá-la como a solução é forte, e é assim que hipóteses viram informação repetida.

6. Aspectos Filosóficos

Um documento que se contradiz é mais confiável do que um documento perfeito?

A pergunta soa paradoxal e não é. Quem falsifica alinha as contas — é o primeiro cuidado de qualquer falsificação bem-feita. Quem copia um material recebido, e o respeita, deixa nele as asperezas que encontrou, inclusive as que sabe serem asperezas.

É o que se vê aqui. Os números deste capítulo não fecham, o desencontro está à vista de qualquer um que saiba somar, e ele atravessou séculos de cópia sem ser removido. A conclusão que se pode tirar disso é limitada, mas é sólida: quem transmitiu o texto não se sentia autorizado a melhorá-lo.

O que não se pode tirar é a conclusão contrária, também comum — a de que o desencontro prova que o texto foi montado às pressas ou sem cuidado. As duas leituras usam o mesmo dado e vão para lados opostos, e o dado, sozinho, não decide entre elas.

O que sobra é uma regra de leitura: uma aspereza preservada é informação sobre quem preservou, antes de ser informação sobre o que aconteceu.

7. Aplicações Práticas

Publicar o critério junto com o número. Toda vez que se apresenta um total — de vendas, de participantes, de horas, de resultados —, o número sozinho engana, mesmo sem má-fé. Este versículo faz o certo: diz quem contou e diz quem deixou de fora. Quem adota esse hábito para os próprios números descobre, com frequência, que dois relatórios que pareciam se contradizer estavam medindo coisas diferentes.

Não consertar o que se recebeu para guardar. Quem copia uma ata, transcreve um depoimento ou repassa um documento tem sempre a tentação de melhorar o que passa pelas mãos — corrigir uma data, ajustar uma soma, deixar mais coerente. Os copistas deste texto não fizeram isso, e é por causa disso que hoje se pode discutir o problema. O reparo silencioso apaga a prova.

Apresentar as soluções sem escolher, quando não há como escolher. É desconfortável, e as pessoas geralmente preferem uma resposta errada a nenhuma. Mas dizer “há seis explicações, cada uma com uma falha, e não é possível decidir” é uma informação completa, e é honesta. Vale em discussões sobre texto antigo e vale em qualquer assunto em que o material disponível não chegue para concluir.

Lembrar de quem ficou fora da conta. Toda organização tem sua lista de quem é contado. Vale perguntar, de vez em quando, quem está sustentando o resultado sem aparecer no total — e se o critério que os deixou de fora ainda faz sentido.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Afinal, quantas pessoas desceram ao Egito com Jacó?

Depende do que se está contando, e o próprio texto oferece dois números com dois critérios. Sessenta e seis é o total dos descendentes diretos de Jacó que saíram de Canaã, sem as mulheres dos filhos. Setenta, no versículo seguinte, é o total da casa de Jacó já no Egito, incluindo ele mesmo, José e os dois netos nascidos lá. Nenhum dos dois conta a caravana inteira, que incluía noras, servos e condutores.

Mas as quatro parcelas somam setenta, e este versículo diz sessenta e seis. Isso não é um erro?

É um desencontro real, e não adianta escondê-lo. A explicação mais repetida diz que os setenta das parcelas incluem Jacó, José, Manassés e Efraim, e que este versículo os tira. Ela fecha as contas. Cobra, porém, dois preços: contar Jacó entre os filhos que Lia deu a Jacó, e ler de dois modos diferentes a mesma palavra hebraica no versículo 15 e neste. Há outras cinco explicações propostas, todas com pontos fracos. Não há consenso.

Por que a soma da parcela de Lia também não bate?

Porque, contando os nomes do versículo 8 ao 15, falta um para os trinta e três declarados. O ponto é tratado no estudo de Gênesis 46:15. Ele agrava o problema geral, porque qualquer solução para o total precisa dar conta dele também.

Por que as mulheres dos filhos não são contadas?

Porque o documento mede descendência de Jacó, e elas vieram de fora. Note-se que as filhas nascidas na casa entram: Diná no versículo 15 e Sera no versículo 17. Não é uma exclusão de mulheres, é uma exclusão de quem entrou por casamento — e o texto a declara, em vez de fazê-la em silêncio.

Se o texto é inspirado, como pode ter uma conta que não fecha?

A pergunta é legítima e a resposta honesta é que ela depende do que se entende por inspiração. O que se pode observar, sem sair do terreno verificável, é que quem transmitiu o texto teve séculos para corrigir um algarismo e não corrigiu. Isso sugere que a exatidão aritmética não era o critério pelo qual aquele material estava sendo guardado. Qualquer conclusão além disso já é doutrina do intérprete, e convém dizê-lo.

Existe alguma solução aceita pela maioria dos estudiosos?

Não. Há uma solução tradicional muito repetida — a que tira quatro pessoas dos setenta —, e há a leitura corrente entre quem estuda a formação do texto, que atribui o desencontro à reunião de materiais diferentes. Nenhuma das duas é demonstrável, e as duas convivem na literatura sem que uma tenha sido descartada.

9. Conexão com Outros Textos

As quatro parcelas do próprio capítulo, que somam setenta:

Gênesis 46:15 — “…ao todo, seus filhos e filhas eram trinta e três pessoas.”

Gênesis 46:18 — “…e ela os deu a Jacó — dezesseis pessoas.”

Gênesis 46:22 — “…ao todo, catorze pessoas.”

Gênesis 46:25 — “…ao todo, sete pessoas.”

E o total do versículo seguinte, com outro critério:

Gênesis 46:27 — “E os filhos de José, que lhe nasceram no Egito, eram duas pessoas. Todas as pessoas da casa de Jacó que entraram no Egito eram setenta.”

Os dois nomes que a lista mantém escritos e que este versículo precisa excluir:

Gênesis 46:12 — “Os filhos de Judá: Er, Onã, Selá, Perez e Zerá; mas Er e Onã morreram na terra de Canaã.”

O número setenta é retomado duas vezes fora do Gênesis, e uma delas com a mesma expressão física deste versículo:

Êxodo 1:5 — “Todas as pessoas que saíram da coxa de Jacó eram setenta; e José já estava no Egito.”

Deuteronômio 10:22 — “Com setenta pessoas os seus pais desceram ao Egito; e agora o SENHOR seu Deus o pôs como as estrelas dos céus em multidão.”

A mesma expressão, e o mesmo número, aparecem numa cena bem diferente:

Juízes 8:30 — “E teve Gideão setenta filhos, que saíram da sua coxa, porque teve muitas mulheres.”

Outros setentas de totalidade na Bíblia:

Êxodo 24:1 — “Depois disse a Moisés: Suba ao SENHOR, você e Arão, Nadabe e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel; e adorem de longe.”

2 Reis 10:1 — “E Acabe tinha setenta filhos em Samaria.”

A pessoa que a tradição judaica aponta para completar a parcela de Lia:

Números 26:59 — “E o nome da mulher de Anrão era Joquebede, filha de Levi, a qual nasceu a Levi no Egito; e esta a Anrão deu Arão e Moisés, e Miriã, sua irmã.”

E a promessa que este número, pequeno, existe para medir:

Êxodo 1:7 — “E os filhos de Israel frutificaram, e aumentaram muito, e multiplicaram-se, e foram fortalecidos grandemente; de maneira que a terra se encheu deles.”

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Todas as pessoas que vieram com Jacó ao Egito, descendentes diretos dele, sem contar as mulheres dos filhos de Jacó, eram sessenta e seis pessoas ao todo.

Texto hebraico

כָּל־הַנֶּפֶשׁ הַבָּאָה לְיַעֲקֹב מִצְרַיְמָה יֹצְאֵי יְרֵכוֹ מִלְּבַד נְשֵׁי בְנֵי־יַעֲקֹב כָּל־נֶפֶשׁ שִׁשִּׁים וָשֵׁשׁ

Transliteração

kol-ha-nefesh ha-ba'ah le-Ya'aqov Mitzraymah yotze'ei yerekho mi-levad neshei vene-Ya'aqov kol-nefesh shishim wa-shesh

Análise palavra por palavra

כָּל־הַנֶּפֶשׁ — kol-ha-nefesh, “toda a pessoa”, no sentido de “o total das pessoas”.

O hebraico usa o singular para o conjunto: não “todas as almas”, e sim “toda a alma”. É construção normal para totais. O alcance da palavra nefesh como unidade de contagem foi tratado no estudo de Gênesis 46:22.

הַבָּאָה — ha-ba'ah, “a que veio” ou “a que estava vindo”.

Aqui está um detalhe pequeno com consequência grande.

A forma escrita é ambígua: as mesmas letras podem ser lidas como particípio — “que está vindo”, “que vinha” — ou como verbo no perfeito — “que veio”, ação concluída. A diferença aparece na pronúncia, e a tradição de leitura a registrou com um sinal de acento: no particípio, a sílaba forte é a última; no perfeito, a penúltima.

Ora: o texto hebraico tradicional acentua esta palavra de um jeito neste versículo e de outro no versículo 27. Aqui o acento cai na última sílaba, o que corresponde ao particípio — “os que estavam vindo”. No versículo 27, cai na penúltima, o que corresponde ao perfeito — “os que vieram”, já chegados.

Foi Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista judeu francês do século XI) quem chamou atenção para o detalhe e o usou como solução para o desencontro dos números: sessenta e seis são os que estavam a caminho, saídos de Canaã; setenta são os que estão no Egito depois da chegada, porque lá encontraram José e os dois filhos dele.

O dado dos acentos é verificável em qualquer edição do texto hebraico. O que não é verificável é se ele reflete a intenção de quem escreveu: os sinais de acento foram fixados por escrito pelos massoretas, entre os séculos VII e X, embora registrem uma tradição oral bem mais antiga. É uma leitura possível e não é demonstrável.

לְיַעֲקֹב — le-Ya'aqov, “a Jacó”, “com Jacó”.

A preposição le é ampla; aqui indica acompanhamento ou pertencimento ao grupo dele.

מִצְרַיְמָה — Mitzraymah, “ao Egito”, “rumo ao Egito”.

A terminação -ah marca direção: não “no Egito”, e sim “para o Egito”. A mesma terminação aparece em Gênesis 46:3, quando Deus manda Jacó descer.

יֹצְאֵי יְרֵכוֹ — yotze'ei yerekho, “os que saíram da sua coxa”.

Expressão física, e é assim que a Bíblia diz “gerados por ele”. Yerekh é a coxa, e por extensão a parte do corpo ligada à geração. A palavra já apareceu no Gênesis em dois contextos diferentes — o juramento com a mão sob a coxa, em Gênesis 24:2, e a articulação da anca de Jacó, em Gênesis 32:25 —, e os dois estão tratados naqueles estudos.

A mesma expressão aparece em Êxodo 1:5, ao retomar o número, e em Juízes 8:30, sobre os setenta filhos de Gideão. É fórmula fixa, não invenção deste versículo.

O que ela faz aqui é definir o critério: a conta é de gerados por Jacó. Por isso Jacó fica fora dela, e por isso as noras ficam fora sem que fosse preciso dizer — embora o texto diga assim mesmo, na frase seguinte.

מִלְּבַד — mi-levad, “sem contar”, “à parte de”, “além de”.

Palavra decisiva para o problema do capítulo, e vale examiná-la com calma.

Ela é formada sobre bad, que significa separação, isolamento — a mesma base de levad, “sozinho”, a palavra de Gênesis 2:18, “não é bom que o homem esteja só”. Com a preposição, o sentido é “apartado de”, “fora de”.

Em contexto de contagem, como aqui, ela exclui: as mulheres dos filhos de Jacó estão fora dos sessenta e seis. Isso não é discutido.

O problema é que a mesma palavra aparece no versículo 15, na frase que introduz Diná: “além de Diná, sua filha; ao todo, seus filhos e filhas eram trinta e três”. Se ali ela significa a mesma coisa que aqui — “sem contar Diná” —, então Diná está fora dos trinta e três. E aí a solução tradicional para os números, que precisa de Diná dentro da parcela de Lia para abrir vaga a Jacó, deixa de funcionar.

Não há como decidir. A palavra hebraica comporta os dois sentidos em português — “além de”, que soma, e “sem contar”, que subtrai —, e o hebraico não distingue os dois com formas diferentes. Quem defende a solução tradicional lê de um jeito no versículo 15 e de outro aqui; quem a recusa aponta a inconsistência. É um bom exemplo de como um problema de aritmética pode depender inteiramente de uma preposição.

נְשֵׁי בְנֵי־יַעֲקֹב — neshei vene-Ya'aqov, “as mulheres dos filhos de Jacó”.

Neshei é a forma reduzida do plural de ishah, a palavra que o versículo 19 aplicou a Raquel. Aqui ela está no plural e sem nome nenhum atrás: são todas as noras, indistintas.

שִׁשִּׁים וָשֵׁשׁ — shishim wa-shesh, “sessenta e seis”.

Literalmente “sessenta e seis”, na ordem que o português também usa. O hebraico monta as dezenas a partir das unidades: shesh é seis, e shishim é a forma plural que dá sessenta — como sheva, sete, dá shiv'im, setenta, no versículo seguinte.

11. Conclusão

Conclui-se, primeiro, que este versículo faz uma coisa que o resto do capítulo não fez: declara os seus critérios. Quem entra — os nascidos de Jacó que saíram de Canaã — e quem não entra — as mulheres dos filhos. É por causa dessa declaração que o número seguinte, diferente deste, não precisa ser lido como contradição, mas como resposta a outra pergunta.

Conclui-se, em segundo lugar, que a aritmética do capítulo não fecha sozinha e que as soluções propostas custam alguma coisa. A mais antiga e mais repetida faz tudo bater, ao preço de contar Jacó entre os filhos que Lia deu a ele e de ler uma mesma palavra hebraica de dois modos em onze versículos. As outras cinco explicam parte do problema e deixam o resto de fora. Não há consenso, não é possível decidir, e apresentar qualquer uma delas como a solução é dizer mais do que se sabe.

Conclui-se, em terceiro lugar, que o dado mais consistente deste versículo não é nenhum dos números: é o fato de eles terem chegado até aqui sem conserto. Corrigir seria trivial. Ninguém corrigiu, em nenhum dos manuscritos hebraicos que temos. O texto foi guardado como material recebido, não como conta a fechar — e é essa a informação sólida que sobra depois de todas as hipóteses.

Conclui-se, por fim, para que o número serve. Sessenta e seis pessoas atravessando uma fronteira é um número pequeno, e é exatamente disso que se trata. Deus prometera, quatro versículos antes, fazer ali uma grande nação (Gênesis 46:3). Êxodo 1:7 dirá que a terra se encheu deles. Entre uma coisa e outra está este total miúdo, anotado com cuidado — e é o cuidado que o torna útil: para medir crescimento, é preciso ter registrado o ponto de partida.

Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Deixe um comentário

Gênesis 46:26

Seu comentário passa por moderação antes de aparecer.

A Bíblia Comentada
© A Bíblia Comentada 2026. Design by Top Level
📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%