Tomaram também o seu gado e os bens que haviam adquirido na terra de Canaã, e vieram ao Egito, Jacó e toda a sua descendência com ele:
1. Introdução
O versículo completa a carga e conclui a viagem numa só frase.
Além das pessoas do versículo anterior, eles levam o gado e os bens acumulados em Canaã. Depois disso, o texto diz que chegaram — “e vieram ao Egito” — e nomeia quem chegou: Jacó e toda a sua descendência.
O que o versículo não diz é o que o torna interessante. Faraó tinha mandado, pela boca de José, que não se importassem com os pertences, porque o melhor do Egito seria deles (Gênesis 45:20). Eles levaram tudo. O Gênesis registra as duas coisas — a instrução e o que foi feito — e não comenta a distância entre elas.
Há ainda uma frase quase idêntica a esta em outro ponto da vida de Jacó, quando ele saiu da casa de Labão. É a segunda vez que ele atravessa uma fronteira com tudo o que juntou.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que um pastor possuía
Vale ter na cabeça, com alguma concretude, do que era feita a riqueza desta família.
Não era feita de terra. Em Canaã, Jacó não tinha propriedade agrícola: o único imóvel da família era a caverna comprada por Abraão para servir de sepultura, e ela não produzia nada. Toda a riqueza estava em coisas que andam ou que cabem numa trouxa.
O grosso eram os animais — ovelhas, cabras, bois, jumentos. Depois vinham as tendas com o que há dentro delas, os utensílios de metal e de barro, os odres, as armas, os instrumentos de tosquia e de ordenha. Havia prata, pesada em balança, sem moeda cunhada; o funcionamento disso já foi tratado nos capítulos das compras no Egito. E havia servos, que no vocabulário da época contavam como parte dos bens.
A consequência prática é direta e explica o versículo: uma casa assim pode ir embora inteira. Não há colheita a perder, não há terreno a vender, não há casa a fechar. Basta desmontar as tendas e tocar o rebanho. A mesma expressão usada aqui — o gado e os bens adquiridos — já tinha descrito a saída de Jacó da casa de Labão, e o fundo dessa categoria de propriedade foi tratado no estudo de Gênesis 31:18.
O rebanho é capital, e capital que come
Há uma diferença entre o gado e o resto, e ela é importante.
Prata guardada não pede nada. Um rebanho pede pasto, água e vigilância todos os dias, e adoece, e se perde, e é roubado. Em compensação, é o único bem que se reproduz sozinho: um rebanho bem tratado cresce, e é por isso que a Bíblia mede a prosperidade dos patriarcas em cabeças de animal.
Levar o rebanho na mudança, portanto, não é sentimentalismo com o gado. É levar a fábrica junto. Quem chega ao Egito com animais chega com meios de produção; quem chega sem eles chega dependente do que lhe derem.
Isso ajuda a entender por que a família insiste no assunto ao longo de todo o capítulo, e por que José, no fim dele, vai instruir os irmãos a se apresentarem a Faraó exatamente como criadores de gado.
Entrar no Egito com animais
O Egito era um Estado que contava. Contava grão, contava trabalhadores e contava gado — e contava gado com um zelo que não tem paralelo na região.
As cenas de contagem de rebanho são um dos temas mais repetidos da decoração de túmulos egípcios: o proprietário sentado sob um toldo, os escribas com as tabuinhas, e as filas de bois passando para serem registradas. Nos períodos mais antigos, a contagem do gado era um evento tão regular que servia para datar os anos do reinado — falava-se do ano de tal contagem, como hoje se fala de um exercício fiscal.
Entrar naquele país com um rebanho, portanto, não era só atravessar uma linha. Era entrar num sistema de registro. O controle da fronteira leste e a documentação de quem passava por ali já foram tratados no estudo de Gênesis 42:9; o que se acrescenta aqui é que o gado também era anotado.
O Gênesis não descreve nada disso. Ele diz que tomaram o gado e vieram. Mas a naturalidade da frase esconde uma operação administrativa considerável, e o capítulo termina justamente com José preparando a família para a entrevista em que essa operação seria formalizada.
3. Análise Teológica do Versículo
“Tomaram também o seu gado”
Depois das pessoas, os animais. A ordem da frase não é acidental: o versículo 5 carregou quem não podia andar, e o versículo 6 recolhe o que anda sozinho.
O gado é a razão econômica da família e vai ser a razão pela qual ela obtém Gósen, no fim deste mesmo capítulo. Aqui ele aparece como carga, no meio de um inventário.
“e os bens que haviam adquirido na terra de Canaã”
Esta é a frase que carrega o problema do versículo, e ele só aparece para quem lembra do que foi dito um capítulo antes.
Faraó havia mandado dizer aos irmãos, por meio de José: “Não se preocupem com os seus pertences, porque o melhor de toda a terra do Egito será de vocês” (Gênesis 45:20). E eles levaram os pertences.
Antes de chamar isso de desobediência, é preciso examinar o que a ordem dizia — e o hebraico não é tão simples quanto a tradução sugere.
A expressão original é uma fórmula fixa: “que o olho de vocês não tenha pena dos seus pertences”. Essa construção, com o olho como sujeito, aparece várias vezes na Bíblia, e quase sempre em contexto de não poupar alguma coisa que se poderia querer poupar — não ter dó, não hesitar em abrir mão. Se for essa a força da frase, Faraó está dizendo: deixem tudo para trás e não olhem para trás.
Mas cabe outra leitura, e ela é defendida: a de que a frase seja apenas o conforto de um anfitrião generoso — “não se aborreçam com o que ficar, vocês terão o melhor daqui”. Nesse caso não haveria ordem nenhuma, e sim uma dispensa de preocupação.
Não é possível decidir entre as duas com o material disponível. As traduções se dividem, e essa divisão é antiga.
O que se pode afirmar é o seguinte: a família não fez o que a leitura mais forte da frase mandava. Levou o rebanho e levou os bens, e levou-os por centenas de quilômetros, num ano de seca, sabendo que o melhor do Egito estava prometido. E o Gênesis, que noutros lugares comenta a conduta dos personagens, aqui não comenta nada. Não diz que fizeram bem, não diz que fizeram mal, não registra reação de José nem de Faraó quando o comboio chega carregado.
Vale resistir à tentação de preencher esse silêncio. Nem “eles desconfiaram da promessa egípcia”, nem “eles foram prudentes e fizeram bem”, nem “a fé deles era pequena” estão no texto. O que está no texto é uma instrução, um comportamento diferente dela e nenhum julgamento.
Há, porém, um dado que ajuda a entender a decisão sem a julgar. Quem chega a um país estrangeiro com o próprio rebanho chega em posição diferente de quem chega de mãos vazias. Uma família com meios de produção negocia; uma família sem eles depende. O restante da história dá razão a essa leitura: quando José for repartir a terra, vai fazê-lo apresentando os irmãos como criadores de gado (Gênesis 46:34; 47:3-6), e é o gado deles que justifica o pedido de Gósen.
Uma frase que Jacó já tinha vivido
A formulação não é nova nesta vida. Quando Jacó saiu da casa de Labão, o Gênesis escreveu: “e levou todo o seu gado e todos os bens que havia adquirido, o gado que juntara em Padã-Arã” (Gênesis 31:18).
É quase a mesma frase, com o nome de outra região. Duas vezes na vida esse homem atravessa uma fronteira levando tudo o que acumulou do outro lado — e nas duas vezes o que ele leva foi acumulado num país que não era o dele. Ele juntou em Padã-Arã e saiu; juntou em Canaã e sai.
A diferença é que da primeira vez ele fugiu, e desta vez ele foi convidado. O Gênesis usa a mesma linguagem para as duas saídas e não assinala a diferença.
E o irmão dele já tinha feito exatamente isto
Há um terceiro uso da mesma fórmula, e ele é o mais próximo de todos — tão próximo que as palavras coincidem.
Em Gênesis 36:6 está escrito: “Esaú tomou as suas mulheres, os seus filhos, as suas filhas e todas as pessoas da sua casa, os seus rebanhos, todos os seus animais e todos os bens que havia adquirido na terra de Canaã, e foi para outra terra, para longe de Jacó, seu irmão.” A expressão final é literalmente a do versículo 6.
O paralelo é forte e desconfortável. O gêmeo que perdeu a bênção saiu de Canaã com tudo o que tinha adquirido em Canaã, e o texto explica o motivo no versículo seguinte: os bens dos dois irmãos eram grandes demais para que morassem juntos (Gênesis 36:7). Agora o gêmeo que ficou com a bênção sai da mesma terra, com a mesma bagagem, descrita com as mesmas palavras.
O Gênesis não faz nenhum comentário sobre isso, e é preciso ter cuidado com o que se conclui. A fórmula pode ser simplesmente a maneira padrão de descrever uma migração — ela aparece também em Gênesis 12:5, com Abrão entrando em Canaã. Mas a coincidência de vocabulário entre a saída de Esaú e a saída de Jacó é notável, e quem lê o livro inteiro tem os dois textos disponíveis.
“e vieram ao Egito”
Quatro palavras em português, três em hebraico, e a viagem inteira está feita.
O texto não descreve o caminho. Não conta quantos dias, não menciona parada nenhuma, não diz nada da travessia da região seca, não relata a chegada à fronteira nem qualquer encontro com autoridade egípcia. Entre Berseba e o Egito não há uma linha.
Isso é notável num livro que dedicou capítulos inteiros a viagens menores — a ida do servo de Abraão a Harã, as duas descidas dos irmãos para comprar trigo. Aqui a viagem mais importante da história da família é despachada numa oração.
Uma explicação plausível é que o Gênesis não esteja contando uma viagem, e sim registrando uma entrada. O verbo “vieram” e o nome “Egito” são o que importa: a família está dentro. Tudo o que acontecer daqui em diante, e por gerações, acontece lá.
“Jacó e toda a sua descendência com ele”
A frase fecha o versículo e abre outra coisa: ela é a fórmula que introduz a lista de nomes.
Note-se a estrutura. Primeiro o indivíduo, Jacó. Depois o conjunto, a descendência. Depois a preposição que os liga, “com ele”. É a arrumação de um cabeçalho, e o versículo 7 vai detalhá-la, e o versículo 8 vai começar a nomear.
Do ponto de vista da narrativa, este é o último instante em que a família é tratada como um grupo indistinto. A partir daqui ela vira uma relação de nomes, e vai ficar assim por vinte versículos.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O gado
Ovelhas, cabras, bois e jumentos — a riqueza principal da casa. O termo hebraico deste versículo é o mesmo que aparece no fim do capítulo, quando José instrui os irmãos sobre como se apresentarem a Faraó (Gênesis 46:34), e é ele que vai render a eles a terra de Gósen.
Os bens adquiridos em Canaã
Tudo o que não anda sozinho: tendas, utensílios, metal, prata pesada, servos. Jacó tinha chegado a Canaã com o que juntou em Padã-Arã (Gênesis 31:18) e sai dela com o que juntou ali, mais de vinte anos depois.
A instrução de Faraó que ficou para trás
Em Gênesis 45:20, transmitida por José: que não se importassem com os seus pertences, porque o melhor do Egito seria deles. É a única instrução de Faraó neste bloco que a família não seguiu, e o texto não registra consequência nenhuma.
Canaã, deixada
A terra prometida a Abraão, a Isaque e a Jacó, e onde nenhum dos três possuía mais do que um túmulo comprado. É este o versículo em que a família sai dela — e vai permanecer fora por séculos.
O Egito, alcançado
O texto não nomeia a fronteira, o funcionário, o posto nem a data. Diz apenas que vieram. A instalação em Gósen e a apresentação a Faraó vêm nos capítulos seguintes.
Jacó e a sua descendência
A expressão do fim do versículo funciona como título do que vem a seguir: o versículo 7 desdobra a descendência em quatro categorias e o versículo 8 começa a nomeá-la, uma a uma.
5. Pontos de Ensino
Levaram o que mandaram deixar
O texto registra a instrução num capítulo e o comportamento contrário no seguinte, sem uma palavra de avaliação. É um bom exemplo do modo do Gênesis: mostrar, e deixar o leitor com o desconforto.
Chegar com meios é diferente de chegar dependente
A família entra no Egito com rebanho próprio. É o que vai permitir que peçam uma região específica e que se apresentem como gente com ofício, e não como refugiados. A prudência aqui não é comentada pelo texto, mas os capítulos seguintes a confirmam.
A promessa de um rei não substitui o que se tem
Faraó prometeu o melhor da terra. Eles levaram o próprio. O Gênesis não diz se isso foi desconfiança ou bom senso — e a distinção entre as duas coisas, na prática, é raramente clara.
A mesma frase, duas fronteiras
“O gado e os bens que havia adquirido” descreve tanto a saída de Padã-Arã quanto a saída de Canaã. A vida de Jacó tem essa forma repetida: juntar em terra alheia e sair com o que juntou.
A viagem decisiva cabe em quatro palavras
“E vieram ao Egito.” O livro que gastou um capítulo inteiro com a viagem de um servo à Mesopotâmia despacha esta numa oração. O que interessa ao texto não é o percurso — é o fato de estarem dentro.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta uma questão simples: por que uma pessoa carrega coisas que lhe garantiram que não vai precisar?
A resposta fácil é desconfiança, e ela provavelmente é insuficiente. Ninguém carrega um rebanho por centenas de quilômetros, num ano de seca, só porque duvida de uma promessa; carregar é caro, e a dúvida sozinha não paga esse preço.
Há pelo menos duas outras razões possíveis, e as duas são melhores.
A primeira é que o que se possui não vale apenas pelo que serve. Um rebanho construído ao longo de vinte anos não é substituível por um rebanho equivalente recebido de presente: são os mesmos animais em número e em espécie, e não são a mesma coisa para quem os criou. Trocar o que se fez pelo que se ganha é uma perda, mesmo quando o que se ganha é maior. Isso não é irracional; é apenas uma medida de valor que a contabilidade não registra.
A segunda é sobre a posição em que se chega. Receber tudo de alguém é ficar devendo tudo a alguém. Quem entra num país trazendo o próprio meio de vida entra como quem tem o que oferecer; quem entra de mãos vazias entra como quem só tem o que pedir. A diferença não é de conforto, é de posição — e ela costuma decidir como a pessoa vai ser tratada dali em diante.
Nada disso está no Gênesis. O texto registra a instrução, registra o comportamento contrário e cala. Mas o silêncio permite notar que o livro não trata a conduta como falha, e essa ausência de censura já é, em si, um dado.
7. Aplicações Práticas
Aceitar ajuda sem se desfazer do que se tem
Há uma diferença entre receber ajuda e entregar-se a quem ajuda. Quem vende tudo para aceitar uma oferta generosa fica sem alternativa se a oferta mudar. A família de Jacó aceitou o convite e manteve o rebanho — e foi com o rebanho que negociou a região onde ia morar.
O uso é direto para mudanças de emprego, de cidade ou de sociedade: manter o que dá autonomia, mesmo quando quem convida garante que não será necessário, é prudência, não ingratidão.
Promessa não é entrega
“O melhor do Egito será de vocês” é uma frase de intenção. Ela foi cumprida — mas só se cumpriu depois, e por decisão do mesmo rei que a fez. Decisões irreversíveis tomadas com base em promessas ainda não executadas são, na prática, empréstimos sem garantia.
O que se construiu não é substituível por equivalente
Vale reconhecer isso em vez de tratá-lo como apego bobo. Uma clientela feita em quinze anos, uma equipe formada aos poucos, uma casa arrumada ao longo de uma vida — nada disso se troca sem perda por outra coisa do mesmo tamanho. Quem decide como se estivesse trocando pesos iguais decide errado.
Uma ressalva
O versículo não é uma lição sobre apego a bens, em nenhuma das duas direções. O Gênesis não elogia a prudência nem condena o apego; ele apenas registra o que foi feito. Extrair daqui uma regra sobre desprendimento — a favor ou contra — é acrescentar ao texto.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Eles desobedeceram a Faraó?
Depende do que a frase de Gênesis 45:20 significa, e isso é discutido. A expressão hebraica — “que o olho de vocês não tenha pena dos seus pertences” — é usada em outros lugares no sentido de não poupar, o que sustenta a leitura de que era uma ordem para deixar tudo. Mas ela também pode ser lida como conforto: não se aborreçam com o que ficar. Não é possível decidir, e o texto não registra que alguém tenha tratado o caso como desobediência.
Se o melhor do Egito era deles, para que levar o rebanho?
O Gênesis não explica. O que a história mostra em seguida é que o rebanho foi o argumento com que a família obteve Gósen e uma ocupação reconhecida (Gênesis 46:34; 47:3-6). Se isso foi calculado ou apenas resultou assim, não se pode afirmar.
Como um rebanho atravessa uma região seca em ano de fome?
Com dificuldade, e o texto não conta nada disso. É um silêncio grande: a operação descrita numa oração subordinada é, na prática, o problema mais difícil da mudança inteira.
Por que a viagem não é narrada?
Não há resposta no texto. Uma explicação plausível é que o interesse do livro esteja na entrada, não no percurso — o que é coerente com a estrutura do capítulo, que passa imediatamente à lista dos que entraram.
“Toda a sua descendência” inclui quem?
O versículo seguinte responde em parte, listando quatro categorias, e a lista dos versículos 8 a 27 responde em detalhe. Vale antecipar que a contagem apresenta dificuldades reconhecidas, discutidas no estudo de Gênesis 46:26.
9. Conexão com Outros Textos
A instrução que não foi seguida
Gênesis 45:20 — “Não se preocupem com os seus pertences, porque o melhor de toda a terra do Egito será de vocês.”
Dita por Faraó e transmitida por José. O versículo 6 descreve exatamente o contrário, e o Gênesis não comenta.
A mesma frase, na outra fronteira
Gênesis 31:18 — “E levou todo o seu gado e todos os bens que havia adquirido, o gado que juntara em Padã-Arã, para ir a Isaque, seu pai, na terra de Canaã.”
A saída da casa de Labão, descrita com quase as mesmas palavras. Duas travessias de fronteira, o mesmo vocabulário.
A entrada em Canaã, uma geração antes
Gênesis 12:5 — “Abrão tomou sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló, todos os bens que haviam acumulado e as pessoas que haviam adquirido em Harã, e partiram rumo à terra de Canaã; e à terra de Canaã chegaram.”
A fórmula da migração patriarcal, com a mesma sequência: pessoas, bens, destino, chegada. O versículo 6 a repete em sentido inverso — saindo de Canaã.
O gado que vai render a terra
Gênesis 46:34 — “respondam: ‘Os seus servos foram criadores de gado desde a juventude até agora, tanto nós como os nossos pais’ — para que possam habitar na terra de Gósen.”
No fim deste mesmo capítulo, o gado trazido aqui vira o argumento da negociação.
O irmão que fez a mesma coisa, com as mesmas palavras
Gênesis 36:6 — “Esaú tomou as suas mulheres, os seus filhos, as suas filhas e todas as pessoas da sua casa, os seus rebanhos, todos os seus animais e todos os bens que havia adquirido na terra de Canaã, e foi para outra terra, para longe de Jacó, seu irmão.”
A expressão “os bens que havia adquirido na terra de Canaã” é exatamente a do versículo 6. Esaú também saiu de Canaã levando tudo — dez capítulos antes, e por outro motivo.
O anúncio da chegada, do outro lado
Gênesis 47:1 — “José foi e avisou a Faraó: ‘Meu pai e meus irmãos, com as suas ovelhas, o seu gado e tudo o que têm, vieram da terra de Canaã, e estão agora na terra de Gósen.’”
José relata a Faraó exatamente o que o versículo 6 descreveu — inclusive o gado e o “tudo o que têm” que o rei tinha mandado deixar para trás.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Tomaram também o seu gado e os bens que haviam adquirido na terra de Canaã, e vieram ao Egito, Jacó e toda a sua descendência com ele:
Texto hebraico
וַיִּקְח֣וּ אֶת־מִקְנֵיהֶ֗ם וְאֶת־רְכוּשָׁם֙ אֲשֶׁ֤ר רָֽכְשׁוּ֙ בְּאֶ֣רֶץ כְּנַ֔עַן וַיָּבֹ֖אוּ מִצְרָ֑יְמָה יַעֲקֹ֖ב וְכָל־זַרְע֥וֹ אִתּֽוֹ׃
Transliteração
wayyiqchú et-miqnehém we'et-rekhusham asher rakheshú be'éretz Kena'an wayyavó'u Mitzráymah Ya'akóv wekhol-zar'ó ittó
Análise palavra por palavra
וַיִּקְחוּ · wayyiqchú — “e tomaram”
O verbo laqach, tomar, pegar, é dos mais comuns da língua e não carrega nenhum tom especial. É o mesmo verbo de tomar uma mulher em casamento, tomar um animal para o sacrifício, tomar uma pedra do chão.
Aqui ele é apenas o verbo do carregamento — e a neutralidade dele é parte do efeito. A frase não diz “insistiram em levar”, nem “fizeram questão de”, nem “apesar disso levaram”. Diz “tomaram”, como quem descreve uma mudança.
מִקְנֵיהֶם · miqnehém — “o gado deles”
Esta palavra merece atenção, porque a etimologia dela conta uma história econômica.
Miqneh vem da raiz qanah, que significa adquirir, comprar. Literalmente, portanto, o gado é o que se adquire — o bem por excelência, aquilo que uma pessoa compra quando tem com que comprar. A mesma lógica está por trás do latim pecunia, dinheiro, formada a partir de pecus, rebanho, e do português “pecúlio”.
A palavra designa o rebanho como patrimônio, não como animal individual. Quando o Gênesis quer falar de ovelhas e bois enquanto bichos, usa outros termos.
É esta a palavra que reaparece no versículo 34, na instrução de José sobre como os irmãos devem se descrever diante de Faraó — e a escolha, lá, é decisiva.
רְכוּשָׁם אֲשֶׁר רָכְשׁוּ · rekhusham asher rakheshú — “os bens deles que adquiriram”
Substantivo e verbo da mesma raiz, um colado no outro: os bens que eles abenaram, se houvesse tal verbo em português. O hebraico faz isso com naturalidade e o português não acompanha.
A raiz rakhash é rara — aparece pouquíssimas vezes na Bíblia — e o substantivo rekhush designa especificamente a propriedade móvel: o que se junta, o que se transporta, o que se pode perder numa pilhagem. É a palavra usada quando os reis levam “todos os bens de Sodoma” em Gênesis 14:11, e quando Deus anuncia a Abraão que os descendentes sairão do Egito “com grande riqueza” (Gênesis 15:14).
Essa última ocorrência vale ser guardada. A mesma palavra que descreve o que a família leva para dentro do Egito é a que descreve o que ela vai levar para fora dele, séculos depois. O Gênesis não sublinha, mas o vocabulário fecha o círculo.
בְּאֶרֶץ כְּנַעַן · be'éretz Kena'an — “na terra de Canaã”
Construção fixa: eretz, terra, ligada ao nome. A especificação não é decorativa — ela marca onde os bens foram acumulados, e o paralelo com Gênesis 31:18, onde a região indicada é Padã-Arã, fica evidente.
וַיָּבֹאוּ מִצְרָיְמָה · wayyavó'u Mitzráymah — “e vieram ao Egito”
O verbo bo, vir, entrar, chegar. E o nome do país com a terminação de direção, a mesma que apareceu nos versículos 3 e 4.
Duas palavras para a viagem inteira. O hebraico é ainda mais econômico que o português aqui, e a economia é o dado.
וְכָל־זַרְעוֹ אִתּוֹ · wekhol-zar'ó ittó — “e toda a sua descendência com ele”
Zera é literalmente semente, e é a palavra que o hebraico usa para descendência. Ela é coletiva e não tem plural nesse sentido: “as sementes dele” não existe; é sempre “a semente dele”, abrangendo um filho ou um povo inteiro.
Essa é a palavra das promessas: a semente de Abraão será como as estrelas, como a areia, como o pó da terra. Aqui ela aparece em uso administrativo, para dizer quem embarcou.
Ittó é “com ele”, e usa a outra preposição de companhia — não a do versículo 4, onde Deus diz “descerei com você”. As duas se equivalem no uso e a distinção entre elas é discutida sem conclusão firme.
11. Conclusão
Três conclusões, do que foi examinado.
A primeira é que a família entra no Egito por decisão própria e com recursos próprios. Foi convidada, foi transportada por conta do rei, recebeu garantia de que nada faltaria — e ainda assim chegou trazendo o rebanho e o que tinha juntado. Isso não a torna desconfiada nem prudente; torna-a uma casa que atravessa a fronteira em pé, com o que a sustenta. O restante da história depende disso, porque é o rebanho que vai lhe render um lugar próprio para morar.
A segunda é sobre o modo do Gênesis. Há aqui uma instrução real, dita por um rei e transmitida por José, e há um comportamento que não a segue. O livro põe as duas coisas a um capítulo de distância e não faz a ligação. Quem quiser condenar, condena por conta própria; quem quiser elogiar, elogia por conta própria. A postura mais fiel é notar a distância e deixá-la aberta.
A terceira é sobre a proporção. A travessia que decide o destino da família por quatro séculos ocupa duas palavras — “e vieram ao Egito” —, enquanto a lista de nomes que vem a seguir ocupa vinte versículos. O Gênesis não considera o percurso interessante. Considera interessante quem chegou, e é a isso que ele dedica o resto do capítulo.













