E Deus fez bem às parteiras; e o povo se multiplicou e se tornou muito forte.
1. Introdução
Meio versículo sobre duas mulheres, meio versículo sobre um povo inteiro. É a primeira vez que Deus faz alguma coisa neste livro.
Três pontos se levantam.
O primeiro é o mais fácil de perder. O capítulo já mostrou trabalho forçado, brutalidade e uma ordem de matar recém-nascidos, e em nenhum desses momentos Deus agiu ou falou. A primeira ação divina do Êxodo acontece aqui — e o beneficiário não é o povo oprimido: são as duas parteiras.
O segundo é o que o texto deixa em suspenso. Ele diz que Deus lhes fez bem e não diz o que foi esse bem. A informação vem no versículo seguinte, e o intervalo é proposital ou não — não é possível decidir.
O terceiro é a segunda metade da frase. O povo se multiplicou e se tornou muito forte, que é exatamente aquilo que o rei montou toda a sua política para impedir. O texto põe a recompensa das parteiras e o crescimento do povo na mesma linha, sem dizer que uma coisa causou a outra. Ele apenas as encosta uma na outra e segue.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como se recompensava, naquele mundo
A frase “fez bem a alguém” tinha, para o leitor antigo, um conteúdo bastante concreto — e é útil recuperá-lo para medir o que este versículo faz.
Recompensa era coisa pública. Quem servia bem ao senhor recebia diante de testemunhas: terra, gado, isenção de encargo, um cargo, um túmulo. No Egito, a distinção de um servidor leal era cerimônia, com fórmula, plateia e registro — a investidura egípcia está descrita no estudo de Gênesis 41:42. O ponto da recompensa era ser vista: ela premiava o servidor e, ao mesmo tempo, anunciava aos demais o que valia a pena fazer.
Compare com o que está escrito aqui. Deus faz bem às parteiras, e ninguém fica sabendo. Não há cerimônia, não há testemunha, não há proclamação. O palácio segue sem informação — o rei, três versículos adiante, ainda está legislando como se nada tivesse acontecido.
É uma recompensa que não tem função de exemplo. Ela não ensina nada a ninguém dentro da história; só o leitor a conhece.
Um povo que cresce é bem e é problema
A segunda metade do versículo informa que o povo se multiplicou e se tornou muito forte, e convém lembrar o que isso significava para um Estado antigo.
Gente era riqueza. O poder de um reino se media em braços: quem cava o canal, quem carrega o tijolo, quem colhe, quem paga. O sistema de trabalho compulsório que o Egito montou sobre os hebreus está tratado no estudo de Êxodo 1:11, e ele só faz sentido com população numerosa. Um grupo que cresce é, primeiro, um ganho contábil.
Mas gente também é perigo, e é isso que o rei disse em voz alta no versículo 9. Um grupo grande, concentrado, estrangeiro e maltratado é um cálculo que qualquer administração antiga sabia fazer.
Daí a estranheza da situação em que o capítulo chega: o Egito precisa que os hebreus sejam muitos para o trabalho e não suporta que sejam muitos para a segurança. É uma contradição que a política do rei nunca resolve — e o versículo registra, sem comentar, que o lado que ele queria conter é o que está crescendo.
3. Análise Teológica do Versículo
“E Deus fez bem às parteiras”
Esta é a primeira vez que Deus é sujeito de um verbo no livro do Êxodo. Vale parar nisso.
O capítulo já vai longo. Houve uma geração inteira morrendo, um rei novo que não conhecia José, uma política de trabalho forçado, chefes de corveia, cidades construídas sob carga, brutalidade declarada, amargura de vida, e uma ordem de matar recém-nascidos. Em nenhum desses momentos o texto diz que Deus fez ou disse coisa alguma.
Ele apareceu uma vez, no versículo 17, e apareceu como objeto: as parteiras temeram a Deus. Foi tudo.
Agora ele age. E há duas coisas a observar sobre essa estreia, e as duas incomodam.
A primeira: ele não fala. Não há discurso divino em Êxodo 1, nem promessa, nem ameaça, nem explicação. A primeira palavra de Deus no livro virá muito adiante. Aqui há um ato, e o ato é narrado em três palavras.
A segunda: o beneficiário. Num capítulo sobre um povo esmagado, a única coisa que Deus é registrado fazendo é fazer bem a duas parteiras. Não liberta ninguém, não castiga o rei, não interrompe a construção das cidades. Faz bem a duas mulheres que descumpriram uma ordem.
O texto não explica essa desproporção e não a comenta. Registrar que ela existe é a leitura honesta; consertá-la, com a alegação de que Deus estava agindo nos bastidores o tempo todo, é acrescentar o que não está escrito.
O bem que o versículo não descreve
“Fez bem” é vago de propósito ou por economia — não é possível decidir. O que se pode dizer é que o versículo não informa em que consistiu o benefício.
Quem lê seguido nem percebe, porque o versículo seguinte responde. Mas a ordem em que as coisas estão ditas tem efeito: primeiro se diz que houve recompensa e que o povo cresceu; só depois se diz qual foi a recompensa e por quê. O motivo vem por último, e o motivo é o que resolve — ou pelo menos limita — a discussão que o versículo 19 abriu.
E aqui é preciso segurar uma tentação. Este versículo não diz que Deus aprovou a resposta dada ao rei. Não diz nada sobre a resposta. O estudo de Êxodo 1:19 examina as leituras possíveis; aqui basta registrar que a palavra “porque” não aparece nesta frase, e que quando ela aparecer, no versículo 21, o que vier depois dela não será a resposta ao rei.
“e o povo se multiplicou e se tornou muito forte”
A frase é feita de duas palavras que o leitor deste capítulo já conhece.
São as palavras da bênção do versículo 7 — o mesmo verbo de multiplicar-se e a mesma raiz de tornar-se forte, aquela que o rei devolveu como ameaça no versículo 9 ao dizer que Israel era “mais forte do que nós”. O estudo de Êxodo 1:7 desenvolve o par.
O que este versículo faz com elas é novo. Ele as põe imediatamente depois de uma ação de Deus, e essa é a diferença.
Repare no cuidado do texto, porém. Ele não diz que o povo cresceu porque Deus fez bem às parteiras. Não diz que o crescimento foi a recompensa. Não diz que as parteiras salvaram tantos meninos a ponto de mudar a demografia do Egito. Ele escreve duas afirmações e as separa com um “e”.
A ligação é oferecida ao leitor e não é feita pelo texto. Quem afirma a relação de causa está lendo o “e” como “por isso”, e isso é interpretação — legítima, mas interpretação.
A terceira vez que o plano falha
Vale ter o desenho do capítulo à mão, porque este versículo é o fecho de um padrão.
No versículo 7 o povo cresce, e é o que assusta o rei. No versículo 12, quanto mais o afligiam, mais ele se multiplicava — a opressão produz o contrário do que pretendia. Agora, no versículo 20, depois da ordem de matar e do fracasso dessa ordem, o povo cresce outra vez.
Três medidas, três crescimentos. O texto não comenta a sequência nem enuncia lei nenhuma sobre ela; apenas a repete, e a repetição faz o serviço.
O que o texto não diz
Não diz que Deus aprovou a resposta do versículo 19.
Não diz que as parteiras foram protegidas de Faraó, nem que ele soube de alguma coisa.
Não diz que o crescimento do povo é a recompensa das parteiras, nem que ele decorre da atuação delas.
Não diz quanto tempo isso durou. Entre este versículo e o próximo decreto do rei pode ter passado um ano ou uma geração.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Deus
Entra em ação pela primeira vez no livro. No capítulo inteiro ele é chamado apenas por Elohim, a palavra comum para Deus; o nome próprio revelado a Moisés só aparecerá no Êxodo mais adiante, e a partir dali passa a dominar o livro.
Não é possível decidir se a escolha é deliberada, e há mais de uma explicação em circulação para a alternância dos dois modos de nomear Deus no Pentateuco. O dado observável é que Êxodo 1 usa um só, e é o mais geral.
As parteiras
Aparecem aqui como beneficiárias e não como agentes. Nos versículos 17, 18 e 19 elas fazem e falam; neste, alguém faz alguma coisa por elas.
É a penúltima notícia que a Bíblia dá de Sifrá e Puá. A última é o versículo seguinte.
O povo
Israel, tratado como corpo único. É a mesma palavra que Faraó usara no versículo 9 para chamá-lo de “o povo dos filhos de Israel”.
O que aconteceu antes, e o que vem depois
A audiência do versículo 18 terminou sem sentença: o rei perguntou, ouviu a resposta do versículo 19 e o texto não registra reação nenhuma. É nesse vazio que este versículo entra.
E é útil saber o que vem depois para ler o que está aqui: no versículo 22 o rei muda de método e dá a ordem ao povo egípcio inteiro. O crescimento noticiado neste versículo é, na prática, o que provoca o decreto final do capítulo.
5. Pontos de Ensino
Deus age antes de falar
A primeira intervenção divina do Êxodo não é um discurso, uma promessa ou uma aparição: é um benefício concedido a duas pessoas, narrado em três palavras. Quem espera que a atuação de Deus num livro bíblico comece por anúncio solene vai passar por cima dela.
Ninguém dentro da história fica sabendo
A recompensa não é pública, não é anunciada e não serve de exemplo a ninguém na cena. O rei continua legislando como se nada tivesse ocorrido. Há bem que se faz sem que a notícia chegue a lugar nenhum.
O texto encosta duas frases e não liga uma na outra
Deus fez bem às parteiras; o povo se multiplicou. O “e” que une as duas coisas não é “por isso”. Aprender a ver onde o texto liga e onde ele apenas justapõe é uma das habilidades mais úteis para ler a Bíblia sem lhe atribuir o que ela não afirma.
A política do rei já fracassou três vezes
O povo cresceu no versículo 7, cresceu sob a opressão no versículo 12 e cresce de novo aqui, depois da ordem de matar. O capítulo não enuncia nenhuma lei sobre isso — repete o fato, e a repetição basta.
O bem feito a poucos não é pouco
Num capítulo sobre um povo esmagado, o que se registra é um benefício a duas mulheres. É desproporcional, e o texto não conserta a desproporção. Vale conviver com ela em vez de transformar o versículo numa garantia geral de que tudo se resolve.
6. Aspectos Filosóficos
O ato que é pago depois
Este versículo levanta um problema antigo: uma boa ação recompensada continua sendo a mesma boa ação?
A objeção é conhecida. Se há prêmio, há interesse; se há interesse, o que parecia virtude era cálculo. A pergunta de fundo — se alguém teme a Deus sem receber nada em troca — está desenvolvida no estudo de Gênesis 22:12, e não se reabre aqui.
O que este versículo acrescenta é uma distinção de tempo, e ela resolve mais do que parece.
A recompensa vem depois. Quando as parteiras decidiram não matar, no versículo 17, não havia nada no horizonte: nenhuma promessa lhes tinha sido feita, ninguém lhes garantira proteção, e o resultado provável da decisão delas era a morte. O que sabiam era o risco. O prêmio não estava disponível para entrar no cálculo, porque não existia ainda.
Um benefício concedido depois não retroage sobre a intenção. Ele muda o desfecho da história, não o motivo do ato.
Mas convém não fechar a questão depressa demais, porque sobra um resíduo. A recompensa concedida no fim ensina a quem lê. Quem conhece este capítulo desde criança nunca decidiu nada sem saber que as parteiras se deram bem — e essa informação está no material com que ele decide. O leitor está numa posição que as próprias parteiras não tinham.
Não vou tirar disso uma regra. Registro apenas que a inocência do ato e a inocência da leitura do ato são coisas diferentes: as duas mulheres agiram no escuro, e nós lemos com a luz acesa.
7. Aplicações Práticas
O versículo tem pouca aplicação direta, e é honesto dizer isso em vez de fabricar seis.
O que se pode aproveitar
Uma coisa: o bem feito no escuro pode não render notícia nenhuma.
As parteiras não foram homenageadas, não foram absolvidas em público, não receberam nada que o palácio pudesse ver. O rei não soube. A cena inteira se encerra sem que ninguém, dentro da história, saiba o que aconteceu de bom com elas.
Quem age assim — sem plateia, sem registro, sem chance de ser reconhecido — costuma se perguntar se aquilo teve alguma consequência. O versículo não promete que terá. Ele apenas informa que, num caso, teve, e que a informação não circulou.
O que não se pode aproveitar
Este versículo não é garantia de retorno. Ele narra o que aconteceu com duas pessoas, e não formula regra sobre o que acontece com quem faz o bem.
A Bíblia tem textos que prometem retribuição e tem textos que registram o contrário — gente correta que se dá mal e não recebe explicação. Usar Êxodo 1:20 para garantir a alguém que a coisa certa sempre compensa é usar um relato como se fosse contrato.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Deus fez bem às parteiras por causa da resposta que elas deram ao rei?
O versículo não diz. Ele afirma a recompensa sem apresentar motivo. O motivo aparece no versículo 21, e o que está escrito lá é “porque temeram a Deus”.
Quem monta a ligação entre o benefício e a frase do versículo 19 está montando algo que o texto não monta. As leituras possíveis daquela cena estão no estudo de Êxodo 1:19.
Por que o crescimento do povo aparece no mesmo versículo?
Não há resposta demonstrável. As explicações que circulam são duas.
A primeira: o texto estaria sugerindo relação de causa — as parteiras preservaram meninos, e o povo cresceu. O problema é que o número de crianças salvas por duas mulheres dificilmente explicaria a demografia de um povo inteiro, e o próprio capítulo já registrara crescimento antes de qualquer parteira aparecer.
A segunda: o texto estaria apenas retomando o fio da narrativa, que é o crescimento de Israel, depois do parêntese sobre as parteiras. É mais econômica e talvez por isso mais plausível — mas continua sendo hipótese.
O fato é que as duas frases estão juntas e o texto não as liga.
Por que Deus não interveio antes?
O texto não explica, e é a pergunta mais legítima que este capítulo produz. Houve trabalho forçado, brutalidade e uma ordem de infanticídio sem que nada fosse dito sobre atuação divina.
Convém não tapar o buraco. Êxodo 2:23-25 dirá que o clamor dos israelitas subiu e que Deus ouviu — o que implica um período longo sem resposta registrada. O silêncio faz parte da narrativa, e não é possível decidir o que ele significa.
Deus fez bem também ao povo, ou só às parteiras?
A frase atribui o ato a Deus só na primeira metade. A segunda diz que o povo se multiplicou, sem sujeito divino explícito.
O leitor que conhece o versículo 7 e o versículo 12 tende a ler o crescimento como obra de Deus, e a Bíblia atribui esse crescimento a ele em outros lugares. Mas aqui, na letra, quem faz bem tem por objeto as parteiras.
As parteiras ficaram seguras depois disso?
O texto não diz. Não há registro de punição nem de proteção. Elas somem da narrativa depois do versículo 21.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma inversão, dentro do capítulo
Êxodo 1:12 — “Mas quanto mais o afligiam, mais ele se multiplicava e mais transbordava; e os egípcios sentiam horror dos filhos de Israel.”
É o mesmo movimento, dito antes e sem Deus na frase: a medida produz o contrário do que pretendia.
O crescimento atribuído a Deus, num salmo
Salmo 105:24 — “E fez crescer muito o seu povo e o fez mais forte do que os seus inimigos.”
É o mesmo episódio relido séculos depois, e a releitura faz o que o Êxodo não faz: põe Deus como sujeito do crescimento, e não apenas da recompensa às parteiras. Vale registrar a diferença entre o relato e a leitura posterior dele.
A retribuição a quem protege
Rute 2:12 — “O SENHOR retribua o seu feito, e seja cheia a sua recompensa da parte do SENHOR, Deus de Israel, sob cujas asas veio buscar refúgio.”
A fórmula da retribuição divina a alguém de fora da comunidade, dita por Boaz a uma moabita. É o vocabulário que o Antigo Testamento usa quando o beneficiário não é quem se esperaria.
1 Samuel 2:30 — “Porque aos que me honram honrarei, mas os que me desprezam serão desprezados.”
O princípio enunciado como regra — o que Êxodo 1:20 não faz. Aqui há doutrina; lá há um caso.
O silêncio que ainda não terminou
Êxodo 2:23-25 — "Muito tempo depois, o rei do Egito morreu. E os filhos de Israel gemiam sob a escravidão e clamavam; e o grito deles subiu a Deus, por causa da escravidão. E Deus ouviu o gemido deles, e Deus se lembrou da sua aliança com Abraão, com Isaque e com Jacó. E Deus viu os filhos de Israel; e Deus soube."
É a próxima notícia de atuação divina no livro, e ela vem depois de “muitos dias”. Entre o benefício às parteiras e este momento há um intervalo longo, que o texto não preenche.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E Deus fez bem às parteiras; e o povo se multiplicou e se tornou muito forte.
Texto hebraico
וַיֵּיטֶב אֱלֹהִים לַמְיַלְּדֹת וַיִּרֶב הָעָם וַיַּעַצְמוּ מְאֹד׃
Transliteração
wayyeitev Elohim lamyalledot; wayyirev ha-am wayya'atsmu meod.
Análise palavra por palavra
וַיֵּיטֶב — wayyeitev, “e fez bem”. Raiz yatav.
A raiz significa ser bom, agradar, estar em ordem. Na forma causativa, que é a deste versículo, o sentido passa a fazer bem, tratar bem, beneficiar — e também fazer algo bem feito, com esmero.
A construção pede a preposição: fazer bem a alguém. É verbo de relação, não de qualidade: não se diz que Deus foi bom, diz-se que ele fez bem a alguém em particular.
Vale ver o campo de uso, porque ele é bem terreno:
— Gênesis 12:16: o faraó daquele episódio “fez bem” a Abrão por causa de Sarai, e o texto lista em seguida ovelhas, bois, jumentos, servos e camelos. O benefício é medido em bens.
— Números 10:29: Moisés diz a Hobabe “vem conosco, e te faremos bem” — a promessa de participação na terra.
— 1 Samuel 25:31: Abigail pede a Davi que se lembre dela quando o SENHOR lhe tiver feito bem.
Em todos, o mesmo desenho: alguém em posição de dar concede algo concreto a alguém em posição de receber. É o verbo do benefício, não o do sentimento.
אֱלֹהִים — Elohim, “Deus”.
Plural de forma, singular de sentido, com o verbo no singular — construção normal do hebraico para o Deus de Israel.
Aqui a palavra vem sem artigo. Nos versículos 17 e 21, quando é objeto do temor das parteiras, ela vem com artigo: ha-Elohim, “o Deus”. A alternância entre as duas formas ocorre em toda a narrativa hebraica e é discutida; não há consenso sobre uma distinção fixa de sentido, e não é possível decidir se aqui ela carrega alguma coisa.
Vale registrar um dado do capítulo inteiro: Êxodo 1 nomeia Deus só assim, três vezes, e nunca pelo nome próprio de quatro letras que dominará o livro a partir do encontro de Moisés na montanha.
לַמְיַלְּדֹת — lamyalledot, “às parteiras”.
A mesma forma do versículo 18, com a preposição exigida pelo verbo. O ofício está tratado no estudo de Gênesis 35:17.
וַיִּרֶב — wayyirev, “e se multiplicou”. Raiz ravah.
Verbo de aumentar, tornar-se numeroso, crescer em quantidade. É um dos verbos da bênção de Gênesis 1:28 — “frutificai e multiplicai-vos” —, e é o segundo dos quatro verbos empilhados em Êxodo 1:7 para descrever o crescimento de Israel no Egito.
O estudo de Êxodo 1:7 trata do conjunto desses verbos, e o de Gênesis 47:27 trata da bênção cumprida no Egito. Aqui basta o dado: a palavra que reaparece é a da bênção.
O sujeito está no singular — ha-am, “o povo”, tratado como corpo único.
הָעָם — ha-am, “o povo”.
Substantivo coletivo. Designa o povo como conjunto de pessoas ligadas por parentesco e origem, e não como população de um território. O que o texto faz com essa palavra, ao aplicá-la aos dois lados do conflito, é assunto do estudo de Êxodo 1:22.
וַיַּעַצְמוּ — wayya'atsmu, “e se tornaram fortes”. Raiz atsam.
A raiz liga-se à palavra hebraica para osso, e daí a ideia: tornar-se robusto, denso, poderoso — força de corpo antes de força de exército.
Repare no sujeito: o verbo está no plural, embora o anterior estivesse no singular com o mesmo “povo”. O texto alterna entre tratar Israel como um corpo e como uma multidão, na mesma frase.
Esta é a raiz do quarto verbo de Êxodo 1:7 e a mesma que o rei devolve no versículo 9, ao dizer que Israel é “mais forte do que nós”. O par pertence ao estudo de Êxodo 1:7. O que interessa aqui é a posição: a palavra do medo do rei reaparece imediatamente depois de uma ação de Deus.
מְאֹד — meod, “muito”.
Advérbio de intensidade, o reforço comum do hebraico. Em Êxodo 1:7 ele aparece duplicado — “muito, muito” —, e aqui vem uma vez só. A força do versículo 7 continua sendo a maior do capítulo.
11. Conclusão
Três conclusões saem do que foi visto.
A primeira é sobre a entrada de Deus no livro. Ela acontece aqui, num meio versículo, sem discurso e sem cena — e o beneficiário não é o povo escravizado, mas duas parteiras. Essa desproporção está no texto e o texto não a explica. Quem a corrige, alegando que Deus já vinha agindo nos bastidores, acrescenta ao capítulo aquilo que ele se recusou a dizer.
A segunda é sobre o que a frase não afirma. Deus fez bem às parteiras; o povo se multiplicou. As duas coisas estão unidas por um “e”, e não por uma relação de causa. E nada aqui vincula o benefício à resposta dada ao rei — a razão da recompensa será enunciada no versículo seguinte, e será outra.
A terceira é sobre o rumo do capítulo. Este versículo é o terceiro relatório de crescimento de Israel, depois do versículo 7 e do versículo 12, e é o que fecha o ciclo da política do rei: trabalho forçado, brutalidade e ordem secreta de matar, e o povo continua aumentando. É esse fracasso acumulado que produz o decreto do versículo 22, e a leitura do fim do capítulo depende de ter visto isto.













