Mas quanto mais o afligiam, mais ele se multiplicava e mais transbordava; e os egípcios sentiam horror dos filhos de Israel.
1. Introdução
O plano falhou, e o versículo diz isso em forma de proporção: quanto mais afligiam, mais crescia.
Não é uma frase sobre o que aconteceu depois. É uma frase sobre o que acontecia junto. Os dois movimentos são simultâneos e ligados um ao outro pela própria construção da língua, e o item 10 mostra como.
Três coisas merecem atenção.
A primeira é que o texto não explica. Não diz que Deus multiplicou o povo, não fala em milagre, não faz comentário nenhum. Enuncia a correlação e cala. Quem quiser a explicação teológica terá de ir buscá-la em outro lugar — e há onde, como o item 9 mostra —, mas terá de dizer que foi buscar.
A segunda é o verbo de transbordar. É a palavra de romper limite, de arrebentar cerca, e ela pertence ao vocabulário das promessas feitas aos patriarcas. O campo dessa raiz já foi percorrido no estudo de Gênesis 30:43; o que interessa aqui é onde ela aparece: como resposta a uma política feita justamente para impedir o crescimento.
A terceira é a última frase, e ela é a que o versículo tem de mais próprio. Os egípcios sentiram por Israel uma coisa só, feita de duas: pavor e repugnância ao mesmo tempo. O hebraico tem um verbo para isso, e ele é raro.
Note-se também quem entra em cena. Até aqui quem agia era o rei, e depois um "eles" sem nome. Agora são "os egípcios" — a população, e não o governo. A política produziu um sentimento na vizinhança.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quando a medida não funciona: o padrão antigo
O capítulo vai mostrar um governo aumentando a dose a cada fracasso: primeiro trabalho forçado, depois servidão com brutalidade, depois a ordem de matar os meninos ao nascer, depois o decreto entregue à população inteira. Este versículo é a dobradiça — o ponto em que a primeira medida é declarada ineficaz.
Vale saber que essa forma de contar — uma autoridade que tenta reduzir uma população, fracassa e escala — tem um antecedente conhecido na literatura da região.
O poema babilônico de Atrahasis ("o excedente em sabedoria", nome do herói — é o relato mesopotâmico da criação da humanidade e do dilúvio) narra exatamente isso, com os deuses no lugar do rei. A humanidade se multiplica; os deuses decidem contê-la; mandam praga; a praga passa e o crescimento continua; mandam seca e fome; também não resolve; enfim mandam o dilúvio. E, depois do dilúvio, tomam a única medida que de fato funciona: em vez de matar os que existem, agem sobre o nascimento — instituem mulheres que não geram, mortalidade de recém-nascidos e esterilidade.
A comparação é útil pela forma, e é preciso ser exato sobre o que ela mostra e o que não mostra.
Mostra que a sequência "medida, fracasso, medida maior, e por fim atacar o nascimento" era um modo antigo e reconhecível de contar como um poder lida com uma população que não para de crescer. É a mesma escada que Êxodo 1 sobe, e o topo dela é o mesmo: os recém-nascidos.
Não mostra dependência de um texto em relação ao outro, e não autoriza dizer que o Êxodo esteja imitando o poema. Os pontos de partida são opostos — lá o crescimento humano é um incômodo para o sono dos deuses, aqui é uma bênção que um rei quer interromper. Aquele poema já foi comparado com a Bíblia, por outro motivo e em outro ponto, no estudo de Gênesis 18:20.
Uma ressalva de método, e ela vale para todo este capítulo: as ordens antigas de matar recém-nascidos, o que se sabe delas e o que é lenda tardia, são assunto do estudo de Êxodo 1:22. Aqui interessa apenas o formato da escalada.
O que a política fez com a vizinhança
Há uma mudança de sujeito neste versículo que pede fundo.
Nos versículos anteriores, quem agia era o Estado: o rei que fala, os chefes que são postos. Aqui aparecem "os egípcios" — a população, sem cargo e sem função.
Isso importa porque as duas coisas não andam necessariamente juntas. Um governo pode adotar uma política contra um grupo sem que a vizinhança a acompanhe, e uma população pode hostilizar um grupo sem que o governo se mexa. O versículo descreve o segundo movimento acontecendo depois do primeiro: primeiro o Estado organizou o trabalho forçado, depois o país inteiro passou a sentir horror daquela gente.
O modo egípcio de separar os seus dos estrangeiros, o vocabulário e as imagens dessa separação foram tratados no estudo de Gênesis 43:32, e não se repetem aqui. O que este versículo acrescenta é de outra ordem, e é o mais desconfortável: a repulsa aparece depois do dano, e não antes dele.
Convém dizer o grau de certeza. O Êxodo não afirma que uma coisa causou a outra — apenas as põe nesta ordem. A leitura de que a hostilidade popular é consequência da política de Estado é do comentarista, e o que a sustenta é a sequência dos versículos, não uma frase do texto.
Um dado que o versículo pressupõe e não enuncia
Para que a frase faça sentido, é preciso que o crescimento fosse visível — que os egípcios pudessem perceber que aquele grupo aumentava apesar de tudo.
Isso é coerente com o que se sabe do trabalho compulsório: as turmas eram convocadas, contadas e registradas, e um contingente que cresce aparece nas listas. O funcionamento desse registro está no estudo de Gênesis 47:18. Não é prova de nada quanto ao episódio; é apenas o que torna a cena inteligível.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas quanto mais o afligiam"
A frase começa com uma construção que o português traduz bem mas explica mal.
O hebraico monta aqui uma proporção: conforme afligiam, assim se multiplicava, e assim transbordava. Não é uma sequência no tempo — primeiro veio a opressão, depois o crescimento. É simultaneidade e é medida: as duas coisas sobem juntas, e uma acompanha a outra.
O verbo de afligir é o mesmo do versículo 11. Lá ele estava no infinitivo, dizendo a finalidade do cargo; aqui está numa forma que indica ação repetida e continuada. Ou seja: não foi um episódio. Era o regime normal das coisas, dia após dia.
E o objeto continua no singular — afligiam a ele. É a quarta vez seguida que o Egito trata Israel como um corpo único: contra ele, sobre ele, afligi-lo, a ele. O item 10 registra a série.
"mais ele se multiplicava e mais transbordava"
Dois verbos, e o segundo é o mais forte.
O primeiro é o da bênção — multiplicar-se —, o mesmo que o rei tinha dito querer impedir no versículo 10. O texto responde à política com a palavra exata da política. O que o Egito se propôs a deter é nomeado, no relato do fracasso, com o termo que o próprio Egito usou.
O segundo verbo não é sinônimo do primeiro. Ele significa romper, arrebentar, abrir brecha: é o que faz a água que vence o dique, o gado que arromba a cerca, a multidão que se derrama para fora. O campo inteiro dessa raiz, com as ocorrências no Gênesis, já foi percorrido no estudo de Gênesis 30:43, e não se refaz aqui.
O que interessa a este versículo é o encaixe. A raiz de transbordar pertence, no Gênesis, ao vocabulário das promessas — é a palavra da bênção dada a Jacó em Betel, sobre espalhar-se para todos os lados. E ela reaparece aqui, sem aviso, para descrever o efeito de uma política de contenção. A cerca foi construída e a palavra que o texto usa é a de arrebentar cerca.
Convém não transformar isso em tese que o texto não sustenta. Não está escrito que a bênção venceu, nem que a opressão a fortaleceu, nem que houve intervenção.
O que o texto não explica
Aqui está o ponto mais importante do versículo, e ele é uma ausência.
O Êxodo não diz por quê. Não afirma que Deus multiplicou o povo. Não fala em milagre, não fala em promessa, não fala em proteção. Não nomeia Deus uma única vez no versículo — e, aliás, não o nomeou ainda em nenhum lugar deste capítulo.
O que está escrito é uma correlação: quanto mais aflição, mais crescimento. Nada mais.
Isso deixa duas leituras em aberto, e as duas são legítimas.
A primeira é teológica, e tem apoio em outros textos: o crescimento é obra de Deus, que sustenta a promessa contra o poder do Egito. O Salmo 105 lê assim, e o próprio Êxodo dirá, no versículo 20 deste capítulo, que Deus fez bem às parteiras e o povo se multiplicou. Quem lê assim está lendo o capítulo inteiro, e não este versículo.
A segunda é sóbria: o texto registra um fato que contraria a expectativa e não o explica, como não explicou o crescimento do versículo 7. Nessa leitura, o silêncio é o próprio método do capítulo — que também não comentará a mentira das parteiras nem julgará o decreto do Nilo.
Não é possível decidir qual das duas o texto pretendia, porque ele não dá elemento para isso. O que se pode afirmar é que a explicação teológica não está aqui — e que dizê-la como se estivesse é acrescentar ao versículo.
"e os egípcios sentiam horror dos filhos de Israel"
A última frase muda o sujeito, e é ela que dá ao versículo o seu peso próprio.
Não é o rei quem sente. Não são os chefes de trabalhos forçados. São "os egípcios" — o povo, a vizinhança, a gente comum que não tem cargo nenhum nesta história.
E o verbo é raro e difícil de traduzir. Ele não significa odiar, e não significa temer. Significa as duas coisas ao mesmo tempo, com um componente físico: é o que se sente diante de algo que ao mesmo tempo assusta e dá nojo. Aparece nove vezes na Bíblia hebraica, e o item 10 traz a lista.
Um detalhe da construção reforça isso. O hebraico não diz "sentiram horror deles"; diz, ao pé da letra, que sentiram horror de diante da face dos filhos de Israel. É a linguagem de quem recua, de quem não quer ter aquilo pela frente.
E há uma inversão que vale registrar. O medo, no versículo 9, tinha sido apresentado como razão da política. Aqui ele aparece de novo — mas agora depois dela, e sentido por gente que não a decidiu. O que era argumento de governo virou sentimento de população.
Sobre a ordem em que as coisas acontecem, o texto é claro e não comenta: primeiro afligiram, depois sentiram horror. Não está escrito que odiavam e por isso oprimiram. Está escrito que oprimiram, e que então tiveram horror. Se há alguma relação de causa entre as duas, o Êxodo não a enuncia — e o item 6 trata do que se pode pensar a respeito.
O nome que volta
Uma última observação, pequena e fácil de perder.
Durante três versículos Israel foi tratado por pronome, no singular: contra ele, sobre ele, a ele. Neste versículo, a última palavra da frase devolve o nome inteiro — os filhos de Israel.
É a primeira vez desde o versículo 9 que o povo é chamado assim. E quem provoca essa volta é o horror dos egípcios: eles não recuam diante de "ele", recuam diante dos filhos de Israel.
O Êxodo não faz nenhum comentário sobre isso, e é preciso dizer que a observação é de leitura. O que ela tem a seu favor é ser verificável na letra do texto.
O que o versículo não diz
Não diz quanto tempo durou. Não diz quantos eram, nem antes nem depois. Não diz que houve resistência, revolta ou fuga. Não diz que Israel percebeu o que estava acontecendo — e Israel continua sem falar. Não diz o que os egípcios fizeram com o horror que sentiram: isso vem no versículo seguinte.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os egípcios
Entram aqui como personagem coletivo, e é a primeira vez no capítulo que aparecem com esse nome. No versículo 9 eles eram "o seu povo", vistos do trono; agora são nomeados por si.
Não têm porta-voz, não dizem nada e não tomam decisão nenhuma neste versículo. O que se registra deles é um sentimento.
Eles voltarão no versículo 13, agora como sujeito de um verbo de ação — escravizar —, e reaparecerão no versículo 22 como destinatários da ordem de jogar os meninos no rio.
Os filhos de Israel
Recuperam o nome inteiro no fim da frase, depois de três versículos em que foram tratados por pronome no singular.
Continuam sem falar, sem agir por decisão própria e sem nenhum indivíduo destacado. No capítulo inteiro, o lado hebreu só ganhará rosto no versículo 15, com duas parteiras.
Quem não aparece
O rei não é mencionado. Depois de dominar os versículos 8, 9 e 10, ele desaparece do texto e só volta no versículo 15, para falar às parteiras.
Os chefes de trabalhos forçados também somem. Foram nomeados no versículo anterior e não são citados de novo.
E Deus não é nomeado. A primeira menção a ele no livro do Êxodo virá no versículo 17, a respeito das parteiras.
O evento
Não há propriamente um acontecimento neste versículo: há um estado de coisas que se prolonga. Aflição contínua de um lado, crescimento contínuo do outro, e um sentimento que se instala no meio.
É o versículo em que o capítulo informa que a primeira medida fracassou — e é do fracasso dela que sairá tudo o que vem depois.
5. Pontos de Ensino
1. O fracasso da medida é enunciado como proporção, não como episódio. O texto não diz que a opressão foi tentada e não deu certo. Diz que, na medida em que oprimiam, na mesma medida o povo crescia. As duas curvas sobem juntas, e é essa simultaneidade que o hebraico constrói.
2. O texto não explica o crescimento. Não há milagre, não há intervenção, não há sequer menção a Deus — que ainda não foi nomeado no capítulo. Quem quiser a explicação teológica precisa ir buscá-la em outros textos e dizer que foi buscar.
3. A política é derrotada pela própria palavra que usou. O rei disse que queria impedir a multiplicação. O relato do fracasso emprega exatamente esse verbo. O Êxodo não sublinha a ironia, e ela está no vocabulário.
4. A repulsa vem depois do dano. Primeiro afligiram; depois sentiram horror. Essa é a ordem no texto, e ela contraria a suposição comum de que a hostilidade precede a violência. Vale reparar nisso antes de aceitar qualquer explicação que comece pelo ódio.
5. Quem sente o horror não é quem decidiu a política. São os egípcios, a população. O governo formulou; o país passou a sentir. As duas coisas são distintas e o versículo as separa.
6. O verbo do horror junta medo e nojo. Não é ódio, não é desprezo, não é só temor. É a reação diante do que assusta e repugna ao mesmo tempo — e é a palavra que a Bíblia usa quando Rebeca fala das mulheres hititas e quando Moabe olha para Israel no deserto.
7. O nome volta na boca de quem recua. Depois de três versículos tratado como "ele", o povo é chamado de novo pelo nome inteiro — e é o horror dos egípcios que o traz de volta ao texto.
6. Aspectos Filosóficos
Há uma inversão neste versículo que merece ser pensada com calma, porque ela contraria o modo como quase sempre explicamos a violência.
A explicação habitual tem esta ordem: primeiro alguém odeia um grupo, depois faz mal a ele. O ódio é a causa; o dano é a consequência. É assim que se conta, e é assim que se ensina a evitar — combatendo o ódio para impedir o dano.
O versículo põe na ordem inversa. Afligiram, e então tiveram horror.
É possível que seja apenas coincidência de sequência, e o texto não afirma relação de causa. Mas a ordem está lá, e ela descreve algo que se observa: é mais fácil detestar quem já se prejudicou do que prejudicar quem já se detesta.
O mecanismo não é misterioso. Quem faz mal a alguém precisa conviver com o que fez. Há duas saídas: reconhecer que agiu mal, o que é caro e obriga a mudar; ou concluir que a outra parte merecia, o que é barato e não obriga a nada. A segunda saída exige que a vítima seja, de algum modo, repulsiva — e o sentimento aparece para preencher essa exigência.
O verbo que o versículo usa é preciso para esse fenômeno, e é por isso que ele importa. Não é ódio raciocinado, com acusação e argumento. É repulsa física misturada com medo — o tipo de reação que não se justifica, porque se apresenta como evidência imediata. Quem sente não precisa explicar: já sente como se soubesse.
Há ainda um segundo elemento no versículo, e ele reforça o primeiro. O que os egípcios veem é um povo que cresce apesar de tudo o que lhe é feito. Isso é assustador de um jeito particular: significa que a coisa não está sob controle. E não estar sob controle, para quem já apostou na medida, empurra para a medida seguinte — que é onde o capítulo vai.
Um limite, porque o texto não teoriza. O Êxodo escreve duas orações e não liga uma à outra por causa. O que está acima é leitura, apoiada só na ordem em que as coisas foram postas — e, se essa ordem for casual, a leitura cai. Vale registrá-la assim mesmo, porque a ordem casual não é a mais provável, e porque poucos versículos da Bíblia mostram tão de perto o momento em que a violência começa a produzir a sua própria justificativa.
7. Aplicações Práticas
A justificativa que aparece depois
A aplicação mais útil deste versículo é para uso interno, e é desconfortável.
Quando alguém descobre que não gosta de uma pessoa, a explicação que vem à cabeça é sempre sobre a pessoa: ela é assim, ela fez aquilo, ela tem tal defeito. Raramente vem a pergunta inversa, que é a que este versículo sugere: eu fiz alguma coisa a essa pessoa antes de passar a não gostar dela?
Vale fazer a pergunta em ordem cronológica, com honestidade. Houve uma promessa não cumprida, uma dívida, um favor negado, uma injustiça pequena? Se houve, existe a possibilidade real de que a antipatia não seja a causa do que aconteceu, e sim o efeito.
Não é uma regra universal, e não se aplica a todos os casos — há gente de quem se não gosta por motivos inteiramente independentes. O que a pergunta faz é impedir que a resposta fácil seja a única testada.
Insistir no que não está funcionando
A segunda aplicação é sobre método, e serve para trabalho, criação de filhos e qualquer relação continuada.
O versículo mostra uma medida aplicada e um resultado contrário ao pretendido. O que o Egito faz em seguida — e o capítulo inteiro é a resposta — é aumentar a dose.
É a reação mais comum diante de um método que falha, e a razão é simples: reconhecer que o método está errado obriga a abandonar tudo o que já se investiu nele. Aumentar a dose, ao contrário, preserva a decisão original e ainda parece firmeza.
O sinal de alerta é este: se a medida vem sendo intensificada há tempo e o resultado continua indo na direção oposta, o problema não é de intensidade. Mais do mesmo, aqui, é a única coisa que certamente não vai funcionar.
Um cuidado importante
Este versículo não ensina que a opressão fortalece quem a sofre, e não deve ser usado assim. A leitura de que o sofrimento faz bem, de que a perseguição fortalece a fé ou de que a dificuldade é boa para o caráter não sai daqui — e, usada diante de quem está sendo esmagado, é crueldade com aparência de consolo.
O que o texto diz é que aquele povo cresceu enquanto era afligido. Não diz que cresceu porque era afligido, e não diz que a aflição foi boa para alguma coisa. No versículo seguinte, o resultado dessa mesma sequência é mais brutalidade.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O texto diz que Deus fez o povo crescer?
Não. Deus não é nomeado neste versículo nem em nenhum outro do capítulo até aqui. O que está escrito é a correlação entre aflição e crescimento, sem causa declarada. Outros textos bíblicos atribuem o crescimento a Deus, e o item 9 traz um deles — mas trazem de fora.
A opressão fortaleceu Israel?
O texto não afirma isso. Ele diz que as duas coisas aconteciam ao mesmo tempo e na mesma proporção, o que é diferente de dizer que uma causava a outra. A leitura de que o sofrimento fortalece não tem apoio nesta frase, e o versículo seguinte mostra a que a sequência levou: mais brutalidade.
Por que os egípcios sentiram horror se eram eles que oprimiam?
O texto não explica. Registra as duas coisas nessa ordem: primeiro a aflição, depois o horror. O item 6 examina o que se pode pensar a respeito, deixando claro que é leitura do comentarista e não afirmação do Êxodo.
"Horror" é uma boa tradução?
É defensável, e nenhuma palavra portuguesa cobre exatamente o hebraico. O verbo junta medo e repugnância, com um componente quase físico. Traduções por "aborreceram-se", "detestavam" ou "tinham aversão" pegam metade; "temiam" pega a outra metade. A versão ABC escolheu "sentiam horror" por ser o que mais se aproxima das duas coisas juntas.
Quem são "os egípcios" aqui?
A população, e não o governo. É uma mudança de sujeito importante: os versículos anteriores tratavam do rei e dos funcionários. Este trata do país. O texto não diz se todos, se muitos, nem em que região.
Israel sabia que estava crescendo apesar da opressão?
O texto não diz. Israel não fala uma vez sequer neste capítulo, e nenhuma percepção lhe é atribuída. Tudo o que se sabe do lado hebreu, até aqui, é o que se vê de fora.
Quanto tempo dura este versículo?
Não se informa. As formas verbais indicam ação repetida e continuada — era assim que as coisas iam —, e não um episódio datável. Como o versículo 7, este cobre um período que o Êxodo não mede.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma frase, palavra por palavra, séculos depois
Números 22:3 — "E Moabe teve muito medo daquele povo, porque era numeroso; e Moabe teve horror dos filhos de Israel."
O paralelo é literal: o mesmo verbo raro, a mesma preposição de recuo e o mesmo complemento — os filhos de Israel. Ali é um rei de Moabe olhando para o povo que saiu do Egito; aqui é o Egito olhando para o povo que ainda não saiu. As duas cenas usam a mesma construção hebraica.
O mesmo verbo na boca de Rebeca
Gênesis 27:46 — "E disse Rebeca a Isaque: Estou enjoada da minha vida por causa das filhas de Hete. Se Jacó tomar mulher entre as filhas de Hete, como estas, das filhas desta terra, para que me servirá a vida?"
É a primeira ocorrência do verbo na Bíblia, e o estudo daquele versículo trata do campo semântico dele. Serve aqui para mostrar a força da palavra: ela é usada por alguém que diz preferir morrer.
A palavra de transbordar, na promessa
Gênesis 28:14 — "E a sua descendência será como o pó da terra, e você se espalhará para o ocidente, para o oriente, para o norte e para o sul; e em você e na sua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra."
O verbo de romper limite aparece ali como promessa feita a Jacó em Betel. O percurso completo dessa raiz está no estudo de Gênesis 30:43; a coincidência com este versículo é de vocabulário, e o Êxodo não a comenta.
O que a política queria impedir
Êxodo 1:10 — "Vamos agir com astúcia contra ele, para que não se multiplique mais..."
O verbo que o rei usou para dizer o que queria evitar é o mesmo que o texto usa para dizer o que aconteceu. A frase do fracasso é feita com a palavra do plano.
O mesmo resultado, no fim do capítulo
Êxodo 1:20 — "E Deus fez bem às parteiras; e o povo se multiplicou e se tornou muito forte."
Ali, e não aqui, o crescimento é ligado a uma ação de Deus. A diferença entre os dois versículos é exatamente essa, e ela é do texto.
A leitura do salmo
Salmo 105:24-25 — "E fez crescer muito o seu povo, e o tornou mais forte do que os seus adversários. Mudou-lhes o coração, para que odiassem o seu povo e tratassem com astúcia os seus servos."
O salmo faz as duas ligações que o Êxodo não faz: atribui o crescimento a Deus e atribui a ele também a mudança do coração egípcio. É leitura posterior, e é uma leitura pesada — a segunda metade dela levanta problemas que o próprio salmo não discute.
A confissão litúrgica
Deuteronômio 26:5-6 — "Meu pai era um arameu prestes a perecer; desceu ao Egito e ali morou como estrangeiro, com pouca gente, e ali se tornou uma nação grande, forte e numerosa. Mas os egípcios nos maltrataram, e nos afligiram, e nos impuseram uma dura servidão."
A ordem é a mesma deste versículo: primeiro o crescimento, depois a aflição. E o verbo de afligir é o de Êxodo 1:11 e 1:12.
Um rei que sentiu o mesmo por Israel
1 Reis 11:25 — "E foi adversário de Israel todos os dias de Salomão... e teve horror de Israel, e reinou sobre a Síria."
Uma das nove ocorrências do verbo, aqui aplicada a um rei estrangeiro em relação a Israel — a mesma combinação deste versículo e da cena de Moabe.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Mas quanto mais o afligiam, mais ele se multiplicava e mais transbordava; e os egípcios sentiam horror dos filhos de Israel.
Texto hebraico
וְכַאֲשֶׁר֙ יְעַנּ֣וּ אֹת֔וֹ כֵּ֥ן יִרְבֶּ֖ה וְכֵ֣ן יִפְרֹ֑ץ וַיָּקֻ֕צוּ מִפְּנֵ֖י בְּנֵ֥י יִשְׂרָאֵֽל׃
Transliteração
ve-kha'ashér ye'annú otó ken yirbé ve-khén yifróts vayyaqútsu mippenéi benéi Yisraél
Análise palavra por palavra
וְכַאֲשֶׁר · ve-kha'ashér — "e conforme"
É a partícula relativa precedida da preposição de comparação. Junto com o ken que virá adiante, ela forma uma construção de proporção: conforme isto, assim aquilo.
Vale insistir, porque a tradução em português desfaz a estrutura. Não se trata de "e depois que os afligiram, eles cresceram". Trata-se de uma correspondência: na medida em que uma coisa acontecia, na mesma medida acontecia a outra.
E a correspondência é dupla, porque o ken aparece duas vezes: assim se multiplicava, e assim transbordava. Um lado da balança, dois do outro.
יְעַנּוּ אֹתוֹ · ye'annú otó — "afligiam-no"
Verbo anah no Piel — a conjugação intensiva —, imperfeito, terceira pessoa masculina do plural. É a mesma raiz do infinitivo do versículo 11, onde ela expressava a finalidade do cargo.
A forma importa. O imperfeito, nesta construção, descreve ação repetida ou habitual no passado: iam afligindo, afligiam continuamente. Não é um acontecimento; é um regime.
O sujeito é plural e não está expresso — "eles", os egípcios, que só serão nomeados no fim do versículo.
Otó é a marca de objeto direto com sufixo de terceira pessoa masculina do singular: a ele. Fecha a série que vem do versículo 10 — lo (contra ele), aláv (sobre ele), annotó (afligi-lo), otó (a ele). Quatro pronomes singulares seguidos, todos remetendo a "o povo" do versículo 9. A tradução ABC verte por plural porque em português o singular não funcionaria.
כֵּן יִרְבֶּה · ken yirbé — "assim se multiplicava"
Ken é o advérbio "assim", que responde ao "conforme" da primeira parte.
Yirbé é do verbo ravah, no Qal, imperfeito, terceira pessoa masculina do singular. É a mesma forma exata que o rei usou no versículo 10 ao dizer o que queria impedir. A frase do fracasso repete, letra por letra, a palavra do plano.
O singular concorda com o mesmo sujeito de sempre: o povo, tratado como um corpo.
וְכֵן יִפְרֹץ · ve-khén yifróts — "e assim transbordava"
Segunda metade da resposta, com o mesmo advérbio.
Yifróts é do verbo parats, no Qal, imperfeito, terceira pessoa masculina do singular. O sentido básico da raiz não é crescer: é romper, arrebentar, abrir brecha. É o verbo da muralha que cede e da água que vence o dique. O campo semântico completo, com as ocorrências no Gênesis e o parentesco com o nome de Perez, foi tratado no estudo de Gênesis 30:43.
O que cabe registrar aqui é a diferença entre os dois verbos. O primeiro é quantitativo: ficar mais numeroso. O segundo é espacial e violento: extravasar, passar por cima do limite. Postos lado a lado, eles dizem que o povo não apenas aumentou — saiu do lugar em que se pretendia contê-lo.
Note-se que a raiz de romper é a mesma que a Bíblia usa na promessa feita a Jacó em Betel. Não se conclui nada disso; registra-se, porque é o mesmo verbo.
וַיָּקֻצוּ · vayyaqútsu — "e sentiram horror"
Esta é a palavra mais difícil do versículo.
Raiz quts. Qal, forma encadeada da narrativa, terceira pessoa masculina do plural. O sujeito são os egípcios, nomeados logo adiante — o hebraico antecipa o verbo.
O sentido reúne duas coisas que o português separa: pavor e repugnância. Não é o verbo de odiar, que seria sane; não é o verbo de temer, que seria yare. É a reação diante do que assusta e enoja ao mesmo tempo, com um componente corporal — algo próximo do que se sente ao recuar diante de uma coisa que dá calafrio.
O verbo é raro: nove ocorrências em toda a Bíblia hebraica. São elas, e a lista ajuda a calibrar a força da palavra:
Gênesis 27:46, Rebeca dizendo estar enjoada da vida por causa das mulheres hititas; Êxodo 1:12, este versículo; Levítico 20:23, Deus dizendo que se enojou das nações que expulsou; Números 21:5, o povo dizendo que a sua alma tem nojo do maná; Números 22:3, Moabe diante dos filhos de Israel; 1 Reis 11:25, um rei estrangeiro em relação a Israel; Provérbios 3:11, a advertência de não se enojar da repreensão do SENHOR; e Isaías 7:6 e 7:16, no oráculo sobre os dois reis.
São nove usos, e em quase todos a palavra descreve uma rejeição que a pessoa sente como evidente e não precisa justificar.
Uma nota de léxico, com o grau de certeza devido: alguns dicionários aproximam esta raiz da palavra hebraica para espinho, sugerindo que a imagem de origem seria a de sentir-se espetado. É hipótese etimológica, plausível e não demonstrável, e nada do que se disse acima depende dela.
Convém registrar ainda que existem, no hebraico, outras raízes escritas com as mesmas consoantes — uma delas ligada a despertar, outra ao verão. Não têm relação com esta.
מִפְּנֵי · mippenéi — "de diante de"
Preposição composta: min, "de", mais panim, "face", no construto. Ao pé da letra, "de diante da face de".
É uma preposição de afastamento. Ela aparece com verbos de fugir, de esconder-se, de recuar. Aqui ela dá ao horror um movimento: não é apenas um sentimento interno, é um recuo diante de alguém que se tem pela frente.
A mesma combinação — este verbo com esta preposição, seguida do nome dos filhos de Israel — reaparece em Números 22:3, na cena de Moabe. As duas frases são praticamente idênticas em hebraico, e o item 9 traz o texto.
בְּנֵי יִשְׂרָאֵל · benéi Yisraél — "os filhos de Israel"
O nome completo, pela primeira vez desde o versículo 9. Depois de quatro pronomes no singular, o texto devolve a expressão inteira, e ela vem na última posição da frase — o lugar de ênfase no hebraico.
Quem provoca essa volta é o horror dos egípcios. É diante dos filhos de Israel que eles recuam.
Nota — a simetria da frase
O versículo tem duas metades e elas se espelham. Na primeira, os egípcios agem e Israel cresce; na segunda, os egípcios sentem e Israel apenas está ali.
São seis verbos ao todo, e vale notar quem é sujeito de quê. Afligir é dos egípcios. Multiplicar-se e transbordar são de Israel. Sentir horror é dos egípcios de novo. Israel não faz nada que possa ser chamado de ação: ele cresce, o que não se decide.
E não há verbo com Deus por sujeito. Nenhum, em todo o versículo — como não houve em nenhum versículo do capítulo até aqui.
11. Conclusão
Do que foi examinado, algumas conclusões se sustentam.
Primeira: o versículo enuncia uma proporção, não uma sequência. A construção hebraica amarra as duas coisas na mesma medida — conforme afligiam, assim crescia. A primeira medida do Egito não falhou depois de algum tempo: ela falhava enquanto era aplicada.
Segunda: o texto registra o fato e recusa a explicação. Não há milagre, não há intervenção, não há menção a Deus — que ainda não foi nomeado neste capítulo. A leitura teológica é possível, tem apoio em outros textos e não está aqui. Dizê-la como se estivesse é acrescentar.
Terceira: a palavra do plano é a palavra do fracasso. O rei disse querer impedir que o povo se multiplicasse, e o relato usa exatamente essa forma verbal para dizer o que aconteceu. Ao lado dela, o texto põe um segundo verbo, mais forte, que é o de arrebentar limite.
Quarta: a repulsa dos egípcios vem depois da aflição, não antes. Essa é a ordem no texto, e ela é o achado mais desconfortável do versículo. O Êxodo não estabelece relação de causa entre uma coisa e outra; apenas as escreve nessa ordem, e a ordem é verificável.
Quinta: quem sente o horror é a população, e não o governo. O rei e os chefes de trabalhos forçados desaparecem do versículo. Quem aparece são "os egípcios" — e é a primeira vez no capítulo que o país, e não o Estado, tem um sentimento atribuído.
Sexta: o verbo escolhido junta medo e nojo, e é raro. Nove ocorrências em toda a Bíblia hebraica, e uma delas repete esta frase quase palavra por palavra, com Moabe no lugar do Egito. Traduzir por "odiavam" ou por "temiam" perde metade da palavra em cada caso.
Sétima: é do fracasso desta medida que nasce a próxima. O versículo seguinte não recua nem muda de método: aumenta a dose, e acrescenta ao relato a palavra da escravidão e a da brutalidade. O capítulo sobe por degraus, e este versículo é o patamar entre os dois primeiros.













