Vamos agir com astúcia contra ele, para que não se multiplique mais e, se vier uma guerra, não se junte aos nossos inimigos, lute contra nós e suba desta terra.”
1. Introdução
O rei acabou de dizer o que vê. Agora diz o que pretende fazer, e o versículo é inteiro um plano.
Ele tem quatro partes: uma proposta — vamos agir com astúcia —, um objetivo — que não se multipliquem —, um cenário de risco — se vier guerra, eles se juntarão ao inimigo — e um desfecho temido: que subam desta terra.
Três coisas chamam a atenção logo à primeira leitura.
A primeira é que nada disso aconteceu. Não há guerra, não há aliança, não há sinal de deslealdade. O rei descreve um futuro possível e age contra ele.
A segunda é a palavra "astúcia". O hebraico usa aqui, torcida numa forma reflexiva, a raiz da sabedoria — a mesma que o Egito considerava a maior das virtudes de um governante. O item 10 mostra como a torção é feita.
A terceira é a incoerência, e ela é o achado deste versículo. O rei teme que Israel vá embora. A solução que ele aplica, no versículo seguinte, é prendê-lo no país com trabalho forçado. Se o medo é que saiam, escravizar não resolve — agrava.
O Êxodo não explica a contradição, não a comenta e não a conserta. Leitores antigos tentaram resolvê-la, e o item 3 apresenta a saída mais conhecida, sem adotá-la.
Há ainda um detalhe que só faz sentido no livro inteiro: "subir desta terra" é o verbo que vai dar nome à saída do Egito. Ele aparece pela primeira vez aqui, na boca do inimigo, como aquilo que precisa ser impedido.
2. Contexto Histórico e Cultural
A guerra que o rei imagina
O plano se apoia num cenário: se vier uma guerra. Vale entender que guerra é essa, porque o cenário não é abstrato.
O Egito do segundo milênio antes da era comum guerreava sobretudo para o lado asiático — Canaã, a costa levantina, a Síria. As campanhas saíam do Delta e voltavam ao Delta. O que estava em jogo nessas expedições não era o território egípcio propriamente dito, e sim o controle dos caminhos, dos portos e dos pequenos reinos vassalos que os egípcios queriam manter alinhados.
Isso põe o Delta oriental numa posição específica: ele não é o campo de batalha, é o corredor. Por ali passam as tropas na ida, os suprimentos durante e os prisioneiros na volta. A linha de fortes que guardava essa passagem e as fontes que a documentam foram tratadas no estudo de Gênesis 42:9.
Uma população estrangeira grande, instalada justamente nesse corredor, não é um problema militar de frente. É um problema de retaguarda — e é essa a preocupação que a fala do rei descreve.
O que o Egito costumava fazer com estrangeiros: recrutá-los
Aqui está o dado de fundo que torna o plano do rei notável, e ele é bem documentado.
O Egito não tratava a presença de estrangeiros como ameaça a eliminar. Tratava-a como recurso a incorporar, e a via preferencial de incorporação era o exército.
Os medjai, grupos vindos dos desertos ao sul, aparecem em serviço egípcio como batedores, infantaria leve e policiamento interno desde o Império Médio. Os xardana, guerreiros capturados em confrontos no Mediterrâneo, foram enquadrados como tropa de elite: inscrições ramessidas os designam com uma fórmula que os apresenta como prisioneiros do rei, e ainda assim eles guardavam a pessoa dele. Grupos líbios derrotados foram instalados como colonos militares, e séculos depois uma dinastia inteira reinaria no Egito reivindicando essa origem.
Ou seja: quando um Estado egípcio se via diante de um contingente estrangeiro numeroso, a resposta habitual e documentada era vesti-lo de soldado. Isso resolvia dois problemas de uma vez — tirava o grupo da condição de ameaça e o punha a serviço.
O rei deste versículo não faz nada disso. Ele decide o contrário: não armar, e sim imobilizar. O Êxodo não comenta a escolha, e não há como saber se quem escreveu tinha em vista a alternativa. O que se pode registrar é que ela existia e era comum.
Gente vale, e por isso o medo de perdê-la
Falta um elemento para que o raciocínio do rei fique inteligível, e é econômico.
Numa economia agrária e de grandes obras, população é riqueza. Braços aravam, cavavam canal, moldavam tijolo e carregavam pedra; e as guerras egípcias traziam prisioneiros justamente porque prisioneiro é mão de obra. Perder um contingente inteiro não era alívio: era prejuízo.
Isso explica por que a última linha do plano — que eles subam desta terra — está na lista dos males a evitar, e não na dos remédios possíveis. Deixar que fossem embora seria a solução mais simples para o problema de segurança, e o rei não a considera nem por um instante.
O próprio Êxodo confirmará esse cálculo mais adiante, quando o rei, já tendo deixado o povo partir, se arrepende com uma frase que não fala de segurança nenhuma e fala de trabalho perdido. O item 9 traz a passagem.
3. Análise Teológica do Versículo
"Vamos agir com astúcia contra ele"
A frase começa com uma convocação. O verbo que abre não é bem um verbo: é uma palavra de exortação, algo como "venham", "preparem-se", usada quando se propõe uma ação conjunta. Rashi (rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido) observa que ela indica preparação — disponham-se a isto.
Essa mesma palavra abre, no Gênesis, a proposta de construir a torre em Gênesis 11:4. É a fórmula de quem inaugura um projeto coletivo, e o item 9 traz a comparação.
O que vem depois é a palavra difícil. Em hebraico, ela é feita da raiz de sabedoria, posta numa forma que volta a ação sobre quem age. Não é "sejamos sábios"; é algo como "usemos nossa esperteza a respeito dele". A língua tem um verbo próprio para enganar, e não é este.
Comentaristas registraram a nuance sem hesitar. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) falaram em astúcia política, sabedoria mundana misturada com esperteza; a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) traduziu por lidar com sutileza, marcando o sentido moral negativo.
Vale reparar no que isso faz com a palavra "sabedoria". No Egito, ser sábio era a maior qualificação de quem governa — os textos de ensinamento egípcios, tratados nos estudos de Gênesis 41:8 e Gênesis 41:33, giram em torno disso. Aqui a virtude aparece com o sinal trocado. É a mesma raiz; o que muda é a direção em que ela é aplicada.
E há um detalhe gramatical com peso. O rei diz "contra ele", no singular. Israel não é tratado como um monte de gente: é tratado como um sujeito só, um corpo. Esse singular vai atravessar todo o trecho — no versículo 11 os capatazes são postos "sobre ele", no versículo 12 é "a ele" que afligem. O Egito, ao decidir agir, transforma o povo em uma coisa única com que se lida.
Uma leitura antiga merece registro, ainda que este estudo não a adote. Rabinos citados por Rashi entenderam que o "ele" do "contra ele" não é Israel, e sim o Deus que os protege: astuciemo-nos contra quem os salva, escolhendo a água, porque ele jurou não trazer outro dilúvio. É leitura de tradição, não do texto; está registrada aqui porque é antiga, influente e mostra que a estranheza do singular foi percebida cedo.
"para que não se multiplique mais"
Aqui o rei diz o objetivo, e ele é limitado: impedir o crescimento.
Note-se que o verbo é o mesmo da bênção — multiplicar-se. O que o Egito se propõe a interromper, no vocabulário do próprio texto, é aquilo que o versículo 7 tinha registrado como a coisa que aconteceu. A política tem alvo declarado, e o alvo é uma palavra do Gênesis.
Repare no que não é o objetivo. Não é expulsar, não é converter, não é assimilar, não é punir. É deter um processo. É uma meta demográfica, formulada como tal.
"e, se vier uma guerra, não se junte aos nossos inimigos, lute contra nós"
Esta é a parte hipotética, e ela precisa ser lida com atenção ao número de condições que empilha.
Primeiro é preciso que venha uma guerra. Depois, que Israel escolha um lado. Depois, que escolha o lado de fora. Depois, que efetivamente combata. São quatro degraus, e nenhum deles aconteceu, está acontecendo ou tem indício registrado.
E há uma ausência que vale sublinhar: o texto não relata nenhum ato de deslealdade. Não há revolta, não há espionagem, não há recusa de serviço, não há sequer uma queixa. O rei não está reagindo a um comportamento; está antecipando um.
Sobre a expressão "nossos inimigos", o hebraico diz literalmente "os que nos odeiam". O item 10 trata da palavra. O que interessa aqui é que ela também é indefinida — não se nomeia inimigo nenhum, nem se diz que exista algum no momento.
Portanto, o que o rei apresenta ao seu povo como fundamento de uma política de Estado é: um grupo que cresceu, uma guerra que não existe, um inimigo que não é nomeado e uma traição que não ocorreu.
"e suba desta terra"
É a última coisa temida da lista, e é a que não fecha.
Lida diretamente, a frase diz: e então eles vão embora do Egito. Comentaristas leram assim desde sempre — a Geneva Bible ("Bíblia de Genebra", tradução inglesa do século XVI com notas) anota que eles subiriam para Canaã, e o Egito perderia o proveito que tirava deles.
E é aqui que a lógica do rei se desmancha.
Se o problema final é que o povo saia do país, escravizá-lo não é solução — é motivo. Um grupo bem instalado tem pouca razão para partir; um grupo submetido a trabalho forçado tem todas. A medida que o versículo 11 vai descrever aumenta exatamente o risco que este versículo declara temer.
O Êxodo não repara nisso. Não há ironia, não há comentário, não há personagem que aponte a falha. O texto expõe o raciocínio inteiro e passa à execução dele.
Leitores antigos, que também notaram o problema, propuseram uma saída, e ela merece ser conhecida. Na tradição rabínica recolhida no tratado Sotá — e citada por Rashi —, a frase seria um modo de falar de quem lança sobre outro a desgraça que teme para si: o que o rei quer dizer, sem dizer, é "e nós é que subiremos desta terra", isto é, seremos nós os expulsos, e eles ficarão com o país. Nessa leitura não há incoerência nenhuma: o medo declarado seria perder o Egito, não perder a mão de obra.
É uma solução engenhosa, é antiga, e é preciso dizer que é solução — não está no texto. O hebraico não a exige, e a leitura direta continua sendo possível. Não é possível decidir entre as duas, e este estudo não decide.
O que se registra é isto: ou o rei teme perder braços e toma uma medida que empurra os braços para fora, ou ele teme perder o país e diz isso ao contrário. O texto sustenta as duas leituras e não escolhe nenhuma.
O verbo que dará nome ao livro
Uma observação de vocabulário, que vale para tudo o que vem depois.
"Subir" é como a Bíblia diz sair do Egito. Deus dirá a Moisés que veio para fazer Israel subir daquela terra; o povo dirá, no deserto, que foi feito subir do Egito; o verbo se torna quase técnico para esse acontecimento.
A primeira vez que ele aparece com esse sentido no livro é aqui — e está na boca do rei, no meio de uma lista de coisas a impedir. O Êxodo não assinala o detalhe. Ele existe, é verificável, e é o tipo de coisa que só se vê lendo o livro do começo ao fim.
O que o versículo não diz
Não diz em que consiste a astúcia proposta — isso vem no versículo seguinte, e o leitor descobre junto com o povo. Não diz que houve deliberação, debate ou aprovação. Não diz que alguém discordou. Não invoca deus nenhum, não cita lei nenhuma, não menciona precedente. E não diz uma palavra sobre o que Israel havia feito, porque não havia nada a dizer.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O rei, agora como legislador
No versículo anterior ele descreveu; aqui ele propõe. É a única fala do capítulo em que o rei apresenta um raciocínio completo, com premissa, risco e objetivo.
Continua sem nome, sem corte e sem conselheiros nomeados. E, a partir do versículo seguinte, deixará de ser o sujeito dos verbos: quem porá os capatazes será um "eles" que o texto não identifica.
Os inimigos que não são nomeados
O plano menciona "os que nos odeiam", e nenhum deles tem nome, povo ou direção. Não se diz se vêm do norte, do sul ou do mar.
Isso é notável num livro que sabe nomear povos: o Gênesis nomeia hititas, filisteus, amorreus, midianitas. Aqui o inimigo é uma categoria vazia, e é justamente por ser vazia que ela serve ao argumento — qualquer guerra futura confirma a previsão.
A guerra
Não existe. É uma hipótese dentro de um discurso, e o Êxodo não registra nenhuma guerra do Egito nem antes nem depois deste capítulo. O conflito que o livro vai narrar é de outro tipo inteiramente, e será entre o rei e Deus.
"Esta terra"
O Egito, dito pela boca de quem o governa. É a segunda vez no capítulo que a palavra "terra" aparece: no versículo 7 ela é o que se encheu de israelitas, aqui é o lugar de onde eles poderiam subir.
A mesma palavra hebraica servirá, no livro inteiro, para a terra de onde se sai e para a terra aonde se vai.
O evento
Uma decisão de governo, anunciada e não descrita. O versículo é a fronteira entre a percepção e a política: antes dele há um rei que acha; depois dele, um Estado que age.
5. Pontos de Ensino
1. A política nasce de um cenário, não de um fato. Nada do que o rei teme aconteceu. Ele descreve uma sequência de coisas possíveis e trata a sequência como se fosse informação. Vale reparar em quantas condições precisam ser satisfeitas para que a previsão se cumpra, e em quantas delas ele simplesmente presume.
2. A palavra "sabedoria" pode ser usada torta. O hebraico não trocou de raiz para dizer astúcia: torceu a raiz da sabedoria. Isso é uma lição de leitura e uma lição de linguagem — a mesma qualidade que faz um bom governante é a que produz um plano como este, e a diferença está no uso, não na palavra.
3. O alvo declarado é o crescimento, e o crescimento era a bênção. O rei diz, com todas as letras, que quer impedir a multiplicação. Ele não sabe que está descrevendo o vocabulário da promessa; o leitor sabe. É um dos poucos lugares em que o Êxodo permite essa distância entre o que o personagem diz e o que o leitor ouve.
4. Um plano pode ser eficaz e incoerente ao mesmo tempo. A medida que virá funciona como opressão e não funciona como solução para o medo declarado. As duas coisas são verdadeiras juntas, e o texto não escolhe entre elas.
5. O inimigo genérico é um recurso, não um descuido. Não nomear a ameaça faz com que qualquer coisa que aconteça no futuro sirva de confirmação. Quem argumenta assim nunca é desmentido pelos fatos.
6. Ninguém responde. O rei fala ao seu povo, propõe uma política contra um grupo que vive ali há gerações, e o texto não registra uma única objeção. A ausência de contraditório é parte do que o capítulo mostra.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo apresenta um caso limpo de um problema que não tem solução conhecida: como avaliar uma medida tomada contra algo que ainda não aconteceu.
A dificuldade é de estrutura, não de má-fé. Se a política for aplicada e o mal previsto não ocorrer, quem a defendeu dirá que ela funcionou. Se ocorrer, dirá que foi insuficiente e que era preciso mais. Não há resultado possível que a desminta. E o que não pode ser desmentido também não pode ser propriamente sustentado — é uma afirmação que se recusa a correr risco.
Há uma segunda característica, e ela é pior. A medida preventiva costuma criar o fato que temia.
Um grupo que vivia sem conflito, submetido a trabalho forçado, ganha motivo para hostilidade que antes não tinha. O risco que era hipotético passa a ser real — e passa a ser real por causa da providência tomada contra ele. Quem age assim não previu o futuro: fabricou-o e, quando ele chega, apresenta a chegada como prova de que estava certo.
É essa a forma exata do que o capítulo vai contar. O versículo 12 dirá que quanto mais afligiam, mais o povo crescia; e o livro inteiro contará como aquele povo acabou saindo da terra, que é justamente o item final da lista de medos deste versículo.
Nada disso está formulado no Êxodo, e é preciso dizê-lo. O texto não teoriza sobre prevenção: relata uma decisão e as consequências dela. A observação acima é leitura do comentarista, e o que a sustenta é apenas a sequência dos fatos narrados — o medo, a medida, e o resultado inverso do pretendido.
7. Aplicações Práticas
A providência que produz o problema
A aplicação mais concreta deste versículo é sobre decisões tomadas por precaução.
Acontece em casa, no trabalho e em qualquer relação continuada. Alguém teme que a outra pessoa vá embora e passa a controlar; teme que o filho se afaste e aperta; teme que o funcionário saia e retira autonomia. A precaução é sincera. E cada uma dessas medidas fornece o motivo que ainda não existia.
O teste prático é único e vale a pena guardá-lo: a providência que estou tomando torna o resultado temido mais provável ou menos provável? Se a resposta honesta é "mais", a providência não é proteção — é a primeira parcela do dano.
Julgar alguém pelo que ele poderia fazer
A segunda aplicação é mais dura, porque quase todo mundo já fez isso.
O rei não acusa Israel de nada praticado. Ele constrói um cenário — se vier uma guerra, eles talvez — e trata a pessoa a partir dele. Em escala pequena, isso é o que se faz quando se decide que alguém "é do tipo que", e se passa a tratá-lo conforme o tipo, e não conforme o que ele fez.
Não há como eliminar totalmente esse mecanismo: prever comportamento faz parte de conviver. O que é possível é manter separadas as duas coisas — o que a pessoa fez e o que se supõe que ela faria — e não aplicar consequência à segunda.
Quando "astúcia" começa a ser a palavra usada
Vale um terceiro ponto, curto. Note-se que o rei não propõe uma medida de segurança, nem uma lei, nem uma ordem. Propõe astúcia — ou seja, já anuncia que a coisa não será feita às claras.
Em qualquer arranjo humano, o momento em que alguém propõe agir com esperteza em vez de agir abertamente é um momento a registrar. Não porque toda esperteza seja má, mas porque quem escolhe a via oblíqua já está dizendo que a via direta não passaria.
Um limite
Este versículo não ensina que prevenir seja errado, e não fornece regra sobre segurança. Ele mostra um caso em que a prevenção era infundada, desproporcional e voltada contra quem não havia feito nada. Usá-lo como argumento geral contra qualquer cautela é forçar o texto muito além do que ele diz.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que escravizar quem se teme que vá embora?
Essa é a incoerência do versículo, e ela não se resolve com o que está escrito. A leitura direta produz um plano que agrava o risco declarado. A tradição rabínica propôs entender a última frase como dito ao contrário — o medo seria ser expulso, e não perder mão de obra —, o que elimina a contradição ao custo de ler no texto o oposto do que ele diz. As duas saídas são possíveis, e o Êxodo não indica qual seguir.
Havia mesmo risco de Israel se aliar a um inimigo?
O texto não oferece nenhum indício disso, e não registra nenhum ato de deslealdade, nem antes nem depois. O que se pode dizer é que a preocupação com populações estrangeiras em zona de passagem militar é compreensível em qualquer Estado antigo — e que compreensível não é o mesmo que fundamentado.
Por que o rei não simplesmente os expulsou?
Porque perder população era prejuízo, e o item 2 trata disso. Numa economia de braços, um contingente inteiro que sai é riqueza que sai junto. Mais adiante, o próprio livro mostrará o rei arrependido de ter deixado o povo partir, e a queixa dele será sobre trabalho, não sobre segurança.
"Astúcia" é uma tradução justa?
É defensável e não é a única. A palavra hebraica é a raiz da sabedoria posta numa forma reflexiva, e traduções vão de "agir sabiamente" a "lidar com astúcia" e "usar de esperteza". Comentaristas clássicos leram o sentido negativo; a forma verbal o permite, e o contexto o reforça. Não há aqui, porém, o verbo hebraico específico de enganar.
Quem é o "ele" contra quem o rei propõe agir?
Gramaticalmente é o povo do versículo anterior, tratado no singular. Há uma leitura antiga que entende o pronome como referência a Deus, e ela está registrada no item 3 como leitura de tradição. O sentido corrente é o primeiro.
O rei sabia que estava lutando contra uma bênção divina?
O texto não diz e não há como saber. Ele fala de multiplicação em termos puramente numéricos. Quem reconhece ali o vocabulário da promessa é o leitor, que tem o Gênesis na mão — e essa diferença de conhecimento entre o personagem e o leitor é uma das coisas que fazem o capítulo funcionar.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma fórmula de abertura, num outro projeto humano
Gênesis 11:4 — "E disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue aos céus, e façamos para nós um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra."
A mesma palavra de convocação, o mesmo verbo em primeira pessoa do plural, e até a mesma construção de finalidade negativa — "para que não". Os construtores da torre temem ser espalhados; o rei do Egito teme que os hebreus se multipliquem. As duas frases são planos coletivos feitos contra um futuro indesejado.
A leitura que um salmo faz deste versículo
Salmo 105:25 — "Mudou-lhes o coração, para que odiassem o seu povo e tratassem com astúcia os seus servos."
O salmo resume o capítulo em meia linha e usa a palavra "astúcia" — mas com um verbo hebraico diferente do daqui. E acrescenta uma afirmação que o Êxodo não faz: a de que o próprio Deus voltou o coração dos egípcios. É leitura posterior, e uma leitura pesada.
A mesma cena resumida no Novo Testamento
Atos 7:19 — "Este, usando de astúcia contra a nossa raça, maltratou os nossos pais, ao ponto de fazê-los expor os seus filhos, para que não sobrevivessem."
Estêvão liga diretamente a astúcia deste versículo ao decreto do fim do capítulo. Vale notar que ele condensa: o Êxodo separa as duas coisas por doze versículos.
O que o rei realmente lamentará ter perdido
Êxodo 14:5 — "Quando foi avisado ao rei do Egito que o povo tinha fugido, o coração de Faraó e o dos seus servos se voltou contra o povo, e disseram: “Que foi isso que fizemos, deixando Israel de nos servir?”"
Aqui está a confirmação de que o interesse era mão de obra. Quando o povo finalmente sobe daquela terra — o desfecho temido neste versículo —, a queixa do rei não menciona guerra, inimigos nem segurança.
O mesmo temor, com outro rei
Números 22:6 — "Vem agora, rogo-te, amaldiçoa-me este povo, pois é mais forte do que eu; talvez então eu possa feri-lo e lançá-lo fora da terra."
Balaque teme o mesmo e propõe o inverso: quer expulsar. O rei do Egito teme a saída e decide prender. As duas reações partem do mesmo diagnóstico.
O verbo de subir, no seu sentido pleno
Êxodo 3:8 — "Por isso desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra para uma terra boa e larga, para uma terra que mana leite e mel."
A mesma palavra que o rei usa como ameaça é a que Deus usará como promessa. O Êxodo não assinala a coincidência; ela é verificável e atravessa o livro.
Um provérbio sobre planos desse tipo
Provérbios 21:30 — "Não há sabedoria, nem inteligência, nem conselho contra o SENHOR."
É a formulação sapiencial do que o capítulo mostra em ação. Convém usá-la com cuidado: o provérbio é uma tese, e o Êxodo, neste ponto, apenas narra.
Um paralelo em Jó
Jó 5:13 — "Ele apanha os sábios na própria astúcia deles, e o conselho dos perversos se precipita."
A ideia de que o plano esperto se volta contra quem o fez tem formulação própria na literatura de sabedoria, e é a chave com que muitos leitores interpretam Êxodo 1:12. A ligação é legítima e não está feita pelo texto do Êxodo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Vamos agir com astúcia contra ele, para que não se multiplique mais e, se vier uma guerra, não se junte aos nossos inimigos, lute contra nós e suba desta terra.”
Texto hebraico
הָ֥בָה נִֽתְחַכְּמָ֖ה ל֑וֹ פֶּן־יִרְבֶּ֗ה וְהָיָ֞ה כִּֽי־תִקְרֶ֤אנָה מִלְחָמָה֙ וְנוֹסַ֤ף גַּם־הוּא֙ עַל־שֹׂ֣נְאֵ֔ינוּ וְנִלְחַם־בָּ֖נוּ וְעָלָ֥ה מִן־הָאָֽרֶץ׃
Transliteração
háva nitchakkemá lo pen-yirbé ve-hayá ki-tiqréna milchamá ve-nosáf gam-hu al-son'éinu ve-nilcham-bánu ve-alá min-ha'árets
Análise palavra por palavra
הָבָה · háva — "vinde", "vamos"
É a forma imperativa de um verbo que significa dar, usada de modo fixo como interjeição de convocação. Não se traduz por "dai": funciona como um chamamento à ação conjunta, algo entre "vamos lá" e "preparem-se".
Aparece poucas vezes na Bíblia hebraica, e as ocorrências mais conhecidas estão em Gênesis 11:3, 11:4 e 11:7, no episódio da torre, e em Gênesis 38:16. Rashi anota o sentido de preparação e remete a essas passagens.
נִתְחַכְּמָה · nitchakkemá — "ajamos com astúcia"
Esta é a palavra central do versículo, e é preciso ver como ela é construída.
A raiz é chakam, ser sábio — a mesma de chokhmah, sabedoria, e de chakham, o sábio. A forma é Hitpael, a conjugação que devolve a ação sobre o próprio sujeito, com valor reflexivo ou recíproco; e está no cortativo, a forma de primeira pessoa do plural que exprime um "vamos".
O Hitpael desta raiz não significa "tornar-se sábio". Significa usar a esperteza a respeito de alguém, comportar-se com sagacidade em relação a um terceiro. A construção com a preposição seguinte reforça isso: a esperteza é dirigida a alguém.
A forma é rara. Além daqui, aparece em Eclesiastes 7:16, onde o conselho é não se fazer sábio demais.
Vale registrar o que a língua não fez. O hebraico tem verbos próprios para enganar e para agir com falsidade, e nenhum deles foi empregado. A frase do rei, tomada ao pé da letra, não confessa desonestidade: propõe inteligência aplicada. O tom negativo vem da forma reflexiva e do que se segue, não de um vocabulário de crime.
לוֹ · lo — "a ele", "contra ele"
Preposição le com sufixo de terceira pessoa masculina do singular. O antecedente é "o povo", do versículo 9, que em hebraico é masculino singular.
É por isso que todo o trecho trata Israel no singular — não é escolha estilística, é concordância. Mas o efeito de leitura permanece, e ele é forte: a partir daqui o Egito lida com um único ente, e não com pessoas.
פֶּן־יִרְבֶּה · pen-yirbé — "para que não se multiplique"
Pen é a conjunção do receio: introduz aquilo que se quer evitar. Não é um simples "para que não" de finalidade; carrega temor.
Yirbé é do verbo ravah, multiplicar-se, no Qal, imperfeito, terceira pessoa masculina do singular. É a mesma raiz do terceiro verbo do versículo 7, agora no singular, concordando com "o povo".
וְהָיָה כִּי־תִקְרֶאנָה מִלְחָמָה · ve-hayá ki-tiqréna milchamá — "e acontecerá que, se vier uma guerra"
Ve-hayá é o verbo "ser" na forma que projeta para o futuro: "e sucederá que". É a fórmula padrão para introduzir uma condição futura.
Tiqréna é do verbo qara no sentido de encontrar, sobrevir, acontecer a alguém — não do verbo homônimo que significa chamar. A forma está no feminino plural, e a razão é gramatical: concorda com milchamah, guerra, que é palavra feminina; o plural em verbos com sujeito abstrato ocorre no hebraico bíblico.
Há aqui uma questão de texto que vale registrar. A forma do Texto Massorético é a que está acima; o Pentateuco Samaritano, a tradução grega antiga e a Vulgata leem uma forma ligeiramente diferente, que se traduziria por "nos sobrevenha". Keil e Delitzsch examinaram a variante e concluíram que não há necessidade de preferi-la. A diferença de sentido é mínima.
וְנוֹסַף גַּם־הוּא · ve-nosáf gam-hu — "e ele também se juntará"
Nosáf é do verbo yasaf, acrescentar, no Niphal — a conjugação passiva e reflexiva: ser acrescentado, somar-se a. A imagem é aritmética: eles entram na conta do outro lado.
Gam-hu significa "também ele", com o pronome expresso, o que em hebraico dá ênfase. O rei sublinha que, além dos inimigos externos, também este grupo estará contra.
עַל־שֹׂנְאֵינוּ · al-son'éinu — "aos que nos odeiam"
Particípio do verbo sane, odiar, no plural, com sufixo de primeira pessoa do plural. Literalmente: "os que nos odeiam".
Não é a palavra comum para inimigo, que seria oyev. A escolha é interessante: define o adversário pelo sentimento que ele nutre, e não por hostilidade praticada. Ninguém é nomeado, e nenhuma guerra em curso é mencionada.
וְנִלְחַם־בָּנוּ · ve-nilcham-bánu — "e lutará contra nós"
Do verbo lacham, guerrear, no Niphal, que nesta raiz tem valor ativo — combater. A palavra é da mesma família de milchamah, guerra, dita duas palavras antes.
A preposição be com o sentido de "contra" é a construção usual para combater alguém.
וְעָלָה מִן־הָאָרֶץ · ve-alá min-ha'árets — "e subirá desta terra"
Aqui está o verbo importante.
Alá é a raiz alah, subir, no Qal, terceira pessoa masculina do singular, na forma que continua a série de futuros. O sujeito é o mesmo do resto da frase: o povo, no singular.
A raiz é geográfica antes de ser figurada. Sai-se do Egito subindo, porque Canaã é planalto e o Delta é planície de rio; e entra-se no Egito descendo. O Gênesis usa o par o tempo todo, e o estudo de Gênesis 13:1 é o dono dessa geografia do verbo.
O que é próprio deste versículo é o uso: esta é a primeira ocorrência, no livro do Êxodo, do verbo que se tornará o termo para a saída do Egito. Ele reaparece em Êxodo 3:8, na fala de Deus, e depois dezenas de vezes, inclusive na frase que o povo repetirá no deserto. Aqui ele está no meio de uma lista de riscos.
Min-ha'árets é "da terra", com o artigo. A tradução ABC acrescenta "desta" porque em português a frase ficaria vaga; o hebraico diz apenas "da terra", e o referente é o Egito.
Nota — a arquitetura do medo
O versículo é uma cadeia de quatro verbos futuros, cada um dependendo do anterior: multiplicar-se, somar-se ao inimigo, combater, subir. Em hebraico eles vêm encadeados pela mesma construção, que dá à sequência um aspecto de inevitabilidade — como se um puxasse o outro.
Nenhum desses verbos descreve algo que aconteceu. Todos estão no campo do que pode vir a ser. E é sobre essa cadeia hipotética, e só sobre ela, que a decisão do versículo seguinte se apoia.
11. Conclusão
Do que foi examinado, algumas conclusões se sustentam.
Primeira: o plano se apoia inteiramente em hipóteses encadeadas. São quatro verbos no futuro, nenhum deles correspondente a um fato relatado. Não há guerra, não há inimigo nomeado, não há ato de deslealdade. A política de Estado que o capítulo vai narrar tem por fundamento uma cadeia de possibilidades.
Segunda: a palavra usada é a da sabedoria, torcida. O hebraico não trocou de raiz para dizer astúcia — pôs a raiz da sabedoria numa forma que a volta sobre quem age. É a mesma virtude que os textos egípcios exigem de um bom governante, aplicada aqui contra um grupo indefeso.
Terceira: a incoerência é real e o texto não a resolve. Temer que um povo vá embora e responder prendendo-o com trabalho forçado é aumentar o motivo da partida. A tradição rabínica propôs entender a última frase como dito ao contrário, o que desfaz o problema ao preço de ler o oposto do que está escrito. As duas leituras cabem, e não é possível decidir.
Quarta: o objetivo declarado é interromper a multiplicação. O rei diz isso com o mesmo verbo que o Gênesis emprega na bênção. Ele não sabe o que está dizendo; o leitor sabe. O Êxodo não comenta a distância entre as duas coisas.
Quinta: o verbo da libertação estreia aqui, na boca do inimigo. "Subir desta terra" é como o livro vai chamar a saída do Egito, e a primeira vez que a expressão aparece é numa lista de coisas a impedir. Registrar isso é legítimo; afirmar que foi construído de propósito, não.
Sexta: ninguém contesta. Não há debate, não há voto, não há voz discordante, não há sequer a aprovação formal que os textos egípcios costumam pôr na boca da corte. O rei propõe e, no versículo seguinte, já está feito.













