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Êxodo 1:10

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 28 min de leitura·👁 31 acessos
Vamos agir com astúcia contra ele, para que não se multiplique mais e, se vier uma guerra, não se junte aos nossos inimigos, lute contra nós e suba desta terra.”
Rei egípcio em pé diante de seus súditos, gesticulando enquanto expõe um plano, com o mapa do Delta e a estrada para Canaã ao fundo.

Estudo


Vamos agir com astúcia contra ele, para que não se multiplique mais e, se vier uma guerra, não se junte aos nossos inimigos, lute contra nós e suba desta terra.”

1. Introdução

O rei acabou de dizer o que vê. Agora diz o que pretende fazer, e o versículo é inteiro um plano.

Ele tem quatro partes: uma proposta — vamos agir com astúcia —, um objetivo — que não se multipliquem —, um cenário de risco — se vier guerra, eles se juntarão ao inimigo — e um desfecho temido: que subam desta terra.

Três coisas chamam a atenção logo à primeira leitura.

A primeira é que nada disso aconteceu. Não há guerra, não há aliança, não há sinal de deslealdade. O rei descreve um futuro possível e age contra ele.

A segunda é a palavra "astúcia". O hebraico usa aqui, torcida numa forma reflexiva, a raiz da sabedoria — a mesma que o Egito considerava a maior das virtudes de um governante. O item 10 mostra como a torção é feita.

A terceira é a incoerência, e ela é o achado deste versículo. O rei teme que Israel vá embora. A solução que ele aplica, no versículo seguinte, é prendê-lo no país com trabalho forçado. Se o medo é que saiam, escravizar não resolve — agrava.

O Êxodo não explica a contradição, não a comenta e não a conserta. Leitores antigos tentaram resolvê-la, e o item 3 apresenta a saída mais conhecida, sem adotá-la.

Há ainda um detalhe que só faz sentido no livro inteiro: "subir desta terra" é o verbo que vai dar nome à saída do Egito. Ele aparece pela primeira vez aqui, na boca do inimigo, como aquilo que precisa ser impedido.

2. Contexto Histórico e Cultural

A guerra que o rei imagina

O plano se apoia num cenário: se vier uma guerra. Vale entender que guerra é essa, porque o cenário não é abstrato.

O Egito do segundo milênio antes da era comum guerreava sobretudo para o lado asiático — Canaã, a costa levantina, a Síria. As campanhas saíam do Delta e voltavam ao Delta. O que estava em jogo nessas expedições não era o território egípcio propriamente dito, e sim o controle dos caminhos, dos portos e dos pequenos reinos vassalos que os egípcios queriam manter alinhados.

Isso põe o Delta oriental numa posição específica: ele não é o campo de batalha, é o corredor. Por ali passam as tropas na ida, os suprimentos durante e os prisioneiros na volta. A linha de fortes que guardava essa passagem e as fontes que a documentam foram tratadas no estudo de Gênesis 42:9.

Uma população estrangeira grande, instalada justamente nesse corredor, não é um problema militar de frente. É um problema de retaguarda — e é essa a preocupação que a fala do rei descreve.

O que o Egito costumava fazer com estrangeiros: recrutá-los

Aqui está o dado de fundo que torna o plano do rei notável, e ele é bem documentado.

O Egito não tratava a presença de estrangeiros como ameaça a eliminar. Tratava-a como recurso a incorporar, e a via preferencial de incorporação era o exército.

Os medjai, grupos vindos dos desertos ao sul, aparecem em serviço egípcio como batedores, infantaria leve e policiamento interno desde o Império Médio. Os xardana, guerreiros capturados em confrontos no Mediterrâneo, foram enquadrados como tropa de elite: inscrições ramessidas os designam com uma fórmula que os apresenta como prisioneiros do rei, e ainda assim eles guardavam a pessoa dele. Grupos líbios derrotados foram instalados como colonos militares, e séculos depois uma dinastia inteira reinaria no Egito reivindicando essa origem.

Ou seja: quando um Estado egípcio se via diante de um contingente estrangeiro numeroso, a resposta habitual e documentada era vesti-lo de soldado. Isso resolvia dois problemas de uma vez — tirava o grupo da condição de ameaça e o punha a serviço.

O rei deste versículo não faz nada disso. Ele decide o contrário: não armar, e sim imobilizar. O Êxodo não comenta a escolha, e não há como saber se quem escreveu tinha em vista a alternativa. O que se pode registrar é que ela existia e era comum.

Gente vale, e por isso o medo de perdê-la

Falta um elemento para que o raciocínio do rei fique inteligível, e é econômico.

Numa economia agrária e de grandes obras, população é riqueza. Braços aravam, cavavam canal, moldavam tijolo e carregavam pedra; e as guerras egípcias traziam prisioneiros justamente porque prisioneiro é mão de obra. Perder um contingente inteiro não era alívio: era prejuízo.

Isso explica por que a última linha do plano — que eles subam desta terra — está na lista dos males a evitar, e não na dos remédios possíveis. Deixar que fossem embora seria a solução mais simples para o problema de segurança, e o rei não a considera nem por um instante.

O próprio Êxodo confirmará esse cálculo mais adiante, quando o rei, já tendo deixado o povo partir, se arrepende com uma frase que não fala de segurança nenhuma e fala de trabalho perdido. O item 9 traz a passagem.

3. Análise Teológica do Versículo

"Vamos agir com astúcia contra ele"

A frase começa com uma convocação. O verbo que abre não é bem um verbo: é uma palavra de exortação, algo como "venham", "preparem-se", usada quando se propõe uma ação conjunta. Rashi (rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido) observa que ela indica preparação — disponham-se a isto.

Essa mesma palavra abre, no Gênesis, a proposta de construir a torre em Gênesis 11:4. É a fórmula de quem inaugura um projeto coletivo, e o item 9 traz a comparação.

O que vem depois é a palavra difícil. Em hebraico, ela é feita da raiz de sabedoria, posta numa forma que volta a ação sobre quem age. Não é "sejamos sábios"; é algo como "usemos nossa esperteza a respeito dele". A língua tem um verbo próprio para enganar, e não é este.

Comentaristas registraram a nuance sem hesitar. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) falaram em astúcia política, sabedoria mundana misturada com esperteza; a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) traduziu por lidar com sutileza, marcando o sentido moral negativo.

Vale reparar no que isso faz com a palavra "sabedoria". No Egito, ser sábio era a maior qualificação de quem governa — os textos de ensinamento egípcios, tratados nos estudos de Gênesis 41:8 e Gênesis 41:33, giram em torno disso. Aqui a virtude aparece com o sinal trocado. É a mesma raiz; o que muda é a direção em que ela é aplicada.

E há um detalhe gramatical com peso. O rei diz "contra ele", no singular. Israel não é tratado como um monte de gente: é tratado como um sujeito só, um corpo. Esse singular vai atravessar todo o trecho — no versículo 11 os capatazes são postos "sobre ele", no versículo 12 é "a ele" que afligem. O Egito, ao decidir agir, transforma o povo em uma coisa única com que se lida.

Uma leitura antiga merece registro, ainda que este estudo não a adote. Rabinos citados por Rashi entenderam que o "ele" do "contra ele" não é Israel, e sim o Deus que os protege: astuciemo-nos contra quem os salva, escolhendo a água, porque ele jurou não trazer outro dilúvio. É leitura de tradição, não do texto; está registrada aqui porque é antiga, influente e mostra que a estranheza do singular foi percebida cedo.

"para que não se multiplique mais"

Aqui o rei diz o objetivo, e ele é limitado: impedir o crescimento.

Note-se que o verbo é o mesmo da bênção — multiplicar-se. O que o Egito se propõe a interromper, no vocabulário do próprio texto, é aquilo que o versículo 7 tinha registrado como a coisa que aconteceu. A política tem alvo declarado, e o alvo é uma palavra do Gênesis.

Repare no que não é o objetivo. Não é expulsar, não é converter, não é assimilar, não é punir. É deter um processo. É uma meta demográfica, formulada como tal.

"e, se vier uma guerra, não se junte aos nossos inimigos, lute contra nós"

Esta é a parte hipotética, e ela precisa ser lida com atenção ao número de condições que empilha.

Primeiro é preciso que venha uma guerra. Depois, que Israel escolha um lado. Depois, que escolha o lado de fora. Depois, que efetivamente combata. São quatro degraus, e nenhum deles aconteceu, está acontecendo ou tem indício registrado.

E há uma ausência que vale sublinhar: o texto não relata nenhum ato de deslealdade. Não há revolta, não há espionagem, não há recusa de serviço, não há sequer uma queixa. O rei não está reagindo a um comportamento; está antecipando um.

Sobre a expressão "nossos inimigos", o hebraico diz literalmente "os que nos odeiam". O item 10 trata da palavra. O que interessa aqui é que ela também é indefinida — não se nomeia inimigo nenhum, nem se diz que exista algum no momento.

Portanto, o que o rei apresenta ao seu povo como fundamento de uma política de Estado é: um grupo que cresceu, uma guerra que não existe, um inimigo que não é nomeado e uma traição que não ocorreu.

"e suba desta terra"

É a última coisa temida da lista, e é a que não fecha.

Lida diretamente, a frase diz: e então eles vão embora do Egito. Comentaristas leram assim desde sempre — a Geneva Bible ("Bíblia de Genebra", tradução inglesa do século XVI com notas) anota que eles subiriam para Canaã, e o Egito perderia o proveito que tirava deles.

E é aqui que a lógica do rei se desmancha.

Se o problema final é que o povo saia do país, escravizá-lo não é solução — é motivo. Um grupo bem instalado tem pouca razão para partir; um grupo submetido a trabalho forçado tem todas. A medida que o versículo 11 vai descrever aumenta exatamente o risco que este versículo declara temer.

O Êxodo não repara nisso. Não há ironia, não há comentário, não há personagem que aponte a falha. O texto expõe o raciocínio inteiro e passa à execução dele.

Leitores antigos, que também notaram o problema, propuseram uma saída, e ela merece ser conhecida. Na tradição rabínica recolhida no tratado Sotá — e citada por Rashi —, a frase seria um modo de falar de quem lança sobre outro a desgraça que teme para si: o que o rei quer dizer, sem dizer, é "e nós é que subiremos desta terra", isto é, seremos nós os expulsos, e eles ficarão com o país. Nessa leitura não há incoerência nenhuma: o medo declarado seria perder o Egito, não perder a mão de obra.

É uma solução engenhosa, é antiga, e é preciso dizer que é solução — não está no texto. O hebraico não a exige, e a leitura direta continua sendo possível. Não é possível decidir entre as duas, e este estudo não decide.

O que se registra é isto: ou o rei teme perder braços e toma uma medida que empurra os braços para fora, ou ele teme perder o país e diz isso ao contrário. O texto sustenta as duas leituras e não escolhe nenhuma.

O verbo que dará nome ao livro

Uma observação de vocabulário, que vale para tudo o que vem depois.

"Subir" é como a Bíblia diz sair do Egito. Deus dirá a Moisés que veio para fazer Israel subir daquela terra; o povo dirá, no deserto, que foi feito subir do Egito; o verbo se torna quase técnico para esse acontecimento.

A primeira vez que ele aparece com esse sentido no livro é aqui — e está na boca do rei, no meio de uma lista de coisas a impedir. O Êxodo não assinala o detalhe. Ele existe, é verificável, e é o tipo de coisa que só se vê lendo o livro do começo ao fim.

O que o versículo não diz

Não diz em que consiste a astúcia proposta — isso vem no versículo seguinte, e o leitor descobre junto com o povo. Não diz que houve deliberação, debate ou aprovação. Não diz que alguém discordou. Não invoca deus nenhum, não cita lei nenhuma, não menciona precedente. E não diz uma palavra sobre o que Israel havia feito, porque não havia nada a dizer.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O rei, agora como legislador

No versículo anterior ele descreveu; aqui ele propõe. É a única fala do capítulo em que o rei apresenta um raciocínio completo, com premissa, risco e objetivo.

Continua sem nome, sem corte e sem conselheiros nomeados. E, a partir do versículo seguinte, deixará de ser o sujeito dos verbos: quem porá os capatazes será um "eles" que o texto não identifica.

Os inimigos que não são nomeados

O plano menciona "os que nos odeiam", e nenhum deles tem nome, povo ou direção. Não se diz se vêm do norte, do sul ou do mar.

Isso é notável num livro que sabe nomear povos: o Gênesis nomeia hititas, filisteus, amorreus, midianitas. Aqui o inimigo é uma categoria vazia, e é justamente por ser vazia que ela serve ao argumento — qualquer guerra futura confirma a previsão.

A guerra

Não existe. É uma hipótese dentro de um discurso, e o Êxodo não registra nenhuma guerra do Egito nem antes nem depois deste capítulo. O conflito que o livro vai narrar é de outro tipo inteiramente, e será entre o rei e Deus.

"Esta terra"

O Egito, dito pela boca de quem o governa. É a segunda vez no capítulo que a palavra "terra" aparece: no versículo 7 ela é o que se encheu de israelitas, aqui é o lugar de onde eles poderiam subir.

A mesma palavra hebraica servirá, no livro inteiro, para a terra de onde se sai e para a terra aonde se vai.

O evento

Uma decisão de governo, anunciada e não descrita. O versículo é a fronteira entre a percepção e a política: antes dele há um rei que acha; depois dele, um Estado que age.

5. Pontos de Ensino

1. A política nasce de um cenário, não de um fato. Nada do que o rei teme aconteceu. Ele descreve uma sequência de coisas possíveis e trata a sequência como se fosse informação. Vale reparar em quantas condições precisam ser satisfeitas para que a previsão se cumpra, e em quantas delas ele simplesmente presume.

2. A palavra "sabedoria" pode ser usada torta. O hebraico não trocou de raiz para dizer astúcia: torceu a raiz da sabedoria. Isso é uma lição de leitura e uma lição de linguagem — a mesma qualidade que faz um bom governante é a que produz um plano como este, e a diferença está no uso, não na palavra.

3. O alvo declarado é o crescimento, e o crescimento era a bênção. O rei diz, com todas as letras, que quer impedir a multiplicação. Ele não sabe que está descrevendo o vocabulário da promessa; o leitor sabe. É um dos poucos lugares em que o Êxodo permite essa distância entre o que o personagem diz e o que o leitor ouve.

4. Um plano pode ser eficaz e incoerente ao mesmo tempo. A medida que virá funciona como opressão e não funciona como solução para o medo declarado. As duas coisas são verdadeiras juntas, e o texto não escolhe entre elas.

5. O inimigo genérico é um recurso, não um descuido. Não nomear a ameaça faz com que qualquer coisa que aconteça no futuro sirva de confirmação. Quem argumenta assim nunca é desmentido pelos fatos.

6. Ninguém responde. O rei fala ao seu povo, propõe uma política contra um grupo que vive ali há gerações, e o texto não registra uma única objeção. A ausência de contraditório é parte do que o capítulo mostra.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo apresenta um caso limpo de um problema que não tem solução conhecida: como avaliar uma medida tomada contra algo que ainda não aconteceu.

A dificuldade é de estrutura, não de má-fé. Se a política for aplicada e o mal previsto não ocorrer, quem a defendeu dirá que ela funcionou. Se ocorrer, dirá que foi insuficiente e que era preciso mais. Não há resultado possível que a desminta. E o que não pode ser desmentido também não pode ser propriamente sustentado — é uma afirmação que se recusa a correr risco.

Há uma segunda característica, e ela é pior. A medida preventiva costuma criar o fato que temia.

Um grupo que vivia sem conflito, submetido a trabalho forçado, ganha motivo para hostilidade que antes não tinha. O risco que era hipotético passa a ser real — e passa a ser real por causa da providência tomada contra ele. Quem age assim não previu o futuro: fabricou-o e, quando ele chega, apresenta a chegada como prova de que estava certo.

É essa a forma exata do que o capítulo vai contar. O versículo 12 dirá que quanto mais afligiam, mais o povo crescia; e o livro inteiro contará como aquele povo acabou saindo da terra, que é justamente o item final da lista de medos deste versículo.

Nada disso está formulado no Êxodo, e é preciso dizê-lo. O texto não teoriza sobre prevenção: relata uma decisão e as consequências dela. A observação acima é leitura do comentarista, e o que a sustenta é apenas a sequência dos fatos narrados — o medo, a medida, e o resultado inverso do pretendido.

7. Aplicações Práticas

A providência que produz o problema

A aplicação mais concreta deste versículo é sobre decisões tomadas por precaução.

Acontece em casa, no trabalho e em qualquer relação continuada. Alguém teme que a outra pessoa vá embora e passa a controlar; teme que o filho se afaste e aperta; teme que o funcionário saia e retira autonomia. A precaução é sincera. E cada uma dessas medidas fornece o motivo que ainda não existia.

O teste prático é único e vale a pena guardá-lo: a providência que estou tomando torna o resultado temido mais provável ou menos provável? Se a resposta honesta é "mais", a providência não é proteção — é a primeira parcela do dano.

Julgar alguém pelo que ele poderia fazer

A segunda aplicação é mais dura, porque quase todo mundo já fez isso.

O rei não acusa Israel de nada praticado. Ele constrói um cenário — se vier uma guerra, eles talvez — e trata a pessoa a partir dele. Em escala pequena, isso é o que se faz quando se decide que alguém "é do tipo que", e se passa a tratá-lo conforme o tipo, e não conforme o que ele fez.

Não há como eliminar totalmente esse mecanismo: prever comportamento faz parte de conviver. O que é possível é manter separadas as duas coisas — o que a pessoa fez e o que se supõe que ela faria — e não aplicar consequência à segunda.

Quando "astúcia" começa a ser a palavra usada

Vale um terceiro ponto, curto. Note-se que o rei não propõe uma medida de segurança, nem uma lei, nem uma ordem. Propõe astúcia — ou seja, já anuncia que a coisa não será feita às claras.

Em qualquer arranjo humano, o momento em que alguém propõe agir com esperteza em vez de agir abertamente é um momento a registrar. Não porque toda esperteza seja má, mas porque quem escolhe a via oblíqua já está dizendo que a via direta não passaria.

Um limite

Este versículo não ensina que prevenir seja errado, e não fornece regra sobre segurança. Ele mostra um caso em que a prevenção era infundada, desproporcional e voltada contra quem não havia feito nada. Usá-lo como argumento geral contra qualquer cautela é forçar o texto muito além do que ele diz.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que escravizar quem se teme que vá embora?

Essa é a incoerência do versículo, e ela não se resolve com o que está escrito. A leitura direta produz um plano que agrava o risco declarado. A tradição rabínica propôs entender a última frase como dito ao contrário — o medo seria ser expulso, e não perder mão de obra —, o que elimina a contradição ao custo de ler no texto o oposto do que ele diz. As duas saídas são possíveis, e o Êxodo não indica qual seguir.

Havia mesmo risco de Israel se aliar a um inimigo?

O texto não oferece nenhum indício disso, e não registra nenhum ato de deslealdade, nem antes nem depois. O que se pode dizer é que a preocupação com populações estrangeiras em zona de passagem militar é compreensível em qualquer Estado antigo — e que compreensível não é o mesmo que fundamentado.

Por que o rei não simplesmente os expulsou?

Porque perder população era prejuízo, e o item 2 trata disso. Numa economia de braços, um contingente inteiro que sai é riqueza que sai junto. Mais adiante, o próprio livro mostrará o rei arrependido de ter deixado o povo partir, e a queixa dele será sobre trabalho, não sobre segurança.

"Astúcia" é uma tradução justa?

É defensável e não é a única. A palavra hebraica é a raiz da sabedoria posta numa forma reflexiva, e traduções vão de "agir sabiamente" a "lidar com astúcia" e "usar de esperteza". Comentaristas clássicos leram o sentido negativo; a forma verbal o permite, e o contexto o reforça. Não há aqui, porém, o verbo hebraico específico de enganar.

Quem é o "ele" contra quem o rei propõe agir?

Gramaticalmente é o povo do versículo anterior, tratado no singular. Há uma leitura antiga que entende o pronome como referência a Deus, e ela está registrada no item 3 como leitura de tradição. O sentido corrente é o primeiro.

O rei sabia que estava lutando contra uma bênção divina?

O texto não diz e não há como saber. Ele fala de multiplicação em termos puramente numéricos. Quem reconhece ali o vocabulário da promessa é o leitor, que tem o Gênesis na mão — e essa diferença de conhecimento entre o personagem e o leitor é uma das coisas que fazem o capítulo funcionar.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma fórmula de abertura, num outro projeto humano

Gênesis 11:4 — "E disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue aos céus, e façamos para nós um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra."

A mesma palavra de convocação, o mesmo verbo em primeira pessoa do plural, e até a mesma construção de finalidade negativa — "para que não". Os construtores da torre temem ser espalhados; o rei do Egito teme que os hebreus se multipliquem. As duas frases são planos coletivos feitos contra um futuro indesejado.

A leitura que um salmo faz deste versículo

Salmo 105:25 — "Mudou-lhes o coração, para que odiassem o seu povo e tratassem com astúcia os seus servos."

O salmo resume o capítulo em meia linha e usa a palavra "astúcia" — mas com um verbo hebraico diferente do daqui. E acrescenta uma afirmação que o Êxodo não faz: a de que o próprio Deus voltou o coração dos egípcios. É leitura posterior, e uma leitura pesada.

A mesma cena resumida no Novo Testamento

Atos 7:19 — "Este, usando de astúcia contra a nossa raça, maltratou os nossos pais, ao ponto de fazê-los expor os seus filhos, para que não sobrevivessem."

Estêvão liga diretamente a astúcia deste versículo ao decreto do fim do capítulo. Vale notar que ele condensa: o Êxodo separa as duas coisas por doze versículos.

O que o rei realmente lamentará ter perdido

Êxodo 14:5 — "Quando foi avisado ao rei do Egito que o povo tinha fugido, o coração de Faraó e o dos seus servos se voltou contra o povo, e disseram: “Que foi isso que fizemos, deixando Israel de nos servir?”"

Aqui está a confirmação de que o interesse era mão de obra. Quando o povo finalmente sobe daquela terra — o desfecho temido neste versículo —, a queixa do rei não menciona guerra, inimigos nem segurança.

O mesmo temor, com outro rei

Números 22:6 — "Vem agora, rogo-te, amaldiçoa-me este povo, pois é mais forte do que eu; talvez então eu possa feri-lo e lançá-lo fora da terra."

Balaque teme o mesmo e propõe o inverso: quer expulsar. O rei do Egito teme a saída e decide prender. As duas reações partem do mesmo diagnóstico.

O verbo de subir, no seu sentido pleno

Êxodo 3:8 — "Por isso desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra para uma terra boa e larga, para uma terra que mana leite e mel."

A mesma palavra que o rei usa como ameaça é a que Deus usará como promessa. O Êxodo não assinala a coincidência; ela é verificável e atravessa o livro.

Um provérbio sobre planos desse tipo

Provérbios 21:30 — "Não há sabedoria, nem inteligência, nem conselho contra o SENHOR."

É a formulação sapiencial do que o capítulo mostra em ação. Convém usá-la com cuidado: o provérbio é uma tese, e o Êxodo, neste ponto, apenas narra.

Um paralelo em Jó

Jó 5:13 — "Ele apanha os sábios na própria astúcia deles, e o conselho dos perversos se precipita."

A ideia de que o plano esperto se volta contra quem o fez tem formulação própria na literatura de sabedoria, e é a chave com que muitos leitores interpretam Êxodo 1:12. A ligação é legítima e não está feita pelo texto do Êxodo.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Vamos agir com astúcia contra ele, para que não se multiplique mais e, se vier uma guerra, não se junte aos nossos inimigos, lute contra nós e suba desta terra.”

Texto hebraico

הָ֥בָה נִֽתְחַכְּמָ֖ה ל֑וֹ פֶּן־יִרְבֶּ֗ה וְהָיָ֞ה כִּֽי־תִקְרֶ֤אנָה מִלְחָמָה֙ וְנוֹסַ֤ף גַּם־הוּא֙ עַל־שֹׂ֣נְאֵ֔ינוּ וְנִלְחַם־בָּ֖נוּ וְעָלָ֥ה מִן־הָאָֽרֶץ׃

Transliteração

háva nitchakkemá lo pen-yirbé ve-hayá ki-tiqréna milchamá ve-nosáf gam-hu al-son'éinu ve-nilcham-bánu ve-alá min-ha'árets

Análise palavra por palavra

הָבָה · háva — "vinde", "vamos"

É a forma imperativa de um verbo que significa dar, usada de modo fixo como interjeição de convocação. Não se traduz por "dai": funciona como um chamamento à ação conjunta, algo entre "vamos lá" e "preparem-se".

Aparece poucas vezes na Bíblia hebraica, e as ocorrências mais conhecidas estão em Gênesis 11:3, 11:4 e 11:7, no episódio da torre, e em Gênesis 38:16. Rashi anota o sentido de preparação e remete a essas passagens.

נִתְחַכְּמָה · nitchakkemá — "ajamos com astúcia"

Esta é a palavra central do versículo, e é preciso ver como ela é construída.

A raiz é chakam, ser sábio — a mesma de chokhmah, sabedoria, e de chakham, o sábio. A forma é Hitpael, a conjugação que devolve a ação sobre o próprio sujeito, com valor reflexivo ou recíproco; e está no cortativo, a forma de primeira pessoa do plural que exprime um "vamos".

O Hitpael desta raiz não significa "tornar-se sábio". Significa usar a esperteza a respeito de alguém, comportar-se com sagacidade em relação a um terceiro. A construção com a preposição seguinte reforça isso: a esperteza é dirigida a alguém.

A forma é rara. Além daqui, aparece em Eclesiastes 7:16, onde o conselho é não se fazer sábio demais.

Vale registrar o que a língua não fez. O hebraico tem verbos próprios para enganar e para agir com falsidade, e nenhum deles foi empregado. A frase do rei, tomada ao pé da letra, não confessa desonestidade: propõe inteligência aplicada. O tom negativo vem da forma reflexiva e do que se segue, não de um vocabulário de crime.

לוֹ · lo — "a ele", "contra ele"

Preposição le com sufixo de terceira pessoa masculina do singular. O antecedente é "o povo", do versículo 9, que em hebraico é masculino singular.

É por isso que todo o trecho trata Israel no singular — não é escolha estilística, é concordância. Mas o efeito de leitura permanece, e ele é forte: a partir daqui o Egito lida com um único ente, e não com pessoas.

פֶּן־יִרְבֶּה · pen-yirbé — "para que não se multiplique"

Pen é a conjunção do receio: introduz aquilo que se quer evitar. Não é um simples "para que não" de finalidade; carrega temor.

Yirbé é do verbo ravah, multiplicar-se, no Qal, imperfeito, terceira pessoa masculina do singular. É a mesma raiz do terceiro verbo do versículo 7, agora no singular, concordando com "o povo".

וְהָיָה כִּי־תִקְרֶאנָה מִלְחָמָה · ve-hayá ki-tiqréna milchamá — "e acontecerá que, se vier uma guerra"

Ve-hayá é o verbo "ser" na forma que projeta para o futuro: "e sucederá que". É a fórmula padrão para introduzir uma condição futura.

Tiqréna é do verbo qara no sentido de encontrar, sobrevir, acontecer a alguém — não do verbo homônimo que significa chamar. A forma está no feminino plural, e a razão é gramatical: concorda com milchamah, guerra, que é palavra feminina; o plural em verbos com sujeito abstrato ocorre no hebraico bíblico.

Há aqui uma questão de texto que vale registrar. A forma do Texto Massorético é a que está acima; o Pentateuco Samaritano, a tradução grega antiga e a Vulgata leem uma forma ligeiramente diferente, que se traduziria por "nos sobrevenha". Keil e Delitzsch examinaram a variante e concluíram que não há necessidade de preferi-la. A diferença de sentido é mínima.

וְנוֹסַף גַּם־הוּא · ve-nosáf gam-hu — "e ele também se juntará"

Nosáf é do verbo yasaf, acrescentar, no Niphal — a conjugação passiva e reflexiva: ser acrescentado, somar-se a. A imagem é aritmética: eles entram na conta do outro lado.

Gam-hu significa "também ele", com o pronome expresso, o que em hebraico dá ênfase. O rei sublinha que, além dos inimigos externos, também este grupo estará contra.

עַל־שֹׂנְאֵינוּ · al-son'éinu — "aos que nos odeiam"

Particípio do verbo sane, odiar, no plural, com sufixo de primeira pessoa do plural. Literalmente: "os que nos odeiam".

Não é a palavra comum para inimigo, que seria oyev. A escolha é interessante: define o adversário pelo sentimento que ele nutre, e não por hostilidade praticada. Ninguém é nomeado, e nenhuma guerra em curso é mencionada.

וְנִלְחַם־בָּנוּ · ve-nilcham-bánu — "e lutará contra nós"

Do verbo lacham, guerrear, no Niphal, que nesta raiz tem valor ativo — combater. A palavra é da mesma família de milchamah, guerra, dita duas palavras antes.

A preposição be com o sentido de "contra" é a construção usual para combater alguém.

וְעָלָה מִן־הָאָרֶץ · ve-alá min-ha'árets — "e subirá desta terra"

Aqui está o verbo importante.

Alá é a raiz alah, subir, no Qal, terceira pessoa masculina do singular, na forma que continua a série de futuros. O sujeito é o mesmo do resto da frase: o povo, no singular.

A raiz é geográfica antes de ser figurada. Sai-se do Egito subindo, porque Canaã é planalto e o Delta é planície de rio; e entra-se no Egito descendo. O Gênesis usa o par o tempo todo, e o estudo de Gênesis 13:1 é o dono dessa geografia do verbo.

O que é próprio deste versículo é o uso: esta é a primeira ocorrência, no livro do Êxodo, do verbo que se tornará o termo para a saída do Egito. Ele reaparece em Êxodo 3:8, na fala de Deus, e depois dezenas de vezes, inclusive na frase que o povo repetirá no deserto. Aqui ele está no meio de uma lista de riscos.

Min-ha'árets é "da terra", com o artigo. A tradução ABC acrescenta "desta" porque em português a frase ficaria vaga; o hebraico diz apenas "da terra", e o referente é o Egito.

Nota — a arquitetura do medo

O versículo é uma cadeia de quatro verbos futuros, cada um dependendo do anterior: multiplicar-se, somar-se ao inimigo, combater, subir. Em hebraico eles vêm encadeados pela mesma construção, que dá à sequência um aspecto de inevitabilidade — como se um puxasse o outro.

Nenhum desses verbos descreve algo que aconteceu. Todos estão no campo do que pode vir a ser. E é sobre essa cadeia hipotética, e só sobre ela, que a decisão do versículo seguinte se apoia.

11. Conclusão

Do que foi examinado, algumas conclusões se sustentam.

Primeira: o plano se apoia inteiramente em hipóteses encadeadas. São quatro verbos no futuro, nenhum deles correspondente a um fato relatado. Não há guerra, não há inimigo nomeado, não há ato de deslealdade. A política de Estado que o capítulo vai narrar tem por fundamento uma cadeia de possibilidades.

Segunda: a palavra usada é a da sabedoria, torcida. O hebraico não trocou de raiz para dizer astúcia — pôs a raiz da sabedoria numa forma que a volta sobre quem age. É a mesma virtude que os textos egípcios exigem de um bom governante, aplicada aqui contra um grupo indefeso.

Terceira: a incoerência é real e o texto não a resolve. Temer que um povo vá embora e responder prendendo-o com trabalho forçado é aumentar o motivo da partida. A tradição rabínica propôs entender a última frase como dito ao contrário, o que desfaz o problema ao preço de ler o oposto do que está escrito. As duas leituras cabem, e não é possível decidir.

Quarta: o objetivo declarado é interromper a multiplicação. O rei diz isso com o mesmo verbo que o Gênesis emprega na bênção. Ele não sabe o que está dizendo; o leitor sabe. O Êxodo não comenta a distância entre as duas coisas.

Quinta: o verbo da libertação estreia aqui, na boca do inimigo. "Subir desta terra" é como o livro vai chamar a saída do Egito, e a primeira vez que a expressão aparece é numa lista de coisas a impedir. Registrar isso é legítimo; afirmar que foi construído de propósito, não.

Sexta: ninguém contesta. Não há debate, não há voto, não há voz discordante, não há sequer a aprovação formal que os textos egípcios costumam pôr na boca da corte. O rei propõe e, no versículo seguinte, já está feito.

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Êxodo 1:10

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