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Êxodo 14:5

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✍️ Por Alberto Adriano·27 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 22 acessos
Quando foi avisado ao rei do Egito que o povo tinha fugido, o coração de Faraó e o dos seus servos se voltou contra o povo, e disseram: “Que foi isso que fizemos, deixando Israel de nos servir?”
A corte do Egito reunida ao receber a notícia de que os hebreus não voltaram, com o rei de pé diante dos seus funcionários.

Estudo


Quando foi avisado ao rei do Egito que o povo tinha fugido, o coração de Faraó e o dos seus servos se voltou contra o povo, e disseram: “Que foi isso que fizemos, deixando Israel de nos servir?”

1. Introdução

Nada acontece neste versículo: chega uma informação, e a informação faz o trabalho de um acontecimento.

O rei do Egito é avisado de que o povo fugiu, e o coração dele e o dos seus funcionários se volta — um verbo de reviravolta, não o verbo do endurecimento que atravessou as dez pragas. É a única vez no livro em que o Êxodo mostra a decisão daquele rei por dentro, e é também o único lugar em que se recusa a dizer quem a produziu.

E o que a corte lamenta tem nome exato: não os mortos, não a terra arrasada, não o gado, mas a perda do serviço.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem levou a notícia ao palácio

O versículo não diz. E essa lacuna incomodou os leitores antigos o bastante para que eles produzissem três respostas diferentes, registradas lado a lado na Mekhilta de Rabi Yishmael ("a medida", coletânea rabínica de comentários ao Êxodo, compilada por volta do século III).

Primeira resposta: foram os homens que Faraó mandou junto. A licença concedida em Êxodo 12:31 não teria sido dada às cegas: saiu com fiscais, encarregados de conferir se a caravana voltava. Rashi (Shelomo Yitschaki, rabino francês do século XI, o comentarista judaico mais lido) adota essa resposta e monta com ela a única cronologia detalhada que a tradição antiga deixou deste ponto: os fiscais acompanham o povo durante os três dias de caminho que Moisés havia pedido em Êxodo 3:18; ao ver que ninguém retorna, voltam e informam o rei no quarto dia; a perseguição consome o quinto e o sexto; na noite do sétimo o exército entra no mar.

Segunda resposta: o Egito tinha postos de observação. A Mekhilta diz apenas isso — havia torres de vigia, e delas se viu o movimento. É a resposta mais econômica e dispensa fiscais: o país guardava a entrada leste com uma linha de fortes e postos de água, e de lá se enxergava quem passava.

Terceira resposta: foi Amaleque quem contou. Esta é a mais estranha, e o nome não é escolhido ao acaso. Amaleque aparece como inimigo de Israel em Êxodo 17:8, poucas semanas depois deste episódio, atacando o povo no deserto. A resposta da Mekhilta antecipa aquele papel: se Amaleque vai ser o delator do deserto, ele já era o delator do Egito. É leitura, não informação.

A objeção de Nachmânides, que muda a pergunta

Nachmânides (Moshe ben Nachman, rabino catalão do século XIII, também chamado Ramban) registra a cronologia de Rashi e então propõe outra coisa, pelo sentido simples do texto: o que chegou ao palácio não foi um relatório de prazo vencido, e sim a posição em que o povo acampou. Dois versículos antes, Deus disse que Faraó leria aquela posição como desorientação — "estão perdidos na terra". Israel acampa onde foi mandado acampar, num lugar sem saída, e é essa notícia que sobe ao rei. Nachmânides reforça o argumento com Êxodo 14:8: saíram "de mão levantada", com estandarte e com música, do modo como sai quem foi libertado — e não do modo como sai quem pretende voltar ao trabalho na semana seguinte.

O que se perde quando uma força de trabalho desaparece

Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX e organizador de um comentário coletivo) e Benson (Joseph Benson, ministro metodista inglês do século XVIII) fazem a mesma conta: o Egito não havia calculado o que a saída de centenas de milhares de trabalhadores faria com a economia do país, e parte deles era mão de obra especializada. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) tira daí a consequência que o versículo registra: o abalo não foi só do rei. Atingiu todas as classes que se serviam daquele trabalho, e é por isso que o texto fala do coração de Faraó e dos seus servos.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quando foi avisado ao rei do Egito"

Ninguém avisa. A frase hebraica está numa forma passiva sem sujeito: foi avisado, e pronto. O texto podia nomear o portador em duas palavras, e não o fez.

A consequência é grande. Entre Êxodo 12:33, onde os egípcios empurravam o povo para fora, e este versículo, nada mudou no mundo. Ninguém atacou o Egito. Não houve praga nova, sinal novo, exigência nova. A única diferença é que o rei agora sabe de uma coisa — e é dessa informação que sai um exército.

Há ainda o título usado. Aqui é "o rei do Egito", e três palavras depois o mesmo homem é "Faraó": este é um dos raríssimos lugares do livro em que os dois nomes aparecem na mesma frase. Quem recebe a notícia é o cargo administrativo; quem muda de coração é a pessoa. O Êxodo não comenta a divisão, e ela está no texto.

"que o povo tinha fugido"

Aqui está o problema, e ele é frontal: Israel não fugiu. Segundo Êxodo 12:31 o rei mandou chamar Moisés e Arão de noite e ordenou que saíssem; segundo Êxodo 12:33 os próprios egípcios apertavam o povo para que se apressasse. Quem manda sair não é abandonado às escondidas.

Por que, então, "fugido"? Há três respostas em circulação, e cada uma cobra um preço.

Primeira leitura: a palavra é do informante, não do texto. O versículo registra o conteúdo de um aviso, não o que o Êxodo afirma ter acontecido — e a palavra está dentro da oração que começa por "que", isto é, dentro da fala. Contra essa leitura pesa que o Êxodo nunca avisa que a informação fosse falsa.

Segunda leitura: a licença era temporária, e o que virou fuga foi a permanência. É a leitura de Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) e de Matthew Poole (teólogo inglês do século XVII): o rei concedera uma ausência com prazo, e os informantes viram a mudança de rumo. "Fuga" não seria erro nem calúnia, e sim a descrição correta do que um combinado se tornou depois de vencido o prazo. O custo é supor um prazo que o texto nunca enuncia.

Terceira leitura: o livro guarda duas memórias do mesmo episódio, e a costura aparece. Uma expulsão e uma fuga são coisas diferentes, e o Êxodo narra as duas sem harmonizá-las. É a leitura de quem estuda a formação do texto, e ela não precisa de prazo inventado nem de informante mentiroso. O preço é explicar o texto por hipótese sobre a sua composição, que é reconstrução e não dado.

As três são possíveis e o versículo não permite decidir. O que se afirma sem escolher nenhuma é o efeito: o Egito precisa que aquela saída tenha sido uma fuga. Se foi expulsão, não há nada a recuperar; se foi fuga, há fugitivos, e atrás de fugitivos se manda gente.

A mesma palavra descreveu a fuga de Moisés em Êxodo 2:15, e a diferença é de voz: lá quem foge é o sujeito da frase e o livro afirma por conta própria; aqui a palavra está na boca de terceiros.

"o coração de Faraó e o dos seus servos se voltou contra o povo"

Durante dez capítulos o Êxodo descreveu o que se passava dentro daquele rei com um vocabulário fixo: o coração endurece, fica pesado, fica firme. São verbos de resistência, de material que não cede, e têm tratamento próprio nos versículos onde aparecem — Êxodo 4:21, 7:3, 9:12, 10:1, 10:20 e 11:10 entre outros. Nenhum deles está aqui.

O verbo deste versículo é o da reviravolta: virar de cabeça para baixo, trocar uma coisa pelo seu oposto. É a palavra da destruição de Sodoma e a da cidade que Jonas anuncia que será "revirada". A diferença entre os dois grupos é grande: um coração endurecido continua no mesmo lugar, apenas não cede; um coração revirado está no lugar contrário ao de antes.

O que o texto descreve, portanto, não é teimosia. É mudança de opinião. Três dias antes aquela corte queria Israel fora do país com urgência; agora quer Israel de volta com urgência. Os dois desejos são sinceros e são opostos, e o versículo não diz que um deles era falso. Repare de quem é o coração: do rei e dos seus funcionários — os mesmos que em Êxodo 10:7 tinham pressionado o trono a soltar Israel. Quem pediu a soltura pede a perseguição, e o Êxodo não comenta nenhuma das duas falas.

Repare também no que a virada não desfaz. Um coração que endurece recusa conceder; este já concedeu, e o que ele faz agora é ir buscar de volta. A diferença tem peso na própria cena: em Êxodo 12:31 o rei ordenou que saíssem, e ordem de rei egípcio não tinha instância acima para revogá-la — a não ser o próprio rei. É isso que o versículo mostra acontecendo, e é a única vez no livro em que ele desfaz uma decisão já cumprida. A palavra "coração", aliás, está no singular, com dois donos: um coração só para o rei e para os seus funcionários.

E há o ponto mais fácil de atropelar: o verbo está numa forma que não nomeia quem virou o coração. Não se lê "Faraó virou o seu coração" nem "Deus virou o coração de Faraó" — lê-se que o coração se voltou, forma que serve tanto para "mudou por si" quanto para "foi mudado". Isso importa porque o capítulo está cercado de afirmações explícitas em sentido contrário. Em Êxodo 14:4 Deus diz: "eu tornarei firme o coração de Faraó, e ele os perseguirá". Em Êxodo 14:8 o texto confirma: "o SENHOR tornou firme o coração de Faraó". Entre uma declaração e outra, no único versículo em que a decisão é mostrada por dentro, o Êxodo usa outro verbo e cala o agente. Não é possível decidir se a forma esconde Deus ou se descreve um cálculo humano; o que se afirma é que o livro tinha as duas maneiras de dizer à mão e escolheu a que não decide.

"Que foi isso que fizemos"

A pergunta não é pergunta: é a fórmula fixa com que a Bíblia hebraica repreende alguém, aqui posta na primeira pessoa do plural, de modo que a corte usa contra si mesma o instrumento de acusar. O par que ela forma com a queixa do povo em Êxodo 14:11, seis versículos adiante, tem tratamento próprio no estudo daquele versículo.

O que sobra para este lugar é o que a frase deixa de lado. Matthew Poole formulou-o com precisão: os que nunca se arrependeram dos seus atos maus arrependem-se de coração do único ato bom que praticaram. A observação é dele; o texto apenas registra uma corte que classifica como erro a sua própria capitulação — e nenhum dos funcionários discorda.

"deixando Israel de nos servir"

O verbo é o do livro inteiro. "Deixar ir" é a palavra que Moisés repetiu diante do trono desde Êxodo 5:1 e que o trono negou em Êxodo 5:2 e em todas as rodadas seguintes. Faraó gastou nove capítulos recusando esse verbo, e agora o conjuga em primeira pessoa, como coisa feita, para dizer que se arrepende.

E repare no que ele não menciona. Não menciona a noite em que morreram os primogênitos do país. Não menciona o granizo, a lavoura, os rebanhos, as trevas. Não menciona o próprio filho. O estudo de Êxodo 1:10 já mostra que o interesse do Egito naquele povo era mão de obra; o que este versículo acrescenta é que o interesse sobreviveu a tudo. Depois de dez desastres, a única perda que arranca da corte uma frase de arrependimento é a perda do serviço. Que a palavra escolhida para nomeá-la seja a mesma que o povo vai conjugar em Êxodo 14:12, ao pedir para servir de novo aos egípcios, é assunto tratado ali.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O rei do Egito, chamado Faraó na mesma frase

A Bíblia hebraica nunca dá o nome deste homem. Chama-o pelo cargo — Faraó — ou pela função — rei do Egito —, e este versículo é um dos poucos lugares em que usa os dois em sequência. Ele é o mesmo personagem de Êxodo 5:2, o que perguntou "quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz?", e o mesmo que em Êxodo 12:31 pediu que o abençoassem.

Os servos de Faraó

Não são empregados domésticos. A palavra hebraica traduzida por "servos" cobre, quando aplicada a um rei, o corpo de funcionários do Estado: ministros, chefes de repartição, comandantes, a gente com acesso ao palácio.

Este grupo tem uma pequena biografia no livro. Em Êxodo 9:20 alguns deles "temeram a palavra do SENHOR" e recolheram servos e rebanhos para dentro das casas antes do granizo — a única vez em que o Êxodo distingue egípcios bons de egípcios teimosos. Em Êxodo 10:7 é esse corpo que confronta o rei e pede a soltura de Israel, dizendo que o país estava perdido. Neste versículo eles mudam de posição.

O povo — os dois povos

A palavra hebraica traduzida por "povo" aparece duas vezes aqui, e nas duas designa Israel: "o povo tinha fugido", "se voltou contra o povo". No versículo seguinte a mesma palavra muda de dono e passa a designar os egípcios que Faraó leva consigo. Em duas linhas, "o povo" é primeiro o fugitivo e depois o perseguidor.

5. Pontos de Ensino

Quem cede sob pressão não decidiu nada

A soltura de Israel foi concedida numa noite de luto nacional. Passada a noite, a concessão não tinha nenhum apoio: nem juramento, nem documento, nem terceiro encarregado de cobrar, nem convicção de quem a fez. O Êxodo não explica o desfecho e não precisa: uma decisão sustentada só pela dor desaparece com a dor.

O conteúdo de um arrependimento diz o que a pessoa valoriza

A corte se arrepende, e é possível ler na frase dela a lista exata do que lhe importa. Não aparecem os mortos, a lavoura destruída, os rebanhos, as trevas nem o próprio filho do rei. Aparece o serviço perdido. Um arrependimento é uma declaração de preferências, e este declara as suas sem disfarce.

Endurecer e virar não são a mesma coisa

Boa parte da pregação sobre este capítulo trata o versículo como "mais uma vez o coração endurecido". O texto não usa aquele vocabulário aqui. Endurecer é não ceder; virar é passar para o lado contrário. O Egito não está resistindo a um pedido — está desfazendo uma concessão já cumprida, o que é um ato diferente e mais grave.

6. Aspectos Filosóficos

Faraó deixou Israel ir. Três dias depois pergunta: "Que foi isso que fizemos?" O ato é o mesmo, ele sabia o que estava fazendo quando o fez, e agora não reconhece a própria decisão. O problema filosófico que isso levanta não é de psicologia — é de identificação: quantas coisas diferentes uma pessoa faz quando faz uma coisa só?

Davidson e o efeito acordeão

O filósofo norte-americano Donald Davidson (1917-2003) tratou desse problema em dois textos que se completam, Actions, Reasons, and Causes ("Ações, razões e causas", artigo de 1963) e Agency ("Agência", de 1971). A tese de que precisamos aqui é a seguinte: uma ação é sempre um evento único, mas admite descrições em número indefinido, e essas descrições não são equivalentes entre si.

O exemplo clássico da tradição a que Davidson pertence é o do homem que move o braço: ele aciona a bomba, enche o reservatório, abastece a casa e — sem saber — envenena os moradores, porque a água está contaminada. Um só movimento, quatro descrições verdadeiras. Davidson chamou de efeito acordeão a propriedade de essas descrições se expandirem e se contraírem.

Daí sai a consequência que interessa. Uma razão explica uma ação sempre sob uma descrição determinada, e nunca sob todas. O homem tinha razão para encher o reservatório; não tinha razão nenhuma para envenenar ninguém. A mesma ação é intencional debaixo de uma descrição e não é debaixo de outra.

O que acontece com a decisão de Faraó

Aplique isso ao versículo. Na noite de Êxodo 12:31, a corte fez uma coisa que tinha, para ela, uma descrição clara: pôr fim ao desastre. Debaixo dessa descrição havia razão de sobra, e a decisão foi racional — nada mais racional do que interromper aquilo. Três dias depois chega um relato, e o relato traz outra descrição do mesmo ato: entregar a mão de obra do país. Debaixo desta descrição não há razão nenhuma, e a corte pergunta o que foi que fez.

Por que isso não é a mesma coisa que hipocrisia

A leitura corrente do versículo é moral: Faraó é falso, prometeu e não cumpriu. O desenho de Davidson mostra que a acusação de falsidade não é necessária para explicar nada do que está escrito — um agente inteiramente sincero nas duas ocasiões produz exatamente esta sequência, desde que entre elas mude a descrição dominante do ato. E aí está a parte incômoda, porque não vale só para tiranos: a pergunta "que foi isso que fizemos?" é feita todos os dias por gente que não mentiu em nenhum dos dois momentos.

Há um limite, e ele é do lado da filosofia: Davidson descreve como identificamos ações e como razões as explicam, mas não oferece critério para dizer qual descrição de um ato é a correta. Sem esse critério, a pergunta do versículo não tem resposta — se "acabar com as pragas" e "perder a mão de obra" são duas descrições verdadeiras do mesmo ato, não há como decidir qual delas era o que a corte fez de fato.

E o guarda-corpo de sempre. Davidson escreve sobre filosofia da ação e não sobre o Egito; o Êxodo, pela sua parte, não formula nada disso. Ele registra um aviso, um verbo de reviravolta e uma pergunta de cinco palavras. Duas remissões fecham o assunto: a outra metade do problema — por que uma decisão tomada sob pressão não obriga quem a tomou depois que a pressão passa — está no estudo de Êxodo 8:15, e o próprio Davidson já aparece no acervo, em Mateus 16:7, por outra obra e outro problema, a tese de que metáforas não têm sentido além do literal.

7. Aplicações Práticas

Teste um arrependimento pelo que ele nomeia

A corte do Egito lamenta a perda do serviço, e não os mortos. Isso dá uma ferramenta de exame que funciona fora do versículo: quando alguém — inclusive você — diz que se arrepende de uma decisão, pergunte de que exatamente. O objeto do arrependimento é mais informativo do que a intensidade dele. Um pai que se arrepende de ter deixado o filho sair e menciona o desgaste do carro está dizendo qual das duas coisas pesa mais.

Desconfie do relato que muda o nome do que já aconteceu

O aviso que chega ao palácio não traz fato novo: traz outro nome para o mesmo fato. "Saíram" virou "fugiram", e a troca de palavra é o que produz o exército. Isso acontece em escritório, em família e em qualquer conversa em que alguém reabre um assunto encerrado, e a pergunta útil nesses momentos é curta: o que eu sei hoje que não sabia quando decidi? Se a resposta é "nada, só estou vendo a coisa de outro jeito", pode até ser motivo suficiente para mudar de rumo — mas é bom saber que o motivo é esse, e não um fato.

O que não dá para aplicar

Há um uso deste versículo que não se sustenta: transformá-lo em advertência sobre "não voltar atrás". O Êxodo não está ensinando firmeza de propósito. Aqui, voltar atrás é o erro; em Êxodo 13:17 Deus toma o caminho mais longo precisamente para que o povo não volte atrás. Em outras passagens, mudar de decisão é o acerto — Nínive muda e é poupada. O versículo não julga a mudança de ideia; ele mostra uma em particular, e o que a torna terrível é para onde ela vai.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se Faraó expulsou Israel, em que sentido Israel fugiu?

As duas coisas estão no livro e o Êxodo não as conciliou. A resposta mais econômica é que "fugiu" é a palavra do aviso, e um aviso descreve o que o informante entendeu — gente que partiu com licença e não voltou. Mas a resposta tem um custo: obriga a supor um prazo combinado que o texto nunca enuncia. Quem preferir dizer que o livro guarda duas memórias do episódio está fazendo uma hipótese sobre a formação do texto, não lendo uma informação dele. Nenhuma das saídas se impõe.

Quem virou o coração de Faraó?

A forma verbal usada aqui não nomeia agente: o coração se voltou, e ponto. Isso é desconfortável porque o versículo está entre duas declarações explícitas — Êxodo 14:4 e Êxodo 14:8 — em que Deus diz que tornará firme aquele coração. A leitura que atribui a virada a Deus tem apoio no contexto imediato; a que a atribui ao rei tem apoio na forma verbal e no motivo econômico que a própria fala declara. Não é possível decidir, e o incômodo é do texto, não do leitor.

O arrependimento de Faraó é sincero?

A pergunta costuma ser feita com outra intenção — a de saber se ele estava arrependido dos seus crimes. Não está: nada na frase dele menciona os mortos, a terra arrasada ou o próprio filho. O que ele lamenta, com sinceridade aparente, é a perda do serviço. A honestidade exige separar as duas coisas: um arrependimento pode ser inteiramente sincero e ser, ao mesmo tempo, sobre a coisa errada.

9. Conexão com Outros Textos

O versículo gêmeo, no Gênesis

Gênesis 31:22 — "No terceiro dia, Labão foi avisado de que Jacó havia fugido."

A frase hebraica repete a estrutura desta: o mesmo verbo passivo do aviso, a mesma conjunção, o mesmo verbo de fugir. Só mudam os nomes. E o que se segue também se repete — o antigo patrão junta gente, sai atrás, alcança o fugitivo e o interpela. A diferença é o tamanho: um sogro com os parentes dele, e um Estado com o corpo de carros.

A mesma frase, seis versículos adiante, na boca do povo

Êxodo 14:11 — "E disseram a Moisés: 'Foi por não haver sepulturas no Egito que você nos tirou de lá para morrermos no deserto? Que foi isso que você fez conosco, tirando-nos do Egito?'"

A fórmula de repreensão da fala de Faraó reaparece ali na segunda pessoa, e as duas se referem ao mesmo acontecimento: o rei se arrepende de ter soltado, o povo se arrepende de ter sido solto. O par é desenvolvido no estudo de Êxodo 14:11.

As duas declarações que cercam este versículo

Êxodo 14:4 — "E eu tornarei firme o coração de Faraó, e ele os perseguirá; e serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, e os egípcios saberão que eu sou o SENHOR." E assim fizeram.

Êxodo 14:8 — "O SENHOR tornou firme o coração de Faraó, rei do Egito, e ele perseguiu os filhos de Israel; mas os filhos de Israel saíam de mão levantada."

Antes e depois, o texto atribui a Deus, sem rodeio, o endurecimento que produz a perseguição. No meio, este versículo mostra a decisão acontecendo, usa outro verbo e não nomeia quem agiu. Ler os três em sequência é a única maneira de ver o problema.

O salmo que diz quem virou aquele coração

Salmo 105:25 — "Ele virou o coração deles, para que odiassem o seu povo e agissem com astúcia contra os seus servos."

O dado mais forte deste conjunto, e é de vocabulário: o salmo usa a mesma dupla de palavras deste versículo — o verbo de virar aplicado ao coração — e põe Deus como sujeito explícito. Fala, porém, do começo da história, da geração que escravizou Israel, e não deste episódio. Duas coisas ficam: existe na Bíblia hebraica uma leitura antiga que atribui essa virada a Deus, e ela foi escrita com o verbo deste versículo. O estudo de Êxodo 1:10 examina o que o salmo faz com o começo do livro.

O mesmo coração virado, em outras duas direções

Oséias 11:8 — "Como poderei entregar você, Efraim? Como poderei abandonar você, Israel? Como poderei tratar você como Admá, fazer de você como Zeboim? O meu coração se virou dentro de mim, todas as minhas compaixões se acenderam juntas."

Lamentações 1:20 — "Veja, SENHOR, como estou angustiada; as minhas entranhas se revolvem, o meu coração se virou dentro de mim, porque me rebelei gravemente."

São as duas únicas outras passagens em que a Bíblia hebraica usa a forma verbal deste versículo com a palavra "coração". Em Oséias o coração que se vira é o de Deus, e vira da destruição para a compaixão; em Lamentações é o de Jerusalém arruinada. A mesma expressão serve para a reviravolta que salva e para a que condena — o verbo, por si, não carrega julgamento nenhum.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Quando foi avisado ao rei do Egito que o povo tinha fugido, o coração de Faraó e o dos seus servos se voltou contra o povo, e disseram: “Que foi isso que fizemos, deixando Israel de nos servir?”

Texto hebraico

וַיֻּגַּד לְמֶלֶךְ מִצְרַיִם כִּי בָרַח הָעָם וַיֵּהָפֵךְ לְבַב פַּרְעֹה וַעֲבָדָיו אֶל־הָעָם וַיֹּאמְרוּ מַה־זֹּאת עָשִׂינוּ כִּי־שִׁלַּחְנוּ אֶת־יִשְׂרָאֵל מֵעָבְדֵנוּ

Transliteração

vayyuggad le-melekh Mitsrayim ki varach ha-am, vayyehafekh levav Par'oh va-avadav el-ha-am, vayyomeru: mah-zot asinu ki-shillachnu et-Yisrael me-ovdenu.

Análise palavra por palavra

וַיֻּגַּד — vayyuggad. "E foi avisado."

Do verbo nagad, contar, informar. A forma é o Hufal — a voz passiva daquele tronco do hebraico que expressa "fazer alguém fazer algo" —, ao pé da letra "foi feito saber". Ela dispensa o sujeito: o hebraico não precisa dizer quem contou, e não diz. E é a construção padrão do relatório na Bíblia hebraica, a que aparece quando uma notícia sobe a alguém com poder — Gênesis 22:20, Gênesis 31:22, Gênesis 48:1, 2 Samuel 6:12.

לְמֶלֶךְ מִצְרַיִם — le-melekh Mitsrayim. "Ao rei do Egito."

O Êxodo alterna dois modos de designar este personagem: pelo cargo, Par'oh, e por este título administrativo. Neste versículo os dois aparecem, e a distribuição é limpa: o título recebe a notícia, o cargo tem o coração virado.

כִּי בָרַח הָעָם — ki varach ha-am. "Que o povo tinha fugido."

Ki introduz o conteúdo do que foi dito. Varach é o Qal — a forma simples e ativa do verbo hebraico — de barach, fugir. É o verbo de quem escapa de um poder que o retinha: Jacó em Gênesis 31:20-22, Moisés em Êxodo 2:15, Davi em 1 Samuel 19:12, Jonas em Jonas 1:10. Não é o verbo de viajar; é o de escapulir.

וַיֵּהָפֵךְ — vayyehafekh. "E se voltou."

A raiz é hafakh: virar, dar volta a, pôr do lado contrário. O campo semântico vai da ação doméstica — virar um bolo na assadeira, em Juízes 7:13 — até a destruição total: é o verbo da ruína de Sodoma em Gênesis 19:25, o do anúncio a Nínive em Jonas 3:4 e o do cajado que vira cobra em Êxodo 7:15. A forma aqui é o Nifal, a voz passiva e reflexiva do hebraico, que pode significar "foi virado" ou "virou-se" — o idioma não obriga a escolher, e nenhum agente é nomeado.

לְבַב — levav. "O coração."

O hebraico tem duas formas para coração, lev e levav; esta é a mais longa. Está no singular, embora tenha dois donos — o rei e os funcionários. Na antropologia hebraica o coração é a sede do pensamento e da decisão: virar o coração de alguém é mudar o que ele resolveu, não o humor dele.

A combinação hafakh + lev, no cânon inteiro

A dupla de palavras aparece cinco vezes na Bíblia hebraica, e nunca mais no Pentateuco depois daqui:

Êxodo 14:5, na forma passiva-reflexiva e sem agente — este versículo. Salmo 105:25, na forma ativa, com Deus por sujeito: "ele virou o coração deles", aplicado à geração que escravizou Israel. 1 Samuel 10:9, na forma ativa, com Deus por sujeito e resultado favorável: Saul recebe outro coração ao ser feito rei. Oséias 11:8, na mesma forma passiva-reflexiva deste versículo, e o coração é o de Deus. Lamentações 1:20, também na forma deste versículo, aplicada à Jerusalém destruída.

Duas conclusões. A expressão não pertence ao vocabulário do endurecimento, cujos verbos são outros. E quando a Bíblia quis dizer que Deus virou um coração, disse na forma ativa e nomeou o sujeito — aqui a forma é a outra. Isso não prova que Deus não esteja por trás, já que as duas ocorrências passivas restantes descrevem viradas espontâneas; mostra que o Êxodo tinha à mão a construção que nomeia o agente e não a usou.

מַה־זֹּאת עָשִׂינוּ — mah-zot asinu. "Que foi isso que fizemos."

Ao pé da letra, "o que é isto que fizemos", com o verbo asah no Qal perfeito, primeira pessoa do plural. A combinação mah zot com "fazer" é fórmula fixa de censura, examinada no estudo de Gênesis 26:10; o que é próprio deste lugar é a pessoa do verbo, porque em todas as demais ocorrências ela está na segunda.

כִּי־שִׁלַּחְנוּ — ki-shillachnu. "Deixando... ir"; ao pé da letra, "porque soltamos".

Shalach no Piel, o tronco intensivo do hebraico. No Qal significa "enviar"; no Piel, "mandar embora", "soltar", "dar licença de partir". É o verbo do livro, a exigência repetida diante do trono de Êxodo 5:1 em diante, e é o termo jurídico de alforria em Deuteronômio 15:12 e Jeremias 34:9-11. Aqui está no perfeito, primeira pessoa do plural.

מֵעָבְדֵנוּ — me-ovdenu. "De nos servir."

Rashi fez questão de precisar a gramática: a palavra é um verbo com objeto, e não um substantivo. Significa "de servir-nos", e não "do nosso serviço" — que em hebraico seria me-avodatenu. A diferença é que a corte não lamenta a perda de um setor da economia; lamenta a perda de gente que fazia alguma coisa para ela.

E o verbo é o da ambiguidade central do livro: avad cobre tanto o trabalho forçado quanto o culto — é a palavra da escravidão em Êxodo 1:13-14 e a do serviço a Deus no pedido de Moisés. A disputa do Êxodo não é entre servir e não servir, é sobre a quem.

11. Conclusão

Do que foi examinado, três conclusões se impõem.

A primeira é que este versículo não é mais um episódio de teimosia, e chamá-lo assim apaga o que ele tem de próprio. Durante dez capítulos o Êxodo descreveu um coração que não cedia. Aqui ele descreve um coração que passou para o lado oposto ao que já havia tomado. São operações diferentes: uma recusa conceder, a outra desfaz o que foi concedido. E a segunda só é possível depois da primeira ter sido vencida.

A terceira é a mais dura, e sai da última frase do versículo. Uma corte que atravessou dez desastres, enterrou os seus primogênitos e viu o país parar tem, a essa altura, uma longa lista de coisas de que se arrepender. Ela se arrepende de uma só: de ter perdido quem trabalhava para ela. Não há como saber se aquela gente lamentava as outras perdas em particular; o que está registrado é o que foi dito em voz alta, no conselho, como motivo de ação. E o motivo de ação é a mão de obra.

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Êxodo 14:5

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📖 Versículos comentados
Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%