Então ele preparou o seu carro e levou consigo o seu povo.
1. Introdução
Onze palavras em hebraico, e dois verbos: um rei atrela o carro e leva o povo consigo.
O primeiro verbo é o de amarrar, e a tradição rabínica mais antiga insiste num detalhe de sujeito — foi ele mesmo que atrelou, embora houvesse ofício para isso. O segundo é o de tomar, e o que ele toma não se chama "exército" nem "tropa": chama-se o seu povo, a mesma palavra que o versículo anterior usou três vezes para Israel.
Repare também no que desapareceu: do versículo 5 para o 6 não há mais deliberação, nem funcionários falando, nem pergunta — há arreios.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem atrelava o carro de um rei do Egito
Havia um cargo para isso, e não era pequeno. O Egito do Império Novo mantinha um corpo de funcionários dedicados aos cavalos e aos veículos da coroa: condutores do carro do rei, primeiros condutores, chefes de cavalariça, supervisores dos cavalos. O título de condutor do carro real aparece em túmulos e em inscrições de gente que fez carreira nele e se orgulhava de dizê-lo. Não era função de servo anônimo — era ofício de confiança, porque quem conduzia o carro ficava de pé ao lado do rei em campanha, com as rédeas nas mãos e a vida dele nas costas.
E a máquina por trás disso era grande. As escavações alemãs em Qantir, no delta oriental — o sítio da cidade que os textos egípcios chamam de Pi-Ramessés, capital de Ramessés II —, conduzidas desde 1980 por Edgar Pusch e pela equipe do museu de Hildesheim, desenterraram a maior cavalariça antiga já encontrada: cerca de dezessete mil metros quadrados, seis fileiras de galpões idênticos abertos para um pátio, com capacidade estimada em quatrocentos e sessenta a quinhentos cavalos. O piso de cada baia era inclinado, com um poço no ponto baixo para recolher urina — e Pusch levanta a hipótese de que o líquido fosse aproveitado na tinturaria, no curtimento do couro e na adubação. No mesmo complexo apareceram uma oficina de carros e a maior fundição de bronze conhecida do Egito antigo.
Isso é um dado sobre a escala do que este versículo põe em movimento. Um rei que sai para a guerra em carro não pega um veículo e dois cavalos: mobiliza uma instalação industrial com oficina, forja, ferreiros, condutores e quinhentos animais para alimentar e tratar. O Êxodo não descreve nada disso, e é justamente por isso que convém saber que existia: a frase "preparou o seu carro" é curta porque tudo o que ela pressupõe era óbvio para quem a ouviu.
Por que o rei ia em pessoa
Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX e organizador de um comentário coletivo) registra a prática: os reis egípcios quase sempre conduziam eles mesmos os seus exércitos à batalha, e os da época ramessida iam num carro de dois cavalos acompanhados de um único assistente, que fazia o papel de condutor. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) situa a mudança: a partir da décima oitava dinastia, o carro é o veículo de guerra do soberano egípcio.
Um cuidado de método é obrigatório aqui. O que sobrou daquele mundo são relevos de templo e textos oficiais, e nos dois o rei aparece sempre à frente, sempre vencendo: isso é convenção de representação, não relatório de campanha. O que se pode afirmar é que a ida pessoal do rei à guerra era o modelo oficial daquela cultura, e que este versículo cabe dentro dele.
O detalhe que os rabinos não deixaram passar
Se havia cargo para atrelar, quem atrelou? A Mekhilta de Rabi Yishmael ("a medida", coletânea rabínica de comentários ao Êxodo, do século III) responde em duas palavras: ele mesmo. E explica por quê o detalhe importa: é costume dos reis ficar de pé enquanto outros aparelham e atrelam o carro; aqui, o próprio Faraó atrelou e aparelhou. O texto acrescenta que, ao ver aquilo, os nobres egípcios se levantaram e fizeram o mesmo.
Rashi (Shelomo Yitschaki, rabino francês do século XI) adota a leitura sem hesitar. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático espanhol do século XII) recusa: para ele a frase diz que o rei mandou aparelhar, que é o modo normal de o hebraico registrar a ação de quem manda. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) resume a divergência e fica com Ibn Ezra; Ellicott também.
Não é possível decidir pela gramática — o hebraico usa a mesma forma para quem faz e para quem manda fazer. O que se pode dizer é que a leitura rabínica descreve a mais estranha das duas cenas: um monarca de mãos em couro e fivela, num serviço que havia um ofício inteiro para prestar.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então ele preparou o seu carro"
O verbo hebraico não é "preparar". É amarrar — o verbo de atar um fardo, de prender um animal e, num uso que atravessa a Bíblia, de prender uma pessoa. Aplicado a um carro, o sentido é técnico: atar os cavalos ao veículo. Em português, atrelar.
A tradição rabínica lê o sujeito ao pé da letra: foi o próprio rei que fez isso, com as próprias mãos, embora houvesse ofício para tanto. Os comentaristas cristãos preferem "mandou aparelhar". O hebraico admite as duas coisas, e a discussão está no item 2. O que interessa à leitura do versículo é outra coisa: nas duas leituras, o texto atribui o ato ao rei e a mais ninguém. Não há um servo nomeado, não há uma ordem citada, não há intermediário. Depois de um capítulo e meio em que tudo passava por funcionários, conselheiros, Moisés e Arão, a frase tem um sujeito só.
O carro que é dele — e a palavra que o texto escolhe
"O seu carro", com sufixo de posse: o veículo pessoal. Mas a palavra empregada não é a que o Gênesis usa para o carro em que José desfila, e sim a que serve tanto para um carro quanto para o corpo de carros inteiro — razão pela qual, no versículo seguinte, a mesma palavra conta seiscentos deles e em seguida abrange "todos os carros do Egito". A palavra que nomeia o veículo do rei é a que nomeia a arma do país, e a distribuição dela no capítulo está no item 10.
"e levou consigo o seu povo"
Aqui está o achado do versículo, e ele depende de uma palavra.
O hebraico não diz "o seu exército". Diz "o seu povo" — e é a mesma palavra que o versículo anterior usou três vezes, sempre para Israel: "o povo tinha fugido", "se voltou contra o povo". Em duas linhas, o mesmo substantivo troca de dono. O povo que fugiu e o povo que sai atrás são, na língua do texto, a mesma categoria de coisa.
Isso não é sutileza de gramática. O livro poderia ter escrito "tomou a sua força armada", e usa esses termos poucos versículos adiante, em Êxodo 14:9 e 14:17. Escolhendo aqui a palavra de povo, ele arma uma cena de dois povos, e não de um povo perseguido por uma máquina militar. De um lado sai gente com os seus filhos; do outro sai gente com os seus carros. Nenhum dos dois grupos é descrito por outra coisa que não seja pertencer a alguém: é "o povo" que servia ao Egito, e é "o povo dele".
E há um jogo sonoro que a tradução não consegue guardar. As duas últimas palavras da frase, em hebraico, são quase idênticas — "o seu povo" e "com ele" têm exatamente as mesmas consoantes e diferem só na vogal. Lida em voz alta, a frase soa como uma palavra repetida: tomou o seu-povo com-ele. O efeito é de sobreposição: o povo e o rei colados num som só.
Não é possível decidir se o jogo é intencional, mas ele é audível e produz o sentido que a cena pede: aquela gente vai porque ele vai.
Rashi e o discurso que o texto não registra
Como um rei arrasado convence o seu povo a marchar? A Mekhilta preencheu o silêncio com um discurso, e Rashi o reproduz. Faraó diria: fomos feridos, eles levaram o nosso dinheiro, e ainda os deixamos ir livres. Venham comigo, e eu não farei com vocês como os outros reis: é costume dos outros reis os súditos irem à frente na batalha, mas eu irei à frente de vocês. É costume dos outros reis tomarem primeiro a parte que quiserem do despojo, mas eu serei igual a vocês na divisão.
O midraxe não inventou isso do nada: ele apoia cada promessa num versículo posterior. A de ir à frente estaria confirmada em Êxodo 14:10, onde o texto diz que "Faraó se aproximou" com um verbo que, ao pé da letra, significa "aproximou a si mesmo" — o rei se adiantando ao próprio exército. A da divisão igual estaria confirmada em Êxodo 15:9, onde a fala atribuída aos egípcios começa por "repartirei o despojo".
É leitura, e a régua exige dizer isso com clareza: o Êxodo não registra discurso nenhum aqui. Ele registra dois verbos. O que a leitura rabínica percebe, e vale guardar, é que o versículo tem um problema real — não se leva um país à guerra sem dizer nada — e que o texto passa por cima dele sem uma palavra.
O que o versículo cala
Três ausências, e cada uma pesa. Não há consulta a deus nenhum: nem oráculo, nem sacerdote, nem sinal favorável, nada do aparato que precede uma campanha em qualquer relato militar da época. Não há ordem de mobilização dirigida a comandantes. E não há alvo declarado — o versículo não diz para onde ele vai, nem o que pretende fazer quando chegar.
O primeiro verbo do versículo é de amarrar, e o segundo é de tomar. Entre os dois não cabe nenhuma frase.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Faraó, sozinho na frase
O versículo não repete o nome: o sujeito dos dois verbos é o "ele" que vem do versículo anterior. É a primeira vez no capítulo em que o rei age sem ninguém ao lado — no versículo 5 o coração dele virou junto com o dos funcionários, e no 7 os oficiais reaparecem. Aqui ele está só, e o que faz é trabalho de mão.
Este é também o último versículo do Êxodo em que ele faz alguma coisa por vontade própria. De Êxodo 14:8 em diante, quem move o rei é o texto: o SENHOR tornou firme o coração dele, e ele perseguiu.
O povo dele
Quem são as pessoas levadas por este verbo, o Êxodo não diz. Os comentaristas leem "os seus guerreiros", e a leitura é razoável — o versículo seguinte fala de seiscentos carros e de oficiais. Mas a palavra é a de povo, e no capítulo inteiro ela aparece aplicada a Israel dezesseis vezes e a este grupo só aqui. Da população egípcia o livro já contou duas coisas: em Êxodo 9:20 uma parte dela temeu a palavra do SENHOR e recolheu servos e rebanhos antes do granizo; em Êxodo 12:33 ela apertava Israel para que saísse logo. É gente dessa que sai atrás.
O carro
O objeto que o versículo nomeia primeiro é um veículo de duas rodas, aberto atrás, puxado por dois cavalos, feito para levar duas pessoas de pé. O estudo de Gênesis 41:43 descreve a máquina; o que interessa a este versículo é a posição dela na frase. O carro entra antes do povo, e recebe o verbo mais concreto dos dois.
5. Pontos de Ensino
O texto chama os dois lados pela mesma palavra
Israel é "o povo" e os egípcios que saem atrás são "o povo dele". Quem lê o capítulo esperando encontrar de um lado um povo e do outro um exército não encontra: encontra duas populações, e a diferença entre elas está nos carros, não na categoria. Isso importa para o que vem depois, porque os que morrem no mar em Êxodo 14:28 não são uma abstração militar.
Quem manda mobilizar precisa aparecer
O rei vai em pessoa, e o midraxe entendeu por que: um povo arrasado não marcha atrás de uma ordem escrita. O que a Mekhilta imagina como discurso — eu vou à frente, a divisão será igual — é a lista das concessões que um chefe precisa fazer quando pede aquilo que não tem direito de pedir. O Êxodo não registra o discurso; registra o rei atrelando o carro dele, e o gesto vale como discurso.
O Egito parte sem consultar deus nenhum
Numa cultura em que nenhuma campanha começava sem oráculo, o versículo não menciona templo, sacerdote, presságio nem promessa divina. É observável, e é uma ausência, não uma afirmação — o Êxodo nunca diz que a consulta não houve. O contraste com o outro lado da cena, porém, é total: Israel não tem carros e tem instrução; o Egito tem carros e não tem palavra nenhuma.
O verbo de amarrar é o mesmo de prender
Em hebraico, atrelar um cavalo e prender um homem se dizem com a mesma palavra. O Êxodo não faz nada com essa coincidência, e ela não deve ser transformada em mensagem. Mas registra-se o fato: o último ato voluntário do rei que passou o livro inteiro prendendo gente é descrito com o verbo de prender.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo diz que o rei levou consigo o seu povo. Não a sua guarda, não uma divisão, não um destacamento: o povo. Um Estado que resolve um problema seu convocando a população inteira para dentro dele é um objeto de reflexão filosófica por direito próprio, e o nome que o século XX deu a isso é mobilização total.
Jünger e a mobilização total
O escritor alemão Ernst Jünger (1895-1998) publicou em 1930 o ensaio Die totale Mobilmachung ("A mobilização total"), escrito a partir da experiência dele como combatente na Primeira Guerra. A tese é simples de enunciar e desconfortável de aceitar: a guerra moderna deixou de ser assunto de exércitos. Enquanto guerrear era ofício de uma classe, o resto da sociedade seguia a vida ao lado do conflito; quando a guerra passou a depender de fábricas, de transporte, de matéria-prima e de moral coletiva, a distinção entre frente e retaguarda acabou. Não há mais civis em sentido pleno, porque tudo o que a população faz passa a ter valor militar.
Jünger chamou de mobilização total esse estado em que a energia inteira de um país é convertida em capacidade de combate, e observou uma coisa que interessa aqui: a mobilização total não é uma decisão a mais dentro da guerra — é o que transforma um conflito em outro tipo de coisa. Depois dela, a derrota não é a de um exército; é a de todos.
O que o versículo tem disso e o que não tem
Um rei que sai com a guarda real põe em risco a guarda real. Este rei sai com o povo dele, e com isso põe em risco o povo dele — o que Êxodo 14:28 vai confirmar, dizendo que das águas "não ficou nem um deles". A frase de onze palavras contém, em germe, a razão pela qual o desfecho do capítulo é uma catástrofe nacional e não uma derrota militar. O tamanho da perda foi decidido aqui, na escolha de quem levar.
E há um segundo ponto, que é o mais próprio de Jünger. Ele insiste que a mobilização total não se impõe só pela força: ela exige que a população se reconheça no esforço, que aceite a guerra como coisa sua. É exatamente o problema que a leitura rabínica do versículo tenta resolver, imaginando um rei que promete ir à frente e dividir o despojo em partes iguais. Um Estado que precisa do povo inteiro tem de negociar com ele — e o que negocia é a ideia de que a causa do trono é a causa de todos.
O limite, que é grande
Jünger escreve como testemunha e admirador da forma que descreve, e a ambiguidade política dele é conhecida e discutida. Usar o conceito aqui não é endossar a leitura que ele fazia do fenômeno; é aproveitar o que o conceito descreve bem. E o Êxodo, pela parte dele, não formula nada disso: escreve dois verbos, um objeto e uma preposição. A observação é do comentário, e o que a autoriza é a palavra que o texto escolheu — "povo", num lugar onde havia outras à mão.
7. Aplicações Práticas
Repare em quem você leva junto
O rei decide sozinho e parte com o povo dele. O prejuízo da decisão não fica com quem a tomou: fica com quinhentos condutores, com as famílias deles e com o país que perde tudo isso de uma vez.
A aplicação é direta e serve para qualquer escala. Quando uma resolução é tomada por uma pessoa e executada por muitas, a pergunta que ninguém faz é a única que importa: quem paga se der errado? Ela vale para o dono de empresa que aposta o caixa da folha, para o chefe de família que assume uma dívida sem conversar e para o dirigente que compromete uma equipe num prazo que ele não vai cumprir com as próprias mãos. O versículo não julga isso — ele mostra um caso em que a conta chegou inteira para quem foi levado.
O gesto convence mais do que o argumento
Um rei que atrela o próprio carro está dizendo alguma coisa sem falar. Os nobres, na leitura rabínica, levantam-se e fazem o mesmo — não porque foram persuadidos, mas porque viram.
Isso funciona nas duas direções, e é aí que a aplicação fica honesta. Quem manda e aparece obtém adesão que nenhuma ordem obtém; e essa adesão não depende de a causa ser boa. Aqui a causa era recapturar gente que tinha acabado de ser solta, e o gesto funcionou. Reconhecer o mecanismo é útil justamente para não confundir a força de um exemplo com a correção do que ele mobiliza.
O que não dá para aplicar
Há uma pregação corrente que lê neste versículo uma lição sobre "o inimigo vindo atrás de você depois da libertação". O versículo não sustenta isso: ele descreve um chefe de Estado organizando uma operação de recaptura de mão de obra, e o Êxodo não faz dele figura de coisa nenhuma. Aplicações tiradas por esse caminho dizem respeito a quem as faz, não ao texto.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Faraó atrelou o carro com as próprias mãos?
A tradição rabínica diz que sim e faz disso o ponto do versículo; Ibn Ezra, Gill e Ellicott dizem que a frase significa "mandou aparelhar". O hebraico não decide: a mesma forma verbal serve para quem faz e para quem manda fazer, e a Bíblia usa esse recurso o tempo todo — quando um rei "constrói" uma cidade, não é ele que assenta os tijolos. Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que o texto não nomeia nenhum outro agente, e que havia no Egito um ofício inteiro dedicado a essa tarefa.
Por que o texto diz "o seu povo" e não "o seu exército"?
O Êxodo não explica, e a pergunta merece ficar aberta em vez de resolvida. A leitura mais comum entre os comentaristas é que "povo" aqui vale por "guerreiros", o que é linguisticamente possível e combina com o versículo seguinte. A observação que sobra, porém, é que o mesmo capítulo usa os termos próprios de exército em Êxodo 14:9 e 14:17, e não os usa aqui. Quem quiser dizer que é escolha deliberada está fazendo uma leitura; quem quiser dizer que é indiferente também.
Quem eram os cavalos, se todos morreram na peste?
A objeção é antiga e é boa: Êxodo 9:6 diz que morreram todos os rebanhos do Egito. A resposta rabínica mais conhecida está ligada ao versículo seguinte e será tratada lá, porque é de lá que vem o número dos carros. Adiante-se só o essencial: a saída depende de Êxodo 9:20, que registra que uma parte dos servos de Faraó recolheu os animais para dentro das casas antes do granizo.
Por que o versículo não diz para onde ele vai?
Porque a informação já foi dada ao leitor e não ao personagem. Em Êxodo 14:2 Deus mandou Israel acampar num lugar determinado, e em Êxodo 14:3 anunciou como o rei leria aquela posição. Quem lê sabe onde o povo está; o versículo não precisa dizer que o rei também sabe. O destino aparece só em Êxodo 14:9, quando os egípcios alcançam o acampamento junto ao mar.
9. Conexão com Outros Textos
Os quatro que atrelaram por conta própria
A Mekhilta reuniu num único comentário os quatro lugares da Torá em que alguém aparelha o próprio animal ou o próprio carro tendo servos que podiam fazê-lo, e organizou-os aos pares, um contra o outro.
Gênesis 22:3 — "Na manhã seguinte, Abraão se levantou cedo, selou seu jumento e levou consigo dois de seus servos e Isaque, seu filho. Cortou lenha para o holocausto e partiu rumo ao lugar que Deus lhe havia indicado."
Gênesis 46:29 — "José preparou o seu carro e subiu a Gósen para encontrar seu pai Israel; e, ao apresentar-se diante dele, lançou-se ao seu pescoço e chorou longamente abraçado a ele."
Estes são os dois do lado bom, na leitura rabínica: Abraão apronta o animal pela honra de Deus, José apronta o carro pela honra do pai. O verbo hebraico é o mesmo dos dois lados, e em Gênesis 46:29 é exatamente o deste versículo — o que faz desta a única outra vez na Torá em que alguém "atrela o seu carro".
Contra eles, a Mekhilta põe dois: Balaão, que sela a jumenta para ir amaldiçoar Israel — Números 22:21 diz que ele se levantou de manhã, selou a sua jumenta e foi com os chefes de Moabe —, e este versículo. O par fica assim: a atrelagem de Abraão desfaz a de Balaão; a de José desfaz a de Faraó.
O estudo de Gênesis 22:3 examina a fórmula de partida e o paralelo com Balaão. O que se acrescenta aqui é o outro par, o dos carros, que só se completa neste versículo — e a observação de que, nos quatro casos, o gesto de aprontar o próprio veículo marca um homem que resolveu ir e não quer ser detido.
O carro do rei e o corpo de carros do país
Êxodo 14:17 — "E eis que eu tornarei firme o coração dos egípcios, e eles entrarão atrás deles; e serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército, nos seus carros e nos seus cavaleiros."
Êxodo 14:23 — "Os egípcios os perseguiram e entraram atrás deles, todos os cavalos de Faraó, os seus carros e os seus cavaleiros, até o meio do mar."
A palavra que neste versículo nomeia um veículo é a que nestes dois nomeia uma força inteira. É o mesmo substantivo hebraico, e é assim que o capítulo passa de um carro para todos eles sem trocar de vocabulário.
Êxodo 14:25 — "Tirou-lhes as rodas dos carros, e eles os conduziam com dificuldade. Então os egípcios disseram: 'Fujamos de diante de Israel, porque o SENHOR peleja por eles contra o Egito.'"
Único lugar do capítulo em que o Êxodo troca de palavra e usa a outra, a do veículo individual — e é o versículo em que o veículo individual quebra.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Então ele preparou o seu carro e levou consigo o seu povo.
Texto hebraico
וַיֶּאְסֹר אֶת־רִכְבּוֹ וְאֶת־עַמּוֹ לָקַח עִמּוֹ
Transliteração
vayye'sor et-rikhbo, ve-et-ammo laqach immo.
Análise palavra por palavra
וַיֶּאְסֹר — vayye'sor. "E atrelou."
Do verbo asar, no Qal — a forma simples e ativa do hebraico. O sentido básico é amarrar, atar, prender, e o campo dele vai do animal amarrado ao homem preso; o estudo de Gênesis 46:29 examina a raiz e as ocorrências. Aplicado a um veículo, o sentido é técnico: atar os cavalos à lança do carro.
O ponto gramatical deste versículo é outro, e é sobre o sujeito. A forma verbal não distingue quem faz de quem manda fazer, e por isso a tradição se dividiu: Rashi lê "ele mesmo", Ibn Ezra lê "mandou aparelhar". As duas são leituras legítimas do mesmo hebraico, e o texto não oferece critério.
אֶת־רִכְבּוֹ — et-rikhbo. "O seu carro."
O hebraico tem dois substantivos para carro, ambos formados sobre a raiz de rakhav, montar, cavalgar, andar sobre. Um é merkavah: designa o veículo, a peça individual, e é a palavra usada em Gênesis 41:43 para o carro em que José desfila e em Gênesis 46:29 para o carro que ele atrela. O outro é rekhev, a palavra deste versículo: ela serve para um carro e serve, com a mesma forma, para o corpo de carros inteiro — é o que a gramática chama de substantivo coletivo, aquele que designa um conjunto sem ir para o plural.
O Êxodo 14 usa rekhev nos versículos 6, 7 (duas vezes), 9, 17, 23 e 28. No versículo 7 o mesmo substantivo aparece contado — "seiscentos carros" — e em seguida abrangendo tudo: "todos os carros do Egito". E há uma única exceção no capítulo: em Êxodo 14:25 o texto troca para merkavah, no plural, para dizer que as rodas saíram dos carros. A palavra do conjunto atravessa o capítulo; a palavra da peça aparece no versículo em que a peça falha.
Não é possível decidir se a distribuição é intencional; os dois substantivos são em boa medida permutáveis no hebraico bíblico. O que se pode afirmar é que ela é regular dentro deste capítulo.
וְאֶת־עַמּוֹ — ve-et-ammo. "E o seu povo."
Am, "povo", com sufixo de posse de terceira pessoa. A palavra designa um conjunto humano ligado por origem comum, e é o termo que o Êxodo emprega para Israel do começo ao fim do livro — inclusive três vezes no versículo anterior. O hebraico tinha outros substantivos disponíveis para força armada: chayil, que este mesmo capítulo usa em Êxodo 14:9 e 14:17, e tsava, exército. Nenhum deles está aqui.
Repare na ordem das palavras. A frase hebraica é "e o seu povo tomou com ele" — o objeto vem antes do verbo, ao contrário do normal na prosa bíblica, que começa pelo verbo. Essa inversão é o recurso que o idioma usa para pôr ênfase num termo. O que está destacado, portanto, é justamente a palavra "povo".
לָקַח — laqach. "Tomou."
Verbo comum e de sentido largo: pegar, tomar, levar, receber, buscar. Está no Qal perfeito, terceira pessoa. É a palavra usada tanto para tomar uma coisa quanto para levar pessoas — e é a mesma que Gênesis 22:3 usa quando Abraão "levou consigo" dois servos e o filho.
עִמּוֹ — immo. "Com ele."
Preposição im, "com", mais o sufixo de terceira pessoa. E aqui está o detalhe sonoro do versículo, que nenhuma tradução guarda.
As duas palavras finais são ammo e immo. Em hebraico consonantal elas são idênticas — as mesmas três letras, na mesma ordem — e só se distinguem pela vogal da primeira sílaba, que o sistema de pontos acrescentado séculos depois marca. Lida em voz alta, a frase soa como uma palavra repetida, e o efeito é de colagem: o povo e o rei presos no mesmo som, no mesmo versículo em que o rei amarra cavalos a um carro.
É plausível que o jogo seja intencional e impossível demonstrá-lo, porque o hebraico produz coincidências desse tipo com frequência. O que fica é que ela existe e é audível.
11. Conclusão
A primeira conclusão é que este versículo decide o tamanho da catástrofe do capítulo. Não o mar, não o vento, não a coluna de nuvem: a escolha de quem levar. Um rei que sai com a guarda perde a guarda; este sai com o povo dele, e é por isso que o fecho do episódio, vinte e dois versículos adiante, pode dizer que não ficou nem um. A conta de Êxodo 14:28 começa a ser feita aqui.
A segunda é que o Egito, a partir daqui, para de pensar. No versículo anterior havia um conselho, uma pergunta e uma mudança de opinião; deste em diante o livro só registra movimento — atrela, toma, sai, persegue, alcança, entra. A última coisa que a corte do Egito faz com a cabeça é a pergunta do versículo 5; a primeira que ela faz com as mãos é amarrar cavalos. Entre as duas não há um argumento.
A terceira sai do vocabulário e é a mais incômoda. O texto chama os dois lados da cena pela mesma palavra. Não há, na língua do Êxodo, um povo de um lado e uma força militar do outro: há gente que pertencia ao Egito e gente que pertence a um rei, as duas designadas com o mesmo substantivo, separadas apenas por quem tem carros. Quem lê o capítulo como o triunfo de um povo sobre um exército está lendo uma oposição que o hebraico deste versículo se recusou a construir.













