E Faraó dirá dos filhos de Israel: ‘Estão perdidos na terra; o deserto os encerrou.’
1. Introdução
O versículo cita Faraó antes de Faraó falar. A frase que lhe é atribuída é uma avaliação militar, e ela está certa: um povo parado entre a água e o deserto não tem para onde ir, e o rei do Egito lê o mapa corretamente. O erro dele não está na leitura do terreno, está em supor que o terreno é tudo o que há na conta. A palavra traduzida por "perdidos" aparece três vezes em toda a Bíblia hebraica e não significa "errar o caminho", e a segunda metade da frase faz do deserto o sujeito de um verbo de trancar porta. É a única vez no capítulo em que o texto mostra o pensamento do inimigo por dentro.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quem fechou a porta, na cabeça de quem fala
A segunda metade da frase não diz que Israel se meteu num beco. Diz que o deserto os encerrou — alguém fez alguma coisa a eles.
Os leitores antigos notaram isso e responderam de modos diferentes. Sforno (Obadia Sforno, médico e comentarista italiano do século XVI) lê a frase como crédito dado a uma divindade: quem Faraó supõe ter parado Israel é Baal-Zefom, o deus em frente a cujo santuário o acampamento foi montado. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) registra uma tradição mais concreta e mais estranha — que os magos do Egito faziam imagens de bronze que tiravam força dos astros, e que Baal-Zefom era uma dessas estátuas, posta de modo que nenhum escravo fugido conseguisse passar diante dela. Na leitura dele, é por isso que o versículo seguinte diz que o povo "tinha fugido": só quando Israel passou daquele ponto os egípcios perceberam que a estátua não tinha funcionado.
O limite guardado por alguém
Essa ideia não era esquisitice egípcia. No mundo antigo o limite não era tratado como fato do terreno: era propriedade de alguém, e havia figura ou pedra no lugar para dizê-lo. Os romanos tinham um deus só para isso, Terminus, que era a pedra de divisa — recebia festa própria e sacrifício em cima da pedra, e deslocar o marco era ofensa religiosa, não litígio de vizinho. No Oriente Próximo o mesmo raciocínio aparece nas pedras de concessão de terra, com maldições escritas contra quem as mudasse, dirigidas a deuses nomeados.
O princípio comum importa para ler este versículo. Um limite era pessoal. Quem o atravessava não driblava uma linha: enfrentava o dono. Se um povo em fuga travava na borda, a explicação natural naquele mundo não era topografia — era que alguém não estava deixando passar. É esse raciocínio que Faraó faz, e é ele que os comentaristas reconstruíram.
E no chão, o que de fato prendia
A ironia é que ali o limite dispensava deus. Prendia por conta própria.
A faixa entre o delta e o Sinai não oferecia água a quem saísse do caminho conhecido. Havia poços, e eles estavam onde estavam; a distância entre um e outro definia o que era percurso possível e o que era percurso letal. Um corpo com crianças, velhos e rebanhos consome água todos os dias e não a pode carregar em quantidade útil — o gado bebe litros, e um animal sem beber não anda. Por isso um grupo daquele tamanho não podia improvisar rota: só existia ao longo da cadeia de aguadas, e sair dela não era uma opção arriscada, era uma opção inexistente.
Daí a consequência tática, que é o que dá peso à frase posta na boca do rei. Não era preciso cercar Israel. Bastava que estivessem parados num ponto em que a água à frente fosse salgada, o caminho lateral fosse deserto sem poço, e a única estrada praticável fosse a de volta — onde vinha o exército. O terreno faz o trabalho que de outro modo exigiria tropa, e um comandante experiente vê isso num relato de posição, sem precisar ir ao lugar.
Quem tinha esse conhecimento era justamente o Egito
A leitura do terreno atribuída a Faraó não é intuição: é ofício.
A aproximação leste do Egito era administrada — havia postos, havia registro de quem entrava e saía, e havia gente cujo trabalho era saber exatamente onde se podia passar com quantos animais. O dossiê dessa fronteira, com os documentos que a descrevem, tem dono no estudo de Gênesis 42:9.
É esse o fundo que torna a frase deste versículo verossímil, e não apenas retórica. Quando o rei diz que o deserto os encerrou, está dizendo algo que os funcionários dele podiam confirmar num mapa de serviço. A avaliação é profissional. O que falta nela é outra coisa.
3. Análise Teológica do Versículo
"E Faraó dirá dos filhos de Israel"
O rei é citado antes de abrir a boca. O Êxodo relata falas dele em quantidade, sempre depois de pronunciadas; aqui a frase vem no futuro, dentro de uma instrução a Moisés, e o conteúdo é o que se passa na cabeça de um homem que ainda não recebeu a notícia. É o único lugar do capítulo em que o pensamento do inimigo é mostrado por dentro — e não por confissão dele, mas por atribuição.
Que tipo de afirmação é essa? Pode ser simples previsão: Deus conhece o homem e antecipa a reação. Mas há duas leituras mais fortes.
Primeira: é a finalidade da manobra. Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI, o mais lido da tradição judaica) lê assim, ligando este versículo ao anterior: o povo voltou para que Faraó dissesse isto. Nessa leitura a frase não descreve o futuro, especifica o resultado que se quer obter — e o objeto da operação é uma opinião.
Segunda: é uma dedução reconstruída. Ibn Ezra mostra o raciocínio funcionando passo a passo: o rei tinha sido informado do destino, soube que a coluna entrou no rumo do deserto, soube depois que deu meia-volta, e concluiu o que qualquer um concluiria. Aqui a frase não é mistério nenhum; é o que um homem naquela posição diria com as informações que tinha.
As duas são compatíveis, e a de Rashi tem apoio no texto imediato: o versículo seguinte anuncia o que será feito com essa opinião.
O problema que a preposição cria, e que as traduções escondem
O hebraico não diz "a respeito de". Diz, ao pé da letra, que Faraó falará aos filhos de Israel.
Isso não pode ser. Faraó não está diante deles, não falará com eles, e o conteúdo da frase é uma observação sobre terceiros, não um recado. Rashi resolve apontando que aquela pequena palavra hebraica às vezes significa "sobre", e dá dois paralelos: em Êxodo 14:14, "o SENHOR pelejará por vocês" usa a mesma construção no sentido de "em favor de"; e em Gênesis 20:13, "diga de mim que é meu irmão", a construção significa "a meu respeito". Ibn Ezra confirma com o mesmo exemplo do Gênesis. A explicação é boa, e nossa versão a segue. O Targum Jônatas (paráfrase antiga da Torá em aramaico), por outro caminho, toma a preposição ao pé da letra e fornece interlocutores: Faraó disse isto a Datã e Abirão, israelitas que teriam ficado no Egito. É invenção reveladora — mostra que o problema foi sentido, e nomeia justamente os dois que se rebelariam contra Moisés em Números 16.
"Estão perdidos na terra"
: gente que se desorientou e não sabe onde está. A palavra hebraica, porém, não é a de errar caminho. Ela descreve um estado de quem não sabe o que fazer, e os dois únicos outros lugares da Bíblia onde aparece confirmam isso: numa delas o gado muge sem saber para onde ir porque não há pasto, e na outra é uma cidade inteira que fica assim depois de um decreto. Nenhum dos dois casos é sobre estrada errada. A análise da palavra e a discussão sobre a raiz dela estão no item 10.A diferença é importante porque muda o que o rei está afirmando. Ele não diz que Israel se enganou no mapa. Diz que eles não têm o que fazer — que estão numa situação sem lance seguinte. Ibn Ezra formula com precisão: são como alguém que não encontra quem o aconselhe e não sabe o que fazer.
E isso é verdade. É o ponto que faz deste versículo algo mais interessante do que arrogância de tirano. Israel, naquele lugar, de fato não tem lance. A avaliação do rei é correta sobre tudo o que ele pode observar; ela é falsa apenas porque há um fator fora do campo de observação dele. Faraó não erra ao ler; erra ao supor que a leitura está completa.
"o deserto os encerrou"
O sujeito da frase é o deserto, e o verbo é o de trancar. Não se diz que eles estão cercados: diz-se que o deserto agiu, fechando-se sobre eles. Uma paisagem recebe iniciativa, como se fosse um guarda.
Benson (Joseph Benson, metodista inglês do século XVIII) mantém a leitura física — estão entalados entre as rochas e o mar — e Sforno vai ao pensamento religioso do rei, em que quem fechou foi o deus daquele lugar. O texto não decide, e deixa claro apenas que, na cabeça de quem fala, aquilo não é acaso.
É a ironia mais fina do bloco. O rei acerta que há uma mão na jogada, e identifica a mão errada.
A leitura que faz do rei um profeta sem querer
A Mekhilta de Rabi Ismael (o comentário rabínico mais antigo sobre o Êxodo, do século III) afirma que Faraó falou sem saber o que estava dizendo: na superfície comentava a desorientação de um povo mal conduzido e, sem perceber, enunciava algo que se cumpriria. Para sustentá-lo, liga a sonoridade da palavra "perdidos" ao monte Nebo, onde Moisés morreria, e ao verbo de chorar, apontando para Números 14:1 e Números 14:29. Isso é jogo de som, e não análise de sentido, e não prova nada sobre a palavra hebraica — mas o dado que sustenta a intuição está no texto e dispensa trocadilho: aquela geração morreria no deserto de fato, e não pela mão do Egito.
O que o versículo não diz
Não diz como Faraó saberá. Nenhum espião, nenhum mensageiro, nenhum informante é mencionado — aqui ou no versículo 5, que apenas registra que "foi avisado ao rei do Egito". Or HaChaim (Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) supõe espiões, e Barnes fala de informação recebida; as duas são inferências razoáveis sobre um silêncio.
E não diz que o rei está errado. A frase é apresentada sem correção. Nenhuma palavra do Êxodo comenta a avaliação, ridiculariza o rei ou anuncia que ele se engana — o desmentido vem só pelos fatos, dezoito versículos depois. Quem lê um capítulo que trata o adversário como estúpido está lendo outra coisa.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Faraó
Aparece pela primeira vez no capítulo, e aparece como pensamento, não como personagem em cena. Não está presente, não recebeu notícia — a notícia chega só em Êxodo 14:5 — e não fez nada ainda.
Vale lembrar o que ele acabou de viver. Na noite dos primogênitos, segundo Êxodo 12:31-32, foi ele quem chamou Moisés e Arão, mandou que saíssem e pediu que o abençoassem. É o mesmo homem. Ramban (Moisés ben Nachman, comentarista catalão do século XIII) apoia-se exatamente nesse ponto para explicar por que o versículo seguinte precisa falar de tornar firme o coração dele: depois daquela noite, o rei não estava disposto a perseguir ninguém, e teria deixado Moisés fazer o que quisesse.
Os filhos de Israel
Objeto da frase, e não sujeito de nada. Estão acampados onde Êxodo 14:2 mandou, e a única informação nova sobre eles neste versículo é o modo como o Egito os vê: gente sem lance seguinte.
Note que eles não sabem que estão sendo avaliados. O medo do povo começa em Êxodo 14:10, quando levantam os olhos e veem o exército.
O deserto
Sujeito gramatical da segunda metade do versículo, e por isso um personagem, ainda que involuntário. É a região a leste do istmo, mencionada como destino desde Êxodo 13:18 e como fronteira desde Êxodo 13:20.
Aqui ele muda de função. Era o lugar para onde se ia; passa a ser o que fecha o caminho.
Datã e Abirão, no acréscimo do Targum
Não estão no versículo. Entram na paráfrase aramaica antiga, que fornece a Faraó dois interlocutores israelitas remanescentes no Egito para resolver a dificuldade da preposição, discutida no item 3.
Os dois são personagens reais da narrativa bíblica: em Números 16 lideram a rebelião contra Moisés e morrem quando a terra se abre. A escolha deles como ouvintes da fala do rei é comentário disfarçado de tradução.
Baal-Zefom, na leitura dos comentaristas
Também não é nomeado neste versículo, e é trazido para ele por Sforno e por Ibn Ezra como o agente que Faraó supõe ter fechado o caminho. O que se sabe sobre o nome e sobre o deus está no estudo de Êxodo 14:2.
5. Pontos de Ensino
O adversário deste capítulo não é burro
A frase atribuída a Faraó é competente. Ele lê a posição, tira a conclusão que os dados permitem e age de acordo — e o Êxodo não escreve uma linha para desqualificá-lo.
Isso corrige uma leitura muito difundida, em que o rei do Egito figura como tolo cabeçudo que insiste no erro. O texto o apresenta como um homem informado que chega a uma conclusão correta com a informação que tem. O que falta a ele não é inteligência.
Uma leitura certa pode levar ao pior lugar
Todo o raciocínio do rei é válido: eles estão parados, não têm rota, e ele tem carros. A conclusão prática — persiga — segue das premissas.
O versículo mostra, sem dizê-lo, que a correção de um raciocínio não garante o resultado. Um fator fora do campo de observação basta para inverter tudo, e não há como calcular o que não se sabe estar ali. É afirmado sobre este caso e sobre este rei; transformá-lo em máxima seria estragá-lo.
Ninguém corrige a frase
O Êxodo põe a avaliação do inimigo na página e não a comenta. Sem ironia, sem aviso ao leitor, sem "mas ele não sabia que".
É uma escolha de método, e é de imitar. O texto confia no leitor e confia nos fatos que virão — deixando que o desmentido venha do acontecimento, e não do comentário. Quem precisa avisar que o adversário está errado costuma não ter com que prová-lo.
Um limite tem dono, e é por isso que atravessá-lo assusta
O raciocínio antigo de que a fronteira é guardada por alguém — deus, pedra, imagem — está por trás da frase do rei, e não é superstição inútil de museu.
Ele registra uma verdade prática: limites que parecem naturais quase sempre são mantidos por interesses. Quem tenta passar descobre que havia alguém do outro lado, e a descoberta raramente é bem-vinda.
6. Aspectos Filosóficos
Ninguém mentiu para Faraó
Examine a operação e procure a mentira. Não há.
Nenhuma informação falsa foi passada ao rei. O povo realmente voltou, realmente acampou junto ao mar, realmente está sem rota. Tudo o que chega ao palácio é verdadeiro — e a conclusão que o rei tira desses fatos verdadeiros é a conclusão que arruína o exército dele. A frase deste versículo é uma inferência, e a inferência é dele.
Esse é um problema moral próprio, e ele tem um autor que o tratou melhor do que ninguém: Baltasar Gracián (1601-1658), jesuíta aragonês, autor do Oráculo manual e arte de prudência (1647), coleção de trezentos aforismos sobre como agir entre pessoas que também estão calculando.
A arte de Gracián não é mentir, é deixar concluir
O núcleo do livro não é a falsidade. É a reserva.
Gracián repete que jogar com as cartas à vista não serve nem é seguro, que não se deve mostrar o jogo antes do tempo e que o prudente diz menos do que sabe. Daí ele passa à vantagem de não afirmar, mas dar a entender. Uma conclusão a que o outro chega sozinho ele defende como coisa sua, e por isso não a examina. É mais forte do que qualquer afirmação, porque o adversário fica responsável por ela. Há nele também o elogio da aparência menor: ser tido em menos do que se é abre oportunidade, porque o outro se prepara contra o adversário errado — e é exatamente o efeito desta cena, em que o Egito se prepara contra fugitivos desorientados.
E o mais honesto de Gracián é que ele não apresenta isso como virtude. Escreve para um mundo de corte em que todos dissimulam, diz que é assim, e ensina a sobreviver ali — não a ser bom. Quem o lê esperando moral fica frustrado, e é por isso que ele serve a este versículo.
A pergunta que decorre e que ninguém respondeu bem
De quem é uma conclusão que foi armada para ser tirada?
Se eu disponho os fatos — todos verdadeiros — de modo que você conclua o que me convém, e nunca afirmo essa conclusão, quem responde pelo que você passou a acreditar? Você raciocinou; eu só arrumei o cenário. A resposta de Gracián é prática e não moral: a vantagem pertence a quem deixou a conclusão para o outro, e é essa a razão de se preferir esse caminho.
A resposta moral ele não dá. O Êxodo também não. A frase é atribuída a Faraó, o versículo seguinte diz o que será feito com ela, e nenhuma linha discute se produzir a conclusão de um homem é a mesma coisa que enganá-lo. O texto deixa a pergunta aberta, e é preciso dizer que ela está aberta em vez de fechá-la por conta própria.
Vale marcar onde a discussão vai por outro caminho: a proibição absoluta da mentira, com Kant, é tratada no estudo de Gênesis 27:19 — e o ponto deste versículo é justamente que ali não há proposição falsa a proibir.
O limite desta comparação
Gracián escreve manuais de conduta para indivíduos disputando posição numa corte, não teologia. Transferir isso para um ato atribuído a Deus é operação de quem lê, e tem de ser declarada como tal.
E há uma diferença que desfaz a semelhança no ponto decisivo. A arte de Gracián serve para conviver com rivais: ele ensina a levar vantagem sem destruir ninguém, porque o cortesão precisa dos rivais amanhã. Aqui a parte que conclui errado morre. Nesse ponto o modelo não serve mais, e o que sobra é a pergunta sobre a inferência — que continua valendo, e que o capítulo não responde.
7. Aplicações Práticas
O que você conclui sozinho você não examina
A operação deste versículo funciona porque a conclusão é de Faraó. Ninguém lhe disse nada; ele viu, pensou e decidiu.
Isso acontece todos os dias e em escala pequena. Um preço posto ao lado de outro, uma informação dada e outra omitida, uma pergunta formulada de certo jeito — e a pessoa chega a uma conclusão que ninguém afirmou e que ela passa a defender como sua. O proveito prático do versículo é aprender a desconfiar justamente das conclusões que parecem mais próprias: a que você tirou sozinho é a que você menos confere, porque conferi-la é duvidar de si.
A pergunta útil, quando uma conclusão parece óbvia, é quem organizou os fatos que você está usando.
Uma leitura correta e incompleta é pior do que uma leitura errada
Se o rei tivesse lido o mapa errado, hesitaria. Ele leu certo, e por isso agiu com confiança.
É a situação em que uma pessoa se move com mais firmeza: quando os dados batem. E é aí que falta o hábito que este versículo torna visível — perguntar não "meu raciocínio está certo?", mas "o que pode estar fora da minha vista?". A primeira pergunta é de lógica e pode ser respondida; a segunda é de humildade e não pode, e é por isso que costuma ser dispensada.
Cabe uma ressalva honesta: o versículo não diz nada disso. Ele mostra um homem competente errando por informação ausente, e a semelhança com a vida é reconhecível sem que o texto a proponha.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Como Faraó soube onde Israel estava?
O Êxodo não diz. É um silêncio limpo, e as respostas que circulam são preenchimentos.
Or HaChaim supõe espiões trazendo notícia dos deslocamentos. Barnes fala de informação recebida, sem especificar. A Mekhilta oferece a versão mais desenvolvida: emissários egípcios teriam acompanhado a coluna para cobrar o retorno no prazo dos três dias, houve luta, alguns escaparam e foram contar ao rei. Nenhuma das três está no texto — que se limita a registrar, em Êxodo 14:5, que "foi avisado ao rei do Egito".
Faraó está errado?
Sobre o mapa, não. Sobre o resultado, sim.
Essa distinção é o eixo do versículo. Israel realmente não tinha rota, e qualquer oficial confirmaria a leitura. O que a avaliação não podia incluir era o fator que ela não podia observar. Dizer que o rei errou, sem mais, apaga justamente o que o texto mostra: um raciocínio válido levando ao desastre.
Por que a palavra "perdidos", se eles sabiam onde estavam?
Porque a palavra hebraica não fala de localização, fala de não ter o que fazer.
Os dois únicos outros lugares da Bíblia em que ela aparece confirmam isso — um rebanho sem pasto e uma cidade depois de um decreto —, e nenhum deles é sobre errar caminho. A tradução por "perdidos" é defensável e cria uma impressão errada; o item 10 expõe a palavra e a disputa entre Rashi e Ibn Ezra sobre a raiz dela.
Por que o deserto é o sujeito da frase?
Porque, no mundo em que o rei pensa, limites não fecham sozinhos.
Dizer que "o deserto os encerrou" é atribuir iniciativa a uma paisagem, e Sforno leva isso ao pensamento religioso do rei: quem fechou, na conta dele, foi o deus do lugar em frente ao qual eles acamparam. A alternativa, com Benson, é ler a frase como imagem: estão entalados, e a personificação é modo de falar. O texto não escolhe.
O Êxodo ridiculariza Faraó em algum ponto deste versículo?
Não, e é bom notar isso porque contraria o hábito de leitura.
A frase é apresentada sem comentário, sem ironia e sem aviso ao leitor. O desmentido vem pelos acontecimentos, dezoito versículos adiante. O capítulo trata o adversário como adversário — competente, informado e enganado.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma palavra, aplicada a gado sem pasto
Joel 1:18 — "Como gemem os animais! Os rebanhos de bois andam confusos, porque não têm pasto; e também os rebanhos de ovelhas sofrem."
É uma das três únicas ocorrências do verbo em toda a Bíblia hebraica, e ela desfaz a leitura de "perder o caminho". O gado sabe onde está; o que lhe falta é o que fazer, porque não há pasto. É esse o estado que o rei atribui a Israel.
A mesma palavra, aplicada a uma cidade
Ester 3:15 — "Os correios saíram apressados por ordem do rei, e o decreto foi promulgado na cidadela de Susã; e o rei e Hamã sentaram-se para beber, mas a cidade de Susã estava perplexa."
Terceira e última ocorrência. Uma cidade inteira recebe a notícia de um decreto e fica sem saber o que fazer — e o contraste com o rei e o ministro que se sentam para beber é o mesmo desenho deste versículo: quem decide está tranquilo, quem foi decidido está paralisado.
O verbo de trancar, com Deus por sujeito
Gênesis 7:16 — "E entraram na arca os que entraram, como Deus tinha ordenado a Noé; e o SENHOR fechou a porta atrás dele."
Mesmo verbo deste versículo, com a mesma construção de fechar sobre alguém. Ali o trancamento é proteção; aqui, na conta de Faraó, é condenação. A palavra é neutra: quem fecha decide o que a porta significa.
A leitura correta do mapa, feita por quem não tinha exército
Êxodo 14:11 — "E disseram a Moisés: 'Foi por não haver sepulturas no Egito que você nos tirou de lá para morrermos no deserto? Que foi isso que você fez conosco, tirando-nos do Egito?'"
Israel chega, oito versículos depois, à mesma conclusão de Faraó: estamos sem saída no deserto. Os dois lados leem a situação do mesmo jeito. A diferença é que um se anima com a leitura e o outro se desespera com ela.
O deserto como lugar onde aquela geração de fato terminaria
Números 14:29 — "Neste deserto cairão os seus cadáveres, todos os que foram contados de vocês, segundo o número completo, de vinte anos para cima, que murmuraram contra mim."
É o texto que dá peso à intuição da Mekhilta sobre a fala do rei. Sem trocadilho nenhum: o deserto acabaria sendo, para aquela geração, o que Faraó disse que já era — só não naquele dia e não pela mão dele.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E Faraó dirá dos filhos de Israel: ‘Estão perdidos na terra; o deserto os encerrou.’
Texto hebraico
וְאָמַר פַּרְעֹה לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל נְבֻכִים הֵם בָּאָרֶץ סָגַר עֲלֵיהֶם הַמִּדְבָּר
Transliteração
we-amar Par'oh li-vnei Yisrael: nevukhim hem ba-arets; sagar aleihem ha-midbar.
Análise palavra por palavra
וְאָמַר — we-amar, "e dirá".
Verbo amar, dizer, no perfeito, terceira pessoa masculina do singular, com a conjunção. A forma é a do passado, e o sentido aqui é futuro: o hebraico usa essa construção, depois de uma sequência que olha para a frente, para encadear o que virá. É a mesma mecânica que faz "e ele os perseguirá" no versículo 4 ser um perfeito.
פַּרְעֹה — Par'oh, Faraó. Título egípcio usado como nome próprio, sem artigo, como em todo o livro.
לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל — li-vnei Yisrael.
Aqui está a dificuldade de língua do versículo. A preposição usada é a que normalmente significa "a", "para" — de modo que a frase, lida ao pé da letra, diz que Faraó falará aos filhos de Israel, o que a cena não permite.
Rashi resolve apontando que essa preposição também vale por "sobre", "a respeito de", e dá dois casos: em Êxodo 14:14 a mesma construção significa "por vocês", e em Gênesis 20:13 a expressão que Abraão ensina a Sara significa "diga de mim". Ibn Ezra confirma, com o mesmo exemplo. O uso é real e está descrito nas gramáticas, e é o que nossa versão segue.
נְבֻכִים — nevukhim, "perplexos", "sem saber o que fazer".
Esta é a palavra que decide o versículo, e ela é rara: aparece três vezes em toda a Bíblia hebraica — aqui, em Joel 1:18 e em Ester 3:15.
Trata-se de um particípio no Nifal, a forma passiva ou reflexiva do verbo hebraico, masculino plural: "os que foram postos em confusão". A raiz é buk, e o campo dela não é o da orientação espacial. Nas outras duas ocorrências, quem está nesse estado é um rebanho que não tem pasto e uma cidade que acabou de receber um decreto — em nenhum dos dois casos se trata de errar caminho. O que a palavra descreve é a situação de quem não tem lance seguinte — e a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) corrige a tradução corrente em uma linha: o sentido é "perplexos, confusos, não sabem para que lado se virar a fim de escapar". A tradução aramaica de Ônquelos já traduzia por "confusos".
A disputa sobre a raiz, entre dois gramáticos do mesmo século
Rashi liga nevukhim a outra família de palavras, a de "profundidade": traduz por "encerrados e afundados", usa o verbo francês antigo serrer, apertar, e cita as "profundezas do mar" de Jó 38:16, o vale de Salmos 84:7 e as "profundezas dos rios" de Jó 28:11.
Ibn Ezra o contradiz de frente, e a contradição é técnica e correta. Ele mostra que nevukhim é um Nifal cuja letra inicial pertence à forma verbal, não à raiz — a raiz é buk —, enquanto a palavra de Jó 38:16 tem aquela letra como parte da própria raiz, que é outra. E conclui sem meias palavras: aquele termo "não tem lugar aqui". Ibn Ezra está com a razão quanto à morfologia, e o episódio mostra como se lia a Bíblia no século XII — um comentarista corrigiu publicamente o mais lido de todos, com argumento de gramática, e a tradição imprimiu os dois lado a lado.
הֵם — hem, "eles". Pronome de terceira pessoa masculina do plural, dispensável para formar a frase e presente por ênfase: "perplexos é o que eles estão".
בָּאָרֶץ — ba-arets, "na terra".
Preposição e artigo mais erets, palavra de campo largo: terra, país, chão, região. Sem qualificação, ela pode significar "na região" ou "no país", e a ambiguidade é do original. Se o sentido é "no país", a frase diz que eles continuam dentro do Egito — o que casa com a observação de Ellicott de que a manobra os manteve dentro das fronteiras egípcias.
סָגַר — sagar, "fechou".
Perfeito, terceira pessoa masculina do singular, no Qal, o tronco simples. É o verbo comum de fechar porta, e a construção com a preposição seguinte é a de "fechar sobre alguém", trancar alguém dentro — a mesma de Gênesis 7:16, onde o sujeito é Deus e o objeto é a porta da arca. Ali o trancamento protege; aqui condena.
עֲלֵיהֶם — aleihem, "sobre eles".
הַמִּדְבָּר — ha-midbar, "o deserto".
E aqui está o dado de sintaxe que mais diz neste versículo: o deserto é o sujeito de um verbo ativo.
Não se diz que eles estão cercados pelo deserto, nem que o deserto está em volta. Diz-se que o deserto fechou sobre eles — uma paisagem executando uma ação que, em hebraico, é normalmente executada por uma pessoa. A palavra midbar designa terra não cultivada, sem povoação e sem lavoura, e não necessariamente areia; é o fora, o que não foi ocupado.
O efeito da construção é transformar o fora em carcereiro. Se isso é imagem ou se é teologia egípcia — o deus daquele lugar fechando a porta, como lê Sforno — o hebraico não decide, e o item 3 expõe as duas leituras.
11. Conclusão
Do que se leu decorrem três conclusões.
O adversário deste capítulo acerta a leitura e perde a guerra, e o Êxodo não o desqualifica em nenhum momento. A frase que lhe é atribuída é competente: um povo parado entre a água salgada e o deserto sem poço não tem rota, e qualquer oficial da fronteira egípcia confirmaria isso num mapa de serviço. O que faltava ao rei não era inteligência nem informação sobre o terreno — era saber que o terreno não era a conta inteira. A leitura mais difundida deste capítulo, em que Faraó figura como tolo obstinado, não sobrevive a este versículo.
Nada falso foi dito a ninguém, e é isso que torna o problema moral do bloco difícil de nomear. Não houve mentira: houve um conjunto de fatos verdadeiros dispostos de modo que produzissem uma conclusão ruinosa, e a conclusão foi tirada por quem a sofreu. Falta na linguagem corrente uma palavra para isso, e a falta não é acidente — o vocabulário moral foi construído em torno da afirmação falsa, e aqui não há proposição nenhuma a acusar. O texto deixa a pergunta aberta, e não há como fechá-la sem trazer de fora o que ele não diz.
A frase do rei estava mais certa do que ele imaginava, e não pelo motivo que ele supôs. Ele disse que o deserto havia fechado a porta sobre aquele povo; naquele dia, a porta se abriu. Mas aquela geração morreria no deserto de fato, quarenta anos depois, por outra razão e sem participação do Egito. Os intérpretes antigos perceberam isso e o disseram por jogo de som, o que não prova nada sobre a palavra hebraica — o dado, que não precisa de trocadilho, está no livro de Números, e é o tipo de coincidência que um texto transmitido conserva sem comentar.













