Ele chamou Moisés e Arão de noite e disse: “Levantem-se, saiam do meio do meu povo, vocês e os filhos de Israel; e vão servir ao SENHOR, como vocês disseram.
1. Introdução
De madrugada, Faraó procura os dois homens que havia proibido de aparecer diante dele sob pena de morte. E o hebraico registra a procura numa letra: ele não chama a Moisés, chama por Moisés — a forma que se usa para quem não está ali.
O que ele diz em seguida é a lista das suas próprias recusas, desfeitas uma a uma e na mesma ordem em que foram feitas. Duas palavras da concessão merecem atenção por serem exatas: ele manda sair do meio do seu povo, e não da sua terra; e manda servir ao SENHOR conforme o que vocês disseram, e não conforme o que ele disse.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como se encontrava uma pessoa numa cidade antiga
Não havia nome de rua, não havia número de porta e não havia registro de endereço. Numa cidade do Egito antigo, localizar alguém era um trabalho de perguntar: identificava-se a pessoa pelo povoado ou pelo bairro, pelo nome do chefe da casa e pelo ofício — é assim que os documentos administrativos egípcios registram gente. Quem quisesse achar dois estrangeiros no meio da noite não tinha para onde mandar um mensageiro: teria de ir aos acessos da cidade e perguntar em voz alta.
É exatamente a imagem que a tradição rabínica construiu a partir de uma letra do versículo. A Mekhilta (comentário rabínico ao Êxodo, provavelmente do século III) e, depois dela, Rashi (Shelomo Yitschaki, comentarista francês do século XI) descrevem Faraó rodando pelas entradas da cidade e gritando: "onde mora Moisés? onde mora Arão?".
A cena é dedução, não informação do texto — mas ela não é arbitrária. Ela nasce da diferença entre duas preposições hebraicas, examinada na análise deste versículo, e do fato material de que não havia outro modo de procurar alguém.
A distância entre o palácio e o povo
Onde estavam Moisés e Arão naquela noite? O versículo não diz, e os comentaristas medievais discutiram o assunto porque dele depende a cronologia da saída.
Abraão ibn Ezra (gramático e comentarista judeu nascido na Espanha no século XI) argumenta que os dois não podiam estar com Israel: estavam na parte do Egito onde ficava a sede real. E acrescenta um dado de viajante, medido no tempo dele: entre a cidade antiga do Egito e Ramessés havia seis milhas persas — a milha persa valia oito mil côvados, algo em torno de quatro quilômetros. Dá cerca de vinte e cinco quilômetros de distância entre o lugar onde Faraó despachava e o ponto de reunião de Israel.
Nachmânides (Moshé ben Nachman, chamado Ramban, comentarista e médico catalão do século XIII) chega à mesma conclusão por outro caminho: Moisés dormiu na capital de propósito, para que se cumprisse o que ele próprio dissera em Êxodo 11:8 — que os servos de Faraó desceriam até ele e se prostrariam.
Tur HaArokh (Jacó ben Asher, codificador e comentarista do século XIV) resume as posições e faz uma objeção prática à de Ibn Ezra: como alguém poderia viajar naquela noite, se a ordem era não sair de casa até a manhã?
Seja qual for a reconstrução, ela deixa visível uma coisa que o versículo pressupõe sem dizer: entre a ordem de Faraó e a partida de Israel havia um trecho de estrada e algumas horas. A permissão foi dada de noite; a saída, como Números 33:3 registra, aconteceu no dia seguinte.
Por que essa conta importou tanto
Porque um versículo do Deuteronômio diz que o SENHOR tirou Israel do Egito de noite (Deuteronômio 16:1), e um versículo dos Números diz que a saída se deu no dia seguinte à Páscoa, à vista de todos os egípcios (Números 33:3).
A solução antiga é a do Sifrei (comentário rabínico a Números e Deuteronômio) e do Talmude: a libertação aconteceu de noite — foi nesta hora que a permissão foi dada —, e a saída física aconteceu de dia. Os dois versículos falam de coisas diferentes, e é este versículo que marca a primeira delas.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ele chamou Moisés e Arão de noite"
Dois capítulos antes, Faraó havia dito a Moisés: "não veja mais o meu rosto, porque no dia em que você vir o meu rosto, morrerá". Moisés respondeu que nunca mais o veria. Agora o rei o procura.
O hebraico registra a mudança numa letra. Ele não escreve que Faraó chamou a Moisés, e sim por Moisés — a preposição é outra. Malbim (Meir Leibush ben Yechiel Michel, rabino e comentarista do século XIX, um dos leitores mais atentos à gramática do texto) formulou a regra: quando o verbo "chamar" vem com a primeira preposição, quem é chamado está perto; quando vem com a segunda, está longe. E ele compara com a praga das trevas, em Êxodo 10:24, onde o texto usa a primeira forma — porque ali Moisés estava presente diante do rei. Aqui não está.
É dessa diferença que nasce a cena rabínica de Faraó rodando a cidade e gritando por eles — e nem todos a aceitam. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX), Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) sustentam que ele mandou funcionários, e Gill dá o motivo: depois de tê-los expulsado, nunca mais viu o rosto deles. O Netziv (Naftali Zvi Yehudah Berlin, que dirigiu a academia rabínica de Volozhin no século XIX) registra as duas posições lado a lado.
E a ameaça de morte?
Ela está de pé, e o versículo não a menciona. As respostas dadas são três, e nenhuma vem do texto.
Primeira: não há contradição, porque a situação é outra. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) escrevem que a proibição não impedia o rei de mandar chamá-los em circunstâncias totalmente diferentes; a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) é mais precisa — uma coisa é pedir audiência para exigir, outra é atender à convocação urgente de um rei arrasado.
Segunda: a palavra "de noite" é a chave. É a leitura de Or HaChaim (Chaim ben Attar, comentarista marroquino do século XVIII): Faraó jurara "no dia em que você vir o meu rosto", e ao insistir que era noite estaria avisando que a ameaça não valia.
Terceira: quem se desdisse foi Faraó, e o texto deixa isso à mostra. Chizkuni (comentarista francês do século XIII) escreve, sem rodeio, que ele foi obrigado a revogar a própria ordem e a implorar que Moisés viesse.
Não é possível decidir, e o versículo não ajuda: ele informa que Faraó chamou e o que disse, e nunca informa que os dois foram.
O detalhe importa, porque dez versículos antes o próprio capítulo ordenara que ninguém saísse da porta de casa até a manhã (Êxodo 12:22). A Mekhilta de Rabi Shimon (outra coletânea rabínica sobre o Êxodo) resolveu a dificuldade com uma imagem doméstica: os dois se debruçaram de uma sacada e responderam de lá que de noite não saíam.
"Levantem-se, saiam do meio do meu povo"
Dois verbos no imperativo, colados, sem nada entre eles. A última vez que Faraó usara o imperativo com Moisés fora em Êxodo 10:28 — "saia de perto de mim".
O Netziv observa um detalhe que a tradução perde: a segunda palavra traz uma marca de reforço que, segundo a tradição da leitura, indica palavra dita em voz que assusta quem ouve. Sem ela, a frase soaria como permissão; com ela, é um grito.
E há a escolha da palavra seguinte, que é a mais precisa do versículo. Faraó não diz "saiam da minha terra". Diz "do meio do meu povo".
Para o Netziv, essa é a diferença entre uma ausência temporária e uma saída definitiva: Israel vivia no meio da população egípcia, e sair do meio dela é deixar de pertencer àquele arranjo. Nachmânides lê no mesmo sentido e acrescenta o motivo que Faraó teria — não lhes dá permissão para demorar coisa alguma entre o seu povo, porque é por causa deles que esse povo está morrendo. Os dois notam também que é aqui que se cumpre Êxodo 11:1: o rei não apenas deixaria Israel ir, mas o expulsaria.
"vocês e os filhos de Israel"
O hebraico repete a mesma partícula duas vezes: "tanto vocês quanto os filhos de Israel". A repetição foi lida de três modos.
Rashi: a primeira parte são os homens; a segunda, as crianças. Nachmânides: a primeira são Moisés e Arão, os dois que estavam ferindo o Egito, e a segunda é o povo — "saiam todos, e não demorem aqui de jeito nenhum". A Mekhilta de Rabi Shimon: a primeira inclui os estrangeiros agregados e os escravos; a segunda, as mulheres e os pequenos.
As três chegam ao mesmo lugar por caminhos diferentes, e o lugar é o que interessa: não sobrou categoria de gente de fora. Em Êxodo 10:11 Faraó dissera "Não será assim! Vão, vocês, os homens" — e mandou expulsá-los da sua presença. A recusa era sobre exatamente esta lista.
"e vão servir ao SENHOR, como vocês disseram"
Esta é a rendição, e ela é feita com as palavras do adversário.
Rashi lista o que a frase cancela, uma por uma: cancelado o "não deixarei Israel ir" de Êxodo 5:2; cancelado o "quem são os que vão?" de Êxodo 10:8; cancelado o "somente os seus rebanhos e o seu gado ficarão" de Êxodo 10:24, que o versículo seguinte vai desfazer. O midrash Lekach Tov (comentário do século XI ao Pentateuco) faz a mesma conta em forma de diálogo: eu disse isto, vocês disseram aquilo, e agora é como vocês disseram.
Posta a sequência em fila, o que se vê é a capitulação por etapas, invertida. Em Êxodo 8:25 Faraó oferecera sacrifício dentro do país; agora manda sair. Em Êxodo 8:28 concedera a saída desde que não fossem longe; agora não põe distância. Em Êxodo 10:11 liberara só os homens; agora liberta todo mundo. Em Êxodo 10:28 proibira Moisés de ver o seu rosto; agora é ele quem procura.
Duas palavras que faltam e uma que sobra
Falta "o seu Deus". Em todas as concessões anteriores — Êxodo 8:25, Êxodo 8:28, Êxodo 10:8 — Faraó dissera "ao SENHOR, o seu Deus", com o possessivo que mantém o assunto do lado de lá. Aqui ele diz apenas "ao SENHOR". A tradução grega antiga, a Septuaginta, achou a falta tão estranha que repôs "o seu Deus" no lugar; o hebraico não tem.
Falta também o prazo. Toda a negociação, desde Êxodo 5:3, girara em torno de três dias de caminho. Faraó não menciona três dias, não pede que voltem, não fixa data. A ausência é notável porque em Êxodo 14:5 ele vai reclamar precisamente de que deixou Israel de servi-lo — como se a saída tivesse sido definitiva e ele tivesse se dado conta depois.
Foi aqui que os comentaristas se dividiram. David Zvi Hoffmann (1843-1921, rabino e estudioso alemão da Bíblia) pergunta se o versículo concede a libertação total ou apenas licença para sacrificar no deserto, e responde que Êxodo 14:5 decide pela primeira — mas registra que Ibn Ezra, Nachmânides e Sforno não leram assim. A pergunta continua aberta.
E sobra uma expressão: "como vocês disseram". Rashi a comenta com quatro palavras — tudo como vocês disseram, e não como eu disse. O homem que abriu a disputa em Êxodo 5:2 perguntando quem era o SENHOR para que ele ouvisse a sua voz encerra-a tomando a fala do outro lado como medida do que concede.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Faraó
O rei do Egito, agora do lado de quem procura. É a última vez que ele chama Moisés para negociar, e a única em que não impõe condição nenhuma. O filho dele morreu horas antes, e ele não menciona o filho.
Moisés e Arão
Os dois aparecem de novo em cena depois de terem sido expulsos da presença do rei em Êxodo 10:28-29 e de Moisés ter declarado que nunca mais o veria. O versículo não diz onde estavam, não diz se atenderam e não registra resposta deles. É a primeira vez em todo o livro que Faraó fala com eles e o texto não traz réplica.
"O meu povo"
Os egípcios, na boca do rei. A expressão é a mesma que Deus usa para Israel desde Êxodo 3:7 — "a aflição do meu povo". Nesta noite, os dois "meus povos" se separam, e quem executa a separação é Faraó.
Os filhos de Israel
O povo inteiro, sem recorte. Em Êxodo 10:11 Faraó tinha liberado apenas os homens adultos; aqui não há categoria de fora.
Onde e quando
O lugar não é nomeado. Pelo que se deduz de Êxodo 11:8, Moisés estava na cidade onde ficava a sede real, e Israel se reuniria em Ramessés (Êxodo 12:37). O momento é ainda de noite, depois da meia-noite de Êxodo 12:29 e do despertar do país em Êxodo 12:30.
O que aconteceu antes
A última conversa entre os dois terminara em ameaça de morte (Êxodo 10:28). Depois disso, Moisés anunciou a décima praga e saiu enfurecido (Êxodo 11:4-8), dizendo que os servos do rei desceriam até ele para pedir que saísse.
O que vem depois
No versículo seguinte Faraó libera também os rebanhos, que havia retido em Êxodo 10:24, e pede uma bênção para si (Êxodo 12:32). Em seguida os egípcios apressam a saída (Êxodo 12:33), e Israel parte de Ramessés já de dia (Êxodo 12:37).
5. Pontos de Ensino
A concessão é a lista das recusas, ao contrário
Faraó não faz um discurso novo: desfaz o que disse, item por item e na ordem em que disse. Quem ler as quatro frases anteriores dele e esta em seguida terá lido a negociação inteira do livro em cinco parágrafos.
Nenhum argumento novo foi apresentado
O que Moisés pede aqui é o mesmo que pedia em Êxodo 10:9 e em Êxodo 10:26 — todo o povo, todo o gado, para servir ao SENHOR. A formulação não mudou, as razões não mudaram, o interlocutor não mudou. O que mudou foi o que aconteceu no país.
"Do meio do meu povo", e não "da minha terra"
A escolha é precisa e foi notada pelos comentaristas medievais: sair do meio de um povo não é o mesmo que atravessar uma fronteira. Israel morava misturado à população egípcia, e o que está sendo desfeito é essa convivência.
Quem cede por último cede tudo
As concessões anteriores de Faraó eram sempre parciais — dentro do país, não muito longe, só os homens, sem o gado. Cada uma delas era, ao mesmo tempo, uma recusa. Nesta não há recorte, não há prazo e não há condição.
O texto não registra alívio, nem arrependimento, nem oração
O versículo dá as palavras de Faraó e mais nada. Não diz o que ele sentia, não diz se reconheceu alguma coisa, não diz se mudou de ideia sobre o SENHOR. O único indício de mudança está na gramática: ele passa a medir o que concede pela palavra do outro lado.
O que o versículo não fecha
Se a permissão é definitiva ou temporária, o texto não esclarece. Não há prazo, não há pedido de retorno — e também não há renúncia expressa. É por isso que ainda existe um capítulo 14.
6. Aspectos Filosóficos
Faraó mudou de ideia ou apenas mudou de situação?
Entre a primeira recusa e esta concessão, nenhum argumento novo foi apresentado. O que Moisés pede aqui é o que pedia em Êxodo 10:9: todo o povo, todas as idades, todo o gado. Faraó ouviu tudo isso e recusou nove vezes. A pergunta que o versículo levanta, portanto, não é sobre teimosia — é sobre o que faz alguém trocar uma posição por outra, e se uma posição trocada por acontecimento é a mesma coisa que uma posição trocada por razão.
Peirce e os quatro modos de fixar uma crença
Charles Sanders Peirce (1839-1914, lógico e cientista norte-americano, fundador do pragmatismo — corrente que avalia uma ideia pelos efeitos práticos que ela produz) publicou em 1877 um artigo chamado The Fixation of Belief ("A fixação da crença"). Ele aparece nesta coleção por outro assunto, no estudo de Gênesis 25:3.
O artigo parte de uma distinção que Peirce leva a sério: crença e dúvida não são dois graus da mesma coisa. Crença é um estado calmo, em que a pessoa está disposta a agir de determinado modo; dúvida é um estado incômodo, do qual ela quer sair. E o que põe alguém a investigar não é a curiosidade nem o argumento, é o incômodo — processo que Peirce chama de luta para sair da dúvida, e que cessa assim que a irritação cessa, tenha-se chegado à verdade ou não. A partir daí ele descreve quatro modos de fixar uma crença.
O método da tenacidade consiste em agarrar-se à resposta que já se tem e evitar tudo o que possa abalá-la. Peirce descreve esse sujeito sem caricatura — alguém que fecha os olhos ao que contraria e frequenta apenas o que confirma — e reconhece que o método funciona: dá paz, dá firmeza, e quem o pratica costuma agir com mais decisão do que os hesitantes.
O que o derruba não é a refutação. É, segundo Peirce, a pressão do mundo e dos outros: mais cedo ou mais tarde a realidade e o convívio produzem uma dúvida que o sujeito não consegue mais evitar, e aí a crença cai de uma vez, não aos poucos.
Os outros três são o da autoridade, em que uma instituição fixa o que se deve crer; o que Peirce chama de a priori, em que se adota o que parece razoável ao gosto da época; e o da ciência, o único que, segundo ele, admite correção por algo externo a quem acredita.
Aplicado à cena
A descrição da tenacidade cabe no comportamento que o livro vinha narrando: nove recusas, sem que nenhuma fosse resposta a um argumento. E o desfecho tem a forma que Peirce previu — a mudança não é gradual: Faraó concede parcialmente quatro vezes, mantendo a posição de fundo, e então concede tudo de uma vez.
A observação mais fina, porém, está na gramática e não na psicologia. "Como vocês disseram" é a frase de quem parou de formular. Quem muda de opinião por razões costuma reformular a posição nos próprios termos; quem para de resistir adota os termos do outro.
Os limites
Peirce escreve sobre crenças, e este versículo é sobre uma decisão política tomada sob pressão máxima: uma coisa é o que alguém tem por verdadeiro, outra é o que alguém autoriza. É perfeitamente possível que Faraó continuasse achando exatamente o que achava em Êxodo 5:2 — e o capítulo 14, em que ele muda de ideia outra vez, é a evidência mais forte de que a crença dele talvez não tenha se movido nenhum centímetro.
E há o limite do lado do texto, que é o maior de todos. O Êxodo não explica a decisão de Faraó por psicologia: o livro atribui a firmeza do coração dele a Deus, e trata o assunto em outros versículos. Qualquer descrição em termos de crença e dúvida é leitura de fora — útil para ver a forma do que aconteceu, e incapaz de dizer por que aconteceu.
7. Aplicações Práticas
O que custa ceder tarde
Faraó concede, nesta noite, exatamente o que poderia ter concedido no capítulo 5. Entre uma coisa e outra houve dez pragas, e a conta não foi paga por ele: os mortos são de outras casas, inclusive as dos seus próprios funcionários, que já tinham tentado avisá-lo em Êxodo 10:7.
É o que torna a cena difícil de usar como lição de conduta pessoal. Quem lê o episódio como advertência a quem demora a se decidir está aplicando a um chefe de Estado um raciocínio de vida particular — e apagando o detalhe que o texto faz questão de dar, que é quem morre e quem sobrevive.
Ceder com as palavras do outro
A expressão "como vocês disseram" é o fim de uma discussão de nove capítulos, e é a forma mais curta que um fim de discussão pode ter. Não há releitura do que se concede, não há ressalva, não há formulação própria: o que vale é o que o outro lado pediu, nos termos em que pediu.
Em qualquer negociação isso tem um efeito conhecido: acordo repetido nas palavras de quem pediu não precisa ser interpretado depois. As concessões anteriores de Faraó eram reformulações — "vão, mas aqui"; "vão, mas não longe"; "vão, mas só os homens" — e cada reformulação gerou uma rodada nova.
O que não se pode tirar daqui
Não se pode tirar que pressão resolve, nem que quem resiste acaba cedendo. O versículo narra o que um rei fez numa noite específica, depois de acontecimentos específicos; e o mesmo rei volta atrás poucos dias depois. Uma capitulação não é uma conversão, e o próprio livro se encarrega de mostrar isso.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Moisés e Arão chegaram a sair de casa?
O versículo não diz. E a pergunta não é ociosa: dez versículos antes, o mesmo capítulo ordenara que ninguém saísse da porta de casa até a manhã (Êxodo 12:22). Uma coletânea rabínica resolveu a dificuldade imaginando os dois respondendo de uma sacada; os comentaristas que preferem ver mensageiros no lugar de Faraó não precisam resolver nada. O texto registra a fala do rei e nenhuma resposta, o que é notável num livro em que Moisés responde sempre.
Esta é a libertação definitiva ou uma licença para sacrificar?
Faraó não menciona os três dias que estavam em discussão desde Êxodo 5:3, não pede retorno e não marca data. Também não diz que renuncia a Israel. A ambiguidade é do próprio texto, e ela explica o capítulo 14: dias depois, o rei reclamará de ter deixado Israel de servi-lo, como se só então tivesse entendido o alcance do que autorizou. Não é possível decidir a partir deste versículo.
Por que Faraó não pede nada em troca?
Neste versículo, nada. É a única das cinco convocações do livro em que ele não impõe condição, não fixa limite e não pede que supliquem por ele — coisa que fizera em Êxodo 8:8 e em Êxodo 8:28. O versículo seguinte mostrará que ele ainda tem um pedido a fazer, e de outra natureza.
O que aconteceu com a ameaça de Êxodo 10:28?
Ficou sem efeito, e o texto não comenta como. Faraó havia jurado que Moisés morreria no dia em que visse o rosto dele; agora é o rei quem o procura. Nenhuma das explicações que os comentaristas oferecem — que a circunstância era outra, que a noite anulava a condição, que o rei simplesmente se desdisse — está escrita no versículo. É reconstrução em qualquer um dos três casos.
Faraó reconhece o SENHOR nesta frase?
Ele usa o nome, como já usara antes. O que muda é o que desapareceu: nas concessões anteriores ele dizia "ao SENHOR, o seu Deus", e aqui diz apenas "ao SENHOR". Se a queda do possessivo significa alguma coisa, o texto não diz o quê — e um tradutor grego antigo achou a falta tão estranha que a corrigiu.
9. Conexão com Outros Textos
A pergunta de abertura, que esta frase responde
Êxodo 5:2 — "Mas Faraó respondeu: 'Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.'"
A disputa começa com um rei que se recusa a ouvir uma voz e termina com ele medindo o que concede pela palavra de quem a trouxe.
A primeira concessão parcial
Êxodo 8:25 — "Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: 'Vão, ofereçam sacrifícios ao seu Deus nesta terra.'"
Concede o culto e retém o lugar. Aqui a frase se inverte: o culto continua concedido, e o lugar deixa de ser o Egito.
A segunda, com um limite de distância
Êxodo 8:28 — "Faraó disse: 'Eu deixarei vocês irem, para que ofereçam sacrifícios ao SENHOR, o seu Deus, no deserto; somente não vão longe demais. Supliquem por mim.'"
O advérbio "somente" é a assinatura das concessões de Faraó. Ele não aparece neste versículo.
A recusa mais explícita do livro
Êxodo 10:11 — "Não será assim! Vão, vocês, os homens, e sirvam ao SENHOR, pois é isso que vocês pedem." E os expulsaram da presença de Faraó.
A lista que Faraó recusou ali — jovens, velhos, filhos, filhas, rebanhos, gado, de Êxodo 10:9 — é exatamente a que ele libera agora, aqui e no versículo seguinte.
A ameaça que este versículo ignora
Êxodo 10:28 — "Faraó lhe disse: 'Saia de perto de mim! Cuide-se: não veja mais o meu rosto, porque no dia em que você vir o meu rosto, morrerá.'"
Duas frases separam esta ameaça da chamada de agora, e o texto não explica o que houve com ela.
A promessa que aqui se cumpre
Êxodo 11:1 — "O SENHOR disse a Moisés: 'Ainda uma praga trarei sobre Faraó e sobre o Egito; depois disso ele os deixará ir daqui. Quando os deixar ir, de vez os expulsará daqui.'"
O verbo da expulsão é o que os comentaristas reconhecem no "saiam do meio do meu povo". Não é uma licença: é uma ordem de sair.
E a que Moisés tinha feito
Êxodo 11:8 — "Então todos estes seus servos descerão a mim e se prostrarão diante de mim, dizendo: 'Saia, você e todo o povo que segue os seus pés'; e depois disso eu sairei."
Moisés previra que os servos viriam, e não o rei.
A frase que reabre tudo
Êxodo 14:5 — "Foi anunciado ao rei do Egito que o povo havia fugido; e o coração de Faraó e dos seus servos mudou-se contra o povo, e disseram: 'Que foi isto que fizemos, deixando Israel de nos servir?'"
Poucos dias depois, o mesmo rei trata a própria autorização como um erro. Quem lê os dois versículos juntos tem diante de si a pergunta que os comentaristas não resolveram: o que exatamente foi concedido naquela noite.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Ele chamou Moisés e Arão de noite e disse: "Levantem-se, saiam do meio do meu povo, vocês e os filhos de Israel; e vão servir ao SENHOR, como vocês disseram.
Texto hebraico
וַיִּקְרָא לְמֹשֶׁה וּלְאַהֲרֹן לַיְלָה וַיֹּאמֶר קוּמוּ צְּאוּ מִתּוֹךְ עַמִּי גַּם־אַתֶּם גַּם־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל וּלְכוּ עִבְדוּ אֶת־יְהוָה כְּדַבֶּרְכֶם׃
Transliteração
wa-yiqra le-Moshe u-le-Aharon laylah, wa-yomer: qumu tze'u mi-tokh ammi, gam-attem gam-benei Yisrael, u-lekhu ivdu et-YHWH ke-dabberkhem.
Análise palavra por palavra
וַיִּקְרָא לְמֹשֶׁה — wa-yiqra le-Moshe, "e chamou por Moisés".
O verbo qara cobre chamar, convocar, gritar, proclamar e ler em voz alta. O que decide o sentido é a preposição seguinte, e é uma só letra: o hebraico tem qara el e qara le. Malbim sustenta que a primeira se usa quando quem é chamado está próximo e a segunda quando está distante — e a distribuição no próprio livro dá apoio à observação, já que Êxodo 10:24, com Moisés diante do trono, escreve el-Moshe, e aqui está le-Moshe.
Os comentaristas rabínicos foram além da distância e leram a preposição como marca de procura — "chamou por Moisés", no sentido de sair perguntando por ele. A leitura é possível e não é obrigatória: o mesmo hebraico admite que alguém tenha sido mandado chamá-los.
לַיְלָה — laylah, "de noite".
Outra vez o substantivo sozinho, sem preposição, funcionando como advérbio de tempo — a terceira marcação de hora em três versículos seguidos.
קוּמוּ צְּאוּ — qumu tze'u, "levantem-se, saiam".
Dois imperativos no plural, um atrás do outro, sem o "e" que o hebraico normalmente põe entre verbos encadeados. A ausência da conjunção acelera a frase: não é "levantem-se e saiam", é "levantem-se, saiam".
Qum é o mesmo verbo com que o versículo anterior descreveu Faraó saindo da cama: ele se levantou e manda levantar. Yatsa é sair — o verbo que dá nome ao livro inteiro nas línguas ocidentais, já que "Êxodo" traduz essa ideia. Na tradição da leitura, a primeira letra dessa palavra traz aqui uma marca de reforço, que o Netziv interpreta como sinal de palavra dita em voz alterada.
מִתּוֹךְ עַמִּי — mi-tokh ammi, "do meio do meu povo".
Tokh é o meio, o interior de alguma coisa; com a preposição min, "de dentro de". Am é o povo, e o sufixo é "meu". A alternativa que Faraó não usou está disponível em hebraico e aparece no próprio livro — "da minha terra" —, e ele escolheu a palavra que descreve convivência, não território.
גַּם־אַתֶּם גַּם־בְּנֵי יִשְׂרָאֵל — gam-attem gam-benei Yisrael, "tanto vocês quanto os filhos de Israel".
Gam é "também". Repetido em duas partes da mesma frase, forma a construção correlativa que o português verte por "tanto... quanto" — e a repetição cria duas categorias explícitas onde uma só bastaria.
וּלְכוּ עִבְדוּ — u-lekhu ivdu, "e vão, sirvam".
Mais dois imperativos, agora ligados pelo "e" ao que veio antes. Avad é servir, trabalhar, cultuar — a raiz de onde vem avodah, palavra que o Êxodo usa tanto para o trabalho forçado de Israel quanto para o serviço prestado a Deus. A mesma raiz descreve as duas condições, e é o destinatário que muda.
אֶת־יְהוָה — et-YHWH, "ao SENHOR".
O nome próprio de Deus, precedido da partícula que marca o objeto direto. E é aqui que falta uma palavra: nas concessões anteriores Faraó dizia YHWH eloheikhem, "o SENHOR, o seu Deus" (Êxodo 8:25, Êxodo 8:28, Êxodo 10:8). Neste versículo o possessivo não está. A Septuaginta traduziu to Theo hymon, "o seu Deus", como se o lesse.
כְּדַבֶּרְכֶם — ke-dabberkhem, "conforme o falar de vocês".
Forma condensada: a preposição ke- ("conforme"), o verbo dabber ("falar") num modo que funciona como substantivo, e o sufixo de segunda pessoa do plural.
É a última palavra da frase e ocupa a posição em que, nas falas anteriores, estava o possessivo "seu Deus". O lugar do que pertence ao outro lado continua ocupado — mudou o que está nele. E a expressão volta no versículo seguinte, noutra forma, quando Faraó libera os rebanhos "como vocês disseram".
11. Conclusão
Do que foi exposto decorrem três conclusões.
A primeira é sobre quem procura quem. Dois capítulos antes, Faraó proibira Moisés de ver o seu rosto sob pena de morte; aqui é ele quem chama, e o hebraico marca a busca com a preposição que se usa para quem está longe. A cena rabínica do rei rodando a cidade é dedução, mas nasce do texto e não contra ele — e o que não depende de reconstrução nenhuma é que a iniciativa mudou de lado.
A segunda é sobre o conteúdo da concessão. Ela não é um gesto genérico: é a lista das recusas anteriores, desfeita item por item. Onde antes havia "somente aqui", "somente perto", "somente os homens", agora não há advérbio de restrição nenhum. E duas palavras marcam o tamanho do que foi entregue: Faraó manda sair do meio do seu povo, e não da sua terra — o que os comentaristas medievais leram como saída definitiva, e não como licença; e manda servir ao SENHOR sem o possessivo que ele sempre acrescentava, medindo tudo pela fala do outro lado.
A terceira é sobre o que não foi decidido. Não há prazo, não há pedido de retorno e não há renúncia expressa. Comentaristas antigos e modernos se dividiram sobre se o versículo concede a libertação total ou apenas a saída para o culto, e a divisão não se resolve com o material disponível. O próprio livro trata a questão como aberta: dias depois, em Êxodo 14:5, o rei falará da própria autorização como de um erro.
Sobra a forma da rendição, que é o que o versículo tem de mais nítido. Quem cede formulando de novo o que cede — vão, mas aqui; vão, mas não longe — ainda está negociando. Faraó parou de formular. A última coisa que ele diz nesta frase é que tudo será como o outro lado disse.













