Também o nosso gado irá conosco; não ficará nem um casco, porque deles tomaremos para servir ao SENHOR, o nosso Deus. E nós não sabemos com que serviremos ao SENHOR até chegarmos lá.”
1. Introdução
A recusa é medida na menor peça possível: nem um casco fica.
Moisés poderia ter dito "os animais vão conosco" e pronto. Ele acrescenta uma unidade tão pequena que não existe sozinha — não um animal, não um filhote: um casco. E dá o motivo, que não é econômico: é daqueles animais que sairá o material do culto.
A segunda metade do versículo é ainda mais surpreendente do que a primeira. Depois de exigir tudo, Moisés declara que não sabe do que vai precisar. O que ele está defendendo com absoluta firmeza é uma exigência cujo conteúdo ele próprio desconhece, e que só será conhecido no lugar aonde estão indo.
2. Contexto Histórico e Cultural
O casco era por onde se olhava um animal
Escolher o casco para dizer "nada" não foi um acaso de linguagem. Naquele mundo, o casco era uma parte carregada de função prática.
Era por ele que se classificava o bicho. A regra que Israel viria a seguir manda olhar primeiro para os pés: come-se o animal que tem o casco fendido e que rumina (Levítico 11:3). Antes de perguntar se um animal serve para o altar, olha-se para baixo. O casco é o lugar onde se decide se aquele animal pertence ou não ao mundo do culto.
E era, por fim, a medida de contagem. Quem contava gado contava cabeças, mas quem falava de perda falava de pés: o pé é a menor porção do animal que ainda o identifica como aquele animal. Não existe meio casco que valha alguma coisa.
Dizer o todo pela menor parte
A construção é de um tipo reconhecível em muitas línguas: nomeia-se a coisa mais insignificante que se possa imaginar para afirmar que nem essa fica de fora. É o mesmo mecanismo do nosso "não sobrou um prego" ou "não fiquei com um centavo".
Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) registram que Samuel Bochart — erudito protestante francês do século XVII, autor do Hierozoicon ("Tratado dos animais", estudo em latim sobre os bichos mencionados na Bíblia) — reuniu exemplos de ditados árabes e romanos construídos exatamente assim, com o casco no lugar do nada. A informação é de segunda mão, tal como Keil a transmite, e convém apresentá-la como tal.
Os rabinos levaram a figura ao extremo. O Êxodo Rabá (coletânea rabínica de comentários sobre o livro) pergunta o que quer dizer "casco" e responde com um exagero deliberado: ainda que um animal pertencesse inteiramente a um egípcio e apenas um casco dele pertencesse a um israelita, esse animal não ficaria. A leitura não pretende ser literal; pretende mostrar até onde a frase alcança.
Religiões antigas funcionavam por receita — e esta não tem
A segunda metade do versículo é estranha para os padrões religiosos da época, e é preciso conhecer esses padrões para perceber o quanto.
Um culto antigo era, antes de tudo, um conjunto de prescrições herdadas. Sabia-se o que se oferecia, em que dia, em que quantidade, com que palavras e em que ordem, e o valor do ato dependia de ele ser feito exatamente como sempre fora. No Egito, isso chegava ao detalhe contábil: havia calendários de festas com o inventário das oferendas, item por item, e um ritual diário copiado em papiro para não variar — material que o estudo de Êxodo 8:27 já examinou.
Contra esse pano de fundo, "não sabemos com que serviremos" é uma declaração fora do comum. Não se trata de um sacerdote que esqueceu a fórmula: trata-se de um povo que afirma não ter recebido ainda a fórmula, e que sai assim mesmo. A religião desse grupo, neste momento do livro, não tem calendário, não tem manual e não tem casta de especialistas — e o que a sustenta é uma ordem dada oralmente e uma instrução prometida para depois.
3. Análise Teológica do Versículo
"Também o nosso gado irá conosco"
A resposta devolve ao rei a mesma partícula com que ele havia feito a concessão.
Faraó tinha dito "somente os rebanhos ficarão" e "também as crianças podem ir". Moisés responde com dois "também" seguidos — no versículo anterior, "também você dará"; agora, "também o nosso gado irá". A palavra que o rei usou para mostrar generosidade volta como instrumento de exigência, e o "somente" dele não recebe resposta nenhuma: é simplesmente ignorado.
Há ainda a escolha do substantivo. O termo hebraico traduzido por "gado" significa, na origem, aquilo que se adquiriu — é a palavra da propriedade, aplicada a animais porque animais eram a propriedade (item 10). Dizer "o nosso gado" é dizer, na mesma respiração, "o que é nosso".
"não ficará nem um casco"
A negação é medida na menor unidade concebível.
Moisés não diz "levaremos todos os animais". Diz que nem uma parte de um animal fica — e escolhe justamente a parte que não tem valor isolado, que não se vende, que não se come, que não serve para nada separada do bicho. Uma negação afirmada na escala do insignificante é mais forte do que qualquer afirmação sobre o todo: ela fecha antecipadamente qualquer discussão sobre exceções.
"porque deles tomaremos para servir ao SENHOR, o nosso Deus"
Vem aqui o motivo, e ele é de uma ordem que o rei não tinha considerado.
Os animais não são bagagem nem provisão: são matéria-prima do culto. A palavra "servir", que atravessa o capítulo inteiro, tem nesta frase um conteúdo material — servir ao SENHOR é abater e oferecer, e sem animal não há ato nenhum a praticar.
Isso reformula toda a negociação em uma linha. Enquanto o rei tratava os rebanhos como patrimônio retido, Moisés os trata como material litúrgico. As duas partes falam dos mesmos bois e não estão falando da mesma coisa.
"E nós não sabemos com que serviremos ao SENHOR"
Esta é a frase mais desconcertante do bloco, e ela é dita por quem acabou de recusar qualquer concessão.
O que Moisés admite não é ignorância total. Ele sabe que haverá sacrifício, sabe que serão animais, sabe que existem as duas categorias de oferta e sabe que o destino é fora do Egito. O que ele declara não saber é a espécie e a quantidade — quais animais, quantos, de que idade, em que combinação.
Os comentaristas explicam a lacuna de maneiras que se completam. Ellicott observa que a festa no deserto era coisa inteiramente nova e que o seu rito ainda não tinha sido estabelecido. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista judeu do século XII, nascido na Espanha) é mais técnico: não se sabe qual espécie escolher nem quantos oferecer. Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI, o comentarista judeu mais lido) acrescenta um dado inquietante: não se sabe quão pesado será o serviço, e é possível que seja pedido mais do que eles possuem.
Era mesmo desconhecimento, ou um pretexto de negociação?
A pergunta é inevitável e já foi feita antes de nós, o que é a melhor prova de que o texto a deixa aberta.
Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) sente a necessidade de dizer, com todas as letras, que a frase "não era mero pretexto" — e ninguém nega uma acusação que ninguém fez. A leitura suspeitosa é possível: a declaração de ignorância chega no momento exato em que serve para justificar a exigência máxima, e quem não sabe do que precisa tem razão para pedir tudo.
Há, contudo, dois dados do próprio livro que pesam do outro lado. O primeiro é que a instrução sobre o culto, na cronologia do Êxodo, realmente ainda não tinha sido dada; a frase descreve a situação como ela é. O segundo é que Moisés não usa o desconhecimento para pedir mais do que o que já era seu: ele reivindica os animais do povo, não os do Egito — a exigência feita ao rei está no versículo anterior e tem outro fundamento.
Não é possível decidir o ponto pela via da intenção, porque o Êxodo nunca descreve a intenção de Moisés. O que se pode afirmar é que a frase é verdadeira nos termos do livro, e que ela também é conveniente. As duas coisas cabem juntas.
"até chegarmos lá"
O saber está amarrado ao lugar, e não ao tempo.
Moisés não diz "ainda não sabemos" nem "saberemos em breve". Diz que saberão quando chegarem. A informação não virá por amadurecimento nem por estudo: virá no destino, e não antes. Quem quiser saber precisa primeiro ir.
Essa estrutura — a confirmação que só vem depois do passo — já tinha aparecido no começo da missão, quando o sinal oferecido a Moisés foi um acontecimento posterior à saída: "quando você tirar o povo do Egito, vocês servirão a Deus neste monte" (Êxodo 3:12). O sinal que deveria dar segurança para agir só se realiza depois da ação.
Por que não improvisar?
Um leitor prático perguntará por que não levar alguns animais e resolver no lugar.
O Êxodo não responde, mas a legislação posterior de Israel mostra o que estava em jogo nesse terreno. Dois filhos de Arão morreriam por oferecer "fogo estranho, o que não lhes foi ordenado" (Levítico 10:1-2) — não por oferecer pouco, e sim por oferecer o que não tinha sido mandado. Num culto que se define pela obediência à instrução, a margem para improviso é estreita, e o cuidado de Moisés em não decidir antecipadamente o que seria oferecido deixa de parecer excesso.
Há um limite: Levítico é muito posterior e trata de outra situação. O que ele fornece é a lógica interna de um sistema, não uma explicação do que Moisés estava pensando neste versículo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O casco
A palavra designa o pé córneo dos animais de pata dividida — boi, ovelha, cabra. Rashi explica o termo aos seus leitores medievais com uma glosa em francês antigo, a língua falada ao redor dele, esclarecendo que se trata da sola do pé. É um detalhe curioso do comentário judeu: Rashi espalhou pela sua obra cerca de mil palavras do francês do seu tempo, e várias delas só sobreviveram por causa dele.
O gado, e o que a palavra quer dizer
O termo hebraico usado aqui não é o mesmo do versículo 24. Lá havia dois substantivos, um para o gado miúdo e outro para o gado grande; aqui há uma palavra só, que cobre os dois e significa, na raiz, "o que foi adquirido" (item 10).
Ela não é um nome de espécie: é um nome de posse. Para aquele povo, dizer "os nossos bens" e "os nossos animais" era dizer a mesma coisa com a mesma palavra.
O lugar que ainda não foi nomeado
"Até chegarmos lá" aponta para um destino que Moisés não descreve e não localiza.
O pedido feito ao rei desde o início falava em três dias de caminho pelo deserto (Êxodo 5:3). Não há aqui nome de monte, de oásis nem de santuário: há uma distância e um advérbio. O Egito inteiro está sendo negociado em torno de um ponto do mapa que o texto, neste momento, não identifica.
O culto que ainda não tem forma
O estado das coisas neste ponto da história importa, porque o leitor tende a preencher a cena com o que virá depois.
Não há sacerdócio instituído, não há tenda nem altar, não há lista de festas, não há calendário e não há texto escrito sobre sacrifício. Existem práticas herdadas dos antepassados — o Gênesis registra altares e ofertas —, mas nada que se pareça com um sistema. É esse vazio que a segunda metade do versículo descreve.
Os interlocutores
A cena continua a mesma do versículo anterior: o rei e Moisés, sem Arão mencionado, dentro do palácio, depois das trevas. Nenhum dos dois se moveu; o que se move é o teor da conversa, que deixou de tratar de quantos saem e passou a tratar do que será feito na chegada.
5. Pontos de Ensino
A recusa fica mais forte quando é medida no mínimo
"Nem um casco" fecha a discussão de um jeito que "todos os animais" não fecharia. Quem fala em totais deixa espaço para negociar percentuais; quem fala na menor unidade possível elimina a própria ideia de exceção.
É uma lição sobre como se formula uma posição inegociável: não pelo volume do que se reivindica, e sim pela eliminação da margem.
Obedecer não é o mesmo que entender
Moisés defende com firmeza absoluta uma exigência cujo conteúdo ele declara desconhecer. As duas coisas andam juntas no mesmo versículo, e não se anulam.
Firmeza sem informação completa parece contradição e não é. O que ele sabe é de quem partiu a ordem e para onde ela aponta; o que ele não sabe é a lista do que será pedido na chegada. São dois tipos de conhecimento diferentes, e só o primeiro é necessário para dar o passo.
Preservar os meios, não só a permissão
Permissão sem meio é permissão vazia. O rei autoriza a viagem e retém aquilo com que a viagem se cumpriria.
Reconhecer a diferença entre ter autorização para fazer algo e ter as condições de fazê-lo é o que impede muita gente de comemorar acordos que não valem nada.
A margem que se guarda para o que ainda não foi pedido
Rashi observa que o pedido pode vir a ser maior do que o rebanho inteiro. Levar tudo, nessa leitura, não é abundância: é a única margem possível diante de uma exigência de tamanho desconhecido.
Quem planeja só para o que já sabe planeja sempre curto. Este versículo trabalha com a hipótese contrária.
O limite desta leitura
Esta frase costuma ser pregada como o modelo do crente que entrega tudo sem reservas, e o texto suporta essa leitura. Vale, porém, não esticá-la.
O Êxodo não está formulando um princípio geral de entrega; está registrando a resposta de um homem numa negociação concreta, sobre bens concretos, em face de uma ordem concreta. A frase é forte o bastante sem que se lhe atribua mais do que ela faz.
6. Aspectos Filosóficos
Comprometer-se com um conteúdo que ainda não se conhece
Existe um tipo de compromisso cujo teor não está disponível no momento em que ele é assumido.
Quem se casa não sabe com quem estará casado daqui a vinte anos. Quem adota uma criança não sabe quem ela virá a ser. Quem se alista não sabe para onde será mandado, e quem aceita cuidar de um doente não sabe o que o cuidado vai exigir. Em todos esses casos, a pessoa consente com uma descrição vaga — "o que vier" — e o conteúdo concreto só aparece depois, quando já não há como não ter consentido.
Uma saída possível é notar que nem todo compromisso é do mesmo tipo. Há acordos em que o objeto é uma lista — tantas peças, tal preço, tal prazo — e há acordos em que o objeto é uma relação. Nos primeiros, não saber é defeito. Nos segundos, não saber é a condição normal, e exigir a lista completa antes de entrar seria exigir que a relação já tivesse acontecido.
Onde este versículo se encaixa
A frase de Moisés pertence claramente ao segundo tipo, e é por isso que ela não soa irresponsável.
Ele não está assinando um contrato de fornecimento cujo objeto ficou em branco. Está descrevendo uma relação em que o outro lado dá as instruções no caminho, e em que a única coisa disponível antes de partir é a identidade de quem manda. Levar tudo é a única forma prudente de responder a um pedido cuja medida será conhecida depois.
Há um custo nessa posição, e é justo nomeá-lo. Quem aceita agir sem conhecer o teor do que será exigido abre mão de calcular se o preço vale a pena. Esse cálculo é a principal proteção que uma pessoa tem contra ser usada — e abandoná-lo só é razoável diante de quem se tem razões independentes para considerar confiável.
A ordem entre o passo e a informação
Há uma segunda questão embutida, mais estranha que a primeira: aqui o conhecimento depende do deslocamento.
O costume é pensar que primeiro se sabe e depois se age — reúne-se a informação, avalia-se, decide-se. O versículo inverte: saberemos quando chegarmos. Não é que a informação exista em algum lugar e eles não a tenham; é que ela ainda não foi dada, e será dada no destino.
Esse tipo de conhecimento não é raro fora da religião. Há coisas que só se aprendem estando: um ofício, uma cidade, uma doença, a convivência com alguém. Nenhuma quantidade de preparo prévio substitui a experiência, e quem exige saber antes de ir acaba nunca sabendo — não por teimosia do mundo, mas porque a informação que ele quer é produzida pelo próprio ato de ir.
Esta leitura tem limite. O texto não formula nenhuma teoria do conhecimento; ele registra uma frase dita numa negociação. O que foi descrito acima é o problema que a frase levanta, e não uma doutrina que o Êxodo ensine.
7. Aplicações Práticas
Não entregue o meio junto com a permissão
Acontece em mudança de emprego, em separação de bens, em saída de sociedade: a pessoa consegue a autorização e negocia fora dela justamente o instrumento com que faria o que foi autorizado — a carteira de clientes, a ferramenta, o carro, o acesso ao sistema.
Antes de assinar, vale fazer a conta do versículo: com o que eu ficaria e com o que eu faria aquilo que estou sendo autorizado a fazer. Se a resposta for "com nada", a autorização não existe.
Agir sem ter todo o plano na mão
Poucas decisões importantes vêm com o roteiro completo: casamento, filho, mudança de país, cuidado de um pai doente. Esperar o quadro inteiro antes de dar o primeiro passo é uma forma respeitável de nunca dar o primeiro passo.
O que este versículo mostra não é imprudência. É uma distinção de método: Moisés sabe de quem partiu a ordem e para onde ela aponta, e é isso que lhe basta para partir — não a lista do que será pedido na chegada.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se eles não sabiam do que precisariam, como sabiam que precisariam de animais?
O versículo responde sozinho: "deles tomaremos para servir". O desconhecimento é de espécie e de quantidade, não de natureza.
A distinção é a mesma de quem sabe que vai construir uma casa e não sabe quantos tijolos vai gastar. Ninguém chamaria isso de ignorância sobre a obra.
Por que a frase não promete o retorno dos animais?
É a ausência mais notável do versículo. O rei acaba de dizer que os rebanhos ficam como retenção, e a resposta não oferece nenhuma garantia substituta — nem prazo, nem penhor, nem juramento.
O Êxodo não explica o silêncio, e ele admite mais de uma leitura. Pode ser que uma promessa de retorno não coubesse na boca de quem transmite uma ordem que nunca falou em voltar; pode ser apenas que a conversa não tenha chegado lá. Não é possível decidir, e é melhor registrar a ausência do que preenchê-la.
Por que o Êxodo guarda esta declaração de ignorância?
Um relato interessado em engrandecer Moisés teria cortado a frase. Ela expõe o enviado admitindo, diante do adversário, que não tem o plano completo.
O livro conserva isso, e conserva também as hesitações do começo da missão e as brigas do povo. É uma marca de como este texto trabalha: os seus protagonistas não são apresentados como quem sabe tudo, e a autoridade deles não vem de saber.
O que significa "servir", afinal?
A mesma palavra aparece três vezes no versículo, e ela carrega no Êxodo uma ambiguidade que não é acidental.
Serve-se a um rei com trabalho forçado e serve-se a Deus com culto — e é o mesmo verbo. O livro inteiro se move nessa dobra: o povo está passando de um serviço para outro, e a discussão com o rei é, no fundo, sobre a quem aquele trabalho pertence. O sentido preciso em cada ocorrência tem de ser decidido pelo contexto, e aqui o contexto é o altar.
9. Conexão com Outros Textos
A condição que esta resposta desfaz
Êxodo 10:24 — Faraó chamou Moisés e disse: "Vão, sirvam ao SENHOR. Somente os seus rebanhos e o seu gado ficarão; até as suas crianças podem ir com vocês."
O "somente" do rei e o "nem um casco" de Moisés são as duas pontas da mesma frase. Nenhum dos dois cede terreno, e nenhum dos dois discute o argumento do outro.
Êxodo 10:9 — Moisés respondeu: "Iremos com os nossos jovens e com os nossos velhos, com os nossos filhos e com as nossas filhas; iremos com os nossos rebanhos e com o nosso gado, porque temos uma festa do SENHOR."
A mesma exigência, dita antes das trevas. Entre uma fala e outra o rei mudou quatro vezes de proposta e Moisés não mudou nenhuma.
O casco como marca de classificação
Levítico 11:3 — "Dentre os animais, todo o que tem a unha fendida, e o casco dividido, e que rumina, esse vocês poderão comer."
A regra que faz do casco o lugar por onde se decide se um animal entra ou não no mundo do culto. É a mesma palavra do versículo 26.
Ir antes de saber
Gênesis 22:2 — Então Deus disse: "Tome seu filho, o único que você tem, Isaque, a quem você ama, e vá à terra de Moriá. Ofereça-o ali em holocausto, sobre um dos montes que eu lhe indicarei."
A mesma estrutura, aplicada ao lugar em vez de à oferta: parte-se com a ordem e recebe-se o resto no caminho. Ali o que fica em aberto é o monte; aqui, o que será oferecido.
Êxodo 3:12 — E Deus respondeu: "Eu estarei com você; e este será o sinal de que fui eu que o enviei: quando você tirar o povo do Egito, vocês servirão a Deus neste monte."
O sinal prometido a Moisés só se cumpre depois do ato que ele deveria confirmar. A lógica da segunda metade do versículo 26 já estava ali, no começo da missão.
Hebreus 11:8 — "Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu e saiu para um lugar que havia de receber como herança; e saiu sem saber para onde ia."
Uma leitura do Novo Testamento que faz exatamente do não saber o conteúdo do ato de fé. A comparação é de um texto muito posterior, e vale como leitura, não como prova.
Por que a instrução importava
Levítico 10:1-2 — Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, puseram neles fogo, deitaram incenso sobre eles e ofereceram diante do SENHOR fogo estranho, o que não lhes tinha sido ordenado. E saiu fogo de diante do SENHOR e os devorou, e morreram diante do SENHOR.
Num culto definido pela instrução recebida, o que não foi mandado não é uma variação: é outra coisa. O cuidado de não decidir antes de saber deixa de parecer preciosismo.
O pedido original
Êxodo 5:3 — Eles disseram: "O Deus dos hebreus veio ao nosso encontro. Deixe-nos ir três dias de caminho pelo deserto, para sacrificarmos ao SENHOR, o nosso Deus, para que ele não nos fira com peste ou com espada."
Desde a primeira audiência o objetivo declarado era sacrificar, e sacrificar exige animal. A retenção proposta pelo rei atinge o ponto que estava dito desde o começo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português (ABC)
Também o nosso gado irá conosco; não ficará nem um casco, porque deles tomaremos para servir ao SENHOR, o nosso Deus. E nós não sabemos com que serviremos ao SENHOR até chegarmos lá.”
Texto hebraico
וְגַם־מִקְנֵנוּ יֵלֵךְ עִמָּנוּ לֹא תִשָּׁאֵר פַּרְסָה כִּי מִמֶּנּוּ נִקַּח לַעֲבֹד אֶת־יְהוָה אֱלֹהֵינוּ וַאֲנַחְנוּ לֹא־נֵדַע מַה־נַּעֲבֹד אֶת־יְהוָה עַד־בֹּאֵנוּ שָׁמָּה׃
Transliteração
ve-gam miqnênu yelékh immánu, lo tishaér parsáh, ki mimmênnu niqqách la'avód et-YHWH Elohêinu; va-anáchnu lo nedá mah-na'avód et-YHWH ad bo'ênu shámmah.
Análise palavra por palavra
ve-gam — "e também". A mesma partícula aditiva do versículo anterior, e a terceira vez que ela aparece neste diálogo. Faraó a usou para conceder as crianças; Moisés a usa duas vezes, para exigir os animais do rei e agora para incluir os do povo. A palavra da generosidade do rei virou a palavra da recusa.
miqnênu — "o nosso gado". Aqui está uma das escolhas mais reveladoras do versículo. Miqneh vem da raiz qanah, "adquirir", "comprar", "tomar posse". Ao pé da letra, a palavra significa "o adquirido", "a aquisição".
Que a língua use o termo da propriedade para designar animais diz tudo sobre a economia daquele mundo: o gado não era uma forma de riqueza entre outras — era a riqueza, a ponto de a palavra para uma coisa servir para a outra. Note-se que o termo é diferente do par usado no versículo 24, onde havia dois substantivos, um para o gado miúdo e outro para o gado grande. Aqui uma palavra só cobre tudo.
yelékh immánu — "irá conosco". Verbo no singular concordando com o coletivo, e a mesma preposição de companhia que fechava o versículo 24 — lá aplicada às crianças, pela boca do rei; aqui aos animais, pela de Moisés.
lo tishaér — "não ficará". Niphal — a forma passiva do verbo hebraico — da raiz sha'ar, "restar", "sobrar", "ser deixado para trás". É a raiz do conceito bíblico de "resto", o que sobra depois de uma destruição, e que os profetas usarão largamente.
parsáh — "casco". Substantivo feminino ligado à raiz paras, cujo sentido é dividir, separar, repartir. O nome descreve o que caracteriza o pé desses animais: ele é fendido, partido em dois.
A mesma palavra é o termo técnico de Levítico 11:3, onde o casco dividido é o critério visível de classificação do animal. Rashi glosa o termo para os leitores dele como a sola do pé, recorrendo a uma palavra do francês do século XI.
O singular importa: não é "nenhum casco", no plural, mas "um casco" — a menor peça que se possa nomear. E a frase não diz "nenhum animal", que seria o esperado. Diz menos do que um animal.
ki mimmênnu niqqách — "porque deles tomaremos". A conjunção ki introduz a causa. Mimmennu é "dele", no singular, referido ao coletivo "gado": em português sai naturalmente "deles". O verbo é da raiz laqach, "tomar", "pegar" — o verbo comum, sem cor religiosa.
la'avód — "para servir". Infinitivo da raiz avad, a palavra que domina o Êxodo. Ela cobre tanto o trabalho do escravo quanto o serviço prestado a um deus, e a língua não distingue os dois com palavras diferentes. A raiz aparece três vezes só neste versículo.
va-anáchnu lo nedá — "e nós não sabemos". De novo um pronome acrescentado a um verbo que já o contém — "nós" diante de "não sabemos" —, e de novo com força de ênfase e de contraste: nem nós sabemos. A raiz yada é o verbo do conhecimento por experiência, e não da informação abstrata.
ad bo'ênu shámmah — "até chegarmos lá". Preposição "até" mais o infinitivo de bo, "vir", "chegar", com sufixo de primeira pessoa do plural. Shammah é "ali" com a terminação que indica direção: não "lá", e sim "para lá".
O fecho do versículo é, portanto, um movimento e não um lugar. O que separa aquele povo do conhecimento que lhe falta é uma viagem.
11. Conclusão
Do exame deste versículo saem três conclusões.
A recusa é total porque foi formulada no mínimo. Medir a negação na menor peça de um animal elimina antecipadamente qualquer discussão sobre exceções, e faz isso sem elevar o tom nem aumentar o pedido. É uma maneira de fechar uma porta que não depende de força — e Moisés não tinha nenhuma.
Os dois lados estavam falando de coisas diferentes com as mesmas palavras. Para o rei, os rebanhos eram patrimônio retido; para Moisés, são o material sem o qual o ato não acontece. O impasse do capítulo não é de vontade apenas: é de descrição. Uma negociação em que cada parte tem um objeto distinto sob o mesmo nome não se resolve cedendo quantidade.
A firmeza não dependia de ter o plano completo. Moisés declara, na mesma frase em que recusa tudo, que não sabe o que será pedido na chegada — e isso não enfraquece a recusa, sustenta-a. Quem não conhece a medida do que será exigido não pode entregar parte alguma antecipadamente.
Por fim, o que este versículo faz com a figura do enviado. Ele admite ignorância diante do adversário, num momento de máxima pressão, e o Êxodo conserva a admissão sem atenuá-la. A autoridade de Moisés, no retrato que este livro faz dele, nunca veio de saber mais do que os outros: vem de quem o mandou, e é por isso que declarar o que não sabe não lhe custa nada.













