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Êxodo 10:27

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 27 acessos
Mas o SENHOR tornou firme o coração de Faraó, e ele não quis deixá-los ir.
Faraó imóvel no trono, de perfil, o rosto fechado e as mãos apoiadas nos braços da cadeira; diante dele, fora de foco, a silhueta de Moisés em pé no salão em penumbra.

Estudo


Mas o SENHOR tornou firme o coração de Faraó, e ele não quis deixá-los ir.

1. Introdução

O versículo põe duas afirmações lado a lado e não as concilia: o SENHOR tornou firme o coração do rei, e o rei não quis.

O verbo escolhido para o lado humano é novo no capítulo. Até aqui o texto dizia que Faraó se recusava ou que não deixava ir; agora diz que ele não quis — e o hebraico usa um verbo que, em quase todas as suas aparições na Bíblia, vem acompanhado de uma negação.

É a segunda vez neste capítulo que o texto atribui a Deus o endurecimento sem que o rei tenha feito nenhuma confissão pelo meio. E é a frase que fecha a negociação: o que vem depois já não é proposta.

2. Contexto Histórico e Cultural

A palavra de um rei era feita para não voltar atrás

Para medir o que acontece neste versículo, é preciso saber como funcionava a decisão de um soberano no mundo antigo.

No Egito, a vontade do rei se tornava pública por meio de um decreto — uma ordem real, redigida por escribas, datada, selada e enviada aos funcionários encarregados de cumpri-la. Decretos importantes eram gravados em pedra e afixados nos templos, precisamente para que não pudessem ser discutidos nem esquecidos. Um decreto não era um aviso: era um ato jurídico com prazo indefinido, e a permanência fazia parte da sua natureza.

O mundo em volta pensava da mesma forma, e há uma formulação bíblica do princípio que é a mais explícita que sobreviveu. Ela vem de outro império e de séculos depois, o persa, e diz que o que o rei estabelece por escrito e sela com o seu anel "não se pode revogar" (Ester 8:8). O livro de Ester a repete ao pedir que um édito real seja escrito "entre as leis dos persas e dos medos, para que não seja revogado" (Ester 1:19), e Daniel a apresenta como a regra que aprisiona o próprio rei que a assinou: uma lei dos medos e dos persas "não pode ser mudada", nem por quem a fez (Daniel 6:8 e 6:15).

Deve-se dizer com clareza que esses textos são muito posteriores, de outro povo e de outro sistema de governo, e não descrevem o Egito. O que eles fornecem é o enunciado de um princípio que o Oriente antigo praticava de várias maneiras: a palavra do rei, uma vez posta, é o que organiza o que vem depois, e um rei que volta atrás desfaz não só uma decisão, mas a confiança de que as decisões dele valem.

Quatro reversões em um punhado de dias

É contra esse pano de fundo que se enxerga a situação do homem deste versículo.

Em poucas semanas ele autorizou a saída e a limitou ao Egito; autorizou de novo e limitou a distância; autorizou de novo e reduziu aos homens; autorizou mais uma vez e reteve os animais. Nenhuma dessas falas foi dita em particular: foram ditas em audiência, diante de servos, e ao menos uma vez foram seguidas de uma expulsão pública (Êxodo 10:11). No intervalo, ele se declarou culpado e pediu que suplicassem por ele.

Isso não explica o que se passa no versículo 27 — o texto atribui o endurecimento a outra causa —, mas descreve a posição em que o rei se encontra. Um governante cuja palavra foi desfeita quatro vezes pelos seus próprios lábios não perdeu apenas a negociação: perdeu o instrumento com que governava.

3. Análise Teológica do Versículo

"Mas o SENHOR"

A frase começa pela ação de Deus, e começa com uma adversativa.

O que vinha antes era um argumento: Moisés tinha explicado por que os animais precisavam ir, e a explicação era razoável nos termos do próprio pedido que o rei já concedera. O "mas" não introduz uma refutação desse argumento. Introduz outro plano da cena, em que não se discute nada.

"tornou firme o coração de Faraó"

O verbo é o mesmo de Êxodo 10:20, sete versículos antes, e o de Êxodo 9:12. Não é o verbo do peso nem o da dureza: é o de tornar forte, firme, resistente — o que se faz a uma muralha ou a um braço.

Aplicado à decisão de um homem, ele não descreve insensibilidade. Descreve firmeza: a capacidade de permanecer numa posição sob pressão. O rei não fica incapaz de sentir a praga; fica capaz de suportá-la sem mudar.

"e ele não quis deixá-los ir"

Aqui está o dado que distingue este versículo de todos os anteriores do capítulo.

As outras fórmulas eram de resultado: "ele não deixou os filhos de Israel irem" (Êxodo 10:20), "ele não os ouviu" (Êxodo 9:12). Esta é de vontade. O texto não diz apenas que o rei não fez; diz que ele não quis — e a vontade é dele.

O verbo hebraico escolhido tem uma particularidade que vale conhecer: ele quase nunca aparece sem negação. Em praticamente todas as suas ocorrências na Bíblia hebraica, a palavra comparece como "não quis", "não consentiu" (item 10). É um verbo que a língua usa sobretudo para registrar recusas.

Isso importa para o sentido. A frase não diz que Faraó preferiu outra coisa: diz que ele não consentiu, que a vontade dele não acompanhou. É o registro de uma negativa interior, e não de uma escolha entre alternativas.

As duas metades, e o que fazer com elas

A pergunta que este versículo obriga a enfrentar é simples de formular e não tem resposta pacífica: se foi o SENHOR quem tornou firme o coração, de quem é a recusa que a segunda metade registra?

Primeira leitura: as duas afirmações descrevem o mesmo ato, de dois pontos de vista. O que do lado de Deus é endurecimento, do lado do homem é vontade própria — e o texto simplesmente coloca as duas descrições lado a lado, sem hierarquia. Quem lê assim costuma observar que o Êxodo faz isso sistematicamente, e que nunca tenta explicar a articulação.

Segunda leitura: a firmeza dada por Deus confirma uma disposição que já era do rei. Nessa leitura, o endurecimento não cria a recusa: torna estável uma recusa que Faraó vinha manifestando desde o primeiro capítulo. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) caminha nessa direção ao descrever a vontade do rei como resoluta e fixada contra a saída.

Terceira leitura: a segunda metade é a consequência da primeira, e o Êxodo não se incomoda com isso. O livro afirma a ação divina e a responsabilidade humana com a mesma naturalidade, sem sinal de que perceba tensão entre elas — e a tensão pode ser mais nossa do que do texto.

Não é possível decidir entre as três a partir deste versículo, e nenhuma delas resolve o problema inteiro. O que se pode afirmar é o que está escrito: as duas coisas são ditas, na mesma frase, sem explicação. A discussão completa do assunto está no estudo de Êxodo 4:21.

O que muda depois desta frase

Este versículo encerra a negociação, e encerra de um jeito específico: sem resposta.

Moisés tinha apresentado um argumento com premissa e conclusão. O rei não o contesta, não pede prazo, não propõe uma quinta fórmula. A próxima coisa que ele diz não trata de rebanhos, de crianças nem de distância — trata da pessoa que está à frente dele.

Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) ligam as duas metades desta sequência de maneira direta: é com a firmeza que Deus lhe suspendeu sobre a cabeça que o rei cai na ira do versículo seguinte. A leitura é deles, e o texto não estabelece a ligação em palavras — mas a ordem das frases a sugere.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Quem age neste versículo

São dois sujeitos, e é a primeira vez no capítulo que eles aparecem numa frase tão curta.

O SENHOR é o sujeito da primeira oração, nomeado pelo nome próprio que o rei dissera não conhecer. Faraó é o sujeito da segunda, e o verbo que o descreve é de vontade. Entre os dois não há conjunção explicativa nenhuma: só um "e".

Quem não aparece

Moisés é mencionado apenas pelo sufixo do verbo — "deixá-los ir" —, e nem sequer por nome. Arão continua ausente. O povo está a alguma distância, sem saber o que se passa na sala.

Esse apagamento momentâneo dos personagens humanos combina com o que o versículo faz: ele suspende a conversa e informa o leitor de alguma coisa que nenhum dos presentes está em condições de ver.

O coração, no vocabulário daquele mundo

O órgão nomeado aqui não é, para um hebreu antigo, a sede das emoções. É o centro do pensamento, da avaliação e da decisão — mais perto do que hoje chamaríamos de cabeça do que do que chamamos de coração.

O momento

A cena é a mesma do versículo 24 em diante: o palácio, depois das trevas, com a proposta do rei recusada e o argumento de Moisés no ar. Nada se moveu no espaço.

O que este versículo acrescenta ao relato não é um acontecimento visível. É a informação de que a negociação acabou — e o leitor recebe essa informação antes dos personagens.

5. Pontos de Ensino

Um bom argumento não garante uma decisão

A fala de Moisés nos dois versículos anteriores é coerente, tem premissa e conclusão, e responde exatamente à objeção que o rei levantara. A resposta que ela recebe não a contesta em ponto nenhum.

Quem discute esperando que a razão decida costuma sair dessas conversas sem entender o que houve. O versículo registra o descompasso sem comentar: o argumento era bom, e não foi por aí que a coisa se resolveu.

Firmeza não é virtude por si mesma

O verbo aplicado ao coração do rei é o de fortalecer. É o mesmo tipo de qualidade que em outros contextos a Bíblia recomenda — ser forte, não vacilar, manter a posição.

Aqui ela aparece sustentando uma recusa. Constância, resistência e determinação são traços que valem exatamente o que valer aquilo a que estão aplicados, e este versículo é um lembrete desconfortável disso.

A vontade aparece nomeada

O texto poderia ter dito só que o rei não deixou ir. Diz que ele não quis.

Essa palavra impede a leitura que transformaria Faraó em peça sem vontade. Seja qual for a explicação que se adote para a primeira metade do versículo, a segunda registra uma recusa que é dele — e o Êxodo não sente necessidade de escolher entre as duas coisas.

Uma advertência de leitura

Este versículo é um dos mais usados para discutir livre-arbítrio, e o uso costuma ser apressado nos dois sentidos.

Ele é curto demais para sustentar sozinho qualquer doutrina. O que ele faz é pôr as duas afirmações juntas, sem explicá-las — e o leitor honesto sai daqui com uma pergunta, não com uma conclusão.

6. Aspectos Filosóficos

Duas causas para o mesmo ato

A dificuldade deste versículo tem uma forma antiga e conhecida: um mesmo acontecimento recebe duas explicações completas, cada uma das quais parece bastar sozinha.

Normalmente, quando duas causas são oferecidas para um fato, elas se repartem — uma parte foi por isto, outra parte foi por aquilo. Não é o caso aqui. A firmeza dada pelo SENHOR cobre a recusa inteira; a vontade do rei também. Não sobra um pedaço para dividir.

Essa é a situação que torna o problema difícil de dissolver. Se o versículo dissesse que Deus tornou o coração parcialmente firme e o rei completou o resto, haveria uma soma, e somas se resolvem. O que o texto apresenta são duas descrições integrais do mesmo movimento.

O que se ganha e o que se perde em cada saída

Ao longo dos séculos, as tentativas de resolver a questão se agruparam em três caminhos, e vale ver o custo de cada um.

O primeiro subordina a vontade humana à ação divina: se Deus tornou firme, a recusa é efeito. Ganha-se coerência e perde-se o sentido da segunda metade do versículo, que passa a ser um modo de falar.

O segundo subordina a ação divina à vontade humana: Deus confirma o que o homem já escolheu. Ganha-se a responsabilidade e perde-se a força do verbo, que deixa de significar fazer e passa a significar deixar acontecer.

O terceiro recusa a escolha e mantém as duas afirmações sem articulação. Ganha-se fidelidade ao texto e perde-se a possibilidade de explicar coisa alguma — o que, para quem exige um sistema, é perda séria; para quem lê o Êxodo, talvez não seja.

Querer o que não se quer querer

Há um segundo problema, menor e mais próximo da experiência de qualquer pessoa, e ele está na palavra "quis".

Não querer não é a mesma coisa que escolher. Escolher supõe alternativas presentes à mente, comparadas, com uma vencendo. Não querer é anterior a isso: é a ausência de adesão, e ela pode existir sem que a pessoa tenha examinado nada.

Quem já tentou querer alguma coisa que não quer sabe que a vontade não obedece diretamente a ordens, nem próprias nem alheias. É possível fazer o que não se quer; não é possível querer por decisão. E é por isso que a frase "ele não quis" descreve uma condição, e não apenas um ato — o que, por sua vez, é parte do que torna o versículo difícil.

A leitura tem limite. Nada disso está dito no Êxodo. O texto informa que a firmeza veio de Deus e que a recusa foi do rei, e para. Tudo o que foi examinado acima é a pergunta que a frase abre, e não a resposta que ela dá.

7. Aplicações Práticas

Saber quando uma conversa acabou

Aqui a negociação termina sem que ninguém a declare encerrada. Não há briga, não há acordo, não há prazo pedido. O sinal é outro: o interlocutor deixou de responder ao assunto.

Em qualquer discussão longa — de trabalho, de família, de negócio —, o momento em que o outro para de tratar do mérito e passa a tratar de você é o momento em que o mérito saiu de cena. Reconhecê-lo poupa meses.

Ter razão não é ter resultado

Moisés apresentou o melhor argumento do capítulo e ele não produziu efeito nenhum. Isso não desqualifica o argumento, e não significa que ele devesse ter sido outro.

Quem trabalha com convencimento precisa conviver com essa distinção sem se corromper por ela. A alternativa — ajustar o que se diz até obter a resposta desejada — é justamente o que Moisés não fez nos quatro rounds anteriores.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o texto acrescenta "não quis", se já dissera que Deus tornou firme?

Do ponto de vista da informação, a segunda metade é redundante: se o coração foi tornado firme, o resultado já estaria dito.

Ela não é redundante do ponto de vista do que o livro quer registrar. Sem ela, o rei seria apenas o lugar onde uma ação divina aconteceu. Com ela, há um homem que não consentiu. O Êxodo faz questão de escrever as duas coisas, e essa insistência é, por si, um dado — qualquer leitura que apague uma das metades está apagando uma escolha do texto.

Faraó poderia ter decidido de outro modo?

O versículo não responde, e é importante não fabricar a resposta.

Quem disser que sim está inferindo da segunda metade; quem disser que não está inferindo da primeira. As duas inferências são legítimas e nenhuma é demonstrável a partir daqui. Permanece em aberto.

Por que Deus endurece se o objetivo declarado era a saída?

A pergunta é antiga e o próprio livro a responde em outro lugar, no começo deste capítulo, ao dar um motivo: pôr os sinais no meio deles e fazer com que fossem contados aos filhos e aos netos (Êxodo 10:1-2).

Isso explica a finalidade, não o mecanismo. O Êxodo declara para que serve, e nunca explica como se articula com a vontade do homem que sofre a ação.

Este endurecimento é diferente dos anteriores?

No verbo, não: é o mesmo de Êxodo 10:20 e de Êxodo 9:12.

Na fórmula que o acompanha, sim. Os casos anteriores terminavam com o resultado — não deixou ir, não ouviu. Este termina com a vontade. É a única vez no capítulo em que a palavra "quis" aparece a respeito do rei.

Por que o versículo é tão curto?

Porque não há nada para narrar. Não houve gesto, fala nem acontecimento observável; houve uma mudança de estado que nenhuma das personagens presenciou.

O Êxodo trata esses momentos sempre assim, em frases mínimas encaixadas entre diálogos longos. A brevidade não é descuido: é a forma que o livro dá ao que não se vê.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma fórmula, sete versículos antes

Êxodo 10:20 — Mas o SENHOR tornou firme o coração de Faraó, e ele não deixou os filhos de Israel irem.

Primeira metade idêntica, segunda metade diferente: ali o texto registra o resultado, aqui a vontade.

Êxodo 9:12 — Mas o SENHOR tornou firme o coração de Faraó, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito a Moisés.

A primeira vez em que o Êxodo atribui o endurecimento a Deus com este verbo. Note-se que ali há a cláusula "como o SENHOR havia dito", ausente no versículo 27.

Quando o texto atribui o ato ao próprio rei

Êxodo 9:34 — Quando Faraó viu que a chuva, o granizo e os trovões tinham cessado, continuou a pecar e tornou pesado o seu coração, ele e os seus servos.

Outro verbo, e o sujeito é Faraó. A alternância entre os dois modos de dizer atravessa o livro, e não é resolvida em lugar nenhum.

Êxodo 7:14 — Então o SENHOR disse a Moisés: "O coração de Faraó está pesado; ele se recusa a deixar o povo ir."

Aqui o verbo é o de recusar — um ato. No versículo 27 é o de querer — uma disposição. O hebraico distingue os dois, e o Êxodo usa os dois.

O anúncio feito antes de tudo começar

Êxodo 4:21 — E o SENHOR disse a Moisés: "Quando você voltar ao Egito, veja que faça diante de Faraó todos os prodígios que pus na sua mão. Eu, porém, tornarei firme o coração dele, e ele não deixará o povo ir."

O verbo do versículo 27 é o mesmo que fora anunciado a Moisés antes da primeira audiência, com a mesma consequência. O que acontece no palácio já estava dito no deserto.

O motivo declarado, no começo deste capítulo

Êxodo 10:1 — "Então o SENHOR disse a Moisés: ‘Vá a Faraó, porque eu tornei pesado o coração dele e o coração dos seus servos, para pôr estes meus sinais no meio dele,"

Êxodo 10:2 — e para que você conte aos ouvidos do seu filho e do filho do seu filho como zombei do Egito, e os meus sinais que pus entre eles; e vocês saberão que eu sou o SENHOR."

A finalidade está declarada; o mecanismo, não. É a única resposta que o capítulo oferece à pergunta "para quê", e ela não responde à pergunta "como".

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português (ABC)

Mas o SENHOR tornou firme o coração de Faraó, e ele não quis deixá-los ir.

Texto hebraico

וַיְחַזֵּק יְהוָה אֶת־לֵב פַּרְעֹה וְלֹא אָבָה לְשַׁלְּחָם׃

Transliteração

vayechazzéq YHWH et-lev Par'óh, ve-lo aváh le-shalechám.

Análise palavra por palavra

vayechazzéq — "e tornou firme". Verbo da raiz chazaq, na forma chamada Piel — a conjugação hebraica que intensifica ou que transforma um estado em ação provocada. O sentido básico da raiz é ser forte, firme, resistente; no Piel, fortalecer, endurecer no sentido de tornar rijo.

A mesma forma aparece em Êxodo 9:12 e em Êxodo 10:20, sempre com o SENHOR por sujeito.

et-lev Par'óh — "o coração de Faraó". A partícula et marca o objeto direto e, em hebraico, é um sinal gramatical que não se traduz. Lev é "coração", mas no vocabulário hebraico antigo o termo designa a sede da deliberação: é onde se pensa, se avalia e se decide. Dizer que alguém "diz no seu coração" é dizer que pensa consigo mesmo.

ve-lo aváh — "e ele não quis". Aqui está a palavra que distingue este versículo.

O verbo é avah, no Qal — a forma simples e ativa — do tempo perfeito, terceira pessoa do singular. Ele significa estar disposto, consentir, aquiescer: não escolher entre opções, mas dar o próprio assentimento.

A particularidade dessa palavra é estatística, e os léxicos de hebraico a registram há séculos: ela aparece pouco mais de cinquenta vezes na Bíblia hebraica e, em praticamente todas elas, vem precedida de negação. O uso corrente da língua é "não quis", "não consentiu", "recusou-se a". As exceções são raríssimas — Isaías 1:19 é a mais citada, "se vocês quiserem e ouvirem".

Isso tem uma consequência para a leitura. O hebraico não dispunha desse verbo como um termo neutro para "querer"; ele funcionava, na prática, como o verbo do assentimento que falta. Quando o Êxodo escreve que o rei não consentiu, está usando a palavra no seu uso mais natural, e a frase soa em hebraico como o registro seco de uma recusa.

le-shalechám — "deixá-los ir". Preposição le ("para") com o infinitivo do verbo shalach no Piel, e o sufixo de terceira pessoa do plural, "os".

No Qal, shalach significa enviar. No Piel, ganha o sentido de mandar embora, soltar, despedir — e é o verbo que percorre o Êxodo inteiro no pedido "deixe o meu povo ir". O peso jurídico que essa palavra tem na lei de libertação de escravos está examinado no estudo de Êxodo 4:23.

Uma observação sobre a construção

As duas orações do versículo são ligadas apenas pela conjunção "e". O hebraico não põe entre elas nenhuma palavra que indique causa, consequência, concessão ou contraste.

Todas as conjunções mais fortes que aparecem nas traduções modernas — "de modo que", "por isso", "e assim" — são decisões dos tradutores, tomadas por necessidade de estilo ou por convicção teológica. O texto hebraico justapõe as duas afirmações e deixa a relação entre elas por conta de quem lê.

11. Conclusão

Três conclusões saem deste versículo.

O Êxodo escreve as duas coisas e não escolhe. Ele afirma a ação de Deus sobre a decisão do rei e afirma que o rei não consentiu, na mesma frase, ligadas por um simples "e". Não há no hebraico nenhuma conjunção de causa ou de consequência entre as duas. Quem lê está autorizado a formular a pergunta e não está autorizado a dizer que o texto a resolveu.

A novidade está na palavra "quis". As outras vezes em que o capítulo registra o endurecimento terminam no resultado — não deixou ir, não ouviu. Esta termina na vontade, e usa um verbo que a língua hebraica praticamente só emprega para registrar recusas. O que o versículo acrescenta ao capítulo não é um fato novo: é uma atribuição.

A negociação termina sem ser encerrada. Não há refutação do argumento de Moisés, não há contraproposta e não há ruptura declarada. O que vem depois muda de assunto — deixa de tratar de rebanhos e passa a tratar da pessoa que está à frente do rei.

Cabe ainda registrar o que este versículo faz com a figura de Faraó. Ele não o descreve, não o julga e não lhe atribui sentimento nenhum. Em oito palavras hebraicas, o livro informa de onde veio a firmeza e a quem pertenceu a recusa, e passa adiante. Qualquer retrato psicológico do rei que se construa a partir daqui é acréscimo do leitor.

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