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Êxodo 10:11

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 25 acessos
Não será assim! Vão, vocês, os homens, e sirvam ao SENHOR, pois é isso que vocês pedem.” E os expulsaram da presença de Faraó.
Dois homens de barba sendo levados para fora de uma sala do palácio egípcio por guardas, enquanto o rei permanece sentado ao fundo com a mão erguida; pela porta aberta veem-se mulheres e crianças esperando no pátio.

Estudo


Não será assim! Vão, vocês, os homens, e sirvam ao SENHOR, pois é isso que vocês pedem.” E os expulsaram da presença de Faraó.

1. Introdução

O rei concede a viagem e fica com as famílias.

A proposta é apresentada como se fosse o atendimento do pedido — "pois é isso que vocês pedem" —, e não é: ninguém tinha pedido que só os homens fossem. A palavra que ele usa para "homens" também não é a que os seus próprios conselheiros usaram: é a que significa varão adulto, e só. E a audiência termina de um jeito novo no livro — os dois não saem, são expulsos, com o verbo que o Êxodo reservara para o que aconteceria com Israel no fim.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem fica é a garantia de quem vai

Reter a família de quem viaja não era crueldade avulsa: era um instrumento de governo, com nome, regra e registro escrito, e o Egito foi um dos Estados que mais o usaram.

A fonte mais direta está gravada nas paredes do templo de Amon, em Carnaque. São os anais de Tutmés III, o rei-general do século XV antes de Cristo que levou o exército egípcio até o Eufrates, e neles se lê, entre as listas de despojo de campanha, uma frase de procedimento: os filhos dos chefes e os irmãos deles foram trazidos como reféns para o Egito; e, quando um desses chefes morria, o rei mandava pôr o filho no lugar do pai.

Leia devagar a segunda metade, porque é ali que está a engenharia. O filho não era um prisioneiro qualquer. Ele crescia no Egito, aprendia a língua, os modos e a lealdade da corte — e voltava, quando voltava, para governar a cidade do pai. O sistema produzia ao mesmo tempo a garantia e o sucessor.

O mesmo desenho aparece em toda a região

Os tratados hititas com reis vassalos incluem cláusulas de entrega de pessoas como penhor de cumprimento. A correspondência diplomática do Antigo Oriente registra envios de filhos e filhas de reis menores para as cortes maiores, ora apresentados como casamento, ora como educação, ora como o que eram.

As cartas encontradas em Amarna, no Egito, são a coleção que melhor documenta essa rede de obrigações, e o estudo de Êxodo 8:28 já as usou a outro propósito. O que interessa neste versículo é um dado que nenhuma delas discute e todas pressupõem: havia gente que ficava do outro lado como parte do acordo.

Por que o método funciona

A lógica é simples e desagradável. Não se prende quem se quer controlar — prende-se o que ele ama.

Um homem detido é um problema: come, precisa de guarda, não produz e serve de bandeira para os seus. Um homem solto cuja família está retida é outra coisa. Ele viaja, trabalha, negocia e volta — e volta por conta própria, sem que ninguém precise ir buscá-lo. O custo da vigilância cai para quase zero, e a decisão de obedecer passa a ser dele.

Há ainda um efeito que os documentos não dizem e a situação impõe: quem está nessa posição não pode agir em nome do grupo inteiro, porque metade do grupo está do outro lado. Ele deixa de ser representante e passa a ser negociador da própria casa.

O caso do versículo

É exatamente esse arranjo que a proposta do rei monta, e os comentaristas o perceberam cedo. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) lê a manobra desde a pergunta do versículo 8: o rei queria reter alguns como penhor do retorno dos outros. Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) usa a palavra refém para descrever o que ficaria.

O Êxodo não emprega o termo e não explica a intenção do rei. O que se pode afirmar é que a proposta tem a forma exata de uma prática conhecida e documentada na região — e que quem a ouvisse então reconheceria a forma sem precisar de explicação.

Um detalhe de vocabulário que confirma o fundo

Uma observação fecha o quadro. A palavra hebraica que o rei usou no versículo anterior para designar quem ficaria — o miúdo da casa — é, no vocabulário de guerra e de migração do Antigo Oriente, o termo padrão para a parte do grupo que não marcha. Nas narrativas de deslocamento, é sempre essa fatia que fica ou que é levada como despojo.

Dizer "vão os varões" é, portanto, dizer duas coisas ao mesmo tempo: vocês podem ir, e o que vocês têm continua aqui.

3. Análise Teológica do Versículo

"Não será assim!"

Duas palavras no hebraico, e são as mesmas com que o rei abriu a bênção do versículo anterior, agora com uma negação na frente. Ali ele disse "seja assim o SENHOR convosco"; aqui diz "não assim".

O que a repetição faz é fechar o parêntese. A frase anterior tinha condicionado o bem-querer a uma coisa — deixá-los ir com as crianças —, e esta frase declara que a coisa não acontecerá. O rei desmontou a própria bênção com a palavra com que a montou.

"Vão, vocês, os homens"

A concessão. E ela vem com duas escolhas de palavra que decidem tudo.

A primeira é o verbo. Outra vez "vão", o termo neutro do deslocamento, como no versículo 8 — e não o termo da soltura, que ele usara no versículo 10 dentro de uma frase que o anulava. O rei autoriza um movimento; não solta ninguém.

A segunda é o substantivo, e é o achado do versículo. O hebraico traz aqui uma palavra que não apareceu antes nesta negociação. Os conselheiros, no versículo 7, tinham dito "deixe esses homens irem" com o termo comum para pessoas — a palavra que designa um grupo sem dizer nada sobre idade ou sexo. O rei responde com outra: a que significa varão adulto e só isso, formada sobre a raiz de "ser forte".

Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) para exatamente nesse ponto e sublinha o termo: homens feitos. Em português as duas palavras viram "homens", e a manobra desaparece.

Repare no que isso significa dentro da conversa. O rei não está recusando o pedido dos seus próprios conselheiros — ele está repetindo a frase deles. Só que com uma palavra trocada, e a palavra trocada é a que tira metade do povo.

"e sirvam ao SENHOR"

Ele concede o ato de culto e conserva o nome próprio da divindade. Não há aqui recusa religiosa nenhuma: o rei não discute o deus, não contesta a festa, não pergunta o que se vai fazer.

E é o que torna a proposta eficaz. Formalmente, ela atende tudo o que foi pedido — o destino, o culto, o destinatário. O que ela recorta é a única coisa que ninguém havia posto em questão até o versículo 8: quem.

"pois é isso que vocês pedem"

A frase é falsa, e a falsidade é verificável na página.

Desde Êxodo 5:1 o que se pede é a saída do povo. Dois versículos antes, Moisés respondera com seis grupos, incluindo velhos, filhas e rebanhos. Não há, em nenhum lugar do livro, um pedido para que só os homens fossem.

Os comentaristas registram isso sem hesitar. Ellicott diz que a censura do rei não tem base. Gill observa que ele torce a exigência original. Matthew Poole (comentarista inglês do século XVII) nota que a restrição não tinha fundamento no que foi pedido.

Há, no entanto, uma reconstrução antiga que dá ao rei um argumento, e vale conhecê-la. Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI) supõe o seguinte raciocínio: vocês pediram para sacrificar ao seu Deus — ora, criança não oferece sacrifício; logo, o que vocês pediram é que fossem os que sacrificam.

O raciocínio funciona, e é por funcionar que não deve passar batido. Ele reduz a festa ao ato do abate, feito por quem tem idade para fazê-lo. A resposta de Moisés no versículo 9 tinha dito outra coisa: uma festa daquele tipo não é uma operação técnica, é uma coisa que a casa inteira faz. As duas definições estão em disputa, e o rei adota a que lhe convém sem precisar defendê-la.

Importa dizer que essa reconstrução é de Rashi, não do texto. O Êxodo não põe argumento nenhum na boca do rei — põe apenas a afirmação de que era isso que eles pediam.

"E os expulsaram da presença de Faraó."

A audiência não termina: é encerrada à força. É a primeira vez no livro que isso acontece.

Compare com as saídas anteriores. Em Êxodo 8:30 Moisés sai e vai suplicar; em Êxodo 10:6 ele se vira e sai antes de o rei responder. Nos dois casos o verbo é o de sair, e quem age é ele. Aqui o verbo é outro e ele está no lugar do objeto.

Quem expulsou? A forma verbal está no singular e não traz sujeito. Rashi anota a lacuna com precisão de gramático: a frase é elíptica, e não diz quem fez. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) supõem que foram os servos do rei, o que é razoável — um monarca não executa uma expulsão com as próprias mãos.

A reconstrução, porém, vira ficção em certos comentários. Jamieson, Fausset e Brown, num comentário escocês do século XIX, descrevem a cena com detalhes que o texto não contém: os cortesãos agarrando o suplicante pelo pescoço e arrastando-o para fora da sala com pressa violenta. Isso não está no versículo. O hebraico diz apenas que foram postos para fora, e o resto é imaginação do comentarista.

O verbo que o livro já tinha usado

Há um detalhe que o português esconde e vale mais do que toda a cena.

O verbo da expulsão é o mesmo que aparece na promessa de Êxodo 6:1: "com mão forte ele os deixará ir, e com mão forte os expulsará da sua terra". A palavra que o Êxodo tinha reservado para descrever como Israel acabaria saindo do Egito é a que ele usa aqui para o que acontece com Moisés e Arão na porta da sala.

Se a repetição é construída, é discutido — o verbo é comum e aparece em muitos contextos, inclusive nos pastores que afastaram as filhas de Jetro do poço, em Êxodo 2:17. Que ele está nos dois lugares, é verificável, e o efeito de leitura é forte: a palavra prometida para a saída de um povo inteiro estreia, em ato, contra dois homens numa sala.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

É a terceira proposta dele no livro, e as três formam uma sequência clara. Em Êxodo 8:25 ofereceu o sacrifício dentro do Egito: recortou o lugar. Em Êxodo 8:28 aceitou o deserto, mas pediu que não fossem longe: recortou a distância. Aqui recorta as pessoas.

Cada uma das três concede a coisa e retém uma condição dela. A diferença desta é que a condição retida é a mais cara, e é a única que produz garantia de retorno.

"Os homens"

O grupo que o rei libera não é o mesmo que os seus conselheiros tinham nomeado. Eles disseram "esses homens" com a palavra que designa gente em geral; ele responde com a que designa o varão adulto.

É um recorte por idade e por sexo ao mesmo tempo. Ficam de fora as mulheres, as crianças, os velhos — e, pelo que a proposta não menciona, também os rebanhos, assunto que o rei não toca aqui e que voltará no versículo 24.

Os que expulsam

São personagens sem nome e sem número. O verbo está no singular, sem sujeito expresso, e a reconstrução comum — servos do palácio agindo por ordem do rei — é razoável e não está escrita.

Moisés e Arão

Entraram convocados no versículo 8 e saem postos para fora no versículo 11. No intervalo, Moisés falou uma vez. É a última cena do capítulo em que os dois aparecem juntos diante do rei antes da praga; quando forem chamados de novo, no versículo 16, será para ouvir uma confissão.

A sala

"Da presença de Faraó" é, ao pé da letra, "de diante das faces de Faraó". A expressão é a mesma que o rei usou no versículo anterior — "diante das faces de vocês" — e será a mesma do fim do capítulo, quando ele proibir Moisés de ver o seu rosto outra vez.

O rosto do rei funciona no Egito como o lugar do poder: estar diante dele é ter acesso, ser tirado de diante dele é perder o acesso. Este versículo é a primeira perda desse tipo no livro.

O que veio antes

A corte falou contra o rei no versículo 7; Moisés e Arão foram trazidos de volta no versículo 8; a pergunta sobre quem iria foi feita ali; Moisés respondeu com a lista completa no versículo 9; o rei respondeu com a bênção torcida e o aviso ambíguo no versículo 10. Esta é a conclusão da audiência — e a praga anunciada ainda não chegou.

5. Pontos de Ensino

Uma concessão pode ser o instrumento do controle

O rei diz sim à viagem, sim ao culto, sim ao nome do SENHOR. Retém uma coisa só — quem fica — e essa coisa basta para que tudo o mais volte. Conceder nem sempre é ceder; às vezes é escolher melhor o que segurar.

Trocar uma palavra muda o acordo inteiro

Os conselheiros pediram que "esses homens" fossem, com a palavra que quer dizer "essa gente". O rei repete a frase com a palavra que quer dizer "os varões adultos". Nada mais mudou, e metade do povo ficou de fora.

Cuidado com quem diz que está atendendo o seu pedido

"Pois é isso que vocês pedem" é uma afirmação que o próprio livro desmente. Quem redefine o pedido alheio e depois o atende não está atendendo ninguém — está impondo, com a vantagem de parecer razoável.

O acesso é dado e é tirado

Moisés entrou nessa sala convocado e saiu de lá posto para fora. Quem depende de audiência não controla nem a hora de entrar nem a de sair.

O que o comentarista acrescenta não é o que o texto diz

A cena da expulsão, no hebraico, tem cinco palavras e nenhum detalhe. As descrições vívidas que circulam — os cortesãos agarrando os dois, o arrastão, a fúria — são acréscimos de leitores. Separar as duas coisas é parte de ler bem.

O texto guarda uma palavra para depois

O verbo com que os dois são expulsos da sala é o mesmo da promessa de Êxodo 6:1 sobre o que aconteceria com Israel no fim. O Êxodo não comenta a coincidência. Ela fica à vista de quem estiver lendo o livro inteiro, e não de quem lê só este versículo.

6. Aspectos Filosóficos

Por que quem manda prefere ceder a proibir?

O rei podia ter dito não. Já tinha dito muitas vezes, e o livro inteiro é feito dessas recusas. Aqui ele faz outra coisa: diz sim e desenha o sim de um jeito que reforça o domínio em vez de enfraquecê-lo. Esse movimento tem uma literatura própria.

James Scott (1936-2024, cientista político e antropólogo norte-americano, professor em Yale) estudou durante décadas como funcionam as relações entre quem manda e quem obedece em situações de desigualdade estável — camponeses e senhores de terra, escravos e proprietários, servos e Estado. O livro em que reuniu a análise chama-se Domination and the Arts of Resistance ("Dominação e a arte da resistência", 1990).

Duas ideias dele servem a este versículo.

A primeira é a do palco. Scott chama de "transcrição pública" tudo o que os dois lados dizem e fazem na presença um do outro: a deferência do subordinado e a generosidade do dominante. É uma encenação que ambos sustentam, cada um por seus motivos, e que não corresponde ao que qualquer um dos dois diz quando o outro não está.

Nessa encenação, a concessão tem papel de destaque. Quem manda ganha em aparecer magnânimo, porque a magnanimidade confirma que ele é quem dá — e quem dá é quem tem. A recusa pura, ao contrário, revela que a relação é só força, o que é caro de sustentar e frágil.

A segunda é a da forma da concessão. Scott observa que o dominante concede naquilo que não toca a estrutura da dependência, e retém exatamente o que a sustenta. O que se dá é o visível; o que se guarda é o gancho.

Postas as duas coisas, a proposta do versículo aparece pelo que ela é. O rei dá tudo o que é visível — a viagem, o culto, o nome do deus — e retém a única coisa que faz o resto voltar. E apresenta o pacote como atendimento do pedido, o que é a forma mais perfeita da encenação: ele não está cedendo a uma pressão, está sendo razoável.

O que se ganha ao não recusar

Há um ganho adicional, e o versículo o mostra sem dizer. Contra uma recusa, existe resposta: pode-se insistir, alegar, ameaçar. Contra uma concessão parcial, a resposta é mais difícil, porque quem insiste passa a parecer o intransigente.

Moisés não responde nada aqui. O Êxodo não informa por quê, e a expulsão pode ter tornado a resposta impossível. O que se verifica é que a réplica dele só virá no fim do capítulo, e virá com uma frase que recusa qualquer divisão — "não ficará nem um casco".

O limite

Scott escreve sobre situações que estudou em campo, no século XX, e não sobre o Egito antigo; ele não está comentando este versículo, e a análise dele não prova nada sobre o que o rei pensava. O Êxodo, aliás, não diz o que ele pensava em nenhum momento.

E há uma diferença que a ferramenta não cobre. Em Scott, os dois lados do palco são humanos e a encenação é entre eles. Neste capítulo há uma terceira parte, que não está na sala e que o livro afirma estar conduzindo o que acontece nela — o que desloca a cena inteira para fora do quadro da análise.

7. Aplicações Práticas

Perguntar o que ficou de fora do sim

A proposta do rei é generosa em tudo o que diz e decisiva no que não diz. Quem sai de uma conversa com um sim na mão e não conferiu o que sobrou do lado de lá costuma descobrir tarde.

A pergunta útil, em qualquer acordo, é a menos simpática: o que continua com você? Um contrato que concede o uso e retém a chave concedeu pouco. Um emprego que concede o cargo e retém a assinatura, idem.

Conferir as palavras do acordo, uma por uma

Entre "essa gente" e "os homens adultos" não há diferença de tom: há diferença de conteúdo, e ela custou metade do povo. O rei não precisou argumentar, bastou trocar o substantivo.

Isso acontece em todo texto que vincula alguém — proposta, contrato, ata, mensagem que confirma o combinado. Ler devagar as palavras que mudaram entre a versão de ontem e a de hoje é trabalho chato e é o único que protege.

Quando dizem que estão fazendo o que você pediu

"Pois é isso que vocês pedem" é uma frase que fecha a discussão antes de ela começar: transforma uma imposição em atendimento e põe quem reclama na posição de quem não sabe o que quer.

A resposta prática é também a mais simples, e exige apenas memória: repetir o que foi pedido, nos termos em que foi pedido. O Êxodo registrou esses termos em seis substantivos, e é por isso que a afirmação do rei pode ser conferida — e desmentida — por qualquer leitor.

Ser posto para fora não encerra o assunto

A audiência acaba mal e a história continua. Cinco versículos adiante o rei manda chamar os mesmos dois homens, com pressa, e a conversa recomeça.

Vale evitar a moral fácil de que a paciência sempre vence: não é o que o versículo diz, e o capítulo não termina bem para ninguém. O que ele mostra é mais modesto — uma porta fechada com violência não é necessariamente a última palavra.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Israel chegou a pedir que só os homens fossem?

Não, e isso é verificável na página. Desde Êxodo 5:1 o pedido é a saída do povo, e dois versículos antes deste Moisés listara seis grupos, incluindo velhos, filhas e animais. A afirmação do rei é falsa no sentido estrito — os comentaristas a chamam de sem fundamento, e o texto lhes dá razão.

Então o rei estava mentindo?

Depende do que se entende por mentir, e o Êxodo não qualifica a frase. Rashi reconstrói um raciocínio que a tornaria defensável: vocês pediram para sacrificar, criança não sacrifica, logo o que vocês pediram foi que fossem os que sacrificam. O raciocínio existe e funciona — mas ele reduz a festa ao ato do abate, e a resposta de Moisés no versículo 9 tinha dito o contrário. É reconstrução de comentarista; o texto não põe argumento nenhum na boca do rei.

Por que reter as famílias e não os rebanhos?

O versículo não explica, e a resposta provável é de método: famílias garantem o retorno, rebanhos não. Um povo sem gado volta para buscá-lo se quiser; um homem sem a casa volta. A retenção dos animais virá depois, no versículo 24, quando a retenção das famílias já tiver falhado.

Quem expulsou Moisés e Arão?

O texto não diz. O verbo está no singular e sem sujeito, e Rashi registra a lacuna como problema gramatical. A suposição corrente — servos do palácio, por ordem do rei — é razoável e não está escrita. Já as descrições detalhadas da cena, com gente agarrada pelo pescoço, são invenção de comentaristas do século XIX.

Por que Moisés não respondeu?

O Êxodo não informa. Pode ser que a expulsão tenha impedido, pode ser que não houvesse o que dizer a uma proposta apresentada como atendimento do pedido. O que se observa é que a resposta dele a esse tipo de recorte só vem no fim do capítulo, e vem numa frase que não admite fração nenhuma.

O verbo da expulsão é mesmo o mesmo de Êxodo 6:1?

É a mesma raiz, sim, e ela aparece nos dois lugares. Se a repetição foi construída, é discutido — o verbo é comum no hebraico e descreve qualquer ação de pôr alguém para fora. O que se pode afirmar é que este é o primeiro lugar do Êxodo em que alguém é expulso da presença do rei, e que o mesmo verbo já servira, em Êxodo 2:17, para os pastores que afastaram as filhas de Jetro do poço.

9. Conexão com Outros Textos

O que tinha sido pedido

Êxodo 5:1 — "Depois disso, Moisés e Arão foram a Faraó e disseram: 'Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: Deixe o meu povo ir, para que me celebre uma festa no deserto.'"

Êxodo 10:9 — "Moisés respondeu: 'Iremos com os nossos jovens e com os nossos velhos, com os nossos filhos e com as nossas filhas; iremos com os nossos rebanhos e com o nosso gado, porque temos uma festa do SENHOR.'"

São estes os dois textos que desmentem a frase "pois é isso que vocês pedem".

O pedido da própria corte

Êxodo 10:7 — "Então os servos de Faraó lhe disseram: '…Deixe esses homens irem, para que sirvam ao SENHOR, o seu Deus…'"

O rei repete esta frase quase palavra por palavra — e troca o termo que designa gente em geral pelo que designa varão adulto.

A escada das três propostas

Êxodo 8:25 — "Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: 'Vão, ofereçam sacrifícios ao seu Deus nesta terra.'"

Êxodo 8:28 — "Faraó disse: 'Eu deixarei vocês irem, para que ofereçam sacrifícios ao SENHOR, o seu Deus, no deserto; somente não vão longe demais. Supliquem por mim.'"

Êxodo 10:24 — "Faraó chamou Moisés e disse: 'Vão, sirvam ao SENHOR. Somente os seus rebanhos e o seu gado ficarão; até as suas crianças podem ir com vocês.'"

O lugar, a distância, as pessoas, os animais: quatro recortes, nessa ordem.

O verbo da expulsão

Êxodo 6:1 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Agora você verá o que farei a Faraó: com mão forte ele os deixará ir, e com mão forte os expulsará da sua terra.'"

A mesma palavra, dita como promessa sobre o fim — e usada aqui contra dois homens à porta da sala.

Êxodo 2:17 — "Mas vieram os pastores e as expulsaram. Então Moisés se levantou, defendeu-as e deu de beber ao rebanho delas."

A primeira ocorrência do verbo no livro, com Moisés do lado de quem defende.

A resposta que virá no fim do capítulo

Êxodo 10:26 — "Também o nosso gado irá conosco; não ficará nem um casco, porque deles tomaremos para servir ao SENHOR, o nosso Deus. E nós não sabemos com que serviremos ao SENHOR até chegarmos lá."

A recusa de qualquer divisão, medida na menor unidade que existe.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Não será assim! Vão, vocês, os homens, e sirvam ao SENHOR, pois é isso que vocês pedem.” E os expulsaram da presença de Faraó.

Texto hebraico

לֹא כֵן לְכוּ־נָא הַגְּבָרִים וְעִבְדוּ אֶת־יְהוָה כִּי אֹתָהּ אַתֶּם מְבַקְשִׁים וַיְגָרֶשׁ אֹתָם מֵאֵת פְּנֵי פַרְעֹה׃

Transliteração

lo khen! lekhu-na ha-gevarim we-ivdu et-YHWH, ki otah atem mevaqshim. wa-yegaresh otam me-et peney far'oh.

Análise palavra por palavra

לֹא כֵן — lo khen, "não assim".

Duas palavras, e elas retomam a abertura do versículo anterior. Ali o rei dissera yehi khen, "seja assim"; aqui diz lo khen. A mesma partícula constrói o desejo e o desmancha, com um intervalo de uma frase.

לְכוּ־נָא — lekhu-na, "ide, pois".

Lekhu é o imperativo plural de halakh, ir — outra vez o verbo neutro do deslocamento, e não o da soltura.

Na é uma partícula pequena e difícil de traduzir. O uso mais comum é o de abrandamento: acrescenta ao imperativo um tom de "por favor", "então", "vamos". Há também o uso de urgência, que empurra a ordem em vez de suavizá-la. Qual dos dois está aqui é discutido, e a diferença muda o timbre da frase — "vão então, os varões" soa concessivo; "vão logo, os varões" soa impaciente. O hebraico não decide.

הַגְּבָרִים — ha-gevarim, "os varões".

Esta é a palavra do versículo. O singular é gever, e ele vem da raiz gavar, "ser forte", "prevalecer" — a mesma que dá gibbor, o valente, o guerreiro. Gever designa o homem enquanto adulto e capaz, em oposição explícita a mulheres e crianças.

Ponha ao lado do termo que os conselheiros usaram no versículo 7, anashim, plural de ish. Ish é a palavra comum para pessoa: um grupo de anashim pode ser qualquer grupo, e o contexto é que decide o alcance. Gever, não. Ele nomeia uma faixa e exclui o resto por definição.

Os conselheiros disseram "deixe essa gente ir". O rei responde "vão os varões". O português traduz as duas por "homens", e a manobra some.

כִּי אֹתָהּ אַתֶּם מְבַקְשִׁים — ki otah atem mevaqshim, "pois é isso que vocês buscam".

Otah é o pronome de objeto no feminino singular: "a ela", "essa coisa". Não tem antecedente claro na frase, e as leituras se dividem entre "essa coisa" — a ida dos varões — e "essa festa", tomando a palavra feminina do versículo 9. As duas dão sentido próximo.

Mevaqshim é o particípio plural de biqqesh, no Piel — procurar, buscar, requerer. O particípio dá ação em curso: "é isso que vocês vêm pedindo", "é isso que vocês pedem". O rei descreve o pedido do outro lado como se fosse fato assente, e o fato é falso.

וַיְגָרֶשׁ אֹתָם — wa-yegaresh otam, "e expulsou-os".

O verbo é garash, no Piel, a forma intensiva: expulsar, pôr para fora, escorraçar. É palavra forte, e o Antigo Testamento a usa para a expulsão do homem do jardim, em Gênesis 3:24, e para a de Agar, em Gênesis 21:10.

A forma está no singular e não traz sujeito expresso. Ao pé da letra: "e expulsou-os". Quem? Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI) registra a lacuna como caso de frase elíptica — o texto não diz quem fez. Algumas traduções resolvem pondo o rei como sujeito; outras passam para o impessoal, "foram expulsos". As duas soluções acrescentam informação que o hebraico não dá.

E há o eco: é a mesma raiz de Êxodo 6:1, onde Deus promete que o rei "os expulsará da sua terra".

מֵאֵת פְּנֵי פַרְעֹה — me-et peney far'oh, "de diante das faces de Faraó".

A locução é composta e enfática — literalmente "de junto de diante de". O hebraico empilha as preposições para marcar afastamento de um lugar preciso: não se sai do palácio, sai-se de diante do rosto.

A palavra "faces" é a mesma que aparece no versículo 10, na frase ambígua — "diante das faces de vocês" —, e voltará no fim do capítulo, quando o rei proibir Moisés de ver o seu rosto. No Egito, estar diante do rosto do rei é ter acesso; ser tirado de diante dele é perdê-lo.

11. Conclusão

Quatro conclusões se sustentam neste versículo.

A proposta é uma concessão na forma e uma retenção no efeito. Tudo o que se pedia é concedido — a saída, o culto, o destinatário do culto — menos uma coisa, e essa coisa é a que faz o resto voltar. Quem sai deixa a casa para trás, e quem deixa a casa para trás não decide mais nada sozinho.

A manobra inteira coube numa palavra. O rei repete a frase dos próprios conselheiros e troca o termo que significa "essa gente" pelo que significa "os varões adultos". Não houve argumento, não houve recusa, não houve discussão sobre os seis grupos que Moisés tinha nomeado. Houve substituição de um substantivo.

A afirmação de estar atendendo o pedido é falsa, e o próprio livro a desmente. Ninguém pediu que só os homens fossem — nem em Êxodo 5:1, nem no versículo 9 deste capítulo. Quem redefine o pedido alheio e o atende em seguida não está concedendo; está impondo com aparência de razoabilidade, e essa aparência é a parte mais eficaz da proposta.

A audiência termina por expulsão, e é a primeira vez. Até aqui Moisés entrava e saía — chamado ou por conta própria. Aqui ele é posto para fora, com o verbo que o Êxodo reservara, em Êxodo 6:1, para descrever como Israel deixaria o Egito.

Duas coisas continuam sem resposta e é melhor deixá-las assim. O texto não diz quem executou a expulsão, e não diz o que o rei pretendia com a retenção — os comentaristas falam em penhor de retorno, o que é plausível pelo que se sabe da diplomacia da época, e não está escrito. O Êxodo registra a proposta, registra a expulsão e cala sobre o resto.

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