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Gênesis 21:10

✍️ Por Alberto Adriano·23 de agosto de 2026·⏱️ 38 min de leitura·👁 6 acessos
Então disse a Abraão: “Expulse esta escrava e o filho dela, pois o filho desta escrava não herdará com o meu filho, com Isaque.”
Interior de tenda ao entardecer, com uma mulher idosa de pé falando a um homem sentado, e ao fundo, fora da entrada, a silhueta distante de outra mulher com um jovem.

Estudo


Então disse a Abraão: “Expulse esta escrava e o filho dela, pois o filho desta escrava não herdará com o meu filho, com Isaque.”

1. Introdução

Sara fala vinte palavras e não chama nenhuma das duas pessoas de quem está falando pelo nome.

Agar é "esta escrava". Ismael é "o filho dela" e, logo depois, "o filho desta escrava". O único nome próprio que aparece na boca de Sara é o do filho dela: "com o meu filho, com Isaque". Duas vezes, para não sobrar dúvida.

O narrador registra a frase e não comenta. Não escreve que Sara estava com ciúmes, não a repreende, não a defende. Entrega a fala crua e passa para a reação de Abraão.

É de propósito que a pregação evita este versículo, ou o resolve depressa com uma explicação psicológica: mãe protegendo o filho. A explicação é confortável e não é o que está no texto. Sara não fala de proteção. Fala de herança. A palavra que ela usa é o verbo jurídico de herdar, e a frase inteira é uma exigência de exclusão sucessória.

Por trás dela existe um mundo legal que o texto pressupõe e não explica: o direito do filho de escrava reconhecido pelo pai, tratado em códigos mesopotâmicos que sobreviveram e que descrevem exatamente essa situação. Sem esse fundo, a cena parece briga doméstica. Com ele, aparece como o que é — uma disputa de patrimônio numa família em que o primogênito nasceu de uma escrava.

Este estudo trata do verbo "expulsar" e da sua parentela desconfortável, da diferença entre as duas palavras hebraicas usadas para descrever a condição de Agar, do fundo jurídico que torna a exigência inteligível, do modo como a frase de Sara ecoa uma frase que Deus havia dito a Abraão em 15:4 — e de um detalhe que costuma passar batido: estas são as últimas palavras de Sara registradas na Bíblia.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que acabou de acontecer

O versículo anterior registrou que Sara viu o filho de Agar praticando algo descrito por um particípio hebraico ambíguo, sem complemento. O texto não informou o que era. O versículo 10 é a reação — e a reação não menciona o que ela viu.

Esse descompasso é a primeira coisa a notar. Entre o que foi visto e o que é exigido não há ponte explícita. Sara não diz "por isso" nem descreve nenhum dano. Ela pula direto para a consequência que deseja.

A família como estrutura jurídica

A casa de Abraão, neste ponto, é uma unidade econômica considerável. Gênesis 14:14 fala em trezentos e dezoito homens treinados nascidos em casa; 12:16 e 20:14 registram rebanhos, servos e servas recebidos de faraó e de Abimeleque; 13:2 diz que ele era riquíssimo em gado, prata e ouro.

Não se trata, portanto, de uma tenda com duas mulheres e dois meninos. Trata-se de um patrimônio que precisará ser transmitido, e a questão de quem o recebe é a questão que Gênesis vem tratando desde 15:2, quando Abraão reclamou que seu herdeiro seria um servo de Damasco.

Como o direito da região tratava o filho da escrava

Existem textos legais mesopotâmicos que descrevem com precisão a situação de 21:10, e conhecê-los muda a leitura.

O Código de Hamurabi, do século XVIII a.C., dedica dois parágrafos ao caso. O §170 estabelece que, se a esposa deu filhos ao homem e a escrava também, e o pai, em vida, reconheceu os filhos da escrava dizendo "meus filhos", então após a morte dele todos partilham o patrimônio paterno — cabendo aos filhos da esposa escolher primeiro. O §171 trata do caso contrário: se o pai não os reconheceu em vida, eles não partilham nada, mas a escrava e seus filhos recebem a liberdade, e os filhos da esposa não podem reivindicá-los como escravos.

A relevância para Gênesis 21 é direta. Abraão reconheceu Ismael de maneira inequívoca: pediu por ele em 17:18, e o circuncidou com a própria mão em 17:23-26, incorporando-o ao sinal da aliança. Pelo padrão do §170, Ismael estaria entre os herdeiros.

Os documentos de Nuzi e a controvérsia sobre eles

Durante boa parte do século XX, comentaristas recorreram a tabuinhas de Nuzi, cidade hurrita do segundo milênio, para explicar os costumes patriarcais — inclusive contratos matrimoniais que preveem a esposa estéril fornecer uma escrava ao marido, arranjo que corresponde ao de 16:2.

É preciso registrar que esse uso foi contestado. Desde os anos 1970, estudiosos apontaram que várias das aproximações eram forçadas, que os documentos são de época e região distintas do cenário patriarcal, e que costumes semelhantes estão atestados em outros lugares e séculos. Hoje não há consenso sobre quanto peso os textos de Nuzi têm para datar ou iluminar Gênesis.

O que permanece sólido é mais modesto e suficiente: arranjos desse tipo eram juridicamente reconhecidos no Oriente Próximo antigo, e a posição do filho de escrava reconhecido pelo pai era assunto de direito, não de sentimento. Basta isso para entender do que Sara está falando.

A primeira expulsão

Esta não é a primeira vez que Agar deixa a casa. Em 16:6, depois que Sarai reclamou a Abrão e ele respondeu "eis que tua serva está na tua mão, faze-lhe o que bom for aos teus olhos", o texto diz que Sarai a afligiu e ela fugiu.

Há um paralelismo estrutural entre os dois episódios que vale ter em mente: em ambos Sara toma a iniciativa, em ambos Abraão cede, em ambos Agar acaba no deserto e em ambos um mensageiro divino a encontra ali. A diferença é que em 16 ela foi mandada voltar; em 21 não haverá volta.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então disse a Abraão"

Antes do conteúdo, a direção da fala. Sara não fala com Agar, não fala com Ismael e não fala com Deus. Fala com Abraão.

Isso é coerente com a estrutura jurídica da casa: quem tem poder de decisão sobre a permanência ou a saída de uma escrava e de um filho é o chefe da família. Sara está fazendo o que a posição dela permite — apresentar uma exigência a quem pode executá-la.

Mas há um efeito colateral que o texto não comenta e que o leitor não deveria deixar passar: as pessoas de quem se fala não estão na conversa. A decisão sobre o destino de Agar e do filho é negociada entre outras duas pessoas, e nenhuma das duas partes afetadas tem fala neste capítulo até o versículo 16, quando Agar finalmente diz alguma coisa — e o que diz é que não quer ver o menino morrer.

"Expulse"

O verbo é garesh (גָּרֵשׁ), imperativo da forma intensiva da raiz גרשׁ. É uma palavra dura, e a dureza fica visível quando se percorre onde mais ela aparece.

Em Gênesis 3:24, é o verbo do que acontece com o homem no Éden: "lançou fora o homem". Em 4:14, Caim usa a mesma raiz para descrever o que lhe foi feito: "eis que hoje me lanças da face da terra". As duas primeiras ocorrências do verbo em toda a Bíblia descrevem expulsões que separam alguém do lugar onde a vida era possível.

Mais adiante, a raiz se torna o vocabulário técnico da conquista: Deus promete "lançar fora" os povos de Canaã diante de Israel, em Êxodo 23:28-31, 33:2 e em vários outros pontos. É o verbo do desalojamento de um povo por outro.

E há um ramo da mesma raiz que raramente é mencionado em estudos deste versículo: o substantivo gerushah, "mulher repudiada", isto é, divorciada. Aparece em Levítico 21:7 e 21:14, em Levítico 22:13, em Números 30:9 e em Ezequiel 44:22. A mesma raiz que expulsa do Éden e desaloja povos é a raiz do vocabulário do divórcio.

Isso ilumina o que Sara está pedindo, e vale dizer com cuidado para não exagerar. Agar não era esposa de pleno direito — 16:3 usa a palavra ishah para ela, o mesmo termo que serve para "mulher" e "esposa", mas a condição servil permanece marcada em todo o texto. O que se pode afirmar é que o verbo escolhido pertence ao campo do rompimento definitivo de vínculo doméstico, não ao de uma viagem ou de um afastamento temporário.

"esta escrava"

Duas coisas nesta expressão de duas palavras.

A primeira é o demonstrativo. Ha-amah ha-zot: "a escrava, esta". O demonstrativo aponta sem nomear, do jeito que se aponta para um objeto presente. Em português, "esta escrava" e "essa mulher aí" funcionam de modo parecido: o dedo substitui o nome.

A segunda é a palavra escolhida para a condição de Agar. O hebraico tem dois termos para mulher escravizada, e o capítulo 16 usou o outro.

Em 16:1, 16:2, 16:3, 16:5, 16:6 e 16:8, Agar é shifchah. Aqui, e em 21:12 e 21:13, ela é amah. A distinção entre os dois termos é discutida e não há consenso firme: alguns estudiosos veem em amah uma condição ligeiramente superior, de mulher escravizada que pode tornar-se esposa secundária e cujos filhos têm posição reconhecível — Êxodo 21:7-11 legisla sobre a amah nesses termos; outros consideram os dois termos praticamente intercambiáveis e atribuem a variação a fontes ou camadas distintas do texto.

Seja qual for a explicação, o dado é observável: no momento em que se fala de herança, o texto usa o termo que aparece na legislação sobre direitos da escrava. Não é possível decidir se a escolha é intencional, mas ela combina com o assunto da frase.

"e o filho dela"

Não "Ismael". Não "o filho de Abraão". "O filho dela", benah — uma palavra só, em hebraico, com o sufixo possessivo feminino.

O deslocamento é preciso e vale enunciá-lo com clareza. Ismael é filho de Abraão; o versículo anterior acabou de dizer que Agar o deu à luz para Abraão. Sara, falando com Abraão, chama o menino de filho da outra. Ela transfere a paternidade para o lado da mãe.

Isso não é um detalhe estilístico: é exatamente o movimento jurídico que ela precisa que aconteça. Se o menino é filho de Abraão, herda. Se é filho da escrava, a escrava é que responde por ele. A linguagem faz, na frase, o que Sara quer que aconteça no mundo.

"pois o filho desta escrava não herdará"

Aqui está o argumento, e ele é inteiramente jurídico.

O verbo é yarash (ירשׁ), que significa herdar, tomar posse, apossar-se. É a raiz do vocabulário de herança em toda a Bíblia hebraica, e também do vocabulário de conquista da terra: quando Israel "possui" Canaã, é este verbo.

Note o que está ausente da fala de Sara. Não há acusação de agressão. Não há menção ao que ela viu no versículo anterior. Não há pedido de castigo, de correção, de separação temporária, de vigilância. Há uma cláusula de exclusão sucessória, apresentada como razão da expulsão.

Quem lê o versículo 9 esperando que o versículo 10 explique o que Ismael fez fica sem resposta. A conexão entre a cena vista e a exigência feita não é dada pelo texto. É plausível que o incidente tenha sido o estopim de uma preocupação que já existia — mas isso é reconstrução do leitor, não afirmação do narrador.

A frase que ecoa uma frase de Deus

Há um paralelo verbal que merece atenção e um pouco de prudência.

Em Gênesis 15:3, Abraão reclama a Deus que, sem filhos, um servo nascido em sua casa será seu herdeiro — e usa este mesmo verbo. Em 15:4, Deus responde: "Este não será o teu herdeiro; mas aquele que sair das tuas entranhas, esse será o teu herdeiro."

A estrutura de 21:10 é a mesma: negação do verbo yarash aplicada a um candidato, seguida da indicação de quem herda de fato. Em 15:4 quem fala é Deus, e o excluído é Eliézer. Em 21:10 quem fala é Sara, e o excluído é Ismael.

Duas leituras se abrem. Uma é que Sara está deliberadamente repetindo a fórmula divina de desqualificação, o que faria da fala dela uma reivindicação de autoridade emprestada. A outra é que a semelhança decorre simplesmente de o hebraico ter um só verbo para o assunto, e que a construção "fulano não herdará, sicrano herdará" é a maneira natural de dizer isso. Não é possível decidir entre as duas, mas a coincidência é forte o bastante para ser registrada, sobretudo porque o versículo 12 vai confirmar a exclusão com uma fórmula divina de linha semelhante.

"com o meu filho, com Isaque"

O hebraico repete a preposição: im-beni im-Yitschaq. "Com o meu filho, com Isaque." A repetição é enfática e não é obrigatória — o hebraico poderia dizer "com Isaque, meu filho" numa construção mais econômica.

E aqui está o dado mais revelador da frase inteira. Sara pronuncia um único nome próprio, e é o do filho dela.

Vale contar. Na fala há quatro referências a pessoas: a escrava, o filho dela, o filho desta escrava, o meu filho. Três dessas quatro são designações de posição. A quarta ganha nome — e ganha duas vezes, porque "o meu filho" e "Isaque" são a mesma pessoa dita em duplicata.

É um retrato exato de como funciona a linguagem quando alguém está sendo removido de um grupo. Quem fica tem nome. Quem sai tem função.

O que o narrador não diz

Chegamos ao ponto em que o leitor mais espera ajuda, e o texto não a oferece.

O narrador não escreve que Sara estava com ciúmes. Não escreve que ela foi cruel, nem que foi prudente. Não escreve que estava certa. Não escreve que estava errada. A frase é reproduzida e a narrativa segue.

Compare com o que o mesmo narrador faz em outros lugares quando quer emitir juízo: em 38:7 diz que Er "era mau aos olhos do SENHOR"; em 13:13 diz que os homens de Sodoma "eram maus e grandes pecadores". O vocabulário de reprovação existe e é usado quando convém. Aqui não é usado.

A ausência de comentário produz um efeito específico, e é honesto reconhecer que se trata de leitura: o leitor fica sozinho com a frase. Não há autoridade narrativa que o ajude a decidir o que sentir. E, poucos versículos adiante, quem vai se manifestar sobre a exigência é Deus — dando razão a ela. É isso que torna o versículo 12 tão difícil e que faz deste capítulo um dos mais desconfortáveis do ciclo de Abraão.

As últimas palavras de Sara

Um dado verificável que costuma passar despercebido: esta é a última fala de Sara em toda a Bíblia.

Ela falou em 16:2, propondo o arranjo com Agar; em 16:5, culpando Abraão pelo resultado; em 18:12, rindo por dentro; em 18:15, negando que tivesse rido; em 21:6 e 21:7, celebrando o nascimento de Isaque. E em 21:10, exigindo a expulsão. Depois disso, o texto registra a idade dela e a morte, em 23:1-2, sem mais nenhuma palavra sua.

O narrador não faz nada com essa informação — ela não é apresentada como julgamento, e seria excessivo tratá-la como tal. Mas é um fato do texto, e um fato que dá peso à cena: a mulher cuja primeira fala registrada foi a proposta de usar Agar como ventre substituto tem, como última fala registrada, a ordem de expulsar Agar de casa.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Sara

Neste versículo ela é a única pessoa que fala, e é a única vez em Gênesis em que uma mulher dá uma ordem ao marido que é depois expressamente endossada por Deus (21:12). A trajetória dela dentro do capítulo é abrupta: sujeito da ação divina em 21:1, mãe que ri em 21:6, e aqui a voz que decide o destino de duas pessoas.

Suas palavras aqui encerram sua participação falada na Bíblia. Ela morrerá em 23:1, aos cento e vinte e sete anos, em Quiriate-Arba.

Agar, chamada "esta escrava"

Não é nomeada na fala. A palavra usada para descrevê-la é amah, distinta de shifchah, empregada no capítulo 16 — a diferença exata entre os dois termos é discutida, e amah é o termo que aparece na legislação de Êxodo 21:7-11 sobre direitos da mulher escravizada.

É a única personagem da Bíblia hebraica que nomeia Deus (16:13) e a primeira a receber uma anunciação (16:11). Nada disso é lembrado aqui.

Ismael, chamado "o filho dela"

Referido duas vezes na fala, sempre pela mãe: "o filho dela" e "o filho desta escrava". Tem entre dezesseis e dezessete anos, pelo cálculo de 16:16 e 21:5. Foi circuncidado aos treze (17:25), no mesmo dia em que o pai e todos os homens da casa — ou seja, é reconhecido e incorporado ao sinal da aliança.

Esse reconhecimento é precisamente o que torna a exigência de Sara juridicamente delicada, à luz dos padrões documentados na região.

Isaque

O único nome próprio pronunciado por Sara. Tem dois ou três anos. Aparece na frase não como criança, mas como parte interessada num inventário — a construção é "não herdará com o meu filho, com Isaque".

Abraão

Não fala neste versículo. É o destinatário da exigência e o único que pode executá-la. A reação dele virá no versículo seguinte, e o texto será específico sobre o motivo dessa reação.

O Código de Hamurabi

Coleção de decisões jurídicas da Babilônia, gravada em estela de diorito no século XVIII a.C. e hoje no Museu do Louvre. Os parágrafos 170 e 171 tratam exatamente da partilha entre filhos da esposa e filhos da escrava, condicionando o direito dos segundos ao reconhecimento paterno em vida.

Não há relação de dependência demonstrada entre esse código e Gênesis. O que ele fornece é o horizonte jurídico da região — a evidência de que a situação descrita em 21:10 era um caso previsto, não uma excentricidade familiar.

Nuzi

Cidade do norte da Mesopotâmia, onde foram encontradas milhares de tabuinhas do segundo milênio a.C. com contratos de família. Foram muito usadas no século XX para explicar costumes patriarcais, inclusive o arranjo de 16:2.

Essa aplicação foi contestada a partir dos anos 1970 por questões de datação e de método, e hoje não há consenso sobre o alcance dos paralelos. Convém citá-los como ilustração do ambiente jurídico, não como prova de nada.

5. Pontos de Ensino

1. A fala não tem nomes, exceto um. Agar é "esta escrava", Ismael é "o filho dela" e "o filho desta escrava". Isaque é nomeado — e é nomeado depois de já ter sido chamado de "o meu filho". Quem fica tem nome; quem sai tem função.

2. O argumento é sucessório, não emocional. Sara não menciona agressão, não pede castigo, não descreve o que viu no versículo anterior. Usa o verbo yarash, "herdar", e pede exclusão da partilha.

3. O verbo "expulsar" é pesado. Garesh é o verbo da saída do Éden (3:24), da sentença de Caim (4:14) e do desalojamento dos povos de Canaã; da mesma raiz vem gerushah, "mulher repudiada". Não descreve afastamento temporário.

4. Sara transfere a paternidade. O menino é filho de Abraão — o versículo 9 acabou de dizer que Agar o deu à luz para Abraão. Na frase de Sara, ele vira filho da escrava. A linguagem executa antecipadamente o que a exigência quer produzir.

5. O fundo jurídico existe e é documentado. O Código de Hamurabi §§170-171 trata da partilha entre filhos da esposa e da escrava, condicionando o direito dos segundos ao reconhecimento paterno. Abraão reconheceu Ismael de modo inequívoco em 17:23-26.

6. A frase ecoa 15:4. Lá, Deus diz que Eliézer não herdará e indica quem herdará. Aqui a mesma estrutura sai da boca de Sara. Se é alusão deliberada ou coincidência de vocabulário não é possível decidir.

7. O narrador não julga. Não há "e Sara teve ciúmes", não há reprovação nem defesa. O mesmo narrador que chama Er de mau (38:7) e os sodomitas de pecadores (13:13) fica em silêncio aqui — e quem se manifestará sobre a exigência, dois versículos adiante, é Deus.

8. São as últimas palavras de Sara na Bíblia. Depois de 21:10 o texto só registrará a idade e a morte dela, em 23:1-2. A primeira fala registrada foi a proposta de usar Agar; a última é a ordem de expulsá-la.

6. Aspectos Filosóficos

Há uma maneira rápida de atravessar este versículo, e ela consiste em atribuir tudo ao ciúme. Uma mãe idosa, um filho tardio, um enteado adolescente: a psicologia se monta sozinha e o desconforto se dissolve.

O problema é que essa leitura não está no texto. Nem uma palavra da fala de Sara é sobre sentimento. A frase é técnica do começo ao fim, e o verbo em torno do qual ela gira é o verbo de herdar.

O que estava efetivamente em jogo

Abraão era um homem rico. O texto insiste nisso: gado, prata e ouro (13:2), servos e servas recebidos no Egito (12:16) e em Gerar (20:14), trezentos e dezoito homens armados nascidos na casa (14:14). Havia um patrimônio, e havia dois filhos vivos.

O primogênito nasceu de uma escrava. E o pai o reconheceu publicamente — circuncidou-o com as próprias mãos aos treze anos, no mesmo dia em que circuncidou a si mesmo e a todos os homens da casa (17:23-26). Nos padrões jurídicos documentados na região, o reconhecimento paterno em vida era exatamente o que garantia ao filho da escrava a participação na herança.

Sara, portanto, não está tendo uma intuição maternal. Está diante de uma situação em que, morto Abraão, o filho dela dividiria o patrimônio com o filho de uma escrava — e possivelmente em condição pior, porque o outro é o mais velho.

A saída que ela propõe

Expulsar. O verbo é garesh, o mesmo que a Bíblia usa quando o homem é posto para fora do jardim e quando os povos de Canaã são desalojados diante de Israel.

Há uma lógica jurídica embutida na escolha, e ela é fria. Se Agar e o filho saem da casa, saem também do arranjo que os tornava parte da família de Abraão. O parágrafo 171 do Código de Hamurabi prevê justamente essa combinação: sem reconhecimento, a escrava e os filhos ganham liberdade e perdem a herança. Não se pode afirmar que Sara conhecesse esse código, e nada no texto sugere isso. Mas a solução que ela propõe tem a mesma forma que a solução prevista naquele direito — liberdade em troca de exclusão patrimonial.

É um detalhe que impede tanto a leitura ingênua quanto a caricatura. Não é despejo gratuito, é uma operação de partilha. E continua sendo, do ponto de vista de quem sai, uma expulsão para o deserto com pão e água.

O silêncio em torno dos nomes

Vale ler a frase em voz alta prestando atenção só a isso: quem tem nome e quem não tem.

"Expulse esta escrava e o filho dela, pois o filho desta escrava não herdará com o meu filho, com Isaque."

Quatro referências a pessoas. Três sem nome. E a única nomeada é nomeada em dobro, com a preposição repetida em hebraico para reforçar.

Quem já acompanhou uma exclusão de perto reconhece a gramática. Antes que alguém seja removido, o vocabulário empobrece — e não por maldade consciente, na maior parte dos casos. É que decidir sobre um nome é mais difícil do que decidir sobre uma categoria. A linguagem prepara o terreno.

O que torna a cena mais dura é que Sara conhece esses nomes. Ela conviveu com Agar por mais de dezesseis anos. Foi ela quem propôs o arranjo em 16:2. O menino cresceu na casa dela.

O narrador se recusa a ajudar

E então acontece a coisa mais desconcertante do versículo, que é o que não acontece.

Nenhum comentário. Nenhuma qualificação. O narrador de Gênesis sabe reprovar — chamou Er de mau aos olhos do SENHOR, chamou os homens de Sodoma de grandes pecadores, registrou que o que Onã fez foi mau. Aqui, nada.

Essa neutralidade tem sido lida de maneiras opostas. Há quem veja nela um endosso silencioso: se o narrador não critica, é porque não há o que criticar, sobretudo porque Deus confirmará a exigência em 21:12. E há quem veja o oposto: o narrador cala porque a cena fala por si, e comentar seria enfraquecê-la. As duas leituras são defensáveis, e o texto não permite decidir.

O que se pode afirmar é o efeito. Sem instrução narrativa, o leitor é obrigado a formar juízo próprio — e depois a confrontá-lo com o versículo 12, onde Deus manda Abraão fazer o que Sara disse. O capítulo é construído para produzir esse desconforto, não para evitá-lo.

O que Paulo faz com esta frase

Em Gálatas 4:30, Paulo cita este versículo — e desta vez é citação literal, com fórmula introdutória: "Mas que diz a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho."

Há uma alteração digna de nota. Onde Gênesis tem "com o meu filho, com Isaque", Gálatas tem "com o filho da livre". O nome próprio some e é substituído por uma categoria de condição jurídica — livre em oposição a escrava.

Isso é coerente com o que Paulo está fazendo: ele declarou em 4:24 que trata a história como alegoria, e a alegoria precisa de categorias, não de indivíduos. Mas o efeito, para quem lê os dois textos lado a lado, é curioso. No original, Sara nomeia apenas o próprio filho. Na citação, nem esse nome resta.

O que fica sem resposta

Três perguntas ficam abertas ao fim do versículo, e é honesto deixá-las abertas.

Primeira: qual a relação entre o que Sara viu em 21:9 e o que ela exige em 21:10? O texto não a estabelece.

Segunda: Sara tinha razão? O narrador não diz, e o endosso divino de 21:12 responde a uma pergunta diferente — se Abraão deveria obedecer, e não se a exigência era justa.

Terceira: por que a Bíblia conservou esta fala? Um texto interessado em construir a matriarca como modelo teria motivos de sobra para omiti-la. Ela foi conservada, com todos os seus demonstrativos e todas as suas ausências de nome, e é isso que permite lê-la hoje.

7. Aplicações Práticas

Quando o motivo declarado não é o motivo real

A sequência é limpa demais para passar despercebida: Sara vê alguma coisa, e o que ela exige não tem relação declarada com o que viu. O incidente entra na cena e sai dela sem ser mencionado na fala.

Esse descompasso é comum fora da Bíblia. Numa reunião de família, o assunto oficial é uma frase dita no almoço de domingo; o assunto real é a casa da praia. Numa empresa, o motivo declarado de uma demissão é um erro pontual; o motivo real é uma reestruturação decidida meses antes. O episódio é verdadeiro e serve de porta de entrada para uma decisão que já estava tomada.

O uso prático disso não é acusar ninguém de má-fé. É perguntar, diante de um conflito que não fecha, se o que se está discutindo é mesmo o que está em jogo. Conflitos discutidos no plano errado não se resolvem, porque cada solução no plano do episódio deixa intacta a questão do patrimônio, da posição ou do controle.

Reparar em quem perde o nome

Numa frase de vinte palavras, três pessoas são referidas sem nome e uma é nomeada duas vezes. Não é acaso de estilo — é o retrato de como a linguagem se comporta antes de uma exclusão.

Vale prestar atenção a isso no próprio vocabulário. Em conversas sobre pessoas com quem se está em conflito, o nome tende a sumir primeiro: vira "aquele cara", "essa pessoa", "o cliente", "a parte contrária", "o ex". Quando o nome some do modo como falamos de alguém, alguma coisa já mudou na maneira como tratamos essa pessoa, ainda que nada tenha mudado nos atos.

O contrário também vale, e é mais útil como prática: voltar a usar o nome de alguém sobre quem se está falando com raiva costuma mudar o tom da frase antes de mudar a opinião. É um exercício pequeno, verificável e desconfortável.

Herança envenena famílias, e a Bíblia sabe disso

Gênesis é, entre outras coisas, um livro sobre disputas de herança. Ismael e Isaque, Esaú e Jacó, José e os irmãos, Perez e Zerá, Efraim e Manassés — o padrão se repete tantas vezes que é claramente um dos assuntos do livro.

Não há aqui nenhuma idealização. As famílias do texto brigam por bens, e brigam de maneiras que produzem exílio, fuga, escravidão e décadas de silêncio. O texto não apresenta a família patriarcal como lugar seguro.

Para quem enfrenta um inventário, isso tem um valor específico: a expectativa de que a fé, por si, impeça o conflito não encontra apoio na narrativa. O que se pode fazer é decidir com antecedência, por escrito e com clareza, o que ficará indefinido depois — porque a indefinição é o combustível do resto.

Segurança jurídica não é falta de espiritualidade

Sara está tratando de direito sucessório, e o texto não a censura por isso. É útil notar, porque existe uma leitura piedosa que trata qualquer preocupação com bens, contratos e garantias como sinal de pouca fé.

A Bíblia não sustenta essa oposição. Abraão comprou um campo com testemunhas, pesou a prata em público e fez registrar a transação diante dos filhos de Hete (23:16-18), quando poderia simplesmente ter aceitado o terreno de presente. Jeremias comprou um campo em plena invasão babilônica e mandou guardar a escritura num vaso de barro (Jr 32:9-14).

Cuidar da forma jurídica das coisas é parte do cuidado com as pessoas que virão depois. O que este versículo mostra é outra coisa: que o instrumento jurídico, quando manejado por quem tem poder contra quem não tem, produz resultados que a lei considera regulares e que continuam sendo duros.

Decidir sobre pessoas que não estão na sala

A conversa acontece entre Sara e Abraão. Agar não está. Ismael não está. Nenhum dos dois diz uma palavra em todo o episódio até o versículo 16, e o que Agar dirá ali é que não quer ver o menino morrer.

Isso descreve a maior parte das decisões que afetam pessoas sem poder: são tomadas por outras pessoas, em outra sala, com vocabulário próprio. Não há nada de excepcional na cena — é o funcionamento normal de uma casa antiga, e continua sendo o funcionamento normal de muitas instituições.

A pergunta prática, para quem ocupa a posição de Abraão em alguma esfera da vida, é simples de formular e difícil de responder com honestidade: nas últimas decisões que tomei sobre a vida de alguém, essa pessoa teve como falar antes? E, se não teve, o que exatamente impedia?

O texto conservou a fala

Um dado sobre a própria Bíblia, que este versículo torna visível: ela guarda material que qualquer projeto de propaganda religiosa teria descartado.

Sara é matriarca, é elogiada em Hebreus 11:11 e em 1 Pedro 3:6, e a última coisa que a Bíblia registra da boca dela é uma ordem de expulsão dita sem nomear ninguém. Ninguém apagou. Ninguém amenizou. Ninguém acrescentou uma linha explicando as circunstâncias atenuantes.

Isso é relevante para quem lê a Bíblia com desconfiança e para quem a lê com devoção, por motivos opostos. Ao primeiro, mostra um texto que não se comporta como peça publicitária. Ao segundo, mostra que a santidade que o texto atribui a alguém nunca é atestado de conduta impecável — e que a leitura que transforma personagens bíblicos em modelos morais uniformes é imposta ao texto, não extraída dele.

Quem esteve embaixo nem sempre trata bem quem está embaixo

Sara foi entregue duas vezes por Abraão a soberanos estrangeiros, em 12:13-16 e em 20:2, apresentada como irmã para proteger a vida dele. No capítulo 20 ela é mencionada oito vezes e não pronuncia uma palavra. Foi objeto de transação antes de ser sujeito de decisão.

Um versículo depois de recuperar a voz, ela a usa para dispor da vida de uma mulher com menos poder que o dela. O capítulo põe as duas coisas a poucas linhas de distância e não oferece conciliação entre elas.

A observação não serve para condenar Sara à distância de quatro mil anos, e sim para desmontar uma expectativa frequente: a de que quem sofreu injustiça desenvolve, por isso, sensibilidade para não cometê-la. O texto não confirma essa expectativa. Quem sai de baixo costuma reproduzir o que aprendeu quando estava lá, e a única defesa contra isso é saber que a tendência existe.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Sara estava com ciúmes?

O texto não diz isso. A palavra "ciúme" não aparece, e a fala dela não menciona sentimento nenhum. O argumento é jurídico: o filho da escrava não deve participar da herança. A leitura psicológica é acréscimo do leitor — pode ser verdadeira, mas não está no versículo, e o narrador, que sabe registrar estados internos quando quer, não registrou nenhum aqui.

Por que Sara não chama Agar e Ismael pelo nome?

O texto não explica. O que se observa é que a fala substitui nomes por posições: "esta escrava", "o filho dela", "o filho desta escrava". O único nome pronunciado é o do próprio filho dela, e ainda em duplicata — "com o meu filho, com Isaque". É um padrão reconhecível de linguagem em situações de exclusão, embora atribuir intenção a isso seja leitura, não dado.

Ismael tinha mesmo direito à herança?

Pelos padrões jurídicos documentados na região, muito provavelmente sim. O Código de Hamurabi §170 estabelece que os filhos da escrava participam do patrimônio quando o pai os reconhece em vida — e Abraão reconheceu Ismael de maneira pública e inequívoca, circuncidando-o em 17:23-26. É exatamente esse reconhecimento que torna a exigência de Sara necessária do ponto de vista dela.

O que significa "expulsar" no hebraico?

O verbo é garesh, e é forte. É o verbo da expulsão do jardim em 3:24, da sentença de Caim em 4:14 e do desalojamento dos povos de Canaã em Êxodo 23:28-31. Da mesma raiz vem gerushah, "mulher repudiada", termo do vocabulário do divórcio em Levítico 21:7,14. Não descreve afastamento temporário nem viagem.

Por que Agar é chamada de outra palavra aqui e no capítulo 16?

No capítulo 16 ela é shifchah; aqui e nos versículos 12 e 13 é amah. A diferença exata é discutida: alguns estudiosos veem em amah uma condição um pouco superior, de escrava que pode tornar-se esposa secundária e cujos filhos têm posição reconhecível, e Êxodo 21:7-11 legisla sobre a amah nesses termos; outros tratam os dois termos como praticamente equivalentes e atribuem a variação a camadas distintas de composição. Não há consenso.

A Bíblia aprova o que Sara pediu?

O narrador não emite juízo — nem aprova nem reprova. O versículo 12 registra Deus mandando Abraão atender ao pedido, mas a fala divina responde a uma pergunta específica, que é o que Abraão deve fazer, e vem acompanhada, no versículo 13, de uma promessa que protege justamente aquele que está sendo expulso. Tratar o endosso de 21:12 como aprovação moral da fala de 21:10 é ir além do que o texto diz.

Este versículo é citado no Novo Testamento?

Sim, em Gálatas 4:30, com fórmula de citação: "Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre." Note a alteração: onde Gênesis diz "com o meu filho, com Isaque", Paulo tem "com o filho da livre", trocando o nome próprio por uma categoria jurídica — o que é coerente com o uso alegórico que ele declara fazer em 4:24.

Por que o narrador não condena a fala?

Não há resposta segura. O mesmo narrador reprova explicitamente em outros lugares, como em 13:13 e 38:7, o que mostra que o silêncio aqui é escolha e não limitação. Há quem leia o silêncio como endosso implícito e quem o leia como recusa a enfraquecer uma cena que fala por si. As duas leituras são defensáveis e o texto não permite decidir.

É verdade que estas são as últimas palavras de Sara na Bíblia?

Sim. Depois de 21:10 ela não volta a falar em nenhum texto bíblico. Suas falas registradas são 16:2, 16:5, 18:12, 18:15, 21:6, 21:7 e esta. A narrativa seguinte que a menciona é 23:1-2, que informa a idade e a morte. O narrador não comenta a coincidência, e seria excessivo lê-la como julgamento — mas o dado é verificável.

9. Conexão com Outros Textos

O verbo "expulsar" em outros textos

Gênesis 3:24 — "E lançou fora o homem, e pôs querubins ao oriente do jardim do Éden." A primeira ocorrência da raiz na Bíblia.

Gênesis 4:14 — "Eis que hoje me lanças da face da terra, e da tua face me esconderei." Caim descreve a própria sentença com o mesmo verbo.

Êxodo 23:28-31 — "E lançará fora os heveus, os cananeus e os heteus diante de ti." O vocabulário do desalojamento de povos.

Levítico 21:7 — "Nem tomarão mulher repudiada de seu marido." O substantivo gerushah, da mesma raiz, no vocabulário do divórcio.

Ezequiel 44:22 — "Nem viúva nem repudiada tomarão para si por mulheres." A mesma raiz, séculos depois, no mesmo campo.

O verbo "herdar" e a questão do herdeiro

Gênesis 15:3 — "Eis que não me tens dado filho, e eis que um nascido na minha casa será o meu herdeiro." A reclamação de Abraão, com a mesma raiz.

Gênesis 15:4 — "Este não será o teu herdeiro; mas aquele que de tuas entranhas sair, este será o teu herdeiro." A fórmula divina que a fala de Sara reproduz na estrutura.

Gênesis 25:5-6 — "E Abraão deu tudo o que tinha a Isaque. Mas aos filhos das concubinas que Abraão tinha, deu Abraão presentes, e, vivendo ele ainda, os apartou de Isaque seu filho." A solução patrimonial adotada mais tarde, com os outros filhos.

Deuteronômio 21:15-17 — "Não poderá dar a primogenitura ao filho da amada diante do filho da aborrecida, que é o primogênito." Legislação posterior que protege o primogênito exatamente contra a preferência materna.

A condição de Agar

Gênesis 16:1 — "E ela tinha uma serva egípcia, cujo nome era Agar." O termo shifchah, usado ao longo do capítulo 16.

Gênesis 16:6 — "Eis que tua serva está na tua mão; faze-lhe o que bom for aos teus olhos. E Sarai a afligiu, e ela fugiu de sua face." A primeira saída de Agar, também por iniciativa de Sarai.

Êxodo 21:7-11 — "E se algum vender sua filha por serva, não sairá como saem os servos." A legislação que usa o termo amah, o mesmo deste versículo, e regula direitos da mulher escravizada.

O reconhecimento de Ismael por Abraão

Gênesis 17:18 — "Tomara que viva Ismael diante de teu rosto!" O pedido explícito do pai por aquele filho.

Gênesis 17:23-26 — "E tomou Abraão a seu filho Ismael... e circuncidou a carne do seu prepúcio naquele mesmo dia." O reconhecimento público que dá peso jurídico à posição de Ismael.

Gênesis 21:11 — "E pareceu esta palavra mui má aos olhos de Abraão, por causa de seu filho." O versículo seguinte, que registra o vínculo que Sara acabou de negar.

Sara no restante da Bíblia

Gênesis 16:2 — "Entra, pois, à minha serva; porventura terei filhos dela." A primeira fala registrada de Sarai, que criou a situação deste capítulo.

Gênesis 23:1-2 — "E foi a vida de Sara cento e vinte e sete anos... e morreu Sara em Quiriate-Arba." O texto seguinte que a menciona, já sem fala.

Hebreus 11:11 — "Pela fé também a mesma Sara recebeu a virtude de conceber." A leitura que o Novo Testamento faz dela.

1 Pedro 3:6 — "Como Sara obedecia a Abraão, chamando-lhe senhor." Outra leitura neotestamentária, que não menciona este episódio.

A citação em Gálatas

Gálatas 4:30 — "Mas que diz a Escritura? Lança fora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre." A citação literal deste versículo, com a substituição do nome de Isaque por uma categoria.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então disse a Abraão: “Expulse esta escrava e o filho dela, pois o filho desta escrava não herdará com o meu filho, com Isaque.”

Texto hebraico

וַתֹּאמֶר לְאַבְרָהָם גָּרֵשׁ הָאָמָה הַזֹּאת וְאֶת־בְּנָהּ כִּי לֹא יִירַשׁ בֶּן־הָאָמָה הַזֹּאת עִם־בְּנִי עִם־יִצְחָק

Transliteração

wa-tomer le-Avraham: garesh ha-amah ha-zot we-et benah, ki lo yirash ben-ha-amah ha-zot im-beni im-Yitschaq

Análise palavra por palavra

וַתֹּאמֶרwa-tomer, "e ela disse", do verbo amar na forma consecutiva, terceira pessoa feminina singular. O sujeito não é repetido: o hebraico o herda do versículo anterior, onde Sara foi nomeada. A frase começa, literalmente, sem sujeito expresso.

לְאַבְרָהָםle-Avraham, "a Abraão". A preposição le marca o destinatário da fala. Vale notar que o hebraico não usa aqui a construção mais comum el ("para/em direção a"); a diferença entre as duas preposições nesse uso é sutil e discutida, e não convém tirar conclusão dela.

גָּרֵשׁgaresh, imperativo masculino singular da forma intensiva (piel) da raiz גרשׁ. "Expulsa", "lança fora", "põe para fora". A forma intensiva reforça a ideia de remoção forçada. É a única ordem da frase, e está no imperativo direto, sem partícula de cortesia — o hebraico dispõe da partícula na para suavizar pedidos, e ela não é usada.

הָאָמָה הַזֹּאתha-amah ha-zot, "a escrava, esta". Amah designa mulher escravizada; o capítulo 16 usava shifchah para Agar. O demonstrativo ha-zot ("esta") acompanha o substantivo com repetição de artigo, construção normal em hebraico. O conjunto aponta sem nomear.

וְאֶת־בְּנָהּwe-et benah, "e o filho dela". Ben com o sufixo possessivo feminino -ah. A partícula et marca objeto direto definido. Curiosamente, ela aparece aqui e não antes de ha-amah; a irregularidade é notada nos aparatos críticos e não altera o sentido.

כִּיki, conjunção causal, "pois", "porque". É ela que transforma o restante da frase em justificativa da ordem. Tudo o que vem depois é o motivo declarado.

לֹא יִירַשׁlo yirash, "não herdará". Negação lo mais o verbo yarash no imperfeito, terceira pessoa masculina singular. O verbo cobre "herdar", "tomar posse" e "apossar-se"; é a raiz do vocabulário da posse da terra em Josué e Deuteronômio, e do substantivo yerushah, "herança". A construção "não herdará" com este verbo é a mesma de 15:4.

בֶּן־הָאָמָה הַזֹּאתben-ha-amah ha-zot, "o filho desta escrava". A designação é repetida integralmente, em vez de retomada por pronome. O hebraico poderia dizer apenas "ele"; a repetição mantém a fórmula de despersonalização diante dos olhos do ouvinte.

עִם־בְּנִי עִם־יִצְחָקim-beni im-Yitschaq, "com o meu filho, com Isaque". A preposição im ("com") é repetida antes de cada termo, construção enfática que o hebraico usa para reforçar identificação. Beni é "meu filho", com sufixo possessivo de primeira pessoa. Yitschaq é o único nome próprio da fala.

A geometria da frase

Vale ver a distribuição dos nomes na estrutura, porque ela é simétrica e provavelmente não é acidental:

ordem — garesh
quem sai — a escrava, esta / o filho dela
motivo — ki
quem não herda — o filho desta escrava
quem herda — o meu filho, Isaque

Quatro designações de pessoas na primeira metade, todas sem nome. Uma designação na segunda, com nome dito duas vezes por caminhos diferentes. O contraste é construído dentro da própria gramática.

Comparação com as versões antigas

A Septuaginta traduz o verbo por ékbale, imperativo de ekbállō, "lançar fora" — o mesmo verbo que os evangelhos usam para expulsão de demônios e para a expulsão dos vendedores do templo. A escolha grega preserva bem a dureza do hebraico.

É essa forma da Septuaginta que aparece em Gálatas 4:30. A diferença entre o grego de Gálatas e o hebraico não está no verbo, e sim no fim da frase: onde o hebraico diz "com o meu filho, com Isaque", o texto citado por Paulo diz "com o filho da livre". O nome próprio desaparece, substituído pela categoria jurídica que interessa ao argumento dele.

11. Conclusão

Vinte palavras hebraicas, uma ordem e uma justificativa. Nenhum sentimento declarado, nenhum nome — exceto um.

A ordem é garesh, imperativo da raiz que a Bíblia usa quando o homem é posto para fora do jardim, quando Caim descreve a própria sentença e quando povos inteiros são desalojados de Canaã; da mesma raiz vem o termo para mulher repudiada. Não é vocabulário de afastamento temporário.

A justificativa é sucessória. Sara não fala do que viu no versículo anterior, não descreve dano, não pede correção nem castigo. Usa o verbo yarash e exige exclusão da partilha — e o faz numa estrutura que reproduz a de 15:4, onde Deus desqualificou Eliézer como herdeiro. Se a repetição é deliberada não é possível decidir, mas o eco existe.

Por trás da exigência há um mundo jurídico que o texto pressupõe sem enunciar. Os parágrafos 170 e 171 do Código de Hamurabi tratam exatamente da partilha entre filhos da esposa e filhos da escrava, condicionando o direito dos segundos ao reconhecimento paterno em vida. Abraão reconheceu Ismael de modo público e irreversível ao circuncidá-lo em 17:23-26. A preocupação de Sara, nesses termos, não é fantasia: é leitura correta da própria situação.

O que o texto entrega, então, é uma operação patrimonial dita em linguagem de despejo. E dita de um jeito específico: a escrava não é nomeada, o filho dela não é nomeado, e a paternidade do menino é transferida verbalmente do pai para a mãe — o mesmo menino que o versículo 9 acabou de dizer que fora dado à luz para Abraão. A frase realiza, na gramática, o que a exigência quer que aconteça no mundo.

O narrador se recusa a comentar. Não há ciúme atribuído, não há reprovação, não há defesa. É escolha e não limitação, porque o mesmo narrador reprova sem hesitar em 13:13 e em 38:7. O leitor fica sozinho com a frase — e será obrigado a confrontar o juízo que formar com o versículo 12, onde Deus manda atender ao que foi pedido.

Um último dado, verificável e sem comentário no texto: depois desta fala, Sara não volta a falar em nenhum lugar da Bíblia. A mulher cuja primeira fala registrada propôs usar Agar como ventre substituto tem, como última, a ordem de expulsá-la de casa.

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