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Gênesis 21:9

✍️ Por Alberto Adriano·23 de agosto de 2026·⏱️ 41 min de leitura·👁 7 acessos
Sara, porém, viu zombando o filho que Agar, a egípcia, dera a Abraão.
Mulher idosa observando à distância, sob a sombra de uma tenda, dois meninos de idades diferentes junto a mesas de festa ao ar livre no deserto.

Estudo


Sara, porém, viu zombando o filho que Agar, a egípcia, dera a Abraão.

1. Introdução

Existe um versículo em Gênesis 21 do qual depende o julgamento moral de todo o resto do capítulo. É este.

Se o que Ismael fazia era crueldade, a expulsão que vem a seguir é proteção de uma criança pequena contra um adolescente perigoso. Se era brincadeira, a expulsão é o despejo de uma escrava e do filho dela por causa de uma cena inofensiva. O capítulo inteiro muda de cor conforme se decide uma palavra.

A palavra é metsacheq. E o problema — que a maioria das traduções esconde do leitor, porque traduzir obriga a escolher — é que ela é construída sobre exatamente a mesma raiz do nome de Isaque.

Yitschaq significa "ele ri". Metsacheq é o particípio intensivo desse verbo. Numa tradução impossivelmente literal, Sara olha e vê o filho de Agar "isaqueando". Fazendo de Isaque. Rindo o riso que dá nome ao outro menino.

O texto hebraico não diz com quem ele fazia isso, nem contra quem, nem o que exatamente estava fazendo. Não há objeto, não há preposição, não há complemento. Há um verbo solto e uma mulher que olha.

As versões antigas trataram esse buraco de maneiras diferentes: a Septuaginta acrescentou palavras que não estão no hebraico, e o apóstolo Paulo, em Gálatas 4:29, leu a cena como perseguição. Cada uma dessas soluções tem peso próprio, e nenhuma delas é o texto massorético.

Este estudo apresenta as leituras possíveis, a evidência de cada uma, o que cada tradução está decidindo em silêncio pelo leitor — e o limite honesto: não é possível decidir pelo texto. Também trata de outra coisa que passa despercebida e é igualmente dura: a partir deste versículo, e por treze versículos seguidos, Ismael perde o nome.

2. Contexto Histórico e Cultural

O ponto exato da narrativa

Gênesis 21:9 vem imediatamente depois do banquete de desmame (21:8). O clima do capítulo até aqui era de celebração: nascimento, circuncisão, riso, festa. O versículo 8 é o ponto alto; o versículo 9 é a virada, e ela acontece sem transição nenhuma.

O desmame, no Oriente Próximo antigo, ocorria por volta dos dois ou três anos de idade — 2 Macabeus 7:27 fala em três anos de amamentação, e a prática está documentada em textos mesopotâmicos. Isaque, portanto, é uma criança bem pequena nesta cena.

Quem é o outro menino

Ismael nasceu em 16:15, quando Abraão tinha oitenta e seis anos (16:16). Isaque nasce quando Abraão tem cem (21:5). A diferença entre os dois irmãos é de quatorze anos. Somando os dois ou três anos até o desmame, Ismael estaria com dezesseis ou dezessete anos nesta cena.

Esse cálculo é importante porque interfere diretamente na leitura de metsacheq. Um adolescente de dezessete anos e uma criança de três não brincam de igual para igual, e o que num par de idade próxima seria travessura, nessa diferença de força pode ser outra coisa. O texto, no entanto, não menciona idade nenhuma aqui — o cálculo é do leitor, feito a partir de dados espalhados por três capítulos.

A história de Agar até aqui

Agar aparece em 16:1 como serva egípcia de Sarai. Foi Sarai quem a entregou a Abrão (16:2-3), numa solução jurídica corrente na época: a esposa estéril fornece a escrava, e o filho nascido conta como da senhora. Quando Agar concebeu, a relação azedou — 16:4 diz que ela passou a olhar a senhora com desprezo, e 16:6 registra que Sarai a maltratou a ponto de fazê-la fugir.

Naquela primeira fuga, o Anjo do SENHOR a encontrou junto a uma fonte no deserto, mandou-a voltar e submeter-se, e lhe deu uma promessa própria: descendência inumerável, e um filho chamado Ismael, "porque o SENHOR ouviu a tua aflição" (16:11). Agar respondeu nomeando Deus — o único personagem da Bíblia hebraica a fazê-lo — como El Roi, "Deus que me vê" (16:13).

Guardar isso é indispensável para 21:9, porque o capítulo 16 armou dois motivos que vão reaparecer inteiros aqui: o ver e o ouvir. Em 16 é Deus quem vê e quem ouve. Em 21:9 quem vê é Sara. Em 21:17 quem ouve é Deus outra vez.

O que já foi prometido sobre Ismael

O leitor de 21:9 já sabe coisas que os personagens da cena não estão levando em conta. Sabe que Deus prometeu a Agar uma descendência inumerável (16:10). Sabe que Abraão pediu a Deus, em 17:18, "Tomara que Ismael viva diante de ti", e que Deus respondeu, em 17:20, que o abençoaria, o faria frutificar e multiplicar, e faria dele uma grande nação, com doze príncipes por descendentes.

Sabe também que a aliança, no mesmo discurso, foi expressamente reservada a Isaque (17:19,21). As duas coisas foram ditas juntas, na mesma fala, sem que o texto as tratasse como contraditórias: Ismael tem futuro garantido, e não é ele o portador da aliança.

3. Análise Teológica do Versículo

"Sara, porém, viu"

O versículo começa com um verbo de percepção, e essa escolha determina tudo o que vem depois.

O hebraico é wa-tere, do verbo ra'ah, "ver". A frase inteira está montada de modo que o leitor não recebe um fato narrado, e sim o conteúdo do olhar de Sara. O narrador não diz "e Ismael zombava". Diz "e Sara viu o filho de Agar zombando". A diferença é decisiva: o que temos é uma cena filtrada por quem a viu, e quem a viu é a parte interessada.

Essa técnica não é acidente do hebraico. O narrador de Gênesis sabe entrar na cabeça dos personagens quando quer — ele fez isso em 18:12, onde registrou o pensamento íntimo de Sara, e em 17:17, onde registrou o de Abraão. Aqui ele escolhe ficar de fora e nos entregar apenas a percepção. Não confirma, não desmente, não comenta.

O olhar como motor do ciclo de Agar

O verbo ra'ah e o substantivo "olhos" atravessam toda a história de Agar, e é difícil considerar isso coincidência.

Em 16:4, quando Agar concebe, o texto diz literalmente que "sua senhora ficou desprezada aos olhos dela". Em 16:5, Sarai devolve a acusação: "eu me tornei desprezada aos olhos dela". Em 16:13, Agar nomeia Deus de El Roi, "Deus que me vê", e diz "também vi aqui aquele que me vê". Em 21:19, no fim deste mesmo episódio, "Deus abriu os olhos dela, e ela viu um poço".

Há, portanto, uma cadeia: o olhar humano que despreza (16:4-5), o olhar divino que socorre (16:13), o olhar humano que condena (21:9) e o olhar divino que salva (21:19). O ciclo inteiro é sobre quem enxerga o quê. E o versículo 9 é o momento em que o olhar humano determina o destino de duas pessoas.

"o filho que Agar, a egípcia, dera a Abraão"

Sete palavras para dizer "Ismael". E Ismael é justamente a palavra que não aparece.

Este é um dado verificável e vale enunciar com precisão: o nome de Ismael não ocorre uma única vez em Gênesis 21:9-21. Ele é "o filho de Agar" (v.9), "o filho desta escrava" (v.10), "seu filho" (v.11), "o menino" e "sua escrava" (v.12), "o filho da escrava" (v.13), "o menino" (vv.14,17,18,19,20). O narrador tinha o nome à disposição — usou-o em 16:15-16 e voltará a usá-lo em 25:9 — e não o usa em nenhum ponto deste episódio.

Há mais de uma explicação possível. Pode ser efeito de estilo: o texto está tratando de posição jurídica, e posição jurídica se descreve por relação de parentesco, não por nome próprio. Pode ser reflexo da perspectiva de Sara, que em v.10 fará exatamente isso, e o narrador teria adotado o vocabulário dela. Pode ser costura de fontes, se este relato circulava separado do de 16. Não é possível decidir entre as hipóteses só com este versículo.

O efeito, porém, é o mesmo em qualquer das leituras: durante treze versículos, um personagem com nome próprio — e com nome dado por Deus, segundo 16:11 — é referido apenas por a quem pertence. Ele volta a ter nome em 25:9, quando enterra o pai ao lado de Isaque.

A designação que o texto insiste em dar a Agar

"Agar, a egípcia". O epíteto étnico já apareceu em 16:1 e 16:3, e reaparece aqui. Não é informação nova para o leitor — é reforço.

A nacionalidade importa por três motivos. Primeiro, porque um egípcio na casa de Abraão é lembrança da descida ao Egito de 12:10-20, episódio em que Abraão saiu com servos e servas recebidos do faraó por causa de Sara; a origem de Agar provavelmente está ali, embora o texto não afirme isso. Segundo, porque o Egito é o lugar de onde Israel será tirado, e a presença de uma escrava egípcia oprimida dentro da casa do patriarca inverte incomodamente a história posterior do povo. Terceiro, porque em 21:21 a mãe egípcia buscará uma esposa egípcia para o filho — o epíteto aqui prepara aquele desfecho.

"dera a Abraão" — a frase jurídica

O hebraico diz asher yaldah le-Avraham: que ela deu à luz para Abraão. A preposição não é decorativa.

Este é o dado que torna o versículo seguinte inevitável. O texto acaba de registrar, na própria frase em que Sara olha, que aquele menino é filho de Abraão. Não é filho de Agar apenas; foi gerado para o patriarca, dentro do arranjo que a própria Sara propôs em 16:2. Ele é o primogênito legal de Abraão, com direitos que os códigos jurídicos da região reconheciam.

O narrador, portanto, coloca lado a lado, numa só frase, a percepção de Sara e o fato que a preocupa. Ela vê um menino brincando ou zombando — e o narrador nos lembra, na mesma linha, de quem é filho aquele menino. A questão de herança já está posta antes de Sara abrir a boca.

"zombando" — a palavra que decide o capítulo

O hebraico é metsacheq (מְצַחֵק), particípio da forma intensiva (piel) da raiz צחק, tsachaq.

Essa raiz é a raiz do nome de Isaque. Yitschaq é a forma verbal imperfeita da mesma raiz: "ele ri", ou "ele rirá". O nome foi dado por ordem divina em 17:19, e o capítulo 21 já brincou com ele duas vezes — em 21:6, quando Sara diz que Deus lhe fez rir, e na frase seguinte, sobre quem rirá com ela ou dela.

Ou seja: quando Sara olha e vê o filho de Agar metsacheq, ela está vendo aquele menino fazer, com o corpo ou com a boca, aquilo que é o nome do filho dela. Traduzido ao pé da letra e sem naturalidade nenhuma, ela vê Ismael isaqueando.

Nenhuma tradução portuguesa consegue mostrar isso, porque o nome Isaque, em português, perdeu a transparência que tem em hebraico. O leitor hebreu ouvia a mesma sequência de consoantes duas vezes na mesma cena. O leitor de língua portuguesa ouve "Isaque" e "zombando", e não há nada que os ligue.

O que a forma intensiva faz com o verbo

Na forma simples (qal), tsachaq significa rir. É o verbo do riso de Abraão em 17:17 e do riso de Sara em 18:12.

Na forma intensiva (piel), que é a deste versículo, o verbo muda de campo. Ele deixa de descrever a reação do riso e passa a descrever uma atividade: fazer graça, brincar, divertir-se, entreter, fazer troça, acariciar. O piel hebraico costuma converter um estado em ação repetida ou intensificada, e aqui o resultado é um verbo de comportamento, não de emoção.

O problema é que esse leque de sentidos é largo demais, e o versículo não oferece nada que o estreite. Não há objeto direto, não há preposição, não há advérbio. Só o particípio.

Onde mais este verbo aparece nesta forma

A forma intensiva de tsachaq é rara. Vale percorrer as ocorrências, porque é delas que saem as leituras concorrentes — e porque elas puxam em direções opostas.

Em Gênesis 19:14, Ló avisa os genros sobre a destruição de Sodoma, "mas ele pareceu aos olhos dos seus genros como quem metsacheq". Aqui o sentido é claramente "brincar", "não falar sério". Nada de agressão: apenas alguém que não está sendo levado a sério.

Em Gênesis 26:8, Abimeleque olha pela janela e vê Isaque metsacheq com Rebeca, sua mulher — e conclui imediatamente que ela é esposa, não irmã. O sentido é erótico, e o texto faz um trocadilho evidente: Yitschaq metsacheq. Isaque isaqueando. É a única outra vez em que o verbo é usado sobre alguém da família, e o narrador claramente se diverte com o som.

Em Gênesis 39:14 e 39:17, a mulher de Potifar acusa José usando este mesmo verbo com a preposição be: ele veio "para tsachaq conosco/comigo". Aqui o sentido é hostil e sexual ao mesmo tempo — a acusação é de assédio. Note-se, porém, que o verbo vem acompanhado de complemento; sozinho ele não carregaria esse sentido.

Em Êxodo 32:6, depois do bezerro de ouro, "o povo assentou-se para comer e beber, e levantou-se para letsacheq". O que exatamente o povo fez ali é discutido há séculos: dança ritual, orgia, folia idolátrica. O texto não especifica, e é justamente essa indefinição que fez a tradição interpretativa carregar a palavra de suspeita.

Em Juízes 16:25, com a raiz aparentada sachaq, os filisteus chamam Sansão para que ele os divirta. Sentido de espetáculo, entretenimento forçado.

Recapitulando o que essa varredura mostra: o mesmo verbo, na mesma forma, serve para brincadeira inofensiva (19:14), carícia conjugal (26:8), assédio (39:14), folia de conotação idolátrica (32:6) e diversão pública (Jz 16:25). O verbo não tem sentido próprio suficiente para decidir 21:9. Ele recebe sentido do contexto — e o contexto, aqui, foi suprimido.

Primeira leitura: brincadeira inocente

Nesta leitura, Ismael simplesmente brincava. Talvez com Isaque, talvez sozinho. O verbo, sem complemento, descreveria uma atividade lúdica qualquer.

A favor: é o sentido mais básico do piel quando o verbo aparece sem objeto, como em 19:14; e o texto não acrescenta nenhuma palavra de censura — não há "mal", não há "violência", não há "opressão", vocabulário que o hebraico tem de sobra e não usou.

Contra: se a cena fosse inteiramente inofensiva, a reação de Sara em v.10 seria desproporcional a ponto de o narrador provavelmente precisar comentá-la. E, sobretudo, Deus endossa a exigência dela em v.12, o que é difícil de conciliar com uma queixa vazia.

Segunda leitura: zombaria ou maus-tratos

Nesta leitura, o adolescente de dezesseis ou dezessete anos fazia troça da criança de três, ou pior. É a leitura que a maioria das traduções portuguesas adota, inclusive a que este site utiliza.

A favor: o uso hostil existe (39:14,17); a diferença de idade entre os meninos é grande; e há uma tradição interpretativa antiga e sólida nessa direção, que inclui Gálatas 4:29.

Contra: em 39:14 e 39:17 o sentido hostil vem da preposição que acompanha o verbo, e aqui não há preposição nenhuma. Ler hostilidade em metsacheq absoluto é importar para o versículo um dado que ele não fornece.

Terceira leitura: Ismael fazendo de Isaque

Esta é a leitura menos conhecida na pregação e, na minha avaliação, a mais interessante, embora também não seja demonstrável.

Se metsacheq é a raiz do nome de Isaque em forma verbal, a cena pode não ser sobre agressão nenhuma, e sim sobre posição. Ismael estaria se comportando como Isaque: ocupando o lugar do herdeiro, agindo como filho da casa no dia da festa do outro. O que Sara vê não seria um menino batendo em outro, mas um menino sendo aquilo que ela quer que só o dela seja.

A favor: explica por que o narrador escolheu justamente este verbo, e não um dos vários verbos hebraicos disponíveis para zombar (la'ag, bazah, qalas) — nenhum dos quais tem parentesco com o nome de Isaque. Explica também por que a fala seguinte de Sara é sobre herança, e não sobre agressão: ela não diz "ele machucou meu filho"; diz "ele não herdará com meu filho". A queixa dela, no versículo seguinte, é jurídica do começo ao fim.

Contra: essa leitura depende de atribuir ao trocadilho um peso semântico que o texto não explicita, e trocadilhos em hebraico nem sempre carregam significado além do som. Permanece hipótese.

O que a Septuaginta fez

A tradução grega do Pentateuco, feita em Alexandria a partir do século III a.C., resolve a ambiguidade do jeito mais direto possível: acrescenta o complemento que falta.

Onde o hebraico tem apenas o particípio, o grego traz paízonta metà Isaàk toû huioû autês — "brincando com Isaque, seu filho". A Vulgata latina segue o mesmo caminho, com ludentem cum Isaac filio suo.

É preciso ser exato sobre o que isso significa. Essas palavras não estão no texto hebraico massorético. Há duas explicações concorrentes, e ambas são defensáveis: ou os tradutores tinham diante de si um texto hebraico mais longo que o que chegou até nós, ou completaram a frase para torná-la compreensível em grego, onde o verbo escolhido (paízō, "brincar") pedia complemento. Não há como decidir entre as duas com a evidência disponível.

Repare no efeito colateral: a Septuaginta resolve com quem, mas não resolve o quê. O verbo grego que ela usa é o de brincar, não o de zombar. A versão antiga mais lida no mundo helenístico apresenta, portanto, uma cena de dois meninos brincando juntos — e a reação de Sara fica ainda mais dura nessa leitura, não mais branda.

O que Paulo fez

Em Gálatas 4:21-31, Paulo constrói uma alegoria com Agar e Sara, e no versículo 29 escreve: "mas, como naquele tempo o que era gerado segundo a carne perseguia o que o era segundo o Espírito, assim é também agora".

O verbo grego é ediōken, imperfeito de diōkō: perseguir, hostilizar. É o verbo da perseguição religiosa, o mesmo que Paulo usa sobre si próprio ao lembrar que perseguia a igreja.

Três observações de precisão:

Primeira: Paulo não está citando Gênesis 21:9. Não há fórmula de citação, não há reprodução do texto. Ele se refere ao episódio, não o transcreve.

Segunda: leituras judaicas anteriores ou contemporâneas a Paulo já carregavam o verbo de sentido pesado. A tradição rabínica preservada em Gênesis Rabá discute se metsacheq apontaria para idolatria, imoralidade sexual ou derramamento de sangue, apoiando-se justamente nas outras ocorrências da raiz que percorremos acima. Paulo escreve dentro desse ambiente interpretativo, não fora dele.

Terceira: a função do argumento em Gálatas é polêmica e alegórica declaradamente — o próprio Paulo diz, em 4:24, que aquilo "é alegoria". Ele está usando a história para falar de outra coisa: da relação entre a comunidade que exige circuncisão e a que não exige. Tomar a leitura alegórica dele como definição lexical de metsacheq é confundir dois níveis distintos.

Nada disso diminui a autoridade de Gálatas para quem a reconhece. O que se pode afirmar com honestidade é mais modesto e mais preciso: Gálatas 4:29 é uma interpretação apostólica do episódio, e não uma tradução do versículo. Quem lê o hebraico continua diante de um particípio sem complemento.

O limite

Reunindo tudo: o texto massorético não diz o que Ismael fazia, não diz com quem, não diz contra quem, e não emite juízo. O verbo escolhido é ambíguo por natureza e ecoa o nome do outro menino. As versões antigas preencheram a lacuna de um jeito; o Novo Testamento, de outro; as traduções modernas, de um terceiro.

Não é possível decidir pelo texto. Qualquer tradução portuguesa que se leia — "zombando", "brincando", "rindo", "caçoando" — já é uma decisão tomada por outra pessoa, em nome do leitor, e apresentada sem aviso.

Isso não é defeito do texto nem falha das traduções. É a condição de quem traduz: não existe português neutro para metsacheq. O que se pode fazer, e é o que este estudo tenta fazer, é devolver ao leitor a decisão que a tradução tomou por ele.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Sara

Nesta cena ela tem cerca de noventa e três anos, se somarmos os noventa de 17:17 ao ano até o nascimento e aos dois ou três até o desmame. É a segunda vez que ela aparece como sujeito de uma decisão sobre Agar: a primeira foi 16:2, quando propôs o arranjo, e a segunda foi 16:6, quando a maltratou a ponto de provocar sua fuga.

O versículo 9 a apresenta apenas olhando. Toda a ação dela virá na fala do versículo seguinte.

Agar

Escrava egípcia, apresentada em 16:1 como serva de Sarai. É a primeira mulher da Bíblia a receber uma anunciação — em 16:11 um mensageiro divino lhe anuncia o nascimento e o nome do filho, fórmula que reaparecerá com Manoá em Juízes 13 e com Maria em Lucas 1.

É também a única pessoa em toda a Bíblia hebraica que dá um nome a Deus (16:13). Nada disso é lembrado em 21:9, onde ela é apenas "a egípcia" e a mãe de um menino sem nome.

O filho de Agar

Ismael, embora o versículo não o chame assim. Nome dado por instrução divina em 16:11, significando "Deus ouve". Circuncidado aos treze anos em 17:25, no mesmo dia que o pai. Tem promessa própria de multiplicação e de doze príncipes (17:20), reafirmada em 21:13 e cumprida na lista de 25:12-16.

Reaparece em 25:9 para sepultar Abraão junto com Isaque — e ali o narrador lhe devolve o nome. Morre aos cento e trinta e sete anos (25:17).

Isaque

Não é mencionado no texto hebraico deste versículo, embora apareça na Septuaginta e na Vulgata, e por isso conste de várias traduções antigas. Tem dois ou três anos. Seu nome, Yitschaq, é a chave fonética de todo o problema deste versículo.

O banquete do desmame

Evento do versículo anterior, mas indispensável aqui. O desmame marcava a passagem da criança à condição de quem provavelmente sobreviveria — a mortalidade infantil no primeiro par de anos era altíssima. A festa é, na prática, a confirmação pública de que a casa tem um herdeiro vivo.

É plausível que a cena de 21:9 aconteça durante essa festa, embora o texto não o afirme. Se for o caso, o gesto de Ismael ocorre no dia em que a posição dele estava sendo publicamente relativizada.

A raiz צחק

Mais do que um personagem, é o fio condutor do capítulo. Aparece no nome de Isaque (17:19; 21:3), no riso de Abraão (17:17), no riso de Sara e na sua negativa (18:12-15), na fala de Sara sobre o riso alheio (21:6) e aqui, na forma intensiva, sobre Ismael. Seis ocorrências em cinco capítulos, todas em torno da mesma família.

5. Pontos de Ensino

1. O narrador não descreve um fato, descreve um olhar. A construção é "Sara viu... zombando". O leitor recebe a percepção da parte interessada, não um relato neutro. O texto poderia ter escrito "e Ismael zombava"; não escreveu.

2. A palavra decisiva é feita da mesma raiz do nome de Isaque. Metsacheq e Yitschaq vêm de צחק. Literalmente, Sara vê o filho de Agar "isaqueando" — e nenhuma tradução portuguesa consegue transmitir isso.

3. O hebraico não tem complemento. Sem objeto, sem preposição, sem advérbio. O texto massorético não diz com quem, contra quem, nem o quê. As traduções que dizem estão preenchendo uma lacuna.

4. A Septuaginta acrescenta palavras. "Com Isaque, seu filho" está no grego e no latim, e não está no hebraico. É acréscimo — seja de um original mais longo, seja de decisão dos tradutores; não é possível decidir entre as duas hipóteses.

5. Gálatas 4:29 lê como perseguição, mas é interpretação, não tradução. Paulo usa diōkō, verbo de perseguir, dentro de um argumento que ele mesmo declara alegórico (4:24). Não há fórmula de citação de Gênesis 21:9.

6. A queixa de Sara, no versículo seguinte, é sobre herança e não sobre agressão. Isso pesa contra a leitura de maus-tratos como única possível: quem reage a violência fala de violência, e Sara fala de partilha de bens.

7. Ismael perde o nome a partir daqui. Nos treze versículos de 21:9 a 21:21 ele nunca é chamado pelo nome — só por relação de parentesco ou por "o menino". O nome volta em 25:9.

6. Aspectos Filosóficos

O desmame terminou. A festa acabou de acontecer. E a primeira frase depois da festa é uma mulher olhando.

Não há transição, não há advertência narrativa, não há "então sucedeu que". Gênesis passa da comemoração para a crise em uma linha, e o pivô da linha é um verbo de percepção.

Vale demorar nisso antes de qualquer coisa, porque é onde a maior parte da leitura devocional escorrega. A pergunta que se costuma fazer diante deste versículo é "o que Ismael fez?". A pergunta que o texto autoriza é outra: "o que Sara viu?". São perguntas diferentes, e só a segunda tem resposta no versículo.

Uma palavra que soa como um nome

Imagine o versículo lido em voz alta diante de uma plateia que fala hebraico. A palavra final da frase é metsacheq. Três capítulos antes, essa mesma sequência de consoantes foi anunciada como o nome do filho prometido. Duas dezenas de versículos antes, foi o riso de descrença do pai. Alguns versículos antes, foi o riso ambíguo da mãe. E agora sai da boca do narrador aplicada ao outro menino.

O ouvinte hebreu percebia isso sem esforço, do mesmo modo que um falante de português percebe imediatamente a ligação entre "Pedro" e "pedra" quando as duas palavras aparecem na mesma frase. Não é sutileza acadêmica; é o som da língua.

Um leitor de tradução perde isso inteiramente, e perde justamente o que dá densidade à cena. Sem o trocadilho, temos um menino zombando de outro. Com o trocadilho, temos um menino fazendo — seja lá o que fosse — aquilo que é o nome do irmão mais novo, no dia da festa do irmão mais novo, diante da mãe do irmão mais novo.

O que as traduções decidem sem avisar

Compare as opções que circulam em português: "zombando", "brincando", "caçoando", "escarnecendo", "rindo". Cada uma dessas palavras produz uma cena diferente e um julgamento moral diferente sobre tudo o que vem a seguir.

Quem lê "escarnecendo" já entra no versículo 10 disposto a dar razão a Sara. Quem lê "brincando" já entra disposto a achá-la cruel. E nenhum dos dois leitores foi informado de que o hebraico não tomou partido.

Este é um caso exemplar de algo que vale a pena entender de modo geral: traduzir é decidir. Não existe versão sem escolhas. O tradutor honesto faz a melhor escolha possível e segue adiante, porque não é possível imprimir cinco alternativas no meio de um versículo. Mas o leitor que não sabe que houve escolha acredita estar lendo o texto, quando está lendo uma das leituras dele.

A pista que o próprio capítulo oferece

Há um argumento interno que raramente aparece na pregação e que merece ser considerado com cuidado: a resposta de Sara não menciona agressão.

Se um adolescente de dezessete anos tivesse machucado ou humilhado o filho de três anos dela, seria estranho que a queixa saísse em forma de argumento sucessório. Sara não diz "ele bateu no meu filho", não diz "ele o humilhou", não pede castigo. Ela diz que o filho da escrava não herdará com o filho dela.

Isso não prova que não houve agressão. É perfeitamente possível que a agressão tenha sido o estopim de uma preocupação anterior, e que Sara tenha ido direto ao ponto que lhe interessava. Mas puxa o peso da cena para o lado do direito de herança, e é honesto registrar isso, porque é a única evidência interna que o capítulo oferece sobre o que estava em jogo.

O sumiço do nome

Há um detalhe fácil de não perceber, e ele muda a leitura da cena inteira.

Neste versículo, e nos doze seguintes, Ismael não é chamado pelo nome. Ele vira uma relação de parentesco ambulante: filho de Agar, filho da escrava, seu filho, o menino. O narrador que registrou o nome em 16:15 e o registrará de novo em 25:9 escolhe não usá-lo aqui.

Quem já esteve em uma organização, numa família em conflito ou num processo judicial reconhece o mecanismo. Antes de excluir alguém, o vocabulário muda. A pessoa deixa de ser fulano e passa a ser "o funcionário", "aquela mulher", "a parte contrária". O nome é o último vínculo com a individualidade, e ele cai primeiro.

Se o narrador está reproduzindo o efeito ou apenas usando linguagem jurídica não é possível decidir. Mas o efeito está lá, disponível para quem ler devagar.

O que o narrador não faz

E aqui está o mais desconfortável do versículo: o narrador não toma partido de ninguém.

Ele não diz que Sara exagerou. Não diz que Ismael merecia. Não confirma o que ela viu nem o desmente. Coloca a cena diante do leitor com o mínimo possível de palavras e passa adiante.

Boa parte da pregação sobre este texto trabalha para preencher esse silêncio — geralmente pintando Ismael como vilão, o que resolve o desconforto do capítulo inteiro de uma vez. É compreensível, mas é preciso reconhecer que se trata de acréscimo. O texto que sobreviveu deixa o leitor sem chão, e provavelmente de propósito: em poucos versículos, será Deus quem tomará partido, e o texto quer que essa tomada de partido seja dele, não do narrador.

7. Aplicações Práticas

Desconfiar da tradução que resolve tudo depressa demais

Quem lê a Bíblia só em português está lendo, o tempo todo, escolhas feitas por outras pessoas. Na maior parte das vezes isso é irrelevante, porque as escolhas são óbvias e todas as versões concordam. Em versículos como este, é decisivo.

O sinal de alerta prático é simples e não exige hebraico: quando duas traduções sérias divergem no mesmo ponto, há uma ambiguidade real no original. Comparar duas ou três versões antes de tirar conclusão de um versículo difícil é um hábito barato e que rende muito.

E há um segundo sinal, mais fino: quando um versículo produz um julgamento moral forte e imediato sobre alguém, vale checar se o julgamento está no texto ou na palavra que o tradutor escolheu. Aqui, "zombando" produz o julgamento; o particípio hebraico, sozinho, não produz.

O que se vê depende de quem está vendo

O versículo é construído sobre o olhar de uma parte interessada, e o narrador não o corrige. Isso não significa que Sara esteja errada — significa que o texto não nos dá acesso independente aos fatos.

Situações domésticas e de trabalho funcionam assim com frequência incômoda. Duas pessoas presenciam a mesma cena e descrevem episódios diferentes, e nenhuma das duas está mentindo. O que muda é o que cada uma tinha em jogo naquele instante.

A aplicação não é relativizar tudo, e sim adiar a sentença. Antes de decidir o que aconteceu com base em um relato só, vale perguntar o que quem relatou tinha a perder na cena. Sara tinha uma herança em disputa, e isso não a torna mentirosa; torna o relato dela um relato interessado, que é coisa diferente.

O momento em que o nome desaparece

A partir deste versículo, Ismael passa treze versículos sem ser chamado pelo nome. Vira "o filho da escrava", "o menino", "seu filho".

Esse é um mecanismo observável fora da Bíblia, e conhecê-lo é útil. Antes de uma exclusão — uma demissão, um rompimento, um afastamento de igreja —, o vocabulário empobrece. A pessoa vira função, categoria ou parentesco. É mais fácil decidir sobre "a parte contrária" do que sobre alguém com nome, história e rosto.

Vale como exame de consciência aplicável no mesmo dia: sobre quem, na sua vida, você tem falado sem usar o nome. E o que a substituição do nome está tornando mais fácil de fazer.

Herança disfarçada de ofensa

A queixa de Sara começa como reação a uma cena e termina, no versículo seguinte, como argumento sobre partilha de bens. O incidente é o estopim; o assunto é outro.

Isso é reconhecível em qualquer inventário de família e em boa parte das brigas societárias. Discute-se um episódio — uma frase malcriada, uma ausência num velório, um gesto no jantar — quando o que está em disputa é patrimônio, posição ou controle. O episódio é verdadeiro e é sinceramente doloroso; ele apenas não é o motivo.

O proveito prático de perceber isso é duplo. De um lado, permite tratar o conflito no plano em que ele efetivamente está, o que costuma ser mais resolvível do que o plano das ofensas. De outro, protege de gastar anos discutindo o episódio errado.

A ambiguidade que não se dissolve

Este versículo não tem solução. Depois de percorrer o léxico, as versões antigas, o Novo Testamento e a tradição interpretativa, o resultado permanece: não é possível decidir o que Ismael fazia.

Boa parte da formação religiosa treina a expectativa oposta — a de que estudo suficiente sempre produz certeza. Quando a certeza não vem, a reação comum é escolher uma leitura e apresentá-la como se fosse a única, o que troca honestidade por conforto.

Conviver com um texto que não fecha é uma habilidade espiritual, não uma derrota intelectual. Ela permite continuar lendo sem forçar o texto a dizer o que ele não disse, e sem precisar defender depois uma posição que a evidência não sustentava.

Um dia de festa é um dia perigoso para quem foi deslocado

A cena acontece, muito plausivelmente, durante o banquete do desmame. Se for esse o caso, Ismael está numa festa que celebra publicamente a chegada de quem ocupou o lugar dele. Ele tinha sido, por quatorze anos, o único filho de Abraão.

O texto não explica o comportamento dele nem o desculpa, e não convém inventar psicologia onde o narrador não deu nenhuma. O que se pode notar é a situação, e ela é comum: casamentos, formaturas, nascimentos e promoções são exatamente os dias em que quem ficou de fora sente com mais nitidez que ficou.

Quem organiza celebrações raramente pensa nisso, e não há como celebrar sem que alguém fique de fora. Mas saber onde as pessoas provavelmente estão doendo já muda o modo de conduzir o dia, e às vezes evita transformar uma festa numa ruptura.

O Novo Testamento interpreta, e é bom saber quando ele está interpretando

Gálatas 4:29 lê a cena como perseguição. É leitura apostólica, dentro de um argumento que Paulo declara alegórico em 4:24, e não é tradução do particípio hebraico.

Distinguir as duas coisas não é diminuir o Novo Testamento; é ler com precisão. Os autores neotestamentários usam o Antigo Testamento de várias maneiras — citam, aludem, alegorizam, recontextualizam — e tratar todos esses usos como se fossem definição lexical produz confusão em muitos outros lugares além deste.

A prática que decorre disso é modesta e útil: ao encontrar uma referência do Novo Testamento a um texto antigo, vale abrir o texto antigo e comparar. Onde as duas leituras coincidem, o ganho é confirmação. Onde divergem, o ganho é maior ainda, porque ali se aprende algo sobre como aqueles autores liam.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Afinal, o que Ismael estava fazendo?

O texto hebraico não diz. A palavra é metsacheq, um particípio sem objeto e sem preposição, cujo campo de sentido vai de "brincar" a "zombar", passando por "divertir", "entreter" e "acariciar". Sem complemento, o verbo não determina qual desses sentidos está em jogo, e não é possível decidir a questão pelo versículo. Toda tradução portuguesa que se leia já escolheu por você.

Por que as traduções divergem tanto neste versículo?

Porque cada uma precisa escolher uma palavra, e o hebraico não escolheu. "Zombando", "brincando", "caçoando", "escarnecendo" e "rindo" são todas defensáveis dentro do campo semântico da raiz. A divergência entre versões sérias é, nesse caso, o melhor indicador disponível de que há ambiguidade real no original.

É verdade que a palavra tem a ver com o nome de Isaque?

Sim, e essa é a informação mais importante do versículo. Metsacheq vem da raiz צחק, a mesma de Yitschaq, "Isaque", que significa "ele ri". A frase, ao pé da letra, mostra Sara vendo o filho de Agar "isaqueando". O trocadilho é audível em hebraico e invisível em português.

A Bíblia não diz que ele zombava de Isaque?

Depende de qual Bíblia. O texto hebraico massorético não menciona Isaque neste versículo. A Septuaginta grega acrescenta "com Isaque, seu filho", e a Vulgata latina faz o mesmo. Como essas palavras não estão no hebraico, há duas explicações possíveis — um original hebraico mais longo, hoje perdido, ou um complemento acrescentado pelos tradutores — e não há evidência que permita decidir entre elas.

E Gálatas 4:29, que fala em perseguição?

Paulo usa o verbo grego diōkō, "perseguir", ao se referir ao episódio. Duas coisas precisam ser ditas juntas: é leitura apostólica, com o peso que cada tradição lhe atribui; e não é citação nem tradução de Gênesis 21:9 — não há fórmula de citação, e o próprio Paulo classifica o trecho como alegoria em 4:24. Ele está usando a história para tratar de um conflito na Galácia.

Quantos anos tinha Ismael nessa cena?

Cerca de dezesseis ou dezessete. Abraão tinha oitenta e seis quando Ismael nasceu (16:16) e cem quando Isaque nasceu (21:5), o que dá quatorze anos de diferença; somando os dois ou três anos até o desmame, chega-se a esse número. O texto não declara a idade aqui — o cálculo vem de dados espalhados por outros capítulos, e ele criará uma tensão real com o modo como os versículos 15 a 18 descrevem o menino.

Por que Ismael não é chamado pelo nome?

Não há explicação declarada, mas o fato é verificável: de 21:9 a 21:21 o nome não aparece nenhuma vez. As hipóteses correntes são o vocabulário jurídico (posição sucessória se descreve por parentesco), a adoção da perspectiva de Sara pelo narrador, ou a composição do relato a partir de tradições distintas. Nenhuma delas é demonstrável só com este capítulo.

Sara estava sendo mesquinha?

O narrador não julga, e por isso qualquer resposta é leitura. O que o texto fornece é a fala dela no versículo seguinte, e essa fala é sobre herança, não sobre agressão — o que sugere que a preocupação era jurídica e não emocional. Também fornece, em 21:12, um endosso divino à exigência, o que é dado incômodo para quem quer resolver a cena classificando Sara como vilã.

Este versículo autoriza ler Ismael como figura negativa?

O versículo, sozinho, não. E o próprio capítulo trabalha na direção contrária poucas linhas depois: em 21:13 Deus promete fazer dele uma nação "porque ele é seu descendente", em 21:17 Deus ouve a voz dele, e em 21:20 o texto diz que Deus estava com o menino. Uma leitura que trate Ismael como vilão precisa explicar esses três versículos.

9. Conexão com Outros Textos

A raiz do nome de Isaque nas outras ocorrências

Gênesis 17:17 — "Então caiu Abraão sobre o seu rosto, e riu." Forma simples do verbo, riso de descrença do pai.

Gênesis 18:12 — "Assim, pois, riu-se Sara consigo." O riso da mãe, também na forma simples.

Gênesis 18:15 — "E Sara negou, dizendo: Não me ri; porquanto temeu. E ele disse: Não digas isso, porque te riste." O riso negado e desmentido.

Gênesis 17:19 — "Sara, tua mulher, certamente te dará um filho, e chamarás o seu nome Isaque." O nome derivado da raiz, escolhido por Deus.

Gênesis 21:6 — "Deus me tem feito riso; todo aquele que o ouvir se rirá comigo." O substantivo da mesma raiz, três versículos antes deste.

A forma intensiva do verbo em outros textos

Gênesis 19:14 — "Mas pareceu aos olhos de seus genros como quem zombava." Sentido de brincadeira ou de não ser levado a sério, sem hostilidade.

Gênesis 26:8 — "Abimeleque olhou por uma janela, e viu, e eis que Isaque estava brincando com Rebeca, sua mulher." Sentido erótico, com trocadilho evidente sobre o nome de Isaque.

Gênesis 39:14 — "Eis que nos trouxe um homem hebreu, para escarnecer de nós." Sentido hostil, mas com preposição que o determina.

Gênesis 39:17 — "Veio a mim o servo hebreu, que nos trouxeste, para escarnecer de mim." A acusação repetida.

Êxodo 32:6 — "E assentou-se o povo a comer e a beber; depois levantou-se a folgar." Depois do bezerro de ouro; o conteúdo exato do verbo é discutido.

Juízes 16:25 — "Chamai Sansão, para que brinque diante de nós." Raiz aparentada, sentido de espetáculo forçado.

O ciclo de Agar

Gênesis 16:1-3 — "E Sarai disse a Abrão: Eis que o SENHOR me tem impedido de dar à luz; entra, pois, à minha serva." A origem do arranjo, proposto pela própria Sarai.

Gênesis 16:4-6 — "Vendo ela que concebera, foi sua senhora desprezada aos seus olhos." O conflito anterior, também construído sobre o verbo ver.

Gênesis 16:11 — "Eis que concebeste, e darás à luz um filho, e chamarás o seu nome Ismael, porquanto o SENHOR ouviu a tua aflição." O nome que significa "Deus ouve".

Gênesis 16:13 — "E ela chamou o nome do SENHOR, que com ela falava: Tu és Deus que me vê." A única nomeação de Deus por um ser humano na Bíblia hebraica.

As promessas já feitas sobre Ismael

Gênesis 17:18 — "E disse Abraão a Deus: Tomara que viva Ismael diante de teu rosto!" O pedido do pai.

Gênesis 17:20 — "E quanto a Ismael, também te tenho ouvido: eis que o tenho abençoado, e fá-lo-ei frutificar, e fá-lo-ei multiplicar grandissimamente; doze príncipes gerará, e dele farei uma grande nação." A promessa que o capítulo 21 vai reafirmar.

Gênesis 25:9 — "E Isaque e Ismael, seus filhos, o sepultaram." O versículo em que o nome volta, e os dois irmãos aparecem lado a lado.

A leitura do Novo Testamento

Gálatas 4:24 — "O que se entende por alegoria: porque estes são os dois concertos." A própria declaração de Paulo sobre o gênero do argumento.

Gálatas 4:29 — "Mas, como então, aquele que era gerado segundo a carne perseguia o que o era segundo o Espírito, assim é também agora." A leitura como perseguição.

Gálatas 4:30 — "Lança fora a escrava e seu filho." A citação, esta sim literal, de Gênesis 21:10.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Sara, porém, viu zombando o filho que Agar, a egípcia, dera a Abraão.

Texto hebraico

וַתֵּרֶא שָׂרָה אֶת־בֶּן־הָגָר הַמִּצְרִית אֲשֶׁר־יָלְדָה לְאַבְרָהָם מְצַחֵק

Transliteração

wa-tere Sarah et-ben-Hagar ha-Mitsrit asher-yaldah le-Avraham metsacheq

Análise palavra por palavra

וַתֵּרֶאwa-tere, "e ela viu", do verbo ra'ah na forma consecutiva que encadeia a narrativa hebraica. Verbo de percepção, terceira pessoa feminina singular. A escolha de abrir o versículo por um verbo de ver, e não por um verbo de ação, faz de tudo o que segue o conteúdo de uma percepção. É o mesmo verbo que estrutura o conflito de 16:4-5 e o socorro de 21:19.

שָׂרָהSarah, sujeito. Nome dado por Deus em 17:15, em substituição a Sarai. Significa "princesa" ou "senhora".

אֶת־בֶּן־הָגָרet-ben-Hagar, "o filho de Agar". A partícula et marca objeto direto definido e não se traduz. Ben é "filho", em estado construto, ligado diretamente ao nome seguinte. Note que o objeto do verbo ver não é Ismael, é "o filho de Agar" — a identificação se faz pela mãe, não pelo nome próprio nem pelo pai.

הַמִּצְרִיתha-Mitsrit, "a egípcia", adjetivo gentílico feminino com artigo, concordando com Agar. Já usado em 16:1 e 16:3. A repetição do epíteto mantém em cena a origem estrangeira da escrava, que voltará a importar em 21:21.

אֲשֶׁר־יָלְדָהasher-yaldah, "que ela deu à luz". Asher é o pronome relativo invariável do hebraico. Yaldah é o verbo yalad no perfeito, terceira pessoa feminina singular — o verbo específico de parir, do qual derivam yeled ("menino") e toledot ("gerações"), palavra que estrutura o livro de Gênesis inteiro.

לְאַבְרָהָםle-Avraham, "para Abraão". A preposição le indica destinatário ou beneficiário. Esta é a palavra juridicamente carregada do versículo: o menino não foi apenas gerado por Agar, foi gerado para Abraão, dentro do arranjo proposto por Sarai em 16:2. É o que faz dele herdeiro em potencial e o que torna a fala do versículo 10 uma questão de direito sucessório.

מְצַחֵקmetsacheq, particípio ativo masculino singular da forma intensiva (piel) da raiz צחק (ts-ch-q). Esta é a palavra decisiva do versículo, e três observações são necessárias.

Primeira: é a mesma raiz de Yitschaq (יִצְחָק), "Isaque", que é literalmente "ele ri" ou "ele rirá". Quem ouvia o versículo em hebraico ouvia o nome do outro menino dentro do verbo.

Segunda: a forma piel transforma o riso em atividade. O campo resultante inclui brincar, divertir-se, fazer troça, entreter e acariciar — sentidos atestados em 19:14, 26:8, 39:14, 39:17 e Êxodo 32:6.

Terceira, e mais importante: o particípio está absoluto. Não há objeto direto, não há preposição, não há complemento de nenhuma espécie. Em 39:14 e 39:17, o sentido hostil vem acompanhado da preposição be; aqui não há preposição alguma. O hebraico, portanto, não informa com quem, contra quem, nem em que consistia a ação.

A posição da palavra na frase

O particípio vem no fim absoluto do versículo, depois de toda a longa identificação do menino. A ordem hebraica é, literalmente: "e viu Sara o filho de Agar a egípcia que deu à luz para Abraão — zombando/brincando".

Essa ordem produz um efeito de suspensão. O leitor atravessa sete palavras de identificação antes de descobrir o que o menino estava fazendo, e o que descobre é uma palavra ambígua. A informação mais importante da frase é a última e a menos determinada.

Gramaticalmente, o particípio funciona como predicativo do objeto: Sara viu o menino em estado de metsacheq. É a construção normal do hebraico para "ver alguém fazendo algo", e não há nada de anômalo nela — a anomalia é só a ausência de complemento.

O que as versões antigas leram

A Septuaginta traduz por paízonta, particípio de paízō, "brincar", e acrescenta metà Isaàk toû huioû autês, "com Isaque, seu filho". A Vulgata segue com ludentem cum Isaac filio suo.

Duas coisas ficam claras nessa comparação. A primeira é que o complemento "com Isaque" é acréscimo em relação ao texto hebraico que temos; se reflete um original mais longo ou uma decisão dos tradutores, não é possível decidir. A segunda, menos notada, é que o verbo escolhido pelos tradutores gregos é o de brincar, não o de zombar — as versões antigas que preencheram a lacuna do "com quem" não leram hostilidade no verbo.

11. Conclusão

Um versículo de dez palavras hebraicas sustenta o julgamento moral de todo o restante do capítulo, e ele foi escrito de modo a não permitir julgamento nenhum.

A frase entrega uma percepção, não um acontecimento. Quem enxerga é Sara; o narrador se recusa a confirmar ou desmentir o que ela enxergou, embora saiba entrar na cabeça dos personagens quando lhe convém, como fez com o riso íntimo dela em 18:12.

A palavra em que tudo trava é metsacheq, particípio intensivo da raiz que forma o nome de Isaque. O que Sara vê, dito ao pé da letra, é o filho de Agar praticando o verbo que dá nome ao filho dela. E o particípio está sem complemento: nenhum objeto, nenhuma preposição, nenhuma indicação de com quem ou contra quem.

As outras ocorrências da forma intensiva puxam para lados opostos — brincadeira em 19:14, carícia conjugal em 26:8, assédio em 39:14, folia de contornos idolátricos em Êxodo 32:6. O léxico, portanto, autoriza tanto a cena inofensiva quanto a cena cruel, e não fornece critério para escolher entre elas.

Três soluções históricas ocuparam esse vazio. A Septuaginta e a Vulgata acrescentaram "com Isaque, seu filho" — palavras ausentes do hebraico — e escolheram o verbo de brincar. Gálatas 4:29 leu perseguição, dentro de um argumento que o próprio Paulo declara alegórico. As traduções portuguesas modernas em geral optaram por "zombando", e assim entregam ao leitor uma decisão já tomada, sem informá-lo de que houve decisão.

Há um dado interno que raramente entra na conta e merece entrar: a resposta de Sara, no versículo seguinte, não fala de agressão. Fala de herança. Quem reage a violência costuma mencionar violência, e ela menciona partilha de bens — o que desloca o centro de gravidade da cena para o direito sucessório, sem provar que não houve agressão.

Some-se a isso o desaparecimento do nome. De 21:9 a 21:21, Ismael nunca é chamado de Ismael: é filho de Agar, filho da escrava, seu filho, o menino. O nome só reaparece em 25:9, quando ele e Isaque enterram o pai juntos.

A conclusão honesta é uma recusa. Não é possível decidir, pelo texto, o que Ismael fazia. O que se pode fazer é devolver ao leitor a ambiguidade que as traduções, por necessidade do ofício, tiveram de eliminar — e ler os versículos seguintes sabendo que a acusação sobre a qual o capítulo se move nunca foi especificada.

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