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Êxodo 8:25

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✍️ Por Alberto Adriano·16 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 35 acessos
Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: “Vão, ofereçam sacrifícios ao seu Deus nesta terra.”
Sala de audiência egípcia com o rei sentado em trono baixo, a mão estendida em gesto de concessão, diante de dois homens de pé em roupas simples.

Estudo


Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: “Vão, ofereçam sacrifícios ao seu Deus nesta terra.”

1. Introdução

Pela segunda vez no capítulo, o rei do Egito manda chamar Moisés e Arão. E, pela primeira vez, oferece alguma coisa antes de lhe pedirem.

A oferta cabe em quatro palavras: vão, ofereçam sacrifícios, nesta terra. As três primeiras concedem; a última cancela.

É importante ver o que a frase faz com o pedido original. Desde Êxodo 5:1 o que se pede é a saída — o deserto, os três dias de caminho. O rei responde autorizando o ato religioso e recusando o lugar: sacrifiquem, mas aqui dentro.

Com isso começa a parte do capítulo que não é mais praga nenhuma. É negociação, e ela terá degraus: este é o primeiro, e o segundo virá em Êxodo 8:28.

Há ainda duas miudezas que valem o registro, e o estudo as trata nos itens próprios. O rei não usa o nome do Deus de quem fala: diz "o seu Deus", como em Êxodo 5:2 dissera não conhecer o SENHOR. E ele não pede súplica nenhuma — o que fizera em Êxodo 8:8 e voltará a fazer em Êxodo 8:28.

O item 2 mostra que a proposta não era absurda: houve, no Egito, culto estrangeiro com templo e altar, e existe documentação dele. E o item 3 mostra onde exatamente a proposta esbarra.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um deus estrangeiro podia ter altar em solo egípcio?

A pergunta importa porque decide se a oferta do rei era razoável ou apenas uma saída retórica. E a resposta é que era razoável: havia culto estrangeiro dentro do Egito, e há um caso documentado com papel, data e nomes próprios.

Na ilha de Elefantina, no extremo sul do país, existiu durante o século V antes de Cristo uma guarnição militar de judeus a serviço do império persa, com família, casas e contratos. Os papiros em aramaico que essa comunidade deixou foram achados no começo do século XX e são hoje uma das melhores fontes sobre a vida judaica fora da Judeia — os contratos de casamento dela já foram mencionados no estudo de Gênesis 24:67, a outro propósito.

O que interessa aqui é outra coisa. Aquela comunidade tinha um templo próprio, com altar, dedicado ao seu Deus, e nele se ofereciam oferendas de cereal, incenso e animais queimados. Um templo estrangeiro funcionando em solo egípcio, portanto, não é hipótese: é fato documentado. Registre-se a distância que separa os dois casos — o Êxodo situa a sua cena séculos antes, e o material de Elefantina não serve para reconstruir o que se fazia naquela época. Serve para mostrar que a coisa era possível no Egito.

E é a história desse templo que mostra onde ficava o atrito

Em 410 antes de Cristo o templo foi demolido. A comunidade escreveu contando o episódio e pedindo autorização para reconstruí-lo, e a carta sobreviveu: ela acusa o governador local e atribui a iniciativa aos sacerdotes do deus Khnum, cujo santuário ficava ao lado — o mesmo deus que o estudo de Êxodo 7:1 apresentou noutro papel, o de oleiro que modela os corpos.

A resposta veio anos depois, e é ela que vale ler devagar. A autorização para reconstruir foi concedida — mas só para a oferta de cereal e o incenso. O sacrifício de animais queimados ficou de fora, e ficou de fora sem explicação escrita.

As leituras se dividem, e é honesto apresentá-las como leituras. Para uns, a restrição atende à sensibilidade egípcia local, num lugar onde o carneiro era animal sagrado. Para outros, ela atende a uma exigência vinda de Jerusalém, que reservava a si o sacrifício de animais. Não há consenso, e os documentos não decidem.

O que se pode afirmar é o contorno do problema, e ele é exatamente o do versículo seguinte: no Egito, o que atritava não era o deus estrangeiro — era o animal degolado. Cereal e incenso passavam; sangue, não. A razão que Moisés dará em Êxodo 8:26 tem tratamento próprio ali.

O que o rei estava e o que não estava concedendo

Vale medir a oferta com o vocabulário do próprio pedido. Desde Êxodo 5:1 o que se reclama é saída — festa no deserto, três dias de caminho. O rei concede um ato de culto dentro do território, isto é, sob a jurisdição dele.

Isso não é detalhe religioso: é detalhe de Estado. Sair do Egito significava atravessar uma fronteira vigiada, assunto tratado no estudo de Gênesis 42:9. Culto dentro do país permanece sob controle administrativo; culto a três dias de distância, não.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então Faraó chamou Moisés e Arão"

É a segunda vez no capítulo, e o padrão que as duas formam vale o registro.

Ele chamou depois das rãs, em Êxodo 8:8. Chama agora, depois dos enxames. E não chamou depois dos piolhos: naquela praga, a de Êxodo 8:16-19, quem falou com ele foram os próprios técnicos, e o versículo seguinte registra apenas que ele não os ouviu.

Qual a diferença entre as pragas em que ele chama e aquela em que não chama? O texto não diz, e convém não inventar. O que se verifica é que as duas em que ele chama são as que entraram na casa dele — as rãs em Êxodo 8:3 e os enxames em Êxodo 8:24 — e que a dos piolhos atingiu "os homens e os animais", sem que o palácio fosse nomeado. É observação, não explicação.

Repare também em quem é chamado. Arão vem junto, como em Êxodo 8:8. É a última vez no capítulo que os dois são chamados; a partir do versículo seguinte, quem responde e quem sai é só Moisés.

"Vão, ofereçam sacrifícios ao seu Deus"

Três observações, e a terceira é a que mais pesa.

A primeira é o verbo que ele usa. O rei diz "vão". Não diz "eu deixo ir", que é o verbo da exigência desde Êxodo 5:1 e o verbo que ele mesmo usara na promessa de Êxodo 8:8. A diferença não é de estilo: "deixar ir" é o termo de quem solta alguém que estava preso a si, e "ir" é apenas um movimento autorizado. Ele concede o deslocamento sem tocar na condição de quem se desloca.

A segunda é a ausência de qualquer detalhe. Não se diz quem vai, não se diz por quanto tempo, não se diz se voltam, não se fala em rebanho. Uma autorização sem nenhuma dessas informações é uma autorização que não compromete quem a dá.

A terceira é o nome que ele não usa. Diz "o seu Deus" — a divindade dos outros, identificada pelos donos. Não diz o nome.

E aqui é preciso cuidado, porque a coisa não é uma linha reta. Confira as quatro falas do rei sobre o assunto: em Êxodo 5:2 ele diz "não conheço o SENHOR", recusando o nome depois de pronunciá-lo; em Êxodo 8:8 usa o nome duas vezes, sem nenhum termo genérico; aqui usa o termo genérico com possessivo e não usa o nome; e em Êxodo 8:28 usará os dois juntos, "ao SENHOR, o seu Deus".

Ou seja: não se trata de um reconhecimento que cresce a cada praga. O nome entra e sai. O que se pode afirmar é que, nesta fala, ele está ausente — e que é a única das quatro em que isso acontece. O que a variação significa não é possível decidir, e o Êxodo não comenta nenhuma delas.

"nesta terra"

Duas palavras, e elas desfazem tudo o que veio antes na frase.

Ponha lado a lado o que se pedia e o que se concede. Pedia-se, desde Êxodo 5:1, festa no deserto; e, desde Êxodo 5:3, três dias de caminho. O rei concede o sacrifício e recusa o lugar.

É a estrutura clássica de uma contraproposta que parece grande e é pequena: concede-se o objeto e retém-se a condição que o tornava possível. Se o motivo da saída for religioso — e o versículo seguinte dirá que é —, então sacrificar dentro do Egito não é uma versão reduzida do pedido: é a impossibilidade dele.

Convém marcar que o rei não tinha como saber disso. Nada, até este ponto do livro, lhe explicara por que o lugar importava. Ele ouviu "no deserto" três vezes e tratou a palavra como detalhe negociável — o que, do ponto de vista dele, era leitura razoável.

O que falta nesta fala

Uma ausência merece destaque, porque separa esta cena da anterior: o rei não pede súplica.

Em Êxodo 8:8 a estrutura fora esta: supliquem, tirem as rãs, e eu deixo o povo ir. Havia uma troca, e havia uma condição. Aqui não há nem uma coisa nem outra. Ele abre com a concessão e encerra sem pedir nada.

O pedido de súplica volta em Êxodo 8:28, no fim da segunda proposta. Entre as duas está a resposta de Moisés — o que permite ler esta fala como um primeiro lance, feito antes de saber que haveria objeção. Mas é leitura; o texto não descreve intenção nenhuma.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

Volta à cena depois de quatro versículos calado. Desde Êxodo 8:19, quando ouviu os próprios técnicos e não mudou de posição, ele não falava.

Aqui ele é quem toma a iniciativa: chama, fala primeiro e faz uma proposta. É a única vez no capítulo em que isso acontece sem que a praga esteja em curso há muito tempo ou sem que alguém lhe tenha dirigido a palavra antes.

Moisés e Arão

São chamados juntos, como em Êxodo 8:8. Não respondem neste versículo.

Vale antecipar um dado que o bloco inteiro confirma: esta é a última vez em que os dois aparecem juntos no capítulo. Quem responde em Êxodo 8:26-27 é Moisés sozinho; quem sai e suplica em Êxodo 8:30 é Moisés sozinho. Arão desaparece da cena sem que o texto registre a saída.

O lugar

A cena se passa onde o rei está, e o texto não diz onde é. Não há a indicação de Êxodo 8:20, que situava o encontro anterior junto às águas, de manhã. Aqui é o rei que convoca, e a convocação supõe o lugar dele.

"Nesta terra"

A expressão designa o Egito, e é dita de dentro dele. A palavra hebraica traduzida por "terra" é a mesma que o versículo anterior usara para dizer que o país fora arruinado — e a mesma que percorre o capítulo na fórmula "toda a terra do Egito".

O evento

É a primeira proposta do rei, e o primeiro degrau de uma escada. A segunda virá em Êxodo 8:28, e a diferença entre as duas é justamente o lugar: primeiro "nesta terra", depois "no deserto, mas não longe".

O capítulo termina antes que haja uma terceira. O que vem depois de Êxodo 8:32 não pertence a este estudo.

5. Pontos de Ensino

Conceder o ato e reter a condição é recusar

A fala do rei autoriza o sacrifício e nega o lugar. Como o lugar era a razão de todo o pedido, a autorização vale zero — e ainda assim soa generosa quando lida depressa.

É o tipo de resposta que só se avalia comparando com o que fora pedido. Quem não guardou o pedido original acha que houve avanço.

O vocabulário denuncia o tamanho da concessão

O rei diz "vão", e não "eu deixo ir". A exigência, desde Êxodo 5:1, usava o segundo verbo — o de soltar quem está preso a alguém. Trocá-lo pelo primeiro autoriza um passeio e mantém a propriedade.

Vale o hábito: numa negociação, o verbo que a outra parte escolhe informa mais do que o adjetivo com que ela o enfeita.

A pressão produz oferta, não mudança

Esta é a segunda vez que o rei fala depois de uma praga que entrou na casa dele. Nas duas, a fala é de negociação. Registre-se como padrão do relato, sem atribuir estado de espírito a ninguém: o Êxodo não descreve o que o rei sentiu, e não cabe ao leitor preencher.

O nome importa, e o texto mantém a conta

De "não conheço o SENHOR", em Êxodo 5:2, ao nome usado duas vezes em Êxodo 8:8, a "o seu Deus" aqui, e a "o SENHOR, o seu Deus" em Êxodo 8:28. Não é uma linha reta, e é exatamente por isso que vale conferir em vez de supor.

O que a variação significa é outra questão — e o Êxodo não a responde.

O que é possível não é o mesmo que o que é aceitável

A proposta do rei era factível: culto estrangeiro dentro do Egito existiu, como mostra o item 2. Não foi por impossibilidade material que ela foi recusada — e é por isso que a resposta do versículo seguinte precisa dar uma razão.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta uma questão simples de enunciar e difícil de resolver: quando uma exigência tem partes, quais delas são o essencial e quais são o acessório?

O pedido feito ao rei tinha três elementos — um povo, um ato de culto e um lugar. Ele concede dois e retém um, e é razoável supor que tenha achado estar concedendo quase tudo. Do outro lado, a resposta de Êxodo 8:26-27 tratará o lugar como inseparável do resto.

Repare que nenhum dos dois está sendo desonesto ao decompor o pedido. Toda negociação decompõe: é assim que se avança. O problema aparece quando uma das partes é constitutiva — quando retirá-la não reduz a coisa, e sim a suprime.

E há um agravante que o texto deixa ver. Quem decide o que é acessório, aqui, é quem não pratica o culto. O rei não tem como saber que o lugar é indispensável, porque ninguém lhe explicou — a explicação só virá no versículo seguinte, e virá como argumento de segurança, não de doutrina.

Não há no versículo nenhuma avaliação do caso. O Êxodo registra a proposta, e a recusa vem na fala seguinte. Quem quiser enxergar aqui manobra deliberada estará acrescentando ao texto; e quem quiser enxergar boa-fé, também.

7. Aplicações Práticas

Guarde o pedido original por escrito

A oferta deste versículo só se mede ao lado do que fora pedido em Êxodo 5:1 e 5:3. Isolada, ela parece um avanço; comparada, ela é a recusa do ponto que importava.

A aplicação é prática e vale para qualquer acordo: quem não guarda o pedido inicial acaba negociando contra uma versão reduzida dele, oferecida pela outra parte. E o mais difícil não é notar a recusa — é notar a concessão que vem embrulhada em concordância.

Repare no verbo, não no tom

O rei não disse "não". Disse "vão", e mudou o verbo da exigência. É assim que costuma soar a negativa que não quer se apresentar como negativa: cordial no tom, alterada no termo.

Vale o hábito de conferir se o outro lado usou a mesma palavra que você usou. Quando ele troca a palavra, trocou a coisa.

Um limite honesto

Este versículo não traz conselho sobre conduta, não descreve virtude nem falta, e não pede imitação de ninguém. É a fala de um rei numa negociação, e o Êxodo a registra sem julgar.

Quem procurar aqui lição sobre firmeza, sobre fidelidade ou sobre resistir a pressões estará trazendo de fora. A firmeza aparece na resposta, em Êxodo 8:26-27, e é lá que este comentário a examina.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o rei não pede súplica desta vez?

O Êxodo não explica. Em Êxodo 8:8 ele pedira, e pedirá de novo em Êxodo 8:28. Aqui abre com a concessão e não pede nada.

Uma leitura possível é que a fala seja um primeiro lance, dito antes de haver objeção; o pedido de súplica viria depois, quando a conversa tivesse avançado. Outra é que a praga dos enxames o incomodasse menos do que as rãs, que lhe subiam ao corpo segundo Êxodo 8:4. Nenhuma das duas está no texto, e não é possível decidir.

Ele estava agindo de má-fé?

Essa é a pergunta que o leitor traz pronta, e o versículo não a responde — nem aqui nem em lugar nenhum. O Êxodo não descreve intenção de Faraó em momento algum deste capítulo: descreve falas e atos.

Vale notar que a acusação existe, mas só aparece adiante e na boca de Moisés, em Êxodo 8:29, e que ela se refere ao que o rei fizera antes, não a esta proposta. Tratar esta fala como armadilha é antecipar uma avaliação que o texto só formula depois.

Um sacrifício dentro do Egito era mesmo impossível?

Materialmente, não: o item 2 mostra que houve templo estrangeiro com altar em solo egípcio, com documentação. O problema alegado no versículo seguinte é outro — é o que os egípcios fariam ao ver o animal ser degolado.

Convém separar as duas coisas. Uma é a possibilidade jurídica e administrativa, que existia. Outra é a reação de quem assiste, que é o que Moisés invoca.

Por que chamar Arão se quem responde é Moisés?

O rei chama os dois, como fizera em Êxodo 8:8. Quem responde, a partir do versículo seguinte, é Moisés sozinho — e é Moisés sozinho que sai em Êxodo 8:30.

O Êxodo não comenta a mudança. O que se pode registrar é que ela é consistente dentro do bloco: Arão é convocado e não fala mais.

9. Conexão com Outros Textos

A primeira vez em que ele chamou

Êxodo 8:8 — "Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: 'Supliquem ao SENHOR que tire as rãs de mim e do meu povo, e eu deixarei o povo ir, para que ofereça sacrifícios ao SENHOR.'"

Compare as duas convocações. Lá o rei pede primeiro e promete depois, com uma condição explícita — e usa o verbo da exigência, "deixarei o povo ir". Aqui ele concede primeiro, não pede nada e troca o verbo por "vão".

O que estava sendo pedido desde o início

Êxodo 5:1 — "Depois disso, Moisés e Arão foram a Faraó e disseram: 'Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: Deixe o meu povo ir, para que me celebre uma festa no deserto.'"

Êxodo 5:3 — "Eles disseram: 'O Deus dos hebreus veio ao nosso encontro. Deixe-nos ir três dias de caminho pelo deserto, para sacrificarmos ao SENHOR, o nosso Deus, para que ele não nos fira com peste ou com espada.'"

As duas trazem o lugar, e o lugar é o que esta proposta retira. A discussão sobre o que os três dias significam pertence aos estudos de Êxodo 3:18 e 5:3.

A pergunta que a fala responde sem querer

Êxodo 5:2 — "Mas Faraó respondeu: 'Quem é o SENHOR, para que eu ouça a sua voz e deixe Israel ir? Não conheço o SENHOR, e tampouco deixarei Israel ir.'"

Entre aquela frase e esta há três pragas. O rei continua sem dizer o nome — fala de "o seu Deus" —, mas já não diz que não o conhece: propõe um arranjo para o culto dele.

O degrau seguinte da mesma escada

Êxodo 8:28 — "Faraó disse: 'Eu deixarei vocês irem, para que ofereçam sacrifícios ao SENHOR, o seu Deus, no deserto; somente não vão longe demais. Supliquem por mim.'"

Ponha as duas propostas lado a lado e veja o que mudou em três versículos: entra o nome do SENHOR, entra o deserto, entra o verbo "deixarei ir" — e entra, no fim, uma condição nova e um pedido pessoal.

O motivo da recusa, que vem a seguir

Êxodo 8:26 — "Mas Moisés disse: 'Não é certo fazer assim, porque o que sacrificamos ao SENHOR, o nosso Deus, é abominação para os egípcios. Se sacrificarmos diante dos olhos deles o que lhes é abominação, não nos apedrejarão?'"

É a resposta direta a esta proposta, e a razão que ela alega é de segurança, não de doutrina. O estudo daquele versículo examina o argumento.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então Faraó chamou Moisés e Arão e disse: “Vão, ofereçam sacrifícios ao seu Deus nesta terra.”

Texto hebraico

וַיִּקְרָא פַרְעֹה אֶל־מֹשֶׁה וּלְאַהֲרֹן וַיֹּאמֶר לְכוּ זִבְחוּ לֵאלֹהֵיכֶם בָּאָרֶץ׃

Transliteração

wa-yiqra Far'oh el-Mosheh u-le-Aharon wa-yomer: lekhu zivchu l-Eloheikhem ba-arets.

Análise palavra por palavra

וַיִּקְרָא — wa-yiqra, "e chamou".

Verbo qara, na forma que encadeia a narrativa. A raiz cobre chamar, convocar, proclamar e dar nome. Com a preposição que vem a seguir, o sentido é o de mandar vir à presença — convocar alguém, e não simplesmente gritar por ele.

Há uma miudeza notável na construção, e ela vale ser dita porque é do tipo que nenhuma tradução mostra. Os dois nomes não trazem a mesma preposição. Moisés vem com el, "a, em direção a"; Arão vem com le, também "a", mas de outra família. Em Êxodo 8:8, na primeira convocação, os dois vinham com le.

As duas preposições se aproximam muito no hebraico tardio e se substituem com frequência, de modo que o mais provável é que não haja diferença de sentido. Várias edições e traduções antigas uniformizam. Registre-se como curiosidade de texto, sem construir nada sobre ela: é discutido, e não é possível decidir.

לְכוּ — lekhu, "vão".

Imperativo plural do verbo halakh, ir, andar, caminhar. É o verbo mais comum da língua para deslocamento, sem nenhuma carga jurídica.

E é justamente aí que está o ponto. Não é o verbo da exigência. O que se reclama desde Êxodo 5:1 é shalach na forma intensiva — "deixe ir", "solte" —, termo que serve, no hebraico bíblico, para a libertação de quem estava preso a outro, inclusive no sentido legal. O próprio rei o empregara na promessa de Êxodo 8:8 e voltará a empregá-lo em Êxodo 8:28.

Aqui ele usa o verbo neutro. Autoriza o movimento e não toca na condição de quem se move.

זִבְחוּ — zivchu, "ofereçam sacrifícios".

Imperativo plural de zavach. A raiz designa o abate ritual de animal — não a oração, não a oferta de cereal, não a queima de incenso. Dela vem zevach, o animal sacrificado, e mizbeach, o altar, que é literalmente "o lugar do abate".

A diferença entre este verbo e o da festa, que aparecia em Êxodo 5:1, está tratada no estudo de Êxodo 5:1. O que interessa aqui é a consequência: o rei está autorizando, sem saber, exatamente aquilo que o versículo seguinte apontará como impraticável diante de egípcios. O problema não é o culto — é o sangue.

לֵאלֹהֵיכֶם — l-Eloheikhem, "ao seu Deus", literalmente "ao Deus de vocês".

Preposição le com Elohim e o sufixo possessivo de segunda pessoa do plural.

Vale acompanhar a expressão nas falas do rei, porque ela varia e não varia em linha reta. Em Êxodo 5:2 ele dissera "não conheço o SENHOR"; em Êxodo 8:8 usara o nome duas vezes, sem termo genérico; aqui usa o termo genérico com possessivo e sem o nome; e em Êxodo 8:28 dirá la-YHWH Eloheikhem, "ao SENHOR, o seu Deus", com os dois juntos. Esta é a única das quatro em que o nome não aparece.

Do lado de Moisés a fórmula é outra e é constante: "o SENHOR, o nosso Deus", em Êxodo 8:26 e 8:27. Os dois lados usam o possessivo, cada um o seu, e o texto não comenta.

בָּאָרֶץ — ba-arets, "na terra", "nesta terra".

Preposição be, "em", com erets e artigo definido. Erets é terra no sentido de território, país — a mesma palavra que o versículo anterior usou duas vezes, na fórmula "toda a terra do Egito" e na frase "a terra foi arruinada".

Com o artigo e sem nenhum nome próprio, a expressão significa "no país", "aqui dentro". A ABC traduz por "nesta terra" para guardar o sentido de quem fala de dentro do território e opõe esse território a outro.

São as duas últimas palavras da fala, e é nelas que está a recusa. O hebraico as põe no fim, que é a posição de destaque da frase — e a ordem das palavras, aqui, faz o mesmo trabalho que em português faria um "mas".

11. Conclusão

Três conclusões saem deste versículo, e todas cabem no que ele diz.

A negociação começou, e começou pelo lugar. Das três partes do pedido — um povo, um ato, um lugar —, o rei concede as duas primeiras e retém a terceira. A escada de concessões do capítulo é uma escada de distância: aqui, "nesta terra"; em Êxodo 8:28, "no deserto, mas não longe".

O tamanho de uma concessão se mede pelo verbo, não pelo tom. "Vão" não é "deixo ir", e a troca é do próprio rei, que usara o segundo verbo antes e voltará a usá-lo depois. Quem lê a fala pelo que ela concede acha que houve avanço; quem a lê pelo termo que ela escolhe vê que a condição do povo ficou intocada.

E a proposta não era absurda. Culto estrangeiro em solo egípcio existiu, com templo, altar e documentos. Por isso a recusa que vem a seguir precisa de uma razão — e a razão que Moisés dará não será teológica, e sim de segurança: o que os egípcios fariam ao ver aquilo. O estudo de Êxodo 8:26 trata do argumento e dos seus limites.

Resta o que o versículo não permite: afirmar o que o rei queria. O Êxodo registra a fala e cala sobre a intenção, aqui como em todo o capítulo. A única avaliação de conduta virá adiante, em Êxodo 8:29, dita por Moisés e a respeito do que já havia acontecido.

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