Mas Faraó tornou pesado o seu coração também desta vez, e não deixou o povo ir.
1. Introdução
O capítulo termina em treze palavras, e não há nada depois delas.
Não há praga anunciada, não há ordem nova a Moisés, não há palavra de Deus, não há reação de ninguém. O relato para na recusa.
Três coisas neste versículo merecem o exame que os itens seguintes fazem.
A primeira é a expressão "também desta vez". Ela é o achado do versículo: não descreve um fato novo, descreve uma repetição — e é a única vez, em toda a série, que o texto se dá ao trabalho de contar.
A segunda é o que sumiu. As duas recusas anteriores do capítulo, em Êxodo 8:15 e 8:19, terminavam com a mesma fórmula: "e não os ouviu, como o SENHOR havia dito". Aqui essa fórmula não aparece — nem a primeira metade, nem a segunda.
A terceira é o verbo do fecho. "Não deixou o povo ir" usa exatamente o termo da exigência com que o capítulo se abriu, em Êxodo 8:1 — e o mesmo que o rei empregara na promessa de Êxodo 8:28, agora negado.
Quanto ao "tornou pesado o seu coração": o sistema dos verbos que o português achata em "endurecer" é assunto do estudo de Êxodo 4:21, e a causa da primeira recaída, do de Êxodo 8:15. Este versículo não reabre nenhum dos dois — o que ele tem é a contagem.
2. Contexto Histórico e Cultural
"Se eu voltar a fazer isto": a cláusula de reincidência nos documentos antigos
Este versículo registra uma reincidência, e não registra consequência nenhuma. Para medir o que isso significa, convém saber como o mundo daquela época tratava a palavra que se repete e não se cumpre.
A resposta é que havia um instrumento, e ele era simples: pendurava-se uma penalidade na repetição.
Os registros de tribunal do Egito conservam esse mecanismo em forma fixa. Quem prometia alguma coisa diante de uma comissão de julgamento prestava um juramento, e o juramento tinha duas partes: primeiro a invocação — pela vida do deus e pela vida do soberano, fórmula cujo funcionamento foi tratado no estudo de Gênesis 42:15 — e depois a cláusula do "se eu voltar", com a pena que o próprio declarante aceitava sofrer: tantos golpes de vara, a perda do bem em disputa, o trabalho forçado. A aldeia de artesãos de onde vem a maior parte desses documentos tem tratamento próprio nos estudos de Gênesis 39:18 e Êxodo 1:18; o que interessa aqui é a forma do compromisso.
Repare no que essa forma resolve. Sem a cláusula, quem descumpre apenas descumpre, e a outra parte fica com uma queixa. Com a cláusula, a repetição aciona sozinha uma consequência que já estava combinada — e quem prometeu não precisa ser convencido de nada.
O mesmo princípio aparece, de outro jeito, no direito mesopotâmico: a primeira falta podia ser perdoada, a segunda não. A passagem clássica que enuncia isso foi examinada no estudo de Gênesis 48:5, a propósito de outro assunto, e não se refaz aqui.
E é exatamente isso que falta na negociação deste capítulo
Confira o que houve, item por item.
O rei prometeu, em Êxodo 8:28. Não jurou. Não invocou deus nenhum, não pôs pena sobre si, e não havia testemunha nomeada nem documento — questão tratada no estudo de Êxodo 8:29.
Moisés advertiu, no mesmo lugar: "não volte a agir com engano". A frase nomeia a repetição e não lhe prende nenhuma consequência. Não diz o que acontecerá, não fixa prazo, não ameaça.
E este versículo registra a repetição. Sem penalidade, sem cobrança, sem sequer a menção de que houve uma advertência três versículos antes.
O capítulo mostra, portanto, o que vale uma promessa sem cláusula: vale o que quem a fez quiser que valha. Não é uma crítica ao texto nem ao personagem — é a descrição de um acordo entre partes de força muito desigual, em que a mais fraca não tinha como impor instrumento nenhum.
Registre-se a ressalva de método, e ela é séria. Os documentos citados são de tribunais e de contratos entre particulares, e esta cena é uma negociação com um soberano, onde não há juiz nem comissão. A comparação não diz o que devia ter sido feito ali; diz o que existia no mundo e não foi usado, e é só isso.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas Faraó tornou pesado o seu coração"
Duas notas breves, porque o fundo desta expressão não é deste versículo.
O hebraico tem três verbos diferentes para o que acontece com o coração do rei ao longo do livro, e o português os achata todos em "endurecer". Qual é cada um, o que cada raiz carrega e como os sujeitos variam — ora Deus, ora Faraó, ora ninguém — é assunto do estudo de Êxodo 4:21, e não se reabre aqui.
O que pertence a este versículo é apenas a identificação: o verbo é o do peso, e o sujeito é o próprio rei. É a mesma construção de Êxodo 8:15, e diferente da de Êxodo 8:19, onde o coração "ficou firme" sem que se diga por obra de quem.
Acrescente-se uma coincidência dentro do capítulo, sem tirar dela mais do que ela dá: é a mesma raiz que qualifica os enxames em Êxodo 8:24, ali traduzida por "pesados". O estudo daquele versículo mede o alcance disso e marca o limite — a palavra é das mais comuns da língua, e nem toda repetição de raiz é trocadilho.
"também desta vez"
Aqui está o versículo inteiro.
A expressão não acrescenta fato nenhum. Se ela fosse apagada, a frase continuaria dizendo exatamente a mesma coisa: o rei tornou pesado o coração e não deixou o povo ir. O que ela acrescenta é a contagem.
E a contagem é o que faz a diferença. Sem ela, este seria o registro de uma recusa. Com ela, é o registro de mais uma — e o leitor é obrigado a olhar para trás, para Êxodo 8:15 e 8:19, e a ver as três juntas.
Vale marcar o quanto isso é excepcional. As recusas anteriores do livro — em Êxodo 7:13, 7:22, 8:15 e 8:19 — são registradas uma a uma, cada uma no seu lugar, sem que o texto as some. Esta é a primeira vez que o Êxodo conta.
E convém enunciar o que a contagem não faz. Ela não explica, não julga, não antecipa. Não diz que o rei estava sendo obstinado, não diz que a paciência acabou, não anuncia que haverá consequência. Apenas informa que já aconteceu antes — e é nisso que o versículo difere de tudo o que veio antes dele.
O que desapareceu do fim da frase
Este é o achado que mais escapa, e ele é de ausência.
Ponha as três recusas do capítulo lado a lado, pelo fecho de cada uma:
Em Êxodo 8:15: "…tornou pesado o seu coração e não os ouviu, como o SENHOR havia dito."
Em Êxodo 8:19: "…o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito."
Aqui: "…tornou pesado o seu coração também desta vez, e não deixou o povo ir."
Duas coisas somem de uma vez. Some o "não os ouviu", que fazia da recusa uma resposta a Moisés e Arão. E some o "como o SENHOR havia dito", que era a moldura do episódio inteiro — a fórmula que ligava cada recusa ao que fora anunciado em Êxodo 4:21 e 7:3-4.
Essa fórmula aparece quatro vezes até aqui: em Êxodo 7:13, 7:22, 8:15 e 8:19. Na quinta recusa, ela não vem.
O Êxodo não comenta a supressão, e é preciso ser honesto sobre o que se pode concluir dela. Pode ser variação de estilo, e textos antigos variam fórmulas sem intenção. Pode ser que a moldura já tenha sido dita o bastante e o relato a dispense. E pode ser deliberado — o fecho que retira a explicação e deixa o leitor sem apoio.
Não é possível decidir. O que se verifica é o dado, e ele é verificável em cinco versículos.
"e não deixou o povo ir"
O capítulo fecha com o verbo com que abriu.
Em Êxodo 8:1 a ordem era "deixe o meu povo ir, para que me sirva". Aqui: "não deixou o povo ir". É o mesmo verbo, o mesmo objeto, e a negação. Trinta e um versículos depois, a frase de abertura volta desfeita.
E há um segundo eco, mais próximo. Em Êxodo 8:28 o rei dissera, com esse verbo e com ênfase, "eu deixarei vocês irem". A promessa e o desmentido usam a mesma palavra, com quatro versículos de distância.
Repare ainda numa troca pequena e significativa. O rei havia dito "vocês"; o fecho diz "o povo" — a palavra da exigência original, e a mesma que Moisés usara na advertência de Êxodo 8:29. Seja qual for o alcance que se dê ao "vocês" do rei, o texto encerra o assunto com o termo maior.
E então o capítulo acaba
Vale parar nisto, porque é o traço mais forte do versículo e o mais fácil de não notar.
Nada fica pendente e nada é anunciado. Não há praga prometida, não há prazo, não há ordem a Moisés, não há palavra de Deus sobre o que vem a seguir, não há sequer um comentário. O capítulo anterior fechara com uma nota de tempo — sete dias se passaram, em Êxodo 7:25. Este fecha na recusa e para.
O efeito é de um assunto encerrado sem solução: três pragas, quatro conversas, duas propostas, uma acusação — e, ao fim, o povo exatamente onde estava no primeiro versículo.
Convém não preencher esse silêncio com o que vem depois. O leitor deste capítulo não sabe o que virá, e o texto não lhe adianta nada. Ler o fecho já sabendo o desfecho do livro é ler outra coisa.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Faraó
É o único personagem do versículo, e é o sujeito dos dois verbos: torna pesado o coração e não deixa o povo ir.
Repare que ele não fala. A última palavra dele no capítulo é a de Êxodo 8:28, e desde então ele apenas age. É a única das três recusas do capítulo em que ele é o sujeito explícito de tudo — em Êxodo 8:19 o coração "ficou firme", sem agente nomeado.
E não há reação registrada de ninguém a esta recusa. Ninguém protesta, ninguém volta à sala, ninguém comenta.
Moisés e Arão
Não aparecem. Nem como sujeitos, nem como objeto — e é aí que está a ausência mais notável do versículo.
Nas duas recusas anteriores, em Êxodo 8:15 e 8:19, o texto dizia que o rei "não os ouviu": havia alguém sendo recusado. Aqui o objeto é outro — o povo — e os dois homens somem da frase.
O povo
Aparece como objeto do verbo negado, e é a palavra com que o capítulo se fechou e se abrira. O grupo inteiro está exatamente onde estava em Êxodo 8:1.
Note-se que é "o povo", com artigo, e não "vocês", como o rei dissera em Êxodo 8:28.
O evento
É a terceira recusa do capítulo e a quinta do livro, contando as de Êxodo 7:13, 7:22, 8:15 e 8:19.
E é o fim do episódio dos enxames, que começara em Êxodo 8:20 com a ordem de Deus a Moisés. Entre um ponto e outro houve o anúncio, a separação de Gósen, a praga, duas propostas do rei, uma contraproposta, uma súplica atendida por inteiro — e nada mudou.
O que não aparece
Convém listar, porque a lista é longa para um fim de capítulo: não há praga anunciada, não há prazo, não há ordem nova, não há fala de Deus, não há nota de tempo como a de Êxodo 7:25, e não há a fórmula "como o SENHOR havia dito", que fechara as quatro recusas anteriores.
5. Pontos de Ensino
O que o texto registra é o padrão, não o motivo
"Também desta vez" informa que já houve outras. Não informa por quê, não avalia e não anuncia consequência.
É a diferença entre observar e explicar, e ela vale como disciplina de leitura: o Êxodo, neste versículo, faz a primeira coisa e recusa a segunda. Quem quiser a explicação que o capítulo oferece tem de ir a Êxodo 8:15, que é o dono dela.
A promessa sem cláusula vale o que quem a fez quiser
Houve promessa em Êxodo 8:28 e advertência em Êxodo 8:29. Nenhuma das duas trazia penalidade, prazo ou garantia, e o item 2 mostra que o mundo daquela época tinha o instrumento e ele não foi usado.
Este versículo é o resultado disso, e o resultado é silencioso: a reincidência acontece e nada se segue.
Um alívio completo não muda uma decisão
O versículo anterior registra que não ficou um inseto sequer. Este registra a mesma recusa de antes. As duas frases estão coladas, sem nada entre elas.
Quem supõe que o problema de uma recusa esteja na medida do que foi oferecido encontra aqui o contraexemplo mais limpo do capítulo.
O capítulo fecha com o verbo com que abriu
"Deixe o meu povo ir", em Êxodo 8:1; "não deixou o povo ir", aqui. Trinta e um versículos, três pragas, quatro conversas — e a frase inicial volta desfeita.
Vale a observação de leitura: o que mede o avanço de um trecho não é o número de acontecimentos, e sim a distância entre a primeira frase e a última.
Um fim sem desfecho é um dado, não uma falha
Não há praga anunciada, prazo nem promessa. O leitor que chega ao fim deste capítulo não sabe o que virá, e o texto não lhe adianta nada.
Ler esse fecho já sabendo o desenlace do livro é perder exatamente o que ele produz.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo levanta um problema de leitura antes de levantar qualquer outro: o que se pode concluir de uma repetição?
Acontecimentos que se repetem pedem explicação, e a mente a fornece com facilidade. Três recusas seguidas parecem revelar alguma coisa sobre quem recusa — um traço, uma disposição, um caráter. É assim que este capítulo costuma ser resumido.
Repare, porém, no que o texto faz. Ele conta — "também desta vez" — e não conclui. Não atribui traço nenhum ao rei, não descreve o interior dele, não usa adjetivo. A frase informa que já houve outras e para.
Há uma razão para levar esse silêncio a sério, e ela não é devocional. Uma repetição admite mais de uma descrição, e as descrições não são equivalentes. Pode ser a mesma decisão tomada três vezes pelo mesmo motivo. Podem ser três decisões diferentes com motivos diferentes, que por acaso deram no mesmo resultado. E pode ser uma posição que nunca chegou a ser reconsiderada, o que não é o mesmo que ter sido mantida.
O relato não permite escolher entre as três, porque não fornece o material para isso. E não é distração: o Êxodo não descreve o interior de Faraó em nenhum momento deste capítulo, nem quando ele promete, nem quando pede, nem quando recusa.
Daí a única coisa que este item afirma. O padrão existe e é verificável — está em Êxodo 8:15, 8:19 e aqui. O que ele revela sobre o personagem é leitura do comentarista, e quem a fizer deve dizer que está fazendo. É discutido, e o texto não decide.
7. Aplicações Práticas
Conte as vezes
A única coisa que este versículo acrescenta é a contagem, e é justamente ela que muda a leitura de tudo o que veio antes. Um caso é um caso; três casos são um padrão.
A aplicação é prática e é das mais úteis: quem não anota as vezes avalia cada episódio isoladamente — e, avaliando isoladamente, cada um deles parece ter explicação própria. A informação nova não está em nenhum dos episódios; está na soma.
Repare, porém, no limite que o próprio texto impõe: contar não é concluir. O Êxodo registra a repetição e não diz o que ela revela.
Prenda uma consequência à repetição, ou não prenda nada
A advertência de Êxodo 8:29 nomeou o que não devia voltar a acontecer e parou aí. O item 2 mostra que, naquele mundo, um compromisso se tornava exigível quando a repetição acionava sozinha uma penalidade combinada de antemão.
Sem isso, o que resta é a queixa. Vale para qualquer acordo em que uma das partes já descumpriu uma vez: a advertência que não traz consequência é informação, não garantia — e é honesto tratá-la como o que é.
Não confunda o resultado com o valor do que foi feito
A súplica foi feita, foi atendida por inteiro e no prazo prometido. E a recusa veio igual.
Quem mede o próprio trabalho pela resposta do outro conclui, deste capítulo, que nada valeu. O texto não diz isso — apenas põe as duas coisas em versículos vizinhos e não as comenta.
Um limite honesto
Este versículo não convida a julgar ninguém, e não fornece material para isso. Não descreve estado de espírito, não atribui traço de caráter e não explica.
Quem o usar para falar de corações endurecidos, de oportunidades perdidas ou do limite da paciência estará trazendo de fora um conteúdo que a frase não tem — e o fim do capítulo, que não anuncia nada, é o argumento mais forte contra esse tipo de leitura.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que o versículo não traz "como o SENHOR havia dito"?
O Êxodo não explica, e a ausência é verificável: a fórmula fecha as quatro recusas anteriores — em Êxodo 7:13, 7:22, 8:15 e 8:19 — e não aparece nesta.
Três leituras cabem. Pode ser variação de estilo, coisa comum em textos antigos. Pode ser que a moldura já tenha sido dita o bastante e o relato a dispense. E pode ser deliberado, deixando o fecho sem a explicação que as outras recusas traziam. Não é possível decidir.
O que aconteceu com a promessa de Êxodo 8:28?
Ficou sem cumprimento, e o texto não a menciona. Não diz que o rei voltou atrás, não diz que mudou de ideia, não registra nenhuma explicação dada por ele.
O que existe é a coincidência de vocabulário: ele prometera com o verbo "deixar ir", e é esse verbo que aparece aqui negado. A ligação entre as duas frases está na palavra, e não numa afirmação do relato.
Por que Moisés e Arão não aparecem?
Não se sabe. Nas recusas anteriores o texto dizia que o rei "não os ouviu", com os dois como objeto; aqui o objeto é o povo.
Vale registrar que Arão já não aparecia desde Êxodo 8:25, e que Moisés sai de cena em Êxodo 8:30. O capítulo termina sem nenhum dos dois em cena — e sem reação de ninguém à recusa.
Faraó mentiu quando prometeu?
O texto não responde, e não responderá. Ele não descreve intenção em nenhum momento do capítulo.
Convém reter a distinção, porque ela costuma ser apagada: uma promessa não cumprida pode ter sido falsa desde o início ou ter sido abandonada depois, e as duas coisas produzem exatamente o mesmo registro. A única avaliação de conduta do capítulo é a de Moisés, em Êxodo 8:29, e ela se refere ao que já havia acontecido antes.
O que vem depois?
Este versículo não diz. Não há praga anunciada, não há prazo, não há ordem, não há palavra de Deus sobre o passo seguinte.
É diferente do fecho do capítulo anterior, que ao menos trazia uma nota de tempo, em Êxodo 7:25. Aqui o relato para na recusa, e o leitor que estiver acompanhando o livro pela primeira vez não tem nenhuma indicação do que virá.
9. Conexão com Outros Textos
As duas recusas anteriores do capítulo
Êxodo 8:15 — "Mas, vendo Faraó que houve alívio, tornou pesado o seu coração e não os ouviu, como o SENHOR havia dito."
Êxodo 8:19 — "Então os magos disseram a Faraó: 'Isto é o dedo de Deus.' Mas o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito."
Leia os três fechos em sequência e confira o que muda. As duas primeiras terminam em "não os ouviu, como o SENHOR havia dito"; a terceira não traz nem uma coisa nem outra. E só a terceira acrescenta a contagem.
Note-se ainda o que é próprio de cada uma: a primeira dá a causa — o alívio —, e o estudo daquele versículo é o dono disso; a segunda vem logo depois da frase dos magos; esta não vem depois de nada, senão de um socorro completo.
A fórmula que aqui falta, na primeira ocorrência do livro
Êxodo 7:13 — "E o coração de Faraó ficou firme, e ele não os ouviu, como o SENHOR havia dito."
É a fórmula inteira, e ela reaparece em Êxodo 7:22, 8:15 e 8:19. Quatro vezes até aqui; na quinta recusa, ausente.
A frase com que o capítulo abriu
Êxodo 8:1 — "Então o SENHOR disse a Moisés: 'Vá a Faraó e diga-lhe: Assim diz o SENHOR: Deixe o meu povo ir, para que me sirva.'"
Ponha esta ao lado do fecho e a moldura do capítulo fica visível: o mesmo verbo, o mesmo objeto, e a negação. Trinta e um versículos entre uma e outra.
A promessa que este versículo desmente
Êxodo 8:28 — "Faraó disse: 'Eu deixarei vocês irem, para que ofereçam sacrifícios ao SENHOR, o seu Deus, no deserto; somente não vão longe demais. Supliquem por mim.'"
Quatro versículos separam a promessa do desmentido, e os dois usam a mesma palavra. O que muda é o objeto: lá "vocês", aqui "o povo".
A advertência que não impediu nada
Êxodo 8:29 — "Moisés respondeu: 'Eis que eu saio da sua presença e suplicarei ao SENHOR, e amanhã os enxames se afastarão de Faraó, dos seus servos e do seu povo. Somente que Faraó não volte a agir com engano, não deixando o povo ir para oferecer sacrifícios ao SENHOR.'"
A advertência descrevia, palavra por palavra, o que este versículo registra. E o texto não faz a ligação: não diz que a advertência foi desatendida, não a menciona, não comenta.
O socorro que veio imediatamente antes
Êxodo 8:31 — "E o SENHOR fez conforme a palavra de Moisés: afastou os enxames de Faraó, dos seus servos e do seu povo; não ficou um sequer."
É a leitura que este versículo exige, e ela se faz de uma vez: o alívio foi completo, e o resultado foi o mesmo de antes. Entre as duas frases não há nenhuma palavra de ligação.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Mas Faraó tornou pesado o seu coração também desta vez, e não deixou o povo ir.
Texto hebraico
וַיַּכְבֵּד פַּרְעֹה אֶת־לִבּוֹ גַּם בַּפַּעַם הַזֹּאת וְלֹא שִׁלַּח אֶת־הָעָם׃
Transliteração
wa-yakhbed Par'oh et-libbo gam ba-pa'am ha-zot, we-lo shillach et-ha-am.
Análise palavra por palavra
וַיַּכְבֵּד — wa-yakhbed, "e tornou pesado".
Verbo da raiz kaved na forma causativa — Hifil, a que em hebraico faz alguém provocar a ação —, terceira pessoa masculina do singular, na construção que encadeia a narrativa. Ao pé da letra: "fez pesar".
A raiz é a do peso, da massa, do que tem gravidade. O sistema dos três verbos do coração de Faraó ao longo do livro, com o que cada raiz carrega e com a variação dos sujeitos, está desenvolvido no estudo de Êxodo 4:21 e não se refaz aqui.
O que cabe a este versículo são duas identificações. O verbo é o mesmo de Êxodo 8:15, na mesma forma e com o mesmo sujeito, e diferente do de Êxodo 8:19, que é outra raiz e vem sem agente. E é a mesma raiz do adjetivo aplicado aos enxames em Êxodo 8:24, ali como "pesados" — coincidência que o estudo daquele versículo mede, com a ressalva de que a palavra é das mais comuns da língua.
פַּרְעֹה אֶת־לִבּוֹ — Par'oh et-libbo, "Faraó, o seu coração".
O sujeito vem expresso e o objeto é marcado pela partícula própria do objeto direto: o rei faz alguma coisa ao próprio coração. A construção não deixa ambiguidade sobre quem age.
Lev, coração, é no hebraico a sede do pensamento, da decisão e da vontade, e não do sentimento — ponto tratado no estudo de Êxodo 4:21 item 2, que trata também do que o coração significava no Egito.
גַּם בַּפַּעַם הַזֹּאת — gam ba-pa'am ha-zot, "também desta vez".
Esta é a expressão que o versículo tem de seu, e ela merece as três partes separadas.
Gam é a partícula "também, igualmente". Ela não acrescenta conteúdo: acrescenta uma comparação com alguma coisa dita antes, e é ela que obriga o leitor a olhar para trás.
Pa'am é um substantivo de história interessante. O sentido primeiro é passo, pisada, pé — daí o uso que se vê em textos poéticos para os passos de alguém. Dele veio o sentido de vez, ocasião, que é o desta frase: cada vez é um passo, e as vezes se contam como se contam passos.
A palavra aparece com esse sentido de contagem em passagens conhecidas. Em Gênesis 27:36, Esaú diz que o irmão já o suplantou "duas vezes". Em Gênesis 31:7 e 31:41, Jacó reclama que o salário foi mudado "dez vezes" — e é justamente o versículo do verbo que Moisés usou em Êxodo 8:29, embora ali a palavra da contagem seja outra construção.
Ha-zot é o demonstrativo feminino "esta", concordando com pa'am, que é feminino. Com o artigo na preposição: "nesta vez".
O conjunto — "também nesta vez" — não descreve fato novo nenhum. Se fosse retirado, a frase continuaria dizendo exatamente o mesmo. O que ele acrescenta é a soma, e é a primeira vez no livro que a série das recusas é contada em vez de apenas registrada.
וְלֹא שִׁלַּח אֶת־הָעָם — we-lo shillach et-ha-am, "e não deixou o povo ir".
Verbo shalach na forma intensiva, perfeito, terceira pessoa masculina do singular, com a negação. Nessa forma o verbo significa soltar, despedir, deixar partir — e serve, no hebraico, para a libertação de quem estava preso a outro.
Três correspondências fecham o capítulo, e todas são de palavra:
Com a ordem de abertura. Em Êxodo 8:1 o imperativo é shallach et-ammi, "deixe ir o meu povo". Aqui: we-lo shillach et-ha-am. Mesmo verbo, mesma forma intensiva, mesmo objeto — com o possessivo trocado pelo artigo e com a negação.
Com a promessa do rei. Em Êxodo 8:28 ele dissera anokhi ashallach etkhem, "eu deixarei vocês irem", com o pronome enfático. O fecho desmente a promessa com o mesmo verbo.
Com a advertência de Moisés. Em Êxodo 8:29 a expressão era le-vilti shallach et-ha-am, "não deixando o povo ir" — a definição do que seria agir com engano. O versículo registra exatamente isso, palavra por palavra, sem dizer que é isso.
Et-ha-am, com artigo, é a palavra do pedido original, e substitui o "vocês" que o rei usara. Seja qual for o alcance daquele plural — questão discutida no estudo de Êxodo 8:28 —, o texto encerra com o termo maior.
E o que a frase não traz
Um último ponto, de comparação, porque ele é o achado de ausência do versículo.
As quatro recusas anteriores do livro terminam com a mesma construção: we-lo shama alehem ka'asher dibber YHWH, "e não os ouviu, como o SENHOR havia dito" — assim em Êxodo 7:13, 7:22, 8:15 e 8:19.
Aqui não há nem o verbo de ouvir nem a fórmula. No lugar delas entra o verbo da soltura, e com ele o capítulo volta ao vocabulário do primeiro versículo. É discutido se a troca é deliberada ou se é variação de estilo; o item 3 expõe as leituras, e não é possível decidir.
11. Conclusão
Quatro conclusões, e a última é sobre o capítulo inteiro.
O achado deste versículo é a contagem. "Também desta vez" não informa fato novo — informa que já houve outras. É a primeira vez, em toda a série do livro, que o Êxodo soma as recusas em vez de registrá-las uma a uma. E é preciso notar o que a contagem não faz: não explica, não julga, não anuncia consequência. Conta, e para.
A fórmula que fechava as recusas anteriores desapareceu. "E não os ouviu, como o SENHOR havia dito" está em Êxodo 7:13, 7:22, 8:15 e 8:19, e não está aqui. Some o verbo de ouvir, e some a moldura que ligava cada recusa ao que fora anunciado desde Êxodo 4:21. Se a supressão é deliberada, variação de estilo ou economia, não é possível decidir — mas o leitor que chega ao fim do capítulo fica, desta vez, sem o apoio que as outras quatro lhe davam.
O fecho volta à palavra da abertura. "Deixe o meu povo ir" abre o capítulo; "não deixou o povo ir" o encerra. Mesmo verbo, mesmo objeto, negado — e com o termo maior de volta no lugar do "vocês" que o rei usara. Entre as duas frases houve três pragas, quatro conversas, duas propostas, uma contraproposta, uma acusação e um socorro completo.
E o capítulo acaba sem nada pendente. Nenhuma praga anunciada, nenhum prazo, nenhuma ordem a Moisés, nenhuma palavra sobre o que virá — nem sequer a nota de tempo com que o capítulo anterior se fechou. O relato para na recusa.
Daí a advertência de leitura com que este estudo termina. Quem lê o fim do capítulo já sabendo o desfecho do livro lê outra coisa. O que está escrito aqui é uma negociação que não deu em nada e um povo exatamente onde estava no primeiro versículo — e é assim, sem promessa e sem consolo, que o texto escolheu terminar.













